ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 9:13-34 – PARTE – I

Alimento diário

A Reprovação dos fariseus. Esta reprovação é refutada

 

Poderíamos esperar que um milagre como este, que Cristo realizou no homem cego, teria estabelecido sua reputação, e silenciado e envergonhado toda a oposição, mas o resultado foi o oposto. Em vez de ser aceito como um profeta, Ele é perseguido como um criminoso.

I – Aqui está a informação que foi dada aos fariseus a respeito deste assunto: “Levaram, pois, aos fariseus o que dantes era cego”, v. 13. Eles o levaram ao grande Sinédrio, que consistia principalmente de fariseus. Os fariseus no Sinédrio eram os mais ativos contra Cristo.

1. Alguns pensam que aqueles que levaram este homem diante dos fariseus o fizeram com uma boa intenção, para mostrar a eles que este Jesus, a quem eles perseguiam, não era o que diziam dele, mas era realmente um grande home m, e alguém que dava provas consideráveis de uma missão divina. Aquilo que nos convencer da verdade e da excelência da religião, e remover nossos preconceitos contra ela, nós devemos ter a disposição, quando houver oportunidade, de oferecer aos outros, para sua convicção. 2. Na verdade, parece que eles fizeram isto com más intenções, para exasperar ainda mais os fariseus contra Cristo, e não havia necessidade disto, pois eles já eram suficientemente amargos por si mesmos. Eles o levaram com uma mentalidade semelhante à descrita em João 11.47,48: “Se o deixamos assim, todos crerão nele”. Observe que os governantes que têm um espírito perseguidor nunca desejarão ter; ao seu redor; instrumentos que irão soprar as brasas e torná-las piores.

II – O que se pretendia com esta informação, e o contexto em que foi expressa. Que nunca se fala mal daquilo que é bom, nem das pessoas boas, exceto quando alguém tenta lhes imputar algo mal. E o crime contra o qual se objeta aqui (v. 14) consistia no fato de que era sábado quando Jesus preparou o lodo, e abriu os olhos do homem. A profanação do dia do repouso certamente é pecaminosa, e dá ao homem um caráter muito mau, mas as tradições dos judeus tinham estabelecido como violações à lei do sábado coisas que estavam longe de sê-lo. Muitas vezes, a questão foi discutida entre Cristo e os judeus, para que fosse estabelecida de uma vez por todas, em benefício da igreja em todas as épocas. Mas alguém poderia perguntar: “Por que Cristo não abriu mão de realizar milagres no sábado, mas os realizou de maneira que Ele sabia que seria ofensiva aos judeus? Quando Ele curou o paralítico, por que Ele lhe pediu que carregasse sua cama? Ele não podia ter curado este cego sem fabricar lodo?” Eu respondo:

2. Ele não desejava dar a impressão de que cedia ao poder usurpado dos escribas e fariseus. O governo deles era ilegal, suas imposições eram arbitrárias, e o zelo que tinham pelos rituais consumiam aquilo que era substancial na religião. Por isto, Cristo não podia ceder-lhes com sujeição, nem por uma hora. Cristo estava constantemente sob a lei de Deus, mas não esteve um segundo sequer sob a lei deles.

3. Ele o fez para poder, tanto por palavras quando por atos, expor a lei do quarto mandamento, e defendê-la das observações corruptas daqueles homens. Desta maneira, o Senhor ensinou que as pessoas precisam ter um repouso semanal. Este seria um dia em sete (Pois que necessidade haveria aqui de explicar a lei, se ela seria imediatamente abolida?), e isto não deve ser observa do com tanta cerimónia por nós como era pelos judeus. As obras realizadas por necessidade e misericórdia são permitidas, e o descanso físico precisa ser proporcionado, não tanto pelo descanso em si, mas para permitir que sirvam os ao Senhor neste dia.

4. Cristo decidiu realizar curas no sábado para dignificar e santificar este dia, e para indicar que as curas espirituais devem ser realizadas principalmente no dia de repouso cristão. Quantos olhos cegos foram abertos pela pregação do Evangelho, este abençoado colírio, no dia do Senhor! Quanta s almas paralíticas foram curadas neste dia!

III – O julgamento e o exame desta questão pelos fariseus, v. 15. Tanta paixão, tanto preconceito e tanto mau humor, e tão pouca razão aparecem aqui, que o discurso é apenas um interrogatório. Poderíamos pensar que quando um homem nestas circunstâncias fosse trazido diante deles, eles fossem tomados por tamanha admiração pelo milagre, e parabenizassem o pobre homem por sua felicidade, a ponto de não poderem se irritar com ele. Mas sua inimizade com Cristo os tinha privado de qualquer humanidade, e também do senso de divindade. Vejamos como eles atormentaram este homem.

1. Eles o questionaram sobre a cura propriamente dita.

(1) Eles duvidaram que ele realmente tivesse nascido cego, e exigiram provas daquilo que até mesmo os acusadores tinham reconhecido (v. 18): eles “não creram”, isto é, não quiseram crer, “que ele tivesse sido cego”. Os homens que procuram uma oportunidade para discutir a respeito das verdades mais claras podem encontrá-las, se quiserem, e aqueles que decidem se agarrar ao engano nunca desejarão uma ajuda para deixá-lo. Isto não era um cuidado prudente, mas uma infidelidade preconceituosa. No entanto, este foi o caminho que eles tomaram para esclarecer os fatos: eles “chamaram os pais do que agora via”. Isto eles fizeram esperando contestar o milagre. Esses pais eram pobres e temerosos, e se tivessem dito que não podiam ter  certeza de que este era seu filho, ou que ele havia nascido apenas com alguma fraqueza ou algum obscurecimento na sua vista, que, se eles tivessem tido meios de conseguir ajuda, ele poderia ter sido curado há muito tempo, ou tivessem prevaricado de outra maneira, por temor à corte, os fariseus teriam ganho a discussão, teriam roubado de Cristo a honra deste milagre, acarretando assim a diminuição da reputação de todos os outros. Mas Deus organizou e dominou este conselho deles, de modo que ele se tornou a prova mais efetiva do milagre, e os deixou sob a necessidade de serem convencidos ou confundidos. Nesta parte da investigação, temos:

[1] As perguntas que fora m propostas aos pais (v.19): Eles lhes perguntaram, de uma maneira imperiosa e autoritária: “‘É este o vosso filho?’ Ousais jurar isto? Dizeis que ele nasceu cego? Tendes certeza disto? Ou será que ele apenas fingia ser cego, para ter uma desculpa para mendigar? ‘Como, pois, vê agora?’ Isto é impossível, e por isto é melhor que desmintais o fato”. Aqueles que não conseguem suportar a luz da verdade fazem tudo o que podem para eclipsá-la e ocultar sua revelação. Desta maneira, os que administram as evidências, ou melhor, que as administram mal, conduzem as testemunhas no caminho errado, e as ensinam como ocultar ou disfarçar a verdade, envolvendo-se, desta maneira, em uma culpa dupla, como aquela de Jeroboão, que pecou, e levou Israel a pecar.

[2] As respostas dos pais a este interrogatório, no qual: Em primeiro lugar, eles atestam completamente o que podiam dizer com segurança quanto a este tema. Com segurança, isto é, com base no seu próprio conhecimento, e com segurança, isto é, sem se arriscarem a ser considerados traidores (v. 20): “Sabemos que este é nosso filho” (pois conviviam com ele diariamente, e tinham um afeto natural por ele, como a mãe verdadeira de 1 Reis 3.26, o que os fazia saber que era seu filho) “e sabemos que ele nasceu cego”. Eles tinham motivos para saber disto, uma vez que isto lhes tinha provocado muita tristeza e muitas horas de preocupação. Com muita frequência, eles tinham pensado no seu filho com tristeza, e lamentado a cegueira dele mais do que todas as cargas e inconveniências da sua pobreza, e desejado que ele nunca tivesse nascido, em vez de ter nascido para uma vida tão incômoda! Aqueles que sentem vergonha dos seus filhos, ou de qualquer parente, por causa das suas deficiências físicas, podem receber uma reprovação destes pais, que livremente reconheciam: “Este é ‘nosso filho’, embora tenha nascido cego e viva de esmolas”.

Em segundo lugar, eles cuidadosamente evitam dar qualquer evidência a respeito da sua cura. Parcialmente porque eles mesmos não tinham sido testemunhas dela e não podiam afirmar nada de seu próprio conhecimento, e parcialmente porque achavam que era um assunto delicado, que não devia ser discutido. E, portanto, tendo reconhecido que ele era seu filho, e que era cego de nascença, já não dizem mais nada.

A. Observe a maneira cuidadosa com que se expressam (v. 21): “‘Mas como agora vê não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos não sabemos’. Nós não podemos explicar de que maneira isto foi feito, nem por intermédio de quem”. Veja como a prudência deste mundo ensina os homens a resumir o assunto em situações críticas. Cristo foi acusado de infringir o sábado e de ser um impostor. Os pais do cego, embora não tivessem sido testemunhas oculares da cura, ainda assim tinham uma certeza completa dela, e se sentiam obrigados, pela gratidão, a dar testemunho para a honra do Senhor Jesus, que tinha concedido ao seu filho uma bondade tão grande. Mas eles não tiveram a coragem de fazê-lo, e talvez tenham pensado que o fato de não dizerem nada para prejudicar a Cristo poderia compensar o fato de não dizerem nada a favor dele. Contudo, no dia do julgamento, aquele que não for declaradamente a favor de Cristo será, com razão, considerado como sendo contra Ele, Lucas 11.23; Marcos 8.38. Para que não sejam mais questionados a este respeito, eles sugerem que se pergunte ao filho: “Tem idade; perguntai-lho a ele mesmo, e ele falará por si mesmo”. Isto dá a entender que enquanto os filhos não tiverem idade (enquanto sejam crianças, como as que ainda não falam), é dever dos pais falar por eles, falar com Deus por eles, em oração, falar com a igreja por eles, no batismo. Mas quando já tiverem idade, é adequado que sejam questionados se desejam confirmar aquilo que seus pais fizeram por eles, e então possam falar por si mesmos. Este homem, embora fosse cego de nascença, parece ter tido conhecimento superior a muitos, o que o capacitou a falar por si mesmo melhor do que seus amigos podiam falar por ele. Desta forma, Deus, frequentemente por meio de uma gentil providência, compensa na mente o que falta no corpo, 1 Coríntios 12.23,24. O fato de que seus pais recomendassem que os judeus falassem com seu filho somente tencionava livrá-los do problema e expô-lo, ao passo que aqueles que tinham um interesse tão grande pela graça que ele tinha recebido tinham motivos para assumir com ele os riscos pela honra daquele Jesus que tinha feito tanto por eles.

B. Veja a razão pela qual eles foram tão cautelosos (vv. 22,23): “Porque temiam os judeus”. Não foi porque eles desejassem honrar seu filho, fazendo dele seu próprio advogado, ou porque desejavam ter o assunto esclarecido pela pessoa mais indicada, mas porque queriam evitar problemas, como a maioria das pessoas tende a fazer, sem se preocupar sobre quem os joga. Meu amigo está próximo, e meu filho está próximo, e talvez minha religião esteja próxima, porém mais próximo estou eu. Mas o cristianismo ensina outra lição,1 Coríntios 10.24; Ester 8.6. Aqui temos:

(a) A última lei que o Sinédrio tinha criado. Pela sua autoridade, tinha se decidido e decretado “que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga”. Observe:

[a] O crime a ser punido, e evitado, por este estatuto, que era a aceitação de Jesus de Nazaré como sendo o Messias prometido, e a manifestação disto por qualquer ato declarado, o que equivaleria a confessá-lo. Eles mesmos esperavam um Messias, mas não podiam, de maneira nenhuma, suportar o pensamento de que este Jesus pudesse ser este adorável Messias, nem admitiam que se perguntasse se Ele era ou não o Messias, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque seus preceitos eram completamente contrários às suas leis tradicionais. A adoração espiritual que Ele prescrevia abolia suas formalidades. Nada destruía, de maneira mais eficaz, sua singularidade e sua estreiteza de espírito do que aquela caridade universal que Jesus ensinava. A humildade e a mortificação, o arrependimento e a renúncia de si mesmo, eram lições novas para eles, e pareciam duras e estranhas aos seus ouvidos. Em segundo lugar, porque suas promessas e manifestações eram muito contrárias às esperanças deles. Eles esperavam um Messias em pompa e esplendor externos, que não somente libertas­ se a nação do jugo romano, mas promovesse a grandeza do Sinédrio e tornasse todos os seus membros príncipes e nobres. E agora, ouvir de um Messias cujas circunstâncias externas eram todas humildes e pobres, cuja primeira aparição e residência principal eram na Galileia, uma província desdenhada; que nunca os tentava adular, nem procurava seus favores, cujos seguidores não eram, em sua maioria, espadachins nem acadêmicos, nem homens de honra, mas pescadores desprezíveis; que não propunha nem prometia nenhuma redenção, exceto a do pecado, nenhum consolo para Israel, exceto o espiritual e divino, e, ao mesmo tempo, aconselhava seus seguidores a esperarem a cruz, e terem certeza da perseguição. Isto era uma reprovação tão grande a todas as ideias com que eles tinham formado e enchido a mente do seu povo, um golpe tão grande contra seu poder e seus interesses, e um desapontamento tão grande de todas as suas esperanças, que eles nunca poderiam aceitar, nem ouvir com paciência, mas, certo ou errado, isto deveria ser esmagado.

[b] A punição a ser infligida por este crime. Se alguém mostrasse ser um discípulo de Jesus, ele deveria ser considerado como um apóstata da fé da igreja judaica, e um rebelde e traidor contra seu governo, e, portanto, deveria ser expulso da sinagoga como alguém que tinha se mostrado indigno das honras e despreparado para os privilégios da sua igreja. Ele deveria ser excluí­ do, expulso da comunidade de Israel. Isto não era mera­ mente uma censura eclesiástica, que um homem sem consciência da autoridade da igreja judaica poderia menosprezar, mas, na verdade, era uma ilegalidade que excluía um homem do comércio civil e o privava da sua liberdade e das suas propriedades. Observe que, em primeiro lugar, a santa religião de Cristo, desde seu nascimento, tinha enfrentado oposição por leis penais criadas contra os que a professavam. Era como se as consciências dos homens as aceitassem naturalmente, porém esta força antinatural os vitimasse. Em segundo lugar, quando o comando da igreja cai em mãos erradas, a artilharia dela frequentemente se volta contra si mesma, e as censuras eclesiásticas passam a servir a um interesse carnal e secular. Não é novidade ver expulsas da sinagoga aquelas pessoas que eram suas maiores bênçãos, e ouvir os que as expulsaram dizendo: “O Senhor seja glorificado”, Isaías 66.5. Sobre este decreto, sabe-se:

1. Que os judeus o tinham determinado, ou planejado. Seu conselho e sua comunhão eram uma conspiração perfeita contra a coroa e a dignidade do Redentor, contra o Senhor e seu Ungido.

2. Que eles já haviam tomado uma decisão. Embora Jesus tivesse estado apenas alguns poucos meses manifestando-se publicamente entre eles, e, alguém poderia pensar, em tão pouco tempo não poderia ter-lhes provocado inveja, ainda assim, dentro de pouco tempo, eles se deram conta do interesse crescente que Ele despertava, e imediatamente concordaram em fazer o máximo que pudessem para refreá-lo. Recentemente, Ele tinha escapado do Templo e, quando se viram frustrados nos seus esforços de prendê-lo, imediatamente tomaram este caminho, o de tornar ilegal que qualquer pessoa o reconhecesse. Os inimigos da igreja e seus conselhos são unânimes e diligentes a este ponto, mas aquele que está no céu se ri deles, e zomba deles, e nós podemos fazer o mesmo.

(b) A influência que esta lei teve sobre os pais do cego.

Eles se negaram a dizer qualquer coisa sobre Cristo, e indicaram que falassem com seu filho, porque temiam os judeus. Cristo tinha provocado o governo ao fazer uma bondade ao seu filho, mas eles não desejavam provocá-lo, dedicando nenhuma honra a Jesus. Observe que “o receio do homem armará laços” (Provérbios 29.25), e frequentemente fará com que as pessoas neguem e reneguem a Cristo, e às suas verdades, e aos seus caminhos, e ajam contra suas consciências. Bem, os pais assim se desembaraçaram, e foram dispensados de qualquer outro interrogatório. Agora vejamos o interrogatório do próprio cego. A dúvida dos fariseus, quanto ao homem ser ou não cego de nascença, já tinha sido eliminada por seus pais, e, portanto:

(2) Eles lhe perguntaram a respeito do método da cura, e fizeram suas observações sobre isto, vv. 15,16.

[1] A mesma pergunta que seus conhecidos lhe tinham feito, agora, novamente, os fariseus lhe faziam: como ele tinha recebido a visão. Eles não perguntavam isto com qualquer desejo sincero de descobrir a verdade, comparando a informação com a notícia original, mas com o desejo de encontrar uma oportunidade contra Cristo. Pois, se o homem curado relatasse detalhadamente o assunto, eles provariam que Cristo tinha infringido o sábado. Se ele não relatasse de acordo com sua história original, eles teriam algum pretexto para suspeitar que tudo fosse um conluio.

[2] A mesma resposta, na verdade, que ele tinha dado antes aos seus conhecidos, aqui ele repete aos fariseus: “Pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me e vejo”. Aqui ele não fala sobre a fabricação do lodo, pois, na verdade, é provável que ele não a tenha visto. Este de­ talhe não era essencial, e poderia dar aos fariseus uma oportunidade contra ele, e por isto ele o omite. No relato anterior, ele havia dito: “Lavei-me e vi”, mas para que eles não pensassem que tinha sido somente um relance momentâneo, que uma imaginação fértil podia se permitir pensar, agora ele diz: “Vejo”. Trata-se de uma cura completa e duradoura.

[3] As observações feitas sobre esta história eram muito diferentes, e provocaram um debate na corte, v. 16. Em primeiro lugar, alguns aproveitam esta ocasião para censurar e condenar a Cristo pelo que Ele tinha feito. Alguns dos fariseus diziam: “Este homem não é de Deus”, como finge ser, “pois não guarda o sábado”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.