ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE III

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

2. Aqui João Batista promove o nome de Cristo, e instrui seus discípulos a respeito dele, para que, em lugar de lamentar que tantos vêm até Ele, eles mesmos possam ir até Ele.

(1) Ele os instrui a respeito da dignidade da pessoa de Cristo (v. 31): ”Aquele que vem de cima”, que “vem do céu, é sobre todos”. Aqui:

[1] Ele considera a origem divina de Jesus, o fato de que Ele veio do alto, do céu, o que indica não somente sua origem divina, mas também sua natureza divina. Ele tinha uma existência anterior à sua concepção, uma existência celestial. Ninguém, senão aquele que veio do céu, estava capacitado para nos mostrar a vontade do céu, ou o caminho para o céu. Quando Deus desejou salvar o homem, Ele enviou alguém do alto, seu próprio Filho, Jesus Cristo.

[2] Disso, ele deduz a autoridade soberana de Jesus: Ele é sobre todos, sobre todas as coisas e todas as pessoas, Deus sobre todos, bendito para sempre. É uma presunção ousada disputar com Ele a precedência. Quando falamos das honras do Senhor Jesus, nós descobrimos que elas transcendem toda a concepção e expressão, e podemos dizer apenas isto: Ele é sobre todos. Sobre João Batista, está escrito: “Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (Mateus 11.11). Mas pelo fato de Cristo ter vindo do céu, Ele tinha uma dignidade sobre si, da qual não se despiu ao se tornar carne. Ele ainda é sobre todos. Isto João exemplifica ainda mais, pela insignificância daqueles que desejam competir com Ele: ”Aquele que vem da terra é da terra”. Aquele que tem sua origem na terra obtém da terra seu alimento, fala da terra e sua preocupação é com as coisas da terra. Observe que, em primeiro lugar, o homem surge da terra, não somente Adão, no princípio, mas nós também ainda somos formados do lodo, Jó 33.6. Considere a rocha de onde todos fomos cortados. Em segundo lugar, a constituição do homem é, consequentemente, terrena. Não apenas seu corpo é frágil e mortal, mas sua alma é corrupta e carnal, e sua tendência e inclinação são em direção às coisas ter renas. Os profetas e apóstolos eram feitos do mesmo molde que os outros homens. Eles eram apenas vasos terrenos, embora tivessem um rico tesouro guardado em si mesmos. E será que eles se levantariam como rivais de Cristo? E até admissível que os cacos contendam com os cacos da terra, mas é inadmissível que contendam com aquele que veio do céu.

(2) Ele os instrui a respeito da excelência e certeza da doutrina de Cristo. Seus discípulos estavam descontentes com o fato de que a pregação de Cristo era mais admirada, e atraía mais gente, do que a de João Batista. Mas ele lhes diz que havia uma boa razão para isto. Pois:

[1] Ele, de sua parte, falava da terra, e também o fazem todos os que são da terra. Os profetas eram homens, e falavam como homens. Por si mesmos, eles poderiam falar somente da terra, 2 Coríntios 3.5. A pregação dos profetas e a de João Batista era inferior e trivial, em comparação com a pregação de Cristo. Como o céu está nas alturas, acima da terra, assim os pensamentos de Cristo estavam acima dos deles. Por intermédio deles, Deus falava na terra, mas em Cristo, Ele falava do céu.

[2] Mas aquele que vem do céu não está somente na sua pessoa, mas também na sua doutrina, acima de todos os profetas que tinham vivido na terra. Ninguém ensina como Ele. A doutrina ele Cristo aqui nos é recomendada:

Em primeiro lugar; como infalivelmente segura e certa, e devendo ser recebida de maneira correspondente (v. 32): “Aquilo que ele viu e ouviu, isso testifica”. Veja aqui:

1. O conhecimento divino de Cristo. Ele testificava somente o que tinha visto e ouvido, aquilo de que estava perfeitamente informado e com o que estava completamente familiarizado. Aquilo que Ele revelava sobre a natureza divina e sobre o mundo invisível era o que Ele tinha visto. Aquilo que Ele revelava da mente de Deus era o que Ele tinha ouvido diretamente dele, e não em segunda mão. Os profetas testemunhavam o que lhes era dado a conhecer, em sonhos e visões, pela mediação dos anjos, mas não o que eles tinham visto e ouvido. João era a voz do que clama, que dizia: ”Abram caminho para a testemunha, e façam silêncio enquanto a acusação é feita”, mas agora ele deixa que a testemunha apresente pessoalmente seu testemunho, e que o juiz faça pessoalmente a acusação. O Evangelho de Cristo não é uma opinião duvidosa, como uma hipótese ou uma nova noção em filosofia, em que todos têm liberdade de crer ou não, mas é uma revelação do pensamento de Deus, que é verdadeiramente eterno em si mesmo, e de interesse infinito para nós.

2. Sua graça e bondade divinas: aquilo que Ele tinha visto e ouvido, Ele se alegrava em nos dar a conhecer, porque Ele sabia que isto nos interessava intimamente. Paulo não pôde dar testemunho daquilo que tinha visto e ouvido no terceiro céu (2 Coríntios 12.4), mas Cristo sabia como transmitir o que tinha visto e ouvido. A pregação de Cristo aqui é chamada de seu testemunho, para indicar:

(1) Sua evidência convincente. Não era transmitido como notícias, por meio de boatos, mas era testemunhado como uma evidência apresentada em tribunal, com grande atenção e exatidão.

(2) A seriedade amorosa com que o testemunho é dado: era dado com preocupação e persistência, como em Atos 18.5.

A partir da certeza da doutrina de Cristo, João aproveita:

[1] Para lamentar a infidelidade da maioria dos homens: embora Ele testemunhe aquilo que é infalivelmente verdadeiro, ninguém aceita seu testemunho, isto é, muito poucos, quase ninguém, em comparação com aqueles que o rejeitam. Eles não o recebem, não o ouvem, não prestam atenção a Ele, nem lhe dão crédito. Ele fala deste fato não somente como um motivo de espanto (Quem deu crédito à nossa pregação? Como é estúpida e tola a maior parte da humanidade, que grandes inimigos são de si mesmos!, mas como um motivo de tristeza. Os discípulos de João lamentavam-se por todos os homens irem a Cristo (v. 26). Eles julgavam que Ele tinha seguidores em excesso. Mas João, por sua vez, lamenta o fato de nem todos estarem seguindo o Senhor Jesus. Ele pensava que os seguidores de Cristo eram poucos. Observe que a incredulidade dos pecadores é a tristeza dos santos. Por este motivo, o apóstolo Paulo sentia grande tristeza, Romanos 9.2.

[2] Ele aproveita a ocasião para elogiar a fé do remanescente escolhido (v. 33): “Aquele que aceitou o seu testemunho”, e mesmo que poucos, havia alguns que o aceitavam, “esse confirmou que Deus é verdadeiro”. Deus é verdadeiro, mesmo que nós não confirmemos isto. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Esta verdade não precisa da nossa fé como seu sustento, mas, pela fé, trazemos honra e justiça a nós mesmos ao endossarmos esta verdade, e assim Deus se considera honrado. As promessas de Deus são todas sim e amém. Pela fé, nós damos nosso amém a elas, como em Apocalipse 22.20. Observe que aquele que recebe o testemunho de Cristo aceita não somente a verdade de Cristo, mas a verdade de Deus, pois seu nome é a Palavra de Deus. Os mandamentos de Deus e o testemunho de Cristo são reunidos, Apocalipse 12.17. Ao crer em Cristo, nós confirmamos, em primeiro lugar, que Deus é fiel a todas as promessas que Ele fez a respeito de Cristo, as quais Ele fez por intermédio da boca de todos os seus santos profetas. O que Ele prometeu aos nossos pais foi completamente cumprido, e nem um jota ou til caiu por terra, Lucas 1.70ss.; Atos 13.32,33. Em segundo lugar, que Ele é fiel a todas as promessas que fez em Cristo. Nós confiamos nossas almas à sinceridade de Deus, e nos sentimos satisfeitos porque Ele é fiel. Nós nos dispomos a lidar com Ele em confiança, e a abandonar tudo neste mundo em troca de uma felicidade que está fora do alcance da nossa visão. Com isto, nós honramos enormemente a fidelidade de Deus. Àquele a quem demos crédito, também damos honra.

Em segundo lugar, a doutrina de Cristo nos é recomendada como uma doutrina divina, não sua, mas daquele que o enviou (v. 34): ” Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus”, as que Ele foi enviado para falar; e foi capacitado para falar, “pois não lhe dá Deus o Espírito por medida”. Os profetas eram como mensageiros que traziam cartas do céu, mas Cristo veio como um embaixador e lida conosco como um embaixador, pois:

1. Ele falava as palavras de Deus, e nada do que Ele dizia tinha característica de fraqueza humana. Tanto o conteúdo quanto a linguagem eram divinos. Ele provou que era enviado de Deus (cap. 3.2), e, portanto, suas palavras devem ser recebidas como as palavras de Deus. Segundo esta regra, nós podemos provar os espíritos: aqueles que falam como oráculos de Deus, e profetizam de acordo com a proporção da fé, devem ser recebidos como enviados de Deus.

2. Ele falava como nenhum outro profeta, pois Deus não lhe dava o Espírito por medida. Ninguém pode falar palavras de Deus sem o Espírito de Deus, 1 Coríntios 2.10,11. Os profetas do Antigo Testamento tinham o Espírito, e em porções diferentes, 2 Reis 2.9,10. Mas enquanto Deus lhes dava o Espírito por medida (1 Coríntios 12.4), Ele o dava a Cristo sem medida. Toda a plenitude estava nele, a plenitude da Divindade, uma plenitude ilimitada. O Espírito não estava em Cristo como em um vaso, mas como em uma fonte, como em um oceano sem fundo. “Os profetas que tinham o Espírito de uma maneira limitada, somente com respeito a alguma revelação em particular, às vezes falavam de si mesmos. Mas aquele que tem o Espírito sempre residente em si, sem restrições, sempre falou as palavras de Deus”.

(3) Ele os instrui a respeito do poder e da autoridade com que Ele está investido, o que lhe dá a proeminência sobre todos os demais, e um nome muito mais excelente que o deles.

[1] Ele é o Filho amado do Pai (v. 35): “O Pai ama o Filho”. Os profetas eram fiéis como servos, mas Cristo, como um Filho. Eles eram empregados como servos, mas Cristo era amado como um Filho, sendo sempre “as suas delícias”, Provérbios 8.30. O Pai comprazia-se nele. Ele não somente o amou, mas Ele o ama. Ele continua com seu amor por Ele, mesmo no seu estado de humilhação, Ele não o ama menos, pela sua pobreza ou pelos seus sofrimentos.

[2] Ele é o Senhor de tudo. O Pai, como evidência do seu amor por Ele, todas as coisas entregou nas suas mãos. O amor é generoso. O Pai tinha tal complacência e tal confiança nele, que o constituiu como o grande feudatário, a quem foi confiada a humanidade. Tendo dado a Ele o Espírito sem medida, Ele lhe deu todas as coisas, pois Ele estava qualificado para ser o Mestre e Administrador de tudo. Observe que é para a honra de Cristo e o indescritível consolo de todos os cristãos, que o Pai colocou todas as coisas nas mãos do Mediador. Em primeiro lugar, todo o poder. Isto está explicado, Mateus 28.18. Todas as obras da criação foram colocadas sob seus pés, todos os assuntos da redenção foram colocados em suas mãos. Ele é o Senhor de tudo. Os anjos são seus servos, os demônios são seus prisioneiros. Ele tem poder sobre toda a carne, os gentios lhe são dados como sua herança. O reino da providência está entregue à sua administração. Ele tem o poder para definir os termos do concerto de paz como o grande plenipotenciário, para governar sua igreja como o grande legislador para dispensar favores como o grande doador de bênçãos, e para convocar todos a prestar contas como o grande Juiz. Tanto o cetro de ouro quando a vara de ferro foram colocadas nas suas mãos. Em segundo lugar, toda a graça é colocada nas suas mãos como o canal para transmissão. Todas as coisas, todas aquelas boas coisas que Deus pretendia dar aos filhos dos homens, a vida eterna e todos os seus preliminares. Nós não somos dignos de que o Pai coloque estas coisas em nossas mãos, pois nós nos tornamos os filhos da sua ira. Por isto, Ele indicou o Filho do seu amor para ser nosso fiduciário. E as coisas que Ele pretendia para nós, Ele coloca nas mãos do seu Filho, que é digno, e que merece tanto as honras para si mesmo quanto os favores para nós. Elas são colocadas em suas mãos, para serem dadas a nós por Ele. É um grande incentivo para a fé, que as riquezas do novo concerto sejam depositadas em mãos tão seguras, tão gentis, tão boas, as mãos daquele que as comprou para nós, e nos comprou para si mesmo. O Senhor Jesus Cristo é aquele que pode guardar tudo aquilo que Deus, o Pai, e os crentes concordaram em lhe entregar.

 

[3] Ele é o objeto daquela fé que se torna a grande condição da felicidade eterna, e nisto Ele tem a proeminência sobre todos os demais: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”, v. 36. Aqui temos a aplicação do que João tinha dito a respeito de Cristo e da sua doutrina, e a conclusão de todo o assunto. Se Deus colocou esta honra sobre o Filho, nós devemos, pela fé, honrá-lo. Assim como Deus oferece e entrega boas coisas a nós, pelo testemunho de Jesus Cristo, cuja palavra é o veículo dos favores divinos, também nós recebemos e participamos destes favores, crendo no testemunho e recebendo a palavra como verdadeira e boa. Esta maneira de receber responde adequadamente àquela maneira de dar. Aqui temos o resumo daquele Evangelho que deverá ser pregado a toda criatura, Marcos 16.16. Aqui temos:

Em primeiro lugar, a condição abençoada de todos os verdadeiros cristãos: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”. Observe:

1. É característico de todo cristão verdadeiro”. O que ele creia no Filho de Deus. Não somente creia nas suas palavras, creia que o que Ele diz é verdade, mas creia nele, consinta com Ele e confie nele. O benefício do verdadeiro cristianismo é nada menos que a vida eterna. Esta é a bênção que Cristo veio comprar para nós, e nos entregou: Ela não pode ser menos do que a felicidade que uma alma imortal sente na presença de um Deus imortal, e na comunhão com Ele.

2. Os verdadeiros crentes, mesmo agora, têm a vida eterna. Eles não somente a terão no futuro, mas a têm agora. Pois:

(1) Eles têm uma grande segurança quanto a esta preciosa promessa. Esta ação é selada e entregue a eles, e assim eles a possuem. Ela é colocada nas mãos do seu guardião, e assim eles a têm, embora seu uso ainda não seja transferido em forma de posse. Eles têm o Filho de Deus, e nele, a vida; e o Espírito de Deus é o penhor desta vida.

(2) Eles têm o privilégio de saboreá-la de antemão, na presente comunhão com Deus e nos sinais do seu amor. A glória que desfrutamos de antemão pode ser considerada uma grande graça.

Em segundo lugar, a condição vil e miserável dos incrédulos: ”Aquele que não crê no Filho” está condenado. A expressão inclui tanto a incredulidade como a desobediência. Um incrédulo é aquele que não dá crédito à doutrina de Cristo, nem está em sujeição ao governo de Cristo. Assim sendo, aqueles que não forem ensinados nem governados por Cristo:

1. Não podem ser felizes neste mundo, nem no vindouro: ele “não verá a vida”, aquela vida que Cristo veio para dar. Ele não se regozijará com isto, ele não terá nenhuma perspectiva confortável disto, nunca trará dentro de si a compreensão disto, exceto para agravar sua perda disto.

2. Não podem ser menos miseráveis: ”A ira de Deus sobre ele permanece”, sobre o incrédulo. Ele não apenas está sob a ira de Deus, que é tão seguramente a morte da alma quanto seu favor é a vida dela, mas a ira permanece sobre ele. Toda a ira que ele tem acarretado sobre si mesmo, produzida pela violação da lei, se não for removida pela graça do evangelho, está prestes a vir sobre ele. A ira de Deus, em razão de suas transgressões presentes, inflama-se e repousa sobre ele. Dívidas antigas permanecem não liquidadas, e novas dívidas são acrescentadas. Alguma coisa é feita a cada dia para encher a medida, e nada é feito para esvaziá-la. Deste modo, a ira de Deus permanece, pois é acumulada para o dia da ira.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.