PSICOLOGIA ANALÍTICA

TOC EM CRIANÇAS

Comportamentos repetitivos fazem parte também do universo infantil e adolescente, trazendo limitações que prejudicam as relações sociais desde muito cedo.

TOC em crianças

Em crianças e adolescentes, rituais, medos, comportamentos repetitivos e eventuais fobias fazem parte do desenvolvimento normal e devem ser diferenciados dos sintomas do TOC, como é o caso das crianças pequenas, que apresentam rituais nos horários de dormir (uma determinada maneira para adormecer), comer (dificuldade em misturar as comidas) e demorar no banho. Esses comportamentos tendem a ser mais frequentes entre os 2 e 4 anos de idade. As crianças de 3 a 5 anos costumam brincar de imitar comportamentos de outras pessoas (mímica), repetir as mesmas brincadeiras, músicas e até assistir aos mesmos filmes diversas vezes. Na idade escolar, os jogos passam a ter regras rígidas, que são discutidas e negociadas entre os participantes, e há muito interesse por coleções (figurinhas, modelos de carros, aviões, bonecos, filmes, etc.). Na adolescência, é muito comum ter grande interesse por artistas, celebridades, estilos musicais/ banda de música, bem como coleção de objetos e lembranças de um ídolo. Todos estes comportamentos permanecem durante uma determinada fase do desenvolvimento e não interferem nas atividades diárias nem prejudicam o desempenho escolar.

Já o transtorno obsessivo­ compulsivo (TOC) é uma doença mental grave, que acomete principalmente indivíduos jovens no final da adolescência, embora muitas vezes os primeiros sintomas se manifestem na infância. Seu curso geralmente é crônico e, caso não seja tratado, se mantém por toda a vida, raramente desaparecendo por completo. Caracteriza-se pela presença de pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes (obsessões) e comportamentos ou atos mentais repetitivos (compulsões) realizados, na maior parte das vezes, com o intuito de diminuir o desconforto que acompanha as obsessões.

Nas crianças e adolescentes, os sintomas mais comuns são: medo de contaminação seguido de compulsão por limpeza e lavagem (evitar utilizar o banheiro da escola ou da casa de um amigo, não dividir o lanche por considerar nojento/sujo, fazer lavagens excessivas e ritualizadas das mãos para ter certeza de que estão limpas); dúvidas seguidas de verificações ou de perguntas repetidas, ou necessidade de confirmações (checagens para confirmar se os materiais estão na mochila, ligar seguidas vezes para se certificar de que nada de horrível aconteceu com um familiar; verificar a porta da casa ou do carro para garantir que esteja trancada), sendo seguidos, muitas vezes, por evitações (não usar o banheiro da escola ou não chegar perto dos colegas). Também são comuns preocupações com simetria, alinhamento ou exatidão (precisar organizar por tamanho ou categoria os brinquedos, sensação de que as coisas não estão no devido lugar/ordem) ou simplesmente refazer várias vezes para que fique perfeito ou completo (refazer os temas de casa, passar a limpo várias vezes as anotações de aula ou os cadernos, reler inúmeras vezes uma página ou um parágrafo para ter certeza de que entendeu tudo ou de que a letra está perfeita). Podem estar presentes pensamentos de conteúdo indesejado e repugnante (medo de xingar outras pessoas ou de dizer involuntariamente algo obsceno, medo de ser responsável por desgraças, como provocar um desastre de carro ou queda de avião por ter pensado ou sonhado). Outro sintoma com comorbidade com o TOC é a acumulação compulsiva (grande dificuldade em descartar brinquedos quebrados ou estragados, objetos sem valor como etiquetas, roupas que não servem, cadernos e folhas velhas, assim como embalagens vazias).

Também são comuns nas crianças e adolescentes as compulsões mentais: “atos” mentais como contar, repetir palavras, anular um pensamento “ruim” por um pensamento “bom”, com a finalidade de reduzir a ansiedade e o desconforto. Como são realizados em silêncio, muitas vezes passam despercebidos pelos familiares e demais pessoas.

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ROTINA ALTERADA

A rotina diária da criança e do adolescente com TOC pode ser muito alterada pela doença. E eles próprios percebem seus comportamentos como estranhos e diferentes do comportamento dos seus colegas. Sentem vergonha e, muitas vezes, precisam disfarçar ou esconder-se para realizar seus rituais compulsivos.

O TOC causa sofrimento significativo, interfere no rendimento escolar, nas relações sociais e no funcionamento familiar. Os sintomas podem ser muito graves e incapacitantes, sendo acompanhados de medos acentuados, impedindo, por exemplo, a criança ou o adolescente de frequentarem a escola ou de conviverem com os colegas.

Esse transtorno acomete 2% a 3% dos indivíduos, o que seria em média 1 em cada 40 indivíduos, sendo que os familiares de 1° grau de portadores do TOC têm quatro vezes mais chances de desenvolverem a doença. Um estudo com 2.323 adolescentes de 14 a 17 anos, alunos do ensino médio, encontrou uma prevalência do TOC atual de 3,3%. É considerado uma doença multifatorial, que envolve questões genéticas e ambientais entre os fatores de risco. Os pacientes pediátricos apresentam geralmente pouco insight sobre a natureza de suas obsessões, que está associada à dificuldade de expressão verbal, o que torna o diagnóstico mais difícil, e são mais propensos a terem comorbidades como tiques, depressão maior, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e transtorno desafiador opositivo.

Um estudo multicêntrico no Brasil com 842 pacientes clínicos verificou que o início dos sintomas ocorreu um pouco mais cedo nos homens, em média aos 12,4 anos, e um pouco mais tarde em mulheres, aos 12,7 anos.

Outro estudo, realizado em Porto Alegre com adolescentes do ensino médio, verificou que apenas 9,3% dos que foram diagnosticados como tendo TOC sabiam da doença, e dentre estes apenas 6,7% haviam realizado algum tipo de tratamento. Ou seja, mais de 90% desconheciam o fato de terem TOC. É importante ressaltar que o diagnóstico e o tratamento precoces são essenciais para impedir o agravamento dos sintomas e aumentar as chances de uma remissão completa. Mesmo sendo altamente prevalente em crianças e adolescentes, o TOC, muitas vezes, não é percebido pela família, o que acarreta demora pela busca de tratamento. Um dos problemas para a identificação precoce do TOC se dá pela dificuldade de perceber os sintomas e descobrir quando já está interferindo gravemente na rotina da criança. Por esse motivo, poucos familiares conseguem descrever o momento exato em que a criança apresentou os primeiros sintomas. Além disso, para os pais é difícil separar o que é um comportamento normal do que é excessivo, ou quando os sintomas já estão graves (quando o filho leva muito tempo para se vestir, demora várias horas no banho, não quer mais dormir sozinho ou repete inúmeras vezes a mesma pergunta).

 ENTREVISTAS

A avaliação normalmente é feita em uma ou mais entrevistas, nas quais além da obtenção de informações são aplicadas escalas, como é o caso da Children’s Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale. No atendimento de crianças, a primeira entrevista costuma ser apenas com os pais (para colher o maior número de informações) e depois com a criança, quando, através do uso de desenhos, brinquedos e questionamentos adequados para a faixa etária, bem como por meio de material lúdico disponível, busca-se conhecer os sintomas (inclusive possíveis sintomas não percebidos pelos pais). Em pré-adolescentes que têm boa comunicação ou adolescentes, a entrevista inicial pode ser feita com eles, e num segundo momento com os pais, que por sua vez podem trazer informações mais precisas sobre o início dos sintomas, a interferência nos estudos, nas rotinas da família e na vida social do filho.

Os familiares são de extrema importância na vida da criança, e inevitavelmente sofrem e se envolvem nos sintomas. É fundamental que o terapeuta reserve momentos individuais dos pais e em conjunto (pais e paciente) para apoiá-la e passar as orientações adequadas ao longo do tratamento. Esse envolvimento e a participação dos membros da família nos rituais compulsivos, bem como a modificação no cotidiano da família em decorrência dos sintomas do TOC, chamam-se acomodação familiar (AF). Com alta prevalência encontrada em nosso meio, de 98,2%, ocorrendo em algum grau em praticamente todas as famílias.

No tratamento do TOC em crianças e adolescentes, tanto a terapia cognitivo-comportamental (TCC) quanto os psicofármacos inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) e a clomipramina são efetivos em reduzir os sintomas. De modo geral, recomenda-se combinar as duas modalidades de tratamento. A eficácia/efetividade da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para o TOC nessa faixa etária foi verificada em ensaios clínicos, numa revisão sistemática e em uma metanálise.

A TCC é a primeira escolha de tratamento em casos de crianças e adolescentes com TOC com sintomatologia de leve a moderada, ao passo que a farmacoterapia, preferencialmente associada à TCC, é a abordagem terapêutica de escolha nos casos de intensidade moderada a grave (<23 na CY-BOCS; 6 o u 7 na CGI) ou quando existe depressão associada. As técnicas de exposição e prevenção de resposta (ou de rituais) (EPR) são as estratégias cruciais para a maioria dos modelos propostos, embora muitos modelos, às vezes, acrescentem também estratégias cognitivas, especialmente quando os pacientes são adolescentes.

É fundamental que cada vez mais pessoas tenham conhecimento sobre esse transtorno, pois ele pode ter um impacto profundo na vida de crianças e adolescentes que estão em pleno desenvolvimento. A partir da experiência de uma década de pesquisa no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), é possível observar que apesar de muitos pacientes buscarem atendimento somente na idade adulta, relatavam ter seus sintomas iniciados ainda na infância ou adolescência. Isso reforça a importância de cada vez mais divulgar esse transtorno, pois o tratamento precoce pode evitar grande sofrimento ao indivíduo que, muitas vezes, sofre anos com os prejuízos causados pela doença sem saber que existe tratamento eficaz, que pode eliminar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

BASE DE ESTUDO

Por entender a importância da prevenção dos transtornos mentais e do tratamento precoce e conhecer a falta de materiais destinados a essa faixa etária, as autoras elaboraram um livro infantil com o objetivo de psicoeducar crianças/adolescentes e seus familiares, de forma clara e lúdica, sobre o que é o TOC e auxiliar na identificação dos sintomas. O livro TOC: Aprendendo Sobre os Pensamentos Desagradáveis e os Comportamentos Repetitivos também pode ser excelente ferramenta para ser utilizada pelos profissionais de saúde mental para psicoeducar o paciente quanto ao transtorno e ao tratamento na abordagem cognitivo-comportamental, pois, além de apresentar os principais tipos de sintomas comuns em crianças com TOC, ensina a maneira mais assertiva de responder aos sintomas, o que será trabalhado ao longo do tratamento.

É fundamental que cada vez mais as pessoas e os profissionais divulguem sobre o TOC, pois trata-se de um transtorno com ampla diversidade de sintomas, que causa prejuízos ao indivíduo e seus familiares, pois através do tratamento adequado pode-se reduzir e até eliminar por completo os sintomas do paciente, restabelecendo sua qualidade de vida.

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REVISÃO DOS PENSAMENTOS NEGATIVOS

A terapia cognitivo-comportamental, conhecida por TCC, é uma linha da psicoterapia proposta e desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Aaron Beck, que preconiza a revisão dos pensamentos negativos por intermédio das informações obtidas ao longo da vida. O método reúne um conjunto de técnicas e estratégias terapêuticas. com o objetivo de transformar padrões de pensamento. Essa forma de terapia é extremamente efetiva no tratamento com crianças e adolescentes.

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CONFLITOS INCOSCIENTES

As técnicas de exposição e prevenção de resposta (EPR) foram pioneiras na abordagem psicológica no tratamento dos sintomas do TOC, que demonstraram ser muito efetivas. Começaram nos anos 60, devido à insatisfação com os resultados da Psicanálise e da psicoterapia de orientação psicanalítica, que não eram eficazes o suficiente, além de serem tratamentos muito longos. Contrariando a teoria psicodinâmica, que considerava aneurose obsessiva” consequência de conflitos inconscientes, esse modelo defendia que medos e ansiedade eram resultado de aprendizagens.

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PRESENÇA DE TDO

O conceito do chamado transtorno desafiador opositivo (TDO) pode ser definido como um padrão persistente de comportamentos hostis, desobedientes, negativos e desafiadores, como o próprio nome diz. Essas formas de conduta são observadas nas relações sociais da criança com adultos e figuras que representam autoridade de maneira geral, como pais, tios, professores e avós. Seus principais sintomas são os seguintes: discussões com adultos, recusa a obedecer regras, perda frequente de paciência, perturbação e implicância com as pessoas, podendo responsabilizá-las por seus maus comportamentos ou pelas próprias atitudes erradas. Os sintomas surgem nos mais variados ambientes. Contudo, em casa e na escola podem ser mais bem percebidos e, inclusive, diagnosticados. Esse quadro pode representar prejuízos significativos na vida social, escolar e ocupacional da criança ou adolescente. Quando não tratado, o TDO pode evoluir para o transtorno de conduta na adolescência, que tem como características graves violações dos direitos dos outros e das normas sociais.

 

CRISTIANE FLORES BORTONCELLO – é psicóloga (Ulbra), terapeuta com certificação pela FBTC, membro fundadora e presidente da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul (ATC- RS), gestão (2016-2019), mestre em Psiquiatria (UFRGS) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (lnfapa). Tem formação em Terapia de Casal (lnTCC.), em Terapia do Esquema (WP), treinamento intensivo em Terapia Comportamental Dialética. É membro do tecDbt – time de estudos e consultoria em DBT, professora do curso de especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência (lnTCC). Psicóloga dos grupos de tratamento para o TOC do Hospital de Clínicas de Porto Alegre de 2007 a 2014.

JULIANA BRAGA GOMES – é psicóloga e pedagoga formada pela PUC-RS, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (lnfapa), mestre em Ciências Médicas, Psiquiatria, doutora em Psiquiatria e Ciências do Comportamento – UFRGS: pesquisadora do Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtorno do Pânico e psicóloga dos grupos de tratamento para o TOC do Hospital de Clínicas de Porto Alegre de 2007 a 2014. Sócia fundadora e vice-presidente da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul (ATC-RS).

OUTROS OLHARES

COMO A PINTURA ALIVIA O ALZHEIMER

A melhora na auto- estima, na atenção e o resgate de memórias estão entre os benefícios observados quando os pacientes são estimulados a usar pincel e tinta. Nas telas, eles registram parte do que não conseguem mais expressar por causa da doença.

Como a pintura alivia o alzheimer

Conforme o Alzheimer avança, o indivíduo se desconecta de sua realidade interna e externa. Do lado de dentro, aos poucos perde a lembrança do que fez minutos atrás, do que aconteceu semanas antes, até se esquecer de quem foi e de quem é. Do lado de fora, as dificuldades espelham o caos interno. Há limitações para reconhecer objetos, pessoas, as palavras começam a fugir e chega o momento em que elas não saem mais. A comunicação com o mundo ao redor cessa. Caracterizada pela morte progressiva de neurônios, a enfermidade não tem cura, mas alivio. Parte vem de remédios que retardam sua progressão. Outra está surgindo da arte.

Recentemente, o artista americano Neil Kerman, que desenvolve um trabalho usando a pintura como instrumento de terapia, esteve em São Paulo para mostrar resultados de sua experiência. Eles foram estampados na exposição Alzheimer’s Awareness a influência da arte e das cores como estímulo no tratamento da doença, e em atividades realizadas em centros de atendimento aos pacientes. “Minhas pinturas são repletas de cores vivas. Aos pacientes, o amarelo pode produzir excitação e o verde ou vermelho, prazer e felicidade”, disse o pintor. Sua visita à capital paulista foi organizada pela New York Contemporary Art Society com o apoio da Sinagoga Mishcan Menachen. A exposição dos quadros vai até dia 26, na Saphira e Ventura Galley.

Quando pincel, tinta e tela são colocados à frente do paciente, o impacto é igualmente interessante: a atenção se concentra, o esforço em executar o movimento desejado aumenta e lembranças brotam aqui e ali. Alguns podem precisar de ajuda extra no manejo do pincel, outros para encontrar a tinta. Mas todos de alguma forma conseguem expressar o que sentem e surgem referências guardadas em memórias que o cérebro afetado pela doença não consegue mais acessar.

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ESTIMULO INTELECTUAL

Não há até agora um trabalho científico que retrate o que acontece nos circuitos neuronais nesses momentos. O que se deduz é que a atividade aciona estruturas como o hipocampo, onde ocorre parte do processamento da memória, e também estimule a formação de caminhos cerebrais alternativos que cumpram funções que os originais não fazem mais. Por enquanto, o que se sabe com certeza é que os benefícios são inquestionáveis em relação a progressos na auto- estima, comportamento social e memória.

Uma das investigações científicas mais recentes foi feita pela dupla sueca Boo Johansson e Emelie Miller, da Universidade de Gotemburgo. Depois de acompanharem a evolução de portadores estimulados a pintar, elas constataram que o recurso é usado com prazer pelos pacientes e, por meio dele, são obtidas vitórias na contenção da doença. “Qualquer tipo de estimulo intelectual ajuda. A arte entra no mesmo caminho”, afirma o neurologista Rubens Gagliardi, chefe adjunto da Clínica Neurológica da Santa Casa de São Paulo e coordenador dos Departamentos Científicos da Academia Brasileira de Neurologia.

Atividades que contemplam a pintura fazem parte do cotidiano de instituições que são referência no tratamento em todo o mundo. No Brasil, a estratégia também está sendo adotada em diversos centros, apresentando os mesmos benefícios. Porém, por aqui a pintura e toda forma de arte ainda vem sendo usada em intensidade menor do que a ideal.

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TRAÇODE AGONIA

A análise da obra de grandes artistas ajuda a ciência a entender melhor como se dá a evolução da doença.

Uma das mais estudadas é a do pintor americano William Utermohlen (1933-2007). Após seu diagnóstico em 1995, ele criou auto- retratos por meio dos quais enxerga-se de que a maneira a enfermidade afetou sua habilidade técnica e tornou urgente sua necessidade de comunicação. Antes marcada por quadros que retratavam relações interpessoais em espaços ricamente ilustrados, a arte de Utermohlen deu espaço à expressão de sentimentos que revelam raiva, solidão. As cores ganharam tons sombrios. As pinceladas ficaram mais marcadas. É cedo para dizer de que maneira as informações podem ser usadas para refinar o diagnóstico – um ponto ainda desafiador -. mas a tormenta de Utermohlen, agora sob investigação científica, certamente ajudará na luta contra a doença.

GESTÃO E CARREIRA

A UBERIZAÇÃO DO TRABALHO NO SÉCULO XXI

Tarefas sob demanda ganham espaço em um mercado transformado pela automação e pela inteligência artificial.

A uberização do trabalho no século XXI

Na primeira metade do século XXI, o mundo do trabalho está em ebulição. Os impactos das transformações provocadas pela automação acentuada e pela inteligência artificial ainda são difíceis de mensurar – as previsões vão de cortes de 10% a 40% dos empregos atuais. Uma situação, porém, já faz parte do presente: as tarefas sob demanda, tendência já batizada de uberização do trabalho. A carreira dentro de uma única empresa ficou para trás, e as funções de média gerência estão desaparecendo num processo considerado sem volta. O designer Wallace Vianna, de 50 anos, viveu 13 anos sob o regime da carteira de trabalho, nascido com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com horário fixo, férias e 13° salário. Atualmente, é empregado de si mesmo, administra quatro contratos simultaneamente, convivendo com oscilação de renda de um salário mínimo (R$ 954) a cinco salários (R$ 4.770).

“Sou técnico, publicitário, contato, cuido da parte financeira e administrativa. Costumo oferecer um leque de opções para o cliente, como web designer, professor de design cubro férias de profissionais da área. O trabalho pode ser com carteira assinada ou não. Depende do que aparecer”, afirmou o profissional, formado em design pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Nesse novo mundo do trabalho, os empregos típicos da classe média vão diminuir, dizem analistas. Até mesmo profissões com status de doutor, como a de advogado ou médico, vão sofrer baques na empregabilidade. Leitura de peças processuais e análise de exames clínicos se darão com base em gigantescos bancos de dados, o big data, eliminando uma etapa da preparação do processo na Justiça e no diagnóstico do paciente.

“Está se criando um fosso entre os altamente qualificados e os de baixa qualificação. Cada vez se necessita menos dos médios qualificados. Onde havia gerentes que nos atendiam em agências de turismo e companhias aéreas, há sistemas. O trabalho das 9 horas às 18 horas tende a desaparecer. Vai ser controlado à distância, numa contratação mais precária, em prazos menores e com menos segurança”, disse o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli, professor de Direito do Trabalho e de Direito e Sociedade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Atualmente, no Brasil, de um total de 8,2 milhões de empresas, 4,2 milhões não têm empregados. No setor de serviços, onde o trabalho de autônomos é mais intenso, esses negócios individuais chegam a representar 59,2%. Nesses casos, as relações de trabalho viraram relações empresariais.

Maria Luíza Abreu, como Vianna, trabalha dessa forma. Deixou o emprego de professora de geografia em 2013 e mudou de profissão. Aos 31 anos, dedica-se à produção de vídeos. Não tem horário fixo ou salário, mas prefere assim:

Segundo Nubler, uma questão crítica é como os ganhos de produtividade das inovações serão distribuídos. Isso será determinante para que haja geração de vagas em outras atividades a fim de compensar a perda em setores mais tradicionais. Ela prevê que o compartilhamento de ganhos com trabalhadores e consumidores aumentará a demanda por produtos domésticos, e o apoio a empreendedores criativos ajudará a abrir novas empresas.

O declínio do tempo de trabalho combinado com maior renda aumentará a demanda por bens e serviços de lazer. O investimento de ganhos de produtividade em políticas de educação, treinamento, ciência e tecnologia criará novas capacidades na força de trabalho e, assim, permitirá que as empresas entrem em novas indústrias. As novas tecnologias, robôs, algoritmos e softwares precisam ser desenvolvidos, projetados, produzidos e mantidos, e também a coleta e o uso de big data criarão novas ocupações e empregos.

A economista da OIT critica as escolhas econômicas do Brasil, que poderiam atrasar a inserção do país na cadeia global de tecnologia. “A estrutura de exportação do Brasil saiu dos produtos industriais e manufaturados, e a diversidade da economia, assim como sua complexidade, diminuiu.” Para Nubler, essas escolhas tiveram importantes efeitos no longo prazo, pois destruíram as oportunidades para a força de trabalho aprender e adquirir competências tecnológicas.

Em vez disso, a base de conhecimento do país tornou-se menos diversificada, e a sociedade perdeu capacidade de inovar e transformar sua economia, acredita Nubler. Capacidades de inovação limitadas impediram o Brasil de aproveitar as oportunidades que surgiram com a demanda global por eletrônicos durante os anos 2000 e 2010. Embora a demanda e a produção de eletrônicos estivessem crescendo globalmente, o Brasil não conseguiu atrair uma parcela significativa dessa indústria.

“Em vez de se concentrar apenas no sistema escolar formal, o Brasil precisa promover o aprendizado em diferentes lugares: escolas, universidades, centros de treinamento, sistemas de produção, indústrias, cadeias de valor globais, joint ventures, redes profissionais, redes sociais como comunidades e famílias. Em segundo lugar, o país precisa desenvolver uma visão de longo prazo da transformação produtiva e projetar um pacote abrangente de políticas públicas.” No mundo, discutem-se renda mínima universal e taxação de robôs. Enquanto não há políticas públicas no Brasil para minimizar os efeitos da automação no mercado de trabalho, Washington Costa deixa seu emprego de técnico de radiologia, contratado por meio de uma cooperativa, e continua a jornada como motorista de Uber no restante da semana. Com superior incompleto, consegue ganhar entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, adaptando-se às novas formas de trabalho: “Entrei para o Uber com objetivo de juntar dinheiro para concluir o curso mais avançado de radiologia, mas a crise está dificultando.”

O PERFIL DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Número de habitantes –  1998 – 158.232.252

                                                2018 – 209.024.648

Com 60 anos ou mais –   1998 –  8,8 %

                                              2018 – 14,6%

 Cor ou raça branca – 1998 –  54%

                                         2018 – 43,6%

 Cor ou raça preta – 1998 – 5,7%

                                      2018 – 8 6 %

Cor ou raça parda – 1998 – 39,5%

                                      2018 – 46,8%

 Sexo feminino – 1998 – 49%

                                2018 – 48,4%

 Sexo masculino – 1998 – 51%

                                   2018 – 51,6%

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE III

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

2. Aqui João Batista promove o nome de Cristo, e instrui seus discípulos a respeito dele, para que, em lugar de lamentar que tantos vêm até Ele, eles mesmos possam ir até Ele.

(1) Ele os instrui a respeito da dignidade da pessoa de Cristo (v. 31): ”Aquele que vem de cima”, que “vem do céu, é sobre todos”. Aqui:

[1] Ele considera a origem divina de Jesus, o fato de que Ele veio do alto, do céu, o que indica não somente sua origem divina, mas também sua natureza divina. Ele tinha uma existência anterior à sua concepção, uma existência celestial. Ninguém, senão aquele que veio do céu, estava capacitado para nos mostrar a vontade do céu, ou o caminho para o céu. Quando Deus desejou salvar o homem, Ele enviou alguém do alto, seu próprio Filho, Jesus Cristo.

[2] Disso, ele deduz a autoridade soberana de Jesus: Ele é sobre todos, sobre todas as coisas e todas as pessoas, Deus sobre todos, bendito para sempre. É uma presunção ousada disputar com Ele a precedência. Quando falamos das honras do Senhor Jesus, nós descobrimos que elas transcendem toda a concepção e expressão, e podemos dizer apenas isto: Ele é sobre todos. Sobre João Batista, está escrito: “Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (Mateus 11.11). Mas pelo fato de Cristo ter vindo do céu, Ele tinha uma dignidade sobre si, da qual não se despiu ao se tornar carne. Ele ainda é sobre todos. Isto João exemplifica ainda mais, pela insignificância daqueles que desejam competir com Ele: ”Aquele que vem da terra é da terra”. Aquele que tem sua origem na terra obtém da terra seu alimento, fala da terra e sua preocupação é com as coisas da terra. Observe que, em primeiro lugar, o homem surge da terra, não somente Adão, no princípio, mas nós também ainda somos formados do lodo, Jó 33.6. Considere a rocha de onde todos fomos cortados. Em segundo lugar, a constituição do homem é, consequentemente, terrena. Não apenas seu corpo é frágil e mortal, mas sua alma é corrupta e carnal, e sua tendência e inclinação são em direção às coisas ter renas. Os profetas e apóstolos eram feitos do mesmo molde que os outros homens. Eles eram apenas vasos terrenos, embora tivessem um rico tesouro guardado em si mesmos. E será que eles se levantariam como rivais de Cristo? E até admissível que os cacos contendam com os cacos da terra, mas é inadmissível que contendam com aquele que veio do céu.

(2) Ele os instrui a respeito da excelência e certeza da doutrina de Cristo. Seus discípulos estavam descontentes com o fato de que a pregação de Cristo era mais admirada, e atraía mais gente, do que a de João Batista. Mas ele lhes diz que havia uma boa razão para isto. Pois:

[1] Ele, de sua parte, falava da terra, e também o fazem todos os que são da terra. Os profetas eram homens, e falavam como homens. Por si mesmos, eles poderiam falar somente da terra, 2 Coríntios 3.5. A pregação dos profetas e a de João Batista era inferior e trivial, em comparação com a pregação de Cristo. Como o céu está nas alturas, acima da terra, assim os pensamentos de Cristo estavam acima dos deles. Por intermédio deles, Deus falava na terra, mas em Cristo, Ele falava do céu.

[2] Mas aquele que vem do céu não está somente na sua pessoa, mas também na sua doutrina, acima de todos os profetas que tinham vivido na terra. Ninguém ensina como Ele. A doutrina ele Cristo aqui nos é recomendada:

Em primeiro lugar; como infalivelmente segura e certa, e devendo ser recebida de maneira correspondente (v. 32): “Aquilo que ele viu e ouviu, isso testifica”. Veja aqui:

1. O conhecimento divino de Cristo. Ele testificava somente o que tinha visto e ouvido, aquilo de que estava perfeitamente informado e com o que estava completamente familiarizado. Aquilo que Ele revelava sobre a natureza divina e sobre o mundo invisível era o que Ele tinha visto. Aquilo que Ele revelava da mente de Deus era o que Ele tinha ouvido diretamente dele, e não em segunda mão. Os profetas testemunhavam o que lhes era dado a conhecer, em sonhos e visões, pela mediação dos anjos, mas não o que eles tinham visto e ouvido. João era a voz do que clama, que dizia: ”Abram caminho para a testemunha, e façam silêncio enquanto a acusação é feita”, mas agora ele deixa que a testemunha apresente pessoalmente seu testemunho, e que o juiz faça pessoalmente a acusação. O Evangelho de Cristo não é uma opinião duvidosa, como uma hipótese ou uma nova noção em filosofia, em que todos têm liberdade de crer ou não, mas é uma revelação do pensamento de Deus, que é verdadeiramente eterno em si mesmo, e de interesse infinito para nós.

2. Sua graça e bondade divinas: aquilo que Ele tinha visto e ouvido, Ele se alegrava em nos dar a conhecer, porque Ele sabia que isto nos interessava intimamente. Paulo não pôde dar testemunho daquilo que tinha visto e ouvido no terceiro céu (2 Coríntios 12.4), mas Cristo sabia como transmitir o que tinha visto e ouvido. A pregação de Cristo aqui é chamada de seu testemunho, para indicar:

(1) Sua evidência convincente. Não era transmitido como notícias, por meio de boatos, mas era testemunhado como uma evidência apresentada em tribunal, com grande atenção e exatidão.

(2) A seriedade amorosa com que o testemunho é dado: era dado com preocupação e persistência, como em Atos 18.5.

A partir da certeza da doutrina de Cristo, João aproveita:

[1] Para lamentar a infidelidade da maioria dos homens: embora Ele testemunhe aquilo que é infalivelmente verdadeiro, ninguém aceita seu testemunho, isto é, muito poucos, quase ninguém, em comparação com aqueles que o rejeitam. Eles não o recebem, não o ouvem, não prestam atenção a Ele, nem lhe dão crédito. Ele fala deste fato não somente como um motivo de espanto (Quem deu crédito à nossa pregação? Como é estúpida e tola a maior parte da humanidade, que grandes inimigos são de si mesmos!, mas como um motivo de tristeza. Os discípulos de João lamentavam-se por todos os homens irem a Cristo (v. 26). Eles julgavam que Ele tinha seguidores em excesso. Mas João, por sua vez, lamenta o fato de nem todos estarem seguindo o Senhor Jesus. Ele pensava que os seguidores de Cristo eram poucos. Observe que a incredulidade dos pecadores é a tristeza dos santos. Por este motivo, o apóstolo Paulo sentia grande tristeza, Romanos 9.2.

[2] Ele aproveita a ocasião para elogiar a fé do remanescente escolhido (v. 33): “Aquele que aceitou o seu testemunho”, e mesmo que poucos, havia alguns que o aceitavam, “esse confirmou que Deus é verdadeiro”. Deus é verdadeiro, mesmo que nós não confirmemos isto. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Esta verdade não precisa da nossa fé como seu sustento, mas, pela fé, trazemos honra e justiça a nós mesmos ao endossarmos esta verdade, e assim Deus se considera honrado. As promessas de Deus são todas sim e amém. Pela fé, nós damos nosso amém a elas, como em Apocalipse 22.20. Observe que aquele que recebe o testemunho de Cristo aceita não somente a verdade de Cristo, mas a verdade de Deus, pois seu nome é a Palavra de Deus. Os mandamentos de Deus e o testemunho de Cristo são reunidos, Apocalipse 12.17. Ao crer em Cristo, nós confirmamos, em primeiro lugar, que Deus é fiel a todas as promessas que Ele fez a respeito de Cristo, as quais Ele fez por intermédio da boca de todos os seus santos profetas. O que Ele prometeu aos nossos pais foi completamente cumprido, e nem um jota ou til caiu por terra, Lucas 1.70ss.; Atos 13.32,33. Em segundo lugar, que Ele é fiel a todas as promessas que fez em Cristo. Nós confiamos nossas almas à sinceridade de Deus, e nos sentimos satisfeitos porque Ele é fiel. Nós nos dispomos a lidar com Ele em confiança, e a abandonar tudo neste mundo em troca de uma felicidade que está fora do alcance da nossa visão. Com isto, nós honramos enormemente a fidelidade de Deus. Àquele a quem demos crédito, também damos honra.

Em segundo lugar, a doutrina de Cristo nos é recomendada como uma doutrina divina, não sua, mas daquele que o enviou (v. 34): ” Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus”, as que Ele foi enviado para falar; e foi capacitado para falar, “pois não lhe dá Deus o Espírito por medida”. Os profetas eram como mensageiros que traziam cartas do céu, mas Cristo veio como um embaixador e lida conosco como um embaixador, pois:

1. Ele falava as palavras de Deus, e nada do que Ele dizia tinha característica de fraqueza humana. Tanto o conteúdo quanto a linguagem eram divinos. Ele provou que era enviado de Deus (cap. 3.2), e, portanto, suas palavras devem ser recebidas como as palavras de Deus. Segundo esta regra, nós podemos provar os espíritos: aqueles que falam como oráculos de Deus, e profetizam de acordo com a proporção da fé, devem ser recebidos como enviados de Deus.

2. Ele falava como nenhum outro profeta, pois Deus não lhe dava o Espírito por medida. Ninguém pode falar palavras de Deus sem o Espírito de Deus, 1 Coríntios 2.10,11. Os profetas do Antigo Testamento tinham o Espírito, e em porções diferentes, 2 Reis 2.9,10. Mas enquanto Deus lhes dava o Espírito por medida (1 Coríntios 12.4), Ele o dava a Cristo sem medida. Toda a plenitude estava nele, a plenitude da Divindade, uma plenitude ilimitada. O Espírito não estava em Cristo como em um vaso, mas como em uma fonte, como em um oceano sem fundo. “Os profetas que tinham o Espírito de uma maneira limitada, somente com respeito a alguma revelação em particular, às vezes falavam de si mesmos. Mas aquele que tem o Espírito sempre residente em si, sem restrições, sempre falou as palavras de Deus”.

(3) Ele os instrui a respeito do poder e da autoridade com que Ele está investido, o que lhe dá a proeminência sobre todos os demais, e um nome muito mais excelente que o deles.

[1] Ele é o Filho amado do Pai (v. 35): “O Pai ama o Filho”. Os profetas eram fiéis como servos, mas Cristo, como um Filho. Eles eram empregados como servos, mas Cristo era amado como um Filho, sendo sempre “as suas delícias”, Provérbios 8.30. O Pai comprazia-se nele. Ele não somente o amou, mas Ele o ama. Ele continua com seu amor por Ele, mesmo no seu estado de humilhação, Ele não o ama menos, pela sua pobreza ou pelos seus sofrimentos.

[2] Ele é o Senhor de tudo. O Pai, como evidência do seu amor por Ele, todas as coisas entregou nas suas mãos. O amor é generoso. O Pai tinha tal complacência e tal confiança nele, que o constituiu como o grande feudatário, a quem foi confiada a humanidade. Tendo dado a Ele o Espírito sem medida, Ele lhe deu todas as coisas, pois Ele estava qualificado para ser o Mestre e Administrador de tudo. Observe que é para a honra de Cristo e o indescritível consolo de todos os cristãos, que o Pai colocou todas as coisas nas mãos do Mediador. Em primeiro lugar, todo o poder. Isto está explicado, Mateus 28.18. Todas as obras da criação foram colocadas sob seus pés, todos os assuntos da redenção foram colocados em suas mãos. Ele é o Senhor de tudo. Os anjos são seus servos, os demônios são seus prisioneiros. Ele tem poder sobre toda a carne, os gentios lhe são dados como sua herança. O reino da providência está entregue à sua administração. Ele tem o poder para definir os termos do concerto de paz como o grande plenipotenciário, para governar sua igreja como o grande legislador para dispensar favores como o grande doador de bênçãos, e para convocar todos a prestar contas como o grande Juiz. Tanto o cetro de ouro quando a vara de ferro foram colocadas nas suas mãos. Em segundo lugar, toda a graça é colocada nas suas mãos como o canal para transmissão. Todas as coisas, todas aquelas boas coisas que Deus pretendia dar aos filhos dos homens, a vida eterna e todos os seus preliminares. Nós não somos dignos de que o Pai coloque estas coisas em nossas mãos, pois nós nos tornamos os filhos da sua ira. Por isto, Ele indicou o Filho do seu amor para ser nosso fiduciário. E as coisas que Ele pretendia para nós, Ele coloca nas mãos do seu Filho, que é digno, e que merece tanto as honras para si mesmo quanto os favores para nós. Elas são colocadas em suas mãos, para serem dadas a nós por Ele. É um grande incentivo para a fé, que as riquezas do novo concerto sejam depositadas em mãos tão seguras, tão gentis, tão boas, as mãos daquele que as comprou para nós, e nos comprou para si mesmo. O Senhor Jesus Cristo é aquele que pode guardar tudo aquilo que Deus, o Pai, e os crentes concordaram em lhe entregar.

 

[3] Ele é o objeto daquela fé que se torna a grande condição da felicidade eterna, e nisto Ele tem a proeminência sobre todos os demais: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”, v. 36. Aqui temos a aplicação do que João tinha dito a respeito de Cristo e da sua doutrina, e a conclusão de todo o assunto. Se Deus colocou esta honra sobre o Filho, nós devemos, pela fé, honrá-lo. Assim como Deus oferece e entrega boas coisas a nós, pelo testemunho de Jesus Cristo, cuja palavra é o veículo dos favores divinos, também nós recebemos e participamos destes favores, crendo no testemunho e recebendo a palavra como verdadeira e boa. Esta maneira de receber responde adequadamente àquela maneira de dar. Aqui temos o resumo daquele Evangelho que deverá ser pregado a toda criatura, Marcos 16.16. Aqui temos:

Em primeiro lugar, a condição abençoada de todos os verdadeiros cristãos: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”. Observe:

1. É característico de todo cristão verdadeiro”. O que ele creia no Filho de Deus. Não somente creia nas suas palavras, creia que o que Ele diz é verdade, mas creia nele, consinta com Ele e confie nele. O benefício do verdadeiro cristianismo é nada menos que a vida eterna. Esta é a bênção que Cristo veio comprar para nós, e nos entregou: Ela não pode ser menos do que a felicidade que uma alma imortal sente na presença de um Deus imortal, e na comunhão com Ele.

2. Os verdadeiros crentes, mesmo agora, têm a vida eterna. Eles não somente a terão no futuro, mas a têm agora. Pois:

(1) Eles têm uma grande segurança quanto a esta preciosa promessa. Esta ação é selada e entregue a eles, e assim eles a possuem. Ela é colocada nas mãos do seu guardião, e assim eles a têm, embora seu uso ainda não seja transferido em forma de posse. Eles têm o Filho de Deus, e nele, a vida; e o Espírito de Deus é o penhor desta vida.

(2) Eles têm o privilégio de saboreá-la de antemão, na presente comunhão com Deus e nos sinais do seu amor. A glória que desfrutamos de antemão pode ser considerada uma grande graça.

Em segundo lugar, a condição vil e miserável dos incrédulos: ”Aquele que não crê no Filho” está condenado. A expressão inclui tanto a incredulidade como a desobediência. Um incrédulo é aquele que não dá crédito à doutrina de Cristo, nem está em sujeição ao governo de Cristo. Assim sendo, aqueles que não forem ensinados nem governados por Cristo:

1. Não podem ser felizes neste mundo, nem no vindouro: ele “não verá a vida”, aquela vida que Cristo veio para dar. Ele não se regozijará com isto, ele não terá nenhuma perspectiva confortável disto, nunca trará dentro de si a compreensão disto, exceto para agravar sua perda disto.

2. Não podem ser menos miseráveis: ”A ira de Deus sobre ele permanece”, sobre o incrédulo. Ele não apenas está sob a ira de Deus, que é tão seguramente a morte da alma quanto seu favor é a vida dela, mas a ira permanece sobre ele. Toda a ira que ele tem acarretado sobre si mesmo, produzida pela violação da lei, se não for removida pela graça do evangelho, está prestes a vir sobre ele. A ira de Deus, em razão de suas transgressões presentes, inflama-se e repousa sobre ele. Dívidas antigas permanecem não liquidadas, e novas dívidas são acrescentadas. Alguma coisa é feita a cada dia para encher a medida, e nada é feito para esvaziá-la. Deste modo, a ira de Deus permanece, pois é acumulada para o dia da ira.