PSICOLOGIA ANALÍTICA

RESILIÊNCIA: ENTRE A EXPECTATIVA E A REALIDADE

Momentos difíceis, por piores que sejam, podem ser encarados por meio de inúmeras reações e maneiras de enfrentamento, com o objetivo de retomar o autodesenvolvimento a partir de novos aprendizados.

Resiliência - entre a xpectativa e a realidade

Ao longo da vida, muitas pessoas passam por situações que são consideradas adversas, como perda de entes queridos, adoecimentos, conflitos com pessoas que amamos, desemprego ou até a violência, seja ela psicológica ou física. Quando observamos os indivíduos nos momentos difíceis de suas vidas, é possível perceber que as reações e formas de enfrentamento são diversas, pois há os que conseguem retomar o autodesenvolvimento, a partir de novos aprendizados, e aqueles que não conseguem seguir adiante sem arrastar as correntes que os mantêm presos aos fantasmas de um passado que só traz dor e pesar. Esse mecanismo de enfrentamento das adversidades é o que se chama de resiliência.

A resiliência é um termo originado da Física e da Engenharia, que se refere à capacidade que um corpo apresenta de retornar à sua forma original após ter sido submetido a uma deformação elástica. Quando a Psicologia passou a empregar esse termo, ela o adaptou dizendo que a resiliência é a capacidade de uma pessoa desenvolver-se a partir da ressignificação de uma adversidade, ou seja, ela não voltaria ao estado original, mas minimizaria os danos causados pelo fato traumático.

Esse termo, ao ser interpretado e julgado pelo senso comum, passa a significar que se a pessoa não esquecer completamente os fatos ruins que aconteceram em sua vida, e passar a viver como se tudo fosse apenas aprendizado e a extrair somente as coisas positivas daquela experiência, ela não é resiliente e, provavelmente, está sofrendo porque não está se esforçando o suficiente para melhorar sua vida. Quem nunca ouviu esse tipo de cobrança? Todos, obviamente.

EXPERIÊNCIA PESSOAL

Aos 19 anos eu fui vítima de violência urbana, fui baleada durante um assalto, e esse fato me trouxe sequelas físicas, emocionais e psicológicas que viraram meu mundo de cabeça para baixo. Eu não sabia lidar com nenhuma daquelas emoções e sentimentos intensos que experimentava, tampouco conseguia organizar minhas ideias. Então, no auge do desespero, busquei o apoio das pessoas do meu convívio, tentando conversar com elas para dividir um pouco aquele peso que eu carregava, na esperança de que alguém me dissesse o que fazer com aquilo tudo. Sabia que ninguém resolveria os meus conflitos internos, queria apenas perceber empatia em quem me ouvia, saber que me entendiam, mas isso não aconteceu. Todas as vezes em que tentava contar o que ia dentro de mim, eu escutava que deveria esquecer tudo aquilo, que tinha que ser forte e não deveria me deixar abater, afinal tudo já havia passado e que agora era “bola pra frente”. Disseram-me também que ficar falando naquele assunto ou lembrando não ia me ajudar, pois o importante era que eu estava viva e que eu deveria agradecer a Deus e parar de me lamentar, já que muitas pessoas não tinham a mesma sorte que eu.

Aqueles conselhos, vindos de tantas pessoas, me fizeram questionar se eu não estava dando importância demais para um fato tão banal, pois, como parecia que só eu estava sofrendo com aquilo, realmente poderia ser besteira. Afinal, não tinha acontecido nada demais, eu só tinha levado um tiro em um assalto e ficado com sequelas. Isso acontece com milhares de pessoas por aí e o tempo todo, então, deve ser normal.

Eu me esforcei para pensar assim e seguir os conselhos que me eram dados, mas percebi que pensar dessa maneira era muito fácil na teoria, mas, na prática, superar e agir como se tudo fosse muito normal e estivesse tudo bem não eram nada fácil.

Mesmo concluindo isso, a exigência de estar sempre bem ainda me perseguia. Eu me esforçava para mostrar ao mundo que havia superado tudo e sempre que tocavam no assunto eu até fazia piadas. Isso era o que esperavam de mim, já que além de forte eu era estudante de Psicologia e, por isso, não tinha o direito de me deprimir ou de sentir raiva, pois que tipo de psicóloga eu seria se não superasse tudo com maestria?

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SIGNIFICADO DE SUPERAÇÃO

Na frente das pessoas, eu tentava corresponder a todas as expectativas, mas quando eu estava só comigo mesma percebia que a realidade não era igual. Mesmo assim, mentia para mim e escondia toda a minha dor, toda a minha confusão emocional, já que era menos difícil quando não tinha que olhar para elas. Afinal, como me diziam, eu era forte e isso significava que não podia lembrar ou me lamentar. Passei longos anos da minha vida agindo como queriam que eu fizesse, mas isso não funcionou, e a cada dia que passava eu estava mais mergulhada no inferno que habitava dentro de mim. E sem perceber passei apenas a existir, pois eu não vivia mais.

Até que um dia, no auge da solidão e do desespero de um caminhar sem rumo, eu olhei para mim, apática como um robô, e me perguntei o que eu estava fazendo comigo. Por que eu criticava tanto as pessoas que não me ajudavam se estava agindo como elas? Perguntei­ me o que eu estava fazendo para me ajudar e estarrecida percebi que não estava fazendo nada.

Aquele diálogo comigo mesma, de alguma forma, me ajudou a despertar. Então, a partir dali, eu prometi que não me abandonaria mais e que de algum jeito tudo ficaria bem novamente.

O primeiro e mais importante passo foi admitir que eu não estava bem, que precisava de ajuda profissional e que a minha dor não era banal como os otimistas de plantão sempre me fizeram acreditar. Então, comecei a fazer terapia e a me consultar com um psiquiatra. Claro que ouvi de muitas pessoas que eu não devia tomar o remédio que me foi prescrito, pois era para gente louca e eu não era assim. No início eu não contei para ninguém que estava fazendo o tratamento, pois sabia que as pessoas diriam que eu não era resiliente, e eu não queria perder essa imagem perante todos. Mas, com o passar do tempo, passei a não me importar com a opinião alheia. O processo de terapia foi muito importante, mas foi durante as formações de coaching que eu pude ressignificar o impacto que aquelas adversidades tiveram sobre mim, talvez porque naquele momento eu realmente estivesse disposta a olhar para dentro e encarar tudo o que eu estava escondendo. Além disso, durante a formação havia diversas pessoas passando por processos de autodescoberta e ressignificação, e ali tudo o que eu sentia não era banal. Talvez isso tenha me encorajado a me abrir. Durante aquele curso, quando a opinião dos outros sobre a minha saúde emocional e psicológica passou a não ter tanta importância, comecei a pensar em como havia me negligenciado para me sentir “normal” e, consequentemente, a me perguntar: Quem determinou que eu não posso ter raiva depois de ser baleada em um assalto? Quem disse que eu não posso ter medo ao sair na rua? Por que chorar é sinal de fraqueza? Por que as pessoas sempre dizem frases prontas de um otimismo que talvez nem elas sintam, como “veja o lado positivo”, “não fica assim” ou “pare de chorar e esqueça isso”? Por que não posso chorar até não ter mais vontade? Ou, ainda, quem determinou que só é resiliente aquele que não se deixa abater? Afinal, nunca li uma definição de resiliência que dissesse tratar -se de um rótulo para pessoas com capacidade de esquecimento e de embotamento afetivo.

Então, tomei uma decisão importante. Decidi aceitar que eu não estava bem, que as feridas causadas naquele episódio da minha vida ainda sangravam e que, por isso, eu poderia chorar o quanto quisesse, poderia sentir raiva, querer ficar sozinha por alguns instantes e me poupar de pessoas que, mesmo sem saber ou ter a intenção, banalizavam o meu sofrimento com o seu discurso. Tal como um mochileiro, que após uma longa caminhada precisa tirar a mochila das costas e descansar um pouco para depois ter energia para prosseguir, eu passei a fazer igual, e funcionou para mim.

Quando eu finalmente aceitei minhas limitações e tive a coragem de sentar lado a lado com meus fantasmas, olhar para eles para conhecê-los melhor e entender que fazem parte de mim e da minha história, uma vez que somos seres completos formados por luzes e sombras, eu me permiti aprender com todas as adversidades e me desenvolvi a partir delas. Depois do lançamento do meu livro, O Grito que Ninguém Ouviu, onde conto sobre a minha história com riqueza de detalhes, muitas pessoas me perguntam se eu superei tudo o que aconteceu comigo, e a minha resposta é que depende do que ela entende por superação. Se superação significar ter esquecido completamente, não sentir mais nada sobre esse episódio e viver como se nada tivesse acontecido, eu afirmo que não superei. Mas, se para você superação tiver o mesmo significado que tem para mim, que é se permitir sentir raiva ou tristeza e lembrar os fatos que causaram dor quando achar necessário, mas continuar aprendendo e vivendo sem deixar que os fantasmas a impeçam de crescer e seguir em frente, sim, eu superei.

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COACHING

O termo coaching indica uma atividade de formação pessoal em que um instrutor (coach) ajuda o seu cliente (coachee) a evoluir em alguma área da sua vida. Pode ser definido com uma soma de recursos que usa técnicas, ferramentas e conhecimentos de inúmeras áreas, como administração, gestão de pessoas, Psicologia, Neurociência, recursos humanos, planejamento estratégico, objetivando a conquista de resultados efetivos dentro de qualquer contexto profissional ou pessoal.

 PROCESSO DE RESSIGNIFICAÇÃO DA PSICÓLOGA

Algumas pessoas iniciam o curso de Psicologia acreditando que com isso estarão imunes a problemas psicológicos e que conseguirão passar ilesos pelas peças que a vida nos prega de vez em quando. Embora eu nunca tivesse essa expectativa, tudo o que vivi me faz acreditar que essa crença é uma ilusão.

Ser estudante de Psicologia e estudar muito não me livraram de um transtorno de estresse pós-traumático, e ser psicóloga não anulou meu sofrimento psíquico, pois o ser humano não é lógico, tão pouco previsível. Somos tão complexos que em muitos momentos somos incapazes de nos erguer sozinhos, e reconhecer que nossa condição humana implica na não existência da autossuficiência nos permite buscar ajuda.

Ser psicóloga não acelerou meu processo de ressignificação. No entanto, toda a minha história, principalmente os momentos que mais me fragilizaram, com certeza contribuiu com o meu constante desenvolvimento e crescimento profissional, pois acredito que a experiência de vida nos capacita muito mais do que a teoria.

 

AMANDA OLIVEIRA – é psicóloga, pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas pelo Mackenzie e extensão em Práticas Psicoeducativas em Instituições e Comunidades pela PUC COGEAE. Master coach formada pelo Instituto Brasileiro de Coaching, possui certificações Internacionais ECA (European Coaching Association). GCC (Global Coaching Community) e 10 (International Association of Coaching lnstitute. Autora do livro O Grito que Ninguém Ouviu (Editora Novo Século), e coautora dos livros Coaching nas Empresas Estratégias de Coaching para o Ambiente Corporativo e Porque Sou Coach? (ambos da Editora IBC).

OUTROS OLHARES

ACABOU A FACULDADE, E AGORA?

A busca pela primeira oportunidade no mercado de trabalho mescla a ansiedade por um futuro promissor e um período de muita tensão e incertezas.

Acabou a faculdade, e agora

Após investir de quatro a cinco anos nos bancos de uma faculdade o profissional deveria estar pronto para entrar no mercado de trabalho. Mas a realidade é bem diferente, pois o mercado, escasso pela atual crise, ainda exige experiência ou oferta de estágios com baixa ou nenhuma remuneração.

O Brasil está começando agora a entrar na tendência mundial de preparar um grande quantitativo de profissionais de nível tecnólogo para dar velocidade à entrada no mercado de trabalho de uma nova geração de trabalhadores. O que mais impulsiona as pessoas nessa direção é o curto tempo de formação e, aliado a isso, os salários crescentes dessa categoria.

Algumas ações podem ser úteis para um bom começo na área de interesse. Ter um currículo bem elaborado, por exemplo, seja virtual ou não, é a primeira impressão que o candidato deixa e pode abrir portas para uma entrevista pessoal. Os departamentos de RH dão mais valor para a desenvoltura do que enormes listas infindáveis de certificados que, muitas vezes, não possuem aderência com o cargo em questão.

A experiência conta, claro, mas é a capacidade de administração emocional que vai fazer toda diferença no final. Desde cedo, deve-se buscar investir nessa área de crescimento pessoal. A inteligência emocional aliada à capacidade de se comunicar claramente tornam, até mesmo o candidato com menor experiência, uma boa aquisição para as empresas.

Excelente estratégia para uma carreira promissora é buscar estágios o mais cedo possível. Muitas pessoas deixam para o final do curso, mas isso pode retardar ainda mais a formação e principalmente o aprendizado prático. Além de ser uma forma de criar networking, uma rede de contatos sólida dentro do seu ambiente profissional que pode ser útil no futuro. Um detalhe importante que os iniciantes no universo profissional ignoram é a dificuldade da mobilidade urbana e, quase sempre, buscam colocações em empresas que oferecem maiores salários, mesmo que elas estejam distantes de suas moradias. É um grande erro pensar que poderá se acostumar aos longos trajetos e ao desperdício de horas todos os dias dentro dos transportes públicos lotados. Ao final, o trabalho poderá ficar insuportável apenas porque esse item não foi computado com sua real importância. Sempre que fazemos processo de recrutamento e seleção alertamos os candidatos para a possibilidade de esgotamento físico e mental que isso pode acarretar e na possível perda de rendimento na instituição.

É importante ter critérios e analisar bem as empresas para as quais se pretende mandar o currículo. Hoje, pela internet, é possível descobrir muita coisa sobre as relações das empresas com os seus funcionários. Uma dica é acessar o site do Tribunal da Justiça do Trabalho do Estado que deseja e procurar pelo nome da empresa. Se houver muitas ocorrências é sinal de que não há uma boa afinidade entre a linha gestora e o corpo laboral.

Todo processo seletivo gera tensão. Afinal, o futuro do candidato pode estar em jogo. Uma preparação emocional pode ser bem-vinda para que não se cometam erros básicos, como:

LINGUAGEM CORPORAL: pela pressão em que o candidato normalmente se encontra, seu corpo pode trazer impressões prejudiciais. Algumas ações são avaliadas nesse sentido, tais como colocar as mãos nos bolsos ao falar, colocar a bolsa sobre as pernas cruzadas e balançar pés e mãos para lá e para cá. Tudo isso pode demonstrar insegurança, nervosismo e falta de equilíbrio emocional.

AUTENTICIDADE: o candidato não pode querer mostrar o que não é. Ele precisa passar confiança em suas capacidades, caso contrário, como a empresa empregadora poderá ter essa segurança no possível empregado ou colaborador? Devemos destacar que, do outro lado da mesa, o profissional do processo de seleção também está submetido a pressões e deve ter níveis de estresse consideráveis quando encontra um número razoável de bons profissionais. Fazer escolhas que podem alterar a vida de pessoas de forma radical não só aumenta a responsabilidade de extrair o melhor de cada um, mas também a certeza de estar selecionando o melhor para a empresa contratante. Uma escolha malfeita pode significar perdas para ambos os lados envolvidos. Em um processo recente tivemos mais de cinco candidatos aptos, plenamente, para uma vaga de supervisão. A escolha final sempre é do gestor, em sua última entrevista avaliativa. No entanto, cabe aos profissionais de seleção indicar para esse momento final somente aqueles que, sem sombra de dúvida, poderão ocupar o cargo com perfeita desenvoltura.

Nesses casos o foco vai se voltar para os elementos que podem desqualificar. Com os pontos fortes definidos, o selecionador deve procurar as áreas onde esse candidato pode apresentar fragilidades. Aqui, nesse estágio, os detalhes são valorizados para que se possam eliminar aqueles com menor potencial em comparação aos demais já qualificados.

Assim, nenhum detalhe deve ser considerado pequeno demais para não merecer investimento por parte daquele que deseja se colocar no mercado de trabalho. Ninguém nasce preparado, isso é um fato. Edificar um bom perfil profissional exige disciplina e investimento para estar preparado no momento em que tudo for posto à prova. Sorte só existe para quem a constrói.

 

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas; Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora.)

GESTÃO E CARREIRA

O BE-A-BA DAS REVOLUÇÕES

Apesar de muito se falar, pouca gente entende o que é a indústria 4.0. Vale conhecer o conceito para descobrir em que ponto a gestão de pessoas se encontra.

O be-a-ba das revoluções

De um lado, ouve-se que as empresas devem estar preparadas para a Indústria 4.0, aquela dominada por máquinas – robôs inteligentes capazes de assumir, inclusive, o trabalho dos “colarinhos-brancos”, executivos, médicos, advogados. Até o presidente Michel Temer anunciou recentemente um pacote de crédito de 10 bilhões de reais para estimular o uso da robótica, de inteligências artificiais e de impressoras 3D no setor manufatureiro.

De outro lado, contudo, pouca gente nem sequer sabe o que a Quarta Revolução significa na prática. Pior: mesmo ignorando o conceito, há quem acuse o RH de ser “apenas 3.0”. Vale, então, conhecer a linha evolutiva das revoluções industriais para descobrir em que ponto a gestão de pessoas se encontra – e poder ajudá-la a avançar para a próxima fase.

 FUNCIONÁRIOS ENFILEIRADOS

A administração foi concebida como ciência na Primeira Revolução Industrial, por volta de 1760 a 1850. Naquela época, tendo o carvão como fonte de energia, surgiram as máquinas a vapor e o primeiro transporte coletivo – a locomotiva. Os trabalhadores, que antes moravam nos campos e realizavam tarefas manuais, migraram para as cidades em busca de melhores oportunidades nas indústrias têxteis. A oferta era tamanha que bastava ao “recrutador” alinhar a mão de obra em frente à fábrica e escolher aqueles que lhe pareciam fortes e saudáveis, aptos a um ofício braçal.

A gestão de pessoas 1.0 consistia em manter os empregados sob forte vigilância para que desempenhassem suas atribuições direito. Depois do surgimento das legislações trabalhistas e dos sindicatos – devido a problemas com as condições insalubres das manufaturas e o pagamento de salários inferiores a mulheres e crianças (que causava desemprego entre homens adultos), o administrador passou também a fiscalizar o cumprimento das regras vigentes. “Infelizmente ainda hoje, muitos gestores só se preocupam com as questões elementares: admitir, controlar, assegurar o cumprimento da lei”, diz Sidinei Rocha de Oliveira, professor na Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “É um foco técnico, e não estratégico.”

Emoções reconhecidas com o surgimento do motor a combustão, marca da Segunda Revolução Industrial (de 1850 a 1945), evoluíram as fábricas e a gestão. Em 1911, o engenheiro mecânico Frederick Winslow Taylor lançou seu clássico Os Principias da Administração Cientifica, que defendia a separação de funcionários operacionais dos estratégicos – responsáveis por planejar os negócios. Surgia a hierarquia tal qual conhecemos hoje.

Três anos após a obra de Taylor, Henry Ford adotou linhas de montagem em sua fábrica de automóveis nos Estados Unidos, com cada célula produzindo uma peça diferente, que, somadas, gerariam um carro.

Ao final dessa era, o departamento de recursos humanos começou a lidar com modificações profundas nas demandas dos empregados. Teve de reconhecer, por exemplo, as necessidades psicológicas e emocionais dos indivíduos. Liberdade, flexibilidade, valorização da criatividade e diversidade ganharam peso nos contratos de trabalho, enquanto, a partir de 1945, se desenrolava a Terceira Revolução Industrial, com o surgimento dos primeiros computadores e equipamentos de telecomunicações. No Brasil, o RH 3.O floresceu na década de 90 com o aumento das multinacionais no país, que trouxeram a cultura de desenvolvimento do empregado, de gestão por competências e de remuneração variável. Para muitos especialistas, a área de recursos humanos permanece estagnada nessa etapa e ainda não avançou para a Indústria 4.0.

ENTRE EXTREMOS

O princípio da Quarta Revolução Industrial, fase com maior interação homem-máquina, foi cunhado por Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, e amplamente discutido durante o encontro de líderes em 2016. De lá para cá, empresários e empregados debatem sobre o futuro do trabalho – e temem por sua empregabilidade.

Para acompanhar as rápidas transformações no mercado e na sociedade, gestores de RH apostam em software de people analytic e de inteligência artificial. Mas as companhias preparadas para se valer dessas tecnologias ainda são minoria. A crise econômica de 2014 a 2016, e que ainda reverbera efeitos sobre os negócios, atrasou os departamentos de pessoal que buscavam se renovar; fez até com que alguns voltassem no tempo – aumentando o controle e a fiscalização dos funcionários. “Se as empresas precisaram cortar gastos e investimentos em diversas áreas, quem dirá no RH”, diz Roberto Martins, diretor da consultoria PwC.

Frente à Indústria 4.0, cabe ao líder de recursos humanos rever as práticas de recrutamento e seleção – e também de treinamento, de avaliação de desempenho, de movimentação de pessoas, de remuneração, de liderança. “Algumas organizações são referência no processo, conhecem as ferramentas mais modernas e ditam tendências. Os exemplos mais óbvios são as organizações que nasceram digitais, com seus escritórios abertos e horários negociáveis”, diz Cláudio Carvajal, coordenador acadêmico dos cursos de administração de empresas e de gestão de tecnologia da informação da Fiap. Entretanto, na média, ele diz, o RH está atrasado. “Outros executivos certamente admiram tais práticas, mas ainda não conseguiram adotar essas ideias ousadas porque modificar uma cultura arraigada por séculos exige bastante esforço.”

Só que o progresso não espera ninguém. Ao longo da história, os líderes de recursos humanos caminharam a reboque das transformações tecnológicas e econômicas, sendo pressionados por essas mudanças a dar uma resposta às aspirações dos profissionais e das empresas. Agora, os executivos precisam se antecipar às próximas revoluções. “Mais do que discutir se o RH é 3.0 ou 4.0, é fundamental colocar o funcionário realmente no centro da abordagem estratégica da gestão de pessoas, como se fosse seu cliente interno, para entender de que maneira ele vai sustentar o crescimento futuro da organização”, diz Martins, da PwC. A dica, nessa hora, é: cuidado para não perder o próximo bonde – ele pode passar na velocidade da luz.

O be-a-ba das revoluções 2

 

O be-a-ba das revoluções 3 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE I

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

Temos aqui um relato do bem que Cristo fez em Samaria, quando passou por aquela região a caminho da Galileia. Os samaritanos, tanto em termos de sangue quanto de religião, eram judeus mestiços, os descendentes daquelas colônias que o rei da Assíria estabeleceu ali depois do cativeiro das dez tribos, com os quais os pobres da terra foram deixados para trás, e aos quais muito outros judeus, mais tarde, se incorporaram. Eles adoravam apenas o Deus de Israel, a quem edificaram um templo no monte Gerizim, que competia com o de Jerusalém. Havia uma grande inimizade entre os samaritanos e os judeus. Os samaritanos não receberiam Cristo quando vissem que Ele ia para Jerusalém (Lucas 9.53). Os judeus pensavam que não poderiam lhe conferir uma reputação pior do que dizer: “Ele é um samaritano”. Quando os judeus eram prósperos, os samaritanos reivindicaram parentesco com eles (Esdras 4.2), mas, quando os judeus estavam necessitados, eles se classificavam como medos e persas. Observe:

 

I – A entrada de Cristo em Samaria. Ele ordenou a seus discípulos que não entrassem em qualquer das cidades dos samaritanos (Mateus 10.5), isto é, não pregassem o Evangelho, ou operassem milagres. Aqui o Senhor não pregou publicamente, nem operou qualquer milagre, pois sua atenção estava voltada “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Os benefícios que Ele aqui concedeu foram casuais, eram só migalhas do pão dos filhos que casualmente caíram da mesa do Mestre.

1. Seu caminho da Judéia para a Galileia passava pelo território da Samaria (v. 4): “Era-lhe necessário passar por Samaria”. Não havia nenhum outro caminho, a menos que Ele desse a volta pelo outro lado do Jordão, que ficava muito longe. Os maus e os profanos estão, no momento, tão mesclados com o Israel de Deus, que, a menos que saiamos do mundo, não podemos evitar tê-los como companhia, 1 Coríntios 5.10. Temos, então, a necessidade da armadura ou da justiça na mão direita e na esquerda, para que não os provoquemos, nem nos contaminemos com eles. Nós não devemos ir a lugares de tentação, senão quando somos obrigados. E não devemos residir neles, mas passar rapidamente por eles. Alguns pensam que Cristo é obrigado a passar por Samaria porque tinha uma boa obra para realizar ali, uma pobre mulher a ser convertida, uma ovelha perdida a ser procurada e salva. Esse era o trabalho para o qual seu coração estava voltado, e a razão pela qual Ele era obrigado a seguir esse caminho. Foi uma alegria para Samaria estar situada no caminho de Cristo, pois isso deu a Ele uma oportunidade de visitá-la. “Passando eu por ti…disse-te: …vive”, Ezequiel 16.6.

2. Seu local de descanso acabou sendo uma cidade de Samaria. Observe:

(1) O lugar descrito. Era chamado Sicar, provavelmente o mesmo que Siquém, um lugar a respeito do qual lemos muito no Antigo Testamento. Os nomes dos lugares são frequentemente alterados à medida que o tempo passa. Siquém forneceu os primeiros prosélitos que entraram na igreja de Israel (Genesis 34.24), e agora é o primeiro lugar onde o Evangelho é pregado fora da comunidade de Israel. Assim o Dr. Lightfoot considera. Este estudioso também entende que o “vale de Acor”, que foi dado “por porta de esperança”, a esperança para os pobres gentios, margeava essa cidade, Oséias 2.15. Abimeleque foi feito rei aqui. Este era o lugar do trono de Jeroboão. Mas o evangelista, ao falar sobre a história do lugar, chama a atenção para as propriedades que Jacó tivera ali, o que honrava mais este lugar do que suas cabeças coroadas.

[1] Aqui ficava a terra de Jacó, “aquela parte do campo que Jacó” deu para seu filho José, cujos ossos foram nela sepultados, Gênesis 48.22; Josué 24.32. Est e fato é provavelmente mencionado para sugerir que quando Cristo repousou perto daqui, aproveitou a oportunidade de estar na terra que Jacó deu a José para meditar sobre a boa reputação que os antigos obtiveram pela fé. Jerônimo escolheu morar na terra de Canaã para que, vendo os locais onde os fatos bíblicos aconteceram, pusesse se sentir ainda mais comovido com as histórias das Escrituras.

[2] Aqui estava o poço de Jacó, que ele cavou, ou pelo menos usou para si próprio e para sua família. Nós não encontramos nenhuma menção desse poço no Antigo Testamento, mas diz a tradição que essa era a “fonte de Jacó”.

(2) A postura do nosso Senhor Jesus nesse lugar: “Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Aqui, vemos nosso Senhor Jesus:

[1] Trabalhando sob a fadiga habitual dos viajantes. Ele estava cansado devido à sua viagem. Embora ainda fosse somente a hora sexta, e Ele tivesse cumprido apenas metade do seu dia de viagem. ainda assim Ele estava cansado. Ou porque essa era a hora sexta, o período mais quente do dia. Aqui vemos, em primeiro lugar, que Ele era um verdadeiro homem, e sujeito às fraquezas comuns da natureza humana. O trabalho enfadonho e penoso veio com o pecado (Genesis 3.19), e, consequentemente, Cristo, tendo se tornado maldição por nós, submeteu-se a ele. Em segundo lugar, que Ele era um homem pobre, de outra forma Ele poderia ter viajado a cavalo ou em uma carruagem. Através desse exemplo de pobreza e penitência, Ele se humilhou por nós, pois Ele realizou todas as suas viagens a pé. Enquanto os servos andavam a cavalo, príncipes “andavam a pé como servos sobre a terra”, Eclesiastes 10.7. Quando somos transportados com comodidade, devemos pensar no cansaço de nosso Mestre. Em terceiro lugar, parecia que Ele não passava de um homem frágil e de constituição pouco robusta; parecia que seus discípulos não estavam tão cansados quanto Ele, pois eles entraram na cidade sem qualquer dificuldade, enquanto seu Mestre se sentou, e não pôde dar mais um passo adiante. Muitos dos melhores físicos humanos são os mais sensíveis à fadiga, e são os que menos a suportam.

[2] Nós o temos aqui entregando-se ao alívio habitual dos viajantes: “Cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Em primeiro lugar, Ele se sentou junto à fonte, um lugar desconfortável, frio e duro. O Senhor não teve nenhuma almofada, nenhuma rede onde repousar, mas usou o que estava à mão para nos ensinar a não sermos demasiadamente exigentes e desejosos das comodidades desta vida, mas nos contentarmos com as coisas simples. Em segundo lugar, Ele se sentou em uma posição desconfortável; sentou-se de maneira descuidada; ou, ainda, Ele se sentou da mesma maneira que as pessoas que estão cansadas de viajar estão acostumadas a se sentar.