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O VAZIO ALÉM DO COPO

O abuso crônico de álcool é uma das causas da Síndrome de Wernicke-Korsakoff, que provoca grave estado de desorientação e perda da memória de curto prazo.

O vazio além do copo

Passada meia-noite quando Eleonora, 67 anos, é levada ao pronto-socorro. Depois de vagar pelas ruas, policiais a interpelam. Eleonora sabe seu nome, mas é incapaz de dizer onde mora. Na verdade, trata-se de uma velha conhecida do hospital, que frequenta a seção de neurologia há mais de dez anos. Veio trazida pelo filho e pelo marido, devido a uma série de distúrbios neurológicos de causa desconhecida. Pouco antes, começara a cambalear a ponto de cair constantemente, mesmo em casa.

Apesar do bom nível sociocultural (era física e fora gerente de informática de uma loja de departamentos), já apresentava na época alguns traços característicos curiosos, tendia a se esquecer de algumas pessoas mesmo as vendo com regularidade, mas não admitia ter dificuldades de memória. Segundo ela (e os familiares), tudo andava na mais perfeita normalidade.

Na primeira internação, infelizmente, os médicos não entenderam a gravidade da situação. Mas dois anos depois, quando retornou ao hospital, a situação piorara. Caminhar com equilíbrio estava cada vez mais complicado, assim como memorizar acontecimentos. Tanto que, depois de alguns meses, foi aposentada de forma compulsória.

A razão dos distúrbios veio à tona da maneira mais brutal: uma noite Eleonora começou a gritar, porque via “enormes aranhas negras no teto”. Suava, estava agitada e fria, não foi preciso muito mais para entender que se tratava de um episódio de delirium tremens, a síndrome de abstinência alcoólica.

O marido, informado do acontecido, exclamou indignado: “Minha mulher jamais colocou uma só gota de álcool, e não ousem dizer o contrário. Em nossa casa, não há sequer urna garrafa de bebida alcoólica. Todas foram eliminadas”. Foi inútil explicar-lhe que precisamente com esta última afirmação ele se traíra. O médico explicou que os distúrbios de Eleonora poderiam derivar de uma intoxicação por álcool. “É uma situação muito conhecida: chama-se síndrome de Wernicke, e se deve a um defeito na absorção da vitamina B1, causado pelo próprio álcool. Podemos tentar ajudá-la e fazer regredir ao menos em parte, os sintomas.”

Uma terapia vitamínica melhorou os sintomas neurológicos, mas não aqueles relacionados    memória. Ela teve alta, mas não voltou para as consultas de controle. Cinco anos, acompanhada pelo filho e pela nora, que ingressara recentemente na família e estava decidida a enfrentar a situação. Eleonora retornou ao hospital. Mas já era tarde. Ao entrar no ambulatório, disse: “Querido, você não deveria ter-se perturbado, eu viria por mim mesma testar os novos produtos”.

O filho então contou que a mãe não reconhecia mais ninguém, nem ele próprio. “Meu pai não quer mais tê-la em casa, o médico da família disse que provavelmente ela tem Alzheimer’, contou. “Ela continua bebendo? “, perguntou o neurologista. Um silêncio embaraçoso acolheu a pergunta.

A nora confessa que Eleonora bebia sim, e muito. “Parece que sempre bebeu, desde os primeiros tempos depois do casamento.” O marido de Eleonora fez com que desistisse da carreira universitária, e procurasse trabalho num escritório. Ela obedeceu, mas depois do nascimento do filho começou a beber. Foi submetida a terapia antidepressiva e quase entrou em coma por misturar pílulas e bebida. Depois da primeira internação, há alguns anos, começou a beber garrafinhas de bebida de má qualidade e chegou a ser detida ao tentar roubar aguardente num supermercado. Foi então que começou a confundir as pessoas e os fatos.

Durante essa longa conversa, Eleonora olhava ao redor com ar de desorientação. ”Quantos anos a senhora tem?”, pergunta o médico. “Quarenta”, “Lembra de mim?”  “Claro, você é o meu contador. A propósito, precisa calcular o imposto da casa da praia”. “Mamãe, já a vendemos há mais de dez anos!” Jovenzinho, você não se intrometa, que já fez bastante estrago com aquele sistema informatizado. Veja, engenheiro”, continua dirigindo-se ao médico, como eu lhe dizia…”.

Parar seu falatório era impossível. O diagnóstico não deixava dúvidas: tratava-se de síndrome de Korsakoff, evolução do distúrbio de sete anos antes e que derivava da destruição de regiões cerebrais destinadas à memorização de novas recordações e à recuperação coerente das antigas. A causa é sempre a mesma, o álcool e a sua interferência no metabolismo da vitamina B1, mesmo se alguns casos podem apresentar-se também em jovens anoréxicas ou em mulheres grávidas com vômito incontrolável, todas situações em que algo interfere com a correta absorção das substâncias nutritivas.

Em Eleonora, os exames revelaram a destruição completa dos corpos mamilares, duas pequenas formações vizinhas ao hipocampo que têm o papel de regulador dos circuitos da memória nem mesmo enchendo-a de vitamina seria possível regenerar os neurônios mortos pelo álcool. O dano anatômico é típico da síndrome de Korsakoff.

Desta vez, chegava de ambulância. Durante o período de internação, um psiquiatra procurou estabelecer um diálogo, na esperança de tornar-lhe ao menos familiar o ambiente ao redor.

A cada dia, Eleonora acreditava estar em um lugar diferente, uma colônia de férias, um centro de bem-estar, um balneário (do qual lamentava a baixa qualidade da comida), um congresso. E todo dia o psiquiatra refazia a mesma pergunta, “Eleonora, você sabe o que está fazendo aqui?”.

Grande foi a surpresa do médico quando, depois de algumas semanas, ela se mostrou séria e lhe encarou com olhos tristes: “Eu tenho um problema de memória, é um cartão defeituoso, mas não se consegue trocá-lo. Todos os dados estão confusos e o banco de dados não está acessível. “E você, como se sente?”, insistiu o médico. “Sozinha, ela respondeu, desconsolada. Mas depois de poucos segundos a expressão do rosto mudou de novo, “Caro advogado, não precisava se incomodar, eu teria lhe mandado um envelope pela secretária”.

 

DANIELA OVADIA – é jornalista médico-científica e desenvolve atividades de pesquisa no laboratório de neuropsicologia do Hospital Niguarda de Milão.

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.