PSICOLOGIA ANALÍTICA

O FASCÍNIO PELOS SONHOS

O simbolismo cifrado e transcendente das produções oníricas sempre intrigou as pessoas e suscitou, desde a Antiguidade, os mais variados estudos e interpretações, dos míticos e proféticos aos psicanalíticos e neurofisiológicos.

O fascínio pelos sonhos

Em Gênesis, capítulo 39, José está numa pior. A mulher de Potifar, a cujas investidas ele resistiu, intrigou-o junto ao marido, que mandou prender o jovem hebreu. Tudo muda, porém, quando, ainda na prisão, José começa a revelar-se intérprete de sonhos, primeiro dos servidores do faraó do Egito e depois do próprio faraó. O famoso sonho das sete vacas magras que devoram sete vacas gordas (e que se traduziria em sete anos de abundância seguidos por sete de más colheitas) vale para José, que havia sido vendido como escravo por seus irmãos, um elevado cargo governamental. A passagem bíblica traduz a importância que os sonhos tinham no mundo antigo e que têm em muitas culturas. Isto se deve ao caráter do próprio sonho, um evento que ocorre de forma espontânea, involuntária, que assume formas estranhas, bizarras e dá ao sonhador a sensação de uma mensagem que transcende os limites da realidade cotidiana. Mensagem que pode vir até da divindade.

A valorização dos sonhos na Bíblia hebraica não é exceção. Na antiga Mesopotâmia há referências a práticas divinatórias baseadas em sonhos já no segundo milênio antes de Cristo. Os egípcios os interpretavam como mensagem dos deuses; o papiro de Deral- Madineh (cerca de 2000 a.C.) dá instruções acerca de como obter uma mensagem onírica do deus Serapis; o postulante tinha de passar a noite num dos muitos templos dedicados ao deus e assim “incubar” seu sonho. Os Vedas, textos sagrados da Índia antiga (escritos provavelmente entre 1500 e 2000 a.C.), contêm interpretações de sonhos, interpretações estas que tinham de ser correlacionadas com o período da noite em que o sonho ocorrera e com o temperamento do sonhador. Na China, Chuang-tzu (século IV a.C.) sustentava ser impossível diferenciar o sonho do mundo real. Conta-se que certa vez ele sonhou que  era uma borboleta; quando acordou, não sabia se era uma borboleta agora sonhando que era homem ou se era um homem que havia sonhado ser borboleta…Os sonhos relatados nas culturas do Oriente Médio tinham uma série de características em comum. Em primeiro lugar, o sonhador quase sempre era uma pessoa importante, como o faraó. Em segundo lugar, o sonho ocorria em um momento de crise, ou de proximidade de crise, mesmo que o sonhador disso não se desse conta. Em terceiro lugar, os sonhos frequentemente tinham caráter simbólico, não acessível ao sonhador, necessitando por isso de interpretação. Na Grécia antiga o sonho desempenhava papel transcendente; na obra homérica aparece várias vezes, mas a autoridade mais influente nesta matéria foi, sem dúvida, Aristóteles. Segundo ele, os sonhos têm origem no próprio órgão das emoções, o coração, e resultam dos movimentos dele. O sonho tem caráter profético e é também um incentivo, um roteiro, para futuras ações do sonhador. Já os estoicos dividiam os sonhos em três grupos: aqueles que vinham de divindades, aqueles que vinham de seres malignos e os que nasciam da própria alma do sonhador. Os gregos também valorizavam o sonho do ponto de vista da saúde e doença. Aristóteles sustentava que, por meio deles, um bom médico podia prever o surgimento de enfermidade, a cura ou o óbito. Hipócrates, o pai da medicina, também pensava assim. Reconhecia a existência de sonhos inspirados pelas divindades, mas assinalava que causas naturais, ligadas ao corpo, podiam ser evidências do estado físico deste. Esse posicionamento, aliás, perpassa toda a obra hipocrática; naquela época, a epilepsia, por exemplo, era considerada uma “doença divina”, evidência de que deuses se haviam apossado do corpo da pessoa. Nada disso, dizia Hipócrates, a epilepsia tem causas naturais, como outra enfermidade qualquer. No caso dos sonhos, quando se referem a lutas ou guerras, indicam uma desordem orgânica. Ao contrário, sonhar com o sol e a lua é sinal de boa saúde. E há equivalências; os rios, por exemplo, são análogos ao sistema circulatório. Se estiverem transbordando, indicam pletora, excesso de sangue; se estiverem secos, sugerem anemia, falta de sangue. Que o sonho era importante do ponto de vista da saúde, mostra-o o culto a Asclépio ou Esculápio, o deus da medicina, realizado no templo de Epidauro. Ali o enfermo era admitido. Depois de ritos purificadores, era conduzido ao abaton, um lugar reservado aos crentes, e onde deitava em um clinos, leito (daí vem a palavra “clínica”). Ali deveria dormir. Tudo dando certo, Asclépio lhe apareceria em sonhos, às vezes acompanhado de suas filhas, Higeia, a deusa da higiene, e Panaceia, a deusa da cura. Ou, então, podia aparecer sob a forma de serpente (a serpente enrolada no caduceu é símbolo da medicina). Em matéria de interpretação de sonhos, seguramente a obra mais importante da época é a Oneirocritica, trabalho em cinco volumes escrito no século II d.C. por Artemidoro, da cidade de Daldis (Ásia Menor) e que comporta a análise de mais de três mil sonhos. Para Artemidoro, os sonhos se dividem em não preditivos e preditivos. Os não preditivos compreendem os pesadelos e o phantasma, termo que parece indicar as alucinações hipnagógicas que comumente ocorrem quando a pessoa está adormecendo (sensação de queda, por exemplo). Os sonhos preditivos comportam três tipos: oneiros, que é alegórico, passível de interpretação; horama, explicitamente preditivo, antevisão; e chrematismos, em que aparece um deus anunciando algo. Para bem interpretar um sonho, Artemidoro estabelece regras, cuja validade qualquer psicanalista moderno endossaria: é preciso conhecer a pessoa que sonhou, sua vida, seu caráter, seu estado de ânimo, as circunstâncias em que vive. Outro autor importante viveu no século IV d.C. Trata-se de Ambrósio Teodósio Macróbio, um dos chamados cristãos neoplatônicos. Como Artemidoro, Macróbio faz uma classificação dos sonhos e assinala a importância da atividade onírica como iniciação ao conhecimento da própria alma. Na Roma antiga, a interpretação dos sonhos não era tão valorizada como na Grécia. Uma exceção é representada pelo filósofo do século II d.C., Tertuliano, para quem os sonhos poderiam provir de deuses, de demônios, de causas naturais ou de um estado de êxtase. Enquanto isto, o Talmud, coleção de comentários religiosos judaicos coletados entre os séculos II a.C. e III d.C., retomava a tradição bíblica da interpretação de sonhos, porque “um sonho não interpretado é como uma carta que não é aberta”. O cristianismo, de início, aceitou a ideia grega de que os sonhos pudessem ter origem divina. Cipriano, bispo de Cartago por volta de 250 d.C., afirmava que os concílios da Igreja eram guiados por Deus por meio de sonhos e visões dos participantes. Santo Agostinho descrevia certos sonhos como dádivas do Senhor. No século V, o bispo Sinésio escreveu  (em uma única noite, segundo a tradição) um tratado sobre os sonhos, defendendo a ideia de que eles são proféticos, surgindo da própria alma, que alberga a imagem de acontecimentos futuros e as transmite à “fantasia”, uma espécie de vida que ocorre na profundidade do ser. Mas a possibilidade de que os sonhos pudessem ter também caráter pecaminoso ou sacrílego começou a emergir e veio inclusive a tornar-se uma preocupação da Inquisição. Já a cultura islâmica valorizava muito os sonhos; boa parte do Corão foi transmitida por Deus a Maomé através de sonhos. Nas culturas ditas “primitivas”, o sonho também tem papel importante, indicando, por exemplo, o melhor lugar para caçar ou encontrar uma erva curativa, ou alertando sobre uma ameaça à saúde. Entre os ojibwa, índios que vivem nos Estados Unidos e no Canadá, os sonhos fazem parte do rito de iniciação. Quando chegam à puberdade, e antes de ter relações sexuais, os jovens, depois de um jejum prolongado, são levados a um lugar isolado onde devem dormir; espera-se que durante o sonho tenham contato com imagens protetoras, não humanas (uma águia, por exemplo), e delas recebam uma “bênção”. “Se sonhares bem, terás uma vida longa e boa”, dizem os anciãos da tribo. Para muitos aborígenes australianos, a expressão “tempo do sonho” refere-se ao tempo que precedeu a existência do mundo real. Espíritos ancestrais vieram, então, ao mundo e fizeram surgir a terra, as plantas, os animais.

A ESTRADA DO REAL

O sonho é fundamental na iniciação do xamã.  O termo saman, que vem de um idioma siberiano, significa “calor interno” e refere-se aos poderes mágicos e espirituais desses feiticeiros tribais. O xamanismo, prática que pode ser encontrada na Ásia, África, América, não depende de iniciativa pessoal; o indivíduo recebe um chamado, em geral sob a forma de sonho, no qual tipicamente o sonhador é arrebatado para um lugar longínquo, seu corpo sendo feito em pedaços. Entre os dyak de Bornéu, os iniciados informam que seu cérebro é removido e lavado, de modo a “limpar” o pensamento.  Nessas culturas, as pessoas muitas vezes incorporam a seus sonhos os símbolos resultantes de mitos tribais. O que é o mito? É uma narrativa, em geral de caráter sagrado, que proporciona uma explicação para os fenômenos da vida e do Universo. Joseph Campbell, estudioso do assunto, define a relação entre mito e sonho da seguinte maneira: “Mitos são sonhos partilhados, sonhos são mitos privados”. Os povos possuem mitos; os sonhos possuem pessoas. Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, começou a estudar os sonhos depois de anos de pesquisa neurológica, à qual havia se dedicado no começo de sua carreira médica. Estagiando no serviço do psiquiatra Jean Martin Charcot, em Paris, observou vários casos de histeria, então muito comum entre mulheres, impressionando-se com a conotação sexual da doença e com o fato de as pacientes não se darem conta da causa dos problemas, o que sugeria a existência de um mecanismo não consciente. A princípio, usava o hipnotismo para tratar seus doentes, mas depois optou por um método terapêutico baseado na livre associação e na análise dos sonhos como forma de chegar aos conflitos; do sonho, particularmente, dizia que era a “estrada real”, ou seja, o caminho privilegiado para o inconsciente. Falava por experiência própria; no processo de autoanálise ao qual se submeteu durante um período atormentado de sua existência (a partir de 1892), os sonhos desempenharam papel fundamental. Começou a registrá-los e analisá-los. Foi quando se deu conta de que correspondem a desejos não realizados, muitas vezes de natureza sexual. Mas tais desejos aparecem de forma disfarçada, por causa da censura interna do ego; se assim não fosse, o sono seria impossível. Por essa razão precisam ser interpretados por meio do tratamento psicanalítico. Os sonhos, para Freud, têm um conteúdo manifesto, aquilo que aparece sob forma de imagens, e um latente, o significado oculto. O conteúdo latente é disfarçado através de processos como o simbolismo (a fantasia inconsciente se expressa sob a forma de um objeto: um bastão pode ser o pênis, uma caixa, a vagina), a condensação (dois ou mais símbolos se fundem), o deslocamento (que associa objetos aparentemente não conectados). Imagens resultantes da realidade cotidiana podem aparecer sob a forma de “restos diurnos”.

Para Freud, os sonhos são análogos às fantasias neuróticas; ora, considerando que é praticamente impossível diferenciar os sonhos de neuróticos dos sonhos de pessoas ditas normais, ele concluía que todos somos neuróticos, em maior ou menor grau. As ideias de Freud a respeito da atividade onírica estão na obra A interpretação dos sonhos, publicada em 1899 (mas datada 1900), considerada seminal para a psicanálise e da qual ele muito se orgulhava. Dizia que um dia uma placa seria colocada na casa onde morava (e onde dormia e sonhava) com os dizeres: “Nesta casa, em 24 de julho de 1895, o segredo dos sonhos foi revelado ao doutor Sigmund Freud”. A data marca a ocorrência daquele que fora o sonho mais famoso de Freud, o “sonho de Irma”, uma de suas pacientes. No dia anterior, um colega e amigo de Freud observara que “Irma” não parecia evoluir muito bem. No sonho, Freud examina a garganta de “Irma” e descobre que ela tem uma espécie de infecção, o que lhe dá grande alívio: ele não era culpado pelo fato de a paciente não ter melhorado. Ou seja, o sonho preenchia um desejo inconsciente do médico.

O psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) a princípio trabalhou com Freud, mas depois rompeu com ele e criou suas próprias teorias. Cunhou a expressão “inconsciente coletivo”, um nível da mente, herdado e partilhado por toda a humanidade, que produz mitos, visões religiosas… e sonhos. Nesses encontramos temas comuns, os arquétipos. Exemplo de arquétipo é a Grande Mãe, em cuja figura várias deusas do Oriente Médio foram calcadas.

Jung também formulou os conceitos de persona e sombra. Persona é a “máscara” atrás da qual nos ocultamos na vida cotidiana. Pessoas que assumem sua persona são propensas a ter sonhos nos quais aparece a sombra, o oposto da persona. Como exemplo, Jung cita o sonho de um funcionário público obcecado com regulamentos e com a honestidade, e que de noite sonha que um ladrão irrompe em sua casa: o ladrão é a sombra.

ROTEIROS, LABIRINTOS E PESADELOS

Sonhos são experiências altamente subjetivas e, portanto, extremamente variáveis de pessoa a pessoa; como observou Freud, existem até mesmo aqueles que não se lembram dos sonhos e concluem, erroneamente, que não sonharam. Isso durante muito tempo se constituiu em obstáculo para uma correlação objetiva entre a atividade onírica e o funcionamento do organismo, particularmente do cérebro. Porém, à medida que foram surgindo métodos de registro da atividade nervosa, como a eletroencefalografia (EEG), eletro-oculografia e eletromiografia, as pesquisas puderam avançar. Constatou-se então que o sono não é uma coisa só; pode ser dividido em fases ou estágios. O estágio 1 é o do início do sono; o estágio 2 é o do sono leve; e os estágios 3 e 4 correspondem ao sono profundo, no qual ocorre o movimento rápido de olhos (rapid eye movement, REM). Nesta fase, a atividade cerebral é maior e semelhante àquela da vigília; a atividade muscular é inibida, com exceção dos músculos oculares, que se movimentam rapidamente – daí a denominação. Em meados dos anos 1950 foi postulado que o sonho estava associado ao sono REM, mas depois foi constatado que se sonha em todas as fases. No período REM, contudo, os sonhos tendem a ser mais detalhados e parecem ter um “roteiro”. A ocorrência dos sonhos é explicada pela chamada hipótese da ativação-síntese, por meio da qual estímulos originários do tronco cerebral ativam o cérebro frontal, a parte mais “evoluída” de nosso sistema nervoso, que tenta dar “coerência” a tais estímulos; lesões nessa região frontal, mesmo com preservação do sono REM, tornam o sonho impossível. A hipótese ainda é objeto de discussão; trabalhos mostram que o tronco cerebral não é essencial para o ato de sonhar, nem mesmo o sono REM. De 26 pacientes que tiveram lesão no tronco cerebral, com desaparecimento do sono REM, só um perdeu a capacidade de sonhar. Animais também sonham? Uma experiência feita com ratos sugere que sim. Quando esses roedores são colocados num labirinto, o que acontece comumente em laboratório, ativa-se uma região cerebral conhecida como hipocampo; a ativação continua no sono REM. É como se estivessem “ensaiando” para a atividade que faziam quando estavam acordados. Esta ideia do “ensaio”, aliás, é usada em uma teoria evolucionista, darwiniana, do sonho. Nossos antepassados trogloditas enfrentavam um grande número de ameaças. Nos sonhos, eles podiam “ensaiar” para enfrentá-las, aumentando assim as chances de sobrevivência e transmitindo a habilidade para a progênie. A hipótese explicaria também por que o sono REM é mais frequente em recém-nascidos, podendo durar cerca de oito horas, declinando depois ao longo da vida. A longa duração do sono REM seria igualmente um “ensaio”, um passo importante no aprendizado e no processamento de memórias, um auxílio importante nos embates da vida. Essas pesquisas contrariam as ideias freudianas? Não necessariamente. O sono REM seria um desencadeador dos sonhos. Mas os sonhos em si, as imagens que neles aparecem, seriam condicionados por nosso psiquismo, por nossos desejos. Perturbações do sono REM podem se traduzir em pesadelos e em terror noturno. Pesadelos são muito comuns; ocorreram em cerca da metade de estudantes universitários americanos acompanhados durante um período de duas semanas. Outra pesquisa mostrou uma frequência de 8% na população geral. Além dos distúrbios do sono REM, há outros fatores desencadeantes: medicamentos, enfermidades, problemas respiratórios durante o sono (apneia, ou interrupção da respiração) e problemas psíquicos como o estresse pós-traumático, que surge após a pessoa ter vivido uma situação de grande tensão (na guerra, por exemplo). Já o terror noturno é um episódio que se acompanha de pânico e agitação. Afeta cerca de 4% da população, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e é mais comum em crianças. Como o pesadelo, pode ser causado também por problemas orgânicos e psíquicos.

DRAMATURGIA NOTURNA

O potencial criativo do sonho sempre impressionou artistas e cientistas e parece corresponder à realidade: um trabalho mostra que a capacidade de associar palavras aumenta cerca de 30% imediatamente após um sonho. Há, na história, pelo menos dois exemplos famosos de criatividade associada a sonho. O primeiro é o do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834). Quando vivia numa fazenda no interior da Inglaterra, por conta de uma indisposição, tomou tintura de ópio (que causa sono) e adormeceu enquanto lia um texto descrevendo a construção do palácio do imperador mongol Kubla Khan. Em sonho compôs um poema sobre esse palácio, que, segundo ele, não teria menos de 200 a 300 linhas. Acordando, tratou de colocá-lo no papel, mas foi interrompido pela visita de alguém. Quando tentou terminar a tarefa, viu que já era impossível recapturar as imagens de sua mente. O segundo exemplo é o do químico alemão August Kekule von Stradonitz, que, em 1890, tentava descobrir a maneira pela qual os átomos de carbono se dispõem na molécula do benzeno, um derivado do petróleo. Problema difícil e obsessivo; certa vez, pensando no problema, o químico adormeceu em frente à lareira. No sonho, as chamas se transformaram em serpentes, uma das quais mordeu o próprio rabo, criando uma imagem circular que deu a Kekule a solução do problema: os átomos se dispõem sob a forma de anel. Detalhe interessante: a serpente que morde o próprio rabo é uma figura muito presente na mitologia e na alquimia. É um símbolo de autofecundação, uma imagem de padrão cíclico, do fim retornando ao princípio. Tanto na arte como na literatura, o clima onírico aparece com frequência. Os textos de Franz Kafka, por exemplo, lembram pesadelos. “O sonho é puro drama”, diz o dramaturgo Eugène Ionesco. Por causa disso, muitas tentativas têm sido feitas para aproveitar o potencial criativo dos sonhos. Uma delas é aquilo que se chama “sonho lúcido”: a pessoa tem consciência de que está sonhando e procura estabelecer um controle “lúcido” sobre a experiência. Transforma-se num “oneironauta”, num explorador de sonhos. O assunto foi objeto de estudos em universidades, mas atrai também místicos, ocultistas, escritores de auto ajuda e grupos new age. Existem na internet quase dois milhões de referências a respeito. O fato é que, apesar de todo o conhecimento acumulado, ainda há muita coisa a ser descoberta acerca dos sonhos. Escreveu o espanhol Calderón de la Barca (1600-1681): “La vida es sueño/y los sueños, sueños son”. Não: os sonhos não são apenas sonhos, são uma porta de entrada para a nossa vida, que é esta esplêndida e desafiadora mistura de sonho e realidade.

 O fascínio pelos sonhos.2

SETE VACAS MAGRAS devoram sete vacas gordas: a famosa passagem bíblica indica a importância do sonho no mundo antigo.

OUTROS OLHARES

O LIXO DA REDE 

Como funciona o maior grupo de propagação de ódio na internet brasileira, que ganha dinheiro com ações misóginas, racistas e homofóbicas.

O lixo da rede

TROLLANDO O INIMIGO

Além da superfície de imagens fofas e curtidas, a internet cultiva o ódio. Rede narcísica, estimula um novo personagem: o troll. É aquele usuário que provoca e enfurece outras pessoas, com comentários injustos, ignorantes e, muitas vezes, criminosos. O objetivo do troll é provocar a ira dos outros internautas – e, se possível, ganhar algum dinheiro de modo fácil. Os trolls se alimentam da atenção que atraem e se valem de qualquer coisa para tal. Talvez, por isso, esta reportagem possa não ser uma boa ideia, exceto pelo fato de que precisamos falar sobre esse novo Kevin.

É um monstrinho digital à moda do personagem da escritora americana Lionel Shriver. O Kevin, de Shriver, é aquela criança mimada que aprende que a violência é um método aceitável e simples para obter o que quer. O Kevin digital o emula nas redes sociais e, principalmente, em fóruns privados de discussão.

A internet nasceu como pátria do livre fluxo de informações. Se você não sabe como enrolar o cabo do fone de ouvido para que caiba na caixinha original, alguém na internet explica. Se quer descobrir qual a razão para tomar cloreto de magnésio, surgirá quem prometa equilíbrio e vigor a cada colherada. Se você disser, no entanto, que está sofrendo com a depressão, haverá quem tentará incitá-lo a se matar. Os psicólogos definem tal comportamento como efeito de desinibição on-line, no qual fatores como anonimato, invisibilidade, solidão e falta de autoridade eliminam os costumes que a sociedade construiu milenarmente. Por meio de telefones celulares inteligentes, tal desinibição está se infiltrando no dia a dia de todos.

No mundo digital, troll era inicialmente o método de pesca em que ladrões on-line usam iscas – uma foto fofa ou promessa de riqueza – para encontrar vítimas. A palavra se origina de um mito escandinavo que vive nas profundezas. Passou a simbolizar também os monstros que se escondem na escuridão da rede e ameaçam as pessoas. Os trolladores da internet têm um tipo de manifesto, em que afirmam que agem para o “luiz”, a zoeira, numa tradução livre. O que os trolls fazem na busca do “luiz” vai de brincadeiras inteligentes – como os memes da tomada de três pinos – a assédio e ameaças violentas. Abusam do doxxing – a publicação de dados pessoais, tais como números de carteira de identidade, CPF, telefones e contas bancárias – e de trotes como pedir uma dezena de pizzas no endereço de uma vítima ou ligar para a polícia denunciando supostas plantações caseiras de maconha.

Os trolls estão transformando as mídias sociais e painéis de comentários em um gigante recreio de adolescentes malcriados, repetindo epítetos raciais e misóginos, definiu uma reportagem recente da revista Time. Uma pesquisa que a publicação cita mostrou que 7 em cada 10 jovens sofreram algum tipo de assédio por meio da internet. Um terço das mulheres já se disse perseguida on-line. Um estudo de 2014 publicado no periódico de psicologia Personality and Individual Differences constatou que 5% dos usuários da internet que se identificaram como trolladores obtiveram pontuação extremamente alta em traços obscuros de personalidade: narcisismo, psicopatia, maquiavelismo e, principalmente, sadismo. E não pense que isso não ocorre em sua vizinhança.

 

Ao atender o telefone, o analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa, de 28 anos, achou que seu pai havia morrido. A caminho do trabalho, no bairro carioca da Tijuca, recebeu a ligação desesperada de sua mãe. Naquele dia, 27 de dezembro de 2017, seu pai se recuperava de um cateterismo realizado após sofrer o terceiro infarto. Pensou no pior ao perceber a mãe aos prantos. Ela demorou a recuperar-se para explicar o motivo da aflição: a Polícia Civil havia invadido a casa da família em Pilares para o cumprimento de um mandado de busca e apreensão. Estavam prestes a arrombar a porta da residência quando ela voltava do hospital, ainda sem o marido, que fora mantido internado. Quando Arouxa conseguiu chegar em casa, a polícia já havia recolhido seus computadores, celulares e discos rígidos – até hoje não devolvidos.

A razão da operação policial seria uma ameaça de bomba, supostamente feita por Arouxa. Os alvos seriam a Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro e o advogado Rodrigo Mondengo. Ambos haviam processado Arouxa. A pendenga, que tramita em segredo de Justiça, só não tomou proporções maiores porque o analista de sistemas colabora há um ano com as investigações sobre imputações falsas de crime, em inquérito da Delegacia de Repressão de Crimes de Informática da Polícia Civil do Rio.

De anônimo, Arouxa quase se tornou réu da acusação de terrorismo. Na realidade, ele sofria por ter se tornado um dos alvos da maior quadrilha de crimes de ódio da internet brasileira, que hoje se articula por meio de fórum de discussão que tenta se manter anônimo. Chamado Dogolachan, o fórum foi criado por Marcelo Valle Silveira Mello – a primeira pessoa condenada por racismo na internet no Brasil – e Emerson Eduardo Rodrigues. A Polícia Federal considera Mello e Rodrigues os grandes articuladores da maior rede de ódio que atua há ao menos uma década no Brasil. usando ferramentas digitais. Eles chegaram a ser presos na Operação Intolerância, em 2012, mas se livraram porque havia, naquela altura, vácuo na legislação brasileira para crimes cometidos na internet. Antes do Marco Civil da Internet (2014) e da Lei Antiterrorismo (2016), os ataques reiterados articulados pelo grupo só podiam ser enquadrados em crimes contra a honra ou injúria racial, por exemplo.

Integrantes do Dogolachan registraram o portal Rio de Nojeira, que publicava textos de cunho racista, machista e homofóbico, no nome de Ricardo Wagner Arouxa, utilizando seus dados pessoais. Quem chegava ao registro da página, feito propositalmente de forma pública, tinha acesso a informações privadas do carioca, como seu telefone e endereço. Arouxa também era o nome usado por um dos supostos redatores do Rio de Nojeira, deixando sempre rastros de ódio na tentativa de incriminar outros desafetos do grupo.

O primeiro post de notoriedade do Rio de Nojeira fazia ataques racistas a alunos da Unicarioca, faculdade localizada no Rio Comprido, região central do Rio, onde Ricardo estudava. “Quando foi que a Unicarioca deixou de pertencer à elite branca e passou a ser infestada por favelados, mulatos, negros cotistas?”, questionavam os autores. Segundo especialistas e investigadores ouvidos pela reportagem, o Rio de Nojeira faz parte de uma longa linhagem de páginas usadas pelo grupo criminoso para propagar discurso de ódio.

O primeiro site do grupo a ganhar os holofotes foi o Blog do Silvio Koerich, que se apropriou do nome de um empresário catarinense. Até março de 2012, a página havia sido alvo de 69.729 denúncias à Polícia Federal. O site compartilhava textos e fotos com conteúdo discriminatório e fazia apologia de crimes como violência sexual e pedofilia. Um dos artigos de maior repercussão buscava “ensinar a prática de estupros corretivos” em lésbicas. Outros blogs do gênero, como o Homem de Bem, tiveram trajetória parecida até serem tirados do ar. O modus operandi dos integrantes da quadrilha é criar sites e fazer postagens propositalmente absurdas, provocando repercussão, aquela história de “luiz”. Além de apostarem em conteúdo que gere indignação, como apologia da pedofilia ou ataques racistas, também elegem como alvo personalidades com fama na internet – do deputado federal Jean Wyllys e da blogueira feminista Lola Aronovich, à esquerda, até a advogada Janaína Paschoal, ícone do antipetismo, à direita. A ousadia é demonstrada em pequenos detalhes: Marcelo Mello trabalhava em uma prestadora de serviços para a Justiça Federal e diversas vezes usou a rede Wi-Fi do Conselho da Justiça Federal para realizar os ataques.

A zoeira, no entanto, não era a única aspiração dos líderes da quadrilha. Eles queriam mesmo é ganhar dinheiro. Em 2012, quando a Polícia Federal prendeu Emerson Rodrigues e Marcelo Mello na Operação Intolerância, uma das constatações foi que, já naquela época, a quadrilha se preparava para implantar um sofisticado mecanismo de captação de recursos por meio dos sites que mantinham. Quando leitores indignados acessassem os sites para se deliciar ou denunciar os absurdos publicados, seus computadores seriam utilizados involuntariamente para a mineração de criptomoedas, como o bitcoin. A mineração é um complexo processamento de verificação de dados que exige cada vez mais computadores e energia elétrica para gerar algum valor transformável em dinheiro. Também há indícios de que os criminosos captavam recursos por meio de publicidade. “Eles tentavam fazer com que o site bombasse para ter lucro”, afirmou o delegado da PF Flúvio Cardinelle, responsável pela operação e uma das maiores autoridades em crimes virtuais do país. Após deixarem a prisão, esse mecanismo foi implantado.

Já em liberdade, com o primeiro site fora do ar, Emerson Rodrigues e Marcelo Mello passaram a criar juntos outros portais pela internet brasileira, entre eles o fórum Dogolachan. Foi nesse último que os dois entraram em contato com Alemão, o perfil falso que passou a coordenar os ataques contra Ricardo Arouxa, por causa de um desentendimento em uma comunidade da finada rede social Orkut chamada Cartola FC.

Depois de se desentenderem em mensagens pela internet, Alemão prometeu “acabar com a vida” de Ricardo Arouxa. Em 31 de março de 2017, colocou um anúncio on-line para uma vaga de serviços gerais remetendo ao endereço de Pilares. Seis pessoas apareceram à porta de Arouxa, parte delas sem sequer dinheiro para voltar para casa.

Era só o início do que seria uma escalada de ataques. Arouxa foi contatado por uma criança que tentava lhe enviar mensagens de cunho sexual. Ele desconfiou e rastreou o perfil da mãe do autor. Descobriu que Alemão, novamente se passando por ele, começou a tentar aliciar crianças de uma escola de boxe comunitária da Maré. Oferecia vídeo­ games em troca de fotos de conteúdo sexual, que deveriam ser enviadas para o telefone de Arouxa. Para isso, passou o verdadeiro número do celular do analista de sistemas e seu endereço, onde os brindes deveriam ser recolhidos, tentando incriminá-lo.

Em setembro do ano passado, uma postagem da advogada Janaína Paschoal no Twitter afirmava que Arouxa havia ameaçado de morte a ela e a seus filhos. A articuladora do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ficou amedrontada com as mensagens enviadas em nome do analista de sistemas. Um telefonema entre os dois colocou fim à confusão e revelou tratar-se de obra de trolladores.

Ricardo Arouxa disse não ter medo de Alemão ou dos diversos membros da comunidade do Dogolachan, mas não escondeu sua ansiedade. Diariamente se divide entre o trabalho e o constante monitoramento das atividades do grupo, tentando “antever o próximo passo”. Não consegue ficar mais de duas horas sem fazer esse tipo de checagem. Disse que nunca procurou psicólogos para lidar com o estresse. Contou ter conseguido estabilizar sua vida, mantendo amizades e o namoro apesar dos ataques de ódio. Seu empregador também está ciente da situação. O tom, porém, é de resignação. “Sei que esse é um câncer em minha vida de que nunca vou me livrar.”

O grupo que esparrama ódio voltou a ser alvo das autoridades neste ano, quando a PF deflagrou a Operação Bravata, prendendo novamente Marcelo Mello e outros membros do Dogolachan. Desta vez, eles podem ser enquadrados na Lei Antiterrorismo. “Mesmo que não exista a conduta concreta, simplesmente criar um clima de terror já é enquadrado na lei”, afirmou o delegado Flúvio Cardinelle.

A origem da desavença de Arouxa e seus detratores está na sigla Goec, Grupo de Operações Especiais Cartola. Originalmente nada mais era que um esforço coletivo dos membros da comunidade do Orkut do Cartola para alcançar algum objetivo em comum. Faziam ataques virtuais coordenados, com o intuito de perturbar alguém marcado pela comunidade, fosse por uma atitude considerada inaceitável ou por farra. Os métodos variavam. Podiam pedir dezenas de pizza para a casa do alvo, com informações obtidas em bancos de dados. Ou tentavam hackear a vítima e expor publicamente dados privados.

A ação coordenada de grupos se faz presente em diversas comunidades digitais. O exemplo mais notório é o praticado pelos usuários do fórum de imagens americano 4chan, um dos maiores do mundo. É uma força importante na produção cultural da internet desde a metade final da década passada.

Desde o início, o Dogolachan se propunha a ser o centro de referência para usuários machistas, de ideologia ultradireitista, pautados para o ataque e a degradação de mulheres. Mas não só. Usuários apoiaram, por exemplo, o Massacre de Realengo, no qual Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças – dez delas meninas – e depois se suicidou.

Dogolachan, o nome de batismo do fórum de extremistas, é homenagem a um dos primeiros memes dos usuários brasileiros. Dogola é um cachorro branco russo, que se tornou mascote na internet brasileira. Tudo porque aparece em uma foto com uma espécie de sorriso debochado, compartilhada à exaustão. Dogola foi então apelidado de Deus do Mal, imperador Cão.

Um dos temas mais recorrentes do fórum é o da “feminização” da sociedade, em que os homens estariam se relegando a posições subalternas socialmente para agradar às mulheres e ao politicamente correto em voga.

Para os usuários do Dogolachan, uma ação de contra-ataque seria necessária para devolver o “lugar de direito” aos homens héteros e brancos, derrotados pela revolução cultural dos anos 1960. O feminismo, o combate ao racismo e as causas LGBT são seus principais inimigos, personificados em um rol de figuras que são alvos de ataques constantes pela comunidade do fórum.

Em 13 de outubro de 2008, Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu a casa de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, de apenas 15 anos, portando um revólver. Ele estava inconformado com o fim do relacionamento de quase três anos. A menina fazia trabalhos escolares com um grupo de colegas quando ele chegou e transformou todos em reféns no que foi o mais longo sequestro em cárcere privado já registrado pela polícia do estado de São Paulo. O caso ganhou enorme repercussão dentro e fora do Brasil. Após 100 horas presa com o sequestrador, Eloá Pimentel levou dois tiros e morreu.

Em janeiro daquele ano, a professora universitária Dolores Aronovich criou o blog “Escreva, Lola, Escreva” – nome em referência ao filme cult alemão Corra, Lola, corra -, onde compartilharia resenhas de filmes e opiniões sobre os mais variados temas, principalmente o feminismo. Hoje, ela é uma das blogueiras da causa feminista com maior influência nas redes sociais. O caso de Pimentel rendeu uma postagem na qual Lola discorreu sobre aquilo que anos depois seria popularmente conhecido como feminicídio. A partir daí, a vida de Lola nunca mais foi a mesma: os masculinistas – os quais ela apelidou de mascus -, entre eles Marcelo Mello e Emerson Rodrigues, descobriram seu blog. Eles viam heroísmo na atitude de Lindemberg Alves e vilanismo nas críticas sociais da blogueira. A professora da Universidade Federal do Ceará passou, então, a ser ameaçada de morte, a ver dados pessoais serem publicados indiscriminadamente na internet e a lidar com publicações difamatórias. Apelaram até para seu marido: os “mascus” criaram perfis falsos com fotos de Silvio Cunha Pereira, que é professor de xadrez para crianças, e publicaram conteúdos de pedofilia em seu nome.

Qualquer pessoa que tivesse contato com Lola na internet poderia ser alvo dos odiadores. Em novembro de 2016, levantaram uma empreitada contra perfis que republicaram textos da blogueira. Publicaram fotos de professores e professoras universitárias, acompanhadas de telefone e endereço, em sites de swing e prostituição. Uma das vítimas foi um professor de tecnologia da informação do Paraná. Ameaçaram a filha dele, de 13 anos, e publicaram montagens pornográficas utilizando seu rosto infantil.

Lola fez seu primeiro boletim de ocorrência contra o grupo quatro anos depois do início das ameaças. Deflagrada a Operação Intolerância, em 2012, o ódio contra a professora se intensificou. Os membros do fórum atrelaram as denúncias da blogueira às prisões dos líderes das comunidades. Em 2015, depois que Marcelo Mello e Emerson Rodrigues já estavam longe da cadeia, foi criado um falso blog no nome de Lola, no qual se postavam discursos de ódio e incitação ao infanticídio de meninos, a queimas da Bíblia e à venda de medicamentos para aborto.

O site ficou conhecido na internet quando o escritor Olavo de Carvalho e o músico Roger Moreira, do Ultraje a Rigor- ambos expoentes da direita brasileira -, compartilharam o link. A blogueira recebeu, durante meses, ligações de homens raivosos com o conteúdo do site. “Eles me fizeram conhecer um grau de misoginia que nem imaginava que existia. Machistas genéricos acham que nenhuma mulher presta, só a mãe. Esses mascus acham que nenhuma mulher presta.” O caso da blogueira levou à aprovação da Lei Lola, que atribui à Polícia Federal – mas não só a ela – a investigação de crimes de ódio contra mulheres pela internet. A norma entrou em vigor em abril deste ano.

De lá para cá, mais pessoas com notoriedade na internet por defender pautas sociais foram alvo do grupo. A história de Anderson França, um escritor carioca conhecido por suas crônicas sobre a cidade, se mistura com a de Ricardo Arouxa e Lola por causa da atuação da quadrilha. Em meados de 2017, França recebeu uma denúncia em sua página de Facebook, que conta com 120 mil curtidas. Uma suposta leitora entrou em contato, apontando-o para uma postagem de cunho racista. França, que constantemente discute temas relacionados ao movimento negro, a compartilhou. Seu autor supostamente era Ricardo Arouxa.

Anderson descobriu que a origem das postagens estava nos administradores do site Rio de Nojeira. Então vieram as ameaças de morte. “Eles se apresentam como vítimas e pedem ajuda para que você divulgue e tenha um alcance maior. É o que eles buscam. A partir daquele dia, comecei a receber pelo menos 15 ameaças de morte por dia, principalmente no e-mail”, afirmou França, que chegou a compartilhar sua história com Lola. Os difamadores acessaram a conta de e-mail do escritor e divulgaram ameaças a seus contatos.

A série de ataques e mensagens de ódio se estendeu à Câmara dos Deputados. O parlamentar Jean Wyllys (PSOL-RJ) é alvo do grupo desde o começo de seu primeiro mandato, em 2011. “A princípio, eram difamações e calúnias, incluindo a de que eu teria dito que era a favor da pedofilia em uma entrevista à Rádio CBN, o que foi desmentido pela própria emissora”, disse Wyllys. Os ataques, que também eram estendidos a seus funcionários e assessores, ampliaram-se. O grupo afirmava ter mapeado todas as câmeras de vigilância do Congresso. Dizia que atacaria o deputado “quando ele menos esperasse”.

“Eles descobriram, não sei de que maneira, o nome, telefone e endereço de minha mãe, de meus irmãos. Nos ameaçaram por e-mails, dizendo que cometeriam barbaridades contra minha mãe. E aí eu acabei tomando providências e instalei câmeras de segurança em minha casa e na de minha mãe”, disse o deputado. Parte dos e-mails enviados contra Jean Wyllys tem origem no fórum Dogolachan.

São dezenas de mensagens que esmiúçam detalhes da vida pessoal do parlamentar, além de atacar a defesa que faz dos direitos dos homossexuais. Ainda que considere os ataques bravataria, o deputado vê perigo no aliciamento de “pessoas que estão no limite”. “Se eles querem me calar e constranger, não vão conseguir. Vou continuar trabalhando e defendendo o que sempre defendi”, desabafou.

O lixo da rede.2

GESTÃO E CARREIRA

ANTÍDOTOS CONTRA A GROSSERIA

Trabalhar em ambientes onde as pessoas são desrespeitosas costuma aumentar os casos de depressão, ansiedade e outros tipos de adoecimento. Segundo pesquisadora, a cada oito pessoas que relatam trabalhar num local hostil, pelo menos uma acaba saindo da empresa. Para as organizações, os efeitos também são nocivos, já que causam queda de produtividade.

Antídotos contra a grosseria

Quando eu tinha 22 anos, consegui o que imaginei ser o emprego dos meus sonhos. Eu me mudei do gelado Meio Oeste dos Estados Unidos para a ensolarada Flórida com um grupo de ex- atletas colegas de faculdade para ajudar uma marca desportiva global a lançar uma academia de esportes. Mas, em dois anos, eu e vários dos meus colegas tínhamos saído do emprego.

Fomos vítimas de uma cultura de trabalho repleta de bullying, grosserias e mau comportamento já disseminada na empresa por todos os níveis hierárquicos e institucionalizada por uma chefia ditatorial. No melhor dos casos, os funcionários se mostravam desinteressados e, no pior, cometiam atos de sabotagem ou descarregavam sua frustração em membros da família e amigos. Além disso, frequentemente havia casos de adoecimento físico, ansiedade e depressão. Na época em que deixei a empresa, muitos dos que haviam começado juntos a carreira naquele local estavam exaustos, viviam desanimados, irritados e tristes.

Essa experiência calou tão fundo que decidi passar minha vida profissional estudando a falta de civilidade no local de trabalho – e seus custos e soluções. Minha pesquisa mostrou que é quase impossível não ser atingido pela violência das relações durante a carreira. Nos últimos 20 anos, entrevistei centenas de trabalhadores e descobri que 98% têm sido vítimas de comportamentos pouco educados e 99% testemunharam essas grosserias. Em 2011, 50% afirmaram que eram maltratados pelo menos uma vez por semana – em 1998, eram 25%. Os comportamentos grosseiros iam da pura maldade e sabotagem intencional à indiferença ou menosprezo pelas opiniões das pessoas, até atitudes mais corriqueiras de descaso, como a leitura de e-mails durante as reuniões em que outros faziam apresentações.

Como eu e meus colegas da academia de esportes descobrimos, a falta de educação no local de trabalho degrada o desempenho e cobra um ônus pessoal. Nos testes experimentais, constatei que o simples fato de observar as pessoas agindo de forma constante mente agressiva as torna muito menos dispostas a absorver informação. Presenciar ou sofrer comportamento grosseiro prejudica a memória de trabalho (de curto prazo) e, consequentemente, a capacidade cognitiva. Já foi demonstrado também que acarreta prejuízos ao sistema imunológico, e os efeitos negativos repercutem no relacionamento familiar, desencadeando outros nocivos.

A resiliência à agressividade (explícita ou velada) foge parcialmente ao controle individual. É verdade que o jeito como lidamos com ameaças, humilhações, perdas ou derrotas é influenciada tanto pela formação genética quanto pelas experiências de infância. No entanto, essa é só parte da história. A forma como interagimos no momento atual com o ambiente e respondemos a essas situações desagradáveis pode ser revista, para que aquilo que é inevitável em dada circunstância possa ser vivido de maneira menos traumática. “No local de trabalho, talvez a forma mais eficaz de reduzir os custos da grosseria seja criar uma cultura que rejeite esse tipo de comportamento e incentive as pessoas a adotar a regra óbvia ‘não seja grosseiro’, que nem sempre é respeitada”, afirma o doutor em psicologia organizacional Robert Sutton, professor da Universidade Stanford. Mas ele mesmo reconhece que nem todas as organizações conseguem aplicar essa norma com eficiência.

Então, o que as pessoas devem fazer quando deparam com a má educação alheia? Minha pesquisa revelou algumas táticas que qualquer um pode utilizar para minimizar os efeitos do mau comportamento nas interações com chefes e colegas.

É MELHOR PREVENIR

Algumas pessoas optam por atacar de frente a falta de educação alheia – por meio de retaliação ou discussão direta. Outra resposta comum é tentar contornar o problema evitando o convívio com a pessoa grosseira. Embora essas abordagens possam ajudar em situações específicas, meus estudos mostraram que adotá-las costuma não ser a saída mais eficiente. Evitar o conflito geralmente não funciona porque, às vezes, não temos a escolha de não trabalhar com colegas mal-educados. E um confronto pode piorar a dinâmica. Em minhas pesquisas, descobri que 85% ou mais das pessoas que optaram por evitar ou enfrentar os perpetradores ficaram insatisfeitas com a forma como a situação terminou ou como lidaram com ela; os que optaram pelo confronto não estavam mais satisfeitos que os que não optaram. Confiar em soluções institucionais também raramente funciona – apenas 15% dos entrevistados relataram estar satisfeitos com a forma como os funcionários e a empresa tratavam a falta de civilidade. Para ser justa, muitas vezes a organização nem sequer tem oportunidade de intervir: mais de metade dos que responderam aos questionários afirma não relatar atos de grosseria ao departamento de recursos humanos (RH), principalmente por medo ou pela sensação de impotência.

Da mesma forma que a medicina está mudando seu foco, optando pela prevenção ao tratamento sempre que possível, no âmbito organizacional as pesquisas revelam que é muito mais eficiente trabalhar para melhorar o bem-estar no ambiente de trabalho do que tentar mudar o ofensor ou intervir num relacionamento profissional corrosivo já instalado.

Isso não significa dizer que a pessoa que se sente agredida não deva procurar a chefia, relatar ao RH que foi vítima de alguma forma de abuso ou até tentar resolver o conflito diretamente. Mas uma forma mais sustentável de tratar o mau comportamento é tornar-se impermeável a ele ou menos vulnerável. Para isso, é útil analisar o que sabemos sobre prosperidade (thriving, no original em inglês) – estado psicológico em que vitalidade e autorrealização fortalecem a pessoa contra as vicissitudes da vida sobre as quais não temos controle. O importante é que esse conceito não seja visto como um fim, mas como uma maneira de se fortalecer emocionalmente.

Em minha pesquisa, descobri que pessoas prósperas são mais saudáveis, resilientes e dispostas a focar aquilo que é realmente importante. O trabalho, em geral, é visto como uma significativa fonte de prazer. Elas são menos expostas a distrações, estresse e negatividade. Num estudo com seis organizações de vários segmentos, os funcionários destacaram que pessoas altamente prósperas se sentiam 50% menos fatigadas que seus colegas, 52% confiavam mais em si mesmas e na sua capacidade de assumir o controle das situações, e seu desempenho era 34% menos abalado depois de um incidente desagradável.

Se você está se desenvolvendo, crescendo – e prosperando -, é menos provável que se preocupe com uma investida descuidada de outra pessoa ou considere a situação uma ofensa pessoal irremediável. Ou seja: está mais imune às contingências e mais focado na execução de sua meta. No entanto, pouco mais da metade das pessoas que pesquisei focava a si mesmas e trabalhava para estimular uma mentalidade de prosperidade depois de enfrentar um episódio de grosseria da qual tinham sido alvo. Raramente percebiam que o antídoto pode estar totalmente desconectado do incidente em questão.

Um bom caminho para cuidar de si mesmo parece ser incrementar a própria prosperidade. Como fazer isso? Sugiro uma abordagem em duas frentes: procurar prosperar cognitivamente, o que inclui crescimento, dinamismo e aprendizagem contínua, e afetivamente, o que significa sentir-se saudável e vivenciar paixão e entusiasmo no trabalho e fora dele. Essas duas táticas muitas vezes se reforçam. Se você tiver energia, terá probabilidade maior de ser motivado a aprender e uma sensação de crescimento alimentará a sua vitalidade. Distinguir uma da outra ajuda a identificar em que área elas podem estar defasadas e a tomar as medidas necessárias para melhorar suas defesas e, assim, enfrentar o próximo encontro hostil.

MUDANÇA O FOCO

Se você já enfrentou um colega grosseiro ou se sentiu injustiçado, provavelmente sabe como é difícil superar isso. Estudos neurocientíficos já mostraram que lembranças ligadas a emoções fortes são mais fáceis de acessar e têm maior probabilidade de serem reproduzidas. E ficar remoendo um incidente impede que você o esqueça, o que aumenta a insegurança, concorre para diminuição da autoestima e favorece a sensação de impotência. Vale lembrar, porém, que você pode sentir­ se ferido ou ultrajado – mas somente por certo tempo.

Por isso, mudar o foco pode ser muito eficiente, usando o funcionamento neurológico a seu favor. Conscientemente, somos capazes de pensar apenas uma coisa por vez (ainda que seja frequente mudarmos de um para outro pensamento rapidamente, mas nunca são dois ao mesmo tempo). Enquanto estamos ocupando nossa atenção com novidades ou coisas prazerosas, criamos novas conexões neurais e estabelecemos novas memórias.

Quando sua atenção muda para vias mais produtivas, várias medidas podem ajudá-lo a focar o crescimento cognitivo. Comece identificando áreas de desenvolvimento e tente encontrar nelas oportunidades de aprendizagem. Os pesquisadores Teresa Amabile e Steven Kramer mostraram que o progresso é o motivador mais poderoso no local de trabalho, mais até que reconhecimento ou remuneração. Ele pode ser igualmente eficiente para ajudar os funcionários a se recuperar de situações desagradáveis.

Convém destacar, aliás, que esses esforços de desenvolvimento não precisam estar diretamente ligados ao trabalho. Desenvolver uma nova habilidade, um hobby, ou praticar um esporte pode ter efeito similar. É bem mais difícil ficar arrasado quando você se sente em ascensão. Outra forma de promover o crescimento cognitivo é se conhecer melhor, entender que nossas reações em situações difíceis costumam se repetir e, muitas vezes, não são saudáveis, seguem um padrão que pode estar ligado a vivências e traumas antigos. Uma situação desagradável, portanto, se torna uma oportunidade de iniciar um processo psicoterápico, por exemplo.

GENTE “DO BEM”

Pode ser interessante pensar no comportamento grosseiro no local de trabalho como um patógeno infeccioso, uma espécie de vírus. Suas defesas contra ele dependem, em boa parte, de como você é capaz de administrar sua energia. Muitos dos fatores fundamentais para evitar doenças – como boa alimentação, sono reparador e controle do estresse – ajudam também a afastar os efeitos nocivos da falta de educação.

O sono é particularmente importante: dormir pouco aumenta a suscetibilidade à distração e mina o autocontrole. Torna a pessoa menos confiante, mais hostil, mais agressiva e mais ameaçada, mesmo por estímulos fracos, e pode induzir ao comportamento antiético. Em resumo, a privação de sono (geralmente definida como menos de cinco horas de sono por noite) é a receita para responder mal à falta de civilidade e talvez até para prejudicar a carreira.

Exercícios são outro caminho muito eficiente para se proteger de emoções como raiva, medo e tristeza, que normalmente são acompanhadas por comportamento grosseiro. Eles melhoram tanto o poder de fogo cognitivo como o humor, amenizam as preocupações, reduzem a tensão muscular e fortalecem a resiliência. Já foi constatado que reduzem os sintomas da ansiedade em mais de 50% e, não raro, se mostram mais eficientes no tratamento da depressão que os medicamentos frequentemente prescritos pelos psiquiatras. As pessoas que se exercitam regularmente tendem a se tornar menos mal-humoradas e mais capazes de sobreviver à onda de interações negativas.

Manter as energias de outras formas, como alimentar-se de maneira saudável, também ajuda a se colocar em boa forma para responder suavemente a uma situação não civilizada. Quando estão com fome, muitas pessoas tendem a responder à frustração com rudeza.

Mas não se trata de cuidar apenas do corpo. Esses cuidados – mudar sua mente para processar as situações mais devagar e ponderadamente e responder com mais precaução – facilitam a manutenção do equilíbrio num ambiente difícil e permitem descobrir um sentido de propósito em seu trabalho. Lembrar­ se das vantagens não financeiras que mais o atraíram em seu trabalho pode fomentar a gratidão e a satisfação. Mais uma vez é importante se lembrar da importância do autoconhecimento e do quanto a psicoterapia pode proporcionar melhorias profundas na qualidade de vida de forma geral.

Relacionamentos positivos dentro e fora do escritório também produzem um estado emocional elevado que pode ser um antídoto direto aos efeitos da falta de civilidade. Estudos que realizei com os pesquisadores Andrew Parker e Alexandra Gerbasi mostram que, em diversos níveis organizacionais, os relacionamentos “desestimulantes” têm de quatro a sete vezes mais impacto na sensação de prosperidade dos funcionários que os positivos e estimulantes. Em outras palavras, precisa-se de um pequeno grupo de “gente do bem” por perto para compensar os efeitos de cada elemento grosseiro. Pense, então, nas pessoas com quem convive que fazem você rir e sentir vontade de ser um profissional e ser humano melhor. De preferência, passe mais tempo com elas e peça-lhes que o/ a apresentem aos amigos delas.

Finalmente, em estudos com executivos de MBAs e funcionários, encontrei uma correlação consistentemente positiva entre prosperidade fora do trabalho e resiliência à grosseria. Num estudo com pessoas que vivenciaram maus comportamentos, as que se davam bem em atividades fora do ambiente profissional relataram ter saúde 80% melhor, prosperidade no trabalho 89% maior, e 38% estavam mais satisfeitas com a forma como administraram episódios de grosseria. Procurar por postos de liderança na comunidade – principalmente se não tiver uma oportunidade imediata na organização – estimula tanto a prosperidade cognitiva como a afetiva. Um executivo que entrevistei decidiu participar do conselho de uma organização sem fins lucrativos dedicada a melhorar a qualidade de vida de pessoas autistas, síndrome apresentada por sua filha. Ele liderou campanhas para levantar fundos, ajudou a despertar interesses científicos e administrou as finanças do grupo. Essas experiências e recompensas o fizeram sentir-se praticamente indestrutível no trabalho. Podia até conviver com a má educação, eventualmente, mas ela jamais se tornava o centro de suas preocupações.

Antídotos contra a grosseria.2

SE VOCÊ PREFERIR O CONFRONTO

Caso esteja disposto a “encarar” um colega grosseiro, responda antes a estas três perguntas:

  1. Sinto-me seguro ao conversar com essa pessoa?
  2. Seu comportamento foi intencional?
  3. Foi a única vez que ele /ela mostrou esse comportamento?

Se você respondeu não a qualquer uma das questões, não discuta o incidente com o ofensor. Concentre-se no próprio potencial e, em futuros encontros, siga o acrónimo BIAF: seja breve, informativo, amistoso e firme. Mas, se você respondeu sim às três questões, pense em expor ao ofensor sua posição diante desse comportamento. Alguns itens a serem lembrados:

Esteja preparado para a discussão. Escolha o momento oportuno e um ambiente seguro onde os dois possam sentir-se confortáveis. Considere se deve ou não convidar outras pessoas ou mediadores como testemunhas.

 Ensaie suas ideias com alguém que possa lhe oferecer feedback sincero. Peça que essa pessoa faça o papel do perpetrador, de forma bem temperamental.

Fique atento à sua comunicação não verbal. Isso inclui postura, expressões faciais, gestos, ritmo, timing e, principalmente, tom de voz. As pessoas treinam muito mais “o que dizer” do que “como dizer”, mas estudos indicam que as palavras significam menos do que a forma como são ditas.

Tenha como meta um ganho mútuo. Durante a discussão, foque o assunto (não a pessoa) e como o comportamento específico prejudica o desempenho.

Esteja preparado para uma resposta emocional. Se o ofensor começar desabafando, tente ser tolerante: isso pode levar a um resultado mais produtivo. Use expressões como “eu entendo” ou “você tem razão”. Admitir responsabilidade quando apropriado pode ajudar na conversa.

Seja um bom ouvinte. Procure realmente entender a posição do interlocutor e repita o que ouvir. As pessoas ganham credibilidade e agradam mais quando fazem perguntas despretensiosas.

Procure estabelecer normas de cortesia para o futuro. Como você vai interagir de modo que nenhum de vocês sofra deterioração no comportamento daqui para a frente? Ainda que vocês não se tornem amigos, estabeleçam um combinado de res peito e boa convivência, que vai favorecer as duas partes.

  

CHRISTINE PORATH – é doutora em administração, especializada em comportamento e professora da Universidade Georgetown. É coautora do livro Mastering civility: o manifesto for the workplace (Grand Central Publishing, 2016) e coautora de The cost of bad behavior (Portfolio, 2009), nenhum deles publicado no Brasil.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 17-30 – PARTE III

Alimento diário

A Discussão de Cristo com os Judeus. Todo julgamento foi entregue a Cristo. O Privilégio Cristão

 

Em terceiro lugar, Ele também lhe deu autoridade para exercer o juízo, v. 27. Observe:

1. A autoridade com que nosso Redentor é investido: uma autoridade para exercer o juízo. Ele tem não apenas um poder legislativo e judicial, mas também um poder executivo. A frase aqui é usada particularmente para o julgamento de condenação, Judas 15. Para exercer o juízo sobre todos, o mesmo que tomar vingança, 2 Tessalonicenses 1.8. A destruição dos pecadores contumazes vem da mão de Cristo. Aquele que exerce o juízo sobre eles é o mesmo que realizaria a salvação deles, o que torna a condenação irrepreensível, e não há remédio contra o julgamento do Redentor. A própria salvação não pode salvar aqueles a quem o salvador condena, o que torna a destruição irremediável.

2. De onde Ele recebe essa autoridade: o Pai lhe deu. A autoridade de Cristo, como Mediador, é delegada e derivada. Ele age como o vice regente do Pai, como o Ungido do Senhor, o Cristo do Senhor. E tudo isso contribui muito para a honra de Cristo, inocentando-o da culpa por blasfêmia ao fazer-se igual a Deus, o Pai. Este é um grande consolo para todos aqueles que creem, que podem, com insuperável segurança, se entregar por completo a tais mãos.

[2] Aqui estão as razões (razões de estado) pelas quais esta autorização lhe foi dada. Ele tem todos os julgamentos entregues a si por duas razões:

Em primeiro lugar, porque Ele é o “Filho do homem”, o que denota três coisas:

1. Sua humilhação e generosa condescendência. O homem é um verme, o filho do homem, um verme. Apesar disso, esta foi a natureza, esta foi a característica que o Redentor assumiu na execução dos desígnios do amor. Nesta humilhante condição, Ele se sujeitou e se submeteu a todas as mortificações que a acompanham, pois esta era a vontade de seu Pai. Em recompensa por causa dessa maravilhosa obediência, Deus, o Pai, o exaltou de forma sublime. Porque Ele condescendeu em ser o Filho do homem, seu Pai o fez o Senhor de todos, Filipenses 2.8,9.

2. Sua afinidade e aliança conosco. O Pai lhe entregou a autoridade sobre os filhos dos homens, pois, sendo o Filho do homem, Ele é da mesma natureza daqueles sobre os quais Ele é posto, e, portanto, ainda mais irrepreensível e ainda mais bem-vindo, como Juiz. Seu governador sairá do meio deles, Jeremias 30.21. Disto, esta lei era simbólica. “Dentre teus irmãos porás rei sobre ti”, Deuteronômio 17.15.

3. Que Ele é o Messias prometido. Naquela famosa visão de seu reino e glória, Daniel 7.13,14, Ele é chamado de Filho do homem. E também em Salmos 8.4-6. Fazes com que o Filho do homem “tenha domínio sobre as obras das tuas mãos”. Ele é o Messias, e, portanto, é investido de todo este poder. Os judeus, habitualmente, chamavam o Cristo de Filho de Davi. Porém, Cristo geralmente chamava a si mesmo de Filho do homem, que era o título mais humilde, e que o anunciava como um príncipe e Salvador, não apenas para a nação judaica, mas para toda a raça humana.

Em segundo lugar, “para que todos os homens honrem o Filho”, v. 23. Honrar Jesus Cristo é aqui descrito como o grande desígnio de Deus (o Filho planejava glorificar o Pai, e, portanto, o Pai planejava glorificar o Filho, cap. 12.32), e este é o grande dever de todo homem, em conformidade com esse desígnio. Se Deus fará com que o Filho seja honrado, o dever de todos que o conhecem é honrá-lo. Observe aqui:

1. O respeito que deve ser prestado ao nosso Senhor Jesus: devemos honrar ao Filho, devemos considerá-lo como alguém que deve ser honrado, por conta de suas qualidades transcendentais e da perfeição que Ele tem em si próprio, e das ligações que Ele tem conosco, e devemos procurar honrá-lo por isso; devemos confessar que Ele é o Senhor e adorá-lo; devemos honrar aquele que foi humilhado por nossa causa.

2. A intensidade disso: da mesma maneira como honram ao Pai. Isto pressupõe ser nosso dever honrar ao Pai, pois a religião revelada se baseia na religião natural, e nos instrui a honrar o Pai, a honrá-lo com uma honra divina. Devemos honrar o Redentor com a mesma honra com que honramos o Criador. Estava tão longe de ser uma blasfêmia, para Ele, fazer-se igual a Deus, o Pai, que considerá-lo de outra maneira é a maior ofensa que podemos lhe fazer. As verdades e as leis da religião cristã, da forma como são reveladas, são tão sagradas e honrosas como as da religião natural, e devem ser igualmente estimadas, pois nós vivemos sob as mesmas obrigações para com Cristo, o Autor de nossa existência, e temos uma dependência necessária da graça do Redentor, como também da providência do Criador, o que é uma base suficiente para esta lei – honrarmos o Filho como honramos o Pai. Para reforçar esta lei, é acrescentado: “Quem não honra o Filho, não honra o Pai”, que o enviou. Alguns alegam uma reverência pelo Criador e falam dele com nobreza, não levando o Redentor a sério, falando dele com desdém. Mas saibam estes que as honras e interesses do Pai e do Filho estão tão inseparavelmente entrelaçados e mesclados, que o Pai jamais se considera honrado por qualquer um que afronte o Filho. Note que:

(1) As indignidades cometidas contra o Senhor Jesus recaem sobre o próprio Deus, e assim serão interpretadas e consideradas no tribunal do céu. O Filho adere tanto à honra do Pai, a ponto de tomar para si próprio as injúrias lançadas contra Ele (Romanos 15. 3). O Pai, por sua vez, não apoia menos a honra do Filho, e se considera atingido pelas ofensas contra Ele.

(2) A razão para isso é que o Filho é enviado e autorizado pelo Pai. Foi o Pai quem o enviou. As afrontas a um embaixador causam, de forma justa, o ressentimento ao príncipe que o enviou. E através desta regra, aqueles que verdadeiramente honram o Filho, honram também o Pai. Veja Filipenses 2.11.

(3) Aqui está a regra pela qual o Filho desempenha sua missão, e assim estas palavras parecem surgir (v.24): aquele que ouve e crê tem a vida eterna. Aqui temos a essência de todo o Evangelho. O prefácio dirige a atenção para algo mais importante, e reconhece uma certeza: “‘Na verdade, na verdade vos digo’ que a mim, a quem ouvis, todo julgamento é confiado. Eu tenho em meus lábios uma sentença divina. Adote m de mim a natureza cristã, e os privilégios cristãos”.

Em primeiro lugar, a natureza de um cristão: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou”. Ser um cristão é verdadeiramente:

1. Ouvir a palavra de Cristo. Não basta estar ao alcance de ouvi-la, mas devemos prestar atenção a ela, como os estudantes agem em relação às instruções de seus professores, e atentar para ela, como ser vos às ordens de seus senhores. Devemos ouvi-la e obedecê-la, devemos ser fiéis ao Evangelho de Cristo como a regra rígida de nossa fé e prática.

2. Crer naquele que o enviou, pois o desígnio de Cristo é nos fazer ir a Deus. E, assim como Ele é a origem de toda a graça, da mesma forma Ele é o objetivo final de toda a fé. Cristo é nosso caminho, Deus é nosso descanso. Devemos crer em Deus como aquele que enviou Jesus Cristo, e encomendou a si mesmo à nossa fé e amor, ao manifestar sua glória na face de Jesus Cristo (2 Coríntios 4.6), como seu Pai e nosso Pai.

Em segundo lugar, o estatuto de um cristão, no qual todos os que são cristãos estão interessados. Veja o que conseguimos através de Cristo:

1. Um alvará de perdão: ele não entrará em condenação. A graça do Evangelho é uma completa dispensa do tormento da lei. Um crente não só não ficará sob a condenação eterna, como também não ficará sob condenação agora, não estará sob o risco dela (Romanos 8. 1), não entrará em julgamento, e se­ quer será levado a juízo.

2. Um estatuto de privilégios: ele é levado da morte para a vida, é investido de uma felicidade atual na vida espiritual e designado para uma felicidade futura na vida eterna. O sentido da primeira aliança era: “Faça isto e viva”, o homem que os praticar, viver á por eles. Agora, isto demonstra que Cristo é igual ao Pai, que Ele tem o poder de propor aos que ouvem suas palavras o mesmo benefício proposto àqueles que guardavam a antiga lei, ou seja, a vida. Ouvir e viver, crer e viver, é no que podemos arriscar nossas almas, quando somos incapazes de fazer e viver. Veja cap. 17.2.

(4) Aqui está a justiça de seus procedimentos correspondentes à sua autoridade, v. 30. Sendo todo o juízo entregue ao Senhor Jesus, nós só podemos perguntar como Ele o exerce. E aqui, Ele responde: “O meu juízo é justo”. Todo s os atos de autoridade de Cristo, tanto legislativos como judiciários, estão exatamente de acordo com as regras da justiça. Veja Provérbios 8.8. Não podem existir exceções contra quaisquer das determinações do Redentor, e, portanto, assim como não haverá nenhuma revogação de quaisquer de suas leis, da mesma forma não haverá revogação de quaisquer de suas sentenças. Seus julgamentos são seguramente justos, pois eles são conduzidos:

Em primeiro lugar, pela sabedoria do Pai: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma”, nada sem o Pai, mas “como ouço, assim julgo”. É como Ele havia dito antes (v. 19): “O Filho não pode fazer coisa alguma, se não o vir fazer o Pai”. Da mesma forma aqui: coisa alguma, a não ser o que Ele ouve o Pai dizer. “Como ouço”:

1. A partir das deliberações eternas e particulares do Pai, “assim eu julgo”. Saberíamos nós do que poderíamos depender em nosso relacionamento com Deus? Ouçamos a palavra de Cristo. Não precisamos nos aprofundar nas deliberações divinas, aquelas coisas misteriosas que não nos competem, mas devemos prestar atenção aos preceitos revelados da autoridade e do julgamento de Cristo, que nos proverão com um guia infalível, pois o que Cristo determinou é uma cópia exata ou uma duplicata daquilo que o Pai decretou.

2. A partir dos relatos propagados do Antigo Testamento. Cristo, em toda a execução da sua missão, tinha em vista as Escrituras, e fez com que sua missão estivesse de acordo com elas e as cumprisse: “Como estava escrito no rolo do livro”. Dessa maneira, Ele nos ensinou a não fazermos nada por nós mesmos, mas julgar as coisas e agir de acordo com a Palavra de Deus que ouvimos.

Em segundo lugar, pela vontade do Pai: “Meu juízo é justo”, e não pode ser diferente, “porque não busco a minha vontade”, mas a daquele “que me enviou”. Não como se a vontade de Cristo fosse contrária à vontade do Pai, assim como, em nós, a carne é contrária ao espírito, mas:

1. Cristo possuía, como homem, as emoções naturais e inocentes da natureza humana, os sentimentos de dor e prazer, uma inclinação para a vida, uma aversão à morte. Ainda assim, Ele satisfazia não a si mesmo, não deliberava com estes, nem os consultava, quando estava para dar continuidade à sua missão, mas se submetia à vontade de seu Pai.

2. O que Ele fazia corno Mediador não era o resultado de qualquer propósito peculiar ou particular e desígnio dele mesmo. O que Ele realmente procurava fazer não levava em consideração sua própria vontade, mas o Senhor era, nesse sentido, guiado pela vontade de seu Pai, e pelo propósito que Ele havia designado para si mesmo. A isto, nosso Salvador, em todas as oportunidades, fez alusão e se submeteu.

Portanto, nosso Senhor Jesus expôs sua autoridade (quer para a convicção de seus inimigos quer não) para sua própria honra, e conforto perene de todos os seus amigos, que aqui veem-no capaz de salvar até o fim.

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