PSICOLOGIA ANALÍTICA

A GRANDEZA DAS PEQUENAS COISAS

Capazes tanto de construir quanto de destruir, os detalhes nos oferecem sinais que revelam a realidade e a natureza das coisas.

A grandeza das pequenas coisas

Passeando pela internet, deparei-me com um post de uma amiga sobre um texto cuja chamada me foi inspiradora:

“O declínio do afeto começa no desprezo pelas pequenas coisas”, dizia. Pronto. Fui fisgada. O propósito da frase havia sido cumprido, de forma que cliquei no link e li o pequeno texto que falava da importância da atenção aos detalhes nos relacionamentos afetivos, do quanto negligenciamos um simples elogio e do quanto isso pode, ao longo dos anos, consolidar­ se num erro fatal. Pus-me a pensar sobre minhas experiências pessoais, meus dois casamentos, minhas bodas de prata que se aproximam e concluí que nada poderia ser mais verdadeiro. Mas tendo sido uma pessoa de Letras, às vezes cismo com palavras. E com expressões e frases e períodos completos. Dessa vez foram as “coisas pequenas”. Pincei a expressão do referido texto e pus-me a observá-la com olhos analíticos. O que seriam as “tais pequenas coisas”‘? O texto as descrevia como cuidados, detalhes cuja ausência promove a corrosão dos relacionamentos.

Pus-me a refletir que, às vezes, a corrosão pode se dar pela presença. A presença de pequenas coisas, de pequenos detalhes que ferem, que magoam e que, por serem pequenos, passam despercebidos, embora não sem deixar um rastro de erosão sob um solo aparentemente sadio. Quando se percebe, muitas vezes é tarde demais, o solo cede, desmorona e leva consigo o relacionamento de anos. Tudo culpa dos pequenos detalhes.

Quando decidimos compartilhar uma grande conquista, por exemplo, a reação do ouvinte costuma alçá-lo a uma das duas categorias: confiável ou não confiável. Mas não se trata do que é dito explicitamente. Aqui os pequenos detalhes costumam ser mais reveladores: o olhar invejoso, o timbre de voz, o sorriso verdadeiro. Detalhes que denunciam o quanto se trata de alguém que, genuinamente é capaz de torcer pelo nosso sucesso.

É também na atenção aos detalhes que se encontra a autenticidade das coisas, nesse mundo do politicamente correto, repetido exausta e enjoativamente nas redes sociais. A construção de um discurso socialmente desejável nunca foi tão simples, sobretudo considerando “verdades” cujas bases se encontram em mentiras várias vezes repelidas. Por meio de mãos habilidosas, personagens são construídos – e consumidos – por uma sociedade crédula que, desatenta aos detalhes, ignora as pequenas coisas que revelam o verdadeiro self por detrás das personas.

Mas os detalhes não mentem e revelam o que a simples retórica procura ocultar. Basta observá-los. É aí que se encontra a sabedoria dos detalhes. Ou melhor, das pessoas que vão além do óbvio, da imagem e que não se contentam com máscaras. Nesse sentido, o detalhe salva, protegendo-nos do logro da retórica.

Mas há também o detalhe do cuidado. De uma mesa bem-posta, de um pacote bem-feito, de um vasinho de violetas no centro da toalha xadrez. Há tanto sendo dito por detrás desses detalhes! Lamento a existência de uma legião de surdos que jamais o acessarão. Ou, pior do que isso, que enxerguem ostentação onde existe carinho, “frescura” onde há cuidado.

O detalhe demanda tempo, tanto para sua promoção quanto para sua simples contemplação. Talvez daí se justifique a legião de insensíveis a ele, criaturas miseráveis que veem a vida passar como um videoclipe, alheias ao fato de que, muitas vezes, é nos detalhes que se faz o belo. E que na beleza podemos atingir a transcendência, que é a grandeza de todas as coisas.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia peia USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pela VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

SOBRE A FELICIDADE E A “BARRIGA DE TANQUINHO”.

Não. Definitivamente, querer não é poder. Resta saber então o que fazer para conseguirmos atingir nossos objetivos.

Sobre a felicidade e a barriga de tanquinho

Pode perguntar. Pelo menos na cultura ocidental, onze em cada dez pessoas gostariam de ter barriga de tanquinho. Brincadeiras à parte, é bem verdade que, se pudéssemos determinar nossa aparência física de maneira tão simples quanto criamos hoje um avatar no videogame, a grande maioria de nós exibiria corpos esbeltos, musculatura definida e, sim, muito provavelmente uma bela barriga de tanquinho!

Se essa é uma preferência de boa parte das pobres criaturas submetidas, sim, aos padrões de beleza ocidentais, ditadura da magreza, culto ao corpo e blá- blá- blá, por que não nos deparamos com uma legião de beldades no metrô, nas ruas, no trabalho etc.? Resposta: Em primeiro lugar porque, ao contrário do que diz a sabedoria popular, querer NÃO é poder!

Quero tocar piano desde os 7 anos de idade e – adivinhe só – isso nunca fez com que eu fosse capaz de tocar uma nota sequer. “por que você não deseja de verdade!” – diriam as mentes simplistas.

Quero, sim! O desejo é meu e somente eu conheço a sua intensidade (embora meus alunos, amigos e familiares também devam ter passado a conhecê-la a partir da milésima vez que me ouviram suspirar dizendo: “Puxa, eu queria TANTO tocar piano!”).

Compreendamos então o que acontece. Meu desejo de tocar piano é grande, é intenso e verdadeiro. Só não é maior do que minha paixão pelo meu trabalho. Isso significa que embora deseje tocar piano, não estou determinada a dispor do meu tempo para aprendê-lo. Isso porque, considerando que o tempo é uma questão de prioridade, seria preciso que eu abrisse mão de coisas relativas ao meu trabalho (leituras, preparação de aulas, cursos, consultorias, escrever artigos etc.) para ceder espaço não apenas às aulas de música, mas ao necessário estudo que deve acompanhar qualquer pessoa que espera aprender a tocar um instrumento. É exatamente isso que acontece com relação à famigerada barriga de tanquinho. A maioria quer, mas definitivamente não está disposta a passar horas na academia em nome desse desejo.

Acho interessante, no entanto, que não é preciso ser especialista em fisiologia do exercício para saber que musculatura só se adquire puxando ferro. Os conhecimentos científicos sobre o tema tornaram-se tão populares que até mesmo os que querem “trapacear” tomando anabolizantes sabem que devem fazer a sua parte, literalmente suando a camisa. Para desenvolvimento da musculatura não existem atalhos. É treino e ponto. Anseio pelo dia em que as pessoas saibam que, em se tratando de felicidade, acontece o mesmo.

Quando em meus cursos peço aos alunos um conselho acerca do que deveria fazer para, finalmente, aprender a tocar piano, eles (estranhando a obviedade da pergunta) prontamente respondem: “Faça aulas de piano, ué!”.

Ainda que não se deem conta, em termos neurofisiológicos, eles estão me dizendo que eu devo, por meio do treino (aula), criar uma rede neural (que hoje eu não tenho) que me capacite a tocar piano.

Eles não entendem aonde pretendo chegar com o cansativo exemplo do piano até que lhes digo: Por que em relação à felicidade seria diferente? Se eu quero ser feliz devo treinar meu cérebro para isso. Sair por aí perguntando às pessoas o que devo fazer para aprender a tocar piano é tão patético quanto dizer: “Como eu faço para ser mais otimista?” “Mais grato?” “Aprender a perdoar/”e é claro: “Como eu faço para ser feliz?”.

A resposta a todas essas perguntas é uma só: treino.

É por isso que eu digo que, assim como acontece em relação à barriga de tanquinho, nem todos “merecem” a felicidade. Porque, dentre todos que a desejam, existem aqueles que trabalham diariamente por ela. A esses poucos é que os prêmios estão destinados.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA, e professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

GESTÃO E CARREIRA

DIVERGENTE: PENSANDO FORA DA CAIXA

Valorização do foco e desempenho em atividades que requerem pensamento analítico levam ao controle meta cognitivo do pensamento.

Divergente - pensando fora da caixa

Estamos vivendo tempos de foco executivo na tarefa, com uma valorização de tudo que possa aumentar nosso desempenho no trabalho ou no estudo. O resgate da prática milenar da meditação do tipo mindfullness atinge níveis de popularidade tão grande que já circulam brincadeiras, corno as contidas no jogo de palavras da expressão “macmindfullness”. Essa ironia sobre uma versão pop da meditação mindfullness revela uma crítica ao entendimento superficial da população, induzido pelo enfoque banalizador da mídia, sobre os conceitos fundamentais dessa rica vertente, e não à meditação em si. De fato, existem muitos benefícios na prática desse tipo de meditação, e diversos estudos de Neurociências mostraram que o cérebro se adapta ao treinamento da capacidade de focar a atenção, e gentilmente afastar pensamentos intrusos. Se treinarmos um determinado circuito cerebral, as conexões se fortalecem, e a cada prática melhoramos o desempenho naquelas funções. Fazendo uma analogia com o sistema muscular, da mesma forma que aumentamos o número de fibras musculares, ou sua espessura, ao malhar, fortalecemos os circuitos do cérebro, ao malhar nosso pensamento. Voltar ao foco e prestar atenção de forma concentrada, sem deixar pensamentos nos distraírem, são fundamentais se estamos em uma aula, reunião de trabalho ou muitas outras atividades de nosso cotidiano.

Com esse destaque todo para o foco atencional, a visão contemporânea sobre deixar o pensamento “livre” varia, desde uma noção mais branda de constituir uma perda de tempo até versões que associam essa forma de pensar com a ruminação. Ruminar se refere aos pensamentos obsessivos, ansiosos e de preocupação, quando pensamentos negativos invadem a mente e são processados e reprocessados, levando a um aumento da tristeza e ansiedade. No entanto, se acumulam evidências de que o processo de ruminação é bem diferente do pensamento espontâneo. O pensamento livre de amarras, que vaga entre lembranças do passado e imagens do futuro, na língua inglesa é chamado de mindwandering, expressão que pode ser entendida como “deixar a mente vagar ou divagação, sonhar acordado, ou fantasiar”. Fazemos isso uma boa parte do tempo em que estamos acordados. Se não houver demanda de foco em tarefas, quando estamos sem fazer nada, a maior parte do tempo ficamos “viajando” em nossas mentes, em mundos virtuais de nossa imaginação.

Teria a seleção natural, a grande arquiteta do design cerebral, construído um sistema que requer um controle meta cognitivo o tempo todo para prestar atenção consciente no “aqui e agora”? A metacognição, ou a capacidade de pensar sobre o pensamento, é a faculdade que permite que se percebam os pensamentos, e que se direcionem esses pensamentos para alguma direção voluntária e conscientemente escolhida, como voltar ao foco da respiração consciente, em uma versão da meditação mindfullness.

Novos estudos estão começando a indicar que existem benefícios, pelo menos em certos contextos, no pensamento espontâneo e livre. Os pesquisadores dessa abordagem têm apontado que existe uma tradição de enfatizar o pensamento analítico e uso de tarefas padronizadas clássicas que medem o desempenho acadêmico. Existem evidências de que ficar no mundo da lua prejudica a aprendizagem em sala de aula, ou no entendimento de textos complexos, e certamente é importante ter a capacidade de focar a atenção quando necessário. No entanto, se nosso olhar se dirige para o pensamento divergente e resolução criativa de problemas, o cenário muda e surgem aspectos positivos do pensamento espontâneo. Pesquisas têm mostrado que a fantasia e a imaginação são mais frequentes em pessoas criativas como artistas e escritores, e que o sonhar acordado está relacionado a aumento da criatividade, em especial no período de incubação de novas ideias.

Um estudo recente no Chile apontou que estudantes que relatavam mais episódios de sonho acordado tiveram maiores escores nas medidas de criatividade, pensamento divergente e solução inovativa de problemas. Medidas de metacognição, através do auto relato, mostraram impacto negativo dessa capacidade na criatividade. Existem limitações nessa metodologia, mas esses resultados sugerem que em certos contextos as habilidades meta cognitivas de monitorar, planejar e regular os pensamentos inibem os processos divergentes e criadores.

Estamos começando a entender a diversidade de processos mentais que estão envolvidos com o pensamento e atenção, e a visão mais global que emerge desses estudos aponta para que se integrem várias formas de processamento, em termos de vantagens e desvantagens, para determinadas pessoas, contextos e demandas particulares, antes de estabelecer simples dicotomias ou antagonismos. A mente é rica e a natureza tem sabedoria em suas construções, não devemos simplesmente ceder à tentação de descartar como defeitos processos que levaram milhares de gerações para serem esculpidos. Manter o foco, e prestar atenção consciente, traz vantagens em determinadas situações e desvantagens em outras, da mesma forma que sonhar e imaginar livremente. Afinal, o que seria da humanidade sem os sonhadores? Sonhar é preciso, mas os filtros e testes das funções executivas são também necessários para que os sonhos se realizem.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE II

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

 

III – A conversa de Cristo com seus discípulos enquanto a mulher estava ausente, vv. 31-38.

Veja como nosso Senhor Jesus foi habilidoso em compensar o tempo, em poupar cada minuto, e em preencher as lacunas dele. Enquanto os discípulos iam à cidade, sua conversa com a mulher foi edificante e apropriada à situação dela. Quando ela foi à cidade, seu diálogo com eles não foi menos edificante e adequado ao caso deles. Seria bom se pudéssemos juntar dessa maneira os fragmentos do tempo, para que nenhum deles se per­ desse. Duas coisas são perceptíveis nesta conversa:

1. Como Cristo expressa o prazer que Ele próprio teve em sua atividade. Seu trabalho era procurar e salvar aqueles que estavam perdidos, procurar fazer o bem. Neste momento, nós o encontramos totalmente absorvido. Pois:

(1)  Ele deixou de lado sua comida e bebida por seu trabalho. Ao sentar-se junto à fonte, Ele estava cansado e precisava de refrigério, mas esta oportunidade de salvar almas o fez esquecer de sua fadiga e fome. E Ele considerava tão pouco sua comida, que:

[1] Seus discípulos foram obrigados a chamá-lo para comê-la: Eles “lhe rogaram”, eles o pressionaram, dizendo: “Rabi, come”. O fato de os discípulos o chamarem era um exemplo do amor que sentiam por Ele, para que Ele não ficasse fraco e doente por falta de algum sustento. Mas era um exemplo maior do amor de Jesus pelas pessoas o fato de ele precisar ser chamado. Através disso, aprendemos a ter uma santa indiferença até mesmo pelos indispensáveis sustentos da vida, em comparação com as coisas espirituais.

[2] Ele se importava tão pouco, que os discípulos pensaram que alguém lhe havia trazido comida na ausência deles (v. 33): “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Ele tinha tão pouco apetite por sua refeição, que eles estavam a ponto de pensar que já tivesse jantado. Aqueles que fazem da religião seu trabalho, quando precisam cuidar de qualquer dos assuntos referentes a ela, dão a estes a preferência antes mesmo da comida. Esta atitude é a mesma do servo de Abraão, que não comeu até que tivesse cumprido sua missão (Genesis 24.33), e de Samuel, que não se sentou até que Davi fosse ungido, 1 Samuel 16.11.

(2)  Ele fez de seu trabalho, sua comida e bebida. A obra que Ele tinha a fazer entre os samaritanos, a possibilidade que Ele agora tinha de fazer o bem a muitos, isto era comida e bebida para Ele. Era o mais notável prazer e satisfação imaginável. Nunca alguém faminto, ou um epicurista, esperou por um banquete opulento com tanto desejo, nem se alimentou de suas iguarias com tanto prazer, como nosso Senhor Jesus aguardou e aproveitou uma oportunidade de fazer o bem às pessoas. Com referência a isso, Ele diz:

[1] Que era uma comida que eles não conheciam. Eles não imaginavam que Ele tivesse qualquer plano ou perspectiva de estabelecer seu Evangelho entre os samaritanos. Este era um benefício e uma misericórdia que eles jamais haviam considerado. Observe que Cristo, através de seu evangelho e Espírito, faz mais bem às almas dos homens do que seus próprios discípulos percebem ou esperam. Também pode ser dito, a respeito dos bons cristãos, que vivem pela fé, que eles têm uma comida para comer da qual os outros não sabem, a felicidade na qual uma pessoa de fora não pode interferir. Neste momento, essa palavra fez com que perguntassem: “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Nem mesmo seus próprios discípulos estavam aptos a compreendê-lo quando, a partir de um costume material e corporal, Ele usava comparações.

[2] Que o motivo pelo qual seu trabalho era sua comida e bebida era por ser o trabalho de seu Pai, a vontade de seu Pai: ”A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou”, v. 34. Observe que, em primeiro lugar, a salvação dos pecadores é a vontade de Deus, e o esclarecimento deles para isso é uma obra do próprio Senhor. Veja 1 Timóteo 2.4. Há um remanescente escolhido cuja salvação é, de maneira especial, sua vontade. Em segundo lugar, Cristo foi enviado ao mundo com a missão de conduzir as pessoas a Deus, para conhecê-lo e serem felizes junto a Ele. Em terceiro lugar, Ele fez dessa obra seu trabalho e deleite. Quando seu corpo precisava de comida, sua mente estava tão ocupada com isso, que Ele esquecia de ambos, a fome e a sede, tanto a comida como a bebida. Nada era mais gratificante para o Senhor Jesus do que fazer o bem. Quando foi chamado para comer, Ele foi fazer o bem, pois esta atitude era sempre sua comida. Em quarto lugar, Ele não só estava, em qualquer ocasião, pronto para fazer seu trabalho, como estava disposto e interessado em realizá-lo e em completá-lo em todos os seus aspectos. Ele determinou-se a nunca abandoná-lo ou renunciar a ele, até que pudesse dizer: “Está consumado”. Muitos se empenham em realizá-los no início, porém não os levam até o fim, mas nosso Senhor Jesus estava concentrado em concluir seu trabalho. Nosso Mestre deixou-nos aqui um exemplo para que possamos aprender a fazer a vontade de Deus, o Pai, como Ele mesmo fez.

1. Com diligência e tenaz aplicação, como aqueles que disso fazem um trabalho.

2. Com deleite e prazer em fazê-lo, como se fosse da nossa natureza.

3.Com constância e perseverança, não apenas concentrando-nos em fazer, mas visando concluir nosso trabalho.

2. Veja aqui como Cristo, havendo expressado o prazer que tinha em seu trabalho, estimula seus discípulos a serem diligentes em seu trabalho. Eles trabalhavam com Ele, e por isso deveriam ser trabalhadores como Ele, e fazerem de seu trabalho sua comida, assim como Ele fazia. O trabalho que eles tinham para fazer consistia em pregar o Evangelho e estabelecer o reino do Messias. Neste momento, Ele compara este trabalho ao trabalho da ceifa, o ajuntar dos frutos da terra, e esta semelhança Ele preserva durante todo este sermão, vv. 35-38. Observe que o tempo do Evangelho é tempo de colheita, e o trabalho do Evangelho, trabalho de colheita. A ceifa é marcada com antecedência, é aguardada e esperada. Assim acontece com o Evangelho. O tempo da colheita é um tempo atarefado, todas as mãos devem estar no trabalho, cada um deve trabalhar para si, para que possa colher as graças e os confortos do Evangelho. Os ministros devem trabalhar para Deus, colher almas para Ele. O tempo da ceifa é uma oportunidade, um período curto e limitado, que não continua para sempre, e o trabalho da colheita é um trabalho que deve ser executado nesse tempo, ou nunca mais poderá ser feito. Dessa maneira, o tempo de desfrutar o Evangelho é uma época especial, que deve ser aproveitada para seus propósitos, pois uma vez passada, não pode ser trazida de volta. Os discípulos deveriam se unir em uma colheita de almas para Cristo. Agora, Ele sugere aqui três coisas a eles para animá-los a serem diligentes:

(1) Que era um trabalho necessário, e a ocasião para isso muito, urgente e premente (v. 35): “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Aqui está:

[1]  Uma palavra dos discípulos de Cristo referente à colheita de grãos. Há ainda quatro meses, e depois será a colheita, o que pode ser entendido, ou de forma geral: “Vós dizeis, para o encorajamento do semeador na época do plantio, que ainda faltam quatro meses para a colheita”. Para nós, são cerca de quatro meses entre o plantio da cevada e sua colheita, e provavelmente ocorria o mesmo com eles quanto a outros grãos. Ou particularmente: ”Agora, nesta época, vós calculais que serão quatro meses até a próxima colheita, conforme o curso normal da providência”. A colheita dos judeus começava na Páscoa judaica, próximo à Páscoa cristã, muito mais cedo no ano do que a nossa, motivo pelo qual parece que esta jornada de Cristo, da Judéia até à Galileia, ocorreu no inverno, por volta do final de novembro, pois o Senhor viajava em qualquer época para fazer o bem. Deus não nos prometeu apenas uma colheita a cada ano, mas definiu os períodos de colheita, de forma que sabemos quando esperar por ela, e assim podemos tomar as medidas mais adequadas.

[2] Uma palavra de Cristo quanto a ceifa do Evangelho. Seu coração estava tão voltado para os frutos de seu Evangelho quanto os corações dos outros estavam voltados para os frutos da terra, e para isso Ele conduziria os pensamentos de seus discípulos: “Levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Em primeiro lugar, aqui, neste lugar, onde eles agora estavam, havia trabalho de colheita para Ele fazer. Eles pediram que Ele comesse, v. 31. “Comer!”, diz Ele, “Eu tenho outra coisa a fazer, que é mais necessária. Vede as multidões de samaritanos que estão vindo da cidade, por sobre os campos, que estão prontas para aceitar o Evangelho”. Provavelmente, havia muitos mais à vista, agora. A prontidão das pessoas para ouvirem a palavra é um incrível incentivo para que os ministros preguem com diligência e energia. Em segundo lugar, em outros lugares, por toda a região, havia trabalho de colheita para todos eles realizarem. “Considere as regiões, pense no estado, no país, e descobrirá que há multidões tão prontas para aceitar o Evangelho como um campo de trigo totalmente maduro está pronto para ser ceifado”. Os campos estavam agora brancos para a ceifa:

1. Pelas leis de Deus reveladas nas profecias do Antigo Testamento. Agora era a hora em que as pessoas deveriam se congregar a Cristo (Genesis 49.10), quando deveria ocorrer uma grande adesão à igreja e suas fronteiras deveriam ser ampliadas, e, por isso, era a época de eles se ocuparem. É de grande alento para nos engajarmos em qualquer trabalho para Deus, entendermos pelos sinais dos tempos que este é o tempo apropriado para esse trabalho, pois, então, ele prosperará.

2. Pela disposição dos homens. João Batista preparou para o Senhor um povo bem disposto, Lucas 1.17. Desde que ele começou a pregar o reino de Deus, “todo homem emprega força para entrar nele”, Lucas 16.16. Este, portanto, era um tempo para os pregadores do Evangelho se dedicarem ao seu trabalho com a máxima vitalidade, de lançarem sua foice, quando a seara estava madura, Apocalipse 14.15. Ê necessário trabalhar na hora certa, para que este período não seja perdido. Se o trigo que está maduro não for colhido, ele cairá em terra e será perdido, e as aves o comerão. Se as almas que estiverem sob condenação, e possuírem alguma boa inclinação, não forem ajudadas agora, seus princípios de esperança resultarão em nada, e elas serão uma presa para os impostores. Também é fácil trabalhar agora. Quando os corações das pessoas estão prontos, o trabalho é realizado rapidamente, 2 Crônicas 29.36. Só é possível, entretanto, estimular os ministros a aceitarem as dores na pregação da palavra quando eles notam que as pessoas têm prazer em ouvi-la.

(2) Que era um trabalho produtivo e vantajoso, através do qual eles mesmos se tornariam vencedores (v. 36): “O que ceifa recebe galardão, e assim recebereis vós”. Cristo garantiu que pagará bem àqueles a quem Ele em­ pregar em sua obra, pois Ele nunca fará como Joaquim, que usou os serviços de seu próximo sem paga (Jeremias 22.13), ou como aqueles que, pela fraude, diminuíram o salário, particularmente, dos que ceifaram seus trigais, Tiago 5.4. Os ceifeiros de Cristo, embora clamem dia e noite, nunca terão motivos para clamar contra Ele, nem para dizer que serviram a um Senhor rude. Aquele que ceifa, não só deve receber, como de fato recebe recompensas. Existe uma recompensa no serviço a Cristo, e o trabalho traz, em si, sua própria recompensa.

[1] Os ceifeiros de Cristo produzem frutos: eles ajuntam frutos para a vida eterna. Isto é, eles salvarão tanto a si mesmos como àqueles que os ouvem, 1 Timóteo 4.16. Se o ceifeiro fiel salva sua própria alma, isso já é um fruto abundante para sua conta, é fruto ajuntado para a vida eterna. E se, acima e além disso, ele também for útil na salvação das almas de outros, mais fruto é ajuntado. Almas congregadas para Cristo são frutos, bons frutos, os frutos que Ele procura (Romanos 1.13). Estes frutos são ajuntados para Cristo (Cantares 8.11,12), são acumulados para a vida eterna. O consolo dos ministros fiéis consiste em que o trabalho deles tenha uma inclinação para a salvação eterna de almas preciosas.

[2] Eles se regozijam: “Para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem”. O ministro que é o feliz instrumento do início de um bom trabalho é aquele que semeia, como João Batista. Aquele que é empregado para continuá-lo e aperfeiçoá-lo é o que ceifa, e ambos se regozijarão juntos. Observe que, em primeiro lugar, embora toda a glória do sucesso do Evangelho pertença a Deus, ainda assim os ministros fiéis podem, eles mesmos, encontrar consolo em pregá-lo. Os ceifeiros compartilham a alegria da colheita, embora os frutos pertençam ao mestre, 1 Tessalonicenses 2.19. Em segundo lugar, aqueles ministros que têm diferentes talentos e são usados de diferentes maneiras devem estar tão longe de invejarem uns aos outros, que devem, pelo contrário, se regozijar no sucesso e utilidade uns dos outros. Embora todos os ministros de Cristo não sejam úteis da mesma forma, nem da mesma forma bem-sucedidos, ainda assim, se eles receberem do Senhor a graça de serem fiéis, eles todos finalmente entrarão juntos no gozo do seu Senhor.

(3) Que era um trabalho fácil, e um trabalho que já chega às suas mãos parcialmente realizado por aqueles que trabalharam antes deles: “Um é o que semeia, e outro, o que ceifa”, vv. 37,38. Isto, às vezes, denota um julgamento doloroso sobre aquele que semeia, Miquéias 6.15; Deuteronômio 28.30: “Tu semearás, mas não segarás”. Como Deuteronômio 6.11: “Casas cheias de todo bem, que tu não encheste”. Assim é aqui. Moisés, e os profetas, e João Batista haviam preparado o caminho para o Evangelho, haviam plantado a boa semente, das quais os ministros do Novo Testamento de fato apenas colheram os frutos. “Eu vos envio a ceifar onde, comparativamente, não trabalhastes”, Isaías 40.3-5.

[1] Isto indica duas coisas em relação ao ministério do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, que ele estava muito abaixo do ministério do Novo Testamento. Moisés e os profetas plantaram, mas não se poderia dizer que ceifaram, pois eles viram pouco do fruto de seu trabalho. Seus escritos trouxeram mais frutos, e fizeram muito mais bem do que eles poderiam ter feito pessoalmente, pois os frutos de seus ensinos, que estão contidos em seus escritos, têm sido úteis durante séculos, sendo uma bênção a incontáveis gerações. Em segundo lugar, que ele foi muito útil ao ministério de Novo Testamento, e abriu o caminho para este. Os escritos dos profetas, que eram lidos nas sinagogas todo sábado, aumentavam as esperanças das pessoas quanto ao Messias, e, dessa maneira, preparavam-nas para realizarem uma bela recepção a Ele. Não fosse pela semente plantada pelos profetas, esta samaritana não poderia ter dito: “Sabemos que o Messias vem”. Os escritos do Antigo Testamento são, em alguns aspectos, mais úteis a nós do que podiam ser para aqueles para quem foram inicialmente escritos, por serem mais bem entendidos através do seu cumprimento. Veja 1 Pedro 1.12; Hebreus 4.2; Romanos 16.25,26.

[2] Isto também indica duas coisas relativas ao ministério dos apóstolos de Cristo. Em primeiro lugar, que era um ministério frutífero: eles eram ceifeiros que segavam em uma volumosa colheita de almas para Jesus Cristo, e em sete anos fizeram mais para o estabelecimento do reino de Deus entre os homens do que os profetas do Antigo Testamento haviam feito em duas vezes esse número de gerações. Em segundo lugar, que era muito facilitado, especialmente entre os judeus, para quem eles foram inicialmente enviados, pelos manuscritos dos profetas. Os profetas semearam em lágrimas, clamando: “Nós trabalhamos em vão”. Os apóstolos segavam com alegria, dizendo: “Graças a Deus, que sempre nos faz triunfar”. Observe que muitos bons frutos podem ser colhidos dos trabalhos dos ministros que estão mortos e partiram pelas pessoas que sobrevivem a eles e pelos ministros que os sucedem. João Batista e aqueles que o ajudaram, haviam trabalhado, e os discípulos de Cristo entraram nos trabalhos deles, construíram sobre suas fundações, e colheram os frutos do que eles semearam. Veja o motivo que temos para louvar a Deus por aqueles que foram antes de nós, por suas pregações e seus manuscritos, pelo que eles fizeram e sofreram em seus dias, pois nós entramos em seus trabalhos. Sua dedicação e ajuda tornaram nosso trabalho mais fácil. E os antigos e novos trabalhadores, aqueles que chegaram à vinha na terceira hora e aqueles que vieram na undécima hora, se encontrarão no dia do pagamento. Eles estarão tão distantes de invejarem um ao outro pela glória de seus respectivos serviços, que, tanto aqueles que semearam quanto aqueles que segaram se regozijarão juntos, e o grande Senhor da colheita terá toda a glória.