PSICOLOGIA ANALÍTICA

LADOS DE METADES INTEIRAS

O amor pressupõe um eu dividido em partes que se opõem. Essa é a lição de O Visconde Partido ao Meio, uma fábula de Ítalo Calvino que explora o fantástico.

Lados de metades inteiras

Amar o outro faz-nos perceber nossa incompletude. Ao notarmos em nós mesmos dois lados como inimigos irreconciliáveis, sentimos a luta entre eles e também a dor de se ferirem para unirem-se em um todo chamado indivíduo. É dessa forma que obtemos o verdadeiro ato de amar a si e ao outro. Assim nos ensina o livro O Visconde Partido ao Meio de Ítalo Calvino.

O visconde Medardo, no intuito de agradar alguns duques, vai à guerra e é atingido por um tiro de canhão que o divide ao meio. Retorna à sua cidade terra metade do visconde que se revela muito cruel. Quando os habitantes da cidade já estavam desanimados e amargurados, eis que aparece a outra metade como um visconde absolutamente bom. Até que os habitantes percebem que maldades e virtudes igualavam-se na desumanidade, pois pessoas cheias de boas intenções podem ser chatas e terríveis. Por amor a Pamela, essas duas bandas do visconde entram num duelo e se ferem mortalmente. Para salvá-las, o dr. Trelawney costura uma metade na outra e faz das duas partes um único visconde. Nas palavras do autor, “o homem mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo, precisou do amor para tornar-se inteiro”.

Sentir-se pela metade é bem próprio da juventude quando se permite deixar a força natural do desenvolvimento empurrá-la em direção à totalidade, um lugar a que nunca se chega. Em nosso amadurecimento, o sentir-se incompleto deverá continuar para que nos faça sentir que ainda há vida a ser vivida.

Vivemos lidando com a ideia do aceitável e do não aceitável em nossa convivência com aqueles que nos arrodeiam e com os que podem nos dar ou não amor. Escondemos na sombra o comportamento ou ideia que nos pareça fazer perder esse amor e exibimos o que achamos que irá impressionar o outro na ilusão de ser amado. Chega o momento em que nos sentimos divididos e percebemos que parte de nós é desejo e outra parte é renúncia.

Muitas são as feridas que experimentamos em nome da boa educação dos nossos pais e são essas feridas primais que nos atrapalham em fazer parte dessa unidade universal que chamamos natureza. Algumas fazem-nos perder parte de si e, como se estivéssemos atados a um fio invisível, guiamo-nos por ele nessa busca do que possa nos completar. Ao encontrarmos o que estava perdido, unimo-nos pela paixão para depois sentirmos tão opostas as nossas idealizações que precisamos sofrer para nos darmos conta do quanto o ideal é inimigo do real.

Metade de nós revela virtude, outra metade mostra maldade, mas, para além dessas metades, existimos. Precisamos sair dessa ignorância de nos sentirmos inteiros. Inteiros por pensarmos que somos só virtuosos ou então apenas destrutivos até que os sintomas apareçam para denunciar a inconsciência dessa unilateralidade.

Ensina a Psicologia de C. G. Jung que todas as vezes em que o homem se encontra em um de seus extremos, sua outra parte o avisa em sonhos. Um homem vivendo sua unilateralidade como o bem absoluto ou o mal absoluto é alguém que prejudica os demais e a si próprio com a sua incompletude. Quando conseguimos alertá-lo desses lados opostos e irreconciliáveis, precisamos de um ego forte para suportar a tensão até que transcenda para uma terceira condição completamente nova. Essa terceira condição é diferente de cada uma das duas outras originais, mas também contém, de algum modo, aquelas mesmas partes opostas entre si.

Quando metade de nós mesmos não consegue amar, e essa condição pertence a outra metade à qual não conseguimos estar unidos, o objeto do nosso amor poderá nos fazer sentir confusão já que não estamos inteiros nesse ato. Uma metade luta com a outra, e apenas quando se ferem é que se torna possível, mediante tratamento, transcender esses opostos incompatíveis para tornarem-se unos e dignos dessa união. Descobrimos que nossa parte perdida estava projetada nos outros e era tracionada pela angústia da incompletude. Dessa forma, o papel do analista é costurar e unir o que antes existia separadamente.

Sofremos com o drama de nos sentirmos inacabados. Sempre estamos por nos completar com alguma busca que muitas vezes aparece na forma de objetos ou atitudes irracionais, diagnosticados como angústias existenciais. É o sofrimento da alma do homem sempre a buscar se completar com afazeres e atividades lúdicas, ou mesmo vícios, expressões imaginais do que o completa.

Por outro lado, aqueles que se sentem completos talvez não sintam mais a necessidade de viver para buscar o que lhes falta. A nossa parte boa e a parte mesquinha nunca conseguem fazer ao outro algo virtuoso, porém a luta entre esses dois lados é a esperança da inteireza. Somente o homem consciente de sua incompletude e em busca de se harmonizar com a natureza que o acolhe, e que ele chama de Deus, é que poderá tornar-se um indivíduo.

Para aqueles que enxergaram a disputa de Hillary Clinton e Donald Trump como o discurso de um lado bom e civilizado contra um lado mau e primitivo, eu convido-os a refletirem sobre o que existe de certeza no que vai ser e o quanto em nós mesmos aparecem esses dois lados disfarçados em sintomas ou modos de vida inapropriados à evolução do ser.

 Lados de metades inteiras2

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br www.ijba.com.br

OUTROS OLHARES

VINGANÇA E PORNOGRAFIA ON-LINE

Os modelos de expressão da sexualidade sofreram alterações significativas ao longo das últimas décadas, principalmente no que se refere ao conceito de “explícito”.

Vingança e pornografia on-line

Tempos atrás seria impensável termos revistas, websites, filmes, livros e debates acalorados sobre sexo e suas vertentes. Essa é uma conquista de muitos anos de lutas, dores e de diversas causas, desde a igualdade entre homens e mulheres até a libertação sexual. Porém, como todas as mudanças, essa também está inserida, no século XXI, no campo da tecnologia e, como esperado, algumas características negativas surgiram.

Um tema que passou a ter maior visibilidade na ciberpsicologia, que relaciona a sexualidade negativamente ao uso de aparelhos eletrônicos, é o chamado revenge porn, que pode ser compreendido como o ato de utilizar fotos íntimas como um recurso para realizar chantagens ou punições, com o conhecimento ou não do outro. Um exemplo comum é um relacionamento entre jovens em que, após a ruptura, o parceiro ou parceira ameaça divulgar fotos eróticas do outro na internet caso a relação de fato seja finalizada. Esse tipo de comportamento está atrelado a diversos danos emocionais a quem sofre essa retaliação, desde sintomatologia condizente com transtorno depressivo maior até casos de suicídio. Dessa forma, de maneira diretiva, comento alguns tópicos que podem ajudar no cuidado para que esse tipo de experiência não ocorra com você, leitor(a), ou com pacientes que narram essa demanda.

O primeiro ponto: verifique seus pensamentos de permissão. Comumente os pacientes   mencionam que enviar fotos íntimas para o(a) parceiro (a) não irá gerar consequências, o que é um engano em vários casos. Na verdade, existem diversos tipos de problemáticas relacionadas a esse comportamento, como o risco de invasão de hackers que possam utilizar essas fotos para fins negativos, assaltos (permitir ao infrator ter acesso ao banco de dados do celular), enviar de forma incorreta fotos para grupos de WhatsApp (casos de vídeos e fotos que caem em grupos da família desse aplicativo não são raros) e,  por fim, o revenge porn. Os pensamentos de ponderação plausíveis seriam: “isso também pode acontecer comigo”, “não é seguro enviar fotos, mesmo em aplicativos em que as fotos são dissolvidas após alguns segundos” (ex.: Snap), “a intimidade do casal pode ser preservada de outras formas” e “enviar fotos eróticas não é necessariamente prova de amor”. Esse último é um relato constante em consultório, principalmente pelas mulheres. Em vários momentos ouço que é prova de amor enviar esse tipo de fotos para o parceiro. Outras mencionam que se sentiam pressionadas a isso. Por fim, já me foi narrado um evento em que a paciente necessitou enviar fotos íntimas para o parceiro, quando este estava viajando, para que ele não a traísse.

Segundo tópico é a objetificação: ainda existe uma cultura (doentia) predominante de que as mulheres são vistas como objeto e o envio de fotos permite que diversos parceiros (as) as utilizem como troféus, mostrando-as para terceiros (esses relatos costumam ser feitos por pacientes do sexo masculino). Combatendo esse ponto, perspectivas do campo da Psicologia demonstram que enviar fotos íntimas pode estar relacionado a diversos problemas psicológicos, dentre eles prejuízos significativos na autoestima, dificuldades sexuais, transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade. Um tópico secundário à objetificação é o julgamento: a mulher comumente é relatada como a culpada. Em relação a esse terceiro aspecto, é verificado que, infelizmente, ainda existe um abismo para que esse tipo de avaliação machista seja modificado, porém, em diversos veículos de comunicação e nos relatos de pacientes em consultório, existe uma sincronia nessa informação: a mulher foi quem errou em enviar as fotos, o homem não.

Aspectos legais: um site intitulado endrevengeporn.org tem como proposta gerar campanhas para a criminalização do revenge porn, que é considerado um tipo de abuso sexual.

No campo da legislação ainda existem lacunas sobre a punição de quem tem esse tipo de conduta, as leis banindo essa prática ainda estão sendo discutidas, e os fatores que contribuem são diversos, desde a dificuldade de compreender o assunto como a minimização dos danos do revenge porn. Apesar de ser um tema ainda emergente, mas que, como dito, já entrou no campo da discussão da Psicologia, é inegável verificar os inúmeros impactos que ele traz à vítima. A principal estratégia, até então, é a prevenção. As atuais configurações nos relacionamentos, a ascensão da cibercultura e a liberação da sexualidade são realidades, porém toda essa alteração social deve e pode ser vivenciada com poucos riscos à integridade emocional dos envolvidos. Como psicoterapeuta, meu posicionamento é de não estimular o envio de fotos íntimas, mesmo que estejamos suscetíveis a isso.

 

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo- comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com                           

GESTÃO E CARREIRA

FOCO NAS TAREFAS

Rotular-se um (a) “desorganizado(a)” não ajuda. O indivíduo deve ser realista ao avaliar suas possibilidades e o grau de dificuldade de seus afazeres.

Foco nas tarefas

Atualmente, em nossa sociedade, são inúmeras as pressões e demandas nos mais diferentes contextos: escola, família, trabalho etc. A troca de informações e o acesso a elas acontecem de modo cada vez mais dinâmico. Diante dessa configuração, tem-se um mercado de trabalho cada vez mais exigente e restrito. Dos profissionais, espera-se competência, precisão, eficiência; estas relacionadas à otimização do trabalho. Mas há uma progressão na qualidade e complexidade de tarefas requisitadas. Como cumpri-las, então, em prazos cada vez menores? Em alguns contextos e situações é inevitável falar de prioridades, mas como elegê-las, quando tudo parece importante e imprescindível de ser realizado?

A eleição de ordens de prioridade facilita a administração do tempo, questão relevante àqueles profissionais que desempenham ou que pretendem assumir papel de líder ou gestor e têm de lidar com grupos de pessoas. Para administrar a agenda, inicialmente, é importante adquirir o máximo de informações e esclarecimentos acerca das especificidades das tarefas, quais os pré-requisitos necessários à sua realização, até mesmo para distinguir entre elementos que são mais prioritários. Fazendo uma analogia ao contexto da saúde, algumas atividades que assumem o caráter de “emergência” têm prioridade número1. Outras se enquadram no nível2 da escala de prioridades de execução caráter “urgente”. Há ainda, um outro rol de tarefas que são parte da rotina diária, as quais, portanto, precisam ser executadas regularmente.

Vale lembrar que, no ambiente de trabalho, modos diferentes na condução de múltiplas tarefas, principalmente sob adversidades, favorecem o aprimoramento de habilidades que envolvam tomada de decisão, rapidez e agilidade, autocontrole, divisão e delegação de tarefas, mesmo sob condições de pressão, estresse e ansiedade. Características importantes diante de um mundo cada vez mais competitivo que enfatiza estas habilidades.

Sob uma outra ótica, há situações em que o “excesso” de tarefas não é o principal entrave à conclusão de algumas atividades. Porém, um furor muito presente seria o adiamento dessas tarefas para contextos mais favoráveis, com pouca pressão ou menor frequência de compromissos concorrentes. Mesmo sob condições mais favoráveis, não há garantias de cumprimento rápido e de qualidade de algumas tarefas. Em contextos escolares e acadêmicos, por exemplo, essa questão se torna mais visível. Observa-se um constante adiamento de algumas tarefas ou mesmo interrupções.

 PARA AMANHÃ

Pesquisas clínicas em análise do comportamento investigam a interferência da procrastinação ou adiamento de tarefas sobre a tomada de decisões e resolução de problemas em diversas áreas e aspectos da vida da pessoa, tais como trabalho, casamento, amor e família. O adiamento é ocasião para sentimentos de desmotivação, ansiedade e angústia. Gera regras e suposições, por vezes incompatíveis, de que a tarefa possa ser mais difícil do que realmente é.

Algumas variáveis relacionam-se ao adiamento; por exemplo, quanto mais prazerosa a atividade, maior a chance de conclusão e não adiamento. Entretanto, nem sempre estaremos lidando com tarefas agradáveis a serem cumpridas.

Nesse sentido, o adiamento é reforçado na medida em que o indivíduo investe em outras atividades concorrentes mais prazerosas e imediatas, por exemplo, assistir televisão, dormir, brincar etc. (elementos dispersares), protelando no engajamento das atividades necessárias. Em outras palavras o indivíduo tende a ficar sob controle das consequências em curto prazo.

Como forma de esquivar-se da execução da tarefa, o tempo é, muitas vezes, “superdimensionado” pela pessoa que supõe a viabilidade de concretização em tempo hábil, adiando o início da tarefa. No adiamento, sentimentos como alívio, liberdade e prazer podem estar presentes; após adiamento, angústia, inquietação, sensação de falta de tempo para completar a tarefa adiada e outras novas que vão surgindo concomitantemente.

Na execução da tarefa adiada, pode haver mais sentimento de alívio que de prazer, além de desconforto pelo tempo “insuficiente” e prejuízo na qualidade do trabalho. Após a conclusão: sensação de que poderia ter feito melhor, se houvesse mais tempo. Algumas variáveis que contribuem para o adiamento: medo de fracassar, baixa tolerância à frustração, dificuldade em lidar com tarefas desagradáveis. O que a tarefa demanda ou exige em termos de outros elementos ou comportamentos para se chegar à resposta ou resultado finais? Quais os níveis de dificuldade?

Em atividades escolares, por exemplo, às vezes o mais difícil é começar. Ao iniciar uma tarefa há o contato com as facilidades, mas também com as dificuldades, o que aumenta a probabilidade de interrupção.

Embora difícil, exercitar o “começar” uma tarefa também pode aumentar a probabilidade de manutenção do foco nesta atividade. Nesse caso, a função seria entrar em contato com o assunto, e com sentimentos de interesse, motivação e prazer pela execução de tarefa, o que possibilita o envolvimento com esta, e aumenta o engajamento em outras ações necessárias ao seu cumprimento, tais como, pesquisa, organização das ideias e construção do texto.

Mesmo parecendo comuns, algumas estratégias auxiliam na execução de tarefas como organização, agendamento, estabelecimento de metas a curto, médio e longo prazo e o enfrentamento, propriamente dito, da tarefa, que significa fazer ou, pelo menos, começar a fazer, para despertar concepções mais realistas em torno desta, como facilidades e dificuldades, e tomada de atitudes necessárias a este empreendimento.

Logo, a atribuição a características pessoais (p.ex. “sou desorganizado”, “desleixado”, “sem vontade”, “não consigo me concentrar”) como causa da procrastinação ou adiamento, não ajuda na mudança de comportamentos. Faz-se necessária uma análise mais cuidadosa e específica acerca das interações do indivíduo com seus ambientes ­ físico e social, que auxiliem na compreensão de elementos que dificultam a atenção e o foco em suas atividades, assim como na promoção de hábitos mais saudáveis ao indivíduo.

 

ALINE CARDOSO ROCHA – é psicóloga do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, psicóloga clínica e especialista em Psicologia Hospitalar. E-mail: alinecrocha@yahoo.com.br.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE II

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

II – Sua conversa com urna mulher samaritana é aqui detalhadamente registrada, enquanto sua discussão com os doutores, e sua conversa com Moisés e Elias no monte, estão sepultadas no silêncio. Essa conversa pode ser reduzida a quatro tópicos:

1. A discussão a respeito da água, vv. 7-15.

(1) São informadas as circunstâncias que deram origem a essa conversa.

[1] Então veio uma mulher de Samaria para tirar água. Isso demonstra sua pobreza, ela não tinha nenhum criado para tirar a água, e ela mesma deveria fazer seu esforço. Veja aqui, em primeiro lugar, corno Deus reconhece e aprova a diligência humilde e honesta em nosso trabalho. Cristo tornou-se conhecido dos pastores quando estes estavam cuidando de seu rebanho. Em segundo lugar, como a Providência viabiliza propósitos gloriosos através de acontecimentos que para nós parecem fortuitos e acidentais. O encontro dessa mulher com o Senhor Jesus Cristo no poço pode nos fazer lembrar das histórias de Rebeca, de Raquel, e da filha de Jetro, que encontraram homens de Deus, bons maridos, nenhum pior do que Isaque, Jacó e Moisés, quando vieram ao poço em busca de água. Em terceiro lugar, como a graça preventiva de Deus, algumas vezes, leva as pessoas inesperadamente aos caminhos da conversão e da salvação. Muitas vezes, Ele é achado por aqueles que não o buscam.

[2] “Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida”. Daqui, podemos tirar uma lição, em primeiro lugar, de justiça e honestidade. Cristo comprava e pagava pela comida que comia, como Paulo, 2 Tessalonicenses 3.8. Em segundo lugar, da nossa dependência diária da Providência: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã”. Cristo não foi à cidade para comer, mas enviou seus discípulos para buscarem seu alimento. Não porque Ele receava comer em uma cidade samaritana, mas:

1. Porque Ele tinha uma boa obra a realizar junto àquela fonte, que devia ser feita enquanto eles estavam cuidando das provisões. É sábio preencher nossos minutos de inatividade com aquilo que é bom, para que os fragmentos de tempo possam ser aproveitados. Pedro, enquanto o jantar estava sendo preparado, teve um arrebatamento, Atos 10.10.

2. Porque era mais privativo e afastado, mais barato e simples, que sua refeição lhe fosse trazida do que ir à cidade para comer. Talvez sua bolsa tivesse pouco dinheiro, e Ele nos ensinou a economizar, gastar de acordo com o que temos, e não além disso. Pelo menos, Ele nos ensinou a não nos influenciarmos pelas coisas grandes. Cristo podia comer seu jantar tanto junto à uma fonte como na melhor hospedaria da cidade. Devemos nos comportar de acordo com nossas circunstâncias. Sendo assim, isso proporcionou a Cristo uma oportunidade de conversar com essa mulher samaritana sobre assuntos espirituais, e Ele a aproveitou. Ele frequentemente pregava para multidões que se aglomeravam diante dele para receber ensinamentos. Mas, apesar disso, aqui o Senhor Jesus se digna a ensinar uma única pessoa, uma mulher, uma mulher pobre, uma estranha, uma samaritana, para ensinar seus ministros a fazer o mesmo, como aqueles que sabem que obra gloriosa é ajudar a salvar alguém da morte, ainda que seja apenas uma alma.

(2) Observemos as particularidades desta discussão.

[1] Jesus começa com um humilde pedido por um pouco de água: “Dá-me de beber”. Aquele que por nossa causa se fez pobre, aqui se torna um pedinte, para que aqueles que estão em dificuldades, e não conseguem trabalhar, não tenham vergonha de pedir. Cristo pediu, não apenas porque Ele precisava, e necessitava da ajuda dela para alcançá-la, mas porque se valeria disso para facilitar uma conversa com a mulher, e nos ensinar a estar dispostos a agradecer pelo pouco, quando isso acontecer. Cristo continua pedindo através de seus pobres, e um copo de água fresca, como esta aqui, dado a estes em seu nome, não ficará sem sua recompensa.

[2] Embora a mulher não tenha recusado o pedido, ela discutiu com Jesus porque Ele não se comportou de acordo com o temperamento de sua própria nação (v. 9): “Como?” Observe, em primeiro lugar, que havia uma hostilidade mortal entre os judeus e os samaritanos: “Os judeus não se comunicam com os samaritanos”. Os samaritanos eram os adversários de Judá (Esdras 4.1), e prejudiciais a eles em qualquer situação. Os judeus eram extremamente mal-intencionados contra os samaritanos, “olhavam para eles como se eles não tivessem nenhuma participação na ressurreição, excomungavam-nos e amaldiçoavam-nos pelo nome santo de Deus, pela gloriosa Escritura das tábuas da lei, e pela imprecação do alto e do baixo Sinédrio, com a seguinte lei: Que nenhum israelita coma qualquer coisa que seja de um samaritano, pois é como se ele comesse carne de porco”. Observe que as disputas por causa de religião são geralmente as mais implacáveis. Os homens foram feitos para ter relacionamentos uns com os outros, mas, se devido ao fato de um orar em um templo, e outro em outro, eles negarem os deveres da humanidade, caridade e civilidade geral, serão intragáveis, anormais, insolentes e críticos, e isso a pretexto de zelo pela religião. Estes mostram claramente que, por mais que sua religião possa ser verdadeira, eles não são verdadeiramente religiosos, mas, a pretexto de lutar pela religião, subvertem o objetivo dela. Em segundo lugar, como a mulher estava pronta para reclamar sobre a arrogância e a natureza doentia da nação judaica: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim”. Através das vestes ou do dialeto, ou de ambos, ela sabia que Jesus era um judeu, e acha estranho que Ele não cometesse os mesmos excessos de revolta contra os samaritanos que os outros judeus. Observe que homens comedidos de todos os lados, como Josué e seus companheiros (Zacarias 3.8), são homens dignos de se admirar. Essa mulher deseja saber duas coisas:

1. Por que Ele havia pedido essa gentileza, pois o orgulho dos judeus faria com que suportassem qualquer sofrimento para não ficarem em débito com um samaritano. Era parte da humilhação de Cristo que Ele nascesse na nação judaica, que agora estava não apenas em uma condição difícil, sujeita aos romanos, mas com uma reputação ruim entre as nações. Com que desdém Pilatos perguntou: “Porventura, sou eu judeu?” Dessa forma, ele se tornou alguém não apenas sem reputação, mas de má reputação. Porém, nisso, o Senhor nos deu um exemplo importante de que devemos nadar contra a corrente das imoralidades triviais. Nós devemos, como nosso Mestre, mostrar bondade e amabilidade, ainda que seja muito típico do caráter da nossa região, ou do temperamento do nosso povo, sermos rabugentos e mal-humorados. Essa mulher esperava que Cristo fosse como os outros judeus, porém é injusto culpar igualmente todos os indivíduos pelos defeitos típicos de toda a comunidade. Não há regra que não tenha exceções.

2. Ela gostaria de saber por que Ele esperava receber essa gentileza de uma samaritana: “Vós, judeus, podeis negá-la a alguém de nossa nação, e porque deveríamos concedê-la a alguém da vossa?” As disputas são disseminadas incessantemente por vingança e retaliação.

[3] Cristo aproveita essa ocasião para instruí-la sobre as coisas divinas: “Se tu conheceras o dom de Deus… tu lhe pedirias”, v. 10. Observe que:

Em primeiro lugar, Ele evita a objeção da mulher, devido à hostilidade entre judeus e samaritanos, e não a leva em consideração. Algumas divergências são melhor resolvidas ao serem ignoradas, e ao se evitar todas as oportunidades de se discutir sobre elas. Cristo converterá essa mulher, não por lhe mostrar que a adoração samaritana era separatista (embora ela realmente o fosse), mas mostrando a falta de conhecimento e imoralidade na vida dela, e a necessidade que ela tinha do Salvador.

Em segundo lugar, Ele fornece a ela um entendimento para que ela tivesse agora uma oportunidade (uma oportunidade mais justa do que ela podia perceber) de conquistar algo que seria um indescritível benefício para ela. Ela, ao contrário dos judeus, não tinha meios de compreender os sinais dos tempos, e por essa razão Cristo lhe diz expressamente que ela estava, agora, na época da graça. Esse era o dia da sua visitação.

1. Ele sugere o que ela deveria saber, mas ignorava: “Se tu conheceras o dom de Deus”, isto é, como as palavras seguintes explicam: “Quem é o que te diz: Dá-me de beber”. “Se tu soubesses quem eu sou”. Ela o via como sendo um judeu, um pobre viajante cansado, mas Ele a faria saber algo mais a respeito dele do que aquilo que aparentava. Observe que:

(a) Jesus Cristo é o “dom de Deus”, o símbolo mais precioso do amor de Deus para conosco, e o tesouro mais rico de todo o bem para nós; uma dádiva, não uma dívida que poderíamos cobrar de Deus; não um empréstimo, que Ele cobrará de nós, mas uma dádiva, um dom gratuito, cap. 3.16.

(b) É um indescritível privilégio ter essa dádiva de Deus proposta e oferecida a nós, e ter uma oportunidade de aceitá-la: ”Aquele que é a dádiva de Deus está agora sentado diante de ti, e fala contigo. É Ele quem te diz: Dá-me de beber. Esta dádiva aparece para ti, na forma de alguém que está te pedindo algo”.

(c) Embora Cristo esteja diante de nós, e nos peça algo em seu Evangelho, e através deste, ainda existem multidões que não o conhecem. Estas pessoas não sabem quem é que fala com elas no Evangelho, que diz: “Dá-me de beber”. Elas não percebem que é o Senhor que as chama.

2. Ele tem uma expectativa no que diz respeito a ela, do que ela teria feito se soubesse quem Ele era. Ele tinha a certeza de que ela não lhe daria uma resposta rude e mal-educada. Pelo contrário, ela estava tão longe de afrontá-lo, que se dirigiria ao Senhor de uma forma amável: “Tu lhe pedirias”. Observe que:

(a) Aqueles que desejam ter qualquer benefício através de Cristo devem pedir, devem ser determinados em orar a Deus para receber tal benefício.

(b) Aqueles que têm um correto conhecimento de Cristo o buscarão, e se não o buscamos, este é um sinal de que não o conhecemos, Salmos 9.10.

(c) Cristo sabe o que aqueles que desejam os meios de conhecimento teriam feito se os tivessem, Mateus 11.21.

3. Ele declara à mulher o que teria feito por ela se ela tivesse recorrido a Ele: “E ele te daria [e não lhe teria censurado, como fazes a mim] água viva”. Esta água viva representa o Espírito Santo, que não é como a água no fundo do poço, um pouco da qual Jesus havia pedido, mas como água viva ou corrente, que é muito mais valiosa. Observe que:

(a) O Espírito da graça é uma água viva. Veja cap. 7.38. Sob essa semelhança, as bênçãos do Messias tinham sido prometidas no Antigo Testamento, Isaías 12.3; 35.7; 44.3; 55.1; Zacarias 14.8. As graças do Espírito, e seus confortos, satisfazem a alma sedenta, que conhece sua própria natureza e necessidade.

(b) Jesus Cristo pode dar e dará o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, àqueles que lhe pedirem, pois Ele recebeu esta autoridade de Deus, o Pai.

[4] A mulher opõe-se e contesta a benevolente insinuação que Cristo lhe faz (vv. 11,12): “Tu não tens com que a tirar”. E, por outro lado: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai”? O que Ele falou figurativamente, ela interpretou literalmente. Nicodemos fez o mesmo. Veja que noções confusas têm, das coisas espirituais, aqueles que estão totalmente absorvidos por aquilo que faz parte do mundo dos sentidos. Ao chamar Jesus de Senhor; ela lhe demonstra algum respeito, mas parece que ela demonstra pouco respeito pelo que Ele disse, pois, neste particular, fez apenas gracejos.

Em primeiro lugar, ela não o acha capaz de provê-la com nenhuma água, não, não essa do poço que está à mão: “Tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo”. Ela disse isso sem conhecer o poder de Cristo, pois aquele que faz os vapores subirem das extremidades da terra não precisa de nada para tirá-la. Mas existem aqueles que confiarão em Cristo até o limite em que puderem vê-lo, e não crerão em sua promessa, a menos que os meios de sua realização sejam visíveis. É como se ficássemos amarrados aos nossos métodos, e não pudéssemos tirar água sem nossos baldes. Ela pergunta com desdém: “‘Onde, pois, tens a água viva?’ Eu não vejo de onde possas tirá-la”. Note que as fontes daquela água viva que Cristo tem para aqueles que vêm a Ele são secretas e ocultas. A fonte da vida está oculta em Cristo. Cristo tem o suficiente para nós, embora não vejamos de onde Ele tira tamanhas bênçãos.

Em segundo lugar, ela não achava possível que Ele pudesse provê-la com qualquer água melhor do que aquela que ela podia conseguir, mas Ele não podia: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço?”

A. Nós presumimos que a tradição seja verdadeira, que o próprio Jacó, e seus filhos, e gado, realmente beberam daquele poço. E podemos perceber, a partir disso:

(a) O poder e a providência de Deus, na continuidade das fontes de água de geração a geração, pela circulação constante dos rios, assim como o sangue circula no corpo (Eclesiastes 1.7). Talvez o fluxo e refluxo do mar, como as pulsações do coração, contribua com este processo de circulação.

(b) A simplicidade do patriarca Jacó. Sua bebida era água, e ele e seus filhos bebiam do mesmo poço com seu gado.

B. Ainda que se admita que isso seja verdade, ela estava errada em várias coisas. Como:

(a) Em chamar Jacó de pai. Que autoridade tinham os samaritanos para se considerarem da semente de Jacó? Eles eram descendentes daquela mistura de gente que o rei da Assíria havia instalado nas cidades da Samaria. O que eles têm a ver com Jacó então? Por serem eles os invasores das propriedades de Israel, e os injustos possuidores das terras de Israel, seriam eles então os herdeiros do sangue e da glória de Israel? Como eram absurdas essas pretensões!

(b) Ela está errada em reivindicar esse poço como um presente de Jacó, considerando que, ao dá-lo, ele não fez mais do que Moisés ao dar o maná, cap. 6.32. Mas, desse modo, tendemos a chamar os mensageiros das dádivas de Deus de doadores, olhando também assim para as mãos através das quais elas são passadas, a ponto de nos esquecermos da mão da qual elas vieram. Jacó deu o poço a seus filhos, não aos samaritanos. Do mesmo modo, os inimigos da igreja não só usurpam, mas monopolizam os privilégios da igreja.

(c) Ela estava errada ao considerar o Senhor Jesus Cristo como alguém que não fosse digno de ser comparado com seu pai Jacó. Uma veneração excessiva pelos costumes antigos faz com que as dádivas de Deus sejam desprezadas pelas pessoas boas dos nossos dias.