PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ ESTÁ AQUI?

Tragados pela velocidade do mundo atual, encontramos cada vez mais dificuldades de nos focarmos no momento presente. A saída pode estar em tarefas simples, tais como escovar os dentes.

Você está aqui

A pergunta pode parecer estranha. Mas eu mesma tenho que me concentrar para ter a certeza de estar aqui, escrevendo esta coluna. Pior, me lembro de uma tarefa importante, paro e vou até ela. No caminho encontro aquele papelzinho com o telefone de uma paciente nova que aguarda um retorno meu para marcarmos uma consulta para amanhã. Não consigo retornar a ela porque aguardo uma confirmação de outro paciente sem a qual não consigo saber ao certo quais horários disponíveis terei para marcar a nova consulta. Volto a este texto. Releio a primeira frase. “Caramba, aquele paciente já devia ter me retornado!”. Pego o celular, entro no WhatsApp a fim de checar as mensagens. Não. Ele ainda não respondeu. Volto ao texto. Escrevo mais uma frase. O celular treme. Mensagem nova.

Finalmente o retomo que eu esperava. Volto ao texto com a urgência de uma colunista que está com seu prazo de entrega estourando. Releio as linhas até então produzidas e sou assaltada por um pensamento que diz: “Não posso me esquecer de dar um retorno àquela paciente nova!”. É quando a conclusão surreal se faz óbvia. Não, definitivamente não estou aqui. O que significa que estou escrevendo este texto como se estivesse em outra dimensão. Ou em várias delas, pra ser mais precisa.

É por isso que a pergunta expressa no título desta coluna se faz tão pertinente. Principalmente porque você, caro leitor, muito provavelmente ao longo deste parágrafo esteve tão ausente quanto eu. O que torna nosso encontro quase que um verdadeiro milagre! Não me lembro de, nas deliciosas aulas de Teoria Literária, ter lido algum artigo que falasse sobre a qualidade do texto que consegue resgatar o leitor de outras dimensões. Talvez porque, naquela época, tudo se resumisse à qualidade de um texto capaz de, simplesmente, prender a atenção desse leitor que estava aí no presente à espera de ser tocado, fisgado ou puramente entretido pelas palavras do autor.

É certo que vivemos cm um ritmo diferente – discos de vinil que saltaram da rotação 33 para a 78 -, mas tal velocidade tem nos imposto um preço, que é nossa dificuldade em parar. Sim, porque a vivência do presente depende da captura do instante. E na captura do instante, velocidade é igual a zero (V=O).

A ciência já reconhece a importância de focarmos nossa atenção no presente. Trata-se do conceito de mindfulness, que muitos, erroneamente, acreditam ter nascido a partir da Psicologia Positiva. Na verdade, embora amplamente discutido por pesquisadores desse movimento científico, o conceito de mindfulness parece ter sido introduzido na língua inglesa já em 1881. Uma outra confusão recorrente é a crença de que a única maneira de atingirmos o estado mindful (presença no aqui e agora) seja por meio da meditação mindfulness. De fato, esse tipo de meditação é muito útil e tem sido objeto de diversas pesquisas que a relacionam como eficaz na redução de estresse, ansiedade, dores crônicas etc.

Contudo, infelizmente, as evidências científicas nesse caso parecem não ser suficientes para incutir na sociedade ocidental, ou pelo menos na maioria dela, a disciplina necessária para uma prática diária meditativa.

Eu mesma, confesso, um tanto envergonhada, ser uma aprendiz rebelde e indisciplinada. Talvez por isso me compadeça daqueles que, a despeito de reconhecerem a importância do estado mindfulness, não conseguem aderir à meditação mindfulness. Para esses, vale salientar, entretanto, que existem outras práticas de mindfulness que simplesmente não incluem a meditação. Fazer uma refeição com atenção focada exclusivamente na experiência presente, obrigar-nos a escovar os dentes com a mão não dominante a fim de tirar-nos do “piloto automático” são pequenas inciativas que podem nos levar ao estado mindfulness, talvez preparando nosso cérebro para uma futura prática mais estruturada tal como a meditação.

Mas enquanto isso não ocorre, a “briga” para executarmos tarefas simples, tais como escrever (ou ler) um texto, continuará – ainda que, ao final, consigamos sair vencedores.

 

LILIAN GRAZIANO –  é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clinico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.