PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMO OS BEBÊS DESCOBREM O MUNDO

Ainda no útero, eles reconhecem (e preferem) a voz materna. Poucas horas após o nascimento, já distinguem sabores e aromas, identificam formas pelo toque e estão aptos a enxergar o suficiente para notar características do rosto de quem os pega.

Como os bebes descobrem o mundo

Eles não enxergam exatamente como adultos nos primeiros meses de vida, mas distinguem aromas, têm capacidade de reconhecer texturas pelo toque, preferem determinados tipos de som e desde bem novinhos gostam (ou desgostam) de certos sabores. Estudos desenvolvidos nos últimos anos revelam que os bebês nascem muito mais prontos do que se supunha há algumas décadas. Por volta dos 7 meses, por exemplo, já são capazes de se lembrar de músicas vários dias depois de tê-las ouvido. Com poucas semanas de vida, diferenciam sabores e emitem suas opiniões por meio das expressões faciais. Quanto aos odores, recém-nascidos notam a diferença entre os perfumes e os cheiros fétidos – virando a cabeça para se aproximar do que lhes agrada ou na direção oposta para evitar o desconforto. A sensibilidade das mãozinhas também é fundamental para as primeiras explorações do mundo. Desde que nasce, a criança apresenta capacidade para coordenar informações, obtidas por meio do tato, sobre forma dos objetos, associando-as à experiência visual.

Embora a visão seja um dos sentidos mais estudados, durante muito tempo se pensou, por exemplo, que as crianças nasciam cegas ou que só poderiam distinguir imagens com precisão após muito tempo. Atualmente, médicos e cientistas admitem que o bebê de poucas horas de vida enxerga, sim, ainda que não nitidamente, já que seu sistema visual é imaturo e os sentidos não estão totalmente desenvolvidos. Ao nascer, ele vê suficientemente para perceber os olhos, a boca e até uma mosca no nariz de quem o pega no colo. Um bebê de algumas semanas consegue seguir com os olhos uma pessoa que se movimenta ao seu redor, apenas com um pouco de atraso, sobretudo se a pessoa andar rapidamente.

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TUDO EMBAÇADO

No início vê o mundo de forma desfocada. Isso acontece porque tem dificuldade de executar uma função orgânica chamada “acomodação”. Trata-se, na verdade, da habilidade de fazer a curvatura do cristalino variar para obter uma imagem nítida, permitindo ajustar a visão para objetos próximos ou distantes. O mundo se toma um pouco mais nítido para os pequenos a uma distância entre 20 cm e 75 cm, uma faixa em que o cristalino consegue se acomodar parcialmente. A partir de 2 meses, a acomodação se desenvolve. E um fato interessante: aos 3 meses e meio, ela é superior à dos adultos, e os bebês conseguem enxergar nitidamente um objeto situado a 5 cm – uma distância que não facilita a visão em nenhum outro momento da vida.

Quanto ao campo visual, se o dos adultos é de 180 graus, o de um recém-nascido é de apenas 60 graus. Esse campo visual se desenvolve lentamente durante os dois primeiros meses de vida, aumentando rapidamente até os 8 meses.

Mesmo apresentando acuidade visual aproximadamente 60 vezes mais fraca que a do adulto, os pequeninos são capazes de identificar expressões faciais, embora tenham dificuldades para perceber detalhes. Mas o recém-nascido enxergará cada vez melhor com o tempo. Aos 6 meses, sua acuidade visual será apenas cinco vezes menor que a do adulto.

A maneira como os olhos dos bebês se deslocam também apresenta particularidades. Quando um adulto segue um objeto com os olhos, a “perseguição ocular – é suave. Os bebês nem sempre têm essa facilidade. Para comprovarem isso, pesquisadores mostraram a vários recém-nascidos um objeto preto se movimentando sobre um fundo branco, a fim de estudar se seus olhos se moviam de forma suave ou brusca. Perceberam que crianças de até 5 semanas eram capazes de seguir o alvo quando ele se deslocava lentamente, mas assim que o objeto acelerava seu movimento a perseguição ocular ocorria aos trancos. O estudo, várias vezes replicado, mostra que, mesmo se a visão dos pequenos seja limitada em relação á dos adultos, ela é funcional.

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A VOZ DA MAMÃE

Há mais de duas décadas os psicólogos americanos A. J. De Casper e W. P. Fifer realizaram uma das mais surpreendentes experiências com recém-nascidos. Os resultados foram publicados pela revista Science.

Eles pediram que dez mulheres que tinham acabado de dar à luz lessem um texto durante 25 minutos e gravaram sua voz.

Os pesquisadores colocaram fones de ouvido nos bebês dessas mulheres, cinco meninos e cinco meninas, e lhes deram uma chupeta ligada a um aparelho que permitia acionar o gravador.

Com apenas alguns dias de vida, os bebês ouviam então a voz da própria mãe e depois a de uma mãe desconhecida, ou o inverso. Suas reações de sucção foram observadas enquanto escutavam a gravação que podiam acionar. Resultado: de forma geral, os recém-nascidos modificavam sua sucção, aumentando ou diminuindo o ritmo, de maneira a ouvir mais frequentemente a voz da mãe. Essa experiência mostrou não somente que o pequeno reconhecia e preferia a voz materna, como também era capaz de aprender como produzir o som que preferia. Experiências semelhantes, feitas também por De Casper, com a voz do pai não revelaram o mesmo comportamento. Outro estudo se propôs a avaliar a capacidade de identificação da voz materna antes mesmo do nascimento. Participaram da experiência 60 grávidas que estavam por volta da 39ª semana de gestação. A metade dos fetos ouviu uma gravação em fita magnética da mãe lendo um poema durante dois minutos. Os outros ouviram o mesmo texto lido por uma voz desconhecida. O som era emitido por um alto-falante a uma distância de 10 cm acima da barriga da mãe, a 95 decibéis.

Os pesquisadores registraram a frequência cardíaca dos fetos durante a sessão e repararam que ela aumentava com a voz da mãe e diminuía com o som. Para os pesquisadores, a aceleração se deve ao fato de que a voz da mãe estimula o bebê. Esse estudo prova que o bebê reconhece a diferença entre a voz da mãe e a voz de uma desconhecida antes mesmo de nascer. Ou seja: se antes de nascer a criança já reconhece – e prefere – a voz de sua mãe, faz sentido que as grávidas conversem com os filhos quando ainda estão na barriga.

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GOSTINHO BOM

É comum dizer que os recém-nascidos não têm o paladar tão apurado quanto os adultos. Da mesma forma, nos perguntamos se conseguem distinguir o doce do salgado, o amargo do azedo. Foram feitas várias experiências para descobrir se eles eram instintivamente capazes de perceber essas diferenças.

Em um desses estudos, as psicólogas Harriet Oster e Diana Rosenstein, ambas pesquisadoras da Universidade de Nova York realizaram um teste no qual colocaram na boca de 12 recém­ nascidos de duas horas de vida, alternadamente, açúcar, cloreto de sódio, ácido cítrico e cloridrato de quinino – com sabores, respectivamente, salgado, cítrico e amargo. Elas observaram e filmaram as expressões faciais dos bebês em contato com essas quatro substâncias. Com o açúcar, as crianças ficavam tranquilas e relaxadas e começavam a mamar. Mas, em resposta ás soluções salgadas, acidas e amargas, mostraram expressões emocionais negativas: para o gosto ácido, os lábios ficavam apertados: ao sentirem o amargo, os bebês bocejavam, e não houve expressão facial específica para o gosto salgado.

Outro pesquisador, Jacob E. Steiner, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, demonstrou com o mesmo tipo de experiência que o açúcar fazia com que os bebês mostrassem a língua, relaxassem os músculos do rosto e às vezes até sorrissem. Com o quinino, bocejavam e faziam caretas, arqueando os lábios, franzindo a testa e o nariz e enrugando os músculos a redor dos olhos. Os recém-nascidos balançavam as mãos e os braços e era possível ver sacudidelas ou afastamento da cabeça. Com o ácido, Steiner notou reações intermediárias entre essas observações extremas. Como não houve nenhuma resposta facial para o gosto salgado até aproximadamente os 4 meses, o pesquisador supôs que a capacidade de detecção do sal se desenvolve mais tarde.

Mesmo que não tenham nenhuma experiência anterior do paladar – exceto a ingestão pré-natal do líquido amniótico -, os recém-nascidos sabem diferenciar o amargo, o doce e o ácido. Cada um desses três sabores provoca reações faciais específicas. Segundo os cientistas, podemos interpretar essas reações como prazerosas ou desagradáveis.

É possível que a origem do comportamento facial seja funcional: ele pode ter um valor comunicativo para a mãe, para informar de qual sabor o bebê gosta mais. As preferências parecem ser adaptativas. A inclinação inata pelo doce pode ser o resultado de uma evolução para detectar e identificar as fontes mais calóricas de alimentos. Assim como a aversão ao amargo e ao ácido indica habilidade seletiva para evitar itens não comestíveis e até tóxicos. Isso explica, do ponto de vista evolucionista, por que tantas crianças rejeitam comidas amargas como certos legumes e verduras (jiló, agrião e rúcula, por exemplo). A melhor forma de driblar a resistência é a persistência: os pais não devem desistir de apresentar repetidamente os alimentos aos pequenos até que essas comidas, em geral bastante nutritivas, passem a ser toleradas e até apreciadas.

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TOCAR PARA SABER

O bebê é capaz de reconhecer aquilo que toca: a informação passa da mão para os olhos. Para comprovarem essa “transferência toque-visão”, os psicólogos Arlette Streri, da Universidade Paris Descartes, e Edouard Gentaz, da Universidade Pierre­Mendés-France, desenvolveram uma pesquisa com 12 meninos e meninas com apenas 3 dias. Eles colocaram na mão direita de cada bebê um prisma ou um cilindro. Se a criança largasse o objeto, um dos pesquisadores o apresentava novamente até que ela se acostumasse com a forma.

Numa segunda fase da experiência, os psicólogos ofereciam dois objetos lado a lado diante dos olhos do bebê durante 60 segundos e mediam o tempo durante o qual ele olhava para cada um. Os pesquisadores perceberam então que os bebês se detinham mais tempo naquele que não havia sido explorado pelo toque – os que tinham segurado o prisma olhavam mais para o cilindro, e vice-versa. Isso demonstra que a forma previamente explorada pelo toque era familiar ao bebê, enquanto a outra era percebida como nova.

Tempos depois, Streri e Gentaz tiveram a ideia de estudar o comportamento visual de 12 outros recém-nascidos, sem que tivessem de segurar nas mãos o cilindro ou o prisma. Os resultados mostraram que esses bebês olhavam durante o mesmo tempo para ambos. o que confirmou que o cérebro de um bebê de 3 dias é capaz de realizar uma “transferência intermodal”. Isso quer dizer que um objeto percebido por um sentido pode ser reconhecido por outro: desde o nascimento, o ser humano tem a capacidade de coordenar as informações sobre a forma dos objetos entre as modalidades visual e tátil antes mesmo de ter aprendido isso a partir das associações resultantes de suas experiências.

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QUE CHEIRO É ESTE?

Um adulto consegue identificar logo um odor desagradável ao entrar em uma sala. Mas será que um bebê com poucas horas de vida também é capaz de ter a mesma reação? Empenhados em encontrar a resposta para essa pergunta, cientistas realizaram uma experiência com 20 bebês de 16 a 100 horas de vida: colocaram um frasco contendo um pouco de amoníaco perto do rosto de cada criança, de um lado de cada vez. Essa operação foi repetida em várias ocasiões com todos os bebês. Após breve apresentação do produto, os movimentos dos pequenos foram filmados.

Em cerca de 70% das vezes, eles viraram a cabeça na direção oposta ao recipiente. Os que faziam esse gesto mais vigorosamente eram os que mostravam menos agitação depois de cheirar o amoníaco. Inversamente, aqueles que tinham dificuldade para desviar a cabeça ficavam muito mais agitados.

Para estudar a reação infantil aos cheiros bons, também foram feitas algumas pesquisas. Ao apresentar diferentes aromas para recém-nascidos de menos de 12 horas de vida, Steiner, por

Exemplo, demonstrou que eles eram receptivos a vários odores. Após ter filmado cada um dos bebês. ele notou que os extratos de banana, baunilha e manteiga provocavam sorrisos e movimentos de sucção. Em compensação, os cheiros de camarão e ovo podre causavam comportamentos como curvar os cantos da boca para baixo e apertar os lábios.

As experiências mostraram que os bebês notam a diferença entre os aromas e perfumes agradáveis e os odores fétidos e outros cheiros irritantes. E possível concluir que a criança tem a capacidade inata de evitar, por meio de uma ação (virara cabeça), e de comunicar (pela sua expressão facial) sua repulsa pelos cheiros nauseabundos. O inverso é verdadeiro para os cheiros agradáveis. As reações nesse caso, aliás. são bastante similares às de adultos. A “esperteza olfativa” infantil aparece também em outra situação: recém-nascidos são capazes de perceber o odor materno, em comparação com o de outras mulheres.

OUTROS OLHARES

A GLOBALIZAÇÃO DAS SÉRIES

O êxito mundial da espanhola La Casa de Papel é só a ponta de um fenômeno bem-vindo da era do streaming: a explosão das tramas de todas as cores nacionais – inclusive as de origem brasileira.

A globalização das séries

O espanhol Alex Pina notou os primeiros sinais de que havia criado uma patologia televisiva altamente contagiante no último Carnaval do Rio “Quando vi imagens de foliões usando nossas máscaras de Salvador Dali; pensei “A série pegou no Brasil”, disse o criador de La Casa de Papel. Logo em seguida, veio a comprovação de que o seriado criminal sobre um bando que invade a casa da moeda da Espanha com o insólito intuito não de roubar, mas de imprimir dinheiro, se alastraria como uma pandemia (apesar do roteiro bobinho). ”Torcedores surgiram com fantasias vermelhas no fim jogo de futebol na Arábia Saudita. E as máscaras invadiram uma festa de música eletrônica na Alemanha” diz. Para a felicidade do roteirista, a impressora não para de fazer dinheiro: La Casa de Papel é a série não falada em inglês mais vista pelos 125 milhões de usuários da Netflix. Em 12 de julho, a plataforma de streaming anunciou um acordo de exclusividade “mundial” com Pina. A onipresença das máscaras de Dali ilustra uma nova revolução no entretenimento: a globalização das séries.

Faz sentido estender o termo usado para celebrar a integração econômica planetária ao fenômeno em curso na TV. Nunca tantas produções oriundas de países tão diversos estiveram ao alcance de dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, os espectadores podem consumi-las não só com avidez, mas de forma simultânea.

 

O paralelo com a explosão das rotas mercantilistas, no século XVI, é inevitável. A Espanha exporta com sucesso La Casa de Papel e outra série para o Brasil, o restante da América Latina e boa parte da Europa. Dark suspense produzido na Alemanha, também “viaja bem” – para usar a expressão com que os executivos de TV se referem aos campeões de audiência no exterior. “Dark é um dos títulos mais visto pelos brasileiros na Netflix, informa Erik Barmack, executivo que comanda a área de língua não inglesa da plataforma. O intercâmbio também se dá no caminho inverso: O Negócio, produção da HBO que retrata o mundo da prostituição de luxo em São Paulo foi apreciada na Europa, primeira aposta nacional da Netflix, a ficção científica 3% fez sucesso nos Estados Unidos –   terra de um papa do gênero como J. J. Abrams. Samantha, que traz Emanuelle Araújo na pele de uma ex-estrela infantil, mal estreou na plataforma e já exibe bom desempenho na América Latina.

Trocas assim não são pontos fora da curva, mas parte de uma tendência robusta alimentada pelas mudanças tecnológicas. “Pense na televisão de antigamente. As pessoas podiam ver no máximo uma ou duas dezenas de séries, pois não havia espaço para o mundo inteiro na programação. Agora são milhares”. diz Barmack. Por décadas, de fato a maioria dos países consumia, essencialmente sua eventual safra local de séries ou grandes produções importadas de língua inglesa, em geral vindas da máquina de entretenimento de Hollywood, com toda a sua facilidade de distribuição mundial. O acesso a seriados de outras cores culturais tornou-se mais trivial com a popularização da TV paga, dada a quantidade cada vez maior de canais que tinham de preencher seu espaço com mais e mais atrações. Nesse caldo de crescente variedade internacional, uma empresa como a HBO passou a investir em tramas com sua grade em vários países – daí êxitos como O Negócio. Mas foi o advento dos serviços de streaming, com a Netflix à frente, que rompeu fronteiras definitivamente.

Há espaço para Deus e o mundo no catálogo da plataforma – e a possibilidade de disponibilizar esse manancial inesgotável para milhões de pessoas em 190 países pôs a TV, enfim, na era da “cauda longa”. Segundo o conceito do britânico Chris Anderson, a infinita capacidade de veicular e armazenar conteúdo na internet define a forma de consumir cultura e entretenimento na era digital. Se o efeito disso já era nítido na babel de vídeos do YouTube, com sua amplidão caótica, e muitas vezes amadorística de opções, impacto equivalente agora ocorre na indústria dos seriados, graças às plataformas de streaming.

Não à toa, um dos novos esportes dos espectadores é garimpar curiosidades – algumas só exóticas, outras de qualidade surpreendente – no feirão transnacional da Netflix.

Entre os milhares de títulos há um melodrama egípcio (Secret of the Nile), um gélido policial da Islândia (Trapped) ou um excelente drama político made in Croácia (O Jornal). Com sua imensa base de dados sobre o hábito dos espectadores, a Netflix devota-se no momento, ao desdobramento natural do fenômeno: a criação de uma genuína indústria mundial das séries. Da Alemanha à Índia a companhia já produz tramas originais em 21 países. O Brasil está bem colocado aí: cerca de uma dezena de projetos são anunciados. Para não ficar de fora da aldeia global, cada país se vira como pode.

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GESTÃO E CARREIRA

DESAFIOS PESSOAIS, DECISÕES COLETIVAS

Conheça histórias de superação que se tornaram negócios de sucesso e aprenda a identificar oportunidades nos problemas cotidianos.

Desafios pessoais, soluções coletivas

Vitória Frozi foi diagnosticada cedo com transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Não bastasse o desafio em si, virar personagem do Programa Super Nanny na América Latina reforçou. o bullying na escola. Mas o que parecia um problema acabou tornando-se inspiração. As dificuldades em casa levaram o pai, Gabriel Frozi, a criar a primeira escola bilingue para alunos com transtorno no Brasil. Primeiro, ele descobriu que sua filha fazia parte dos 5% de crianças e adolescentes que sofrem com a questão. Depois, que menos do 20% desses jovens conseguem um tratamento no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria. Hoje, a escola ainda treina gratuitamente professores da rede pública, para que saibam como atuar com esses estudantes, tornando-se o único colégio no País a desempenhar a atividade.

Mas não é de agora que dificuldades individuais viram soluções coletivas. Em uma Itália sem   suprimentos, durante a Segunda Guerra Mundial, a fome de Pietro Ferrero fez com que ele transformasse a falta de cacau em uma mistura que rendia mais, e se tomou o sucesso conhecido como Nutella. Isso mostra que cada época e contexto podem trazer à tona grandes empreendedores com soluções inovadoras. As pessoas com deficiência, por exemplo, estão entre os públicos mais fiéis às marcas, o que acaba tornando-se uma oportunidade de novos negócios. Apenas sobre problemas de visão, são cerca de 6,5 milhões de brasileiros em busca de facilidades da rotina.

Há anos, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), que representa os meios eletrônicos de pagamentos no País, investiu pesado nesse público. A empresa lançou este ano o aplicativo Pay Voice, que lê as informações de uma transação pela câmera do celular e traduz em áudio ao dono do aparelho. Além disso, trouxe ao mercado terminais de pagamento com uma película de identificação tátil, que permite à pessoa com deficiência visual reconhecer as teclas.

O MOMENTO DO INSIGHT

A grande dúvida é: quando uma dificuldade rotineira pode se tornar uma oportunidade de negócio? Todas as áreas possuem seus desafios próprios, mas a tecnologia pode ser um meio de encontrar novas saídas. “Com a evolução tecnológica, as áreas que não estão acompanhando essa tendência sofrem mais. Podemos observar o próprio comércio. Hoje compramos mais pelo celular de lojas não físicas do que físicas. Se o dono de loja física parar no problema, ele vai dar várias desculpas e arrumar críticas a este sistema, mas se ele olhar pela ótica da oportunidade, pode ter a sua loja física e online, para expandir limites. A área da educação tradicional sentiu essa mudança, os taxistas perceberam com a chegada do Uber. Enfim, podemos compreender que estamos em um movimento sem volta desta evolução e precisamos acompanhar para permanecer e crescer”, ressalta a CEO founder do instituto Rafaela Generoso de Desenvolvimento Humano, Rafaela Generoso.

Comece observando os principais desafios que você enfrenta. Seja um problema de saúde ou uma questão mais simples, empreender é conseguir olhar para as possíveis soluções que aquilo traz. O primeiro passo é manter a calma. Por mais difícil que pareça, Rafaela explica que olhar com otimismo para a situação pode clarear soluções. “A primeira batalha é a da mente, respire fundo e se concentre para essa primeira vitória. Uma vez que o pensamento estiver a seu favor, passe a olhar para os desafios investigando as suas causas assim poderá iniciar a busca por futuras oportunidades com a solução do problema”, completa.

Pense no consumidor sempre como alguém que precisa do seu produto para resolver um problema dele. Quais desafios vocês têm em comum?

Rafael lembra, por exemplo, que uma de suas antigas empresas tinha grande dificuldade em treinar e manter equipes trabalhando motivadas. Buscando as causas que levaram a isso, ela acabou se especializando no assunto e não apenas resolveu a questão, como viu nascer uma outra oportunidade: uma empresa focada em Treinamentos e Desenvolvimento de Pessoas e Negócios.

Outra maneira de identificar aquela chance de ouro nas dificuldades diárias é uma análise SWOT, que mostra seus pontos fortes e fracos, oportunidades e ameaças que o mercado pode oferecer de acordo com o que você sabe fazer, como esclarece o economista e consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Sérgio Dias.

Após o uso do método e uma boa avaliação dos resultados e a adaptação à sua realidade serão desafiadoras, mas também, vão agregar as principais ideias do seu novo negócio. Inclua nessas observações o que precisa ser melhorado ou corrigido para fazer dar certo.

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EURECA! O QUE EU FAÇO COM ISSO?

Você já listou sua dificuldade diária e distribuiu as variáveis na tabela SWOT. O Próximo passo é selecionar o que faz mais sentido dentro de sua análise e elaborar um bom plano de ações para enfrentar o desafio. “As dificuldades fazem com que você busque saídas e isso acaba proporcionando a oportunidade de pensar diferente e inovar. A inovação proporcionará um diferencial competitivo, que será apreciado pelo mercado e poderá mudar o rumo do negócio para melhor, lembra Dias.

O setor de serviços pode trazer insights interessantes que necessitam de baixo investimento e pouca infraestrutura. Um dos exemplos é Douglas de Albuquerque Alvarenga e seu grupo. O corretor de imóveis cursa Publicidade e Propaganda na Faculdade Mundial. Como trabalho de conclusão, precisou desenvolver uma empresa com aplicabilidade real. “A Titan é uma agência de marketing esportivo, onde já tenho experiência pude identificar a exclusão de milhares de garotos do futebol. Fizemos um estudo de campo e descobrimos um nicho de mercado ainda não explorado”, conta.

O projeto é uma ferramenta que faz a ponte direta entre crianças que jogam futebol e os grandes clubes sem passar por empresários e outros processos, visto que a pesquisa detectou falta de transparência por parte de grande parcela dos profissionais do ramo.

Já a área de saúde, principalmente aquelas envolvendo emagrecimento, fitness, estética e rejuvenescimento, também está em alta, assim como finanças e questões relacionadas à evolução tecnológica, como marketing digital.

Mas independentemente do segmento pelo qual decidiu, o ponto focal será sempre o cliente. Entender suas preferências, hábitos, necessidades e alternativas é essencial para apresentar uma proposta que faça sentido. “O mapeamento e conhecimento do perfil do cliente é a fonte para enxergar as oportunidades e elaborar soluções com uma proposta de valor que vai diferenciar seu negócio da concorrência”, ressalta o especialista do Sebrae.

Se você está com um problema de negócios e deseja resolver rapidamente, busque ajuda. “Esta ajuda pode ser de um consultor ou mentor que tem experiência com essa solução. Um mentor encurta caminhos”, lembra Rafaela. Porém, se a ideia é seguir sozinho seu rumo, responder às seguintes perguntas pode ajudar a ter clareza no projeto.

– Eu estou no negócio que vibra minha alma? Eu amo o que faço?  Eu percebo que meu negócio agrega valor na vida de outras pessoas? Por que ele existe? Para que ele existe?

– Qual problema minha empresa resolve? Qual diferença competitiva minha empresa tem dos concorrentes? Quais são os valores, missão e visão da minha empresa?

– O número de pessoas que tenho na minha equipe é dimensionado corretamente? Tenho na minha equipe alguém que pode me ajudar com este problema?

O próximo passo é focar a resolução do problema. Rafaela sugere uma dinâmica em que você primeiro escolhe mentalmente um empreendedor de sucesso, como Steve Jobs. Depois, pergunte-se o que ele faria nessa situação ou como resolveria a questão. É uma maneira lúdica de acessar rapidamente seus recursos internos para trazer uma solução inusitada.

TIRO CERTO

Erros comuns ao abrir um negócio incluem não ter um posicionamento forte, falta de foco em uma solução real e não deixar claro o que a empresa faz. Além disso, é preciso se preparar para fazer o gerenciamento correto das tarefas, além de capacitar com habilidades técnicas necessárias.

Desenvolva equipes com um bom planejamento estratégico e financeiro. Acompanhe o fluxo de caixa e agregue um bom contador ou tributarista. “O desafio estará presente em todas as áreas.  Umas com mais intensidade, outras com menos intensidade. Considero, nessa ordem, que os maiores desafios estarão no setor da indústria, pela necessidade de infraestrutura, equipamentos, tecnologia, e, principalmente planejamento de produção. Em segundo lugar, o comércio, pelas características de dependência do fornecedores e colaboradores, e, por último, a área de serviços, pois requer menor investimento e infraestrutura. Em todos os três setores, o desafio comum é a gestão”, completa Sergio Dias.

Quando o negócio surge de uma demanda pessoal, é preciso ter cuidado ainda para não misturar as emoções. Neste momento, respire fundo. Rafaela sugere olhar para o problema em terceira pessoa, observando por outros ângulos e buscando resolver o desafio. Canalizar a emoção para a racionalidade pode determinar a mudança de atitude.

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PRIMEIROS PASS0S

  • MANTENHA sua mente no aqui e agora, zerando as frustrações e pensamentos negativos.
  • TENHA consciência da sua competência e capacidade para resolver problemas.
  • BUSQUE ajuda necessária e pense como você pode ajudar pessoas na mesma situação.
  • FAÇA um plano de negócios estruturado.
  • TENHA um capital de giro para começar.
  • TENHA um bom contador.
  • TENHA um bom marketing e, de preferência, digital.
  • FAÇA planejamento estratégico e financeiro.
  • TENHA uma equipe enxuta e treinada.
  • MANTENHA-SE em evolução e sempre estudando junto com os que prosperam.
  • SE PRECISAR de ajuda, peça.
  • TENHA foco e força. Mesmo nas dificuldades, mantenha o ânimo.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 9:13-34 – PARTE – I

Alimento diário

A Reprovação dos fariseus. Esta reprovação é refutada

 

Poderíamos esperar que um milagre como este, que Cristo realizou no homem cego, teria estabelecido sua reputação, e silenciado e envergonhado toda a oposição, mas o resultado foi o oposto. Em vez de ser aceito como um profeta, Ele é perseguido como um criminoso.

I – Aqui está a informação que foi dada aos fariseus a respeito deste assunto: “Levaram, pois, aos fariseus o que dantes era cego”, v. 13. Eles o levaram ao grande Sinédrio, que consistia principalmente de fariseus. Os fariseus no Sinédrio eram os mais ativos contra Cristo.

1. Alguns pensam que aqueles que levaram este homem diante dos fariseus o fizeram com uma boa intenção, para mostrar a eles que este Jesus, a quem eles perseguiam, não era o que diziam dele, mas era realmente um grande home m, e alguém que dava provas consideráveis de uma missão divina. Aquilo que nos convencer da verdade e da excelência da religião, e remover nossos preconceitos contra ela, nós devemos ter a disposição, quando houver oportunidade, de oferecer aos outros, para sua convicção. 2. Na verdade, parece que eles fizeram isto com más intenções, para exasperar ainda mais os fariseus contra Cristo, e não havia necessidade disto, pois eles já eram suficientemente amargos por si mesmos. Eles o levaram com uma mentalidade semelhante à descrita em João 11.47,48: “Se o deixamos assim, todos crerão nele”. Observe que os governantes que têm um espírito perseguidor nunca desejarão ter; ao seu redor; instrumentos que irão soprar as brasas e torná-las piores.

II – O que se pretendia com esta informação, e o contexto em que foi expressa. Que nunca se fala mal daquilo que é bom, nem das pessoas boas, exceto quando alguém tenta lhes imputar algo mal. E o crime contra o qual se objeta aqui (v. 14) consistia no fato de que era sábado quando Jesus preparou o lodo, e abriu os olhos do homem. A profanação do dia do repouso certamente é pecaminosa, e dá ao homem um caráter muito mau, mas as tradições dos judeus tinham estabelecido como violações à lei do sábado coisas que estavam longe de sê-lo. Muitas vezes, a questão foi discutida entre Cristo e os judeus, para que fosse estabelecida de uma vez por todas, em benefício da igreja em todas as épocas. Mas alguém poderia perguntar: “Por que Cristo não abriu mão de realizar milagres no sábado, mas os realizou de maneira que Ele sabia que seria ofensiva aos judeus? Quando Ele curou o paralítico, por que Ele lhe pediu que carregasse sua cama? Ele não podia ter curado este cego sem fabricar lodo?” Eu respondo:

2. Ele não desejava dar a impressão de que cedia ao poder usurpado dos escribas e fariseus. O governo deles era ilegal, suas imposições eram arbitrárias, e o zelo que tinham pelos rituais consumiam aquilo que era substancial na religião. Por isto, Cristo não podia ceder-lhes com sujeição, nem por uma hora. Cristo estava constantemente sob a lei de Deus, mas não esteve um segundo sequer sob a lei deles.

3. Ele o fez para poder, tanto por palavras quando por atos, expor a lei do quarto mandamento, e defendê-la das observações corruptas daqueles homens. Desta maneira, o Senhor ensinou que as pessoas precisam ter um repouso semanal. Este seria um dia em sete (Pois que necessidade haveria aqui de explicar a lei, se ela seria imediatamente abolida?), e isto não deve ser observa do com tanta cerimónia por nós como era pelos judeus. As obras realizadas por necessidade e misericórdia são permitidas, e o descanso físico precisa ser proporcionado, não tanto pelo descanso em si, mas para permitir que sirvam os ao Senhor neste dia.

4. Cristo decidiu realizar curas no sábado para dignificar e santificar este dia, e para indicar que as curas espirituais devem ser realizadas principalmente no dia de repouso cristão. Quantos olhos cegos foram abertos pela pregação do Evangelho, este abençoado colírio, no dia do Senhor! Quanta s almas paralíticas foram curadas neste dia!

III – O julgamento e o exame desta questão pelos fariseus, v. 15. Tanta paixão, tanto preconceito e tanto mau humor, e tão pouca razão aparecem aqui, que o discurso é apenas um interrogatório. Poderíamos pensar que quando um homem nestas circunstâncias fosse trazido diante deles, eles fossem tomados por tamanha admiração pelo milagre, e parabenizassem o pobre homem por sua felicidade, a ponto de não poderem se irritar com ele. Mas sua inimizade com Cristo os tinha privado de qualquer humanidade, e também do senso de divindade. Vejamos como eles atormentaram este homem.

1. Eles o questionaram sobre a cura propriamente dita.

(1) Eles duvidaram que ele realmente tivesse nascido cego, e exigiram provas daquilo que até mesmo os acusadores tinham reconhecido (v. 18): eles “não creram”, isto é, não quiseram crer, “que ele tivesse sido cego”. Os homens que procuram uma oportunidade para discutir a respeito das verdades mais claras podem encontrá-las, se quiserem, e aqueles que decidem se agarrar ao engano nunca desejarão uma ajuda para deixá-lo. Isto não era um cuidado prudente, mas uma infidelidade preconceituosa. No entanto, este foi o caminho que eles tomaram para esclarecer os fatos: eles “chamaram os pais do que agora via”. Isto eles fizeram esperando contestar o milagre. Esses pais eram pobres e temerosos, e se tivessem dito que não podiam ter  certeza de que este era seu filho, ou que ele havia nascido apenas com alguma fraqueza ou algum obscurecimento na sua vista, que, se eles tivessem tido meios de conseguir ajuda, ele poderia ter sido curado há muito tempo, ou tivessem prevaricado de outra maneira, por temor à corte, os fariseus teriam ganho a discussão, teriam roubado de Cristo a honra deste milagre, acarretando assim a diminuição da reputação de todos os outros. Mas Deus organizou e dominou este conselho deles, de modo que ele se tornou a prova mais efetiva do milagre, e os deixou sob a necessidade de serem convencidos ou confundidos. Nesta parte da investigação, temos:

[1] As perguntas que fora m propostas aos pais (v.19): Eles lhes perguntaram, de uma maneira imperiosa e autoritária: “‘É este o vosso filho?’ Ousais jurar isto? Dizeis que ele nasceu cego? Tendes certeza disto? Ou será que ele apenas fingia ser cego, para ter uma desculpa para mendigar? ‘Como, pois, vê agora?’ Isto é impossível, e por isto é melhor que desmintais o fato”. Aqueles que não conseguem suportar a luz da verdade fazem tudo o que podem para eclipsá-la e ocultar sua revelação. Desta maneira, os que administram as evidências, ou melhor, que as administram mal, conduzem as testemunhas no caminho errado, e as ensinam como ocultar ou disfarçar a verdade, envolvendo-se, desta maneira, em uma culpa dupla, como aquela de Jeroboão, que pecou, e levou Israel a pecar.

[2] As respostas dos pais a este interrogatório, no qual: Em primeiro lugar, eles atestam completamente o que podiam dizer com segurança quanto a este tema. Com segurança, isto é, com base no seu próprio conhecimento, e com segurança, isto é, sem se arriscarem a ser considerados traidores (v. 20): “Sabemos que este é nosso filho” (pois conviviam com ele diariamente, e tinham um afeto natural por ele, como a mãe verdadeira de 1 Reis 3.26, o que os fazia saber que era seu filho) “e sabemos que ele nasceu cego”. Eles tinham motivos para saber disto, uma vez que isto lhes tinha provocado muita tristeza e muitas horas de preocupação. Com muita frequência, eles tinham pensado no seu filho com tristeza, e lamentado a cegueira dele mais do que todas as cargas e inconveniências da sua pobreza, e desejado que ele nunca tivesse nascido, em vez de ter nascido para uma vida tão incômoda! Aqueles que sentem vergonha dos seus filhos, ou de qualquer parente, por causa das suas deficiências físicas, podem receber uma reprovação destes pais, que livremente reconheciam: “Este é ‘nosso filho’, embora tenha nascido cego e viva de esmolas”.

Em segundo lugar, eles cuidadosamente evitam dar qualquer evidência a respeito da sua cura. Parcialmente porque eles mesmos não tinham sido testemunhas dela e não podiam afirmar nada de seu próprio conhecimento, e parcialmente porque achavam que era um assunto delicado, que não devia ser discutido. E, portanto, tendo reconhecido que ele era seu filho, e que era cego de nascença, já não dizem mais nada.

A. Observe a maneira cuidadosa com que se expressam (v. 21): “‘Mas como agora vê não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos não sabemos’. Nós não podemos explicar de que maneira isto foi feito, nem por intermédio de quem”. Veja como a prudência deste mundo ensina os homens a resumir o assunto em situações críticas. Cristo foi acusado de infringir o sábado e de ser um impostor. Os pais do cego, embora não tivessem sido testemunhas oculares da cura, ainda assim tinham uma certeza completa dela, e se sentiam obrigados, pela gratidão, a dar testemunho para a honra do Senhor Jesus, que tinha concedido ao seu filho uma bondade tão grande. Mas eles não tiveram a coragem de fazê-lo, e talvez tenham pensado que o fato de não dizerem nada para prejudicar a Cristo poderia compensar o fato de não dizerem nada a favor dele. Contudo, no dia do julgamento, aquele que não for declaradamente a favor de Cristo será, com razão, considerado como sendo contra Ele, Lucas 11.23; Marcos 8.38. Para que não sejam mais questionados a este respeito, eles sugerem que se pergunte ao filho: “Tem idade; perguntai-lho a ele mesmo, e ele falará por si mesmo”. Isto dá a entender que enquanto os filhos não tiverem idade (enquanto sejam crianças, como as que ainda não falam), é dever dos pais falar por eles, falar com Deus por eles, em oração, falar com a igreja por eles, no batismo. Mas quando já tiverem idade, é adequado que sejam questionados se desejam confirmar aquilo que seus pais fizeram por eles, e então possam falar por si mesmos. Este homem, embora fosse cego de nascença, parece ter tido conhecimento superior a muitos, o que o capacitou a falar por si mesmo melhor do que seus amigos podiam falar por ele. Desta forma, Deus, frequentemente por meio de uma gentil providência, compensa na mente o que falta no corpo, 1 Coríntios 12.23,24. O fato de que seus pais recomendassem que os judeus falassem com seu filho somente tencionava livrá-los do problema e expô-lo, ao passo que aqueles que tinham um interesse tão grande pela graça que ele tinha recebido tinham motivos para assumir com ele os riscos pela honra daquele Jesus que tinha feito tanto por eles.

B. Veja a razão pela qual eles foram tão cautelosos (vv. 22,23): “Porque temiam os judeus”. Não foi porque eles desejassem honrar seu filho, fazendo dele seu próprio advogado, ou porque desejavam ter o assunto esclarecido pela pessoa mais indicada, mas porque queriam evitar problemas, como a maioria das pessoas tende a fazer, sem se preocupar sobre quem os joga. Meu amigo está próximo, e meu filho está próximo, e talvez minha religião esteja próxima, porém mais próximo estou eu. Mas o cristianismo ensina outra lição,1 Coríntios 10.24; Ester 8.6. Aqui temos:

(a) A última lei que o Sinédrio tinha criado. Pela sua autoridade, tinha se decidido e decretado “que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga”. Observe:

[a] O crime a ser punido, e evitado, por este estatuto, que era a aceitação de Jesus de Nazaré como sendo o Messias prometido, e a manifestação disto por qualquer ato declarado, o que equivaleria a confessá-lo. Eles mesmos esperavam um Messias, mas não podiam, de maneira nenhuma, suportar o pensamento de que este Jesus pudesse ser este adorável Messias, nem admitiam que se perguntasse se Ele era ou não o Messias, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque seus preceitos eram completamente contrários às suas leis tradicionais. A adoração espiritual que Ele prescrevia abolia suas formalidades. Nada destruía, de maneira mais eficaz, sua singularidade e sua estreiteza de espírito do que aquela caridade universal que Jesus ensinava. A humildade e a mortificação, o arrependimento e a renúncia de si mesmo, eram lições novas para eles, e pareciam duras e estranhas aos seus ouvidos. Em segundo lugar, porque suas promessas e manifestações eram muito contrárias às esperanças deles. Eles esperavam um Messias em pompa e esplendor externos, que não somente libertas­ se a nação do jugo romano, mas promovesse a grandeza do Sinédrio e tornasse todos os seus membros príncipes e nobres. E agora, ouvir de um Messias cujas circunstâncias externas eram todas humildes e pobres, cuja primeira aparição e residência principal eram na Galileia, uma província desdenhada; que nunca os tentava adular, nem procurava seus favores, cujos seguidores não eram, em sua maioria, espadachins nem acadêmicos, nem homens de honra, mas pescadores desprezíveis; que não propunha nem prometia nenhuma redenção, exceto a do pecado, nenhum consolo para Israel, exceto o espiritual e divino, e, ao mesmo tempo, aconselhava seus seguidores a esperarem a cruz, e terem certeza da perseguição. Isto era uma reprovação tão grande a todas as ideias com que eles tinham formado e enchido a mente do seu povo, um golpe tão grande contra seu poder e seus interesses, e um desapontamento tão grande de todas as suas esperanças, que eles nunca poderiam aceitar, nem ouvir com paciência, mas, certo ou errado, isto deveria ser esmagado.

[b] A punição a ser infligida por este crime. Se alguém mostrasse ser um discípulo de Jesus, ele deveria ser considerado como um apóstata da fé da igreja judaica, e um rebelde e traidor contra seu governo, e, portanto, deveria ser expulso da sinagoga como alguém que tinha se mostrado indigno das honras e despreparado para os privilégios da sua igreja. Ele deveria ser excluí­ do, expulso da comunidade de Israel. Isto não era mera­ mente uma censura eclesiástica, que um homem sem consciência da autoridade da igreja judaica poderia menosprezar, mas, na verdade, era uma ilegalidade que excluía um homem do comércio civil e o privava da sua liberdade e das suas propriedades. Observe que, em primeiro lugar, a santa religião de Cristo, desde seu nascimento, tinha enfrentado oposição por leis penais criadas contra os que a professavam. Era como se as consciências dos homens as aceitassem naturalmente, porém esta força antinatural os vitimasse. Em segundo lugar, quando o comando da igreja cai em mãos erradas, a artilharia dela frequentemente se volta contra si mesma, e as censuras eclesiásticas passam a servir a um interesse carnal e secular. Não é novidade ver expulsas da sinagoga aquelas pessoas que eram suas maiores bênçãos, e ouvir os que as expulsaram dizendo: “O Senhor seja glorificado”, Isaías 66.5. Sobre este decreto, sabe-se:

1. Que os judeus o tinham determinado, ou planejado. Seu conselho e sua comunhão eram uma conspiração perfeita contra a coroa e a dignidade do Redentor, contra o Senhor e seu Ungido.

2. Que eles já haviam tomado uma decisão. Embora Jesus tivesse estado apenas alguns poucos meses manifestando-se publicamente entre eles, e, alguém poderia pensar, em tão pouco tempo não poderia ter-lhes provocado inveja, ainda assim, dentro de pouco tempo, eles se deram conta do interesse crescente que Ele despertava, e imediatamente concordaram em fazer o máximo que pudessem para refreá-lo. Recentemente, Ele tinha escapado do Templo e, quando se viram frustrados nos seus esforços de prendê-lo, imediatamente tomaram este caminho, o de tornar ilegal que qualquer pessoa o reconhecesse. Os inimigos da igreja e seus conselhos são unânimes e diligentes a este ponto, mas aquele que está no céu se ri deles, e zomba deles, e nós podemos fazer o mesmo.

(b) A influência que esta lei teve sobre os pais do cego.

Eles se negaram a dizer qualquer coisa sobre Cristo, e indicaram que falassem com seu filho, porque temiam os judeus. Cristo tinha provocado o governo ao fazer uma bondade ao seu filho, mas eles não desejavam provocá-lo, dedicando nenhuma honra a Jesus. Observe que “o receio do homem armará laços” (Provérbios 29.25), e frequentemente fará com que as pessoas neguem e reneguem a Cristo, e às suas verdades, e aos seus caminhos, e ajam contra suas consciências. Bem, os pais assim se desembaraçaram, e foram dispensados de qualquer outro interrogatório. Agora vejamos o interrogatório do próprio cego. A dúvida dos fariseus, quanto ao homem ser ou não cego de nascença, já tinha sido eliminada por seus pais, e, portanto:

(2) Eles lhe perguntaram a respeito do método da cura, e fizeram suas observações sobre isto, vv. 15,16.

[1] A mesma pergunta que seus conhecidos lhe tinham feito, agora, novamente, os fariseus lhe faziam: como ele tinha recebido a visão. Eles não perguntavam isto com qualquer desejo sincero de descobrir a verdade, comparando a informação com a notícia original, mas com o desejo de encontrar uma oportunidade contra Cristo. Pois, se o homem curado relatasse detalhadamente o assunto, eles provariam que Cristo tinha infringido o sábado. Se ele não relatasse de acordo com sua história original, eles teriam algum pretexto para suspeitar que tudo fosse um conluio.

[2] A mesma resposta, na verdade, que ele tinha dado antes aos seus conhecidos, aqui ele repete aos fariseus: “Pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me e vejo”. Aqui ele não fala sobre a fabricação do lodo, pois, na verdade, é provável que ele não a tenha visto. Este de­ talhe não era essencial, e poderia dar aos fariseus uma oportunidade contra ele, e por isto ele o omite. No relato anterior, ele havia dito: “Lavei-me e vi”, mas para que eles não pensassem que tinha sido somente um relance momentâneo, que uma imaginação fértil podia se permitir pensar, agora ele diz: “Vejo”. Trata-se de uma cura completa e duradoura.

[3] As observações feitas sobre esta história eram muito diferentes, e provocaram um debate na corte, v. 16. Em primeiro lugar, alguns aproveitam esta ocasião para censurar e condenar a Cristo pelo que Ele tinha feito. Alguns dos fariseus diziam: “Este homem não é de Deus”, como finge ser, “pois não guarda o sábado”.