ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 8: 51-59

Alimento diário

As Palavras de Cristo aos fariseus

 

Nestes versículos:

I – A doutrina da imortalidade dos crentes é estabelecida, v. 51. Ela é apresentada com o prefácio solene usual: “Em verdade, em verdade vos digo”, o que exige atenção e também aceitação, e isto é o que Ele diz: “Se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte”. Aqui temos:

1. O caráter de um crente: ele é alguém que observa as palavras do Senhor Jesus. “Esta minha palavra que Eu transmiti a vocês”. Isto nós não somente devemos receber, mas guardar; não somente ter, mas reter. Nós devemos guardá-la na mente e na memória, guardá-la em amor e afeição, guardá-la de modo a não violá-la ou ir contra ela, guardá-la “sem mácula” (1 Timóteo 6.14), guardá-la como algo confiado a nós, guardá-la como nosso caminho, como nossa lei.

2. O privilégio de um crente: ele não verá a mor te para sempre, de maneira alguma. Isto é o que está escrito no original. Não como se os corpos dos crentes estivessem protegidos do golpe da morte. Não, até mesmo os filhos do Altíssimo devem morrer como homens, e os seguidores de Cristo estiveram, mais do que outros homens, frequentemente à morte. e eram mortos todo o tempo. Como. então, esta promessa de que eles não veriam a morte poderia ser cumprida? Resposta:

(1) A propriedade da morte é tão alterada para aqueles que guardam as palavras de Jesus, que eles não a veem como morte, não veem o temor da mor te, ele é removido. Sua visão não termina na morte, como a daqueles que vivem segundo os sentidos. Não. Eles veem com tanta clareza, com tanto conforto, através da morte, e além dela, e são levados de tal maneira ao outro lado da morte, que não percebem a morte, e não a veem.

(2) O poder da morte está tão rompido, que, embora não exista remédio, a não ser ver a morte, ainda assim eles não verão a morte para sempre, não estarão para sempre encerrados na sua prisão, virá o dia em que “cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória”.

(3) Eles são libertados perfeitamente da morte eterna, não receberão “o dano da segunda morte”. Esta é a morte à qual se faz referência aqui, esta morte que é para sempre, que é o oposto da vida eterna. Isto eles nunca verão, pois nunca serão condenados. Eles terão sua sorte eterna onde não haverá mais morte, onde já não podem mais morrer, Lucas 20.36. Embora agora eles não possam evitar ver a morte, e senti-la, ainda assim em breve eles estarão onde nunca mais a verão para sempre, Êxodo 14.13.

II – Os judeus criticam esta doutrina. Em vez de se apegarem a esta preciosa promessa de imortalidade, que a natureza do homem ambiciona (Quem não ama a vida e teme a visão da morte?), eles aproveitam esta oportunidade para reprovar aquele que lhes faz uma oferta tão gentil: “Agora, conhecemos que tens demônio. Morreu Abraão”. Observe aqui:

1. Sua ofensa: ”Agora, conhecemos que tens demônio, que estás louco. Estás delirando, e não sabes o que estás dizendo”. Veja como estes porcos pisoteiam as preciosas pérolas das promessas do Evangelho. Se eles tivessem evidências para provar que Ele estava louco, por que disseram (v.48), antes que tivessem esta prova: “Tens demônio”? Mas este é o método da maldade, primeiramente lançar uma acusação dolorosa, e depois procurar a evidência dela: ”Agora, conhecemos que tens demônio”. Se Ele não tivesse provado, com evidências abundantes, ser um mestre vindo de Deus, suas promessas de imortalidade aos seus seguidores crédulos podiam, com razão, ser ridicularizadas, e a própria caridade teria lhes sido imputada como uma fantasia desvairada. Mas sua doutrina era, evidentemente, divina, seus milagres confirmavam isto, e a religião dos judeus os tinha ensinado a esperar um profeta como este, e a crer nele. Portanto, rejeitá-lo significava abandonar aquela promessa que suas doze tribos esperavam alcançar, Atos 26.7.

2. O raciocínio deles, e a desculpa que tinham para persegui-lo desta maneira. Em resumo, eles o consideravam culpado de uma arrogância insuportável, ao fazer-se maior que ”Abraão e os profetas”: “Morreu Abraão e os profetas”, eles também morreram. Realmente, era verdade, da mesma maneira como estes judeus eram a descendência genuína daqueles que os tinham assassinado. Veja:

(1) É verdade que Abraão e os profetas eram grandes homens, grandes na graça de Deus, e grandes na estima de todos os homens bons.

(2) É verdade que eles guardavam as palavras de Deus, e eram obedientes a elas. E ainda assim:

(3) Ê verdade que eles morreram. Eles nunca pretenderam ter, e muito menos dar, a imortalidade, mas cada um deles, na sua própria ordem, foi “congregado ao seu povo”. O fato de terem “morrido na fé” foi uma honra para eles, mas eles deviam morrer. Por que um homem bom deveria ter medo de morrer, quando Abraão está morto, e os profetas estão mortos? Eles percorreram o caminho pelo vale escuro, o que deveria nos reconciliar com a morte e ajudar a remover o terror dela. Agora eles pensam que Cristo fala como louco, quando diz: “Se alguém guardar a minha palavra, nunca provará a morte”. Provar a morte significa a mesma coisa que ver a morte, e a morte pode muito bem ser representada como dolorosa para nossos diversos sentidos, pois ela é a destruição de todos eles. Mas a argumentação dos judeus se baseava em dois enganos:

[1] Eles entendiam que Cristo tinha a imortalidade neste mundo, e isto era um engano. No sentido em que Cristo falava, não era verdade que Abraão e os profetas estivessem mortos, pois Deus ainda é o Deus de Abraão e o Deus dos santos profetas (Apocalipse 22.6). “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22.32). Portanto, Abraão e os profetas ainda estão vivos, e, como Cristo queria dizer, não tinham visto nem prova­ do a morte.

[2] Eles pensavam que ninguém poderia ser maior do que Abraão e os profetas, ao passo que não podiam deixar de saber que o Messias seria maior do que Abraão ou qualquer um dos profetas. Eles agiram virtuosamente, mas Ele os excedeu a todos. Na verdade, eles emprestaram dele sua grandeza. Era uma honra para Abraão que o Messias fosse seu descendente segundo a carne, e uma honra para os profetas o fato de que testemunhassem de antemão a respeito dele, de modo que Ele certamente herdasse “mais excelente nome do que eles”. Portanto, em vez de deduzir, quando Cristo afirmou ser maior do que Abraão, que Ele tivesse um demônio, eles deviam ter deduzido, quando Ele provou que o era (realizando as obras que nem Abraão nem os profetas jamais tinham realizado), que Ele era o Cristo, mas seus olhos estavam cegos. Eles perguntaram, com escárnio: “Quem te fazes tu ser?” Como se Ele tivesse sido culpado de orgulho e vanglória. Mas Ele estava tão longe de se fazer maior, que agora lançou um véu sobre sua própria glória, esvaziou-se e se tornou menor do que era, e este foi o maior exemplo de humildade que já houve.

 

III – A resposta de Cristo a estas críticas. Ele ainda condescende em argumentar com eles, “para que toda boca esteja fechada”. Sem dúvida, Ele podia tê-los tornado surdos ou mortos ali mesmo, mas este era o dia da sua paciência.

1. Na sua resposta, Ele não insiste no seu próprio testemunho a seu respeito, mas desiste dele, como sendo insuficiente ou não conclusivo (v. 54): “Se eu me glorifico a mim mesmo”, “a minha glória não é nada”. Observe que a honra própria não é honra, e a simulação de glória é tanto sua perda quanto sua rescisão. Isto “não é glória” (Provérbios 25.27), mas uma censura tão grande, que não existe pecado que os homens se esforcem mais para esconder do que este. Nem mesmo aquele que mais simula estar louvando ao Senhor deseja ser imaginado fazendo-o. A honra que nós mesmos criamos é uma mera quimera, não contém nada, e por isto é chamada de vanglória. Os que admiram a si mesmos, enganam a si mesmos. Nosso Senhor Jesus não era alguém que honrasse a si mesmo, como eles o apresentavam. Ele era coroado por aquele que é a fonte de honra, e não se glorificou a si mesmo, para se fazer Sumo Sacerdote, Hebreus 5.4,5.

2. Ele faz referência ao seu Pai, Deus, e ao pai deles, Abraão.

(1) Ao seu Pai, Deus: “Quem me glorifica é meu Pai”. Com isto, Ele quer dizer:

[1] Que Ele obtinha do seu Pai toda a honra que agora reivindicava. Ele tinha ordenado que eles cressem nele, que o seguissem e que guardas­ sem sua palavra, tudo o que lhe conferia honra, mas era o Pai que o ajudava, que armazenava em si toda a plenitude, que o santificava, e o confirmava, e o enviava ao mundo para receber todas as honras devidas ao Messias, e isto o justificava em todas estas questões de respeito.

[2] Que Ele dependia do seu Pai para ter toda a honra que, mais adiante, esperava. Ele não desejava os aplausos da época, mas os desprezava, pois seus olhos e seu coração estavam sobre a glória que o Pai lhe tinha pro­ metido, e que Ele tinha com o Pai “antes que o mundo existisse”. Ele desejava a honra com a qual o Pai iria exaltá-lo, e um nome que o Pai lhe daria, Filipenses 2.8,9. Observe que Cristo e todos os que são seus dependem de Deus para serem honrados, e aquele que tem a certeza de que será honrado onde é plenamente conhecido não se importará em ser desprezado no local onde está disfarçado. Apelando assim ao seu Pai, e ao testemunho que seu Pai daria a respeito dele, um testemunho que os judeus ainda não aceitavam nem davam crédito: Em primeiro lugar, aqui Ele aproveita para mostrar-lhes a razão da sua incredulidade, apesar deste testemunho – e era sua pouca familiaridade com Deus. Como se Ele tivesse dito: “Mas por que Eu deveria falar com vocês que meu Pai me honra, quando Ele é alguém que vocês não conhecem? Vocês dizem que Ele é seu Deus, mas vocês não o conhecem”. Observe aqui:

A. A confissão que eles faziam em relação a Deus: “Vocês dizem que Ele é seu Deus, o Deus que vocês escolheram, e com quem vocês têm um concerto. Vocês dizem que são o Israel de Deus, mas “nem todos os que são de Israel são israelitas”, Romanos 9.6. Observe que muitos fingem ter um interesse por Deus, e dizem que Ele é deles, mas não têm nenhuma razão justa para dizerem isto. Aqueles que se diziam ser o templo do Senhor, tendo profanado a excelência de Jacó, somente confiavam em palavras falsas. De que nos servirá dizer: “Ele é nosso Deus”, se não formos, sinceramente, seu povo, nem formos tais que Ele reconheça? Cristo aqui menciona a confissão que eles faziam com relação a Deus como um agravamento à sua incredulidade. Todas as pessoas honrarão aqueles a quem seu Deus honra, mas estes judeus, que diziam que o Senhor era seu Deus, tramavam como poderiam trazer a desgraça maior sobre aquele a quem Deus honrava. Observe que a confissão que fazemos de uma relação de concerto com Deus, e do nosso interesse por Ele, se não for aproveitada por nós, será aproveitada contra nós.

B. A ignorância deles a respeito dele, e sua separação dele, com a seguinte afirmação: “Vós não o conheceis”.

(a) “Vocês realmente não o conhecem”. Estes fariseus estavam tão absorvidos no estudo das suas tradições a respeito de coisas diferentes e insignificantes, que não se preocuparam com o conhecimento mais necessário e útil. Como os falsos profetas de antigamente, que, pelos seus sonhos, faziam com que as pessoas esquecessem o nome de Deus, Jeremias 23.27. Ou:

(b) “Vocês não o conhecem corretamente”, mas se enganam a respeito dele, e isto é tão ruim quanto não conhecê-lo completamente, ou ainda pior. Os homens podem discutir astutamente a respeito de Deus, e ainda assim julgá-lo como se Ele fosse alguém como eles, e não conhecê-lo. “Vocês dizem que Ele é seu, e é natural que desejemos conhecer os que são nossos, mas vocês não o conhecem”. Observe que há muitos que se dizem parentes de Deus que, no entanto, não têm conhecimento dele. Eles somente aprenderam a falar do nome de Deus, e a temê-lo, mas da natureza de Deus, dos seus atributos e suas perfeições, e do seu relaciona­ mento com suas criaturas, eles não conhecem nada. Eles dizem isto para sua vergonha, 1 Coríntios 15.34. As multidões se satisfazem, mas se enganam, com uma relação nominal com um Deus desconhecido. Aqui, o Senhor Jesus Cristo acusa os judeus de estarem vivendo esta situação:

[a] Para mostrar como eram vãs e infundadas suas pretensões de se relacionarem com Deus. “Vocês dizem que Ele é de vocês, mas vocês se enganam, pois está claro que não o conhecem”. E nós reconheceremos que os trapaceiros serão efetivamente culpados se descobrirmos que eles são ignorantes sobre as pessoas com as quais fingem ter uma aliança.

[b] Para mostrar a verdadeira razão pela qual eles não se transformavam pela doutrina e pelos milagres de Cristo. Eles não conheciam a Deus, e por isto não percebiam a imagem de Deus, nem a voz de Deus, em Cristo. Observe que a razão pela qual os homens não recebem o Evangelho de Cristo se deve ao fato de que eles não conhecem a Deus. Os homens não se submetem à justiça de Cristo porque não conhecem a justiça de Deus, Romanos 10.3. Aqueles que não conhecem a Deus, e não obedecem ao Evangelho de Cristo, estão juntos, 2 Tessalonicenses 1.8.

Em segundo lugar, Ele lhes dá a razão da sua certeza de que seu Pai o honraria e reconheceria: “Mas eu conheço-o”, e outra vez: “conheço-o”, o que indica, não somente sua familiaridade com Ele, tendo estado no seu seio, mas sua confiança nele, de estar ao seu lado e sustentá-lo na sua missão. Como foi profetizado a seu respeito (Isaias 50.7,8): “Sei que não serei confundido. Perto está o que me justifica”. E como Paulo: “eu sei em quem tenho crido” (2 Timóteo 1.12), Eu sei que Ele é fiel, e poderoso, e sinceramente envolvido na causa que Eu sei que é dele”. Observe:

1. Como Ele professa o conhecimento que tem do seu Pai, com a maior certeza, como alguém que não sentia medo ou vergonha de admiti-lo: “Se disser que não o conheço, serei mentiroso como vós”. Ele não negaria sua relação com Deus, o Pai, para satisfazer aos judeus e para evitar suas reprovações, evitando assim problemas maiores, nem retiraria o que tinha dito, ou confessaria ter sido enganado ou enganador. Se o fizesse, Ele estaria dando um falso testemunho contra Deus, o Pai, e contra si mesmo. Observe que aqueles que negam sua religião e sua relação com Deus, como Pedro, são mentirosos, tanto quanto o são os hipócritas, que fingem conhecê-lo, quando não o conhecem. Veja 1 Timóteo 6.13,14. O Sr. Clark bem observa, com isto, que é um grande pecado negar a graça de Deus em nós.

2. Como Ele prova o conhecimento que tem do seu Pai: “Conheço-o e guardo a sua palavra”. Cristo, como homem, obedecia à lei moral, e como Redentor, à lei de mediação, e em ambas as condições, Ele guardava a palavra do seu Pai, e sua própria palavra com o Pai. Cristo exige de nós (v.51) que guardemos suas palavras, e Ele foi, para nós, um exemplo de obediência, um exemplo sem máculas. Ele guardava a palavra do seu Pai. Aquele que “aprendeu a obediência” bem podia ensiná-la. Veja Hebreus 5.8,9. Cristo, com isto, evidenciava que conhecia o Pai. Observe que a melhor prova de que conhecemos a Deus é nossa obediência a Ele. Somente aqueles que conhecem corretamente a Deus guardam sua palavra. Isto é uma regra, 1 João 2.3. “Nisto sabemos que o conhecemos:”, e não somente imaginamos que o conhecemos, “se guardarmos os seus mandamentos”.

(2) Cristo fala daquele que eles consideravam como pai, e de cuja descendência se vangloriavam tanto, Abraão, e isto encerra seu sermão.

[1] Cristo confirma a esperança que Abraão tinha dele, e o respeito que sentia por Ele: ”Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se”, v. 56. E com isto, Ele prova que não estava errado quando se fez maior do que Abraão. Duas coisas Ele diz aqui, como exemplos do respeito daquele patriarca ao Messias prometido:

Em primeiro lugar, a ambição que ele tinha de ver seu dia: ele exultou, ele pulou de alegria. A palavra, embora normalmente signifique exultar, aqui deve significar um desejo arrebatador, e não apenas uma alegria, pois, de outra maneira, a segunda parte do versículo seria uma tautologia. Ele “viu-o”, e “alegrou-se”. “Ele se moveu, ou se esforçou, para que pudesse ver meu dia”. Como Zaqueu, que correu adiante, e subiu na figueira para “ver quem era Jesus”. As notícias que Zaqueu tinha recebido a respeito do Messias que vi­ ria tinham despertado nele uma expectativa de algo grande, do que ele fervorosamente desejava conhecer mais. A insinuação obscura daquilo que é considerável faz os homens investigarem, e perguntarem ansiosa­ mente: Quem? O que? Onde? Quando? Como? E assim os profetas do Antigo Testamento, tendo uma ideia geral de uma graça que viria, inquiriram diligentemente (1 Pedro 1.10), e Abraão se mostrou, aqui, tão empenhado quanto qualquer um deles. Deus lhe falou de uma terra que daria à sua posteridade, e lhe falou da riqueza e da honra que lhes designava (Genesis 15.14), mas ele nunca saltou desta maneira, para ver este dia, como saltou para ver o dia do Filho do homem. Ele não podia olhar com tanta indiferença para a semente prometida, como poderia olhar para a terra prometida. Para esta, ele era um estranho, mas para a outra, ele não poderia ser. Observe que aqueles que conhecem corretamente alguma coisa a respeito de Cristo não podem deixar de desejar ardentemente conhecer mais sobre Ele. Aqueles que discernem o amanhecer da luz do Sol da Justiça não podem deixar de desejar ver seu nascer. O mistério da redenção é aquele que os anjos desejam conhecer cada vez mais, e muito mais deveríamos nós, que temos um interesse mais imediato nele. Abraão desejou ver o dia de Cristo, embora ele estivesse a uma grande distância, mas esta sua semente degenerada não discernia seu dia, nem lhe deu as boas-vindas, quando esse dia chegou. A aparição de Cristo, que as almas graciosas amam e desejam, os corações carnais temem e odeiam.

Em segundo lugar, a satisfação que ele sentiu com o que viu: “Viu-o, e alegrou-se”. Observe aqui:

1. Como Deus satisfez o desejo piedoso de Abraão. Ele desejava ver o dia de Cristo, e o viu. Embora ele não visse tão claramente, e plenamente, e distintamente, como nós agora o vemos sob o Evangelho, ainda assim ele viu alguma coisa dele, mais, posteriormente, do que tinha visto a princípio. Observe que ao que tem, e ao que pedir, ser-lhe- á dado. Àquele que usar e aproveitar o que tem, e que desejar e orar, pedindo mais conhecimento de Cristo, Deus dará mais. Mas como Abraão viu o dia de Cristo?

(a) Alguns entendem que se trate da visão que Abraão teve, no outro mundo. A alma separada de Abraão, quando o véu da carne se rasgou, viu os mistérios do reino de Deus no céu. Calvino menciona esta possibilidade, e não a descarta. Observe que o desejo das almas graciosas por Jesus Cristo será plenamente satisfeito quando forem para o céu, e não antes disto. Mas

(b) Isto se entende mais comumente como alguma visão que ele tenha tido do dia de Cristo neste mundo. Aqueles que não receberam as promessas, ainda assim as viram de longe, Hebreus 11.13. Balaão viu a Cristo, mas não em seus dias, não de perto. Há espaço para conjeturar que Abraão teve alguma visão de Cristo e do seu dia, para sua própria satisfação pessoal, o que não está, nem deve estar, registrado na sua história, como a de Daniel, que deveria ser fechada e selada até o fim do tempo, Daniel 12.4. Cristo sabia, melhor do que Moisés, o que Abraão viu. Mas há diversas coisas registradas, nas quais Abraão viu mais daquilo que desejava ver do que viu quando a promessa lhe foi feita. Ele viu em Melquisedeque alguém “semelhante ao Filho de Deus”, e um sacerdote eterno. Ele viu uma aparição de Jeová, assistido por dois anjos, nos carvalhais de Manre. Na superioridade da sua intercessão por Sodoma, ele viu um modelo da intercessão de Cristo. Na expulsão de Ismael, e no estabelecimento do concerto com Isaque, ele viu um modelo do dia do Evangelho, que é o dia de Cristo, pois estas coisas eram uma alegoria. Ao oferecer Isaque, e o cordeiro no lugar de Isaque, ele viu um duplo tipo do grande sacrifício, e o fato de que chamasse o lugar de Jehovah-jireh será visto indica que ele viu mais nele do que outros, coisas que o tempo iria trazer. E ao pedir que seu servo pusesse a mão debaixo da sua coxa, ao jurar, ele teve uma consideração para com o Messias.

2. Como Abraão recebeu estas revelações do dia de Cristo, e lhes deu as boas-vindas: “Viu-o, e alegrou-se”. Ele se alegrou com o que ele viu da graça de Deus para si mesmo, e com o que ele previu da misericórdia que Deus tinha reservada para o mundo. Talvez isto nos lembre do riso de Abraão, quando Deus lhe prometeu um filho gerado por Sara (Genesis 17.16,17), pois aquele não era um riso de falta de confiança, como o de Sara, mas de alegria. Naquela promessa, ele viu o dia de Cristo, e isto o encheu de uma alegria indescritível. Assim, ele aceitou as promessas. Observe que uma visão de Cristo e do seu dia, com fé, irá colocar alegria no coração. Não há alegria como a alegria da fé. Ninguém jamais sentirá o verdadeiro prazer, até que conheça a Cristo.

[2] Os judeus criticaram isto, e tentaram reprovar Jesus por isto (v. 57): ”Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?” Aqui, em primeiro lugar, eles supõem que se Abraão o viu, e ao seu dia, Ele também tinha visto a Abraão, o que não era uma indicação indireta, mas esta mudança nas suas palavras serviria para expô-lo. Porém, era verdade que Cristo tinha visto a Abraão, e tinha conversado com Ele, como um homem conversa com seu amigo. Em segundo lugar, eles supõem que era uma coisa absurda que Ele pretendesse ter visto a Abraão, que estava morto há tantos séculos antes que Ele nas­ cesse. O estado dos mortos é um estado invisível, mas aqui eles caem no antigo engano, compreendendo corporalmente o que Cristo falava espiritualmente. Isto lhes deu oportunidade para desprezar a juventude de Cristo, e para recriminá-lo por isto, como se Ele fosse jovem de­ mais, e não soubesse nada: ”Ainda não tens cinquenta anos”. Eles podiam igualmente ter dito: ”Ainda não tens quarenta anos”, pois agora Ele teria apenas trinta e dois ou trinta e três anos de idade. Quanto a este tema, Irineu, um dos primeiros patriarcas da igreja, usando esta passagem, apoia a tradição que ele diz que obteve através de algumas pessoas que tinham convivido com o apóstolo João, de que nosso Salvador viveu até os cinquenta anos de idade. Ele discute esta hipótese em sua obra, Advers. Haeres., liv. 2, caps. 39 e 40. Veja como se deve dar pouco crédito à tradição. E, quanto a isto, os judeus falaram aqui de maneira aleatória. Eles iriam mencionar alguma idade, e por isto tomaram uma da qual julgaram que Ele estivesse bastante distante. O Senhor Jesus não parecia ter quarenta anos, mas eles tinham a certeza de que Ele não poderia ter cinquenta, e muito menos ser contemporâneo de Abraão. Considerava-se que a velhice começava aos cinquenta anos (Números 4.47), de modo que eles queriam dizer nada mais que o seguinte: “Você não deve ser considerado um homem velho. Muitos de nós somos muito mais velhos que você, e não pretendemos ter visto a Abraão”. Alguns pensam que a fisionomia de Jesus estava tão alterada, com a tristeza e a vigília, que, juntamente com a seriedade do seu aspecto, o fazia parecer um homem de cinquenta anos: ”A sua aparência estava tão desfigurada”, Isaías 52.14.

[3] Nosso Salvador dá uma resposta impressionante a esta crítica, com uma afirmação solene da sua idade maior até mesmo do que a de Abraão (v. 58): “‘Em verdade, em verdade vos digo’. Eu não somente digo isto privadamente aos meus discípulos, que se certificarão de dizer o que Eu digo, mas a vós, meus inimigos e perseguidores. Eu digo isto diante de vós, entendei como quiserdes: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”, antes que Abraão fosse criado ou nascido, Eu sou. A mudança na expressão é notável, e indica que Abraão era uma criatura, e Ele mesmo, o Criador. Portanto, Ele podia se fazer maior do que Abraão. Antes que Abraão existisse, Ele era, em primeiro lugar, como Deus. “Eu sou” é o nome de Deus (Êxodo 3.14). Isto indica sua existência própria. Ele não diz: “Eu era”, mas: “Eu sou”, pois Ele é o primeiro e o último, imutavelmente o mesmo (Apocalipse 1.8). Assim, Ele era, não somente antes de Abraão, mas antes de todos os mundos, cap. 1.1; Provérbios 8.23. Em segundo lugar, como Mediador. Ele era o Messias indicado, muito tempo antes de Abraão, o “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13.8), o canal de transmissão de luz, vida e amor de Deus ao homem. O fato de o Senhor Jesus ser o mesmo desde a eternidade pressupõe sua natureza divina (Hebreus 13.8), e que Ele é o mesmo para os homens, desde a queda do homem. Ele foi feito sabedoria, justiça, santificação e redenção da parte de Deus para Adão, Abel, Enoque, Noé, Sem, e para todos os patriarcas que viveram e morreram na fé nele, antes que Abraão nascesse. Abraão era a raiz da nação judaica, a rocha da qual eles haviam sido cortados. Se Cristo era antes de Abraão, sua doutrina e religião não eram novidade, mas eram, na sua essência, anteriores ao judaísmo, e deveriam tomar seu lugar.

[4] Esta grande frase encerrou abruptamente a discussão, dando-lhe um fim. Eles não podiam tolerar ouvir mais nada dele, e Ele não precisava dizer mais nada a eles, tendo testemunhado esta boa confissão, que era suficiente para suportar todas as suas reivindicações. Alguém poderia pensar que as palavras de Cristo, em que brilhavam tanta graça e glória, teriam cativado a todos, mas o preconceito inveterado deles contra a santa doutrina espiritual e a lei de Cristo, que eram tão contrárias ao seu orgulho e materialismo, frustravam todos os métodos de convicção. Agora se cumpria a profecia (MaIaquias 3.1,2) de que, quando o mensageiro do concerto viesse ao seu Templo, eles não subsistiriam ao dia da sua vinda, porque Ele seria como o fogo do ourives. Observe aqui:

Em primeiro lugar, como eles se enfureceram com Cristo, pelo que Ele dizia: “Pegaram em pedras para lhe atirarem”, v. 59. Talvez eles o considerassem um blasfemo, e os blasfemos deviam, realmente, ser apedrejados (Levíticos 24.16), mas depois de serem legalmente julgados e condenados. Diga adeus à justiça e à ordem, se todo homem pretender executar a lei como desejar. Além disto, eles tinham dito, há pouco tempo, que Ele era um homem louco e perturbado, e se fosse assim, era contrário a toda razão e equidade puni-lo como a um malfeitor pelo que Ele tinha dito. Eles “pegaram em pedras”. O Dr. Lightfoot explica como eles podiam ter pedras tão prontas no Templo. Nesta época, eles tinham trabalhadores reparando o Templo, ou fazendo alguma reforma, e as pedras que eles cortavam serviriam para este propósito. Veja aqui o poder desesperado do pecado e de Satanás, nos filhos da desobediência, e sobre eles. Quem iria pensar que haveria uma maldade como esta nos homens, tal rebelião aberta e corajosa contra aquele que inegavelmente provava ser o Filho de Deus? Desta forma, cada um tinha uma pedra para atirar contra sua santa religião, Atos 28.22.

Em segundo lugar, como Ele escapou das suas mãos.

1. Ele se escondeu. Jesus “ocultou-se”, Ele foi ocultado, ou pela multidão daqueles que lhe queriam bem, para protegê-lo (aquele que devia estar sobre um trono alto e elevado se satisfaz em se misturar com uma multidão). Ou talvez Ele tivesse se escondido atrás de algumas das paredes ou colunas do Templo (“No oculto do seu tabernáculo me esconderá”, Salmos 27.5). Ou por um poder divino, lançando uma névoa diante dos seus olhos, Ele se fez invisível a eles. “Quando os ímpios sobem, os homens escondem-se”, neste caso um homem sábio e bom, Provérbios 28.12,28. Não que Cristo tivesse medo ou vergonha de sustentar o que tinha dito, mas sua hora ainda não era chegada, e Ele desejava estimular a fuga dos seus ministros e do seu povo em tempos de perseguição, quando isto fosse necessário. O Senhor escondeu Jeremias e Baruque, Jeremias 36.26. 2. Ele se retirou, “saiu do templo, passando pelo meio deles”, sem ser descoberto, mas ignorado. Esta não era uma fuga vergonhosa e covarde, nem que demonstrasse culpa ou temor. A respeito dele, estava predito que Ele não faltaria, nem seria quebrantado, Isaías 42.4. Mas:

(1) Isto era um exemplo do poder que o Senhor tem sobre seus inimigos, e de que eles não poderiam fazer contra Ele mais do que Ele lhes permitia. Com isto, parece que quando, posteriormente, Ele foi às profundezas, Ele “se ofereceu a si mesmo”, cap. 10.18. Agora eles pensavam que o haviam detido, e, apesar disto, Ele passou pelo meio deles, porque seus olhos estavam cegos, ou porque suas mãos estavam atadas, e assim Ele os deixou furiosos, como um leão desapontado em relação à sua presa.

(2) Isto era um exemplo da sua prudente provisão para sua própria segurança, uma vez que Ele sabia que sua obra ainda não estava terminada, nem seu testemunho, concluído. Dessa forma, Ele deu um exemplo da sua própria regra: “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (Mateus 10.23), na verdade, se houver oportunidade, para um deserto, como fez Elias (1 Reis 19.3,4), e a mulher, a igreja, Apocalipse 12.6. Quando eles pegaram as pedras soltas para atirar em Cristo, Ele podia ter ordenado que as pedras fixas, que clamavam do muro atrás deles, vingassem sua causa, ou que a terra se abrisse e os tragasse, mas Ele preferiu aceitar a condição em que estava, para que seu exemplo pudesse ser imitado pela prudência dos seus seguidores, sem que fosse necessário um milagre.

(3) Isto era uma deserção justa daqueles que (piores que os gadarenos, que pediram que Ele partisse) o expulsavam com pedras. Cristo não ficará por muito tempo com aqueles que lhe pedem que Ele se vá. Cristo visitou novamente o Templo depois disto. Como alguém que detesta partir, Ele estava frequentemente se despedindo, mas, por fim, Ele o abandonou para sempre, e o deixou vazio. Agora Cristo tinha passado no meio dos judeus, e nenhum deles lhe pediu que ficasse, nem teve vontade de apegar-se a Ele, mas todos ficaram satisfeitos por deixá-lo ir. Observe que Deus nunca abandona ninguém, até que lhe façam partir e não desejem nada dele. Calvino observa que estes principais dos sacerdotes, quando expulsaram a Cristo do Templo, orgulharam-se da posse que tinham mantido: “Mas”, diz ele, “enganam-se aqueles que se orgulham de uma igreja ou de um templo que Cristo abandonou”. Quando Cristo os deixou, Ele aparentemente passou silenciosamente e despercebido, para que não o percebessem. Observe que a partida de Cristo de uma igreja, ou de uma alma em particular, frequentemente ocorre em segredo, e não é percebida imediatamente. Como o reino de Deus não chega com alvoroço, ele também não parte com alvoroço. Veja Juízes 16.20. Sansão “não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele”. O mesmo aconteceu com estes judeus abandonados. Deus os deixou, e eles nunca sentiram sua falta.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.