ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE III

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

[5] Cristo responde a essa crítica, e comprova que a água viva que Ele tinha para dar era muito melhor do que a do poço de Jacó, vv. 13,14. Embora ela falasse perversamente, Cristo não a rejeitou, mas a instruiu e a encorajou. Ele mostrou-lhe:

Em primeiro lugar, que a água do poço de Jacó produzia somente um bem-estar e um suprimento passageiros: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”. Ela não é melhor do que qualquer outra água. Ela saciará a sede momentânea, mas a sede voltará, e em algumas horas o homem terá a mesma necessidade e desejo de água que sempre teve. Isso sugere:

1. As debilidades dos nossos corpos nesta condição atual. Eles ainda estão necessitados, e têm sempre um desejo ardente. A vida é uma chama, uma lamparina que, sem um suprimento contínuo de combustível e azeite, logo se apagará. O calor natural consome a si mesmo.

2. As imperfeições de todos os nossos confortos neste mundo. Eles não são duradouros, nem nossa satisfação neles, permanente. Sejam quais forem as águas de conforto das quais bebamos, teremos sede novamente. A comida e a bebida de ontem não servirão para a vida de hoje.

Em segundo lugar, que as águas vivas que Ele daria produziriam uma satisfação e bênção duradouras, v. 14. As dádivas de Cristo parecem mais valiosas quando são comparadas com as coisas deste mundo, pois parecerá não haver comparação entre elas. Quem quer que compartilhe do Espírito da graça, e dos confortos do Evangelho eterno:

A. Nunca terá sede, nunca terá a necessidade de algo mais para satisfazer abundantemente os desejos de sua alma. A pessoa poderá estar desejosa, mas não estará padecendo. Esta pessoa poderá ter uma sede que é igual a um desejo, e não almejará nada mais do que a presença e a graça de Deus. Ela desejará ter mais e mais de Deus. Porém, ela não terá uma sede que possa se parecer com o desespero.

B. Consequentemente, nunca terá sede porque essa água que Cristo proporciona “se fará nele uma fonte de água”. Nunca poderá ter sede ao extremo aquele que tem em si mesmo uma fonte de suprimento e satisfação.

(a) Esta fonte estará sempre pronta a jorrar, pois ela estará nele. O princípio da graça plantado nele é a fonte de seu conforto. Veja cap. 7.38. Um homem bom está satisfeito em si mesmo, pois Cristo habita em seu coração. A unção permanece nele. Ele não precisa se esgueirar pelo mundo em busca de conforto. A obra e o testemunho do Espírito no seu coração lhe fornecem um sólido alicerce de esperança, e uma fonte de alegria transbordante.

(b) Esta fonte será infalível, pois estará dentro dele. Aquele que tem na mão apenas um balde de água não terá sede enquanto esta durar, mas ele logo estará vazio. Somente os crentes têm dentro de si uma fonte de água transbordante, sempre fluindo. Os princípios e os sentimentos que o santo Evangelho de Cristo cria nas almas daqueles que são colocados sob seu poder são essa fonte de água.

[a] Ela está jorrando, sempre em movimento, o que evidencia as fortes e vigorosas ações da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossas almas, como água parada, elas não correspondem ao propósito da nossa aceitação. Se em nosso coração houver um bom tesouro, então nós deveremos produzir coisas boas.

[b] Ela está saltando para a vida eterna, o que indica, em primeiro lugar, os objetivos das ações generosas. Uma alma santificada tem sua atenção voltada para o céu, pretende isso, planeja isso, faz tudo por isso, não aceitará nada menos que isso. A vida espiritual salta em direção à sua própria perfeição na vida eterna. Em segundo lugar, a constância dessas ações. Continuará saltando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar; o galardão deles, a vida eterna enfim. A água viva nasce do céu, e, portanto, eleva-se em direção ao céu. Veja Eclesiastes 1.7. E sendo assim, não é essa água melhor do que a do poço de Jacó?

[6] A mulher (alguns pensam que é difícil dizer se por brincadeira ou a sério) pede que Jesus lhe dê um pouco dessa água (v. 15): “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede”. Em primeiro lugar, alguns acham que ela fala com zombaria e ridiculariza o que Cristo tinha dito como sendo mera bobagem. E, por zombaria, não por desejo, desafia-o a lhe dar um pouco dessa água: “Uma invenção rara. Isso me poupará muito trabalho se eu nunca mais tiver que voltar aqui para tirar água”. Mas, em segundo lugar; outros acham que esse foi um desejo bem-intencionado, embora ilógico e ignorante. Ela compreendeu que o Senhor se referia a algo muito bom e proveitoso, e então disse amém, talvez ao acaso. “Seja o que for, que venha. Quem me mostrará algum bem? Facilitar; ou poupar trabalho, é um bem valioso para os pobres trabalhadores. Note:

1. Mesmo aqueles que são fracos e ignorantes podem, ainda assim, ter algumas débeis e hesitantes aspirações em relação a Cristo e suas dádivas, alguns bons desejos de graça e glória.

2. Os corações carnais, em seus melhores desejos, não enxergam nada além de suas finalidades carnais. “Dá-me”, diz ela, não para que eu possa ter a vida eterna (que Cristo propôs), mas “para que não mais tenha sede e não venha aqui tirá-la”.

3. O próximo tópico da conversa com essa mulher é com relação a seu marido, vv. 16-18. Não foi para deixar de lado a conversa sobre a água da vida que Cristo começou a falar nesse assunto, como muitos que fazem qualquer comentário inoportuno durante uma conversa para que possam abandonar um assunto sério. Mas Ele o fez com um propósito benevolente. O Senhor percebeu que aquilo que Ele havia dito com relação à sua graça e à vida eterna causara pouco impacto sobre ela, porque ela não tinha sido convencida do pecado. Por isso, renunciando à conversa sobre a água viva, Ele empenha-se em despertar a consciência dela, para abrir a ferida da culpa, e então ela entenderia mais facilmente a cura que é ministrada pela graça. E este é o método de lidar com as almas. Elas devem, primeiro, estar cansadas e sobrecarregadas pelo fardo do pecado, e então devem ser levadas a Cristo para descansar. Primeiro se sentem atormentadas até o coração, e então são curadas. Este é o caminho da cura espiritual, e se não procedermos nessa ordem, estaremos começando pelo lado errado.

Observe:

(1) A maneira discreta e decente como Cristo introduz essa conversa (v. 16): “Vai, chama o teu marido e vem cá”. Neste momento:

[1] A ordem que Cristo deu a ela tinha uma intenção muito boa: “Chama teu marido, para que ele possa lhe ensinar, e ajudar-lhe a entender essas coisas que você ignora”. As mulheres que querem aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14.35), que devem “coabitar com elas com entendimento”, 1 Pedro 3.7. “Chama teu marido, para que ele possa aprender contigo, para que então ambos possam juntos ser os herdeiros da graça da vida. Chama teu marido, para que ele possa ser testemunha do que se passa entre nós”. Desse modo, Cristo nos ensina a buscar coisas honestas à vista de todos os homens, e ter como objetivo aquilo que for de boa reputação.

[2] Como isso tinha uma boa intenção, tinha também um bom propósito, pois Ele aproveitaria a ocasião para trazer o pecado dela à lembrança. É preciso habilidade e prudência ao repreender. Deve-se planejar, como a mulher de Tecoa, 2 Samuel 14.20.

(2) Com que persistência a mulher busca evitar a condenação, e mesmo assim sem perceber se condena, e, antes que esteja ciente, reconhece seu erro. Ela disse: “Não tenho marido”. Sua declaração sugeria apenas que ela não se importava mais que se falasse de seu marido, nem que esse assunto fosse mencionado. Ela não faria seu marido ir até lá para que a verdade sobre o assunto não viesse à tona para sua vergonha em conversas adicionais: “Por favor, fale de qualquer outra coisa, pois eu não tenho marido”. Seria de se pensar que ela fosse uma serva ou uma viúva, apesar de que, embora não tivesse marido, ela não fosse nem uma coisa nem outra. O pensamento carnal é muito engenhoso e cuidadoso ao esconder o pecado, na tentativa de se afastar e se livrar das condenações.

(3) Com que rigor nosso Senhor Jesus faz a consciência dela entender a condenação. É provável que Ele tenha dito mais do que aquilo que está registrado aqui, porque ela percebeu que o Senhor lhe falara tudo o que ela já tinha feito (v. 29). Mas aquilo que está registrado aqui é relativo aos maridos daquela mulher. Aqui está:

[1] Uma narrativa surpreendente de uma conversa sobre o passado dela: “Tiveste cinco maridos”. Sem dúvida, não era por sua aflição (o sepultamento de tantos maridos), mas por seu pecado, que Cristo pretendia repreendê-la. Ou ela poderia ter fugido para se casar (como diz a lei), fugido de seus maridos e se casado com outros. Ou sua conduta irresponsável, ímpia e desleal os havia levado a se divorciar dela. Ou ainda, por meios indiretos, ela havia contrariado a lei, e se divorciado deles. Aqueles que não levam a sério práticas escandalosas como essas, e fingem que a culpa se extingue assim que a conversa se encerra, devem se lembrar de que todas as coisas estão registradas diante de Cristo.

[2] Uma severa repreensão à sua condição de vida atual: “O que agora tens não é teu marido”. Ou ela nunca havia se casado com ele de modo algum, ou ele tinha alguma outra esposa, ou, o que é mais provável, seu ex-marido ou maridos estavam vivos, de forma que, em resumo, ela vivia em adultério. Observe ainda a suavidade com que Cristo lhe fala sobre isso. Ele não a chama de prostituta, mas lhe diz: “O que agora tens não é teu marido”, e então deixa para sua própria consciência dizer o resto. Note que as repreensões são geralmente mais proveitosas quando são menos ofensivas.

[3] Ainda assim, o Senhor Jesus traz uma interpretação melhor do que aquela que ela poderia trazer. A colocação do Senhor elimina as evasivas e os subterfúgios: “Disseste bem: Não tenho marido”. E outra vez: “Isso disseste com verdade”. O que ela pretendeu que fosse a negação de um fato (que ela não considerou como marido a nenhum homem com quem no caso da lei de Moisés, mas a vontade de Deus é que os homens orem em todo lugar, 1 Timóteo 2.8; Malaquias 1.11. Nosso bom senso nos instrui a considerar a decência e a conveniência dos lugares onde adoramos, mas nossa religião não tem preferência por um lugar em relação ao outro, com respeito à santidade e aceitação por parte de Deus. Aqueles que preferem algum local de adoração somente por causa da casa ou construção na qual a adoração está sendo realizada (mesmo que seja tão magnífica e solenemente consagrada como era o templo de Salomão) se esquecem de que hoje o local onde se adora a Deus já não faz mais diferença. Não há mais uma diferença entre Jerusalém, que tinha sido tão conhecida pela sua santidade, e o monte de Samaria, que havia sido tão mal-afamado pela sua impiedade.

[2] Ele coloca ênfase sobre outras coisas, na questão da adoração religiosa. Ao dar tão pouca importância ao local de adoração, Ele não pretendia diminuir nossa preocupação sobre a questão em si, sobre a qual Ele então aproveita a oportunidade para discorrer mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, quanto ao estado de divergência daquela época, Ele decidiu contra a adoração dos samaritanos, e em favor da dos judeus, v 22. Ele diz aqui:

1. Que os samaritanos certamente estavam errados, não simplesmente porque adoravam nesse monte, embora a preferência por Jerusalém já estivesse em vigor, o que era pecaminoso, mas porque eles estavam errados quanto ao objeto de sua adoração. Se a adoração em si fosse como deveria ser, sua separação de Jerusalém poderia ter sido aceita, pois os melhores reinos tinham seus lugares altos: “Mas vós adorais o que não sabeis”, ou, “aquele que não conheceis”. Os judeus adoravam o Deus de Israel, o verdadeiro Deus (Esdras 4.2; 2 Reis 17.32), mas estavam mergulhados em completa ignorância. Eles o adoravam como o Deus daquela terra (2 Reis 17.27,33), como uma divindade local, como os deuses das nações. Porém, o Senhor Deus deveria ser servido como o único Deus, como o Senhor universal. Observe que a ignorância está muito longe de ser a mãe da devoção, sendo, antes, sua assassina. Aqueles que adoram a Deus na ignorância oferecem animais cegos para sacrifício, e este é o sacrifício de tolos.

2. Que os judeus certamente estavam corretos. Pois:

(1) ‘”Nós adoramos o que sabemos’. Nós caminhamos em terreno seguro em nossa adoração, pois nosso povo é discipulado e educado no conhecimento de Deus, conforme Ele se revelou nas Escrituras”. Note que aqueles que, através das Escrituras, obtiveram um certo conhecimento sobre Deus (embora não um conhecimento perfeito), podem adorá-lo tranquilamente e de maneira aceitável, porque eles sabem o que adoram. Cristo, em outra passagem, condena as distorções da adoração dos judeus (Mateus 15.9), e mesmo assim defende a adoração em si. A adoração pode ser verdadeira mesmo onde ela não é genuína e íntegra. Observe que nosso Senhor Jesus estava feliz em se incluir entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos”. Embora Ele fosse o Filho (logo, estão livres os filhos), mesmo assim Ele aprendeu a obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores entre os homens não pensem que a adoração a Deus seja algo inferior para eles, pois o próprio Filho de Deus não agiu deste modo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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