PSICOLOGIA ANALÍTICA

BRINCADEIRA SEM GRAÇA

É compreensível que ser alvo de chacota provoque sentimentos de rejeição e mágoa. Existe, porém, pessoas que sofrem de uma patologia específica, relacionada a esse tipo de situação: a gelotofobia, o medo exacerbado de ser motivo de riso.

Brincadeira sem graça

O humor equilibrado tem sido apontado em inúmeras pesquisas como um fator fundamental para a saúde não apenas física, mas também mental, já que, além de ajudar a fortalecer o sistema imunológico, favorece as interações afetivas e sociais. Partindo da ideia de que para a maioria das pessoas as risadas são sinal de alegria, alguns especialistas defendem, aliás, que sorrir tem efeitos terapêuticos. De fato, a argumentação se embasa cientificamente – mas nem sempre é assim. Quem sofre de gelotofobia – o medo de ser motivo de piada (gelos, de origem grega, significa risada) – teme até os gracejos mais inocentes, sem intenção de expor ou ridicularizar o outro.

“Em geral, são pessoas bastante inseguras; para elas, qualquer sorriso é visto como negativo”, diz o psicólogo Willibald Ruch, professor da Universidade de Zurique, pioneiro nas pesquisas sobre essa rara condição, iniciadas há cerca de uma década. “Elas não acreditam que alguém esteja apenas se divertindo, sem o propósito de feri-las”, observa. Ruch relembra um caso que acompanhou em seu laboratório: “O rapaz preferia esperar o próximo ônibus até encontrar um assento livre na última fileira, pois não suportava a ideia de que alguém pudesse se sentar no banco de trás e rir dele”.

Para avaliar a extensão do problema, os cientistas solicitam a esses indivíduos que apresentam essa queixa que classifiquem o quanto se identificam com declarações como “Levo bastante tempo para me recuperar de uma rejeição” ou “Desconfio quando outros riem perto de mim”. Estudos feitos em vários lugares do mundo sugerem que aproximadamente 10% das pessoas apresentam sinais de gelotofobia, em algum grau. “Mas observamos polarizações, com números mais baixos nos países em que há maior igualdade social, como Holanda e Dinamarca, com menos de 2% de incidência, e pontuações bem altas em lugares onde a honra é considerada importante e a vergonha é usada para o controle social, como em alguns países asiáticos, onde os percentuais podem chegar a 13%”, diz Ruch.

Os pesquisadores começam a compreender como a gelotofobia se desenvolve. Além da cultura, as experiências vividas na infância têm papel fundamental. Em um estudo com 100 famílias, cientistas notaram que os pais com maior tendência a punir e controlar tinham maior probabilidade de ter filhos que temiam que alguém caçoasse deles. Vários estudos demonstram que muitos gelotofóbicos foram vítimas de bullying. Além disso, uma pesquisa de 2012 sugere sobreposição com ansiedade social, apontando que em torno de 40% das pessoas que sofrem de crises ansiosas atendem aos critérios para o transtorno.

Estudos com imagens cerebrais mostram que esses pacientes processam o humor de forma peculiar. Um estudo eletroencefalográfico de 2016 revela que, quando ouvem sons de gargalhadas ou gritos, essas pessoas mostram maior atividade nas vias que conectam o córtex pré-frontal e o posterior. A principal autora do estudo, a psicóloga Ilona Papoušek, da Universidade de Graz, na Áustria, acredita que a ligação mostra que essas pessoas são mais sensíveis aos aspectos maliciosos (supostos ou reais) do riso.

Outro experimento publicado em 2016 mostra que, em comparação com um grupo de controle, quem sofre com o problema tem menor ativação nos circuitos de recompensa do cérebro ao ouvir piadas. Mas ainda não está claro o que vem primeiro: a gelotofobia ou o processamento neural atípico do riso. A boa notícia é que o problema pode ser tratado com psicoterapia, segundo Ruch. O desafio talvez seja conseguir convencer o paciente a visitar um psicólogo que, para que seus pacientes se sintam à vontade, costuma recebê-los com um sorriso no rosto.

SORRIA PARA FACILITAR A VIDA

Um estudo divulgado pela Escola de Medicina da Universidade Loma Linda, na Califórnia, aponta que o riso aumenta a produção e a atividade no organismo das células NK (do inglês, natural killers), responsáveis por destruir vírus e até tumores presentes no organismo. Justamente por isso, o sorriso vem sendo utilizado como recurso de humanização no cuidado de pacientes em hospitais do mundo todo. Em grande parte dos hospitais, a equipe de enfermagem já é orientada a entrar nos quartos dos pacientes e se apresentar (ou cumprimentar as pessoas quando já as conhece) com um sorriso.

Em um experimento realizado por cientistas da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, foi solicitado a 239 voluntários para passearem por um trecho movimentado do campus. Pelo caminho, uma das pesquisadoras (desconhecida pelos participantes) sorria aleatoriamente para alguns deles, olhava para os olhos de outros ou simplesmente lançava olhares distantes, ignorando a presença dos participantes. Em seguida, os voluntários preenchiam um questionário. Ao examinar as respostas, os pesquisadores constataram que aqueles que tinham recebido o sorriso da desconhecida se sentiam mais conectados aos outros e menos apreensivos, ainda que não percebessem conscientemente a influência do sorriso recebido em seu trajeto.

 Brincadeira sem graça.2

ZANE B. ANDREWS – é neurocientista, doutor em endocrinologia, pesquisador-chefe da Universidade Monash De Melbourne, Austrália.

TAMAS L. HORVARTH – é doutor em medicina e neurobiologia, diretor do curso de medicina comparativa da Universidade Yale.

 

 

 

OUTROS OLHARES

NO QUINTAL DO PLANALTO

A 35 Quilômetros da Praça dos três Poderes, o miserável Sol Nascente caminha para se tornar a maior favela do Brasil.

No quintal do planalto

No início dos anos 2000, Maria Iraneide Jacaúna pegou R$ 3 mil e comprou um lote de 300 metros quadrados numa área recém-batizada de Sol Nascente. Era uma invasão que se formava no meio do mato nos confins de Ceilândia, a maior cidade-satélite de Brasília, com altos índices de violência. No local, só havia luz de vela, a água tinha de ser buscada na casa de parentes ou conhecidos, o transporte público não chegava. As empresas de ônibus se recusavam a abrir uma nova linha e alegavam que lá só havia meia dúzia de pessoas. O argumento indignava Jacaúna. “Onde já se viu dizer que tinha pouca gente para atender?”, lembra a cearense de Crateús, que esteve à frente da reivindicação por ônibus.

Naquela época, classificar a população do Sol Nascente como grande ou pequena dependia dos interesses de cada lado – moradores versus companhias de transporte. Hoje, menos de 20 anos depois, a comunidade se impõe como candidata a maior favela do Brasil. O posto de segunda colocada no ranking foi alcançado em 2010, quando o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que o Sol Nascente, com 56.483 moradores, só perdia em número de habitantes para a Rocinha, no Rio de Janeiro, que abrigava 69.161 pessoas.

Enquanto o morro carioca se mantém sem surtos de expansão territorial nos últimos anos, a favela horizontal em solo plano, a apenas 35 quilômetros do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional, não para de crescer. Apesar da fiscalização do governo do Distrito Federal, que já fez derrubadas de casas e barracos no local, o Sol Nascente vai se espalhando para além do tamanho oficial, delimitado ainda em 2009, de 934,4 hectares – tamanho de quase 1.000 campos de futebol. A estimativa é que hoje 100 mil pessoas habitem a área invadida. É gente que, apesar da proximidade com o poder, em geral só circula nos palácios, prédios tombados e quadras planejadas de Brasília prestando serviços de baixa qualificação, como domésticas, pedreiros, copeiras e ambulantes.

O Sol Nascente está organizado em três trechos. O de número 3 é o maior, mais populoso e com menos infraestrutura. Foi lá que Jacaúna, a mulher que liderava a briga pelo transporte público, comprou seu lote parcelado a um valor correspondente a cerca de 16 salários mínimos da época. Ela queria, como todos os demais aventureiros que rumavam com as famílias para um lugar sem qualquer estrutura, fugir do aluguel.

“Quando a gente tem uma oportunidade de ter nosso teto, de ter a casa própria, a gente agarra. Por mais difícil que seja no início”, diz a moradora de 60 anos, que aos 32 deixou Crateús e o primeiro marido, que a maltratava, em busca de oportunidades melhores na capital do país. A cearense conta que, por alguns anos, faziam “gambiarra” para ter água e luz. Até que, entre 2006 e 2007, depois de muita pressão, conseguiram o serviço oficial. “Todo mundo queria ter sua conta, legalmente. Nós compramos os hidrômetros, corremos atrás da estrutura.”

Jacaúna tem cabelos tingidos em tom avermelhado com a raiz branca aparente, pálpebras que pesam sobre os olhos e uma risada sonora. É vista como uma líder comunitária. Enxerga-se apenas como mais uma entre a “mulherada potente” que batalhou melhorias na região. Vivendo de fazer marmitas e vender alho amassado, hoje ela gasta boa parte da energia coordenando a construção, dentro de seu terreno, de quitinetes para as quatro filhas, os cinco netos e o primeiro bisneto – ainda na barriga de Poliana, de 16 anos.

De um azul-claro que faz doer a vista, o céu contrasta com a poeira que sobe das avenidas esburacadas do Sol Nascente. O trecho 3 praticamente não tem asfalto. No setor 2, são cerca de 50% de vias cobertas. E, no setor 1, 100%. Nas vias pavimentadas se concentra o comércio da região. O movimento de moradores é intenso. Botecos, muitos com mesas de sinuca, dividem espaço com salões de beleza, armarinhos, lanchonetes e mercadinhos. Há alguns restaurantes modestos e mercados maiores.

A concentração de igrejas é, porém, o que mais chama a atenção. Na única avenida pavimentada do trecho 3, de 900 metros, há 16 templos. Alguns estão divididos por um mesmo muro. As opções são muitas: Igreja Internacional Sementes da Fé, Igreja Plenitude da Graça, Igreja Batista Gênesis. Em geral, ocupam espaços minúsculos com fachadas malconservadas. A exceção é um galpão amplo, ainda em construção, atribuído à Universal do Reino de Deus.

Da porta do Salão Beleza Natural, uma das sócias do negócio, Girlene Ferreira Santana, pragueja contra as montanhas de lixo largado por moradores no canteiro central da avenida. No Sol Nascente, apenas 25% da população tem coleta na porta de casa. O restante joga os resíduos em estruturas semienterradas colocadas pelo governo para o recolhimento pela companhia de limpeza ou, simplesmente, larga-os em qualquer local, fazendo de várias esquinas e áreas vazias pequenos lixões dentro da favela.

“Já colocaram contêiner aqui, mas roubaram”, reclama Santana, que aproveita para criticar o comportamento de parte da população: “Aqui tem gente boa, mas tem gente que não presta”. Moradora do Sol Nascente desde 2004, a maranhense de 37 anos, que largou o serviço como diarista para ser manicure e depois ter o próprio negócio, está o tempo todo dando tchauzinho a quem passa na avenida – de ônibus, de carro, a pé.

Popular pelo jeito debochado e direto, Santana vende de máscara facial de uma conhecida – e cara – marca americana a “dindin gourmet” no salão. “É a melhor chupada do Sol Nascente”, diz, ao anunciar com uma gargalhada a “iguaria” congelada em saquinhos plásticos, ao valor de R$ 3, enumerando os sabores disponíveis, como Ninho com Nutella, Kit Kat e baunilha com limão. Santana tem uma sócia no salão, a também maranhense Geigna Sousa da Cruz. Tímida e de fala mansa, é o oposto da companheira de trabalho.

As conterrâneas se conheceram no Sol Nascente, onde o Maranhão é a procedência de 19,1% da população, segundo pesquisa de 2015 da Companhia de Planejamento do Distrito Federal que abrangeu também uma área irregular próxima, bem menor, conhecida como Pôr do Sol. Em segundo lugar, vem o Piauí, origem de 18,1% dos moradores. Ao todo, 48% dos habitantes da região são de fora do Distrito Federal. Os principais motivos para a mudança foram acompanhar parentes (47,1%) e procurar trabalho (17,3%). Costumes e crenças nordestinos estão nas prateleiras do comércio formal e informal do Sol Nascente. Na Casa do Nordeste Araras, onde copinhos de plástico próprios para café são vendidos com cachaça caseira por um punhado de moedas, há “remédios” para praticamente todos os males do corpo. O nome em uma embalagem com tampa vermelha e líquido escuro não deixa dúvida: “Cura tudo”. O composto de plantas medicinais promete debelar hemorroidas, úlceras, pedras nos rins, pressão alta, ácido úrico elevado, varizes, entre outros problemas.

Outra substância de sucesso, segundo o dono da birosca que se apresenta apenas como Gordo, é o “Taradão”, cujo rótulo traz uma foto de um corpo musculoso só de cueca branca. Por R$ 18, o freguês leva uma mistura de catuaba, pau de tarado, biriba de macaco, rabo de cavalo, entre outros itens da composição, com a promessa de combater a “fraqueza sexual”, mas também “mãos trêmulas” e “stress e dor no corpo”.

Atarracado, com uma circunferência abdominal que valida o apelido, Gordo entremeia histórias dos garimpos por onde passou no Brasil, no Suriname, na Venezuela e no Paraguai com propaganda dos produtos que comercializa. Talvez mirando uma possível cliente, faz certo suspense para falar de um “verdadeiro campeão de vendas”: o “Sangra d’água”, excelente para o útero, apetite sexual e fertilidade, garante Gordo. “Não tem mulher que não engravide. Muitas passam aqui só para me agradecer e dizer que, de certa forma, também sou pai da criança”, diz, num tom sério.

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Por volta das 11:40, pequenas filas começam a se formar perto dali, no Mundial Utilidades em Geral, armarinho pilotado pelo piauiense João Sampaio Abreu. O motivo do movimento é a comida de R$ 5 a R$ 10 em pratos bem servidos. “É coisa popular, para matar a fome”, conta Abreu. Ele vende por dia cerca de 350 refeições, entre marmitas para levar e o que é consumido nas quatro mesas de ferro, dispostas no meio do armarinho, cobertas de forro plástico com desenho de morangos e uvas.

Agregar um restaurante ao armarinho foi uma medida de sobrevivência. “Com a concorrência, outros comércios se instalando e a crise, as vendas caíram demais”, diz Abreu, que tem o negócio há sete anos. Com o tempo, outro problema apareceu: a falta de segurança. O comerciante contabiliza sete assaltos e arrombamentos em um ano e meio.

Ações de criminosos que frequentemente entravam nos comércios, pegavam o que queriam, consumiam o que bem entendiam e saíam sem pagar não ocorrem há algum tempo na favela. A violência, porém, continua uma marca da região. Ceilândia, onde o Sol Nascente está inserido, ocupa a 10ª posição entre 31 cidades do Distrito Federal na taxa dos crimes violentos letais intencionais (homicídio, latrocínio e lesão seguida de morte), com 16,4 ocorrências por 100 mil habitantes, segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF. De janeiro a abril, houve registro de nove assassinatos somente na área do Sol Nascente, em comparação a seis no mesmo período do ano passado. No mesmo período, os estupros passaram de oito para nove, e os roubos caíram de 265 para 165, um número ainda bastante elevado.

Nos muros da favela, embriões de facções parecem disputar espaço e status. Não é raro, ao circular pelas ruas mais afastadas, ver pichações sobrepostas do CSN (Comando do Sol Nascente), Os Cão do Inferno (OCI) e Os Moleque Doido (OMD). Por mais infantis que pareçam as denominações, as pequenas gangues já mostraram potencial de aterrorizar moradores e comerciantes, com assaltos e homicídios tendo como pano de fundo o comércio de drogas e, de alguns anos para cá, a grilagem.

“São criminosos que perceberam que a grilagem de terras, além de mais rentável, prevê uma pena bem menor que o tráfico”, afirma o delegado Fernando Fernandes, da 19ª Delegacia de Polícia, responsável por uma parte da Ceilândia que engloba o Sol Nascente. Ao andar pelas ruas da comunidade, de cabelos espetados modelados com gel, o policial é parado por crianças e senhorinhas para um abraço ou aperto de mão.

Segundo Fernandes, a proximidade da equipe de investigações com os moradores levou a um aumento de denúncias que ajudaram a polícia a fazer uma série de prisões nos últimos dois anos. Ele garante que as detenções esfacelaram as facções em formação. Ao contrário de favelas cariocas, o Sol Nascente não tem bandidos exibindo armas, controle de entrada de pessoas ou extorsão de moradores com serviços tipo gatonet. Mas, à noite, a polícia não entra em determinados pontos sem um reforço.

O crime que está na origem do Sol Nascente, uma área de chácaras até o fim da década de 1990 que começou a ser parcelada e vendida, junto com terra pública, continua a ser praticado. A grilagem conta com a participação de policiais militares, segundo órgãos de inteligência da Segurança Pública.

Na última fronteira do Sol Nascente “oficial”, muito além de onde terminam os postes de iluminação colocados pelo governo, existe uma continuação da favela, com lotes sem qualquer documentação vendidos por R$ 15 mil. Com o barraco no fim da última estrada, beirando um vale, Hortência dos Santos Oliveira chegou há três meses ao local. “Sou a última moradora do Sol Nascente”, diz.

Repetindo trajetória de praticamente toda a migração que povoou Brasília, Oliveira veio do Nordeste. Deixou Mansidão, município baiano que registrou o menor PIB per capita do país em 2014, em busca de uma vida melhor no Distrito Federal. “Serviço é muito difícil lá na minha cidade”, diz a mulher de 22 anos, mãe de Hozeias, de 2 anos, e Aghata Sophia, de 3 meses. O marido é carroceiro e recolhe entulho, enquanto ela cuida das crianças no barraco de tábuas de madeira e lona com cerca de 25 metros quadrados e sem divisórias. Do lado de fora, cria galinhas, um cavalo e um cachorro.

Para comer, a família conta com cerca de R$ 200 que recebe do Bolsa Família, além do dinheiro incerto do marido. O programa federal atende 9.590 pessoas no Sol Nascente – pouco menos de 10% da população estimada. As famílias mais vulneráveis têm uma complementação por meio do DF Sem Miséria, iniciativa do governo local, até atingirem uma renda de R$ 140 per capita. Nas áreas mais pobres, como o local onde Oliveira vive, a água e a luz são puxadas por “gatos” da rede que atende legalmente a parte do Sol Nascente mais antiga. Cerca de 8.200 domicílios – 30% – usam gambiarras para ter energia, estima o governo.

Segundo os dados oficiais, a água é fornecida a 80% dos moradores da comunidade. Obras de infraestrutura estão sendo feitas em determinados pontos da região. Mas só 25% têm coleta de esgoto. Os dejetos percorrem dois caminhos: fossas ou a vala aberta. Sete linhas de ônibus passam pela favela, mas somente uma vai até o Plano Piloto, a área central de Brasília.

A partir das 5 horas, a movimentação começa nas poucas avenidas por onde os ônibus transitam. A dificuldade dos veículos de entrar nas ruas e vielas condena os moradores dos locais mais afastados a andar até 6 quilômetros para chegarem a uma parada.

Agonia para uns, oportunidade para outros. Por causa da distância para chegar ao ponto do ônibus, o serviço de moto táxi se expande no Sol Nascente – inclusive com venda de “linhas” informais. Lindomar Macedo trocou o trator em Araguatins, no Tocantins, pelas duas rodas. Sem emprego como operador de máquinas, aceitou o convite de irmãos que moram no Sol Nascente.

Há seis meses, roda dentro e nas redondezas da comunidade de moto. Fatura pouco mais de um salário mínimo, dos quais R$ 200 são usados para pagar a linha, que lhe foi vendida em parcelas por R$ 1.000. Quem não consegue comprar a “permissão” tem de honrar uma comissão semanal em torno de R$ 50 para o dono do esquema.

“Foi ele que começou a rodar aqui no início, agora só vende mesmo as linhas”, desconversa Macedo, de 32 anos, quando questionado sobre quem cobra dos moto-taxistas. Um outro motorista consultado também deu respostas evasivas. Entre os comerciantes da região, há informações de que um grupo estaria extorquindo os numerosos jovens desempregados da comunidade interessados em prestar o serviço.

A ausência do Estado, que permite a criação de poderes paralelos que ditam as regras locais, é especialmente cruel com as crianças e os adolescentes do Sol Nascente. Falta escola de ensino médio – 24 ônibus do governo levam 1.000 estudantes para os colégios mais distantes. Espaços de lazer se resumem a uma ou outra quadra de esportes em condições precárias. Um parquinho pequeno se destaca no trecho 1, o mais desenvolvido, mas não supre a carência de locais de convivência. Também não há creches no Sol Nascente.

Hoje, 1.235 crianças da comunidade, de zero a 3 anos, aguardam vaga em unidades públicas. A falta de ter com quem deixar a falante Marcela, hoje com 6 anos, para voltar a trabalhar levou Evanilda de Oliveira a cuidar de outras crianças, cujas mães viviam o mesmo drama. Criou-se a creche informal da “tia Doug”, como ela é conhecida.

Na ausência do serviço oficial, o arranjo informal na casa de mulheres da vizinhança se tornou frequente no Sol Nascente. Tia Doug, baiana de 32 anos, cobra R$ 200 por criança em tempo parcial e R$ 300 em tempo integral – manhã e tarde. Hoje, cuida de oito meninos e meninas, mas já chegou a ter 22 sob sua responsabilidade. “De um tempo para cá, muitos pais e mães ficaram desempregados, aí tiram as crianças”, conta a cuidadora.

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), andou nas ruas do Sol Nascente pela primeira vez em 2013 – um ano antes de se eleger. Acompanhou os correligionários Marina Silva e Eduardo Campos, que morreu num acidente de avião, no primeiro ato da campanha presidencial da dupla em 2014, realizado na favela de Brasília.

A qualificação parece desagradar ao governador. “Até o final de nosso governo, ninguém vai dizer que o Sol Nascente é uma favela”, disse Rollemberg, enumerando as benfeitorias feitas e em andamento, como pavimentação, drenagem de águas, rede de esgoto, iluminação pública e a inauguração recente da primeira Unidade Básica de Saúde. As obras de infraestrutura, segundo o governo, deverão consumir R$ 220 milhões.

O IBGE classifica como favela um conjunto de no mínimo 51 unidades habitacionais ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia, pública ou particular, dispostas, em geral, de forma desordenada e densa e apresentando carência de serviços básicos. Parcelas do Sol Nascente poderão, de fato, fugir dos critérios no próximo Censo, em 2020, se a infraestrutura estiver adequada.

Um passo importante para dar status efetivo de moradia legal ao local, além dos serviços básicos, é a regularização fundiária. É uma promessa que nem Rollemberg, pré­ candidato à reeleição em outubro, ousa fazer. Hoje, apenas 362 imóveis no Sol Nascente têm escritura – pouco mais de 1% do total de moradias estimadas, segundo base cadastral ainda de 2016.

“Efetivamente o Sol Nascente continua a crescer, mesmo com o combate sistemático e rigoroso da grilagem, o que vai nos obrigar a rever o projeto de regularização, elaborado em 2009”, explica Rollemberg, ao frisar que já entregou 52.800 escrituras em todo o DF – poucas delas no Sol Nascente. Numa reflexão sobre o persistente problema de invasão de terras públicas na capital, o governador afirma: “É uma cultura da cidade, praticada pelos mais pobres e pelos mais ricos”.

O próprio nome de Ceilândia é derivado da sigla CEI, de Campanha de Erradicação de Invasões, deflagrada ainda no fim da década de 1960 para transferir favelas que se formavam ao redor de Brasília. Ceilândia e outras cidades foram criadas no Distrito Federal para receber os moradores dessas áreas invadidas. No bairro mais caro da capital, o Lago Sul, proprietários de mansões também se apropriaram por décadas de terra pública para estender seus quintais à beira do Lago Paranoá. Apenas recentemente, a orla foi desobstruída pelo governo Rollemberg. Condomínios fechados, ocupados pela classe média em área irregular, são outra faceta da grilagem que permeia a história de Brasília.

O mesmo Sol Nascente que choca pela miséria extrema vista em suas áreas mais remotas também pode surpreender. É inacreditável ver o que há por trás de um portão ao fim de uma das tantas ruas de terra. Um zoológico com bichos exóticos se descortina: dois emus, quatro lhamas, cinco mini bodes, três pôneis, dois gansos, dois pavões, três araras e um tucano fazem parte da fauna mantida pela Comunidade Ortodoxa Nossa Senhora Aparecida, mais conhecida como “Chácara da Gruta”.

Crianças com necessidades especiais, em virtude de deficiência motora ou mental, fazem equoterapia aos sábados com os animais. Também há turmas de futebol. Cerca de 100 pessoas são atendidas no total. Tudo acontece com a ajuda de voluntários. Irmãs com longas túnicas escuras circulam pelo lugar amplo, que abriga as casas dos religiosos, ligados à Igreja Católica Ortodoxa.

Em outro ponto da propriedade, um altar de pedra com a imagem de Nossa Senhora acima de uma nascente de água límpida – uma das poucas não soterradas pelas construções do Sol Nascente – atrai católicos até de fora da comunidade. Eles rezam, fazem e pagam promessas no lugar, que fica em frente a uma mata fechada, que dá um ar bucólico ao local. “É um paraíso no meio da favela”, diz a irmã Maria de La Salete.

Outra razão de orgulho no lugar são as gêmeas Caroline e Karine Sousa dos Santos, de 19 anos, cabelos pretos e retos quase na cintura e óculos de armações parecidas. Numa comunidade em que só 2,95% têm ensino superior, elas passaram com boa colocação na Universidade de Brasília (UnB) após terminarem o ensino médio. “Parece que a gente ganhou na Mega-Sena”, diz Caroline, que faz economia. Karine cursa serviço social.

Brincadeiras à parte, as garotas sabem que são exceção em seu meio e veem o lado bom de transitar em “dois mundos” – o da universidade, alcançado após duas horas e meia no transporte público diariamente, e o da favela. “Muitos professores falam da desigualdade e citam o Sol Nascente nas aulas. Claro que estudar no papel é importante”, disse Caroline. “Outra coisa é saber como é, viver aquilo. É preciso mudar essa percepção das pessoas daqui, de que elas não podem ir além.”

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GESTÃO E CARREIRA

ONDE FOI QUE EU ERREI?

Identifique e corrija tudo que impede o crescimento da sua empresa e o desenvolvimento das suas boas ideias de negócios.

Onde foi que eu errei

Um milhão de reais. Esse foi o faturamento que a publicitária Luane Moliterno, hoje com 30 anos. conseguiu em 19 meses. Acredite, ela foi uma das pessoas impactadas pela crise que começou a se intensificar em 2013, mas soube se reinventar e, em 2016, criou a Block Insetos. A ideia era simples: observando o aumento de doenças causadas pelo Aedes egypti e a maneira como isso fazia com que mulheres adiassem o sonho de ser mãe por medo do zika vírus, ela foi atrás de soluções para proteger a casa do mosquito. Uma mosquiteira magnética foi a solução encontrada.

Mas, antes da calmaria, houve muita tempestade – uma outra empresa que não deu certo. “No início de 2013, meu irmão e eu prestávamos consultoria a um empresário que era proprietário de uma consolidada distribuidora de embalagens de vidro e de uma importadora e distribuidora de espelhos. No final da consultoria, ele entendeu que precisava dar foco total ao seu primeiro negócio e ofereceu a distribuidora de espelhos para nós. Eu, publicitária, trabalhava na Sony Eletrônicos, e meu irmão, engenheiro, trabalhava na Chevrolet. Controlamos: uma gerente para tocar a execução do negócio e trabalhávamos em jornada dupla no emprego e no negócio, recorda.

Mas, diferentemente do sucesso atual da Block Insetos, esse empreendimento anterior não deu certo. Em maio de 2017, a empresa já estava fechada. Isso aconteceu porque o governo brasileiro aprovou uma medida que exercia altas taxas de juros sobre espelhos produzidos na China, México e Emirados àrabes, influenciando no custo da matéria-prima.

Aplicando, no entanto, a máxima “há males que vêm pra bem”, Luane detectou rapidamente os erros e acertos que fizeram esse negócio encerras suas atividades, enquanto a nova empresa trouxe lucros exorbitantes em um tempo curto. “Errei por não aceitar o fator externo apresentado e, por isso, demorei demais para agir e mudar por completo o meu negócio. Também dei aos bancos uma cadeira cativa como ‘meus sócios’. Já os acertos ficaram na tratativa com as pessoas, desde colaboradores e fornecedores até clientes”, analisa.

A história de Luane é uma das que entram para as estatísticas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2015, pelo terceiro ano consecutivo, o fechamento de empresas ultrapassou o número de novos negócios abertos, totalizando 713,6 mil. Mas a população arregaçou as mangas, entendeu o terreno instável e investiu em ideias criativas. O resultado foi que o empreendedorismo voltou a crescer no País no ano seguinte e 11 milhões de novos negócios foram criados como alternativa à falta de emprego, de acordo com dados também do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) divulgados em 2017.

Considerando ainda que o desemprego voltou a crescer nos três primeiros meses deste ano e totalizou 13,4 milhões de pessoas, de acordo com o IBGE, abrir a própria empresa é cada vez mais uma saída para pagar as contas. Ao mesmo tempo, o atual momento político e econômico exige do pequeno empresário um planejamento ainda mais organizado e estruturado. É necessário se programar sabendo que o primeiro ano do negócio vai exigir mais investimento. Apesar de desafiador, nada é impossível se você seguir as dicas de quem entende do assunto.

Entre 2010 e 2014, por exemplo, a taxa de sobrevivência de empresas com até dois anos – tempo médio necessário para saber se o empreendimento continua ou não – passou de 54% para 77%. As principais dificuldades no começo são falta de clientes e capital inicial, acrescidas de um conhecimento baixo do mercado e gestão. Mesmo assim, os novos empreendedores brasileiros que dão certo ficam na casa dos países impulsionados pela eficiência de trabalho, de acordo com indicadores da pesquisa Global Entrepeneurship Monitor (GEM), divulgados em 2017.

MAS…POR QUE?

Não é fácil assumir que está fazendo errado. Porém, quando se trata de um novo negócio, é necessário evitar grandes perdas. O especialista em marketing do meuSucesso.com, chief marketing officer e partner da ACE, Felipe Collins, explica que existem alguns erros comuns à maioria dos iniciantes. ”Desde fatores burocráticos até questões de gestão, marketing venda e produto. O que mais mata empreendedores é a paixão cega pelo seu produto, e não pela dor que ele soluciona. Não validar e não ouvir o seu mercado é usualmente um passo fatal”, explica.

Não para por aí. Nem todo mundo quer ouvir o feedback de seus clientes, mas é essa avaliação que vai auxiliar na adaptação de um produto ao mercado e não cair na armadilha que leva muitos desses novos negócios ao fechamento: a falta de resiliência. “É muito comum achar que a solução está pronta quando ela não está. É um desafio saber encontrar o momento certo de investir mais pesado em vendas e divulgação. Vejo muitos empreendedores querendo construir planos mirabolantes de marketing quando ainda nem validaram a solução”, exemplifica Collins.

Não saber onde está pisando também pode ser fatal. Diversas pesquisas mostram que a falta de aceitação do mercado é um fator comum quando a empresa resolve encerrar suas atividades, além do fim do dinheiro em caixa e a briga entre sócios.

Uma coisa é certa: acompanhando de perto as taxas de crescimento, satisfação aos clientes e prospecção de novos negócios já terá dado o primeiro passo não apenas para avaliar a saúde da empresa, como também para mantê-la em gráfico crescente. – os erros mais comuns vêm de ideias fantasiosas sobre o funcionamento e a estrutura do campo de negócios, especialmente quando se trata de uma novidade. Outra perspectiva equivocada é a confusão entre autonomia e ócio, pois boa parte dos empreendedores investem seus projetos sob a égide de que não mais estarão trabalhando sob o mando de terceiros e tendo mais tempo livre para outros planos, deixando de estar presentes em sua empresa e delegando quase todo o trabalho a terceiros antes mesmo da decolagem do negócio. Por fim, há uma expectativa equivocada sobre os ganhos imediatos, atribuindo ao empreendimento a responsabilidade de sucesso e deixando de investir o retorno obtido em melhorias e aprimoramento’ acrescenta o psicólogo e professor universitário da FADISP, Luíz Carlos Francisco Júnior.

O gerente de Pesquisa e Empreendedorismo da UNISUAM, Tiago Ribeiro, resume bem quando diz que o empreendedor é um sonhador com objetivos definidos. Nessa linha tênue, é preciso não misturar contas pessoais com as da empresa, por exemplo. “Outro ponto é a ansiedade. Na inquietação de ver o seu negócio criar corpo, acaba querendo pular etapas do processo de criação. Os Jovens empreendedores se surpreendem ao passar por dificuldades para implementar o negócio, mas isso acontece e obriga-os a profissionalizar o processo, explica, sugerindo ainda que sejam realizados cursos de capacitação.

A dica faz bastante sentido. Você sabia por exemplo, que Phil Knight, fundador da Nike, continuou trabalhando como contador por quatro anos após fundar a empresa? E teve ainda SteveWozniak cofundador da Apple, que só deixou a universidade após anos vendendo computadores da marca.

DESAFIO ACEITO!

Aperte o cinto! Com a caneta na mão e uma ideia na cabeça, o maior desafio na hora de montar o novo negócio tem a ver com uma questão inerente às relações humanas: o ego. Para a filosofia, ele é aquilo que caracteriza uma personalidade. Na psicologia é o local onde o indivíduo se reconhece. Nas palavras de 0sho, é o que você forma a partir do reflexo dos outros. Independentemente do conceito, é preciso que não coloque o seu ego na frente da realidade. “O maior desafio para novos empreendedores é entender que estar certo tem muito menos valor do que chegar próximo da verdade. Nós temos muita dificuldade em aceitar visões distintas, mesmo que elas nos ajudem a encontrar soluções”, comenta o especialista formado em Economia e Políticas Públicas pela Duke University, Bruno Semenzato.

Segundo Tiago Ribeiro, de modo geral, existe também falta de planejamento financeiro na manutenção da saúde do negócio; dificuldade de planejar ações de empreendimento como um todo, para implementar o que se propõe a fazer: falta de contato com uma rede de stakeholders para estimular o investimento no negócio; reinventar-se, inovar. Existem muitos empreendedores que são conhecidos como ‘cabeça-dura’, não aceitam críticas, nem se adaptam às novas soluções de mercado e acabam ficando obsoletos e sendo engolidos pelos seus concorrentes,” ressalta.

Entender a burocracia também é crucial, desde como abrir o seu CNPJ até as taxas tributárias e investimento mínimo inicial para fazer as coisas darem certo. Além disso, antes de colocar a mão na massa, desenvolva os indicadores-chave de desempenho, também conhecidos como KPIs que são ferramentas de gestão para ajudar no planejamento e na medição do desempenho. Existem diversas categorias e modelos que podem ser selecionados de acordo com aquilo que faz mais sentido para você. Time to Market e indicadores de Rentabilidade são alguns bastante úteis no início do projeto, indicando respectivamente o tempo de lançamento de um produto e os custos de investimento da empresa em relação ao nível de retorno desse investimento.

Semenzato diz que cada negócio tem seus indicadores importantes, mas os principais indícios de insucesso incluem: prejuízos, alto turnover de funcionários, alto índice de reclamação dos consumidores, receita estagnada, entre outros. Na prática, o MVP – Mínimo Produto Viável é o indicador que vai dizer se seu produto pode virar sucesso ou não, além de apresentar os pontos de melhoria. Ele é a versão beta daquilo que vai acontecer, um tipo de primeira edição a ser oferecida.

Segundo o CEO da Jiva, Fábio Túlio, alguns índices extraídos do banco de dados da empresa o Maha ­ Gestão – que conta com dados estatísticos de mais de 5 mil micro e pequenas empresas -, mostram que 32% delas não analisam o que comprar levando em consideração as melhores práticas e esse procedimento é feito somente pelo feeling. “Outro dado é que 35% das empresas não utilizam o fluxo de caixa o que faz com que fiquem sujeitas a riscos, como impossibilidade de antecipar-se a eventuais desequilíbrios financeiros”, conta o CEO.

NÃO ERRE MAIS

Formule uma tese sólida para seu novo negócio, incluindo conhecimento de mercado e tendências. Verifique também se o seu empreendimento tem vantagens competitivas claras ou que possam abrir um novo mercado. Nesse contexto, segmentos que estão na moda acabam tornando-se os mais perigosos, pois possuem pequenas bolhas inflando em um crescimento insustentável. Não significa que não possam dar certo, mas que é necessário ter uma atenção especial. As oportunidades também podem vir de onde você menos espera. Em um país com problemas sistêmicos conhecidos, é possível encontrar soluções nessas questões e transformá-las em negócio. As áreas que mais precisam ser observadas são educação, saúde e infraestrutura – como mobilidade urbana e alimentação. Além do apelo social, a tecnologia e novos aplicativos tem sido um bom lugar para iniciar empresas, além de produtos verdes e economia criativa.

Luiz Carlos Francisco Junior do Fadisp acrescenta que, embora o mercado pareça saturado de serviços tecnológicos, ainda há muito para ser explorado nessa área, com alternativas para facilitar a vida do ser humano e investindo em afeto e qualidade de atenção. “Além da falta de inovação, existe a ausência de qualidade e personalização do serviço, que cada vez mais deixa os frequentadores insatisfeitos, saindo em busca de novos lugares que possam lhes oferecer esse padrão de excelência. É notória a falta de dedicação dos empreendedores no investimento em gestão de pessoal. Em outras palavras, os empresários estão tão preocupados em lucrar e reduzir custos, que se esquecem de investir nas equipes – as verdadeiras responsáveis por fazer o negócio acontecer. Outra falha bastante comum se pode observar é com relação à gestão de processos e de marketing, pois são atividades tratadas com arrogância pelos empreendedores, resultando em ações recheadas de superficialidade e obviedade”, destaca.

Observe também se a sua empresa vai precisar de um investidor. Caso a resposta seja “sim”, um bom plano e muita transparência são essenciais na hora de se apresentar, como aconselha Bruno Semenzato: “a maioria dos empreendedores apresenta seu negócio como algo sem falhas ou defeitos. Porém, todo empreendimento tem pontos fracos, e mostrar quais são eles, facilita muito na conquista da confiança dos investidores, além de trazer conhecimento do negócio e dos pontos a serem melhorados”, argumenta.

Esqueça também apresentações muito longas e com discurso acadêmico. Nesse ponto, Tiago Ribeiro acrescenta que é preciso ser prático e fazer se entender, afinal, as empresas querem basicamente ouvir soluções fáceis, rápidas e com baixo custo. Estudar o perfil do empresário com quem você vai conversar é importante, para entregar algo personalizado e mais compreensível para o futuro investidor. Ele indica ainda buscar aceleradoras ou business angel, que são investidores individuais de pequenos e médios negócios promissores.

Observe, por fim, a importância de um networking, ou seja, uma boa rede de parceiros pode ser crucial para algo rentável.

Com tudo isso planejado e executado, em quatro ou seis meses o empreendedor já consegue ter um primeiro feedback sobre o fluxo de participação da empresa verificando assim possíveis mudanças ou ajustes. Se, nesse período, você percebeu que não tem demanda de procura para aquilo que está ofertando, observe se o problema é o serviço em si, a divulgação, a incapacidade de se comunicar com o público-alvo ou se está sendo engolido pela concorrência, por exemplo. A sua capacidade de resiliência é o desafio principal. Hoje, é cada vez mais importante ter empreendedores focados em rodar o negócio para que ele atinja o maior número de pessoas, atendendo com qualidade o seu público-alvo e trazendo inovação para o mercado, completa o gerente da Unisuam.

 

UMA BOA ADMINISTRAÇÃO É…

CONCEITOS BÁSICOS A SEREM APLICADOS

TAMANHO DO MERCADO-ALVO: o mercado é grande o suficiente?

NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO: você tem o capital necessário para viabilizar o negócio?

PONTO DE EQUILÍBRIO: você tem estimativa de quando a empresa atingirá o ponto de equilíbrio?

RETORNO SOBRE O INVESTIMENTO: qual retomo o negócio terá e em quanto tempo ocorrerá?

MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO: com qual margem cada produto ou serviço vai contribuir para o negócio?

 

DESAFIOS ADMINISTRATIVOS:

  • Ser crítico no apontamento e análise desses conceitos no planejamento antes de iniciar.
  • O negócio irá nascer preocupado com o sucesso do cliente.

 

NA DÚVIDA, PERGUNTE-SE:

  • Se o seu negócio não existisse os seus clientes ficariam muito decepcionados?
  • Seus clientes recomendam seu negócio para outras pessoas?
  • Seu negócio é lucrativo?

 

VOCÊ NÃO CONTROLA TUDO, MAS PRECISA FICAR DE OLHO:

  • Mercado e economia.
  • Aspectos naturais e sazonais.
  • Mudança de hábito dos consumidores.
  • Reação dos concorrentes.
  • Mudanças políticas, encargos e taxas.

 

PRESTE ATENÇÃO!

PROCESSOS: as melhores práticas do setor atacadista são conhecidas em sua empresa? Você tem noção de quanto dessas melhores práticas são aplicadas no seu negócio?

PESSOAS: sua equipe está devidamente capacitada nas melhores práticas de gestão, conhecem os processos do seu negócio e dominam o uso do sistema?

SISTEMA: seu sistema integra e automatiza todos os processos do negócio? Fornece informações gerenciais ágeis para a tomada de decisão? Está alinhado com as tendências tecnológicas; mobilidade, nuvem, web?

PRINCIPAIS CAUSAS DA MORTALIDADE

PLANEJAMENTO: faltou planejamento prévio. Não houve negociação de prazos com fornecedores, não trabalhou com empréstimo de bancos.

CAPACITAÇÃO: Não houve conhecimento sobre gestão de negócios nem capacitação de mão de obra.

GESTÃO: os produtos não foram aperfeiçoados para acompanhar o mercado, faltou atualização, não houve acompanhamento rigoroso do fluxo de caixa, tampouco diferencial de produto.

 

3 PERGUNTAS ANTES DE ABRIR SEU NEGÓCIO

Qual o nível de informação que tenho sobre o ramo/atividade que quero desenvolver?

Qual meu grau de conhecimento a respeito do funcionamento do negócio como um todo?

Qual minha disponibilidade de tempo e energia para este empreendimento?

 

ABRA OS OLHOS! O QUE PODE DERRUBAR SEU NEGOCIO?

  • Falta de planejamento prévio e formação de uma tese sólida antes da execução do
  • Excesso de risco no começo do novo empreendimento: os empreendedores de mais sucesso são ótimos mitigadores de risco.
  • Falta de preparo para o pior: a maioria dos empreendedores acredita que seu negócio é infalível e assim, acaba não se preparando para enfrentar os grandes desafios que serão impostos.
  • Percepção distorcida da visão do consumidor, a maioria dos empreendedores foca a solução que está desenvolvendo, mas se esquece de pensar se está resolvendo algum problema do consumidor. Muitas startups não resolvem nenhuma dor significativa das pessoas e acabam não tendo valor algum.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 9: 13-34 – PARTE – III

Alimento diário

A Reprovação dos fariseus. Esta reprovação é refutada

 

[2] Por isto, eles zombam do homem e o ofendem, v. 28. Quando não puderam resistir à sabedoria e à energia com as quais o homem curado falou, eles se inflamaram e zombaram dele, começaram a ofendê-lo e dizer-lhe palavras vis. Veja o que as testemunhas fiéis de Cristo devem esperar dos adversários à sua verdade e causa, podem ter certeza de que dirão todo o mal contra eles, Mateus 5.11. O método comumente usado pelos homens irracionais é o de compensar com ofensas o que falta em verdade e razão.

Em primeiro lugar, eles ridicularizaram este homem pelo seu afeto por Cristo. Eles lhe disseram: “Discípulo dele sejas tu”, como se isto fosse uma repreensão suficiente, e eles não pudessem dizer nada pior dele. “Nós nos recusamos a ser seus discípulos, e deixaremos esta honra para você, e para outros tolos como você”. Eles fazem o que podem para dar má fama à religião de Cristo, e para apresentar sua profissão como uma coisa escandalosa e desprezível. Eles o injuriaram. A Vulgata apresenta eles o amaldiçoaram. E qual seria sua maldição? Era esta: “Discípulo dele sejas tu”. “Que tal maldição”, diz Agostinho aqui, “possa estar sempre sobre nós e nossos filhos!” Se nós medirmos nossa credibilidade e desgraça a partir do sentimento, ou melhor, dos clamores de um mundo enganado e cego, nós nos glorificaremos na nossa vergonha, e nos envergonharemos na nossa glória. Eles não tinham motivos para chamar este homem de discípulo de Cristo, ele nunca o tinha visto, nem o tinha ouvido pregar. Ele só tinha falado favoravelmente sobre um ato de bondade e misericórdia que Cristo lhe tinha feito, e isto eles não conseguiam suportar.

Em segundo lugar, eles se gloriavam pela sua relação com Moisés como seu mestre: “‘Nós, porém, somos discípulos de Moisés’, e não precisamos de outro mestre, nem desejamos outro”. Observe:

1. Os professores carnais de religião são muito capazes de confiar e de se orgulhar das dignidades e dos privilégios da sua profissão de fé, embora sejam estranhos aos princípios e poderes da sua religião. Estes fariseus tinham, antes, se vangloriado da sua boa ascendência: “Somos descendência de Abraão”. Aqui eles se vangloriam da sua boa educação: “Nós… somos discípulos de Moisés”, como se isto os salvasse.

2. É triste ver o quanto uma parte da religião sofre oposição sob o pretexto do zelo da outra parte. Havia uma harmonia perfeita entre Cristo e Moisés. Moisés ajudou a preparar o caminho para Cristo, e Cristo aperfeiçoou Moisés, de modo que eles poderiam ser discípulos de Moisés e ser também discípulos de Cristo. Mas aqui eles os combatem, pois não poderiam ter persegui­ do a Cristo, exceto sob o refúgio do nome mal-empregado de Moisés. Assim, aqueles que contradizem a doutrina da graça gratuita procuram valorizar a si mesmos como promotores do dever do homem: “Nós… somos discípulos de Moisés”. Enquanto isto, por outro lado, aqueles que cancelam a obrigação da lei se valorizam como os defensores e os proclamadores da graça gratuita, como se ninguém mais fosse discípulo de Jesus, exceto eles. Mas se compreendermos corretamente o assunto, veremos a graça de Deus e o dever do homem se encontrando, e ajudando um ao outro.

Em terceiro lugar, eles oferecem algum tipo de razão para se unirem a Moisés contra Cristo (v. 29): “Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos ele onde é”. Mas não sabiam eles que entre outras coisas que Deus falou a Moisés estava esta, ele que eles deviam esperar outro profeta, e nas revelações da mente ele Deus? Mas, quando nosso Senhor Jesus, de acordo com o que Deus tinha dito a Moisés, manifestou-se, e deu provas suficientes ele ser aquele profeta, os judeus, sob o pretexto ele se apegarem à antiga religião e à sinagoga estabelecida, não somente perderam o direito às suas próprias graças, mas também abrira m mão delas. Neste argumento dos judeus, observe:

1. Como, ele maneira impertinente, eles alegam, em defesa da sua inimizade contra Cristo, aquilo que nenhum dos seus seguidores jamais negou: “Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés”, e, graças a Deus, nós sabemos também, Ele falou mais claramente a Moisés elo que a qualquer outro dos profetas. Mas, e daí? Deus falou a Moisés, e com base nisto pode-se concluir que Jesus é um impostor? Moisés era um profeta também? Moisés falou honrosamente ele Jesus (cap. 5.46), e Jesus falava honrosa­ mente ele Moisés (L c 16.29). Ambos eram fiéis à mesma casa ele Deus, Moisés como servo, e Cristo como Filho. Por isto, a defesa à autoridade divina ele Moisés, em oposição à de Cristo, era um artifício, para fazer as pessoas sem discernimento crerem que era tão certo que Jesus fosse um falso profeta quanto era certo que Moisés era um profeta verdadeiro, embora ambos fossem verdadeiros.

2. Como, de maneira absurda, eles apresentam o fato de não conhecerem a Cristo como uma razão para justificar seu desprezo por Ele: “Mas este”. Desta maneira desprezível, eles falam do bendito Jesus, como se não julgassem que valeria a pena carregar suas lembranças com um nome tão insignificante. Eles se expressam com tanto desdém pelo Pastor de Israel, como se Ele não fosse digno ele ser colocado junto aos cães do seu rebanho: “Mas este”, este pobre sujeito, “não sabemos de onde é”. Eles imaginavam ter a chave do conhecimento, de modo que ninguém pudesse pregar sem antes obter uma permissão sua, sob o selo do seu tribunal. Eles esperavam que todos aqueles que se propunham a ser professores os procurassem e lhes dessem satisfação, coisa que Jesus nunca tinha feito, nunca tinha reconheci­ do seu poder, a ponto de pedir-lhes permissão, e por isto eles o consideravam um intruso, e alguém que não entrava pela porta. Eles não sabiam de onde Ele vinha, nem o que Ele era, e por isto concluíram que Ele era um pecador, embora aqueles sobre os quais nós sabemos poucas coisas devam ser julgados de maneira caridosa. Mas as almas orgulhosas e limitadas não pensarão bem ele ninguém, exceto de si mesmas e daqueles nos quais têm interesse. Não fazia muito tempo que os judeus tinham feito uma objeção contra Cristo, contrária a esta (cap. 7.27): “Bem sabemos de onde este é; mas, quando vier o Cristo, ninguém saberá de onde ele é”. Desta maneira, eles podiam, com a maior segurança, afirmar ou negar a mesma coisa, conforme vissem que ela podia lhes sentir. Eles não sabiam de onde Ele era, e de quem era a culpa?

(1) É certo que eles deveriam ter investigado. O Messias deveria aparecer nesta época, e lhes cabia investigar e examinar toda indicação. Mas estes sacerdotes, como os de Jeremias 2.6, não disseram: “Onde está o Senhor?” (

2) É certo que eles deviam ter sabido de onde Ele era, poderiam não apenas ter sabido, investigando os registros, que Ele tinha nascido em Belém, mas investigando sua doutrina, seus milagres e seu comportamento. Poderiam ter sabido que Ele era o enviado de Deus, e tinha ordens, comissão e instruções muito melhores do que quaisquer que eles lhe pudessem sugerir. Veja como é absurda a infidelidade. Os homens não desejam conhecer a doutrina de Cristo, porque estão decididos a não crer nela, e então decidem não crer nela porque não a conhecem. Tal ignorância e descrença, uma sustentando a outra, agravam uma à outra.

(3) Ele raciocina com eles a respeito deste assunto, e eles o excomungam.

[1] O pobre homem, achando que a razão estava do seu lado, à qual eles não poderiam contestar, fica mais ousado e, continuando com seus argumentos, se aproxima deles.

Em primeiro lugar, ele se admira da sua infidelidade obstinada (v. 30). De maneira nenhuma amedrontado pelas censuras deles, nem abalado pela confiança deles, corajosamente respondeu: “Ora, aqui está uma coisa maravilhosa”, o caso mais estranho de ignorância voluntária e deliberada de que jamais se ouviu entre homens que dizem ter bom senso, o fato de que vocês não sabem de onde Ele vem, e ainda assim Ele me abriu os olhos”. Ele se maravilha de duas coisas:

1. Do fato de que eles pudessem não conhecer alguém tão famoso. Aquele que podia abrir os olhos dos cegos certamente deveria ser um homem importante, e digno de que se prestasse atenção a Ele. Os fariseus eram homens curiosos, cor­ respondiam se e conheciam muita gente, julgavam ser os olhos da igreja e seus vigias, e ainda assim falavam como se julgassem abaixo deles conhecer um homem como este, e conversar com Ele. Isto realmente é muito estranho. Há muitos que passam por homens instruídos e inteligentes, que entendem de negócios e que podem falar sensatamente sobre outras coisas, mas que são espantosamente ignorantes da doutrina de Cristo, que não se preocupam, nem como curiosidade, em se familiarizar com aquilo que “os anjos desejam bem atentar”.

2. Do fato de que eles questionassem a missão divina de alguém que, indubitavelmente, tinha realizado um milagre divino. Quando disseram: “Este não sabemos de onde é”, eles quiseram dizer: “Nós não conhecemos nenhuma prova de que sua doutrina e seu ministério sejam do céu”. “É estranho”, disse o pobre homem, “que o milagre realizado em mim não tenha convencido vocês, e não tenha deixado a questão fora de dúvidas – que vocês, cuja educação e estudos lhes dão vantagens acima dos outros, de discernimento das coisas de Deus, fechem os olhos, desta maneira, para a luz”. É uma obra maravilhosa e um assombro, “porque a sabedoria dos seus sábios perecerá” (Isaias 29.14), que neguem a verdade cujas evidências não possam negar. Observe que:

(1) A descrença daqueles que têm os meios de conhecimento e convicção é verdadeiramente uma coisa maravilhosa, Marcos 6.6.

(2) Aqueles que sentiram pessoalmente o poder e a graça do Senhor Jesus maravilham-se especialmente com a determinação daqueles que o rejeitam, e, tendo tão bons pensamentos sobre Ele, surpreendem-se de que outros não tenham. Se Cristo tivesse aberto os olhos dos fariseus, eles não teriam duvidado de que Ele fosse um profeta.

Em segundo lugar, ele argumenta vigorosamente contra eles, vv. 31-33. Eles tinham determinado, ares­ peito de Jesus, que Ele não era de Deus (v. 16), mas um pecador (v. 24), e em resposta a isto, aqui o homem prova não somente que Ele não era um pecador (v. 31), mas que era de Deus, v. 33.

A. Aqui ele argumenta:

(a) Com grande conhecimento. Embora não soubesse ler o livro, ele estava bastante familiarizado com as Escrituras e as coisas de Deus. Ele não tinha o sentido da visão, mas tinha aprimorado o da audição, pelo qual vem a fé. Porém, isto não lhe teria sido útil, se não tivesse uma presença extraordinária de Deus com ele, e auxílios especiais do seu Espírito, nesta ocasião.

(b) Com grande zelo pela honra de Cristo, que ele não conseguiria suportar ouvir sendo destruída e difamada.

(c) Com grande ousadia, e coragem, e destemor, sem se aterrorizar pelo orgulho dos seus adversários. Aqueles que ambicionam os favores de Deus não devem temer as censuras dos homens. “Veja aqui”, diz o Dr Whitby, “um homem cego e sem instrução julgando com mais exatidão as coisas divinas do que todo o erudito conselho dos fariseus, ensinando nos, com isto, que não devemos sempre ser conduzidos pela autoridade dos conselhos, papas ou bispos, e que não é absurdo que os homens leigos algumas vezes tenham opiniões diferentes das deles, pois estes bispos, às vezes, são culpados de grandes negligências”.

B. Seus argumentos podem ser reduzidos a uma forma semelhante à do de Davi, Salmos 66.18-20. A proposta no argumento de Davi é: “Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá”. Aqui o propósito é o mesmo: “Deus não ouve a pecadores”. A suposição há: “Mas, na verdade, Deus me ouviu”. Aqui temo um resultado positivo, pois, na verdade, Deus ouviu ao Senhor Jesus, Ele foi honrado com a realização do que nunca tinha sido feito antes. A conclusão ali é a da honra: “Bendito seja Deus”. Aqui é a da honra do Senhor Jesus: Ele é “de Deus”.

(a) Ele apresenta, como uma verdade incontestável o fato de que ninguém, exceto os homens bons, são os favoritos do céu (v. 31): “Nós sabemos”, vocês sabem, tão bem quanto eu, “que Deus não ouve a pecadores; mas, SE alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve”. Aqui:

[a] As afirmações, entendidas corretamente, são verdadeiras. Em primeiro lugar, seja dito para o terror dos ímpios: “Deus não ouve a pecadores”, isto é, a pecadores como aqueles a quem os fariseus se referiam quando falavam de Cristo: “Esse homem é pecador”, alguém que, sob a proteção do nome de Deus, cuidava dm interesses do Diabo. Isto não transmite nenhum incentivo para os pecadores arrependidos, mas somente para aqueles que continuam nas suas transgressões, que fazem suas orações não somente consistentes, mas também subservientes, aos seus pecados, como fazem os hipócritas. Deus não os ouvirá, Ele não os reconhecerá, nem dará uma resposta de paz às suas orações. Em segundo lugar, seja dito para o consolo dos justos: “Se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve”. Aqui temos:

1. O caráter completo de um homem bom: ele é aquele que é temente a Deus e faz sua vontade. Ele é constante nas suas devoções, em horários determina­ dos, e regular no seu comportamento em todas as ocasiões. Ele é aquele que se dedica a glorificar seu Criador com a solene adoração ao seu nome, e uma obediência sincera à sua vontade e à sua lei. As duas coisas devem acontecer em conjunto.

2. O consolo indescritível de um homem assim: “A esse [Deus] ouve”. Ouve suas queixas e as alivia; ouve seus apelos, e o justifica; ouve seu louvor, e o aceita; ouve suas orações, e as atende, Salmos 34.15.

[b] A aplicação destas verdades é muito pertinente para provar que aquele, com cuja palavra foi exercido tal divino poder para curar um cego de nascença, não podia ser um homem mau, mas, tendo manifestadamente tal interesse no santo Deus, que sempre o ouvia (cap. 9.31,32), certamente era santo.

(b) Ele engrandece os milagres que Cristo tinha realizado, para fortalecer ainda mais o argumento (v. 32): “Desde o princípio do mundo, nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença”. Isto mostra, ou:

[a] Que era um milagre verdadeiro, e acima das forças da natureza. Nunca se tinha ouvido que qualquer homem, com uso de meios naturais, tivesse curado a alguém que era cego de nascença. Sem dúvida, este homem e seus pais tinham investigado muitos casos desta natureza, procurando saber se alguém já tinha sido ajudado, e não tinham ouvido falar de nenhum, o que permitia que ele dissesse isto com mais segurança. Ou:

[b] Que era um milagre extraordinário, e além dos precedentes dos milagres anteriores. Nem Moisés, nem nenhum dos profetas, embora fizessem grandes coisas, jamais fizeram coisas como esta, em que o poder e a bondade divinos parecem disputar qual brilharia mais. Moisés trouxe pragas de uma forma miraculosa, mas Cristo realizou curas miraculosas. Observe que, em primeiro lugar, as maravilhosas obras do Senhor Jesus eram tais como jamais haviam sido feitas antes. Em segundo lugar, convém que aqueles que receberam a misericórdia de Deus engrandeçam as graças que receberam, e falem honrosamente delas. O objetivo não é que, com isto, a glória possa redundar sobre os crentes, e assim pareça que são favoritos extraordinários do Céu, mas tudo isto é para que Deus possa ser glorificado cada vez mais.

(e) Ele, portanto, conclui: “Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer”, isto é, nada extraordinário, nada como isto, e, portanto, sem dúvida, Ele é de Deus, embora não esteja em conformidade com suas tradições quanto ao sábado. Observe que aquilo que Cristo fazia na terra demonstrava, suficientemente, que Ele era do céu, pois, se não tivesse sido enviado de Deus, não pode­ ria ter realizado tais milagres. É verdade que o homem do pecado vem com falsas maravilhas, mas não com ver­ dadeiros milagres. Da mesma maneira, supõe-se que um falso profeta poderia, com permissão divina, transmitir um sinal ou um prodígio (Deuteronômio 13.1,2), mas o caso é apresentado de modo que trouxesse consigo sua própria contradição, pois ele deve reforçar a tentação de servir a outros deuses, o que significava colocar a Deus contra si mesmo. Da mesma maneira, é verdade que muitas pessoas ímpias têm, em nome de Cristo, realizado muitas obras maravilhosas, que não provavam que quem as realizava fosse de Deus, mas daquele em cujo nome elas eram realizadas. Cada um de nós pode saber, com isto, se é ou não de Deus: O que somos nós? O que nós fazemos por Deus, e pelas nossas almas, ao aceitarmos nossa salvação? O que nós fazemos mais do que os outros?

[2] Os fariseus, achando-se incapazes de responder ao seu raciocínio ou de suportá-lo, se lançaram sobre o homem que fora curado, e com muito orgulho e paixão interromperam suas palavras, v. 34. Aqui lemos:

Em primeiro lugar, o que eles disseram. Não tendo nada para responder a este argumento, eles lançaram-se contra o que dantes fora cego: “Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós?” Eles interpretam de maneira errada o que teriam razão para aceitar bem, e seu coração se parte em fúria por aquilo que deveria ter penetrado seu coração, levando-o à penitência. Observe:

1. Como eles o desprezaram, e a censura severa que lhe fizeram: “Você não somente nasceu em peca­ do, como todos os homens, mas, além disto, é completamente corrupto, e traz no seu corpo, assim como na sua alma, as marcas desta corrupção. Você é alguém que a natureza estigmatizou”. Se ele tivesse permanecido cego, teria sido uma barbaridade censurá-lo assim, e concluir que ele estava mais profundamente contamina­ do pelo pecado que as outras pessoas. Mas era profundamente injusto observar isto, agora que a cura não somente tinha eliminado a ofensa da sua cegueira, mas também o tinha indicado como um favorito do céu. Alguns assim interpretam: “Você era um mendigo comum, e pessoas deste tipo são frequentemente pecado­ res comuns, e você, sem dúvida, foi tão mau quanto qual­ quer um deles”, embora, com suas palavras, ele tivesse provado o contrário, e tivesse evidenciado uma profunda dose de piedade. Mas quando os fariseus arrogantes decidiam subestimar um homem, qualquer coisa servia como pretexto para suas calúnias e fingimentos. 

2. Como eles desdenham a possibilidade de aprender com ele, ou de receber instrução dele: “Tu… nos ensinas a nós?” Uma grande ênfase deve ser colocada aqui, sobre “tu” e “nós”. “Como você, um pobre tolo, ignorante e analfabeto, que não viu a luz do sol um dia inteiro, um mendigo de beira de estrada, da parte mais indesejável da cidade, pretende nos ensinar, a nós, que somos os entendidos da lei e os nobres da igreja, que nos sentamos na cadeira de Moisés e que somos mestres em Israel?” Observe que os homens orgulhosos desdenham a possibilidade de serem ensinados, especialmente pelos seus inferiores, mas nós nunca devemos nos considerar velhos demais, nem sábios demais, nem bons demais, para aprender. Aqueles que têm muita riqueza desejam ter ainda mais. E por que isto não acontece com aqueles que têm muito conhecimento? Aqueles por cujo intermédio nós podemos nos aprimorar pelo aprendizado devem ser valorizados. Que pobre desculpa era esta, para a infidelidade dos fariseus, a de que seria uma depreciação para eles ser em instruídos, e informados, e convencidos por um rapaz leigo como este!

Em segundo lugar; o que eles fizeram: eles “expulsaram-no”. Alguns entendem isto somente como uma despedida grosseira e desdenhosa dele, de seu conselho deliberativo. Eles o mandaram embora da sala, empurrando-o pela cabeça e pelos ombros, e, talvez, ordenando seus servos a darem pontapés nele. Eles julgaram que era hora de mandá-lo para longe o bastante, pois ele chegava, deste modo, perto de suas consciências. Mas isto parece ser, mais exatamente, um ato judicial. Eles o excomungaram, provavelmente com o maior grau de excomunhão. Eles o desligaram de ser um membro da igreja de Israel. “Este pobre homem”, diz o Dr. Lightfoot, “foi o primeiro confessor, como João Batista foi o primeiro mártir da Igreja Cristã”. Havia uma lei estabelecida de que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga, v. 22. Mas este homem tinha dito somente, de Jesus, que Ele era um profeta, que Ele era de Deus. E ainda assim eles alargam a lei para colocá-lo sob o domínio dela, como se ele tivesse confessado que Ele era o Cristo. Ser excomungado justamente e expulso de uma igreja para quando a chave não vira para o lado errado, é uma coisa muito pavorosa, pois o que é, deste modo, ligado sobre a terra, é ligado no céu. Mas ser expulso de uma igreja corrupta (da qual é nosso dever sair), e injustamente, embora com um “anátema”, e com todo o fantasma das cerimônias de sino, livro e vela, é o que não temos razão, sob qualquer condição, para temermos, ou nos afligirmos. ”A maldição sem causa não virá”. Se eles expulsam os seguidores de Cristo das suas sinagogas, como Ele prediz (cap. 16.2), não há dano feito, quando elas se tornam as “sinagogas de Satanás”.