PSICOLOGIA ANALÍTICA

ESTRANHOS CONVIDADOS CONHECIDOS

As cenas em preto e branco, em clima intimista, revelam a presença de aspectos psíquicos dos personagens e conflitos que entram como “penetras” na comemoração.

Estranhos convidados conhecidos

Apenas quatro ambientes: sala, cozinha, banheiro e uma pequena área externa. É por esses espaços que circulam os personagens do longa-metragem A festa, dirigido por Sally Potter. O clima teatral e intimista do filme em preto e branco, passado na Inglaterra, comporta desde as primeiras cenas uma leve tensão e sugere a quem assiste a impressão de que os personagens poderiam estar em cima de um palco, a poucos metros de seu rosto. A primeira cena já convida o espectador a se tornar expectador, quando Janet, a protagonista, transtornada, aponta uma arma diretamente para a câmera que representa um recém-chegado (neste momento ainda desconhecido). Mas, para entender o que ocorreu, é preciso acompanhar o que veio antes. Na cozinha, Janet, a dona da casa, prepara receitas para recepcionar seus convidados. A proposta é comemorar sua nomeação para o cargo de ministra da saúde. Na sala ao lado, porém, seu marido, Bill, um intelectual que abriu mão de várias conquistas na carreira acadêmica para apoiar a mulher (como será enfatizado ao longo da trama), permanece apático, sentado, com olhar perdido, levantando-se de sua cadeira apenas para trocar o disco que roda num antigo aparelho de som.

Como seria de se esperar, cada um dos convidados para a pequena reunião tem seus próprios segredos, que alimentam sub tramas do filme e que aos poucos vêm à tona por vezes com toques de sátira, humor e sadismo: uma doença termina!, impermanência, ciúmes, inveja, raiva, medo de assumir responsabilidades, histórias antigas de afetos silenciados, mágoas não resolvidas e memórias distorcidas. Como pano de fundo, o filme apresenta a alusão a ideais e atuação política, mas coloca ênfase nas relações e conflitos particulares (não por acaso é uma festa para poucos). Como acontece na vida real, é a esfera da intimidade que determina movimentos mais amplos, influenciando encontros e movimentações sociais.

Ao passo que a trama se desenrola, a forma contida que impera nas interações cede lugar à ação mais intensa e à catarse. Como assinala Sigmund Freud, em parceria com Josef Breuer, em Estudos sobre a histeria (1893-1895), no processo catártico o sujeito consegue, por meio da fala, exteriorizar afetos patogênicos, que transitam entre a emoção e a razão. Esta relação remete a uma série de outros dualismos, como passividade e atividade; natureza e cultura; corpo e consciência; subjetividade e objetividade; valores e fatos; impulsividade e controle.

Do lado da razão está o direito de expressão diretamente implicado no universo público, nas decisões mais importantes e relevantes em relação à produtividade e ao reconhecimento público. Do lado das emoções, parece prevalecer o espaço mais marginal, reservado ao afeto, ao desejo e também ao conflito. É nessa área que o filme vislumbra a impossibilidade de contenção, os segredos podem vir à tona a qualquer momento, levando a situações caóticas, descontroladas. Por trás das aproximações contidas, “arrumadas”, ”óbvias”, há a pulsão sexual não restrita a questões estritamente sexuais, mas ampliada para outros campos da vida, incluindo agressividade e instinto de preservação.

Em A festa, aspectos psíquicos nem sempre reconhecidos entram disfarçados ou claramente como “penetras” e tomam contam do evento: dançam entre os personagens e convidam quem assiste a participar. Mesmo quem está ausente se faz presente.

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OUTROS OLHARES

POP COMEÇA COM K

Os jovens brasileiros mergulham no K- pop, um movimento embalado por música, moda e séries de TV feito para espalhar a cultura da Coreia do Sul pelo mundo.

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De calças rasgadas e justas casacos coloridos e cabelos perfeitamente despenteados, sete jovens na casa dos 20 anos sobem ao palco. Dançam em movimentos sincronizados, numa coreografia enérgica e ultra ensaiada que bebe da fonte do hip-hop, enquanto cantam em inglês, canções melosas de refrão-chiclete: “Eu estou tão cansado desse / Amor falso, amor falso, amor falso/ eu sinto muito, mas é um / Amor falso, amor falso, amor falso”. A plateia enlouquece. Meninas adolescentes pulam e gritam os nomes dos integrantes (cada um deles encarna um personagem –   o “líder”, o “bonito” o “caçula”). O grupo se chama BTS e aquela apresentação em Las Vegas em maio teve um gostinho especial: os meninos da Coreia do Sul ganharam o prêmio máximo do público no célebre Billboard Music Awards, desbancando artistas como Justin Bieber e Ariana Grande.  Além de comprovar o sucesso da banda, criada em 2013, o troféu foi a consagração do K-pop – estilo de música e de comportamento minuciosamente desenvolvido pela indústria e pelo governo coreano com o intuito já largamente alcançado, de ganhar o mundo. O Brasil também se rendeu.

Na primeira vez em que o BTS se apresentou no país, em 2014, reuniu minguados 1.500 fãs. Na terceira, em 2017, 14.000 jovens cantaram e dançaram suas coreografias em São Paulo – enquanto 30.000 amargavam a fila de espera na venda de ingresso on-line. Só a recepção ao grupo no Aeroporto de Guarulhos juntou 8.000 fãs ensandecidos. Atualmente, no Rio de Janeiro dezenas de grupos cover de K-pop se reúnem toda semana na Zona Norte. Alguns chegam a cobrar 5.000 reais para apresentar-se em festa de debutantes. No ano passado, quando o Centro Cultural Coreano convidou fãs interessados em fazer teste com uma das principais agências de talentos de Seul 6.000 brasileiros compareceram.

O K- pop é apenas a ponta mais visível de um fenômeno batizado de Hallyu (pronuncia-se ráliu). Em uma tradução livre; significa “onda coreana” – produto de um esforço concentrado da iniciativa privada e do governo para fincar a marca da Coreia na moda, na gastronomia, em séries de televisão e até no vocabulário de outras nações. Em 2005 o governo daquele país canalizou 1 bilhão de dólares para patrocínios culturais.

”O sucesso do K- pop não é acidente. É fruto de publicidade e de uma gestão inovadora de talentos -,” afirma o compositor coreano Won Yrong-Oh. Um dos mais bem-sucedidos exemplos de investimento em soft power; a força que não vem das armas o Hallyu ajudou a Coreia a acumular não apenas divisas (só no ano passado o negócio das bandas movimentou 4,7 bilhões de dólares) como também prestigio. Ser coreano passou a ser cool. Nada mau para uma comunidade cujos integrantes, nos Estados Unidos, eram até pouco tempo atrás conhecidos pelo jocoso apelido de “kinchi” – o prato nacional de cheiro forte, à base de repolho fermentado.

Hoje, o canal do BTS no YouTube tem 10 milhões de inscritos e os vídeos acumulam 11,5 bilhão de visualizações. A também coreana banda feminina Black Pink vai ainda mais longe: tem 2,4 bilhões de views. Isso sem falar no recordista, o rapper Psy, o primeiro fenômeno global da onda: seu hit Gangnam Style, de 2012 atingiu 3,1 bilhões de visualizações. Por trás do sucesso das bandas de K-pop estão os gigantes SM, YG e JYP, três fábricas de grupos musicais. ‘A indústria de criação de ídolos parece uma linha de montagem”, compara a pesquisadora Daniele Mazur, da Universidade Federal Fluminense, especialista em cultura coreana. Essas empresas recebem 300.000 inscrições de adolescentes por ano em seus programas de treinamento. Os candidatos selecionados fazem um curso de até três anos e saem com banda formada contrato e patrocinador. Por causa do K-pop, a Coreia do Sul é um dos últimos lugares do mundo desenvolvido em que ainda se compram e vendem CDs. “Para os fãs, adquirir um álbum é uma experiência bem diferente da de consumir as músicas por streaming”, diz Pedro Pereira. Autor do livro O Melhor Guia de K pop Real Oficial – a primeira obra brasileira sobre o tema, ele explica que cada CD produzido por essas bandas sai em diferentes versões e traz na embalagem pôsters exclusivos e sortidos de seus integrantes; que depois, são trocados entre os fãs. Dessa forma, os grupos conseguem a proeza de vender mais de 1 milhão de cópias de suas obras, mesmo que todas as músicas estejam nas plataformas de streaming. ”Às vezes, o lançamento funciona mais ou menos como o dos filmes de super-heróis. Os clipes são apresentados aos poucos, cada um com um integrante. No fim, lançam o grupo completo. Fica todo mundo na maior expectativa”, diz Pereira.

O guarda-roupa do K-popper, como a turma é chamada, é composto de saia plissada, curta para as meninas e calça bem justa para os meninos, moletom esportivo e camiseta estampada. A pele do rosto das garotas é a mais clara e imaculada possível. A maquiagem dos olhos inclui delineador reto e lentes de contato para ampliar as pupilas – cópia dos desenhos orientais. Na boca; batom só no centro dos lábios. A publicitária Larissa Lair, 24 anos, fez um mês de intercâmbio em Seul. “Voltei cheia de cremes para a pele. São o melhor do ulzzang”‘, diz, usando a palavra coreana para “rosto bonito”. Muitos fãs passaram a aprender coreano. Nas salas de aula do Centro Cultural paulistano estudam 400 alunos e outros 600 aguardam vaga. A World Study, agência especializada em intercâmbios, viu a demanda por viagens para a Coreia triplicar em seis meses. Surfando na mesma onda, o catálogo da Netflix no Brasil conta com mais de oitenta doramas – como são chamadas as séries e novelas coreanas. “Os enredos são bem água com açúcar e acho que é isso que atrai o público”, explica Daniele. A estudante de arquitetura Thais Midori, 23 anos, morou um ano na Coreia, em 2016. Já voltou várias vezes e hoje é a maior youtuber brasileira de temática K-pop. Para quem ainda não aprendeu a reconhecer os entusiastas do movimento, fica a dica: viu algum cabelo pintado de azul ou rosa por aí?

Pop começa com K.3

 

Pop começa com K.4

GESTÃO E CARREIRA

NO MEIO DO CAMINHO…TINHA INSATISFAÇÃO.

É assim que se sente a média gerência, camada espremida entre a diretoria e as equipes operacionais.

No meio do caminho...tinha insatisfação

Eles são experientes e já subiram alguns degraus da escada corporativa. Chegaram ao meio da pirâmide organizacional, conquistando cargos de liderança e responsabilidade. No entanto, supervisores, coordenadores e gerentes das empresas brasileiras não estão tão satisfeitos quanto era de se esperar.

A verdade é a seguinte: a média gestão das companhias é o grupo mais estressado e infeliz.

Um estudo realizado pelo Grupo Cia de Talentos em 2017, realizado com 113.378 pessoas no Brasil e na América Latina mostrou que 22% da média gerência se considera insatisfeita ou muito insatisfeita com o trabalho atual, enquanto o percentual entre os jovens e a alta liderança ficou em 18% e 17%, respectivamente. No time dos gerentes desmotivados, quase metade (46%) afirmou que não tem desenvolvimento no cargo atual, e 15% disseram desejar fazer algo novo. No ano anterior, a pesquisa apontou que o modelo atual de trabalho não satisfaz 83% da camada intermediária. O levantamento de 2017 mostrou ainda que 31% da média gestão está incomodada com a falta de coerência entre o que se fala e o que se pratica nas empresas, enquanto 11% destacaram que o desconforto com a hierarquia impede a autonomia. “Eles percebem com mais clareza a diferença entre o que é dito e os fatos”, diz Danilca Galdini, diretora da NextView People, braço de pesquisa do Grupo Cia de Talentos.

ESPREMIDOS

A dor da média gerência está em sua posição, comprimida entre a alta liderança, que define metas ambiciosas, e as áreas operacionais, numa missão que muitas vezes parece impossível. O diretor define o que fazer, numa sala fechada com ar-condicionado, e é o gestor que vai ter de levar as piores notícias às equipes operacionais e, ao mesmo tempo, motivá-las. Mesmo antes da crise, estar no meio da pirâmide corporativa era uma posição desafiadora. Isso porque quem ocupa um posto intermediário precisa ter muita maturidade e jogo de cintura para receber pressão da chefia e saber quais informações passar adiante, numa linguagem que seja adequada e compreensível.

Esse profissional deve trabalhar como um filtro entre os outros níveis, o que pode ser um causador de estresse. “Isso gera pressão interna, angústia, pois existe cobrança para os resultados acontecerem, mas o gestor tem de fazer isso por meio de outras pessoas, afirma Alexandre Marins, diretor de desenvolvimento de talentos para a América Latina da consultoria LHH. Muitos têm dificuldade de se adaptar ao papel porque, antes de serem promovidos, atuavam em áreas operacionais. Fazer a transição entre ser o funcionário que coloca a mão na massa e ser um líder é um processo delicado, até mesmo por que esse gestor não está no topo da companhia. Não cabe a ele tomar as grandes decisões, e muitas vezes ele nem concorda com as diretrizes que vêm de cima.

Todas essas questões provocam uma sobrecarga. A psicóloga especialista em liderança nas organizações Maria Elisa Moreira conta que muitos gerentes sofrem de burn out e não foram diagnosticados, algo que ocorre em todos os ramos de negócios. Eles querem mostrar que são fortes, mas não conseguem administrar o próprio tempo nem para atender os superiores nem para atender as equipes, e ainda precisam realizar tarefas como colaboradores individuais”, diz Maria Elisa. E há um detalhe: como a maioria dos gerentes tem de 35 a 50 anos, é comum que estejam passando por um momento atribulado emocionalmente, repensando a própria vida, a carreira e seus valores. Segundo Maria Elisa, que também é professora no lnsper, é natural fazer tais questionamentos nessa fase – só que isso pode causar insatisfação.

LIMITES TRANSPARENTES

Lidar com essa realidade é desgastante, mas cabe aos profissionais traçar limites saudáveis no dia a dia de trabalho. Negociar prazos com os superiores, definir claramente quais são as prioridades e apontar as limitações existentes são algumas das sugestões para evitar a sobrecarga. Embora muitos tenham medo, manter esse diálogo aberto com a alta liderança é fundamental para construir um ambiente saudável e para manter a vida pessoal em ordem. Para evitar qualquer mal-estar nessas conversas, o segredo é ser transparente, positivo e mostrar os problemas sem ser agressivo. Se você tem dez coisas para resolver e o prazo é segunda-feira, precisa definir junto com o chefe quais são as prioridades.

Foi essa estratégia que ajudou a gerente de marketing da FTD Educação, Gisele Cruz, a atravessar os períodos de sobrecarga de trabalho nos últimos cinco anos. “Sempre saí fortalecida de situações desafiadoras mantendo um diálogo aberto com a liderança”, afirma Gisele, que aos 38 anos comanda uma equipe de 24 pessoas, sendo quatro coordenadores. De acordo com ela, ter um diálogo transparente significa compartilhar dificuldades com a diretoria antes que elas se transformem em problemas. Fazer cursos de liderança na própria empresa e no Insper a ajudou a construir essa confiança perante os chefes. Atualmente, ela se reúne às terças-feiras pela manhã com seu diretor para trocar informações e antecipar obstáculos. A comunicação também vale para seus coordenadores, com os quais Gisele se reúne semanalmente e sempre que necessário. “Quando você tem confiança, não há problema em se mostrar frágil diante do outro”, afirma.

Essa transparência na relação com a equipe é um aspecto fundamental para reduzira a pressão na média gestão, pois atenua a solidão desses profissionais e ajuda a motivar os times. Saber ouvir os colaboradores e criar um momento para conversas periódicas ajuda a deixar o ambiente de trabalho mais agradável.

NOVO OLHAR

Outro caminho para reduzir a pressão é encontrar novas maneiras de gerir o tempo e estabelecer as próprias prioridades. Na busca por autoconhecimento, a gerente de projetos Nina Silva, de 36 anos, promoveu grandes mudanças. Depois de sofrer uma crise de burn out em 2015, quando trabalhava como gerente numa empresa de construção civil e biotecnologia, Nina decidiu ficar cinco meses em Nova York fazendo cursos livres de literatura, área bem diferente de tecnologia, seu foco de atuação. De volta ao Brasil, passou por um processo de coaching de carreira que a ajudou a avaliar seus pontos fortes e suas prioridades. “Depois disso, procurei uma empresa que fosse mais condizente com meus valores”, afirma. Atualmente, ela é gerente na Thought Works, consultoria de desenvolvimento de softwares. “Um dos motivos da escolha foi a valorização da diversidade racial de classe e de gênero. Esse fator está fortemente alinhado no propósito de Nina, que, paralelamente à vida corporativa, toca um projeto social de educação financeira para a população negra – ela é uma das fundadoras do Movimento Black Money. “Estou mais saudável mental e fisicamente para encarar essa jornada”.

Saber o que te move e encontrar um equilíbrio entre esse ímpeto pessoal e a vida profissional – como fez Nina – é um dos grandes segredos para retomara motivação. Sem compreender isso, fica difícil fazer qualquer movimento que traga mais qualidade de vida e aumentar a eficiência no trabalho. ”É o profissional que deve descobrir o que é importante para ele. A partir daí, poderá conquistar espaço para cuidar do lado pessoal”, diz Bruno Andrade, líder de engajamento na Mercer Brasil. Esse exercício não é fácil, claro. Mas assumir as rédeas da situação e buscar saídas para a insatisfação (com transparência na comunicação e foco no que é importante) é a melhor alternativa para superar a infelicidade.

No meio do caminho...tinha insatisfação.2 

SINAIS DE ALERTA

Como saber se você está desmotivado

1 – IRRITABILIDADE

Mau humor sem motivo aparente e falta de paciência para lidar com pequenos detalhes do dia a dia, tanto no lado pessoal quanto no trabalho.

2 – CANSAÇO FISICO E MENTAL

Sono, indisposição e fadiga constantes, mesmo nos fins de semana.

3 – PROJETOS ATRASADOS

Dificuldade para realizar tarefas que antes fazia com tranquilidade e sensação de que precisa organizar melhor a rotina.

4 – FALTA DE PERSPECTIVA

Não conseguir olhar para o futuro, pois não tem clareza do que deseja alcançar nos próximos anos.

5 – PERDA DE OTIMISMO

Ver a realidade de maneira negativa e reclamar em excesso.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 10: 1-18 – PARTE I

Alimento diário

O Bom Pastor

Não se sabe ao certo se este discurso foi proferido na Festa da Dedicação, no inverno (mencionada no v. 22), que pode ser interpretada como a data, não somente do que vem a seguir, mas daquilo que veio antes (e isto apoia o fato de que Cristo, nas suas palavras ali, prossegue com a metáfora das ovelhas, vv. 26,27, onde parece que aquele discurso e este ocorreram na mesma ocasião). Ou este era uma continuação da sua discussão com os fariseus, no encerramento do capítulo anterior. Os fariseus, em sua oposição a Cristo, baseavam-se no princípio de que eles eram os pastores da igreja, e que Jesus, não tendo comissão outorgada por eles, era um intruso e impostor, e, portanto, as pessoas se viam forçadas, pelo devei; a ficar do lado deles, e contra Ele. Em oposição a isto, Cristo aqui descreve quem eram os falsos pastores, e quem é o verdadeiro, deixando que eles concluíssem o que quisessem.

I – Aqui está a parábola, ou similitude, proposta (vv. 1-5). Ela foi emprestada do costume daquela nação, no cuidado com suas ovelhas. As similitudes, usadas para exemplificar as verdades divinas, devem ser toma­ das daquelas coisas que são mais familiares e comuns, para que as coisas de Deus não sejam obscurecidas por aquilo que deveria esclarecê-las. O prefácio a este discurso é solene: “Na verdade, na verdade vos digo” – Amém, amém. Esta veemente declaração evidencia a certeza e a importância do que Ele dizia. Nós encontramos “amém” em dobro nos louvores e nas orações da igreja, Salmos 41.13; 72.19; 89.52. Se desejarmos ter nossos améns aceitos no céu, os améns de Cristo devem prevalecer na terra. Seus améns repetidos.

1. Nesta parábola, temos:

(1) A evidência de um ladrão e salteador, que vem para fazer danos ao rebanho e prejudicar o dono, v. 1. Ele não entra pela porta, por não ter causa legítima para entrar, mas sobe por outra parte, como uma janela ou alguma brecha no muro. Como as pessoas ímpias são engenhosas para fazer o mal! Que planos elas fazem, que esforços elas empreendem, que riscos elas correm, nas suas intenções ímpias! Isto deveria nos envergonhar pela nossa preguiça e covardia no serviço a Deus.

(2) O caráter que distingue o proprietário legítimo, que tem a propriedade das ovelhas, e que cuida delas: ele “entra pela porta”, como alguém que tem autoridade, (v. 2), e vem para lhes fazer algo de bom, para ligar a que está quebrada, e fortalecer a que está enferma, Ezequiel 34.16. As ovelhas precisam dos cuidados do homem, e, em troca, são úteis a ele (1 Coríntios 9.7). Elas vestem e alimentam aqueles que as abrigam e alimentam.

(3) A entrada preparada que o pastor encontra: ”A este o porteiro abre”, v. 3. Antigamente, os currais de ovelhas ficavam situados dentro das portas externas das suas casas, para maior segurança de seus rebanhos, de modo que ninguém poderia chegar até elas diretamente, mas aqueles a quem o porteiro abrisse, ou o dono da casa desse as chaves.

(4) O cuidado que ele toma com suas ovelhas, e a provisão que faz para elas. ”As ovelhas ouvem a sua voz”, quando ele fala de maneira que lhes é familiar, quando elas vêm ao curral, como os homens fazem agora com seus cães e cavalos. E, além disto, ele “chama pelo nome às suas ovelhas”, tão exata que é a atenção que ele tem com elas, o registro que ele mantém delas. E ele as traz para fora do curral, para os pastos verdejantes. E (vv. 4,5), quando tira para fora suas ovelhas, ele não as conduz, mas (como era o costume naquele tempo) vai adiante delas, para evitar qualquer dano ou perigo que possam encontrar, e as ovelhas, acostumadas com isto, o seguem, e estão em segurança.

(5) A estranha obediência das ovelhas ao pastor: elas “conhecem a sua voz”, de modo a discernir sua vontade, segundo sua voz, e a distingui-la da de um estranho (pois o boi conhece seu possuidor, Isaías 1.3). Elas não seguirão o estranho, mas, como se suspeitando de algum mau desígnio, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos, exceto que não é a voz do seu próprio pastor. Esta é a parábola. Nós temos a chave para entendê-la, Ezequiel 34.31: “Vós, pois, ó ovelhas minhas, ovelhas do meu pasto; homens sois, mas eu sou o vosso Deus”.

2. Observemos, a partir desta parábola, que:

(1) Os bons homens são adequadamente comparados a ovelhas. Os homens, sendo criaturas dependentes do seu Criador, são chamados de ovelhas do seu pasto. Os bons homens, sendo criaturas inexperientes, têm as boas qualidades das ovelhas, são inofensivos e inocentes como as ovelhas; são dóceis e tranquilos, sem fazer ruí­ dos; são pacientes como as ovelhas, sob a mão do tosquiador ou do açougueiro. Elas são úteis e proveitosas, domáveis e obedientes ao pastor, sociáveis entre si, além de serem muito usadas nos sacrifícios.

(2) A igreja de Deus no mundo é um curral de ovelhas, no qual são reunidos os filhos de Deus que estavam dispersos por todas as partes (cap. 11.52), e no qual elas são unidas e incorporadas. É uma boa malhada, Ezequiel 34.14. Veja Miquéias 2.12. Este curral é bem fortificado, pois o próprio Deus é como um muro de fogo ao seu redor, Zacarias 2.5.

(3) Este curral está muito exposto a ladrões e salteadores; sedutores ardilosos que pervertem e enganam, e cruéis perseguidores que destroem e devoram; lobos cruéis (Atos 20.29); ladrões que rouba­ riam o rebanho de Cristo, para sacrificá-lo aos demônios, ou roubariam o alimento das ovelhas, para que morressem pela falta de alimento; “lobos vestidos como ovelhas”, Mateus 7.15.

(4) O grande Pastor do rebanho cuida maravilhosamente do rebanho, e de tudo o que pertence às ovelhas. Deus é o grande Pastor, Salmos 23.1. Ele conhece os que são seus, e os chama pelo nome, marca-os para si, e os leva para pastagens bem regadas. O Senhor faz com que descansem e se alimentem ali, fala com eles de uma forma consoladora, protege-os pela sua providência, guia-os pelo seu Espírito e pela sua Palavra, e vai adiante deles, para colocá-los no caminho dos seus passos.

(5) Os pastores auxiliares, que são encarregados de alimentar o rebanho de Deus, devem ser cuidadosos e fiéis no desempenho desta tarefa. Os magistrados devem defendê-los, além de proteger e promover todos os seus interesses seculares. Os ministros devem servi-los nos seus interesses espirituais, devem alimentar suas almas com a Palavra de Deus fielmente aberta e aplicada, e com ordenanças do Evangelho devidamente administradas, supervisionando-os. Eles devem entrar pela porta de uma ordenação regular, e a estes o porteiro abrirá. O Espírito de Cristo irá colocar diante deles uma porta aberta, lhes dará autoridade na igreja e confiança no seu seio. Eles devem conhecer os membros dos seus rebanhos pelo nome, e cuidar deles. Devem levá-los aos pastos das ordenanças públicas, presidi-los, ser sua boca diante de Deus, e a boca de Deus para eles. E nos seus costumes, devem ser exemplos para os crentes.

(6) Aqueles que são verdadeiramente as ovelhas de Cristo serão muito obedientes ao seu Pastor, e muito prudentes e tímidos com estranhos.

[1] Eles seguem seu Pastor, pois conhecem sua voz, tendo um ouvido que discerne, e um coração obediente.

[2] Eles fogem de um estranho, e temem segui-lo, porque não conhecem sua voz. E perigoso seguir àqueles em quem não discernimos a voz de Cristo, e que nos afastariam da fé nele, levando-nos a fantasias a respeito dele. E aqueles que sentiram o poder e a eficácia das verdades divinas sobre suas almas, que têm o sabor e o prazer delas, têm uma sagacidade maravilhosa para descobrir os vilões de Satanás, e também para discernir entre o bem e o mal.

II – A ignorância dos judeus quanto ao objetivo e ao significado deste discurso (v. 6): “Jesus disse-lhes esta parábola”, estas palavras figuradas, mas sábias, elegantes e instrutivas, “mas eles não entenderam o que era que lhes dizia”, não perceberam a quem El e se referia quando falou dos ladrões e salteadores, e do Bom Pastor. O fato de muitos ouvirem as palavras de Cristo e não as compreenderem, porque não desejam compreender, e porque as interpretam mal, consiste no pecado e na vergonha deles. Eles não conhecem, nem provam, as coisas, e por isto não compreendem as parábolas e comparações com as quais elas são exemplificadas. Os fariseus tinham um grande orgulho do seu próprio conhecimento, e não podiam suportar que ele fosse questionado, mas não tinham percepção suficiente para compreender as coisas de que Jesus falava. Elas estavam acima da sua capacidade. Aqueles que pretendem ter mais conhecimento são, frequentemente, os mais ignorantes nas coisas de Deus.