ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE I

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

 

Nestes versículos, temos:

I – A ida de Cristo “para a terra da Judéia” (v. 22), onde permaneceu com seus discípulos. Observe:

1. Nosso Senhor Jesus, depois de iniciar seu ministério público, viajou muito e mudou-se frequentemente, como os patriarcas em suas estadias passageiras. Assim como era uma boa parte de sua humilhação o fato de que Ele não tivesse moradia certa, mas que estivesse em constantes jornadas, como Paulo, este também era um exemplo da sua aplicação incessante no trabalho para o qual Ele veio ao mundo, que Ele viajava muito para realizá-lo. Ele deu muitos passos cansativos para fazer o bem às almas. O Sol da Justiça percorreu um grande circuito para difundir sua luz e calor (Salmos 19.6).

2. Ele não tinha o costume de permanecer muito tempo em Jerusalém. Embora frequentemente fosse até lá, ainda assim Ele retornava rapidamente para o interior, como aqui. Depois disto, e depois de ter conversado com Nicodemos, Ele foi para as terras da Judéia, não somente para ter mais privacidade (apesar do fato de que os lugares e meios desconhecidos melhor se adequavam ao humilde Jesus em sua condição humilde), mas para ser mais útil. Seus milagres e pregações talvez causassem mais alvoroço em Jerusalém, a origem das novidades, mas fizeram um bem menor ali, onde os homens mais consideráveis da igreja judaica tinham mais predominância.

3. Quando veio para a terra da Judéia, seus discípulos o acompanharam, pois estes eram os que continuaram com Ele em suas tentações. Muitos que se reuniram a Ele em Jerusalém não poderiam seguir seus deslocamentos pelas várias localidades que visitava, já que não tinham negócios por lá, mas seus discípulos o acompanharam. Se a arca parte, é melhor partir e segui-la (como fizeram os israelitas, Josué 3.3) do que ficar sem ela, mesmo que ela esteja na própria cidade de Jerusalém.

4. Ali Ele permaneceu com eles, conversou com eles, dialogou com eles. Ele não se afastou para o interior por prazer ou comodidade, mas para conversar livremente com seus discípulos e seguidores. Veja Cantares 7.11,12. Observe que aqueles que estão prontos para seguir a Cristo o encontrarão preparado para ficar com eles. Supõe-se que Ele, nesta ocasião, tenha permanecido por cinco ou seis meses nesta região.

5. Ali Ele batizou. O Senhor admitiu, como discípulos, aqueles que creram nele, que tiveram mais honestidade e coragem do que os de Jerusalém, cap. 2.24. João começou a batizar na terra da Judéia (Mateus 3.1), e entendemos que, por esta razão, Cristo começou a pregar ali, pois João tinha dito que o Messias viria depois dele. Jesus mesmo não batizava, com suas próprias mãos, mas seus discípulos, de acordo com suas ordens e orientações, como parece, cap. 4.2. Porém, o batismo dos seus discípulos era seu batismo. As ordenanças sagradas são de Cristo, ainda que conduzidas por homens fracos.

 

II – A continuidade de João aos seus trabalhos, enquanto teve oportunidades (v. v 23,24). Aqui, lemos:

1. Que João estava batizando. O batismo de Cristo era, por essência, o mesmo de João, porque João testificava de Cristo, e, portanto, eles não se opuseram ou interferiram um com outro. Mas:

(1) Cristo iniciou a tarefa de pregação e batismo antes que João as interrompesse, de modo que pudesse estar pronto para receber os discípulos de João, quando este estivesse ausente, pois as rodas devem manter-se em movimento. É um consolo para os homens úteis, quando estão deixando a cena, ver que estão surgindo aqueles que provavelmente irão ocupar seus lugares.

(2) João continuou com a tarefa de pregação e batismo, embora Cristo as tivesse assumido, pois ele ainda teria que, de acordo com a providência divina, trabalhar pelos interesses do reino de Deus. Ainda havia trabalho a ser realizado por João, porque Cristo ainda não era amplamente conhecido, nem as mentes das pessoas estavam completamente preparadas para Ele pelo arrependimento. João tinha recebido suas ordens do céu, e deveria prosseguir com sua tarefa até de lá receber uma contra- ordem, e assim receberia a permissão para partir pela mesma mão que lhe tinha dado sua incumbência. Ele não se associou a Cristo, para que não parecesse ter havido uma combinação entre eles, mas continuou com sua tarefa até que a Providência o tirasse de cena. Os melhores dons de alguns não servem às atividades de outros, que resultam desnecessárias e inúteis. Existe trabalho suficiente para todas as mãos. Os ressentidos se sentarão e não farão nada, quando virem que foram eclipsados. Mesmo que tenhamos apenas um talento, devemos prestar contas do uso que fazemos dele, e quando percebermos que nossa vez está passando, ainda devemos continuar até o fim.

2. Que “João batizava também em Enom, junto a Salim”, lugares que não foram mencionados em nenhuma outra passagem, e, por este motivo, os eruditos estão completam ente perdidos quanto aonde encontrá-los. Onde quer que fosse este lugar, parece que João deslocava-se de um lugar a outro. Ele não achou que houvesse alguma virtude no Jordão, porque Jesus foi batizado ali, o que exigiria que ele permanecesse ali, mas quando viu motivo, mudou-se para outras águas. Os ministros devem seguir suas oportunidades. Ele escolheu um lugar em que havia muita água, isto é, muitas correntezas de água, de modo que onde quer que ele encontrasse alguém que desejasse se submeter ao seu batismo, a água estaria à mão para batizá-lo, talvez rasa, como é comum onde há muitos córregos, mas do tipo que serviria a seus propósitos. E naquela região abundante de água, isto era algo valioso.

3. Que as pessoas vinham até ele e eram batizadas. Embora não viessem em grandes multidões, como faziam quando ele apareceu pela primeira vez, ele não ficava desalentado, mas ainda havia aqueles que o escutavam e o reconheciam. Alguns opinam que isto se refere a João e também a Jesus: e vinham ali “e eram batizados”. Isto é, alguns vinham até João, e eram batizados por ele, alguns a Jesus, e eram batizados por Ele, e como o batismo deles era um só, também eram seus corações.

4. Observa-se (v. 24) que “ainda João não tinha sido lançado na prisão”, para justificar a ordem da história, e mostrar que estas passagens aconteceram antes de Mateus 6.12. João nunca desistiu do seu trabalho, enquanto teve sua liberdade. Na verdade, ele parece ter sido mais aplicado, porque previa que seu tempo era curto. Ele ainda “não tinha sido lançado na prisão”, mas suspeitava que isto não tardaria a acontecer, cap. 9.4.

 

III – Uma controvérsia entre os discípulos de João e os judeus sobre a purificação, v. 25. Veja como o Evangelho de Cristo não veio trazer paz sobre a terra, mas dissensão. Observe:

1. Quem estava discutindo: os discípulos de João e um judeu que não tinha se submetido ao seu batismo de arrependimento. Os penitentes e impenitentes dividem este mundo pecador. Poderia parecer; neste contexto, que os discípulos de João foram os agressores e lançaram o desafio, e este é um sinal de que eram novos convertidos, e tinham mais zelo do que prudência. As verdades de Deus têm sofrido frequentemente pela impulsividade daqueles que se incumbem de defendê-las antes de serem capazes de fazê-lo.

2. Qual foi a causa da controvérsia: a “purificação”, a lavagem religiosa.

(1) Podemos supor que os discípulos de João louvavam seu batismo, sua purificação, como superior a todos os outros, e lhe davam preferência como aperfeiçoando e substituindo todas as purificações dos judeus, e eles estavam certos. Mas os novos convertidos são muito capazes de se vangloriar dos seus feitos, ao passo que aquele que encontra um tesouro deveria escondê-lo até ter certeza de que o tem e não falar muito dele inicialmente.

(2) Não há dúvida de que os judeus, com muita segurança, aplaudiam as purificações que eram usadas entre eles, tanto aquelas que tinham sido instituídas pela lei de Moisés como aquelas que eram impostas pelas tradições dos anciãos. Para as primeiras, havia a garantia divina, e para as últimas, o costume da igreja. Mas é muito provável que os judeus, nesta controvérsia, quando não puderam negar a excelente natureza e o desígnio do batismo de João, promovessem uma objeção contra o batismo de Cristo, o que deu ensejo para a reclamação que se segue aqui (v. 26): ”.Aqui está João batizando em um lugar”, dizem eles, “e Jesus, ao mesmo tempo, batizando em outro, e por isso o batismo de João, que seus discípulos tanto aplaudem, é, ou:

[1] Perigoso, e de consequências desastrosas à paz da igreja e do estado, porque se vê que ele abre uma porta para ilimitadas divisões. Agora que João começou, cada pequeno professor irá estabelecer um batismo imediatamente. Ou:

(2) Na melhor das hipóteses, é defeituoso e imperfeito. Se o batismo de João, que vocês exaltam desta maneira, tem algo de bom, o batismo de Cristo vai mais além, de modo que vocês já estão eclipsados por uma luz maior, e em breve seu batismo não será mais requisitado”. Desta maneira, objeções foram feitas contra o Evangelho originadas pelo avanço e aperfeiçoamento da luz evangelizadora, como se a infância e a virilidade fossem opostas entre si, e a superestrutura, contrária à fundação. Não havia razão para contrapor o batismo de Cristo ao de João, porque ambos estavam de pleno acordo.

 

IV – A queixa que os discípulos de João fizeram ao seu mestre a respeito de Cristo e do seu batismo, v. 26. Eles, estando confundidos pela objeção supra­ citada, e provavelmente agitados e inflamados por ela, vão até seu mestre e lhe dizem: “Rabi, aquele que estava com você e foi batizado por você agora está estabelecido. Ele está batizando, e todos vão ter com Ele. E você tolera isto?” O desejo de causar controvérsia proporcionou oportunidade para isto. É comum que os homens, quando se encontram presos no calor da disputa, se lancem sobre aqueles que não lhes fazem mal. Se estes discípulos de João não tivessem se comprometido na disputa da purificação, antes de compreender a doutrina do batismo, talvez tivessem respondido à objeção sem enfurecer-se. Em suas queixas, eles se dirigem respeitosamente ao seu próprio mestre, “rabi”, mas falam com muito desrespeito do nosso Salvador, embora não o nomeiem.

1. Eles sugerem que Cristo, ao batizar, esteja sendo presunçoso e irresponsável, como se João, tendo estabelecido antes seu rito de batismo, devesse ter seu monopólio, e também uma patente pela invenção: “‘Aquele que estava contigo além do Jordão’, como um discípulo seu, veja, e assombre-se, Ele mesmo batiza e tira o trabalho da tua mão”. Assim, as condescendências voluntárias do Senhor Jesus, como a de ser batizado por João, são injustamente e muito desagradavelmente convertidas em reprovação a Ele muitas vezes.

2. Eles sugerem que foi ingratidão a João. Aquele “do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando”, como se Jesus devesse toda a sua reputação ao caráter honrado que João testemunhou sobre Ele, e o tivesse aproveitado de maneira muito indigna para prejudicar a João. Mas Cristo não precisava do testemunho de João, cap. 5.36. Ele refletiu mais honra sobre João do que recebeu dele, e ainda assim é inerente a nós pensarmos que os outros estão mais em débito conosco do que realmente estão. E, além disso, o batismo de Cristo não foi um impedimento, mas, na verdade, um excelente aperfeiçoamento do batismo de João, o qual devia apenas abrir o caminho para o de Cristo. João foi justo com Cristo ao dar testemunho dele, e a resposta de Cristo ao seu testemunho valoriza, em vez de empobrecer, o ministério de João.

3. Eles concluem que seria um eclipse total ao batismo de João: “Todos vão ter com ele”. Aqueles que estavam habituados a nos seguir agora vão atrás dele, por isso é hora de ficarmos alertas”. Na verdade, não era de estranhar que todos os homens viessem até Ele. Enquanto Cristo se manifestar, Ele será glorificado. Mas porque deveriam os discípulos de Cristo lamentar isto? Observe que desejar o monopólio da honra e do respeito tem sido, em todos os tempos, a perdição da igreja e a vergonha de seus membros e ministros, como também a disputa de interesses e o zelo pela rivalidade e competição. Nós nos equivocamos se achamos que dons e graças excelentes, e os trabalhos e a utilidade de alguém, representam a diminuição e depreciação para outros que obtiveram misericórdia por serem fiéis, pois o Espírito é um agente livre, “repartindo particularmente a cada um como quer”. Paulo se alegra com a utilidade até mesmo daqueles que se opunham a ele, Filipenses 1.18. Devemos deixar que Deus escolha, aplique e honre seus próprios instrumentos como quiser. Não devemos ter a cobiça de ser exclusivos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.