PSICOLOGIA ANALÍTICA

UM CHOQUE NA MEMÓRIA

Técnica americana, que consiste na implantação de eletrodos no cérebro de pacientes com déficit de memória, consegue recuperar até 15% da capacidade de lembrar.

Um choque na memória

“Usas um vestido/ Que é uma lembrança/ Para o meu coração. / Usou-o outrora / Alguém que me ficou / Lembrada sem vista. / Tudo na vida/ Se faz por recordações. / Ama-se por memória”

O poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos mais conhecidos do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), remete ao conceito universal de que a memória é o que nós somos. Sem que tenhamos a possibilidade de recordar, a existência se esvazia por completo. A vida se sustenta com base nas ideias do presente, nas referências do passado e na forma como processamos e armazenamos as nossas experiências. Por isso, ninguém quer perder a memória, todos querem melhorá-la. Pois um novo e ousado procedimento médico foi capaz de impulsionar o mecanismo que forma e preserva as lembranças, um feito inédito na medicina. Eletrodos implantados em uma área específica do cérebro recuperaram 15% da memória de pacientes. A taxa equivale ao que se perde em dois anos e meio com a degeneração provocada pela doença de Alzheimer. Ou ao que se esvai naturalmente em dezoito anos de vida de uma pessoa saudável. Traduzindo: quem tem 56 anos hoje pode, em tese, voltar a ter a mesma memória que tinha aos 38 anos. Disse Youssef Ezzyat, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, autor principal da técnica: “O método abre um caminho de possibilidades para auxiliar as pessoas com problemas de memória”. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho tem sido considerado por especialistas do mundo todo como um dos feitos mais promissores ocorridos na neurologia nas últimas décadas, desde a disseminação dos aparelhos de ressonância magnética que revelam o cérebro em atividade.

A dinâmica do método fascina. Dezenas de eletrodos minúsculos, de 2,3 milímetros cada um, foram implantadas no córtex lateral de 25 pacientes. O córtex lateral é a região do cérebro associada ao processamento de informações. A cirurgia para a implantação dos eletrodos dura, em média, três horas. Em seguida, os participantes foram orientados a memorizar uma lista com doze palavras aleatórias, como “bala”, “doce” e “carro”. Cada vocábulo foi exibido em uma tela durante dois segundos. Pediu-se a todos os pacientes, então, que fizessem contas matemáticas simples, tarefa cujo único objetivo era distraí-los da anterior.

Na sequência, tinham de dizer aos pesquisadores de quais palavras conseguiam se lembrar. Durante todo o procedimento, a atividade cerebral dos pacientes era registrada pelos eletrodos. Com isso, os cientistas conseguiram definir dois padrões de ondas cerebrais: um para os momentos em que a memória funcionava bem, e o outro para quando ia mal. A partir daí, os eletrodos foram programados para liberar pequenos choques elétricos no cérebro do paciente (que não sente nada) sempre que sua onda cerebral não funcionasse bem. Resultado: as lembranças melhoraram em 15%.

O procedimento ainda é experimental e deverá ser realizado em um número maior de pessoas para que se verifiquem sua real segurança e eficácia. É um processo que deve demorar ainda mais uma década para ser concluído. ”Mas já podemos dizer que se trata de um feito inédito para os estudos de melhora da memória”, diz o neurologista Renato Anghinah, da Universidade de São Paulo. Aqui, um parêntese importante. Todos os pacientes que se submeteram ao estudo tinham epilepsia, doença que costuma provocar deficiências de memória. No entanto, os efeitos da técnica dos eletrodos, teoricamente, poderiam ser igualmente positivos também em pessoas saudáveis.

O uso de descargas elétricas para melhorar a saúde do cérebro é coisa antiga. O médico grego Claudio Galeno (129-216) encostava peixes-elétricos no crânio dos pacientes para tratar dores de cabeça crônicas. Com seu método, Galeno intuiu o que só seria confirmado no século XVIII: que o organismo pode ser estimulado por impulsos elétricos – o princípio de ação dos eletrodos. Esses dispositivos são usados desde a década de 90 para tratar doenças neurológicas, como Parkinson e epilepsia. Atualmente são estudados para o tratamento de pacientes com depressão refratária a medicações. Implantados no cérebro, ficam ligados a uma bateria externa que libera choques em áreas que variam conforme a natureza da doença. O conceito por trás da técnica é que as pequenas descargas elétricas são capazes de interromper atividades cerebrais desreguladas, permitindo, assim, a predominância de atividades cerebrais em regiões com processamento normal. Cientistas já arriscam imaginar os próximos passos. Diz o neurocirurgião Arthur Cukiert: “No futuro, poderemos avançar a ponto de conseguir os mesmos efeitos com uma tecnologia não invasiva, que aja de fora do cérebro”.

A memória é uma das funções mais complexas do cérebro. Isso porque ela está associada a dezenas de áreas do órgão, sendo o hipocampo uma das principais. Em conjunto com o córtex, ele garante que o organismo colete, conecte e crie as lembranças a partir de experiências. É, portanto, o primeiro passo para a formação da memória. Quem quer que rememore o seu primeiro beijo possivelmente se lembrará das palpitações causadas pela ansiedade, do ambiente em que se encontrava, do perfume e das características físicas do parceiro. O fato de a experiência envolver tantos sentidos ajuda a fazer com que, mesmo alguns bons anos depois, a lembrança continue ali, armazenada. Os atores essenciais nesse processo são as conexões elétricas transmitidas pelos neurônios – as chamadas sinapses, que codificam e armazenam a memória.

Mais recentemente, a medicina identificou que o mecanismo da memória é ainda mais intrincado do que se imaginava. Ele está associado também aos hábitos de vida. Hoje, sabe-se que 30% dos casos de perda de memória grave podem ser evitados com comportamentos saudáveis. Há seis meses, a Academia Americana de Neurologia passou a recomendar exercícios físicos para prevenir a perda de memória – como 150 minutos semanais de caminhada, por exemplo.

A atividade física estimula o funcionamento do hipocampo. Já a privação de sono tende a provocar lapsos de memória – uma noite mal dormida é capaz de afetar temporariamente a comunicação entre os neurônios. Ainda há controvérsia entre especialistas sobrea eficácia de atividades que pregam técnicas de memorização para retardar a perda das lembranças, como o jogo de xadrez ou sistemas de aprendizagem como o Kumon. Mas um novo estudo, publicado na revista da Sociedade Americana de Geriatria, descobriu que esses hábitos podem, sim, ajudar a memória, só que em uma situação mais específica, quando ela já está afetada por um transtorno cognitivo leve – o estágio entre o envelhecimento cerebral normal e a demência. Dificilmente, no entanto, essas atividades poderiam contribuir para reverter a perda natural de lembranças. O problema está, mais uma vez, na complexidade da formação da memória. “Não há um exercício suficientemente completo para abranger todas as variações da memória. É possível melhorá-la pontualmente”, diz Paulo Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal de Medicina, em São Paulo.

Esquecer é algo natural. Todo aquele que tiver uma vida longa em algum momento se queixará de ter ficado com “uma palavra na ponta da língua”. A chave de casa some, a carteira não está no lugar e o nome das pessoas desaparece repentinamente. A falta de memória saudável é um sintoma secundário de outros problemas. Antes de tudo, pode ser desatenção. Se um indivíduo não se importar com o lugar onde deixou o casaco, seu cérebro também não vai se preocupar em arquivar essa informação. Os lapsos podem ter a ver ainda com ansiedade, depressão, stress e abuso de álcool. Aos 60 anos, por causa do desgaste natural dos neurônios, mais da metade dos adultos apresenta dificuldades de memória que afetam o seu dia a dia em algum grau. Mas isso não é necessariamente sinal de problemas graves, como a doença de Alzheimer.

O mecanismo das lembranças é um tema debatido desde a Antiguidade. Sócrates, conforme relata Platão em Fedro, lamentou a popularização da escrita porque, segundo ele, a substituição do conhecimento acumulado no cérebro pela palavra desenhada tornaria a mente preguiçosa e prejudicaria a memória. “Essa descoberta provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiadas na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações”, disse. Bem mais adiante, o escritor português José Saramago retorquiu ao filósofo grego em seu livro de crônicas A Bagagem do Viajante, publicado originalmente em 1973: “Se passo as minhas lembranças ao papel, é mais para que não se percam (em mim) minutos de ouro, horas que resplandecem como sóis no céu tumultuoso e imenso que é a memória. Coisas que são também, com o mais, a minha vida”. Sócrates se preocupava com a influência do papel sobre a memória, mas nunca imaginaria o poder dos eletrodos sobre ela. Se pudesse fazê-lo, talvez levantasse outras questões: os implantes cerebrais poderão resultar em classes diferentes de cidadãos, os de memória aprimorada e os “normais?” E se, em algum momento, eles influenciarem pensamentos e comportamentos? Por outro lado: podemos estar subjugando a importância do esquecimento?

Na ficção, a memória tem sido instrumento de roteiros extraordinários. Um exemplo é o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, do diretor Michel Gondry. Lançado em 2004, o longa conta a história de Clementine, a personagem vivida por Kate Winslet que se submete a um procedimento experimental para apagar da memória o ex­ namorado Joel, interpretado por Jim Carrey. Desconsolado, Joel decide fazer o mesmo. Mas, quando suas lembranças começam a se esvanecer, ele percebe que ainda ama Clementine – e tenta desesperadamente inverter o processo. A vida se faz por memórias, e, sem elas, sobra o vazio. A possibilidade de estendê-las por mais tempo é a possibilidade de prolongar o bom da vida.

 Um choque na memória.2 A DÁDIVA DO ESQUECIMENTO

Na mitologia grega, Mnemosine e Letes, os rios da memória e do esquecimento, corriam pelas planícies do Hades, a terra dos mortos, e a alma que lá chegava, conforme bebesse das águas de um ou de outro, teria o conhecimento ou a completa ignorância do que vivera sobre a terra. Outras versões do mito colocam o Letes à saída do Hades, pois a alma que retomava ao plano terreno tinha de apagar lembranças de vidas anteriores. No século XIV, Dante adaptou esses mitos da Antiguidade ao pensamento cristão em sua Divina Comédia: saindo do Purgatório, as almas que se encaminhavam para o Paraíso bebiam do Letes para esquecer os pecados, e de um rio chamado Euno é para lembrar-se do bem que haviam feito. Essas narrativas já contemplavam uma intuição fundamental sobre o funcionamento de nossa mente: esquecimento e memória são faculdades complementares. Precisamos de ambas.

A vida seria perfeitamente infernal se nossa memória fosse irretocável. Imagine lembrar-se exatamente de tudo o que foi dito pelo apresentador de um programa dominical que você viu em um dia de 1995, ou da cor das meias que você calçou naquela ocasião. Uma pessoa que lembrasse de tais insignificâncias teria dificuldade para discernir que eventos merecem ser qualificados de memoráveis. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em 2007 demonstrou que a capacidade do cérebro de suprimir memórias irrelevantes facilita lembrar o que realmente importa. Há razões evolutivas para que seja assim: na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. Importa mais lembrar que certo cachorro é bravo do que recordar seu nome ou a forma de sua tigela de ração.

A ciência ainda não desvendou os mecanismos do esquecimento, mas já sabe que esquecer é tão vital quanto lembrar. Pesquisas recentes sugerem que certas pessoas com incapacidade de esquecer eventos traumáticos têm maior risco de desenvolver depressão e transtorno de stress pós-traumático. Como apontou o filósofo e psicólogo americano William James, pioneiro em estudos sobre a memória: “Se nos lembrássemos de tudo, seriamos, na maioria das vezes, tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”.

Admirador de William James, o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) talvez tenha sido o escritor de ficção que melhor compreendeu a importância do esquecimento. O francês Marcel Proust explorou os delicados processos involuntários que despertam a memória dos tempos perdidos – mas Borges aventurou-se em terreno mais perigoso: especulou como seria uma memória absoluta, no conto Funes, o Memorioso. Espécie de versão extrema da americana Jill Price – que consegue lembrar o dia exato em que determinado episódio de programa televisivo foi ao ar nos anos 80 -, lrineo Funes não consegue se esquecer de nada. Tem facilidade para línguas, mas é incapaz de pensamento consistente. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes, nada havia além de detalhes, quase imediatos”, ensina Borges.

Em um conto posterior, O Aleph, Borges imagina um objeto impossível: o Aleph é um ponto único do espaço – localizado em um porão de Buenos Aires – em que é possível ver a totalidade do mundo em um só relance. Depois da experiência sobrenatural de olhar para o aleph, o personagem-narrador teme nunca mais vir a ter uma surpresa na vida, pois todas as pessoas com que cruza na rua já foram vistas antes. Depois de algumas noites de insônia, porém, o esquecimento faz seu trabalho. Borges tinha uma memória literária prodigiosa, conhecendo muitos textos e poemas de cor. Mas compreendia que o esquecimento é uma dádiva.

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OUTROS OLHARES

UM SENTIDO PARA A EXISTÊNCIA

Quando chega o envelhecimento, recorremos à ciência na tentativa de reparar os estragos da idade. Nossas antigas lutas por um lugar de importância no mundo cedem lugar ao mistério que é a própria vida.

Um sentido para a existência

Um olhar para quem está terminando sua vida lentamente faz-nos imaginar uma luta para domesticar a morte até que o medo dela permita-nos chegar ao lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

André Gorz, filósofo francês, fica recluso em companhia de sua esposa Dorine, prisioneira de uma doença degenerativa que a tortura sem piedade. Depois que a Medicina varreu toda a esperança de um senso de controle da vida para lhes aliviar o sofrimento, o casal toma a decisão de eternizar a paixão com a própria morte. O amor arrebata as mãos de André e fá-las escrever sua última carta à amada Dorine. Um ano depois de escrevê-la, ele lacra-a e coloca-a na porta da sua residência. Para evitar interferências na decisão do casal, André fecha bem toda a casa e o casal comete suicídio. A carta encontrada, escrita por André, é o livro Carta à D.

Começa assim: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Ao tempo em que descreve as mudanças físicas, deixa claro o quanto o amor não depende desse tipo de apreciação. Afinal, o encontro de almas que se fundem faz com que um não possa viver sem o outro. No amor, a alma habita um só corpo. Diante da ameaça inevitável da perda da mulher, André sonhava com a silhueta de um homem em uma estrada vazia e em uma paisagem deserta que andava atrás de um carro fúnebre. Esse homem era ele e era Dorine que o carro levava. Não queria ir à sua cremação, não queria receber a urna com as suas cinzas; ouvia um canto que dizia “o mundo está vazio, não quero mais viver”, aí ele despertava. Nossos sonhos trazem mensagens relacionadas com os nossos sentimentos mais autênticos. Por meio deles, podemos experimentar a vida e a morte de uma forma mágica e até brincar com isso. Esse sonho fez André perceber que a escolha estava entre viver sem vida ou deixar a paixão ressoar no espírito que encontra unidade ao se dissolver no outro até existir uma única alma para esses dois corpos.

André pergunta por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras. Isso nos faz refletir sobre o que é trazer o outro para nossa vida. Não é preencher uma solidão ou atender alguma expectativa de completude, pois o amor é a própria incompletude. Esse fascínio não encontra expressão e abre mão de qualquer padrão imposto por alguma cultura. É uma bricolagem de tudo que é indizível.

A natureza propõe ao que é vivo um destino a cumprir e nele a preparação para a morte. No entanto, tendemos a querer contrariar essa natureza e encontrar formas de permanecer no teatro da vida de qualquer maneira, apegados ao medo do desconhecido. Buscamos, talvez, a fantasia de uma vida sem conflito e eternamente idêntica. Isso seria uma morte em vida. O sofrimento gerado por nossos erros é o modo como temos de evoluir até compreendermos o significado do sofrimento e mudar de nível dentro da evolução humana.

O pensamento mítico que expressa nossos temores, fantasias e expectativas do homem sobre a morte faz-nos entender que é mais evoluído vivermos a vida da melhor forma que conseguirmos do que gastarmos tempo e energia para lutar contra a morte. Somos livres para escolher ter consciência de nós mesmos e sem liberdade para escolhermos o destino.

O homem moderno apega-se à ilusão de uma ideia de felicidade que consiste em conseguir realizar todos os seus desejos. Essas expectativas nunca serão atendidas, pois existe outra ordem que rege nossas vidas. Quando essa consciência aparece, encontramo-nos com as mãos vazias e sofremos a metamorfose kafkiana, sentindo-nos como um grande inseto inútil e inapropriado para a vida, ou então nos transformamos em Dom Quixote e saímos por aí transformando a paisagem calma dos moinhos de vento em batalhas terríveis.

O mistério do que acontece quando o corpo morre a ciência não consegue responder. Mas o pensamento mítico, que conduz o imaginário do homem, precisa da ideia de que algo sobrevive além do físico. Então, é mais saudável adotarmos a ideia de que tudo vai continuar sem precisar buscar provas e muito menos acreditar. Basta saber que a verdade psíquica é a que prevalece, pois algo nos leva a sentir que a vida se comporta como se fosse continuar.

O envelhecimento do humano, em sua relação com o outro, precisa encontrar um sentido para sua existência. Alguns trilham um caminho permeado de uma paisagem cheia de saudade de um mundo que passou; outros buscam a aquisição de uma sabedoria em olhar com outra visão e sentir que nos aproximamos do lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

Um sentido para a existência.2

 

 

GESTÃO E CARREIRA

QUEM MANDA AQUI?

Os recursos humanos, dentro de qualquer perfil de instituição, são o que há de mais importante, mesmo nos ambientes altamente tecnológicos, onde a presença humana é quase totalmente dispensável.

Quem manda aqui

É fato que sem a interação do colaborador com o mercado, usuários, equipamentos, ou até mesmo os sistemas operacionais, a instituição irá parar de gerar recursos, de ter retorno e zerar sua produtividade. Deixando assim de existir.

Na época em que o projeto Apolo estava no auge, final dos anos 60, corria uma piada que os russos haviam conseguido criar um equipamento tão sofisticado que eram necessários apenas dois elementos para sua operação: um homem e um cão. O homem tinha como obrigação alimentar o cão, e o cão ali estava para não deixar o homem tocar em nenhum comando da máquina. Mesmo se tratando de uma antiga anedota, o pensamento de se evoluir para uma estrutura funcional perfeita, sem a necessidade de interação humana, sempre foi o sonho dourado dos mais apaixonados capitalistas – visando o lucro – e dos socialistas/comunistas – visando a liberdade do homem para tarefas mais filosóficas.

Ocorre que o homem não deseja se libertar de suas atribuições. Isso o faz se sentir produtivo e um elemento capaz de contribuir para a sociedade gerando seu próprio sustento a cada dia. Não existem funções sem especialistas, mas algumas funções deixaram de existir durante a evolução industrial, permitindo uma migração de especializações.

O antigo alfaiate de bairro pode ter se transformado em um atendente numa loja de roupas. O homem que amolava facas com sua roda gritante pelas ruas da cidade pode ter se tornado um carpinteiro ou, quem sabe, cursado uma graduação e hoje é um profissional liberal.

Assim, a transformação das funções foi gerando outra grande novidade nas empresas: as equipes de trabalho. Vários são os perfis de equipes que podem ter objetivos claros e serem diferentes, principalmente por tipo de atividade e expectativa de resultados. Certo é que cada equipe tem seu líder. Seja ele certificado ou não. A liderança nas equipes de trabalho pode ser exercida pelo líder instituído ou pelo elemento de maior capacidade de gerenciamento emocional. Aqui, as habilidades comunicacionais sempre levam vantagem sobre a técnica operacional. O líder não é quem manda, é quem coordena. Não é o profissional mais habilidoso e sim o que melhor interage com os outros indivíduos de seu grupo de trabalho.

Encontramos o perfil multidisciplinar em que os elementos possuem formações diferentes e isso pode gerar conflito se não houver uma boa condução dos processos. Nesses casos, a liderança natural ou supervisão externa é altamente aconselhável.

O sábio educador paulista Celso Antunes contou, certa vez, que um professor faltou na escola, e uma das funcionárias foi ao hospital que funcionava em frente à dita escola. Adentrou a sala dos médicos solicitando que um deles pudesse cobrir a falta do docente. Ela foi prontamente atendida e um dos profissionais foi à sala de aula e explicou sobre saúde no tempo destinado ao ensino de matemática. O problema aqui é que, se fosse o contrário, se uma enfermeira adentrasse a sala dos professores solicitando a ajuda de algum docente para conduzir uma cirurgia, cobrindo a falta do cirurgião, com certeza não seria atendida, pois, afinal, nenhum deles estaria capacitado para tal ato complexo e não arriscaria a vida de outrem apenas pela oportunidade de demonstrar saberes além de sua formação. Ocorre que lecionar também é um ato complexo e necessita de preparo e organização. No entanto, parece simples para os leigos no tema.

Dessa forma, as especializações devem ser respeitadas, assim como os limites de cada formação. O comando não é imposto, é conquistado pela capacidade de gerenciar conflitos e ofertar possibilidades de crescimento aos elementos que formam a equipe. Capacidade de ser solidário, assumir responsabilidades, saber unir as habilidades e criar sinergia é o papel do líder.

Ainda teremos um ambiente perfeito onde os diferentes saberes possam fazer suas trocas ampliando a produtividade com estratégias comportamentais assertivas e as lideranças sempre surjam de forma natural com apoio de todos da equipe. Enquanto isso não ocorre, é necessário elencar talentos que ajudem na boa relação com o grupo.

Também é de bom tom lembrar que, embora uma pessoa possa ser líder dela mesma, só existe equipe de trabalho a partir de dois elementos unidos em prol de um objetivo comum. E, somente dessa forma, um pode exercer liderança sobre o outro. Da mesma forma, a liderança pode ser alternada em diferentes momentos do processo produtivo.

Para que isso fique claro, basta lembrar que o capitão do navio cede o comando para um prático fazer as manobras até atracar a embarcação no cais. A mais alta patente de um navio abre mão da liderança diante de um profissional especializado em uma determinada função que, muitas vezes, nem fala o mesmo idioma.

O trio que mantém uma empresa em funcionamento deve ser facilmente identificável em um corpo funcional: boa comunicação entre os elementos com clarificação de conteúdo sempre que possível, objetivos claros e aceitos pelos membros da equipe e uma liderança capaz de orientar os passos de todos os processos.

 

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.iseq. Psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções: Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional: Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE I

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

Temos aqui o restante da história sobre o que aconteceu quando Cristo estava em Samaria, após a longa conversa que tivera com a mulher.

I – A interrupção de sua conversa pela chegada dos discípulos. É provável que muito mais tenha sido falado do que o que é relatado. Mas somente quando a conversa chegou a um ponto crítico, quando Cristo havia se declarado à mulher como sendo o verdadeiro Messias, os discípulos chegaram. “Oh filhas de Jerusalém… não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira”.

1. Eles maravilharam-se de que Cristo conversasse com essa mulher, maravilharam-se de que ele falasse tão seriamente (visto que talvez eles observassem à distância) com uma mulher, uma mulher desconhecida, a sós (Ele costumava ser mais reservado), especialmente com uma samaritana, que não fazia parte das ovelhas perdidas da casa de Israel. Eles pensavam que seu Mestre devia ser tão desconfiado dos samaritanos quanto os outros judeus, o suficiente para que não pregasse o Evangelho a eles. Eles maravilharam-se de que Ele se rebaixasse a falar com uma mulher tão insignificante, esquecendo quão desprezíveis eles próprios eram quando Cristo os chamou inicialmente para se juntarem a Ele.

2. Ainda assim, eles aceitaram aquilo tacitamente. Eles sabiam que era por alguma boa razão, e por algum bom propósito, dos quais Ele não estava obrigado a lhes prestar contas. E, por isso, nenhum lhe disse: “Que perguntas?” Ou: “Por que falas com ela?” Assim, quando dificuldades peculiares ocorrerem com a Palavra e a providência de Deus, é bom nos satisfazermos com o fato de que, em geral, tudo está bem no que Jesus Cristo diz e faz. Talvez houvesse algo inadequado no fato de eles se maravilharem de que Cristo falasse com a mulher. Isto era como os fariseus se escandalizando com o fato de Ele comer com publicanos e pecadores. Mas, o que quer que eles pensassem, eles nada disseram. “Se imaginaste o mal, põe a mão na boca”, para impedir que esse pensamento mau se torne uma palavra do mal, Provérbios 30.32; Salmos 34.1-3.

II – A informação que, com alegria, a mulher deu aos seus vizinhos sobre a extraordinária pessoa que ela havia encontrado, vv. 28,29. Observe aqui:

1. Como ela se esqueceu de sua missão junto à fonte, v. 28. Pelo fato de os discípulos terem chegado e interrompido a conversa, e talvez por ela ter notado que eles não estavam contentes com aquilo, ela foi embora. Ela se retirou, em uma atitude de cortesia e civilidade a Cristo, para que Ele tivesse tempo para comer seu jantar. Ela se alegrou pela conversa que teve com Ele, mas não foi rude. Cada coisa é bela em seu momento. Ela supôs que Jesus, ao terminar seu jantar, continuaria em sua jornada, e por isso apressou-se em contar a seus vizinhos para que eles fossem encontrá-lo prontamente. ”A luz ainda está convosco por um pouco de tempo”. Veja como ela aproveitou o tempo. Quando um bom trabalho estava completo, ela se dedica a outro. Quando as oportunidades de se realizar o bem cessam, ou são interrompidas, devemos procurar oportunidades de fazer o bem. Quando acabamos de ouvir a palavra, é então o momento de falar sobre ela. Foi dada atenção ao fato de ela ter deixado seu cântaro.

(1) Ela partiu por gentileza a Cristo, para que Ele tivesse água para beber. Ele transformou água em vinho para outros, mas não para si próprio. Compare isto com a cortesia de Rebeca para com o servo de Abraão (Genesis 24.18), e veja essa promessa, Mateus 10.42.

(2) Ela o deixou para que pudesse chegar mais rapidamente à cidade, para levar aos seus habitantes essas boas notícias. Aqueles cujo trabalho é anunciar o nome de Cristo não devem se sobrecarregar ou se enrredar com qualquer coisa que os retarde ou impeça de fazer isso. Quando os discípulos foram feitos pescadores de homens, eles renunciaram a tudo.

(3) Ela deixou seu cântaro, como alguém indiferente a ele, estando totalmente concentrada em coisas mais importantes. Observe que aqueles que são trazidos ao conhecimento de Cristo, mostrarão isso através de um completo desprezo por este mundo e pelas coisas dele. E aqueles que são novatos nas coisas de Deus devem ser desculpados, se, no princípio, estiverem tão ocupados com o novo mundo para o qual são levados, que as coisas deste mundo pareçam ser, por algum tempo, negligenciadas. Em um de seus sermões a respeito deste versículo, o Sr. Hildersharn, a partir deste exemplo, justifica amplamente aqueles que abandonam seus negócios terrenos durante os dias da semana para ouvir sermões.

2. Como ela tratou sua missão na cidade, uma vez que seu coração estava voltado para esta. Ela foi à cidade e disse “àqueles homens”, provavelmente os membros do conselho da cidade, os homens com autoridade, a quem, possivelmente, encontrou reunidos tratando de algum assunto público. Ou a cada homem que encontrava nas ruas. Ela proclamava nos principais locais de ajuntamento: “Vinde e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito; porventura, não é este o Cristo?” Observe:

(1)  Como ela foi solícita em fazer com que seus amigos e vizinhos conhecessem a Cristo. Ao encontrar aquele tesouro, ela convocou seus amigos e vizinhos (como Lucas 15.9), não apenas para se regozijarem com ela, mas para compartilharem com ela, sabendo que havia o suficiente para enriquecer a si mesma e a todos que quisessem compartilhar com ela. Observe que aqueles que estiveram com Jesus, e encontraram nele consolo, devem fazer tudo que puderem para levar outros a Ele. Já recebemos o privilégio de conhecer o Senhor? Devemos honrá-lo, fazendo com que Ele se torne conhecido por outros. Não podemos dar a nós mesmos uma honra maior. Esta mulher se torna um apóstolo. Aquela que partira como um exemplar de impureza, volta como uma professora da verdade evangélica, diz Aretius. Cristo dissera a ela que chamasse seu marido, e ela pensou que esta fosse uma autorização suficiente para convocar a todos. Ela foi à cidade, à cidade em que habitava, entre seus parentes e conhecidos. Embora cada homem seja meu próximo, a quem eu tenha a oportunidade de fazer o bem, ainda assim eu tenho maior oportunidade, e por isso estou sob maior obrigação, de fazer o bem aos que moram próximos a mim. Que a árvore seja útil no local onde estiver.

(2)  Corno ela foi franca e honesta ao avisá-los sobre esse estrangeiro com quem havia se encontrado.

[1] Ela conta abertamente a eles o que a induzira a admirá-lo: Ele “me disse tudo quanto tenho feito”. Nada mais é relatado do que aquilo que Ele disse a ela a respeito de seus maridos. Mas não é improvável que Ele lhe tenha falado sobre outros de seus pecados. Ou, ao contar aquilo sobre o que ela sabia que Ele não poderia, por meios normais, ter tornado conhecimento, Ele a convencera de que poderia ter dito tudo aquilo que ela já havia feito. Então, uma vez que Ele tem uma sabedoria divina, esta deve ser a onisciência. Ele disse a ela aquilo que ninguém sabia, exceto Deus e a própria consciência dela. Duas coisas a influenciaram. Em primeiro lugar, a extensão do conhecimento dele. Nós mesmos não conseguimos dizer todas as coisas que já fizemos (muitas coisas passam despercebidas, e mais se passam e são esquecidas), mas Jesus Cristo conhece todos os pensamentos, palavras e atos de todos os filhos dos homens. Veja Hebreus 4.13. Ele disse: “Eu sei as tuas obras”. Em segundo lugar, o poder da sua palavra. O fato de ele ter contado os pecados secretos dela com poder e energia tão inexplicáveis causou nela uma grande impressão de que, tendo sido descoberto um pecado, ela se lembra de todos, e se sente julgada por todos. Ela não diz: “Vinde e vede um homem que me disse coisas estranhas referentes à adoração religiosa e às suas leis, que decidiram a controvérsia entre este monte e Jerusalém, um homem que chama a si mesmo de Messias”. Mas sim: “Vinde e vede um homem que contou-me meus pecados”. Ela se concentra na parte da conversa de Cristo que, seria de se pensar, ela teria mais medo de repetir. Mas as demonstrações reais do poder da Palavra e do Espírito de Cristo estão entre todas as mais persuasivas e convincentes. E o conhecimento de Cristo, ao qual somos levados pela condenação do pecado e pela humilhação, é absolutamente saudável e nos traz a salvação.

[2] Ela os convida a sair e ver aquele sobre quem ela expressava uma opinião tão favorável. Não apenas: “Vinde e observai-o” (ela não os convida a vê-lo como a um espetáculo), mas: “Vinde e conversai com Ele. Vinde e ouvi sua sabedoria, como eu fiz, e então pensareis como eu”. Ela não se responsabilizaria por lidar com os argumentos que a haviam convencido, de maneira a convencer a outros. Aqueles que veem a evidência da verdade não são capazes de fazer com que outros a vejam. Mas: “Vinde e falai com Ele, e encontrareis um poder muito grande em sua palavra, um poder que de longe supera todas as outras evidências”. Observe que aqueles que pouco podem fazer para o convencimento e conversão de outros, podem e devem apresentá-los aos métodos da graça que eles próprios perceberão que são eficazes. Jesus estava, agora, junto ao extremo da cidade. “Vinde vê-lo agora”. Quando as oportunidades de receber o conhecimento de Deus são trazidas à nossa porta, não temos nenhuma justificativa para negligenciá-las. Será que não devemos ir além do limiar para ver aquele cujo dia os profetas e reis desejaram ver?

[3] Ela decide recorrer a eles, e aos sentimentos deles, quanto ao julgamento. “Não é este o Cristo?” Ela não fala de forma categórica: “Ele é o Messias”, por mais nítido que ela tivesse isso em sua mente. Entretanto, ela muito prudentemente menciona o Messias, de quem, de outra forma, eles não teriam pensado, e depois os consulta sobre isso. Ela não imporá sua fé a eles, mas somente a exporá. Através de apelos tão íntegros, porém fortes como estes, a capacidade de julgamento e as consciências dos homens são, às vezes, dominadas antes que eles o percebam.

(3) O sucesso que ela obteve nessa convocação: “Saíram, pois, da cidade e foram ter com ele”, v. 30. Embora possa parecer muito improvável que uma mulher de importância tão insignificante, e de caráter tão ruim, tivesse a honra da primeira descoberta do Messias entre os samaritanos, ainda assim agradava a Deus influenciar os corações a prestarem atenção ao relato dela, e a não menosprezá-lo como uma história sem importância. Houve uma ocasião em que os leprosos foram os primeiros a trazer a Samaria as notícias de uma notável salvação, 2 Reis 7.3ss. Eles foram se encontrar com o Senhor Jesus. Não tentaram trazê-lo a si mesmos dentro da cidade, mas em sinal de seu respeito por Ele, e da sinceridade de seu desejo de vê-lo, eles foram até Ele. Aqueles que desejam conhecer a Cristo devem se encontrar com Ele onde quer que Ele esteja.