PSICOLOGIA ANALÍTICA

A MANIA DE DEIXAR PARA DEPOIS

A tendência à procrastinação compromete a carreira, a saúde e a vida financeira de muita gente; embora a biologia possa ser responsabilizada (pelo menos em parte) por esse hábito, é possível se livrar dele.

A mania de deixar para depois

Quase todo mundo adia decisões e tarefas – e, em algum grau, enfrenta as consequências dessa opção. É o que o economista Piers Steel, professor da Universidade de Calgary, no Canadá, define como procrastinar voluntariamente uma ação pretendida, apesar de saber que essa atitude trará consequências negativas – que poderia facilmente evitar. Ele estima que 20% dos adultos adiam de forma rotineira atividades que melhor seria se fossem realizadas imediatamente. Estilo de vida e situações específicas são particularmente propensos para esse comportamento. Segundo uma pesquisa coordenada por Steel, o problema aflige 90% dos estudantes universitários.

Mas atenção: procrastinar não significa programar deliberadamente tarefas menos cruciais para momentos futuros. O termo é mais adequado para situações em que uma pessoa deixa de seguir essa lógica e acaba adiando as tarefas de maior urgência. Ou seja: se o simples pensamento sobre o trabalho a ser entregue na semana que vem provoca um arrepio desagradável ou a compulsão de fazer algo mais trivial, a pessoa provavelmente está procrastinando. O adiamento, porém, cobra seu preço: coloca em risco a saúde (quando se trata de ir ao médico ou fazer exercícios físicos, por exemplo), prejudica relacionamentos, acarreta perdas financeiras e põe fim a carreiras profissionais. “A procrastinação mina o bem-estar, mas pode haver ganhos secundários recorrentes do mau hábito: os perpetuamente vagarosos parecem obter o benefício, pelo menos imediato, de evitar coisas desagradáveis”, observa o psicólogo Timothy A. Pychyl, professor da Universidade Carleton, em Ottawa, que coordena um grupo de pesquisa sobre o tema. Ele reconhece que, ao longo da vida, todos nós aprendemos a adiar atividades, mas alguns traços estruturais de personalidade aumentam a probabilidade de uma pessoa adquirir o hábito. “Procrastinação é uma dança entre o cérebro e a situação”, resume Pychyl.

A aversão a tarefas é um dos principais gatilhos externos da procrastinação. Quem deixa para fazer depois algo que adora? De acordo com a análise de Steel, metade dos estudantes entrevistados citou a natureza da própria tarefa como o motivo da protelação. Na prática, parece que a maioria não se entusiasma com obrigações como escrever uma dissertação sobre a reprodução dos nematoides ou limpar o armário. “Procrastinação muitas vezes tem a ver com a falta de projetos que realmente reflitam nossas metas”, diz Pychyl.

Do ponto de vista neurológico, somos mais propensos a nos distrair e adiar algo quando o prazo de entrega de um projeto está distante. O motivo está num fenômeno conhecido como retardo temporal, que significa que quanto mais perto uma pessoa estiver de uma recompensa (ou de uma sensação de realização), mais valiosa parecerá a gratificação e, portanto, menos provável será que ela adie a realização do trabalho necessário para merecê-la. Ou seja: gratificação imediata é mais motivadora que os prêmios ou o reconhecimento futuros – o que pode ter forte base evolutiva. Para nossos antepassados, o amanhã era imprevisível e as chances de estar vivo nos próximos dias, não muito animadoras. Portanto, pelo menos desse aspecto, havia verdade no dito “mais vale um pássaro na mão que dois voando”. “Em prol da sobrevivência, as pessoas têm tendência à procrastinação embutida em seu cérebro”, diz Pychyl.

Há alguns anos, o neurocientista Barry Richmond e colegas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos relataram a descoberta de uma base biológica dessa tendência. Primeiro, a equipe treinou macacos a soltar uma alavanca sempre que um ponto vermelho na tela do computador se tornasse verde. Quando as cobaias continuavam a manipular corretamente a alavanca, o brilho de uma barra cinza aumentava, deixando que os animais soubessem que estavam se aproximando do momento de ganhar uma guloseima. Assim como os procrastinadores humanos, os animais eram relaxados durante as primeiras etapas do experimento, cometendo muitos erros. Mas, quando o saboroso prêmio ficou mais próximo, se tornaram mais perseverantes e cometeram menos equívocos.

Cientistas levantaram a hipótese de que a dopamina, um dos neurotransmissores responsáveis por detectar a sensação de recompensa, poderia estar na base desse comportamento. Trabalhando com Richmond, o geneticista molecular Edward Ginns utilizou um engodo molecular chamado DNA antissentido para impedir parcialmente a produção de um receptor de dopamina na região do cérebro dos macacos chamada córtex rinal, que associa indícios visuais com recompensa. A intervenção diminuiu os efeitos da dopamina até o ponto em que os animais não conseguiam mais prever em que momento do experimento teriam a guloseima. Assim, eles reforçaram as apostas, trabalhando duramente o tempo todo. Mas nem todos os macacos com respostas diminuídas de dopamina se comportaram da mesma maneira. Alguns permaneceram sossegados depois do trata- mento que reprimia a dopamina, empenhando-se pouco, mesmo quando o tempo até a recompensa diminuiu. Essa observação nos alerta sobre as características individuais da procrastinação: alguns de nós somos mais propensos a ela.

A procrastinação também se origina da ansiedade. Muitas vezes, procrastinadores protelam por medo do fracasso, receio de cometer um erro ou de não lidar bem com o sucesso. Esses traços de personalidade entram em cena em situações particulares, em combinação com o ambiente. Os pesquisadores agora estão tentando unificar as teorias existentes da procrastinação e predizer quem tem propensão ao adiamento de tarefas importantes e em quais circunstâncias. Quando uma pessoa espera se sair bem numa atividade ou valoriza essa tarefa, é mais propensa a realizá-la. Por outro lado, se uma recompensa ou punição se situar muito longe no futuro ou se uma pessoa for particularmente “sensível”, com propensão à distração, impulsiva ou com falta de autocontrole, será bem menos propensa a fazer a tarefa, pelo menos a tempo.

Vários cientistas, no entanto, discordam da ideia de que um comportamento humano complexo possa ser definido de maneira tão pragmática. Em lugar de quantificar os traços de personalidade e resolver fórmulas, alguns pesquisadores preferem “extrair” a psicologia por trás do comportamento. Dois elementos importantes no desejo de deixar que os projetos desmoronem são a sensação de desconforto com uma atividade e o desejo de evitá-lo. Um procrastinador diz, “eu me sinto mal com uma tarefa, e, portanto, me afasto para me sentir melhor”. O psicólogo Joseph Ferrari, da Universidade DePaul, cunhou a expressão “procrastinador por esquiva” para descrever aquele em quem a evitação é a principal motivação.

Outro propulsor psicológico da protelação é a indecisão. Digamos que uma mulher pretende visitar uma amiga no hospital. Em lugar de simplesmente apanhar as chaves e sair, a moça indecisa começa a debater internamente se irá de carro ou de metrô. A dúvida pode continuar até que passe tempo bastante para que o horário de visita se encerre.

Uma terceira explicação muitas vezes citada para um atraso irracional é o estado de excitação. O “procrastinador pela excitação” jura que trabalha melhor sob pressão e precisa da adrenalina do último minuto para dar a partida. Essa pessoa acredita que a protelação propicia uma experiência que o psicólogo Mihaly Csíkszentmihályi, da Escola Drucker de Administração da Universidade de Pós-Graduação de Claremont, define como se perder na atividade. Nesse momento, é como se o tempo desaparecesse e o ego se dissolvesse.

Mas procrastinação não facilita o fluxo, de acordo com o cientista social Eunju Lee, da Universidade Halla, da Coreia do Sul. Ele realizou uma pesquisa com 262 estudantes e descobriu que os procrastinadores tendiam a ter menos, e não mais desse tipo de experiência. Afinal, uma pessoa precisa conseguir se libertar de si própria para “se perder” dentro de uma experiência, e os procrastinadores geralmente têm dificuldade em fazê-lo.

Pychyl e seu aluno de pós-graduação Kyle Simpson mediram os traços associados à excitação, entre os quais a busca de emoções e a extroversão, em estudantes que frequentemente procrastinavam. Mas eles acreditam que os adiadores não estão realmente precisando de excitação, mas usam a crença de que necessitam da pressão do último minuto para justificar o fato de estarem se arrastando vagarosamente, quando, na verdade, tentam contornar o desprazer. Outros, protelam estrategicamente os projetos como desculpa para um eventual mau desempenho. Dizem a si mesmos ou aos outros que poderiam ter se saído melhor se tivessem começado antes. Em alguns casos, tal estratégia pode servir de escudo para um ego frágil.

TRUQUES DO OFÍCIO

Procrastinação nem sempre é prejudicial. Em uma pesquisa com 67 universitários, que se reconheciam como “adiadores” de tarefas, o psicólogo Gregory Schraw, da Universidade de Nevada, Las Vegas, e colegas aprenderam que esses voluntários tinham encontrado maneiras criativas de usar o mau hábito a seu favor. Muitos deles, por exemplo, só escolhiam cursos nos quais o professor oferecia um sumário detalhado, em lugar de um esboço grosseiro, dos trabalhos a serem entregues. Essa especificidade permitia adiamentos “planejados”: os jovens poderiam programar como prorrogar a execução da tarefa e, desta forma, se dar ao luxo de ter o máximo de tempo para atividades mais atraentes.

Para lidar com a culpa e a ansiedade acarretadas pela espera até o último minuto, alguns jovens adquiriam logo todos os livros necessários para a realização do trabalho – e os punham numa prateleira. Assim se desviavam da culpa, dizendo a si próprios: pelo menos providenciei os livros. Só 48 horas antes do prazo para a entrega do projeto o procrastinador passava a produzir freneticamente para conseguir terminar a tarefa. Consequentemente, os estudantes faziam o máximo num tempo mínimo – com um mínimo de dor.

Portanto, embora esses alunos estives- sem adiando o trabalho por mais tempo do que deveriam, ainda assim conseguiam ter- minar a tarefa e, ao mesmo tempo, manter a sanidade. Schraw enfatiza que seu estudo não pretende defender a procrastinação, mas destacar que a prática é capaz de engendrar algumas aptidões úteis para a sobrevivência, como planejamento tático, para realizar uma tarefa em tempo limitado e com o mínimo de tensão. “A moral da história é que as pessoas protelam na tentativa de ter uma vida mental melhor”, diz Schraw.

HORA MARCADA

Mas nem todos os especialistas concordam com ele. De fato, a análise de Steel sugere que 95% dos procrastinadores gostariam de mudar essa característica, mas não conseguem. “Hábitos são processos cerebrais não conscientes. Quando a procrastinação se torna crônica, uma pessoa está essencialmente andando em piloto automático”, diz Pychyl.

Alguns especialistas sugerem substituir o reflexo de protelação pelas prescrições de ação cronologicamente determinadas. O psicólogo Peter Gollwitzer, das Universidades de Nova York e de Konstanz, Alemanha, aconselha a criação de “intenções de implementação”, que especificam onde e quando uma pessoa exibirá determinado comporta- mento. Então, em vez de colocar uma meta vaga como “vou ficar saudável”, ela define uma estratégia, inclusive cronológica, embutida: “digamos, vou encaminhar amanhã, às 7h30”, por exemplo, ou “a partir de hoje deixo de comer carne vermelha”.

A definição de prescrições tão específicas parece realmente inibir a tendência de procrastinar. O psicólogo Shane Owens e colegas da Universidade Hofstra demonstraram que procrastinadores que produziam intenções de implementação eram oito vezes mais propensos a cumprir uma intenção do que aqueles que não usavam esse recurso. “Você precisa criar, de antemão, um compromisso específico com uma hora e lugar em que você agirá. Isto o tornará mais propenso a ir até o fim”, diz Owens. Um cronograma inteligente também pode frustrar a procrastinação. Em um experimento feito pelo o economista comportamental da Universidade Duke, Dan Ariely, que na época era do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e o professor de marketing Klaus Wertenbroch, da Insead, uma escola de administração com campina França e Cingapura, pediram a alunos de um curso para executivos que determinassem seus próprios prazos para a entrega de três monografias naquele semestre. Ariely e Wertenbroch estabeleceram punições, impostas para aqueles que se atrasassem. Entre os estudantes, 70% escolheram datas de entrega espaçadas ao longo do semestre, em vez que agrupá-las no final do curso. O curioso foi que aqueles que definiram prazos menores se saíram melhor, em média, que os frequentadores de um curso similar, no qual Ariely definiu uma única data para os três artigos no final do semestre. Tal planejamento pode neutralizar a inclinação para adiar o trabalho.

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OUTROS OLHARES

O PODER DO JEJUM

Cientistas descobrem que abster o organismo de alimentos por alguns períodos pode ajudar a combater a depressão e estimular a reciclagem dos neurônios. Alguns estudos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência. A privação, porém, não é um consenso entre médicos e pesquisadores e, em muitos casos, pode ser prejudicial. 

O poder do jejum

O pinguim-rei é um grande jejuador. Durante cinco meses no ano, a ave não come um peixe sequer, sobrevive do depósito de gordura do próprio corpo e pode perder quase metade de seu peso, em torno de 15 kg, vivendo em temperaturas abaixo de 60°. Já os seres humanos reagem de forma bem diferente. Exceto em situações extraordinárias de escassez, em geral estamos sempre comendo – com exceção de quando dormimos. A obrigação de termos sempre de ingerir três refeições diárias foi, durante gerações, tão fixamente colocada na nossa consciência que renunciar a essa tradição pode parecer inconcebível. E vale lembrar que, entre as refeições, muita gente “belisca”, toma refrigerantes refrescantes, come guloseimas, frutas e, no fim do dia, se rende a uma taça de vinho ou uma cerveja, às vezes acompanhadas de algum salgadinho.

A indústria alimentícia fica contente com esse hábito, mas o nosso corpo não. “Somos uma sociedade de abundância; a comida sempre à nossa disposição e, ao mesmo tempo, nos movimentamos pouco”, observa o pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique. Esse excesso deixa marcas, que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer.

Hoje talvez pareça difícil não desfrutar de hábitos adquiridos nas últimas décadas, a ponto de nos esquecermos de que, assim como os outros animais, durante muito tempo sobrevivemos sem celulares, açúcar e fast-food. A vida na Terra se desenvolveu regida pelos ritmos naturais, do dia e da noite, do clima frio e quente, da fartura e da escassez. “Considerando isso, é possível pensar que poderíamos nos readaptar e mudar o hábito de comer sem parar”, diz Melchart. “Mesmo sem dispor de um laboratório bem equipado, o médico e filósofo Paracelso (1493-1541) já sabia disso no século 16.” Atualmente, existem comprovações de que o excesso de alimento prejudica o corpo, em especial o cérebro. A dieta baseada em alimentos industrializados e processados, com altos índices de gordura, é a mais nociva. Por outro lado, aqueles que já renunciaram à comida perceberam que o processo envolve uma causa superior. “Depois de passados os três primeiros dias, considerados os mais difíceis, há uma melhora no humor em dois terços dos pacientes”, afirma o naturopata Andreas Michalsen, médico do Hospital Immanuel, de Berlim, onde um grupo de 800 pessoas jejua voluntariamente pelo bem da saúde.

MAIS HORMÔNIOS DA FELICIDADE 

Por mais paradoxal que pareça, a evolução biológica mostra que, quando sentimos fome, durante um curto espaço de tempo, é liberada uma sensação de bem-estar. Mas atenção: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e pode até morrer”, alerta Michalsen. Por isso, no curso da evolução, nossa espécie foi agraciada com uma espécie de “programa de jejum”. Assim que ocorre uma escassez de comida, o cérebro muda a chave para “eufórico” e cuida para que a pessoa não recue, mas sim procure ativamente por comida. É uma reação parecida com a provocada por antidepressivos: o corpo recebe quantidades menores do aminoácido triptofano – que o organismo não consegue produzir por si só, precisa do alimento para esse processo –, importante para a produção do neurotransmissor serotonina. Para compensar essa deficiência, durante a sinapse o sistema nervoso reduziria o número de transportadores de serotonina, que normalmente eliminam o transmissor novamente. É o mesmo processo que ocorre com os medicamentos prescritos para o tratamento contra a depressão, que funcionam como inibidores seletivos de receptação de serotonina. Nesse caso, elevam-se a concentração de terminações nervosas, o tempo de residência e o efeito dos “hormônios da felicidade”. E o que acontece quando alguém vive durante alguns dias com menos de 500 calorias? “Depois de 24 horas a glicose do açúcar armazenada no fígado começa a se quebrar. Na sequência, o cérebro implora por açúcar e, como não obtém, precisa mudar o metabolismo”, explica Melchart. “Dessa forma, são iniciados processos como a gluconeogênese, na qual o corpo produz glicose a partir de fontes alternativas. A gordura do corpo é consumida e fornece ácidos graxos livres para que os tecidos possam produzir energia. O cérebro retira sua energia da nova formação de glicose e dos recém-formados corpos cetônicos – compostos orgânicos formados no fígado a partir de ácidos graxos.  Graças a esse processo, a pessoa pode sobreviver 30 dias ou mais sem comer nada sólido, dependendo, claro, da constituição do corpo de cada um.

FOME SAUDÁVEL

Viver no limite pode trazer algumas vantagens, desde que a experiência seja acompanhada por médicos e psicólogos, apenas durante alguns dias – e jamais deve ser feita por conta própria, sem assistência de profissionais. Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de câncer. “Há casos em que o jejum de fato pode ajudar a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue” observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles não observa diferença significativa nos parâmetros metabólicos quando comparam o grupo que realiza jejum com aquele que adota restrição calórica contínua; dessa forma, os efeitos benéficos não podem ser atribuídos necessariamente ao jejum intermitente, e sim à perda de peso proporcionada por ele.” O biogerontólogo italiano Luigi Fontana, pesquisador do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Washington em Saint Louis, defende o efeito positivo do jejum no sistema cardiovascular. O médico Mark Mattson, do Instituto Nacional da Idade, em Baltimore, vai mais longe: aposta que a prática é capaz de “tornar funções cerebrais mais eficientes e prevenir doenças degenerativas”. Embora tenha vários adeptos entre biólogos e médicos, o assunto é polêmico. O efeito do jejum no organismo foi estudado, na maioria das vezes, apenas em animais. Nos laboratórios de pesquisa sobre o tema, vivem levedura, larvas e moscas. No entanto, os preferidos para a experiência são os camundongos e ratos. Nas gaiolas em que as tigelas estão sempre abastecidas com comida, os animais parecem preguiçosos. Já os roedores que recebem menos calorias vivem mais e de forma mais saudável que os colegas que têm comida à disposição. Animais que temporariamente jejuam mostram mais equilíbrio no metabolismo das taxas de açúcar, e os marcadores inflamatórios do sangue caem, assim como a pressão arterial e a frequência cardíaca. Com o processo de jejum acontece também algo na cabeça: são criados novos neurônios a partir de células-mãe, e isso ocorre especialmente numa área fundamental para a memória, o hipocampo. As interconexões com a rede neural mudam e as células fazem novas ligações entre si. A experiência mostra que os animais obtêm melhores resultados em testes de memória e de aprendizado. Os neurônios de camundongos, que são geneticamente suscetíveis a doenças como epilepsia, AVC, Alzheimer ou Parkinson, se mostram mais frágeis depois da redução de calorias.

AUMENTO DA RESISTÊNCIA

Segundo Michalsen, dos experimentos com animais, dois principais mecanismos favoráveis à influência do jejum podem ser deduzidos: a diminuição de sinais que danificam o cérebro e promovem a perda de nervos e o nível elevado permanente de insulina e de mediadores inflamatórios. Por outro lado, a falta de comida estressa o organismo, o que o leva a reagir de forma defensiva. Assim, as células aumentam a produção de enzimas que protegem o corpo dos compostos reativos do oxigênio ou reparam os danos no DNA. Por consequência, os animais sobrevivem por mais tempo. Similar ao efeito do esporte, o jejum parece aumentar a resistência. Esse efeito, em que influências negativas têm repercussões positivas, é conhecido como hormesis (palavra grega para estímulo, impulso). Pelo menos quatro das principais células e moléculas – corpos cetônicos, BDNF, mitocôndrias – e processos autofágicos se cristalizam, produzindo o efeito benéfico do jejum ao cérebro. A cetona, assim como a gordura no fígado, produz o ácido B-hidroxibutírico, passando a barreira de sangue do cérebro e servindo células neurais com glicose como combustível. Uma alimentação rica em cetona nos experimentos com ratos resultou na diminuição das conexões proteicas típicas de Alzheimer, beta-amiloide e tau – como as descobertas do pesquisador Mark Mattson já indicavam em 2013. O estudo revelou também que os animais se mostravam mais dispostos e menos ansiosos. Os corpos cetônicos simultaneamente aumentam a produção de fatores de crescimento como BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que favorece autoproteção e a proliferação de neurônios. A produção do BDNF em animais e em humanos diminui de acordo com a idade, assim como o consumo excessivo de alimentos, a falta de exercícios e a propensão a ter doenças neurodegenerativas como o Parkinson e o Alzheimer. Cabe aqui uma pergunta: não seria mais fácil, portanto, administrar porções de BDNF para proteger o cérebro contra a demência como uma fonte da juventude de terapia alternativa? “Não, isso não funciona dessa maneira”, diz Mark Mattson. Ele explica que o fator de crescimento está diretamente relacionado à função da atividade individual dos neurônios e trabalha individualmente no nível das sinapses. O sistema não é controlado ou induzido diretamente, mas sim indiretamente – como por meio de esportes, de uma alimentação com poucas calorias e até pela vontade de desenvolver o intelecto com novas atividades.

A redução de calorias em animais também tem um efeito positivo nas mitocôndrias, conhecidas como “usina de energia das células”. O experimento mostrou que a geração de energia dessas células é mais efetiva e mais apta a formar novas células. Além disso, a falta de comida estimula o processo de reciclagem dos tecidos nervosos. Tudo que não é usado, como organelas e macro-moléculas danificadas, é digerido. Graças a esse processo de limpeza celular chamado de autofagia. Esta foi a conclusão do biólogo celular japonês Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de Medicina de 2016. A célula remove potenciais materiais danosos que voltam para o sistema como matéria-prima.

ENTRE HOMENS E CAMUNDONGOS

Com todos esses efeitos, aparentemente, jejuar melhora o funcionamento do cérebro, retardando os efeitos da idade – ou ainda diminuindo, em taxas significativas, a propensão de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Os experimentos com animais mostraram que a dieta afeta as estruturas cerebrais e as funções da rede neural. Mas e se o estudo fosse aplicado aos humanos? Será que os resultados também seriam semelhantes aos do estudo proposto com ratos? Observa-se que o jejum alivia as dores de pacientes com reumatismo, hipertensão e sobrepeso. Jejuar também diminui a incidência do desenvolvimento de fatores de risco, como o estresse oxidativo – que causa demência –, reduz os marcadores inflamatórios e ainda aumenta o nível de glicose e insulina no sangue. Em 2013, o estudo da pesquisadora Lucia Kerti e seus colegas, da Berliner Charité, encontrou mais uma referência: o aumento permanente nos níveis de açúcar no sangue afeta a microestrutura do hipocampo em homens e mulheres. Essas pessoas têm um desempenho pior em testes de memória do que aquelas que possuem um índice de açúcar mais baixo no sangue. De qualquer forma, há diferenças entre o jejum em homens e roedores. Por exemplo: no hipocampo, a formação de novas células nervosas na fase adulta é muito mais intensa em ratos do que em humanos. Outro exemplo: o hormônio da fome (grelina), que está diretamente ligado ao controle do apetite e do sono, melhora a memória e a curva de aprendizagem nos ratos. No entanto, no estudo de 2016 do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, liderado por Martin Dresler, não houve a demonstração de melhora de performance em memória em humanos mesmo quando administradas doses adicionais de grelina. “Mark Mattson mostrou em vários experimentos que se pode inibir a evolução de doenças neurodegenerativas em animais, mas em humanos estamos em fase de transição dessa descoberta”, explica Andreas Michalsen. “O que parece ter sido bem promissor nos experimentos com ratos precisa ser ainda testado em pessoas. Os estudos controlados parecem ainda sofrer com a falta de dados antes, durante e depois do jejum dos seguintes fatores: volume cerebral, plasticidade sináptica, performance cerebral e análises bioquímicas dos líquidos cerebrais. Contudo, ninguém precisa esperar até que haja resultados tão detalhados em seres humanos. Os efeitos positivos do jejum já são considerados incontestáveis desde a época de Paracelso. O lado positivo do jejum – assim como na dieta saudável e no treinamento físico – é que todos podem fazer algo pela saúde. “Quando o corpo é bem preservado, obviamente o risco de adquirir diabetes diminui”, comenta Michalsen. Não há evidências que comprovem que essa doença regride em uma idade mais avançada. Pessoas de origem asiática não costumam ter a mesma propensão a ganhar, ao longo dos anos, barrigas tão salientes quanto as dos ocidentais – também não têm diabetes nem Alzheimer na mesma proporção – assim como os pinguins-reis na Antártica.

EFEITOS SOBRE O ORGANISMO

O jejum afeta todo o corpo humano. No cérebro, que se comunica com todos os órgãos envolvidos no metabolismo energético, a neuroquímica e as atividades das redes neurais são alteradas e se ajustam à diminuição de calorias. Esse processo se dá no hipocampo (fundamental para a memória), estriado (que participa dos processos de controle dos movimentos), o hipotálamo (envolvido no mecanismo de ingestão de alimentos e regulação da temperatura) e o tronco cerebral (que controla a circulação e o sistema digestivo).O neurotransmissor acetilcolina estimula o sistema nervoso parassimpático, que inerva o intestino, o coração e os vasos sanguíneos. O processo acelera a atividade intestinal, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea. Na ausência de suprimentos, o estoque armazenado em forma de glicogênio logo se esgota. O fígado, ao contrário, produz corpos cetônicos, que podem usar as células nervosas como combustível alternativo para geração de energia. O fígado e as células do tecido muscular são mais reativos ao hormônio insulina, que regula o açúcar no sangue. Ademais, jejuar também reduz, nos órgãos e no cérebro, processos danosos de decomposição advindos de reações alérgicas ou de estresse oxidativo, causado pelos radicais de oxigênio.

CÉREBRO

Aumento da produção de fatores de crescimento de nervos como o BDNF

  • Aumento da for mação de novas células nervosas (neurogênese)
  • Formação de novas ligações celulares cerebrais
  • Aumento da produção de mitocôndrias para produzir energia
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição das reações inflamatórias

MUSCULATURA

  • Otimização do metabolismo
  • Aumento da sensibilidade para insulina
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição da temperatura corpórea

VEIAS SANGUÍNEAS

Diminuição da glicose na corrente sanguínea e a insulina

  • Diminuição da saturação do hormônio leptina
  • Aumento da grelina, conhecida como hormônio da fome
  • Aumento da produção dos corpos cetônicos, fontes de energia

CORAÇÃO

  • Redução de batimentos cardíacos
  • Redução da pressão arterial
  • Aumento da resistência ao estresse oxidativo

FÍGADO

Aumento de glicogênio

  • Aumento da for mação de glicose (gliconeogênese)
  • Aumento da perda de gordura
  • Aumento da produção de corpos cetônicos como fonte de energia alternativa

INTESTINO

  • Redução do consumo de energia
  • Diminuição de reações inflamatórias
  • Diminuição da proliferação de células

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EM PRINCÍPIO, FAZ MAL

capa20observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles Não é à toa que a questão do jejum ou mesmo da redução drástica de ingestão calórica causa polêmica. Se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. O professor de farmacologia da Unifesp Gustavo Pereira ressalta que a autofagia contribui para a reciclagem celular e o jejum é um indutor metabólico, capaz de diminuir a morte de neurônios, o que contribui para a saúde cerebral. Ressalta, porém, que se esse processo for longo demais para o organismo, a célula pode começar a degradar componentes benéficos – daí o perigo do excesso. E o que pode ser considerado demais varia muito de uma pessoa para outra. Atualmente não há comprovação científica a respeito do tempo que o jejum e a redução calórica devem ser adotados sem causar prejuízos. Quando ficamos várias horas sem nos alimentar, as reservas de glicose do organismo diminuem e outras fontes de energia, como proteínas e gordura, passam a ser utilizadas pelo organismo. Quanto mais longo for o jejum, mais gordura e proteínas serão consumidas. Quando isso acontece, os índices metabólicos diminuem, o humor se altera, a pessoa fica mais irritável, o processo de cetose torna o hálito desagradável, podem ocorrer crises de enxaqueca, gastrite e hipoglicemia. Dentro de um longo período, uma alteração grave pode ser a chamada hipoglicemia rebote, ou seja, a pessoa deixa de produzir insulina pela não ingestão de nenhum tipo de carboidratos e quando o jejum é interrompido, há uma elevada secreção de insulina, eventualmente maior do que a necessária, levando à hipoglicemia. Jejuar por muitos dias pode trazer danos graves ao corpo, principalmente queda de resistência imunológica e infecções. “Em princípio, jejum prolongado faz mal”, afirma o diretor técnico do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade  de São Paulo (USP). Apesar de considerar os estudos sobre os benefícios de interromper a alimentação por longos períodos, ele é cauteloso: “Uma porção de fatos coerentes resultam, necessariamente, numa verdade”. Outro risco é o jejum intermitente ser usado como uma desculpa para mascarar transtornos alimentares como anorexia e bulimia, que em cerca de 20% dos casos levam pacientes, em geral mulheres, à morte.

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FECHAR A BOCA DE MANEIRA SAUDÁVEL

“Qualquer um que jejua de tempos em tempos passa a se abster de forma mais fácil dos alimentos e a obter uma visão mais crítica da própria existência”, acredita o médico Dieter Melchart. Ele afirma, no entanto, que somente pessoas comprovadamente saudáveis devem utilizar método desenvolvido pelo médico Hellmut Luetzner. A prática não é recomendável para pessoas idosas e doentes, crianças, gestantes, lactantes e pessoas propensas a distúrbios alimentares. Segundo o método, nada sólido deve ser consumido durante uma semana, somente caldos de legumes, chás específicos para jejum e sucos de frutas e de verduras. Ele salienta também que a experiência deve ser guiada por profissionais. Mas, jejuar não significa necessariamente alimentar-se uma semana apenas de caldo de legumes nem ficar sem comer por intervalos de vários dias. Existem variações dessa dieta, que podem ser integradas à vida diária, dependendo de cada situação e do estado físico de cada pessoa. Há situações em que durante cinco dias da semana se come normalmente e nos outros dois dias a pessoa faz jejum, tal como proposto pela nutricionista britânica Michelle Harvie, da Universidade de Manchester. Pesquisas recentes sugerem que é benéfico à saúde o corpo sempre “esperar” e se preparar por um período longo sem ingestão de alimentos. Algumas pessoas tentam fazer uma pausa de 16 horas entre as refeições. Isso significa, por exemplo, jantar às 10h e só voltar a se alimentar às 12h do dia seguinte. Com isso, a digestão sofre uma pausa, os níveis de insulina caem num processo de longo prazo e o fator de crescimento neural BDNF aumenta. É importante deixar claro que quem se interessar pela prática deve primeiro debater o tema com um médico.

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HORÁRIO CERTO PARA FECHAR A BOCA

A ideia de utilizar o jejum intermitente para a perda de peso partiu da observação dos padrões alimentares dos nossos ancestrais e de muitos outros mamíferos, caracterizados pela ingestão de energia de forma não contínua. De fato, o organismo humano tem a capacidade, adquirida ao longo da evolução, de armazenar glicose e substratos energéticos de maior duração, como ácidos graxos no tecido adiposo. No jejum intermitente a pessoa permanece por longos períodos – 16 ou até 24 horas, por exemplo –, com pouca ou nenhuma ingestão calórica e, na sequência, se alimenta normalmente. Embora seja mais comum a alternância de 24 horas de jejum/restrição e dieta convencional, atualmente existem vários protocolos aplicados nos estudos experimentais que avaliam os efeitos do jejum intermitente: redução calórica extremamente baixa (sem jejum) em dois ou três dias da semana, com dieta normal nos outros; uma semana de restrição calórica (cerca de 1.300 kcal/dia) alternada com uma semana de dieta normal etc. No entanto, não existe homogeneidade de protocolos para o jejum intermitente, o que pode dificultar a comparação entre os estudos. A estratégia do jejum intermitente muitas vezes é utilizada como uma terapia nutricional, principalmente para pacientes hospitalizados (pré ou pós-operatório) e para pessoas que, por qualquer motivo, ficam impossibilitadas de realizar alguma refeição por um período prolongado (médicos durante a realização de cirurgias longas, por exemplo). Nesses casos de jejum involuntário é fundamental o acompanhamento de um nutricionista para reduzir a inadequação da ingestão de nutrientes, minimizar a sensação de fome e o desconforto causados pela privação de alimentos. Se a proposta é perder peso, outros fatores devem ser considerados. Um deles: restringir o consumo alimentar a uma refeição ao dia pode comprometer a qualidade da dieta. Após uma privação energética prolongada, a pessoa tende a selecionar alimentos com elevada densidade energética, reduzindo a ingestão de fibras, vitaminas e minerais. Outro ponto: sabemos hoje que o café da manhã (geralmente omitido no jejum intermitente) é a principal refeição responsável pela ingestão de diversas vitaminas e minerais. Além disso, realizar apenas uma refeição por dia exclui a possibilidade de colocar em prática dois dos principais pilares da nutrição: variedade e equilíbrio.

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ALIMENTO E RELIGIÃO

O jejum é utilizado há centenas de anos em práticas religiosas e assume várias conotações. De barriga vazia, imersos na contemplação e na oração, imagina-se que os fiéis tenham novos insights e ampliem suas percepções. A prática estaria a serviço da purificação da alma e do arrependimento, ajudaria a afastar o mal, favorecer a meditação avançada e até a redenção ou a iluminação. As prioridades são diferentes para as distintas religiões. Comum a todas é a reflexão sobre o que realmente é importante: a busca do sagrado. Para os judeus, há várias datas fixas para o jejum. A maior data de celebração em que a prática se aplica no calendário judaico é o Yom Kippur. No 17º dia do mês do calendário judaico tradicional, a privação de comida funciona como um sinal de arrependimento. São 25 horas de jejum nessa ocasião: comer, beber, trabalhar, exercitar o corpo e até fazer sexo é proibido, a data é reservada para celebrar orações e cultos. No cristianismo, há dois longos períodos de jejum: 40 dias antes do Natal, nos dias do Advento, que começam em 11 de novembro, e 40 dias antes da Páscoa. Na prática, porém, o tempo de jejuar nos dias do Advento (exceto na Igreja Ortodoxa) ficou no passado. Os cristãos veem a abstinência como penitência, uma forma de se preparar para tomar decisões importantes e para o encontro com Deus. O ato é acompanhado de orações e pelo compromisso de ajudar os pobres e necessitados.  Jejuar é um dos cinco pilares do Islã que o Alcorão prescreve aos muçulmanos. No islamismo jejua-se no período do Ramadã (o nono mês no calendário lunar islâmico) como sinal de devoção a Deus. Nesse período, não é permitido ingerir nenhum tipo de alimento, líquido ou sólido, entre o amanhecer e o pôr do sol. Já no hinduísmo, não há nenhuma época prevista para o jejum, embora a renúncia à comida seja uma forma de punição pelos pecados. Para o budismo, o jejum está associado ao compromisso de controlar a própria mente. Em algumas linhas budistas, monges e monjas optam pelo voto de não comer mais nada após o almoço, por exemplo. Uma das razões está no empenho para que nada atrapalhe a meditação, nem mesmo a sensação incômoda de peso e sonolência provocada por refeições fartas.

ULRIKE GEBHARDT – é bióloga e jornalista com especialização em divulgação científica.

GESTÃO E CARREIRA

COM TRABALHO, SEM EMPREGO

O avanço da tecnologia, a reforma trabalhista e a crise econômica levam mais de 34 milhões de pessoas a atuar sem carteira assinada no Brasil. Veja como sobreviver na era da informalidade – uma condição que deve crescer em todo o mundo.

Com trabalho, sem emprego

Camila Menezes, de 26 anos, aprendeu a fabricar vacinas na universidade e conseguiu serviço em um dos poucos lugares do estado de São Paulo ligados à sua formação, o Instituto Butantã. Desempregada há um ano, ela vende roupas on-line, trabalha de recepcionista em eventos e dá aula particular de biomedicina pela internet. Seu salário chega à metade do que recebia em tempos de estudante.

A jovem de Santos (SP) faz parte dos 34,3 milhões de brasileiros que mantêm algum tipo de trabalho sem ter um emprego formal. De acordo com números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017 a quantidade de gente sem registro ultrapassou, pela primeira vez, a de quem tem carteira assinada, superando em quase 1 milhão o contingente de funcionários formais.

Essa é uma condição que vem crescendo gradualmente desde 2014 e chegou a bater 37% da força de trabalho no país. Segundo dados do IBGE, dos 2,3 milhões de postos criados em 2017, apenas um quarto oferecia vínculo empregatício. Além disso, só no primeiro trimestre do ano, quase meio milhão de vagas formais deixaram de existir.

Por mais que a situação seja agravada pela recessão, alguns especialistas acreditam que a informalidade deve continuar, mesmo após a melhora econômica, impulsionada por alguns fatores. O principal seria o avanço da tecnologia, que possibilita a qualquer pessoa realizar as mais variadas tarefas de qualquer lugar. Outro seria a reforma trabalhista, que permite novas modalidades de contrato flexíveis, como o intermitente (em que o indivíduo só recebe quando é convocado) e o temporário (no qual a pessoa atua por um período predeterminado), sem falar na Lei da Terceirização, que liberou as companhias para contratar terceiros, inclusive para as principais atividades do negócio. Ao que tudo indica, muitos brasileiros terão de se virar por conta própria para sobreviver.

E engana-se quem pensa ser essa uma realidade apenas para os menos escolarizados. Com os diplomas perdendo a relevância e as habilidades comportamentais e mentais passando a valer o mesmo ou até mais do que o conhecimento técnico, todo mundo se toma candidato a operar dessa forma. Dados do IBGE apontam que, nos últimos cinco anos, a proporção de desempregados com ensino superior completo aumentou quase 50%. São os casos da Camila, mestranda em engenharia bioquímica na Universidade de São Paulo, e de Ricardo Cuogui, engenheiro civil graduado pela USP com MBA pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) – duas das melhores universidades do país. Sem emprego formal há dois anos, ele paga parte das contas com o dinheiro que recebe de uma casa alugada e atua como corretor de imóveis, enquanto se estrutura para abrir a própria imobiliária.

O avanço do serviço sem carteira acende um sinal vermelho sobre os indicadores do Brasil.  Segundo dados da FGV, a informalidade foi responsável por quase metade da perda de produtividade do país durante os anos de crise. Com menos assalariados registrados, há também menos consumidores. O comércio retrai, reduz custos e provoca mais desemprego. “Sem alternativa, boa parte das pessoas acaba migrando para ocupações como motorista de aplicativos ou vendedor autônomo,” diz Cimar Azeredo, coordenador da área de trabalho e rendimento do IBGE.

Nesse compasso, o Brasil caminha para se tornar uma África do Sul, um dos países recordistas em informalidade no mundo, com 80% da mão de obra se mantendo por conta própria. “Se nossa economia seguir no ritmo atual, atingiremos o patamar sul-africano em cinco anos, afirma Ruy Braga, professor da USP especializado em sociologia do trabalho e autor de A Rebeldia do Precariado (Boitempo, 53 reais). O pior é que a falta de uma política de trabalho pode levar à precarização das condições do profissional.

Estudos confirmam aquilo que Camila e Ricardo sentem na pele; os informais ganham até metade do que aqueles com carteira assinada. Sem a estabilidade financeira, a organização das contas é tortuosa. Muitas vezes, pressupõe acumular dois ou mais serviços, ultrapassando as jornadas estabelecidas por lei. O contador Márcio Bindandi, de 46 anos, sabe disso. Ele atua mais de 12 horas por dia como motorista de aplicativo para ganhar 3.000 reais à menos de quando era registrado em uma companhia de São Paulo. Sem o respaldo da lei trabalhista, os informais ficam entregues à própria sorte.

LIVRE ESCOLHA

Apesar das dificuldades, há quem opte por esse modelo. Um grupo cada vez maior de pessoas, especialmente as mais jovens, desiste de ter um emprego dentro de uma estrutura corporativa e com um chefe no cangote a mandar e desmandar. Soma­ se ao desejo de mais flexibilidade, a facilidade dos aplicativos que possibilitam o compartilhamento de bens; das lojas virtuais que permitem a venda de produtos sem intermediários; e dos sites que conectam autônomos a quem busca prestadores de serviços. A tendência é que haja cada vez mais empreendedores digitais e profissionais qualificados realizando projetos pontuais de acordo com a necessidade do cliente. É a chamada gig economy, ou economia sob demanda, que deve se espalhar inclusive por países mais desenvolvidos. Segundo levantamento da consultoria americana Emergent Research, o número de gig workers nos Estados Unidos passará dos 4 milhões atuais para 7,7 milhões em 2020, chegando a 9,2 milhões no ano seguinte.

A quem refuta a ideia de permanecer 8 horas confinado dentro de um escritório, a notícia agrada. Significa autonomia, independência e liberdade. Significa também que a carreira sai das mãos do empregador; e tudo, absolutamente tudo, passa a ser responsabilidade do empregado: aonde se quer chegar, dias trabalhados, valor do serviço e planejamento da aposentadoria. Um modelo que exige disciplina, organização, determinação e criatividade. Para dar uma mão a quem já se encontra nessa situação ou para quem ainda vai passar por ela – seja por opção, seja por falta de opção-, preparamos um guia básico de sobrevivência na informalidade. Você descobrirá desde como se preparar emocionalmente até a melhor maneira de programar a aposentadoria.

Com trabalho, sem emprego.3

PREPARE-SE PARA A CARREIRA DO FUTURO

Com o fim do registro em carteira, quase ninguém entrará numa corporação estagiário para sair CEO. A carreira deixará de ser linear para se tornar um ziguezague.

Os vínculos serão formados por projetos, obrigando boa parte das pessoas a operar como freelancer. Nesse contexto, é importante se especializar, mas não ficar preso a uma indústria. Um advogado que entende tudo de regulamentação do setor farmacêutico, por exemplo, pode ficar para trás quando o segmento que estiver demandando serviços jurídicos for o de energia. O profissional vai se fortalecer se tiver uma visão holística da carreira, atuando em diversas frentes, em vários tipos de contrato.

Nesse novo contexto, as competências comportamentais, chamadas de soft skills, passam a ser tão importantes quanto o conhecimento técnico.

É preciso aprender rápido e ter pensamento crítico, além de ser criativo e desenvolver inteligência emocional. Par a obter essas aptidões, Andersen Sant’Anna, coordenador do núcleo de desenvolvimento de liderança da Fundação Dom Cabral, sugere que o trabalhador subverta seus costumes. Se gosta de frequentar bares, deve ir a museus. Se curte rock, deve ouvir MPB. Sair da zona de conforto amplia a visão e ajuda a enxergar as oportunidades enquanto elas estão começando. “O ideal é a pessoa se expor ao limiar de seus conhecimentos para, assim, identificar limites, desenvolver pontos fortes e exercitar a humildade”, afirma Andersen.

A capacidade de articular amplas redes de contatos e estreitar relacionamentos também conta demais. “A não ser que faça algo único, o Indivíduo terá de se diferenciar da massa para conseguir contratos interessantes”, diz João Lins, professor na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. “Se vou contratar alguém para montar o sistema de segurança de minha companhia quero alguém que faça isso bem. Mas o que me fará escolher entre um e outro será a capacidade do profissional de se conectar ao meu time.”

Camila Menezes, jovem do começo da reportagem, redesenhou as possibilidades, desde que perdeu o emprego no Instituto Butantã. Engatou, ao mesmo tempo, um mestrado em engenharia bioquímica na USP e uma pós-graduação em biomedicina estética. “Assim, posso tanto seguir carreira acadêmica quanto abrir uma clínica estética, diz. Enquanto investe na profissionalização, ela se vira com “bicos” para pagar as contas. Atua como recepcionista em eventos, vende roupas em brechós online e dá aula particular de biomedicina pela internet.

ENXERGUE AS OPORTUNIDADES

Outro segredo para ter sucesso sem ser CLT é diversificar o campo de atuação, identificando funções e setores aquecidos. Para evitar análises distorcidas, recorra a ex-chefes ou colegas, ou ainda considere contratar um especialista. Um coach, por exemplo, pode ajudar a enxergar seu perfil. Norberto Chadad, da consultoria de gestão de pessoas Thomas Case & Associados, sugere levantar pontos fortes e pontos fracos, assim como as áreas de interesse. “Ter um plano de partida determina o bom encaminhamento das demais estratégias adotadas”, afirma.

Definidos os caminhos, a dica dos especialistas é circular – e bastante. Pode ser como consultor; freelancer, empreendedor ou autônomo, o importante é o profissional frequentar palestras, cursos e eventos em espaços de coworking para conhecer gente nova e fazer networking. Também vale conversar com familiares, colegas e antigos clientes para detectar as chances de negócios – ou até para aprender com quem já sobrevive sem carteira assinada

Essas interações abrem a mente e ajudam a entender o novo mundo do trabalho, derrubando antigas concepções. Foi batendo papo com parentes que o paulistano Marcio Bindandi, de 46 anos, percebeu um novo caminho. Formado em contabilidade, ele estava registrado numa companhia até dois anos atrás. Além da estabilidade, recebia um salário de 12.000 reais mais benefícios. Mas a empresa terceirizou seu departamento e demitiu todo o time.

A forma encontrada por Marcio para pagar as contas foi virar motorista de aplicativo. “Mas a jornada, para que eu ganhe entre 8.000 e 9.000 reais, é de 12 horas”, diz, enquanto sonha com um novo posto com carteira assinada, ele pesquisa cursos de pós-graduação em comércio exterior “Descobri autônomos progredindo nessa área”.

Marcio está certo em voltar a estudar. Pesquisas apontam que especializações contribuem para um aumento de até 75% no pagamento dos informais. “Certificados são uma maneira de se diferenciar num mar de profissionais”, diz Guilhermo Bracciaforte, presidente da Workana, plataforma que conecta freelancers a empresas em busca de gente em toda a América Latina. Dica: para quem deseja se capacitar, mas está sem dinheiro, há bons cursos gratuitos disponíveis na internet em plataformas de educação, como Lidemy, Coursera, EduK e Prime Cursos.

ORGANIZE AS FINANÇAS

Não ter salário fixo nem os benefícios assegurados pelo registro de trabalho, como plano de saúde, vales transporte e alimentação, exige controle e uma rígida programação de despesas. Segundo Jacques Cohen, membro da Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar), o ideal é fazer cálculos anuais, pois isso ajuda a ter uma visão global de quanto, em média, será preciso pingar no banco mês a mês. “Um erro comum entre quem se vira por conta própria é superestimar os rendimentos. Estudos de psicologia mostram que a pessoa olha quanto ganha no mês e fica com o número na cabeça, ignorando impostos e custos para realizar o trabalho na profissão (como energia, internet e transportes”, afirma Jacques.

Para definir os valores, inclua gastos com moradia, alimentação, lazer, transporte e saúde. Não esqueça de considerar uma quantia para depósito do INSS. Como a instabilidade é maior, os especialistas recomendam que o autônomo reserve o equivalente a seis meses de trabalho. Assim, se a demanda cair, não será preciso recorrer a empréstimos e contrair dívidas. Na hora de definir o ganho mensal, lembre-se de prever os impostos – autônomos não são isentos e precisam deixar para o leão até 30% dos proventos.

O próximo passo é separar despesas profissionais das pessoais – para analisar se há lucro na atividade. Se não sobra dinheiro, é hora de rever o orçamento. “O início de uma carreira liberal requer sacrifícios inclusive no estilo de vida”, diz Luiz Fernando Mendonça Schvanzman, sócio da Life Finanças Pessoais, consultoria de planejamento financeiro. Foi o que acabou fazendo Ricardo Cuogui, de 46 anos. Demitido em 2016, o engenheiro civil formado pela USP e com MBA em gestão empresarial pela FGV teve de rever gasto por gasto. Antes de ser dispensado pelo antigo empregador, conseguiu juntar um pé-de-meia correspondente a dez meses de salário. Após a demissão, ele e a mulher cortaram a mensalista e a van que levava as duas filhas à escola. O dinheiro foi alocado para o plano de saúde da família, com mensalidade de 1.600 reais. “Saber economizar possibilita investir com calma em novas frentes de trabalho’, diz o engenheiro, que está vivendo do aluguel de uma casa em São José dos Campos, (SP) que construiu com parte do dinheiro da rescisão.

Ciente de que os tempos mudaram, Ricardo ensaia agora se tornar empreendedor. Está trabalhando como corretor de imóveis e planeja abrir a própria imobiliária.

 FORTALEÇA O LADO EMOCIONAL

Irvin Schonfeld, professor de psicologia na City University and College de Nova York e pesquisador do estresse nos trabalhadores, afirma que aqueles que não tem vínculo empregatícios, são naturalmente mais preocupados. Embora não enfrentem a competição por uma promoção, não tenham a obrigação de estar todos os dias na companhia nem encarem a pressão de bater metas, eles têm de lidar com o “monstro da insegurança”. ‘Em um de nossos estudos, descobrimos que o maior desafio dos autônomos é receber pelo serviço. Outro é conseguir serviço·, diz lrvin. “Às vezes, a pessoa que atua por conta gasta mais tempo prospectando negócios do que trabalhando.” De acordo com o professor, uma tática simples pode minimizar o estresse emocional. “Sempre sugiro que autónomos cobrem metade do pagamento ames de iniciar o projeto, diz. Basta um e-mail de resposta com um “aceito” ou “de acordo” para servir de proteção legal. Além de poupar dinheiro e ter organização, outro importante recurso para blindar o lado emocional é descobrir um propósito para seu trabalho.

Cristiane Barros Echeli, de 45 anos, trabalhava havia 13 como coordenadora deum posto de saúde da prefeitura de Castro, no interior do Paraná. Formada em enfermagem, fazia um tempo que ela estava insatisfeita com a inflexibilidade de horários e com a falta de reconhecimento do setor público. “Queria uma nova vida, sem vínculo, e me preparei”, diz. Durante três anos, ela levou uma jornada dupla: em paralelo ao emprego formal, atuava como consultora de uma marca de cosméticos nas horas vagas. Em 2009, quando contou a amigos e familiares que pediria exoneração do cargo para virar consultora de beleza, não encontrou apoio, mas foi em frente mesmo assim. Na época, ela já ganhava como informal o equivalente ao salário na prefeitura, cerca de 5.000 reais.

Para manter o psicológico à prova dos altos e baixos, Cristiane definiu uma rotina rigorosa. Todo começo de semana mapeia pelo menos seis tarefas prioritárias, como agendar aulas de beleza, fazer reuniões com outras consultoras, organizar exposições de produtos e entrar em contato com potenciais consumidores. Doze meses depois de sair do cargo público, Cristiane já tinha 200 clientes a mais. A nova ocupação rende à ex – enfermeira de 8.000a 12.000 reais por mês. “Mesmo com essa variação, recebo mais do que antes, tenho tempo para meus filhos e estou mais feliz, diz.

PROGRAME A APOSENTADORIA

A paulistana AneLisa Macedo, de 51 anos, se formou em publicidade e propaganda, mas nunca atuou na área nem teve carteira assinada. Apaixonada pela Língua inglesa fluente no idioma desde a adolescência, escolheu dar aula particular em vez de ir para uma agência. Além da classe, ela presta consultoria a jovens que querem se inscrever em faculdades americanas – tarefa que exige não só domínio de Inglês como também conhecimento do processo e das necessidades de cada universidade. Hoje, entre seus clientes e alunos estão diretores de bancos e até presidentes de empresas – apesar de bem-sucedida, Anelisa parou somente agora para planejar a aposentadoria. “Estou discutindo com meus filhos, que cursaram faculdade de negócios, e também com amigos da área financeira quais os melhores investimentos para meu perfil”, diz. “Percebi que não posso esperar mais.” Anelisa já está atrasada, na visão dos consultores financeiros.

Fábio Gallo Garcia, professor na Fundação Getúlio Vargas e coautor de Como Planejar a Aposentadoria (Publifolha, 19,90 reais), recomenda começar a poupar quanto antes. Se uma pessoa na faixa dos 40 anos quiser uma renda mensal de 7.000 reais aos 70 anos, precisará economizar 167 reais por mês. Mas, se deixar para guardar dinheiro aos 60 anos, terá de guardar 2.550 reais mensalmente. “O esforço fica muito maior quando se está mais perto da aposentadoria”, diz Fabio.

Em essência, a preparação não é tão diferente de quem trabalha em regime CLT. O teto máximo do INSS é de 5.645,80 reais. Quem quiser viver com mais terá de aplicar o dinheiro para que ele renda conforme as projeções de custo de vida. Até mesmo onde se pretende morar na velhice fará diferença nesse planejamento. Cidades pequenas, por exemplo, tem custo de vida menor do que capitais. De modo geral, Fabio diz que autónomos devem montar uma carteira com poucos investimentos de risco. Isso significa não colocar mais do que 20% em ações, especialmente se deixar para poupar depois dos 40 ou 50 anos de idade. As três principais alternativas seguras e rentáveis no Longo prazo, segundo o professor, são os títulos de renda fixa, como Tesouro Direto, além de fundos e planos de previdência.

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ENTENDA AS DIFERENÇAS ENTRE OS PROFISSIONAIS QUE ATUAM SEM VÍNCULO

INFORMAL

Não tem registro de emprego, não participa do sistema da previdência social e não recolhe impostos, embora seja parte da população economicamente ativa. É um profissional que faz o que chamam de “bicos”, tendo formação especializada ou não.

AUTÔNOMO

Não é subordinado de nenhuma empresa. Deve estar inscrito no cadastro da prefeitura e emitir o registro de pagamento de autônomo (RPA). Tem imposto retido na fonte e aquele que o contrata tem de recolher INSS de 20% sob o valor pago.

LIBERAL

Pode ser autônomo ou constituir uma empresa em seu nome (pessoa jurídica). Em geral, presta serviços à várias organizações ou pessoas. Os exemplos mais comuns são os médicos e os advogados.

FREELANCER

É um neologismo de origem americana. Pode apresentar registro de autônomo ou abrir uma empresa (pessoa jurídica) para emitir nota.

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SEM ISSO, NÃO ROLA

Cinco competências para ser bem-sucedido nos modelos flexíveis de trabalho

NETWORKIKG

Só será convidado a apresentar projetos quem estiver inserido numa ampla rede de contatos que ajude a circular a sua reputação profissional. Estar engajado num grupo que admira garantirá a sobrevivência no mercado de trabalho do século 21.

APRENDIZADO CONTÍNUO

Coco não haverá mais RH desenhando o plano de desenvolvimento, o empregado de si mesmo terá de estar sempre aberto ao novo em busca de fontes de aprendizado e experiências que garanta desenvolver as competências mais valorizadas no momento.

Criatividade

Os 200 anos passados foram de automação do trabalho físico. Já a revolução em curso, marca a informatização do trabalho intelectual, como pensamento padronizado sendo realizado por robôs, o que vai diferenciar o indivíduo das máquinas é o raciocínio inovador.

ADAPTABILIDADE

A facilidade de se adaptar rapidamente a diferentes situações e de superar revezes ajudará a enfrentar as turbulências da era da informalidade, na qual a rotina muda frequentemente e não é possível planejar com precisão o amanhã.

VISÃO ESTRATÉGICA

Será necessário encarar a carreira não como um funcionário, mas sim, como um microempresário. A capacidade de prever novos cenários e encontrar soluções inteligentes para atuar neles é o que vai garantir trabalho e renda.

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O LADO BOM

Os benefícios do dia a dia de quem adota esse novo jeito de viver

AUTONOMIA

Uma das grandes vantagens dos autônomos é a independência para tocar as tapas de trabalho. A escolha de quais projetos aceitar é toda deles, assim como a organização do tempo. Dá para fazer o próprio horário e não ficar engessado nas 8 horas de expediente diárias previstas por lei.

FÉRIAS

Os “formais” recebem salário integral acrescido de um terço antes de desfrutar do descanso, mas muitas vezes não conseguem escolher a data, sendo obrigados a sair no período mais conveniente à empresa. Quem trabalha por conta, embora não tenha férias remuneradas, escolhe quando e por quanto tempo ficará fora.

CARREIRA

No modelo tradicional, os empregados precisam alinhar com a liderança os treinamentos e as expectativas em relação aos cargos que desejam concorrer – e nem sempre as coisas caminham do modo como gostariam. Os informais têm mais liberdade para decidir que caminho trilhar e o que estudar.

METAS

Quando se é funcionário de uma companhia. É ela que define o que é preciso realizar. Raras são as exceções em que o profissional pode opinar se o objetivo é alcançado. Quem fica com a maior parte do dinheiro conquistado é a empresa. Os autônomos são 100% responsáveis por suas metas, e isso tem um lado bom: a sensação de sucesso ao atingi-las é toda deles – assim como o dinheiro conquistado.

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ALIMENTO DIÁRIO

 

JOÃO 6: 28-59 – PARTE III

Alimento diário

Cristo, o verdadeiro Pão do Céu. Cristo dá as boas-vindas a todos os que veem a Ele. A necessidade de alimentar-se de Cristo

2. Ao falar desta maneira a respeito de si mesmo, como o pão da vida que desce do céu, Cristo nos deixa ver as observações que seus ouvintes fizeram.

(1) Quando ouviram falar de algo como o pão de Deus, que dá a vida, eles fervorosamente pediram (v. 34): “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Eu não consigo pensar que isto tenha sido dito de maneira zombeteira, como a maioria dos intérpretes entende: “Dê-nos um pão como este, se puderes. Que sejamos alimentados com ele, não em uma refeição, como a dos cinco pães, mas para sempre”. Como se esta fosse uma oração diferente daquela do salteador impenitente: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós”. Mas eu entendo que, embora de forma ignorante, este pedido foi feito honestamente e teve boa intenção, pois eles o chamam de Senhor, e desejam uma parte daquilo que Ele dá, não importando o que Ele quer dizer com isto. Noções gerais e confusas das coisas divinas produzem, em corações carnais, algum tipo de vontade em relação a elas, e desejo delas, como o desejo de Balaão, de morrer a morte dos justos. Aqueles que têm um conhecimento indistinto das coisas de Deus, que veem os homens como árvores que andam, fazem, como eu as chamo, orações desconexas pedindo bênçãos espirituais. Eles julgam que o favor de Deus é uma coisa boa, e que o céu é um bom lugar, e não podem deixar de desejá-los para si mesmos, embora não valorizem nem desejem, de maneira nenhuma, esta santidade, o que é necessário tanto para uma coisa quanto para a outra. Que este seja o desejo das nossas almas. Já provamos que o Senhor é bondoso? Já fomos alimentados com a Palavra de Deus, e por Cristo, que está na Palavra? Devemos dizer: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Que o pão da vida seja nosso pão diário, o maná celestial, nosso constante banquete, e que nunca sintamos a falta dele”.

(2) Mas, quando compreenderam que, por este pão da vida, Jesus se referia a si mesmo, eles o desprezaram. Não sabemos se estas eram as mesmas pessoas que tinham pedido deste pão (v. 34), ou outras pessoas no grupo, pois não está escrito. Aparentemente, eram outras, pois são chamadas de judeus. Agora está escrito (v. 41): “Murmuravam … dele”. Isto está escrito imediatamente depois da solene declaração que Cristo tinha feito sobre a vontade de Deus e sua própria missão a respeito da salvação do homem (vv. 39,40), que certamente foram algumas das palavras mais poderosas e graciosas que saíram da boca do nosso Senhor Jesus, as mais fiéis e mais dignas de toda aceitação. Poderíamos pensar que, como Israel no Egito, quando ouviram que Deus os tinha visitado, teriam curvado suas cabeças e o adorado. Mas, ao contrário, em vez de aceitar a oferta que lhes era feita, eles murmuraram, discutiram com o que Cristo tinha dito e, embora não se opusessem abertamente, contradizendo-o, ainda assim, privadamente, sussurraram entre eles, desprezando a oferta, e instilando, nas mentes uns dos outros, preconceitos contra ela. Muitos que não se atreverão a contradizer abertamente a doutrina de Cristo (suas críticas são tão fracas e infundadas, que se envergonham de reconhecê-las, ou temem vê-las silenciadas), dizem, em seus corações, que não gostam dela. Agora:

[1] O que os ofendeu foi a declaração de Cristo, de que sua origem era do céu, vv. 41,42. “Como, pois, diz ele: Desci do céu?” Eles tinham ouvido sobre anjos vindos do céu, mas nunca sobre um homem vindo do céu. Eles ignoraram as provas que Ele lhes tinha dado, de que era mais do que um homem.

[2] O que eles pensavam que os justificava era o fato de que conheciam a origem de Cristo na terra: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos?” Eles julgaram impróprio que Ele dissesse que vinha do céu, sendo um deles. Eles falam com desprezo do seu bendito nome, Jesus: “Não é este Jesus”. Eles tinham por certo que José era realmente seu pai, embora ele somente tivesse a reputação de sê-lo. Observe que equívocos a respeito da pessoa de Cristo, como se Ele fosse um mero homem, concebido e nascido por geração comum, são ocasionados pelas ofensas e provocações à sua doutrina e às suas obras. Não é de admirar que aqueles que o colocam no mesmo nível que os demais filhos dos homens, cujo pai e mãe conhecemos, menosprezem a honra da sua expiação e os mistérios da sua missão, e, como os judeus aqui, murmurem contra sua promessa de nos ressuscitar no último dia.

3. Tendo falado da fé como a grande obra de Deus (v. 29), Cristo discursa longamente a respeito desta obra, instruindo-nos e incentivando-nos nela.

(1) Ele mostra o que é crer em Cristo.

[1] Crer em Cristo é vir a Cristo. A expressão “aquele que vem a mim” é a mesma coisa que “aquele que crê em mim” (v. 35), e também é mencionada outra vez através da frase (v. 37): “O que vem a mim”. Também vv.  44,45. O arrependimento em relação a Deus é vir a Ele (Jeremias 3.22), como nosso bem supremo e nosso objetivo mais elevado, e a fé em relação ao nosso Senhor Jesus Cr isto consiste em vir a Ele, como nosso príncipe e Salvador, e nosso caminho para o Pai. Isto denota nossa afeição por Ele, pois estes são os impulsos da alma, e as ações correspondentes. Isto consiste em deixar todas aquelas coisas que estão em oposição a Ele, ou em competição com Ele, e, ir àqueles termos nos quais a vida e a salvação nos são oferecidas, por seu intermédio. Quando Cristo estava na terra, isto significava mais do que simplesmente, ir até onde Ele estava. Agora também é mais do que vir à sua Palavra e às suas ordenanças.

[2] É alimentar-se de Cristo (v. 51): “Se alguém comer desse pão”. A expressão anterior denota aplicar-se a Cristo. Esta denota aplicar Cristo a nós mesmos, com apetite e deleite, para que possamos receber dele a vida, a força e o consolo. Alimentar-se dele, como os israelitas se alimentaram do maná, tendo deixado a vida que tinham no Egito, e não dependendo do trabalho das suas mãos (para comer), mas vivendo puramente do pão que lhes era dado do céu.

(2) O Senhor mostra o que é conseguido quando se crê nele. O que Ele nos dará, se viermos a Ele? Em que seremos melhores, se nos alimentarmos dele? A necessidade e a morte são nossos principais temores. Se tivermos a certeza dos consolos da nossa existência, e da continuidade dela em meio a estes consolos, teremos o suficiente. Estas duas coisas são, aqui, asseguradas aos verdadeiros crentes.

[1] Eles nunca terão necessidades, nunca terão fome, nunca terão sede, v. 35. Desejos, eles terão, desejos ardentes, mas são tão adequadamente, tão oportunamente e tão abundantemente satisfeitos, que não podem ser chamados de fome e sede, que são desconfortáveis e dolorosas. Aqueles que comiam o maná, e bebiam da rocha, sentiam fome e sede depois. O maná os satisfazia por algum tempo, e a água da rocha os refrigerava. Mas em Cristo existe uma plenitude tão abundante, que nunca poderá ser esgotada. Ele transmite constantemente sua graça e seu poder; e estas bênçãos nunca podem ser interrompidas.

[2] Eles nunca morrerão, não morrerão eternamente, pois, em primeiro lugar, aquele que crê em Cristo “tem a vida eterna” (v. 47). Ele tem a certeza disto, a garantia disto, o depósito dela. Ele a tem na promessa e nas primícias. A união com Cristo e a comunhão com Deus são o início da vida eterna. Em segundo lugar, em­ bora aqueles que comiam o maná morressem, Cristo é um pão que um homem pode comer e nunca morrer, vv. 49,50. Observe aqui:

1. A insuficiência do maná típico: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram”. Pode-se fazer muito bom uso da morte dos nossos pais. Seus túmulos nos dizem, e seus monumentos nos lembram, particularmente, que a maior plenitude do alimento mais delicioso jamais prolongará o fio da vida, nem desviará o golpe da morte. Aqueles que comiam o maná, o manjar dos anjos, morriam, como os outros homens. Não havia nada errado na sua dieta que encurtasse seus dias, nem suas mortes poderiam ser apressadas pelos esforços e fadigas da vida (pois eles não semeavam nem colhiam), e ainda assim, morriam.

(1) Muitos deles morreram pelos golpes imediatos da vingança de Deus, pela sua descrença e pelas suas murmurações, pois, embora eles comessem aquela comida espiritual, Deus não estava satisfeito com muitos deles, mas eles foram prostrados no deserto, 1 Coríntios 10.3-5. O fato de que comessem o maná não os protegia da ira de Deus, como crer em Cristo protege a nós.

(2) O restante deles morreu pelo curso da natureza, e suas carcaças caíram, por uma sentença divina, naquele mesmo deserto onde tinham comido o maná. Naquela mesma época em que os milagres eram o pão diário, a vida do homem foi aparentemente reduzida ao limite que agora tem, Salmos 90.10. Assim, os judeus não deveriam e não poderiam se vangloriar tanto do maná.

2. A suficiência do verdadeiro maná, do qual o outro era somente um tipo: “Este é o pão que desce do céu”, este alimento verdadeiramente divino e celestial, “para que o que dele comer não morra”, isto é, não caia sob a ira de Deus, que é morte para a alma, não morra a segunda morte. Não, nem a primeira morte, pois esta será uma situação final e irrecuperável. Não morra, isto é, não pereça, não deixe de alcançar a Canaã celestial, como os israelitas deixaram de alcançar a terrena, por falta de fé, embora tivessem o maná. Isto é ainda mais explicado pela promessa contida nas palavras seguintes: “Se alguém comer desse pão, viverá para sempre”, v. 51. Este é o significado deste “nunca morrer”. Embora o crente desça à morte, ele passará por ela e entrará naquele mundo em que não haverá mais morte. Viver para sempre não significa existir para sempre (os condenados no inferno existirão para sempre, pois a alma do homem foi feita para um estado eterno), mas ser feliz para sempre. E como o corpo precisa morrer, e ser como água derramada no chão, aqui Cristo se compromete a cuidar da situação (como antes, v. 44: “Eu o ressuscitarei no último Dia”). E assim viveremos para sempre.

(3) O Senhor Jesus mostra os incentivos que nós temos para crer nele. Cristo aqui fala de alguns que o tinham visto, e ainda assim, não criam, v. 36. Eles viram sua pessoa e seus milagres, mas não foram levados a crer nele. A fé nem sempre é o resultado da visão; os soldados foram testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, e ainda assim, em vez de crerem nele, mentiram a seu res­ peito. Assim, vemos que é difícil levar as pessoas a crer em Cristo. Mas, pela operação do Espírito da graça, muitos daqueles que não viram, creram. Duas coisas nos são asseguradas aqui, para encorajar nossa fé:

[1] Que o Filho dará boas-vindas a todos aqueles que vierem a Ele (v. 37): “O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Quão bem-vindas são às nossas almas estas palavras de boas-vindas da pare de Cristo! “O que vem” está no singular, denotando favor, não somente ao corpo de crentes em geral, mas a toda alma, em particular, que se apresente a Cristo. Aqui, em primeiro lugar, o dever exigido é um puro dever expresso pelo Evangelho: vir a Cristo, para que possamos vir a Deus por seu intermédio. Sua beleza e seu amor, estes grandes atrativos, devem nos atrair a Ele. O sentimento de necessidade e o medo do perigo devem nos levar a Ele. Qualquer coisa que nos levar a Cristo será vantajosa para nós. Em segundo lugar, a promessa é uma pura promessa do Evangelho: de maneira nenhuma o lançarei fora. Há duas negativas: Não o farei, não o farei.

1. Grandes favores estão expressos aqui. Nós temos razões para temer que Ele nos lance fora. Considerando nossa mesquinhez, nossa vilania, nossa indignidade ao vir, nossa fraqueza em vir, nós podemos, com razão, esperar que Ele nos repreenda e feche suas portas para nós. Mas Ele apaga estes temores com esta certeza: Ele não fará isto. Embora sejamos mesquinhos, não desdenhará de nós, embora sejamos pecadores, não nos rejeitará. Os pobres alunos vêm até Ele para serem ensinados? Embora sejam tolos e lentos, Ele não os lançará fora. Os pobres pacientes vêm até Ele para serem curados, os pobres clientes vêm até Ele para serem aconselhados? Embora sua situação seja difícil, e embora venham de mãos vazias, Ele não os lançará fora, de maneira nenhuma. Mas:

2. Há mais favores implícitos do que expressos. Quando está escrito que Ele não os lançará fora, o significado é: Ele os receberá, e lhes dará as boas-vindas, e lhes dará aquilo por que vieram até Ele. Assim como Ele não os rejeita por ocasião da primeira vez em que vieram a Ele, também depois, a cada desprazer, não os lançará fora. “Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”.

[2] Que o Pai irá, sem dúvida, trazer a Cristo, no devido tempo, todos os que foram dados a Ele. Nas transações entre o Pai e o Filho, com relação à redenção do homem, assim como o Filho empreende a justificação, a santificação e a salvação de todos os que vêm a Ele (“Que sejam postos nas minhas mãos, e eu cuidarei deles”), também o Pai, a fonte e a origem da existência, da vida e da graça, tem prazer em colocar nas mãos de Jesus todos aqueles que lhe foram dados, trazendo-os a Ele.

Em primeiro lugar, aqui Ele nos assegura que isto será feito: “Tudo o que o Pai me dá virá a mim”, v. 37. Cristo tinha se queixado (v. 36) daqueles que, embora o tivessem visto, ainda assim não criam nele. E então Ele acrescenta isto:

[1] Para a convicção e motivação deles, dando a entender claramente que se insistissem em não vir a Ele e não cressem nele, isto seria um sinal certo de que não pertenciam à escolha da graça. Como podemos pensar que Deus nos entregou a Cristo, se nos entregamos ao mundo e à carne? 2 Pedro 1.10.

[2] Para seu próprio consolo e encorajamento: “Israel não se deixou ajuntar; contudo… serei glorificado”. A eleição foi feita e alcançará seus objetivos, ainda que as multidões estejam endurecidas, Romanos 11.7. Embora o Senhor perca muitas das suas criaturas, por não desejarem se entregar a Ele, ainda assim, não perderá nenhuma daquelas que estiverem sob seus cuidados: tudo o que o Pai lhe dá, virá a Ele. Aqui temos:

(a) A descrição da escolha: “Tudo o que o Pai me dá”, todas as coisas que o Pai me dá. Os eleitos, e tudo o que pertence a eles. Todos os seus serviços, todos os seus interesses. Assim como tudo o que Ele tem é deles, também tudo o que eles têm é dele, e Ele fala deles como seus. Eles lhe foram dados, como recompensa total da sua missão. Não somente todas as pessoas, mas todas as coisas, são congregadas em Cristo (Efésios 1.10), e reconciliadas com Ele, Colossenses 1.20. A entrega do remanescente escolhido a Cristo é mencionada (v. 39) como algo já concluído. Ele os deu. Esta entrega é aqui mencionada como algo em andamento. Ele os dá, porque, quando o Primogênito foi trazido ao mundo, aparentemente houve uma renovação da garantia. Veja Hebreus 10.5ss. Agora Deus estava prestes a dar a Cristo os pagãos, por sua herança (Salmos 2.8), a dar-lhe a posse das herdades as­ soladas (Isaias 49.8), e dar-lhe a parte de muitos, Isaías 53.12. E embora os judeus, que o viram, não cressem nele, estes (diz Ele) “virão a mim”. As outras ovelhas, que não pertencem a este aprisco, serão agregadas, cap. 10.15,16. Veja Atos 13.45-48.

(b) O resultado assegurado: eles “virão a mim”. Isto não faz parte da natureza de uma promessa, mas é uma predição de que tantos quantos foram, no conselho de Deus, ordenados para a vida, serão trazidos à vida, sendo trazidos a Cristo. Eles estão dispersos, misturados entre as nações, mas ainda assim nenhum deles será esquecido. Nem um grão do trigo de Deus será perdido, como foi prometido, Amós 9.9. Eles estão, por natureza, alienados de Cristo, e são contrários a Ele, e ainda assim, virão. Assim como a onisciência de Deus está envolvida para encontrar todos os que estão de fora, sua onipotência também está envolvida para trazê-los, a todos, para dentro. Não: Eles serão forçados a vir a mim, mas: Eles virão livremente, voluntariamente.

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