PSICOLOGIA ANALÍTICA

SER EMPÁTICO É DEIXAR-SE HABITAR PELA DIFERENÇA

Filme trata do risco de confundir um atendimento terapêutico com desejo simplista de ajudar alguém; na trama, a pretensão de neutralidade clínica produz uma atuação contra transferencial.

Ser empático.

Em Praça Paris (2017), a psicóloga portuguesa Camila (Joana de Verona) vem ao Brasil para fazer uma pós-graduação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e conduz o tratamento de Glória (Grace Passô), que trabalha como ascensorista na universidade. Esse é o cenário proposto pela diretora Lúcia Murat para demonstrar os efeitos da violência urbana e questionar o perigo das boas intenções sem o devido embasamento. Glória é uma mulher negra e pobre, nascida e criada no Morro da Providência, favela onde ainda reside. Vítima de abusos e abandono na infância, mantém um vínculo de dependência com Jonas (Alex Brasil), seu irmão preso por tráfico. Ao longo das sessões, Glória conta à psicóloga sobre sua vida e passa a confiar na proposta terapêutica. Contudo, a profissional parece não ter suporte interno para absorver o impacto da realidade nem espaço de supervisão adequado – o que fica claro pelas vozes confusas e sobrepostas que Camila ouve em sua cabeça enquanto anda pelos corredores da universidade. É então que da postura inicial de Camila – cálida e simpática, aparentemente uma escuta compreensiva e generosa – emerge uma atitude reativa e marcada por preconceitos.

A ingenuidade (ou o despreparo) de Camila para reconhecer as diferenças de mundos é o disparador do medo que faz a personagem atuar a contratransferência. Enquanto espectadores, somos levados a testemunhar o problema decorrente do desejo simplista de fazer o bem e das boas intenções em ajudar alguém. Mas, acima de tudo, é o problema relativo à empatia que chama atenção. Não é raro ouvir, hoje em dia, tanto de profissionais como de possíveis pacientes, sobre o desejo por uma relação terapêutica em que seja possível compreender com profundidade o sentimento alheio. Presume-se que seja necessário alguém com as mesmas características ou experiências para que tal efeito seja alcançado.

Ao falar sobre o filme no Festival do Rio (disponível no YouTube), Murat expôs sua história pessoal de tortura durante a ditadura militar. A diretora comentou que, ao sair da prisão, buscou tratamento supondo ser fundamental fazê-lo com alguém que soubesse, de antemão, como é essa experiência. O resultado foi, nas palavras da própria diretora, um desastre – o que é previsível para todas as terapêuticas baseadas em identificação. Temos aqui mais um exemplo do problema contemporâneo da confusão a respeito da empatia: se Murat afirma não desacreditar que uma psicóloga branca possa desenvolver empatia por alguém como Glória, no filme somos levados a ver como a pretensão de neutralidade clínica produz uma atuação contratransferencial. Nenhum analista é apenas um espelho.

Apostar que um elemento em comum com o analista é o que garante a empatia dessa relação é confundir tanto o que é a empatia na psicanálise como os seus usos. Quando um sujeito procura um analista que tenha alguma semelhança consigo (seja a cor da pele, o gênero ou alguma experiência em comum), a lógica por trás dessa atitude é tentar garantir, por meio da imagem, que se está falando com alguém capaz de uma compreensão absoluta.

A sensação de empatia é um efeito útil ao processo terapêutico, podendo ser notada desde o primeiro contato ou surgir como uma surpresa no decorrer do atendimento, como resultado de uma construção conjunta. Saber escutar com empatia é saber esvaziar-se de si, mesmo que por um breve momento, tornando-se uma estrutura tanto sólida e resistente como côncava e oca, capaz de produzir eco das vozes de um outro que procura alguém para, paradoxalmente, escutar a sua voz. Ser empático não é saber exatamente o que o outro sente ou pensa porque se é pareci- do com o outro na superfície da pele, no gênero ou na sexualidade; ser empático é deixar-se habitar justamente pela radical diferença que é o estrangeiro.

Com uma ideia genérica de empatia, algo da experiência pessoal de outra pessoa é anulado. Se Camila, irrefletidamente, aposta que pode compreender Glória, pois assim o deseja, falta-lhe o poder de apostar no não saber. Afinal, em sua forma mais honesta, a empatia é consequência de um trabalho do analista, e não efeito de sua imaginação perigosamente bem-intencionada.

Praça Paris fala sobre as consequências da distância social, sobre violência e medo, mas também abre caminho para pensarmos sobre a expectativa de empatia e os riscos da identificação narcísica. Se desejamos trabalhar com a noção de empatia, não podemos correr o risco de silenciar a experiência singular de um sujeito com nossos próprios sentimentos. Não é possível tomar a vida ou a imagem do analista como um espelho para o paciente. Isso seria o mesmo que supor que somente um analista negro é capaz de atender negros ou que ser homossexual é condição para atender homossexuais. Tal aposta supõe o analista como um especialista moral que detém um saber pronto sobre o outro; mais ainda, fala da gigantesca fragilidade de um Eu que não suporta o contato com a diferença radical que está no âmago de todo contato humano.

 Ser empático.2 BARTHOLOMEU DE AGUIAR VIEIRA – é psicólogo e psicanalista, membro do PsiA – Laboratório de Pesquisas e Intervenções em Psicanálise da Universidade de São Paulo (USP), mestre em psicologia clínica pela mesma instituição e especialista em psicologia clínica com crianças.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.