ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE IV

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

(2) ”A salvação vem dos judeus”. Portanto, eles sabem o que adoram, e em que e sobre que bases se apoiam em sua adoração. Não que todos os judeus fossem salvos, nem que não fosse possível que muitos dos gentios e dos samaritanos pudessem ser salvos, pois, em toda nação, aquele que teme a Deus e age com justiça é aceito por Ele. Mas:

[1] O autor da salvação eterna vem dos judeus, surge entre eles (Romanos 9.5), e é enviado primeiro para abençoá-los.

[2] Os meios da salvação eterna são oferecidos a eles. A palavra da salvação (Atos 13.26) havia sido enviada aos judeus. Foi confiada a eles, e outras nações a receberam através deles. Esta era uma diretriz confiável para eles em suas devoções, e eles a seguiam. Consequentemente, eles sabiam a quem adoravam. A eles, foram confiadas as Palavras de Deus (Romanos 3.2), e o serviço a Deus (Romanos 9.4). Portanto, sendo os judeus tão privilegiados e superiores, competir com eles era uma arrogância dos samaritanos.

Em segundo lugar, Ele descreve a única adoração evangélica que Deus aceitava e com a qual estaria muito satisfeito. Havendo mostrado que o lugar de adoração não tem importância, Ele consegue mostrar o que é necessário e essencial – que adoremos a Deus “em espírito e em verdade”, vv. 23,24. A ênfase não deve ser colocada sobre o lugar onde adoramos a Deus, mas sobre o estado de espírito em que o adoramos. Observe que o modo mais eficaz de diminuirmos as divergências nas questões menores da religião é sermos mais zelosos no tocante às maiores. Acredito que aqueles que diariamente fazem da adoração em espírito o centro de suas preocupações, não devem entrar em divergências nas quais se discute se o Senhor deve ser adorado aqui ou acolá. Cristo havia preferido, de forma justa, a adoração dos judeus à dos samaritanos. Porém, ainda assim Ele aqui sugere a imperfeição dela. A adoração era cerimonial, Hebreus 9.1,10. Os adoradores geralmente não eram espirituais, e desconheciam a parte interior da adoração divina. Note que é possível que sejamos melhores do que nossos vizinhos, e mesmo assim não sejamos tão bons quanto deveríamos ser. Cabe a nós sermos corretos, não somente quanto ao propósito da nossa adoração, mas na maneira de conduzi-la, e é quanto a isso que Cristo nos instrui aqui. Observe:

A. A grande e gloriosa revolução que deveria introduzir essa mudança: ”A hora vem, e agora é” – o dia que estava marcado, referente àquilo que estava determinado desde os dias da Antiguidade, quando deveria vir e o quanto deveria durar. O tempo de sua aparição foi fixado em uma hora. As deliberações divinas são assim exatas e pontuais. O tempo que o Senhor estaria na terra tinha uma duração limitada a uma hora. Observe como está próxima a oportunidade da graça divina, e como ela é urgente, 2 Coríntios 6.2. Essa hora vem, e está vindo na plenitude de sua força, esplendor, e perfeição, ela está agora no embrião e na infância. O dia perfeito está chegando e raiando.

B. A bendita mudança em si. Nos tempos do Evangelho, os verdadeiros adoradores deverão adorar “o Pai em espírito e em verdade”. Como criaturas, adoramos o Pai de tudo e de todos. Como cristãos, devemos adorar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. E a mudança será:

(a) Na natureza da adoração. Os cristãos adorarão a Deus, não nas práticas cerimoniais da instituição mosaica, mas nas práticas espirituais, consistindo menos no exercício corporal, e mais naquele que é reavivado e revigorado pela força e pela energia divinas. A maneira de adorar que Cristo instituiu é racional e intelectual, e um aprimoramento daqueles ritos exteriores e cerimônias com os quais a adoração do Antigo Testamento era tanto obscurecida quanto obstruída. Esta é chamada a verdadeira adoração, ao contrário daquela que era típica. Os serviços válidos eram símbolos da verdadeira adoração, Hebreus 9.3,24. Quanto àqueles que se rebelaram em relação ao cristianismo, e voltaram ao judaísmo, é dito que começaram pelo Espírito e acabaram pela carne, Gálatas 3.3. Tal era a diferença entre as instituições do Antigo e do Novo Testamento.

(b) No temperamento e na disposição dos adoradores. Portanto, os verdadeiros adoradores são bons cristãos, diferenciados dos hipócritas. Todos devem, e irão adorar a Deus em espírito e em verdade. Isso é dito como sendo (v. 23) sua natureza, e (v. 24) seu dever. Observe que é requerido de todos os que adoram a Deus que o façam em espírito e em verdade. Nós devemos adorar a Deus:

[a] “Em espírito”, Filipenses 3.3. Devemos confiar no Espírito de Deus quando precisarmos de força e ajuda, colocando nossas almas sob suas influências e processos. Devemos devotar e empregar nosso próprio espírito a serviço de Deus (Romanos 1.9). Devemos adorá-lo com firmeza de pensamento e uma chama de amor, com tudo aquilo que está dentro de nós. O espírito dos salvos é investido de uma nova natureza em oposição à carne, que é a natureza corrompida. E, desse modo, adorar a Deus com nosso espírito é adorá-lo com nossas graças, Hebreus 12.28.

[b] “Em verdade”, isto é, em sinceridade. Deus requer não apenas nosso íntimo em nossa adoração, mas “a verdade no íntimo”, Salmos 51.6. Nós devemos considerar mais o poder do que a forma, devemos visar a glória de Deus, e não a possibilidade de sermos notados pelos homens. Devemos nos chegar “com verdadeiro coração”, Hebreus 10.22.

Em terceiro lugar, Ele declara as razões porque Deus deve ser adorado dessa maneira:

A. Porque nos tempos do Evangelho, eles, e somente eles, são considerados os verdadeiros adoradores. O Evangelho estabelece um modo espiritual de adoração, de forma que aqueles que professam o Evangelho não são verdadeiros em sua profissão, não correspondem à luz e às leis do Evangelho, se não adorarem a Deus em espírito e em verdade.

B. “Porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. Isso indica:

(a) Que tais adoradores são muito raros e difíceis de ser encontrados, Jeremias 30.21. A porta da adoração espiritual é estreita.

(b) Que tal adoração é necessária, e é aquela que o Deus do céu exige. Quando Deus vem em busca de seus adoradores, a pergunta não é: “Quem adora em Jerusalém?” Mas: “Quem adorava em espírito?” Esse será o critério.

(c) Que Deus fica muito satisfeito e aceita bondosamente tal adoração e tais adoradores. “Eu o desejei”, Salmos 132.13,14; Cantares 2.14.

(d) Que houve e haverá, até o fim, um remanescente daqueles adoradores. Sua procura por tais adoradores implica em torná-los assim. Deus está reunindo para si, em todas as épocas, uma geração de adoradores espirituais.

C. Porque “Deus é Espírito”. Cristo veio para nos trazer a bênção de conhecer a Deus (cap. 1.18), e esta foi a declaração que o Senhor Jesus expressou em relação a Deus, o Pai. Ele o declarou para essa pobre mulher samaritana, porque, geralmente, os mais pobres estão interessados em conhecer a Deus, e com esse desígnio, poderia corrigir os erros dela relativos à adoração religiosa. Nada contribuirá mais, para a verdadeira adoração, do que o conhecimento apropriado de Deus. Observe que:

(a) Deus é Espírito, porque Ele é uma mente infinita e eterna, um ser inteligente, incorpóreo, imaterial, invisível e incorruptível. É mais fácil dizer o que Deus não é do que o que Ele é. “Um espírito não tem carne nem ossos”, mas quem conhece o modo de ser de um espírito’? Se Deus não fosse Espírito, Ele não poderia ser perfeito, nem infinito, nem eterno, nem independente, nem o Pai dos espíritos.

(b) A espiritualidade da natureza divina é uma boa razão para a espiritualidade da adoração divina. Se não adoramos em espírito a Deus, que é Espírito, nós não damos a Ele a glória devida ao seu nome, e, portanto, não realizamos o ato da adoração, nem podemos esperar obter seu favor e aceitação, e assim nos afastamos da finalidade da adoração, Mateus 15.8,9.

4. O último tópico da conversa de Jesus com essa mulher é relativo ao Messias, vv. 25,26. Observe aqui:

(1) A fé da mulher; através da qual ela esperava o Messias: “Eu sei que o Messias vem” e “quando ele vier, nos anunciará tudo”. Ela não tinha nada a objetar contra o que Cristo havia dito. Seu discurso foi, pelo que ela sabia, o que seria apropriado ao Messias então esperado. Apenas dele ela aceitaria isso, e, por enquanto, ela acha melhor deixar sua crença temporariamente pendente. Muitos não dão valor ao que têm em suas mãos porque pensam que têm algo melhor em vista (Provérbios 17.16), e se iludem com a promessa de que no futuro aprenderão aquilo que negligenciam agora. Observe aqui:

[1] A quem ela espera: “Eu sei que o Messias vem”. Os judeus e os samaritanos, embora vivessem em extremo desacordo, concordavam na esperança do Messias e de seu reino. Os samaritanos aceitavam os manuscritos de Moisés, e não desconheciam os profetas, nem as esperanças da nação judaica. Aqueles que menos sabiam, sabiam que o Messias estava para vir. Tão geral e inconteste era a expectativa por Ele, e nesse momento mais elevada do que nunca (pois o cetro havia partido de Judá, as semanas de Daniel estavam perto de terminar), que ela conclui não somente: Ele virá, mas “Ele vem, Ele está próximo”: “O Messias (que se chama o Cristo)”. O evangelista, embora conserve a palavra hebraica Messias (que a mulher utilizou) em respeito ao idioma sagrado, e à igreja judaica, que a usava livremente, escrevendo para o benefício dos gentios, toma o cuidado de representá-la através de uma palavra grega com o mesmo significado. Esta palavra designa o Cristo-Ungido, dando um exemplo da regra dos apóstolos de que tudo o que é falado em um idioma desconhecido ou menos comum deve ser interpretado, 1 Coríntios 14.27,28.

[2] O que ela espera dele: “Ele nos anunciará tudo”, nos falará sobre todas as coisas relativas ao serviço de Deus que é necessário que saibamos, nos dirá aquilo que compensará nossos defeitos, retificará nossos erros, e porá um fim às nossas disputas. Ele nos falará sobre o pensamento de Deus de forma clara e completa, e não ocultará nada”. E isso implica em um reconhecimento, em primeiro lugar, da deficiência e da imperfeição da revelação que eles agora tinham da vontade divina, e do domínio que eles tinham da adoração divina. Isso não podia levá-los à perfeição, e, portanto, eles esperavam algum grande avanço e aprimoramento em questões de religião, um tempo de reforma. Em segundo lugar, da capacidade do Messias para realizar essa mudança: “‘Ele nos anunciará tudo’ que queremos sabei; e sobre as quais nós discutimos de forma exasperada na escuridão. Ele introduzirá a paz ao nos conduzir para a verdade, e ao dispersar as névoas do erro”. Parece que esse era o consolo das pessoas boas naqueles tempos obscuros em que a luz iria surgir. Se eles se achassem perdidos, e em um beco sem saída, era para eles uma satisfação dizer: “Quando o Messias vier, ele nos anunciará tudo”. Como pode ser para nós agora com referência à sua segunda vinda: Agora, vemos por espelho, mas então veremos “face a face”.

(2) O favor de nosso Senhor Jesus em se fazer conhecido dela: “Eu o sou, eu que falo contigo”, v. 26. Cristo jamais se fez conhecido tão expressamente a qualquer outro como Ele se fez aqui a esta pobre samaritana, e ao homem cego (cap. 9.37). Não, não a João Batista, quando ele lhe enviou mensageiros (Mateus 11.4,5). Não, não aos judeus, quando eles o desafiaram a dizer-lhes se Ele era o Cristo, cap. 10.24. Mas:

[1] Cristo, deste modo, colocaria uma honra sobre os que eram pobres e desprezados, Tiago 2.6

[2] Esta mulher, pelo que sabemos, jamais tinha tido qualquer oportunidade de ver os milagres de Cristo, os quais eram então o método ordinário de convicção. Note que, para aqueles que não têm a vantagem da forma externa do conhecimento e da graça, Deus têm meios secretos de suprir a necessidade deles. Devemos, portanto, julgar caridosamente a respeito de tal coisa. Deus pode fazer com que a luz da graça brilhe no coração mesmo onde Ele não fez a luz do evangelho brilhar na face.

[3] Esta mulher foi preparada para receber tal revelação melhor do que os outros foram. Ela estava cheia da expectativa do Messias, e pronta para receber instrução da parte dele. Cristo se manifestará àqueles que, com um coração honesto e humilde, desejarem conhecê-lo pessoalmente: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Jesus Cristo estava próximo a ela, embora ela não conhecesse quem Ele era, Gênesis 28.16. Muitos estão lamentando a ausência de Cristo, e desejando por sua presença, quando, ao mesmo tempo, Ele está falando a eles. Em segundo lugar, como Cristo se faz conhecido de nós, falando a nós: “Eu que falo contigo”, tão estreitamente, de maneira tão convincente, com tal segurança, com tal autoridade, “Eu o sou”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.