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O PODER DO JEJUM

Cientistas descobrem que abster o organismo de alimentos por alguns períodos pode ajudar a combater a depressão e estimular a reciclagem dos neurônios. Alguns estudos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência. A privação, porém, não é um consenso entre médicos e pesquisadores e, em muitos casos, pode ser prejudicial. 

O poder do jejum

O pinguim-rei é um grande jejuador. Durante cinco meses no ano, a ave não come um peixe sequer, sobrevive do depósito de gordura do próprio corpo e pode perder quase metade de seu peso, em torno de 15 kg, vivendo em temperaturas abaixo de 60°. Já os seres humanos reagem de forma bem diferente. Exceto em situações extraordinárias de escassez, em geral estamos sempre comendo – com exceção de quando dormimos. A obrigação de termos sempre de ingerir três refeições diárias foi, durante gerações, tão fixamente colocada na nossa consciência que renunciar a essa tradição pode parecer inconcebível. E vale lembrar que, entre as refeições, muita gente “belisca”, toma refrigerantes refrescantes, come guloseimas, frutas e, no fim do dia, se rende a uma taça de vinho ou uma cerveja, às vezes acompanhadas de algum salgadinho.

A indústria alimentícia fica contente com esse hábito, mas o nosso corpo não. “Somos uma sociedade de abundância; a comida sempre à nossa disposição e, ao mesmo tempo, nos movimentamos pouco”, observa o pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique. Esse excesso deixa marcas, que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer.

Hoje talvez pareça difícil não desfrutar de hábitos adquiridos nas últimas décadas, a ponto de nos esquecermos de que, assim como os outros animais, durante muito tempo sobrevivemos sem celulares, açúcar e fast-food. A vida na Terra se desenvolveu regida pelos ritmos naturais, do dia e da noite, do clima frio e quente, da fartura e da escassez. “Considerando isso, é possível pensar que poderíamos nos readaptar e mudar o hábito de comer sem parar”, diz Melchart. “Mesmo sem dispor de um laboratório bem equipado, o médico e filósofo Paracelso (1493-1541) já sabia disso no século 16.” Atualmente, existem comprovações de que o excesso de alimento prejudica o corpo, em especial o cérebro. A dieta baseada em alimentos industrializados e processados, com altos índices de gordura, é a mais nociva. Por outro lado, aqueles que já renunciaram à comida perceberam que o processo envolve uma causa superior. “Depois de passados os três primeiros dias, considerados os mais difíceis, há uma melhora no humor em dois terços dos pacientes”, afirma o naturopata Andreas Michalsen, médico do Hospital Immanuel, de Berlim, onde um grupo de 800 pessoas jejua voluntariamente pelo bem da saúde.

MAIS HORMÔNIOS DA FELICIDADE 

Por mais paradoxal que pareça, a evolução biológica mostra que, quando sentimos fome, durante um curto espaço de tempo, é liberada uma sensação de bem-estar. Mas atenção: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e pode até morrer”, alerta Michalsen. Por isso, no curso da evolução, nossa espécie foi agraciada com uma espécie de “programa de jejum”. Assim que ocorre uma escassez de comida, o cérebro muda a chave para “eufórico” e cuida para que a pessoa não recue, mas sim procure ativamente por comida. É uma reação parecida com a provocada por antidepressivos: o corpo recebe quantidades menores do aminoácido triptofano – que o organismo não consegue produzir por si só, precisa do alimento para esse processo –, importante para a produção do neurotransmissor serotonina. Para compensar essa deficiência, durante a sinapse o sistema nervoso reduziria o número de transportadores de serotonina, que normalmente eliminam o transmissor novamente. É o mesmo processo que ocorre com os medicamentos prescritos para o tratamento contra a depressão, que funcionam como inibidores seletivos de receptação de serotonina. Nesse caso, elevam-se a concentração de terminações nervosas, o tempo de residência e o efeito dos “hormônios da felicidade”. E o que acontece quando alguém vive durante alguns dias com menos de 500 calorias? “Depois de 24 horas a glicose do açúcar armazenada no fígado começa a se quebrar. Na sequência, o cérebro implora por açúcar e, como não obtém, precisa mudar o metabolismo”, explica Melchart. “Dessa forma, são iniciados processos como a gluconeogênese, na qual o corpo produz glicose a partir de fontes alternativas. A gordura do corpo é consumida e fornece ácidos graxos livres para que os tecidos possam produzir energia. O cérebro retira sua energia da nova formação de glicose e dos recém-formados corpos cetônicos – compostos orgânicos formados no fígado a partir de ácidos graxos.  Graças a esse processo, a pessoa pode sobreviver 30 dias ou mais sem comer nada sólido, dependendo, claro, da constituição do corpo de cada um.

FOME SAUDÁVEL

Viver no limite pode trazer algumas vantagens, desde que a experiência seja acompanhada por médicos e psicólogos, apenas durante alguns dias – e jamais deve ser feita por conta própria, sem assistência de profissionais. Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de câncer. “Há casos em que o jejum de fato pode ajudar a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue” observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles não observa diferença significativa nos parâmetros metabólicos quando comparam o grupo que realiza jejum com aquele que adota restrição calórica contínua; dessa forma, os efeitos benéficos não podem ser atribuídos necessariamente ao jejum intermitente, e sim à perda de peso proporcionada por ele.” O biogerontólogo italiano Luigi Fontana, pesquisador do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Washington em Saint Louis, defende o efeito positivo do jejum no sistema cardiovascular. O médico Mark Mattson, do Instituto Nacional da Idade, em Baltimore, vai mais longe: aposta que a prática é capaz de “tornar funções cerebrais mais eficientes e prevenir doenças degenerativas”. Embora tenha vários adeptos entre biólogos e médicos, o assunto é polêmico. O efeito do jejum no organismo foi estudado, na maioria das vezes, apenas em animais. Nos laboratórios de pesquisa sobre o tema, vivem levedura, larvas e moscas. No entanto, os preferidos para a experiência são os camundongos e ratos. Nas gaiolas em que as tigelas estão sempre abastecidas com comida, os animais parecem preguiçosos. Já os roedores que recebem menos calorias vivem mais e de forma mais saudável que os colegas que têm comida à disposição. Animais que temporariamente jejuam mostram mais equilíbrio no metabolismo das taxas de açúcar, e os marcadores inflamatórios do sangue caem, assim como a pressão arterial e a frequência cardíaca. Com o processo de jejum acontece também algo na cabeça: são criados novos neurônios a partir de células-mãe, e isso ocorre especialmente numa área fundamental para a memória, o hipocampo. As interconexões com a rede neural mudam e as células fazem novas ligações entre si. A experiência mostra que os animais obtêm melhores resultados em testes de memória e de aprendizado. Os neurônios de camundongos, que são geneticamente suscetíveis a doenças como epilepsia, AVC, Alzheimer ou Parkinson, se mostram mais frágeis depois da redução de calorias.

AUMENTO DA RESISTÊNCIA

Segundo Michalsen, dos experimentos com animais, dois principais mecanismos favoráveis à influência do jejum podem ser deduzidos: a diminuição de sinais que danificam o cérebro e promovem a perda de nervos e o nível elevado permanente de insulina e de mediadores inflamatórios. Por outro lado, a falta de comida estressa o organismo, o que o leva a reagir de forma defensiva. Assim, as células aumentam a produção de enzimas que protegem o corpo dos compostos reativos do oxigênio ou reparam os danos no DNA. Por consequência, os animais sobrevivem por mais tempo. Similar ao efeito do esporte, o jejum parece aumentar a resistência. Esse efeito, em que influências negativas têm repercussões positivas, é conhecido como hormesis (palavra grega para estímulo, impulso). Pelo menos quatro das principais células e moléculas – corpos cetônicos, BDNF, mitocôndrias – e processos autofágicos se cristalizam, produzindo o efeito benéfico do jejum ao cérebro. A cetona, assim como a gordura no fígado, produz o ácido B-hidroxibutírico, passando a barreira de sangue do cérebro e servindo células neurais com glicose como combustível. Uma alimentação rica em cetona nos experimentos com ratos resultou na diminuição das conexões proteicas típicas de Alzheimer, beta-amiloide e tau – como as descobertas do pesquisador Mark Mattson já indicavam em 2013. O estudo revelou também que os animais se mostravam mais dispostos e menos ansiosos. Os corpos cetônicos simultaneamente aumentam a produção de fatores de crescimento como BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que favorece autoproteção e a proliferação de neurônios. A produção do BDNF em animais e em humanos diminui de acordo com a idade, assim como o consumo excessivo de alimentos, a falta de exercícios e a propensão a ter doenças neurodegenerativas como o Parkinson e o Alzheimer. Cabe aqui uma pergunta: não seria mais fácil, portanto, administrar porções de BDNF para proteger o cérebro contra a demência como uma fonte da juventude de terapia alternativa? “Não, isso não funciona dessa maneira”, diz Mark Mattson. Ele explica que o fator de crescimento está diretamente relacionado à função da atividade individual dos neurônios e trabalha individualmente no nível das sinapses. O sistema não é controlado ou induzido diretamente, mas sim indiretamente – como por meio de esportes, de uma alimentação com poucas calorias e até pela vontade de desenvolver o intelecto com novas atividades.

A redução de calorias em animais também tem um efeito positivo nas mitocôndrias, conhecidas como “usina de energia das células”. O experimento mostrou que a geração de energia dessas células é mais efetiva e mais apta a formar novas células. Além disso, a falta de comida estimula o processo de reciclagem dos tecidos nervosos. Tudo que não é usado, como organelas e macro-moléculas danificadas, é digerido. Graças a esse processo de limpeza celular chamado de autofagia. Esta foi a conclusão do biólogo celular japonês Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de Medicina de 2016. A célula remove potenciais materiais danosos que voltam para o sistema como matéria-prima.

ENTRE HOMENS E CAMUNDONGOS

Com todos esses efeitos, aparentemente, jejuar melhora o funcionamento do cérebro, retardando os efeitos da idade – ou ainda diminuindo, em taxas significativas, a propensão de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Os experimentos com animais mostraram que a dieta afeta as estruturas cerebrais e as funções da rede neural. Mas e se o estudo fosse aplicado aos humanos? Será que os resultados também seriam semelhantes aos do estudo proposto com ratos? Observa-se que o jejum alivia as dores de pacientes com reumatismo, hipertensão e sobrepeso. Jejuar também diminui a incidência do desenvolvimento de fatores de risco, como o estresse oxidativo – que causa demência –, reduz os marcadores inflamatórios e ainda aumenta o nível de glicose e insulina no sangue. Em 2013, o estudo da pesquisadora Lucia Kerti e seus colegas, da Berliner Charité, encontrou mais uma referência: o aumento permanente nos níveis de açúcar no sangue afeta a microestrutura do hipocampo em homens e mulheres. Essas pessoas têm um desempenho pior em testes de memória do que aquelas que possuem um índice de açúcar mais baixo no sangue. De qualquer forma, há diferenças entre o jejum em homens e roedores. Por exemplo: no hipocampo, a formação de novas células nervosas na fase adulta é muito mais intensa em ratos do que em humanos. Outro exemplo: o hormônio da fome (grelina), que está diretamente ligado ao controle do apetite e do sono, melhora a memória e a curva de aprendizagem nos ratos. No entanto, no estudo de 2016 do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, liderado por Martin Dresler, não houve a demonstração de melhora de performance em memória em humanos mesmo quando administradas doses adicionais de grelina. “Mark Mattson mostrou em vários experimentos que se pode inibir a evolução de doenças neurodegenerativas em animais, mas em humanos estamos em fase de transição dessa descoberta”, explica Andreas Michalsen. “O que parece ter sido bem promissor nos experimentos com ratos precisa ser ainda testado em pessoas. Os estudos controlados parecem ainda sofrer com a falta de dados antes, durante e depois do jejum dos seguintes fatores: volume cerebral, plasticidade sináptica, performance cerebral e análises bioquímicas dos líquidos cerebrais. Contudo, ninguém precisa esperar até que haja resultados tão detalhados em seres humanos. Os efeitos positivos do jejum já são considerados incontestáveis desde a época de Paracelso. O lado positivo do jejum – assim como na dieta saudável e no treinamento físico – é que todos podem fazer algo pela saúde. “Quando o corpo é bem preservado, obviamente o risco de adquirir diabetes diminui”, comenta Michalsen. Não há evidências que comprovem que essa doença regride em uma idade mais avançada. Pessoas de origem asiática não costumam ter a mesma propensão a ganhar, ao longo dos anos, barrigas tão salientes quanto as dos ocidentais – também não têm diabetes nem Alzheimer na mesma proporção – assim como os pinguins-reis na Antártica.

EFEITOS SOBRE O ORGANISMO

O jejum afeta todo o corpo humano. No cérebro, que se comunica com todos os órgãos envolvidos no metabolismo energético, a neuroquímica e as atividades das redes neurais são alteradas e se ajustam à diminuição de calorias. Esse processo se dá no hipocampo (fundamental para a memória), estriado (que participa dos processos de controle dos movimentos), o hipotálamo (envolvido no mecanismo de ingestão de alimentos e regulação da temperatura) e o tronco cerebral (que controla a circulação e o sistema digestivo).O neurotransmissor acetilcolina estimula o sistema nervoso parassimpático, que inerva o intestino, o coração e os vasos sanguíneos. O processo acelera a atividade intestinal, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea. Na ausência de suprimentos, o estoque armazenado em forma de glicogênio logo se esgota. O fígado, ao contrário, produz corpos cetônicos, que podem usar as células nervosas como combustível alternativo para geração de energia. O fígado e as células do tecido muscular são mais reativos ao hormônio insulina, que regula o açúcar no sangue. Ademais, jejuar também reduz, nos órgãos e no cérebro, processos danosos de decomposição advindos de reações alérgicas ou de estresse oxidativo, causado pelos radicais de oxigênio.

CÉREBRO

Aumento da produção de fatores de crescimento de nervos como o BDNF

  • Aumento da for mação de novas células nervosas (neurogênese)
  • Formação de novas ligações celulares cerebrais
  • Aumento da produção de mitocôndrias para produzir energia
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição das reações inflamatórias

MUSCULATURA

  • Otimização do metabolismo
  • Aumento da sensibilidade para insulina
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição da temperatura corpórea

VEIAS SANGUÍNEAS

Diminuição da glicose na corrente sanguínea e a insulina

  • Diminuição da saturação do hormônio leptina
  • Aumento da grelina, conhecida como hormônio da fome
  • Aumento da produção dos corpos cetônicos, fontes de energia

CORAÇÃO

  • Redução de batimentos cardíacos
  • Redução da pressão arterial
  • Aumento da resistência ao estresse oxidativo

FÍGADO

Aumento de glicogênio

  • Aumento da for mação de glicose (gliconeogênese)
  • Aumento da perda de gordura
  • Aumento da produção de corpos cetônicos como fonte de energia alternativa

INTESTINO

  • Redução do consumo de energia
  • Diminuição de reações inflamatórias
  • Diminuição da proliferação de células

O poder do jejum 6

EM PRINCÍPIO, FAZ MAL

capa20observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles Não é à toa que a questão do jejum ou mesmo da redução drástica de ingestão calórica causa polêmica. Se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. O professor de farmacologia da Unifesp Gustavo Pereira ressalta que a autofagia contribui para a reciclagem celular e o jejum é um indutor metabólico, capaz de diminuir a morte de neurônios, o que contribui para a saúde cerebral. Ressalta, porém, que se esse processo for longo demais para o organismo, a célula pode começar a degradar componentes benéficos – daí o perigo do excesso. E o que pode ser considerado demais varia muito de uma pessoa para outra. Atualmente não há comprovação científica a respeito do tempo que o jejum e a redução calórica devem ser adotados sem causar prejuízos. Quando ficamos várias horas sem nos alimentar, as reservas de glicose do organismo diminuem e outras fontes de energia, como proteínas e gordura, passam a ser utilizadas pelo organismo. Quanto mais longo for o jejum, mais gordura e proteínas serão consumidas. Quando isso acontece, os índices metabólicos diminuem, o humor se altera, a pessoa fica mais irritável, o processo de cetose torna o hálito desagradável, podem ocorrer crises de enxaqueca, gastrite e hipoglicemia. Dentro de um longo período, uma alteração grave pode ser a chamada hipoglicemia rebote, ou seja, a pessoa deixa de produzir insulina pela não ingestão de nenhum tipo de carboidratos e quando o jejum é interrompido, há uma elevada secreção de insulina, eventualmente maior do que a necessária, levando à hipoglicemia. Jejuar por muitos dias pode trazer danos graves ao corpo, principalmente queda de resistência imunológica e infecções. “Em princípio, jejum prolongado faz mal”, afirma o diretor técnico do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade  de São Paulo (USP). Apesar de considerar os estudos sobre os benefícios de interromper a alimentação por longos períodos, ele é cauteloso: “Uma porção de fatos coerentes resultam, necessariamente, numa verdade”. Outro risco é o jejum intermitente ser usado como uma desculpa para mascarar transtornos alimentares como anorexia e bulimia, que em cerca de 20% dos casos levam pacientes, em geral mulheres, à morte.

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FECHAR A BOCA DE MANEIRA SAUDÁVEL

“Qualquer um que jejua de tempos em tempos passa a se abster de forma mais fácil dos alimentos e a obter uma visão mais crítica da própria existência”, acredita o médico Dieter Melchart. Ele afirma, no entanto, que somente pessoas comprovadamente saudáveis devem utilizar método desenvolvido pelo médico Hellmut Luetzner. A prática não é recomendável para pessoas idosas e doentes, crianças, gestantes, lactantes e pessoas propensas a distúrbios alimentares. Segundo o método, nada sólido deve ser consumido durante uma semana, somente caldos de legumes, chás específicos para jejum e sucos de frutas e de verduras. Ele salienta também que a experiência deve ser guiada por profissionais. Mas, jejuar não significa necessariamente alimentar-se uma semana apenas de caldo de legumes nem ficar sem comer por intervalos de vários dias. Existem variações dessa dieta, que podem ser integradas à vida diária, dependendo de cada situação e do estado físico de cada pessoa. Há situações em que durante cinco dias da semana se come normalmente e nos outros dois dias a pessoa faz jejum, tal como proposto pela nutricionista britânica Michelle Harvie, da Universidade de Manchester. Pesquisas recentes sugerem que é benéfico à saúde o corpo sempre “esperar” e se preparar por um período longo sem ingestão de alimentos. Algumas pessoas tentam fazer uma pausa de 16 horas entre as refeições. Isso significa, por exemplo, jantar às 10h e só voltar a se alimentar às 12h do dia seguinte. Com isso, a digestão sofre uma pausa, os níveis de insulina caem num processo de longo prazo e o fator de crescimento neural BDNF aumenta. É importante deixar claro que quem se interessar pela prática deve primeiro debater o tema com um médico.

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HORÁRIO CERTO PARA FECHAR A BOCA

A ideia de utilizar o jejum intermitente para a perda de peso partiu da observação dos padrões alimentares dos nossos ancestrais e de muitos outros mamíferos, caracterizados pela ingestão de energia de forma não contínua. De fato, o organismo humano tem a capacidade, adquirida ao longo da evolução, de armazenar glicose e substratos energéticos de maior duração, como ácidos graxos no tecido adiposo. No jejum intermitente a pessoa permanece por longos períodos – 16 ou até 24 horas, por exemplo –, com pouca ou nenhuma ingestão calórica e, na sequência, se alimenta normalmente. Embora seja mais comum a alternância de 24 horas de jejum/restrição e dieta convencional, atualmente existem vários protocolos aplicados nos estudos experimentais que avaliam os efeitos do jejum intermitente: redução calórica extremamente baixa (sem jejum) em dois ou três dias da semana, com dieta normal nos outros; uma semana de restrição calórica (cerca de 1.300 kcal/dia) alternada com uma semana de dieta normal etc. No entanto, não existe homogeneidade de protocolos para o jejum intermitente, o que pode dificultar a comparação entre os estudos. A estratégia do jejum intermitente muitas vezes é utilizada como uma terapia nutricional, principalmente para pacientes hospitalizados (pré ou pós-operatório) e para pessoas que, por qualquer motivo, ficam impossibilitadas de realizar alguma refeição por um período prolongado (médicos durante a realização de cirurgias longas, por exemplo). Nesses casos de jejum involuntário é fundamental o acompanhamento de um nutricionista para reduzir a inadequação da ingestão de nutrientes, minimizar a sensação de fome e o desconforto causados pela privação de alimentos. Se a proposta é perder peso, outros fatores devem ser considerados. Um deles: restringir o consumo alimentar a uma refeição ao dia pode comprometer a qualidade da dieta. Após uma privação energética prolongada, a pessoa tende a selecionar alimentos com elevada densidade energética, reduzindo a ingestão de fibras, vitaminas e minerais. Outro ponto: sabemos hoje que o café da manhã (geralmente omitido no jejum intermitente) é a principal refeição responsável pela ingestão de diversas vitaminas e minerais. Além disso, realizar apenas uma refeição por dia exclui a possibilidade de colocar em prática dois dos principais pilares da nutrição: variedade e equilíbrio.

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ALIMENTO E RELIGIÃO

O jejum é utilizado há centenas de anos em práticas religiosas e assume várias conotações. De barriga vazia, imersos na contemplação e na oração, imagina-se que os fiéis tenham novos insights e ampliem suas percepções. A prática estaria a serviço da purificação da alma e do arrependimento, ajudaria a afastar o mal, favorecer a meditação avançada e até a redenção ou a iluminação. As prioridades são diferentes para as distintas religiões. Comum a todas é a reflexão sobre o que realmente é importante: a busca do sagrado. Para os judeus, há várias datas fixas para o jejum. A maior data de celebração em que a prática se aplica no calendário judaico é o Yom Kippur. No 17º dia do mês do calendário judaico tradicional, a privação de comida funciona como um sinal de arrependimento. São 25 horas de jejum nessa ocasião: comer, beber, trabalhar, exercitar o corpo e até fazer sexo é proibido, a data é reservada para celebrar orações e cultos. No cristianismo, há dois longos períodos de jejum: 40 dias antes do Natal, nos dias do Advento, que começam em 11 de novembro, e 40 dias antes da Páscoa. Na prática, porém, o tempo de jejuar nos dias do Advento (exceto na Igreja Ortodoxa) ficou no passado. Os cristãos veem a abstinência como penitência, uma forma de se preparar para tomar decisões importantes e para o encontro com Deus. O ato é acompanhado de orações e pelo compromisso de ajudar os pobres e necessitados.  Jejuar é um dos cinco pilares do Islã que o Alcorão prescreve aos muçulmanos. No islamismo jejua-se no período do Ramadã (o nono mês no calendário lunar islâmico) como sinal de devoção a Deus. Nesse período, não é permitido ingerir nenhum tipo de alimento, líquido ou sólido, entre o amanhecer e o pôr do sol. Já no hinduísmo, não há nenhuma época prevista para o jejum, embora a renúncia à comida seja uma forma de punição pelos pecados. Para o budismo, o jejum está associado ao compromisso de controlar a própria mente. Em algumas linhas budistas, monges e monjas optam pelo voto de não comer mais nada após o almoço, por exemplo. Uma das razões está no empenho para que nada atrapalhe a meditação, nem mesmo a sensação incômoda de peso e sonolência provocada por refeições fartas.

ULRIKE GEBHARDT – é bióloga e jornalista com especialização em divulgação científica.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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