OUTROS OLHARES

O VAZIO ALÉM DO COPO

O abuso crônico de álcool é uma das causas da Síndrome de Wernicke-Korsakoff, que provoca grave estado de desorientação e perda da memória de curto prazo.

O vazio além do copo

Passada meia-noite quando Eleonora, 67 anos, é levada ao pronto-socorro. Depois de vagar pelas ruas, policiais a interpelam. Eleonora sabe seu nome, mas é incapaz de dizer onde mora. Na verdade, trata-se de uma velha conhecida do hospital, que frequenta a seção de neurologia há mais de dez anos. Veio trazida pelo filho e pelo marido, devido a uma série de distúrbios neurológicos de causa desconhecida. Pouco antes, começara a cambalear a ponto de cair constantemente, mesmo em casa.

Apesar do bom nível sociocultural (era física e fora gerente de informática de uma loja de departamentos), já apresentava na época alguns traços característicos curiosos, tendia a se esquecer de algumas pessoas mesmo as vendo com regularidade, mas não admitia ter dificuldades de memória. Segundo ela (e os familiares), tudo andava na mais perfeita normalidade.

Na primeira internação, infelizmente, os médicos não entenderam a gravidade da situação. Mas dois anos depois, quando retornou ao hospital, a situação piorara. Caminhar com equilíbrio estava cada vez mais complicado, assim como memorizar acontecimentos. Tanto que, depois de alguns meses, foi aposentada de forma compulsória.

A razão dos distúrbios veio à tona da maneira mais brutal: uma noite Eleonora começou a gritar, porque via “enormes aranhas negras no teto”. Suava, estava agitada e fria, não foi preciso muito mais para entender que se tratava de um episódio de delirium tremens, a síndrome de abstinência alcoólica.

O marido, informado do acontecido, exclamou indignado: “Minha mulher jamais colocou uma só gota de álcool, e não ousem dizer o contrário. Em nossa casa, não há sequer urna garrafa de bebida alcoólica. Todas foram eliminadas”. Foi inútil explicar-lhe que precisamente com esta última afirmação ele se traíra. O médico explicou que os distúrbios de Eleonora poderiam derivar de uma intoxicação por álcool. “É uma situação muito conhecida: chama-se síndrome de Wernicke, e se deve a um defeito na absorção da vitamina B1, causado pelo próprio álcool. Podemos tentar ajudá-la e fazer regredir ao menos em parte, os sintomas.”

Uma terapia vitamínica melhorou os sintomas neurológicos, mas não aqueles relacionados    memória. Ela teve alta, mas não voltou para as consultas de controle. Cinco anos, acompanhada pelo filho e pela nora, que ingressara recentemente na família e estava decidida a enfrentar a situação. Eleonora retornou ao hospital. Mas já era tarde. Ao entrar no ambulatório, disse: “Querido, você não deveria ter-se perturbado, eu viria por mim mesma testar os novos produtos”.

O filho então contou que a mãe não reconhecia mais ninguém, nem ele próprio. “Meu pai não quer mais tê-la em casa, o médico da família disse que provavelmente ela tem Alzheimer’, contou. “Ela continua bebendo? “, perguntou o neurologista. Um silêncio embaraçoso acolheu a pergunta.

A nora confessa que Eleonora bebia sim, e muito. “Parece que sempre bebeu, desde os primeiros tempos depois do casamento.” O marido de Eleonora fez com que desistisse da carreira universitária, e procurasse trabalho num escritório. Ela obedeceu, mas depois do nascimento do filho começou a beber. Foi submetida a terapia antidepressiva e quase entrou em coma por misturar pílulas e bebida. Depois da primeira internação, há alguns anos, começou a beber garrafinhas de bebida de má qualidade e chegou a ser detida ao tentar roubar aguardente num supermercado. Foi então que começou a confundir as pessoas e os fatos.

Durante essa longa conversa, Eleonora olhava ao redor com ar de desorientação. ”Quantos anos a senhora tem?”, pergunta o médico. “Quarenta”, “Lembra de mim?”  “Claro, você é o meu contador. A propósito, precisa calcular o imposto da casa da praia”. “Mamãe, já a vendemos há mais de dez anos!” Jovenzinho, você não se intrometa, que já fez bastante estrago com aquele sistema informatizado. Veja, engenheiro”, continua dirigindo-se ao médico, como eu lhe dizia…”.

Parar seu falatório era impossível. O diagnóstico não deixava dúvidas: tratava-se de síndrome de Korsakoff, evolução do distúrbio de sete anos antes e que derivava da destruição de regiões cerebrais destinadas à memorização de novas recordações e à recuperação coerente das antigas. A causa é sempre a mesma, o álcool e a sua interferência no metabolismo da vitamina B1, mesmo se alguns casos podem apresentar-se também em jovens anoréxicas ou em mulheres grávidas com vômito incontrolável, todas situações em que algo interfere com a correta absorção das substâncias nutritivas.

Em Eleonora, os exames revelaram a destruição completa dos corpos mamilares, duas pequenas formações vizinhas ao hipocampo que têm o papel de regulador dos circuitos da memória nem mesmo enchendo-a de vitamina seria possível regenerar os neurônios mortos pelo álcool. O dano anatômico é típico da síndrome de Korsakoff.

Desta vez, chegava de ambulância. Durante o período de internação, um psiquiatra procurou estabelecer um diálogo, na esperança de tornar-lhe ao menos familiar o ambiente ao redor.

A cada dia, Eleonora acreditava estar em um lugar diferente, uma colônia de férias, um centro de bem-estar, um balneário (do qual lamentava a baixa qualidade da comida), um congresso. E todo dia o psiquiatra refazia a mesma pergunta, “Eleonora, você sabe o que está fazendo aqui?”.

Grande foi a surpresa do médico quando, depois de algumas semanas, ela se mostrou séria e lhe encarou com olhos tristes: “Eu tenho um problema de memória, é um cartão defeituoso, mas não se consegue trocá-lo. Todos os dados estão confusos e o banco de dados não está acessível. “E você, como se sente?”, insistiu o médico. “Sozinha, ela respondeu, desconsolada. Mas depois de poucos segundos a expressão do rosto mudou de novo, “Caro advogado, não precisava se incomodar, eu teria lhe mandado um envelope pela secretária”.

 

DANIELA OVADIA – é jornalista médico-científica e desenvolve atividades de pesquisa no laboratório de neuropsicologia do Hospital Niguarda de Milão.

 

GESTÃO E CARREIRA

DESMISTIFICANDO A INOVAÇÃO

Desmistificando a inovação

Uma das ideias mais comuns sobre inovação é que inovar significa fazer tudo novo, tudo diferente, começando do zero.

A grande verdade é que as maiores inovações foram feitas a partir de ideias já existentes. Foram, na verdade, pequenas melhorias feitas em produtos e serviços que existiam há anos. Outra verdade é que muitas inovações ocorreram por puro acaso e, muitas vezes, por consequências de um erro. Outra verdade ainda é que pessoas inovadoras são aquelas que não têm medo de errar e acreditam nas suas ideias e intuições. Muitas pessoas me dizem ter tido ideias que apareceram como inovadoras somente anos depois.

Para ser uma pessoa inovadora siga estes sete conselhos:

1. Tenha uma atitude de observação constante. Observe tudo. Preste atenção nos detalhes do que estiver fazendo.

2. Tenha uma atitude curiosa e inquisitiva, ou seja, pergunte sempre se aquilo com o que está trabalhando poderia ser feito de outra forma.

3. Tenha coragem de testar suas ideias e não tenha medo de errar.

4. Troque ideias com colegas sem se deixar levar pelo negativismo deles.

5. Encha o seu cérebro de informação. Isso significa que você deve estudar, ler, participar de cursos, congressos, palestras e tudo que agregue conhecimento.

6. Aprenda a ter momentos de relaxamento para que seu cérebro possa fazer conexões e trazer para fora novas ideias e intuições.

7. Faça ao perceber. Não deixe uma ideia se perder. Muitas ideias boas se perdem por falta de ação imediata.

Estou escrevendo isso porque as pessoas que trabalham nas empresas ou organizações são as que têm as melhores ideias para solucionar os problemas existentes, mas essas ideias jamais são conhecidas da liderança. E, quando um consultor de fora apresenta essas mesmas ideias, as pessoas da empresa se sentem, com toda razão, desmotivadas e desprestigiadas.

Lembre-se: o medo de errar, de falar, de propor é um dos maios empecilhos para a inovação. Acredite em você e em suas ideias e pise fundo!

PENSE NISTO:

Quantas vezes já lhe aconteceu de ver uma ideia que você teve há anos ser apresentada por outras pessoas e ser elogiada pela diretoria de sua empresa?

_ Quantas ideias você já teve e não teve coragem de apresentar?

A maioria das grandes inovações foram apenas pequenas melhorias em produtos e sistemas que já existiam. Você tem ideias para melhorar algum sistema ou produto de sua empresa ou organização?

_ Muitas pessoas dizem que não são criativas e na verdade o que lhes falta é coragem para acreditar em suas ideias.

_ Você participa dos programas e treinamentos de sua empresa? Lembre-se de que quanto mais você participa, mais inovador e criativo se tornará.

Pense nisso. Sucesso!

 

LUIZ MARINS – É antropólogo, professor e consultor de empresas no Brasil e no exterior. Tem 13 livros e mais de 300 vídeos e DVDs publicados. www.marins.com.br

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 10: 1-18 – PARTE III

Alimento diário

O Bom Pastor

Em segundo lugar, para dar sua vida pelas ovelhas, e isto para que pudesse dar a viela a elas (v. 11): “O bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas”.

1. É uma característica e uma qualidade de todo bom pastor arriscar e expor sua vida pelas ovelhas. Jacó fez isto, uma vez que se fatigava tanto para cuidar delas, Gênesis 31.40. Também Davi, quando matou o leão e o urso. Tal pastor ele almas foi o apóstolo Paulo, que alegremente se cansava para servir a elas, e considerava que sua vida não era importante, em comparação com a salvação delas. Mas:

2. Era prerrogativa do grande Pastor dar sua viela para resgatar seu rebanho (Atos 20.28), para compensar suas transgressões, e para derramar seu sangue para lavá-los e purificá-los.

(2) Cristo é um bom pastor, e não é como um mercenário. Havia muitos que não eram ladrões, desejando matar e destruir as ovelhas, mas faziam-se passar por pastores, porém eram muito pouco cuidadosos no desempenho da sua função, e, devido à sua negligência, o rebanho foi enormemente prejudicado. Pastores insensatos, pastores inúteis, Zacarias 11.15,17. Em oposição a estes:

[1] Cristo aqui diz ser “o bom Pastor” (v. 11), e novamente (v. 14), aquele bom Pastor; que Deus tinha prometido. Observe que Jesus Cristo é o melhor dos pastores, o melhor no mundo para supervisionar e cuidar das almas. Ninguém é tão talentoso, tão fiel, tão terno, como Ele. Não há ninguém que alimente e lidere como Ele, nem que proteja e cure as almas como Ele.

[2] Ele prova ser o bom Pastor, em oposição a todos os mercenários, vv. 12-14. Aqui observamos:

Em primeiro lugar, a descrição da desatenção do pastor desleal (vv. 12,13). Aquele que é um mercenário, que é empregado como um servo e que é pago pelos seus esforços, a quem as ovelhas não pertencem, que não lucra nem perde com elas, vê o lobo aproximando-se, ou qualquer outro perigo ameaçador, e deixa as ovelhas à mercê do lobo, pois, na verdade, ele não se preocupa com elas. Aqui há uma referência clara ao pastor inútil, Zacarias 11.17. Os maus pastores, os maus magistrados e os maus ministros são aqui descritos, tanto pelos seus maus princípios quanto pelos seus maus costumes.

1. Seus maus princípios, a raiz elos seus maus costumes. O que faz com que aqueles que têm que cuidar das almas, em épocas de provação, traiam a confiança que lhes é depositada, e em épocas de tranquilidade, não se preocupem com elas? O que os torna falsos, zombeteiros e interesseiros? É o fato de que são mercenários, e não se preocupam com as ovelhas. Isto é:

(a) A riqueza do mundo é o principal dos seus bens, porque eles são mercenários. Eles assumem o trabalho de pastor, como um negócio com o qual viver e se enriquecer, e não como uma oportunidade de servir a Cristo e fazer o bem. É o amor ao dinheiro, e aos seus próprios estômagos, que os faz prosseguir nele. Isto não significa que sejam mercenários aqueles que, enquanto servem ao altar, vivem, e vivem confortavelmente, do altar. O trabalhador é digno do seu alimento, e uma manutenção escandalosa formará, em pouco tempo, um ministério escandaloso. Mas estes são mercenários que amam o salário mais do que o trabalho, e se preocupam mais com o salário, como está escrito que são os mercenários, Deuteronômio 24.15. Veja 1 Samuel 2.29; Isaías 56.11; Miquéias 3.5,11.

(b) O trabalho é a menor das suas preocupações. Eles não se importam com as ovelhas, não se preocupam com as almas dos outros. Sua preocupação é ser senhores de seus irmãos, e não seus guardiões ou protetores. Eles cuidam somente das suas próprias coisas, e não se preocupam naturalmente pela condição das almas, como fazia Timóteo. O que mais se pode esperar, além de que eles fujam quando o lobo vier. Eles não se preocupam com as ovelhas, pois elas não pertencem a eles. De certa forma, nós podemos dizer que o melhor a respeito dos sub – pastores é que as ovelhas não lhes pertencem, eles não têm domínio sobre elas, nem a propriedade delas (”Apascenta minhas ovelhas e meus cordeiros”, diz Cristo), mas em se tratando de afeição e carinho, elas deviam ser como suas. Paulo considerava como seus aqueles a quem ele chamava de amados, e de quem sentia saudades. Aqueles que não aderem cordialmente aos interesses da igreja, tornando-os seus, não serão fiéis a eles por muito tempo.

  1. Seus maus costumes, o resultado destes maus princípios, v. 12. Veja aqui:

(a) De que maneira vil o mercenário abandona seu posto. Quando ele vê vir o lobo, embora seja quando há mais necessidade da sua presença, ele deixa as ovelhas e foge. Observe que aqueles que se importam mais com sua própria segurança do que com seu dever são uma presa fácil para as tentações de Satanás.

(b) Como são fatais as consequências! O mercenário imagina que o rebanho saberá se cuidar, mas isto não é o que acontece: “O lobo as arrebata e dispersa”, e lamentavelmente o rebanho é destruído, do que toda a culpa será do pastor traidor. O sangue das almas que perecem é requerido das mãos dos vigias descuidados.

Em segundo lugar, veja aqui a graça e a ternura do bom Pastor, que se colocará contra os anteriores, como estava predito (Ezequiel 34.21,22ss.): “Eu sou o bom Pastor”. É um consolo para a igreja, e para todos os seus amigos, o fato de que, por mais que ela possa ser prejudicada e colocada em perigo pela traição e pela má administração dos seus sub – oficiais, o Senhor Jesus é, e será, como sempre foi, o bom Pastor. Aqui estão dois grandes exemplos da bondade do pastor.

2. O fato de que Ele está familiarizado com seu rebanho, com todas as ovelhas que pertencem ao seu rebanho, ou que, de alguma maneira, estão relacionadas com ele, e que são de dois tipos, ambos conhecidos dele:

(a) Ele conhece todas as ovelhas que agora pertencem ao seu rebanho (vv.14,15), sendo o bom Pastor (vv. 3,4): “Conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido”. Observe que existe um conhecimento mútuo entre Cristo e os verdadeiros crentes. Eles se conhecem muito bem, e o conhecimento indica afeição.

[a] Cristo conhece seu rebanho. Ele conhece, com olhos que distinguem, quais são suas ovelhas e quais não são. Ele conhece as ovelhas sob suas muitas fraquezas, e os bodes, sob seus disfarces mais plausíveis. Ele conhece, com olhos favoráveis, aqueles que, na verdade, são suas próprias ovelhas. Ele toma conhecimento da sua condição, se preocupa com elas, tem uma consideração terna e afetuosa por elas, e está continuamente atento a elas na intercessão que Ele mesmo vive para fazer do lado de dentro do véu. O Senhor as visita graciosamente pelo seu Espírito, e tem comunhão com elas. Ele as conhece, isto é, Ele as aprova e aceita, como em Salmos 1.6; 37.18; Êxodo 33.17.

[b] Ele é conhecido das suas ovelhas. Ele as observa com um olhar de graça, e elas o observam com um olhar de fé. O fato de que Cristo conhece suas ovelhas é anterior ao fato de que elas o conheçam, pois Ele nos conhece u e amou primeiro (1 João 4.19), e nossa felicidade não é tanto o fato de que o conhecemos, mas o fato de sermos conhecidos por Ele, Gálatas 4.9. Mas é a personalidade das ovelhas de Cristo que as faz conhecê-lo; conhecê-lo entre todos os fingidores e intrusos. Elas conhecem sua vontade, conhecem sua voz, conhecem, por experiência, o poder da sua morte. Cristo fala aqui como se Ele se gloriasse em ser conhecido pelas suas ovelhas, e julgasse o res peito delas uma honra para si. Nesta ocasião, Cristo menciona (v. 15) o conhecimento mútuo entre seu Pai e Ele mesmo: ”Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai”. Isto pode ser considerado, ou, em primeiro lugar, como a base daquele conhecimento e relacionamento íntimo que existe entre Cristo e os crentes. O concerto da graça, que é o elo desta relação, está fundamentado no concerto da redenção entre o Pai e o Filho, que, podemos ter certeza, permanece firme, pois o Pai e o Filho se compreendiam perfeitamente bem sobre este assunto, e não poderia haver nenhum engano, o que poderia atribuir alguma incerteza à questão, ou colocá-la sob algum risco. O Senhor Jesus conhece a todos os que Ele escolheu, e está seguro a respeito deles (cap. 13.18), e eles também conhecem aquele em quem confiaram, e estão seguros a respeito dele (2 Timóteo 1.12), e a base para ambos é o perfeito conhecimento que o Pai e o Filho tinham, cada um, da vontade do outro, quando houve o conselho da paz entre ambos. Ou, em segundo lugar, como uma semelhança apropria­ da, exemplificando a intimidade que existe entre Cristo e os crentes. Isto pode relacionar-se às palavras anteriores desta maneira: “Conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai”. Compare com João 17.21.

1. Assim como o Pai conhecia o Filho, e o amava, e o reconhecia nos seus sofrimentos, quando Ele foi leva­ do, como uma ovelha, para o matadouro, também Cristo conhece suas ovelhas, e mantém um olhar vigilante sobre elas, e estará com elas quando elas forem abandonadas, como seu Pai esteve com Ele.

2. Assim como o Filho conhecia o Pai, e o amava e o obedecia, e sempre fazia as coisas que lhe agradavam, confiando nele como seu Deus, mesmo quando Ele parecia tê-lo abandonado, também os crentes conhecem a Cristo com uma consideração obediente e confiante.

(b) Ele conhece aqueles que, no futuro, serão do seu rebanho (v. 16): ”Ainda tenho outras ovelhas”, tenho direito a elas e interesse nelas, “que não são deste aprisco”, da igreja judaica; “também me convém agregar estas”. Observe:

[1] A consideração que Cristo tinha pelos pobres gentios. Algumas vezes Ele tinha evidenciado seu interesse especial pelas ovelhas perdidas da casa de Israel. A elas, realmente, limitava-se seu ministério pessoal. “Mas”, diz Ele, “tenho outras ovelhas”. Aqueles entre os gentios que, no decorrer do tempo, desejassem crer em Cristo, e fossem levados a obedecer a Ele, são aqui chamados de ovelhas, e está escrito que Ele as tem, embora elas ainda não sejam chamadas, e muitas delas ainda não tenham nascido. Isto porque são escolhidas de Deus, e são entregues a Cristo nos conselhos do amor divino, desde a eternidade. Cristo tem o direito, em virtude da doação do Pai e do seu próprio resgate, das muitas almas das quais Ele ainda não tem a posse. Assim, Ele tinha muita gente em Corinto, quando esta cidade ainda vivia em iniquidade, Atos 18.10. “Estas outras ovelhas que Eu tenho”, diz Cristo, “Eu as tenho no meu coração, nos meus olhos, e estou tão certo de tê-las como se já as tivesse”. Agora Cristo fala daquelas outras ovelhas, em primeiro lugar, para remover o desprezo que lhe era atribuído, pelo fato de ter apenas poucas ovelhas. Alguns pensavam que, mesmo sendo um bom Pastor; Ele ainda assim fosse um pobre pastor: “Mas”, diz Ele, “Eu tenho mais ovelhas do que vocês podem ver”. Em segundo lugar, para remover o orgulho e a vanglória dos judeus, que pensavam que o Messias deveria reunir todo o seu rebanho do seu meio. “Não”, diz Cristo, “Eu tenho outras que irei colocar junto às ovelhas do meu rebanho, embora vocês desdenhem colocá-las junto aos cães do seu rebanho”.

[2] Os propósitos e as determinações da sua graça a respeito delas: “‘Também me convém agregar estas’, trazê-las para casa, para Deus, trazê-las para a igreja, e, para isto, despi-las dos seus costumes inúteis, trazê-las de volta das suas perambulações, como aquela ovelha perdida”, Lucas 15.5. Mas por que Ele deve trazê-las? Qual era a necessidade? Em primeiro lugar, a necessidade da sua condição o exigia: “Eu devo trazê-las, ou elas serão deixadas vagando interminavelmente, pois, como ovelhas, elas nunca voltarão por si mesmas, e nenhum outro poderá, ou quererá, trazê-las”. Em segundo lugar, a necessidade dos seus próprios compromissos o exigia. Ele deve trazê-las, ou não será fiel ao que lhe foi confiado, e fiel à sua missão. “Elas são minhas, compradas e pagas, e, portanto, eu não devo negligenciá-las nem deixar que pereçam”. Ele deve, honrosamente, trazer aquelas que lhe foram confiadas.

[c] O feliz resultado e a consequência disto, em dois aspectos. Em primeiro lugar: “Elas ouvirão a minha voz.

Minha voz não somente será ouvida entre elas (embora elas ainda não a tenham ouvido, e por isto não possam crer, agora que o som do Evangelho irá até os confins da terra), mas será ouvida por elas. Eu falarei e elas ouvirão”. A fé vem pelo ouvir, e nossa observação diligente da voz de Cristo é, ao mesmo tempo, um meio e uma evidência de que somos trazidos a Cristo, e a Deus, por seu intermédio. Em segundo lugar: “Haverá um rebanho e um Pastor”. Assim como há um pastor, haverá um rebanho. Tanto os judeus quanto os gentios, voltando-se à fé em Cristo, serão incorporados em uma única igreja, serão participantes comuns e iguais nos seus privilégios, sem distinção. Estando unidos a Cristo, eles estarão unidos nele. Duas varas se tornarão uma, na mão do Senhor. Observe que um pastor faz um rebanho, um Cristo faz uma igreja. Assim como a igreja é única na sua constituição, submissa a uma cabeça, animada por um Espírito, e guiada por uma regra, também seus membros deverão ser um só, em amor e afeto, Efésios 4.3-6.

A. A oferta que Cristo faz de si mesmo, pelas suas ovelhas, é outra prova de que Ele é um bom pastor, e nisto Ele recomenda ainda mais seu amor, vv. 15,17,18.

(a) Ele declara seu propósito de morrer pelo seu rebanho (v. 15): “Dou a minha vida pelas ovelhas”. Ele não somente arrisca sua vida por elas (neste caso, a esperança de salvá-la pode ser equivalente ao temor de perdê-la), mas, na verdade, a deposita, e a sujeita a uma necessidade de morrer pela nossa redenção – Eu a ofereço como uma garantia ou penhor, como um dinheiro depositado adiantado. As ovelhas destinadas ao matadouro, prontas para o sacrifício, foram resgatadas pelo sangue do Pastor. Ele ofereceu sua vida, não somente para o bem das ovelhas, mas no lugar delas. Milhares de ovelhas eram oferecidas em sacrifício pelos seus pastores, como ofertas pelo pecado, mas aqui, em uma inversão surpreendente, o pastor é sacrificado pelas ovelhas. Quando Davi, o pastor de Israel, foi culpado pessoalmente, e o anjo destruidor sacou sua espada contra o rebanho, por causa dele, com boas razões ele implorou: “Estas ovelhas que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim”, 2 Samuel 24.17. Mas o Filho de Davi era sem pecado e imaculado. E suas ovelhas, qual foi o mal que não fizeram? Ainda assim, Ele disse: “Seja, pois, a tua mão contra mim”. Aqui Cristo parece referir-se à profecia de Zacarias (Zacarias 13.7): “Ó espada, ergue-te contra o meu Pastor”. E, embora ferir o pastor significasse a dispersão imediata do rebanho, seu objetivo é reunir o rebanho.

(b) Ele remove o escândalo da cruz, que para muitos é uma pedra de tropeço, com quatro considerações:

[a] Que a oferta da sua vida pelas ovelhas era a condição cujo cumprimento lhe dava o direito às honras e aos poderes do seu estado exaltado (v. 17): ‘”Por isso, o Pai me ama, porque dou a minha vida’. Nestes termos, Eu, como Mediador, devo esperar a aceitação e a aprovação do meu Pai, e a glória designada a mim, de me tornar um sacrifício pelo remanescente escolhido”. Não somente que, como Filho de Deus, Ele fosse amado pelo seu Pai, desde a eternidade, mas como Deus-homem, como Emanuel, Ele era, por essa razão, amado pelo Pai, por­ que se comprometeu a morrer pelas ovelhas. Por isso, a alma de Deus se alegrava nele, como seu Eleito, porque nisto Ele era seu servo fiel (Isaias 42.1), e por isto Ele disse:

“Este é o meu Filho amado”. Que lindo exemplo do amor de Deus pelos homens é este, que Ele amou ainda mais ao seu Filho, por amar a nós! Veja que importância Cristo dá ao amor do seu Pai, pois, para merecê-lo, Ele daria sua vida pelas ovelhas. Ele julgava que o amor de Deus era recompensa suficiente por todos os seus ser viços e sofrimentos, e julgaremos nós que é pouco pelos nossos, e procuraremos os sorrisos do mundo para compensar? “Por isso, o Pai me ama”, isto é, a mim, e a todos os que, pela fé, se tornam um só comigo. A mim, e ao corpo místico, porque Eu dou minha vida.

[b] Que a oferta da sua vida tinha o objetivo de retomá-la: “Dou a minha vida para tornar a tomá-la”. Em

primeiro lugar, o resultado do amor do seu Pai, e o primeiro passo da sua exaltação, eram fruto daquele amor. Por ser o Santo de Deus, Ele não deveria ver a corrupção, Salmos 16.10. Deus o amava demais para deixá-lo na sepultura. Em segundo lugar, seu objetivo, ao ofertar sua vida, era poder ter uma oportunidade de declarar ser o Filho de Deus em poder pela sua ressurreição, Romanos 1.4. Por um estratagema divino (como aquele diante de Ai, Josué 8.15), Ele se entregou à morte, como se fosse ferido diante dela, para que pudesse vencer a morte de modo mais glorioso, e triunfar sobre a sepultura. Ele entregou um corpo desonrado, para poder assumir um corpo glorificado, apropriado para ascender ao mundo dos espíritos. Entregou uma vida adaptada a este mundo, mas assumiu uma adaptada ao outro, como um grão de trigo, cap. 12.24.

[c] Que Ele era completamente voluntário nos seus sofrimentos e na sua morte (v. 18): “Ninguém tira, ou pode tirar, minha vida contra minha vontade, mas Eu, voluntariamente, ‘de mim mesmo a dou’, Eu a entrego como me u próprio documento legal, pois ‘tenho’ (o que nenhum homem tem) ‘poder para a dar e poder para tornar a tomá-la'”.

Em primeiro lugar, veja aqui o poder de Cristo, como o Senhor da vida, particularmente da sua própria vida, que Ele tinha em si mesmo.

1. Ele tinha poder de proteger sua vida de todo o mundo, de modo que ela não fosse arrancada dele sem seu próprio consentimento. Embora a vida de Cristo parecesse ser tomada por um ataque repentino, na realidade ela foi entregue. Caso contrário, ela teria sido inabalável, e nunca seria tomada. O Senhor Jesus não caiu nas mãos dos seus perseguidores por que não pudesse evitar isto, mas, na verdade, Ele se entregou às mãos deles, por que era chegada sua hora. “Ninguém ma tira de mim”. Este era um desafio como nunca tinha sido feito, nem pelo herói mais ousado.

2. Ele tinha poder para ofertar sua vida.

(1) Ele tinha a capacidade de fazer isto. Ele podia, quando desejasse, desfazer o nó da união entre a alma e o corpo e, sem nenhum ato de violência cometido contra si mesmo, podia desligar um do outro. Tendo assumido um corpo voluntariamente, Ele podia, voluntariamente, abandoná-lo, o que ficou evidente quando Ele clamou com grande voz, e entregou seu espírito.

(2) Ele tinha autoridade para fazer isto. Embora possamos encontrar instrumentos de crueldade, que são capazes de acabar com nossa própria vida, ainda assim nós só podemos fazer aquilo, e somente aquilo, que pudermos fazer legitimamente. Nós não temos permissão de fazê-lo. Mas Cristo tinha uma autoridade soberana para dispor da sua própria vida como desejasse. Ele não era devedor (como somos nós) nem da vida nem da morte, mas completamente sui juris.

3. Ele tinha “poder para tornar a tomá-la”. Nós não temos. Nossa vida, uma vez ofertada, é como água derramada sobre o chão. Mas Cristo, quando oferta sua vida, ainda a tem ao seu alcance, e pode tornar a tomá-la. Separando-se dela por uma transferência voluntária, Ele podia limitar como desejasse a entrega, e Ele o fez com um poder de revogação, que era necessário para preservar as intenções da entrega.

Em segundo lugar, veja aqui a graça de Cristo. Uma vez que ninguém podia exigir sua vida pela lei, ou extorqui-la pela força, Ele mesmo a entregou, pela nossa redenção. Ele se ofereceu para ser o Salvador. “Eis que venho”. E então, como a necessidade da nossa situação o exigia, Ele se oferece u para ser um sacrifício: Eis-me aqui, deixem estes em paz. Portanto, é pela vontade dele que nós somos santificados, Hebreus 10.10. Ele era, ao mesmo tempo, o ofertante e a oferta, de modo que, ao oferecer sua vida, Ele estava oferecendo a si mesmo.

[d] Que Ele fez tudo isto pela expressa ordem e designação de seu Pai, no que Ele explicou, enfim, toda a questão: “Esse mandamento recebi de meu Pai”. Não tanto um mandamento como um feito, que Ele fez necessário, antes de sua própria incumbência voluntária. Mas esta era a lei da mediação, que Ele estava disposto a ter escrita em seu coração, assim como deleitar-se em fazer a vontade de Deus, de acordo com ela, Salmos 40.8.