PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ANGÚSTIA DOS ACUMULADORES

O sintoma de guardar muitos objetos, mesmo inúteis, é catalogado como transtorno de acumulação e essa classificação é apoiada no comportamento do indivíduo, não levando em conta a subjetividade, afetos, pulsões, desejos e gozos.

A angústia dos acumuladores

O transtorno de acumulação (TA), que pode ser definido como o gosto imoderado por acumulação, é um distúrbio psíquico ainda muito pouco conhecido, no qual o indivíduo acumula os objetos, sem os utilizar, com uma dificuldade maior de se desapegar, mesmo que esses sejam inúteis, perigosos, volumosos e insalubres. Essa acumulação afeta o espaço de vida e a mobilidade do sujeito e dos seus próximos. Pode ser a causa de incêndios, de condições insalubres, ferimentos, 1mas, sobretudo, de um empobrecimento do funcionamento social e prejuízo dos relacionamentos familiares. Esses sujeitos demonstram medo enorme de perder ou se desfazer dos objetos que possam vir a ser importantes no futuro. Por isso, desenvolvem determinadas crenças acerca da posse e privação de objetos. São sujeitos que perderam o senso de autocontrole, têm dificuldades na organização de seus espaços físicos, tornando o ambiente de convívio praticamente inabitável.

O TA possui uma diferença afetiva significativa que serve para distinguir um colecionador de um acumulador. Essa diferença é que o colecionador tem orgulho e, muitas vezes, se vangloria disso para as pessoas que o interessam. Enquanto o acumulador, em geral, sente vergonha e procura esconder dos outros, com o objetivo de não mostrar o transbordamento da desorganização do seu ego sobre os objetos da realidade.

O acumulador, segundo a Psicanálise, para evitar a ameaça de castração que vem do Outro em forma de críticas, censuras e desvalorização de sua pessoa, ou grupo social, usa principalmente o mecanismo de defesa de “isolamento”, o que conduz a um paradoxo, pois ao tentar preencher o seu vazio acaba criando outro vazio social.

Já o colecionador terá uma intenção inconsciente de ordenar os objetos, a través da classificação, seriação e catalogação. Acreditando, assim, ser valorizado, reconhecido e amado pelo outro, ao preço de ficar recalcada a significação inconsciente do afeto ligado ao objeto, desligando-se da representação. E, com isso, além do isolamento do afeto em relação à representação, ainda tem o evitamento desse afeto. Portanto, é possível afirmar que existe uma ênfase nesse caso, do mecanismo de defesa “anulação”.

Essa diferença é muito marcante na clínica psicanalítica, desde que Freud criou essa nomenclatura nosográfica chamada neurose obsessiva compulsiva. Ou seja, o acumulador tem uma tendência maior em utilizar do mecanismo de defesa “o isolamento”, enquanto o colecionador tende a utilizar como mecanismo de defesa mais a anulação que o isolamento.

O avanço das Neurociências, através das tecnologias das imagens na Medicina, permite mapear os sinais de resposta cerebral a partir da estimulação comportamental, e vem cada vez mais confirmar o que a clínica psicanalítica já havia distinguido através do pai da Psicanálise, que, diga-se de passagem, podia ser considerado um dos melhores neurologistas da sua época. E essa constatação foi confirmada a partir da diferenciação que o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, classificação norte-americana de Psiquiatria) se viu obrigado a fazer entre TOC e acumuladores. Atualmente, o transtorno de acumulação compulsiva está classificado isoladamente, o que demonstra um grande avanço das Neurociências.

Embora o diagnóstico do TOC apresente semelhanças com o TA, um a das principais diferenças entre essas duas psicopatologias é que os sujeitos que acumulam apresentam pensamentos obsessivos intrusivos, rituais ou sentimentos de angústia e desconforto emocional. As pessoas tentam resistir, mas não conseguem parar o pensamento, agem com uma pressão contínua, gerando muita angústia ao se desfazer dos objetos que possuem.

O DSM-5, oficialmente publicado em 18 de maio de 2013, inclui em seus novos diagnósticos o transtorno de acumulação. Utiliza um critério de bom insight (autocrítica pessoal) e ausência de insight (sintomas delirantes), para diferenciar e reconhecer os pensamentos obsessivos como sintoma de um transtorno mental, situação em que a convicção da veracidade dos sintomas pode alcançar características psicóticas.

O diagnóstico de TA foi criado para descrever indivíduos que acumulam objetos e experimentam sofrimento e prejuízo pela persistente dificuldade de se desfazer ou de se separar de determinados bens (independentemente do seu real valor) devido à percepção de que necessitam guardar esses itens, apresentando angústia frente a descartá-los.

Os estudos mais recentes apontam que 2,3% a 4,6% dos casos de TA concernem mais aos homens em relação às mulheres, e sua frequência aumenta com a idade. Isso pode variar de um processo funcional e de adaptação normal até a de mecanismos excessivos ou patológicos. Mesmo quando é excessivo não se pode falar imediatamente que é patológico, já que o comportamento de colecionar e acumular objetos encontra-se presente em todas as populações, variando entre espectros. Ressalta-se que esse tipo de comportamento pode ser considerado adaptativo em momentos de privação, a fim de preservar e assegurar a sobrevivência da espécie humana. Contrário a isso, é possível verificar a gravidade do comportamento das pessoas que acumulam patologicamente.

Estas acabam se envolvendo em processos judiciais, despejos, reclamações de vizinhos ou impedidas judicialmente de cuidar de sua prole. Os ambientes entulhados, com odores insuportáveis, impedem o desempenho de atividades básicas relacionadas à alimentação, ao sono e higiene, tornando os espaços inócuos e comprimidos. A vida vai se estreitando, a desordem interna vai se materializando nos espaços externos.

Esse tipo de distúrbio pode aparecer em diversas estruturas clínicas, sendo registrado na esquizofrenia, como um a defesa contra a despersonalização, com a sua característica de angústia de fragmentação do corpo. Mas também nas neuroses, tomando um sentido de sintoma para tentar solucionar, através da negação, a ameaça de castração, advinda do complexo de castração. Em ambos, deve-se temer pela frequência desses distúrbios, tanto na psicose como na neurose, pelo perigo em que a pessoa se coloca.

Tendo demarcado uma pequena borda entre as visões dos diferentes saberes que abordam esse assunto, é possível dar um passo a mais na visão que a Psicanálise pode oferecer.

FENÔMENO

Primeiramente, vale destacar que a Psicanálise irá partir do fenômeno para chegar à causa deste. O fenômeno em causa que está sendo tratando é o sintoma de acumulação. Se o sintoma acumulação foi nomeado, é porque tem um motivo. Tal motivo decorre da própria noção que a Psicanálise tem do que é um sintoma. O sintoma é a representação da realização disfarçada de um desejo inconsciente, que por ter sido censurado, sofreu a ação do recalcamento e, posteriormente, tal recalcamento encontrou um caminho para se manifestar, fazendo uma conciliação entre o Isso, enquanto desejo originário, e o Supereu, que o censurou. O sintoma será mais ou menos resistente à interpretação, dependendo da viscosidade da libido investida no mesmo.

Desse modo, quando se diz que a acumulação é um sintoma, concebe-se que ele é efeito da sexualidade do ser falante. Que ele é um dizer de outra coisa, que diz respeito à sexualidade e que está deslocada e condensada, metonímica e metaforicamente.

Esse sintoma de acumulação é a expressão inconsciente de um desejo recalcado, desejo esse que revela o indivíduo como sujeito e, ao mesmo tempo, assujeitado pelas leis da linguagem, assim como revela esse indivíduo enquanto ser falante, que tem um gozo próprio. Tal gozo provém do ponto de fixação que predominou para essa pessoa no desenvolvimento de sua sexualidade infantil. Esse ponto de fixação, Freud o chamará de disposição da libido.

Os acumuladores apresentam uma forte fixação libidinal na fase sádica anal. Por isso, querem reter para si todo objeto que pode ser dispensado para o outro, privando este do objeto libidinal. Tais pessoas têm fortes tendências sádicas em relação ao outro e expressa isso ao acumular para si os objetos que, inconscientemente, são os representantes desse objeto sádico anal, que é tido como valioso. Esses objetos passam a dominar a vida da pessoa, são investimentos simbólicos, alheios à consciência, e aprisionam as pessoas em seu habitat. Estas, não conseguindo se desfazer das coisas úteis e inúteis, tendem, muitas vezes, ao impulso de comprar ou catar lixo ou restos alheios ou coisas que são determinadas pelo desejo infantilizado. Os acumuladores procuram “forcluir” a ética do desejo daquele que leva em consideração a castração simbólica, que, por sua vez, possibilita o declínio do complexo de Édipo. Para evitar os riscos de ter que pagar com o seu ser, e, com isso, enfrentar o mundo com as suas escolhas e suas consequências, incluindo perdas, separações, frustrações e privações, com a esperança de colocar limites no espaço, preenchendo o vazio, e de controlar o tempo, prevendo um futuro de privações, fazendo da vida uma repetição obsessiva predominantemente imaginária, acumulando bugigangas. Não suportando a falta, e na tentativa de supri-la com esses objetos necessários, restos, coisas, eles não desejam ter, mas tentam repetidamente negar a presença de uma ausência.

Tais tendências são desencadeadas por perdas importantes na infância, adolescência ou mesmo na vida adulta que reativam o complexo de castração infantil que não foi assumido, ou ainda por fortes sentimentos de ódio recalcado em relação a pessoas amadas. Esse ódio que foi censurado fica recalcado e reaparece de forma disfarçada, através do sintoma de acumulação, privando o outro de poder desfrutar de tal objeto de amor.

COMPLEXO DE CASTRAÇÃO

A causa desses desencadeamentos está na relação que o indivíduo tem com o seu complexo de castração. Essas pessoas, ao fixarem parte importante de sua libido na fase sádica anal, irão reagir frente a qualquer ameaça de perda ou frente às perdas de fatos, recorrendo a tal procedimento que ficou como um DNA psíquico.

Frente à perda, que pode significar inconscientemente a ameaça de castração, tais pessoas poderão responder de formas diferentes, rejeitando e, portanto, se estruturando enquanto psicótica ou negando e se estruturando de forma neurótica. Tanto numa quanto noutra, poderão ter a influência das marcas e efeitos de certa fixação ou intensa fixação na fase sádica anal.

No caso das pessoas psicóticas que rejeitaram o complexo de castração, que tiveram certa fixação nessa fase da organização da libido, isso não impedirá que seu ponto de fixação de maior viscosidade seja o oral canibalesco. Assim sendo, tais pessoas regredirão à fase oral, carregando traços da fase sádico-anal. Isso explicaria os casos de esquizofrenia que encontram certa suplência na acumulação.

Por outro lado, certas pessoas irão proceder negando o complexo de castração e sua consequente ameaça de perda de seu objeto libidinal. Essas pessoas irão se estruturar como neuróticas, apesar de não terem assumido o complexo de castração. Este se escreveu pela própria negação, efeito paradoxal da negação que, ao negar, afirma.

No caso do sintoma de acumulação na neurose, é possível acompanhar, ao longo da vida, outros representantes simbólicos desse sintoma que podem estar associados ou se apresentarem intercaladamente, que, entre outros, pode ser a constipação patológica, onde irão acumular suas fezes a ponto de colocar a sua saúde física em risco.

FUNÇÃO MATERNA

A origem relacional desse sintoma ou da suplência é em relação à pessoa que cumprir a função materna. A criança procura ser avessa a realizar o desejo do Outro. Esse Outro que irá pela primeira vez demandar da criança que realize o seu desejo – desejo do Outro. Pela primeira vez a criança pode considerar que tem algo de valioso para preencher a falta do Outro. Nesse momento, ela realiza que pode dar ou reter. Dar representará presentear e, desse modo, preencher a falta no Outro, e reter para si representará agredir o Outro o deixando em falta.

Tal procedimento de agredir o Outro tem sua causa na angústia de desaparecer, pelo vazio instaurado pela falta no momento de dar ao Outro o que está retido em si. Destarte, essas pessoas desenvolvem esses sintomas para tentar fugir do suposto vazio que imaginam poder se instaurar em suas vidas. Por essa razão, esse sintoma sempre acompanha um profundo medo da escassez no futuro, e, assim, pode-se dizer que é um sintoma ligado ao futuro e não ao passado.

Procurando fugir do vazio, irão provocar um vazio no Outro, o que é possível observar através do isolamento e do evitamento que estão sempre presentes nesses indivíduos, que provocas um grande empobrecimento das relações afetivas com outros seres humanos.

Após o exposto, verifica-se que a Psicanálise não trabalha apenas com o comportamento, e sim com a causa, o porquê de se iniciarem determinados sintomas, atacando, então, no cerne da questão. Porém, vale salientar que o paciente pode estar em risco e, ao mesmo tempo, recusar se submeter a uma experiência psicanalítica. Nesses casos, devem-se oferecer alternativas no sentido de favorecer que essa pessoa possa formular um a questão a respeito de sua relação com esse sintoma. Para tanto, pode-se utilizar uma equipe multidisciplinar, incluindo assistente social, atendimento familiar e, quando necessário, o acompanhamento terapêutico.

Esses casos extremos não evoluem de uma hora para outra. Quando se pesquisa a história da doença, verifica-se que tais sintomas já apareceram, de forma bem menos intensa, em vários momentos da vida. Vale lembrar que na infância se constatam os primeiros sinais, nas constipações citadas acima. Assim sendo, não se deve negligenciar uma escuta psicanalítica nos primeiros sinais que indicam a estruturação desse sintoma. É através da análise que a pessoa significará as perdas, frustrações, limites, separações, e simbolizando poderá fazer um a retificação subjetiva da sua relação com o Outro.

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 A RELAÇÃO ENTRE TRANSTORNO DE ACUMULAÇÃO E ESQUIZOFRENIA

Entre as inúmeras estruturas clinicas que podem apresentar o transtorno de acumulação está a esquizofrenia, funcionando como uma defesa contra a despersonalização, com a sua forma de angústia de fragmentação do corpo. Doença psiquiátrica endógena, a esquizofrenia se caracteriza pela perda do contato com a realidade. O indivíduo pode se fechar e se tornar indiferente a tudo o que se passa ao seu redor, ou, ainda, sofrer de alucinações e delírios. A pessoa em questão escuta vozes que ninguém ouve e imagina estar sendo vítima de uma conspiração diabólica elaborada para destrui-la. Não existe qualquer tipo de argumento que a convença do contrário ou a faça mudar de opinião ou comportamento. Há muitos anos esses indivíduos eram jogados em sanatórios para “loucos”, porque pouco ou nada se sabia sobre a doença. Entretanto, ao longo das últimas décadas, foram registrados grandes avanços no estudo e tratamento da esquizofrenia, que, quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, menos danos provocará.

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TOC

O transtorno obsessivo-compulsivo, conhecido como TOC, incomoda milhares de pessoas em todo o mundo. Frequentemente, os sintomas são leves e quase imperceptíveis, mas em outras vezes são extremamente graves, podendo incapacitar a pessoa para o trabalho e impedi-la de se relacionar socialmente. São acompanhados de ansiedade, medo e culpa. Alguns exemplos: lavar as mãos a todo o momento, observar repetidas vezes se a porta está trancada, necessidade exagerada de arrumação, entre outros.

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COMPLEXO DE ÉDIPO

Conceito criado por Freud, mas descrito e balizado por Jung, o complexo de Édipo foi baseado na tragédia Édipo Rei, de Sófocles. De acordo com a Psicanálise, a criança do sexo masculino é acometida por sentimentos opostos, de amor e ódio, em relação à mãe. Isso acontece quando ela atravessa a fase fálica, durante a segunda infância, e toma consciência da diversidade entre os sexos. Geralmente, se sente atraída pelo sexo oposto de sua própria família.

 

JOSSELINE CÁPUA RODRIGUES SANCHES – é psicóloga psicanalista com especialização clínica em Psicanalise membro do Sedes Sapientiae em Psicanálise com crianças, membro da Associação Livre, membro do Núcleo de Estudos da Sexualidade do Ser Falante em Psicanálise. Prêmio Voluntários do Ano 2009 como coordenadora de oficinas terapêuticas do Ambulatório de Saúde Mental de Araçatuba.

PAUL KARDOUS – é psicanalista, psicólogo, com mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, membro da Associação Livre, membro internacional do campo lacaniano, fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa da Sexualidade do Ser Falante autor do livro: Impotência Sexual, o Real, o Simbólico e o Imaginário, coautor do livro Semiótica Psicanalítica.

OUTROS OLHARES

NA FLOR DA IDADE

No Brasil e nos Estados Unidos, a faixa etária da população que registra significativo aumento no número de suicídios é a daqueles que mal começaram a vida.

Na flor da idade

Em questão de poucos dias nestes últimos meses, dois americanos mundialmente conhecidos se suicidaram, ambos por enforcamento. A estilista Kate Spade, de 55 anos, se matou em seu apartamento em Nova York. O chef Anthony Bourdain, de 61, num quarto de hotel na França. Com isso, o assunto, em geral murmurado, causou alarido no noticiário, nas conversas e nas redes sociais. No mundo todo, 800.000 pessoas se suicidam por ano, uma a cada quarenta segundos. É uma tragédia, mas tem um aspecto ainda mais dramático: as taxas de suicídio entre os jovens são mais altas do que nunca.

Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade por suicídio aumentou mais entre os 15 e os 24 anos do que em qualquer outra faixa etária: 20% entre 2011 e 2016 – o suicídio é agora a terceira maior causa de óbito nesse segmento. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que, entre jovens de 15 a 19 anos, o suicídio teve um aumento igual, de 20%, e no mesmo período. Aqui, a decisão de tirar a própria vida já é a quarta causa mais frequente de morte entre jovens. Em um terço dos países do mundo, entre eles Japão e Coreia do Sul, suicidar- se é a causa mortis mais comum entre meninos e meninas. “Os idosos eram o maior grupo de risco. Agora, os jovens começam a tomar o seu lugar”, afirma o psiquiatra Humberto Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio.

É uma tragédia. Conhecido como Avicii, o DJ sueco Tim Bergling foi encontrado morto em abril em um quarto de hotel em Muscat, a capital do sultanato de Omã. Passava férias sozinho lá e já havia declarado várias vezes não suportar a pressão e o frenesi da vida artística. Antes dele, no fim de janeiro, o americano Mark Salling, de 35 anos, ator do seriado Glee, enforcou-se em um parque de Los Angeles semanas antes de começar a cumprir pena por pedofilia. No Brasil, o escritor carioca Victor Heringer, ganhador de um Prêmio Jabuti, suicidou-se em março, aos 29 anos. No mês seguinte, o exclusivo ambiente das escolas particulares de São Paulo foi abalado pelo suicídio de três alunos do ensino médio, com apenas dias de diferença.

É uma tragédia. A existência de transtorno mental recorrente ou ocasional, principalmente depressão, paira sobre 98% dos casos de suicídio, e a eles se associam geralmente um ou mais fatores agravantes. No caso dos jovens, a psiquiatra Analice Gigliotti aponta a frequência da relação entre o abuso de drogas e álcool e a morte auto- infligida. “Muitas vezes, o uso não leva à decisão de tirar a própria vida, mas serve de estímulo para ela”, diz Analice. A familiaridade dos mais novos com a internet funciona de maneira parecida, ao expor em profusão de detalhes as formas de se matar. Uma simples busca no Google com a frase em inglês how to kill myself (“como me matar”) trará 570 milhões de respostas.

É uma tragédia. Ainda no mundo virtual, fenômenos de rápida propagação, como o fatídico jogo da Baleia Azul – que induzia praticantes a provocar o próprio fim -, adicionaram novos elementos à combinação que estimula e facilita os suicídios. Grupos de WhatsApp e Facebook são suspeitos de estar por trás de duas mortes em fevereiro, em Goiânia. Higor Moreira, de15anos, enforcou-se; Gabriel Câmara, de 13, jogou-se no mesmo dia do 26º andar de um prédio. Segundo especialistas, a angústia de uma geração fixada no mundo virtual está na raiz do aumento no número de casos de depressão em menores de idade. Pesa nisso, por exemplo, a insistência com que as postagens nas redes sociais divulgam instantâneos de felicidade e vidas perfeitas, incompatíveis com a da maioria dos garotos e garotas fechados em seu quarto – cercados de amizades virtuais e inseguranças reais. Entre americanos de 12 a 17 anos, os diagnósticos saltaram 37% nos últimos dez anos. No Brasil, 40% nos últimos cinco anos.

É uma tragédia, sim, mas não é um destino. Há saídas, sobretudo numa atenção redobrada à depressão e distúrbios mentais, também crescentes. “Em geral, só chega ao extremo de tirar a própria vida quem sofre ou sofreu de alguma doença psíquica”, diz Helio Deliberador, professor de psicologia social da PUC-SP. Kate Spade, separada do marido havia dez meses, estava em tratamento contra a depressão, agravada por problemas conjugais. Bourdain, dependente de heroína e em crise na relação com a atriz Asia Argento, dizia não conhecer ninguém “com mais vontade de morrer” do que ele próprio.

Aos suicidas, a existência de cordas de salvação profissionais é essencial. Nos municípios brasileiros que contam com Centros de Atenção Psicossocial, o risco de atentado à própria vida diminuiu, em média, 14%. A procura por serviços do gênero não para de crescer. Em 2017, os voluntários do mais tradicional deles, o Centro de Valorização da Vida, atenderam 2 milhões de chamados, o dobro do ano anterior. O CVV criou recentemente um chat em seu site para se aproximar de quem se sente mais à vontade diante de uma tela do que de um telefone.

O país que registra a maior taxa de suicídios no mundo é o Sri Lanka, na Ásia: 34,6 por 100.000 habitantes. Depois vêm Guiana, Mongólia, Cazaquistão e Costa do Marfim. O primeiro país desenvolvido da lista é a Coreia do Sul, situação atribuída principalmente à pressão sobre os estudantes por bons resultados. Nos últimos vinte anos, medidas de prevenção fizeram com que a incidência de novos casos caísse em 83% das nações que reportam dados à Organização Mundial da Saúde. Brasil e Estados Unidos, porém, permanecem entre os 17% onde a taxa continua a subir – trágica e principalmente entre jovens, meninos e meninas que buscam a morte antes mesmo de conhecer a vida.

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GESTÃO E CARREIRA

O LÍDER CARISMÁTICO

Carisma é importante para o trabalho em equipe e era predominante em grandes mestres da história. A relação de confiança entre líderes e equipe tem como base a honestidade, integridade e coerência.

O líder carismático

Provavelmente, você já conheceu uma pessoa fascinante, que tinha algo a mais, especial, difícil de decifrar. Uma capacidade inexplicável de deixar melhor quem encontrou, de tocar as pessoas com o próprio brilho, com uma força diferente que nos faz perguntar: de onde vem esse fascínio?

O que afinal é carisma? A palavra vem do grego chàrisma, que deriva da chàris, que significa “graça”. Na mitologia grega, o nome chàris era também como eram chamadas As Três Graças, deusas da felicidade e da beleza, símbolos da harmonia e da perfeição. A elas associava-se tudo o que promove encantamento, brilho e satisfação. Já na tradição cristã, a palavra significa um dom divino, uma graça concedida aos fiéis.

Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e Betinho, grandes líderes, inspiradores e guias de multidões que tinham a força do carisma vinda da percepção por parte das pessoas de que eles estavam falando e agindo cada vez mais no interesse do grupo, transmitindo de forma inequívoca valores e ideais. São pessoas que deixaram sua história marcada no mundo. O atual Papa Francisco já ganhou a simpatia dos fiéis graças à sua figura carismática.

 Olhando para eles, então, podemos identificar alguns elementos que caracterizam suas ações. Por exemplo, tratar todos bem, indistintamente (do porteiro à moça do cafezinho até o presidente da empresa). O elemento principal presente em quem tem carisma é a intenção verdadeira e honesta de inspirar, servir e se dedicar às pessoas, a um objetivo comum e ao interesse dos envolvidos. É a intenção autêntica de honrar e respeitar os outros, independentemente do cargo, que toma a pessoa magnética e carismática. É isso que faz com que estejamos atraídos por ela, que desperta o nosso interesse mesmo sem palavras, com a simples presença.

Vestir-se para mostrar o seu melhor e não para impressionar é uma característica da pessoa carismática. A roupa é um canal de comunicação e, por meio de como nos vestimos, transmitimos uma grande quantidade de mensagens. Quem somos, as nossas intenções e as nossas preferências.

Porém, o único caminho para difundir segurança e autoestima é passar uma mensagem autêntica e que reflita realmente quem somos e o que queremos.

Saber ouvir é uma das grandes capacidades para uma comunicação assertiva, outra característica que identifica uma pessoa carismática e que é essencial para uma liderança eficaz. Comunicar implica o ato de interagir com o outro, de ouvi-lo e conhecê-lo, utilizando a “flexibilidade comunicativa”, que é a capacidade e a intenção do comunicador de ouvir, entender e se adaptar ao contexto situacional e ao interlocutor.

O líder carismático reconhece e respeita as suas próprias convicções e as dos outros, criando uma relação de reciprocidade e não de imposição, mantendo uma postura honesta e verdadeira. A criação de empatia também está em sua veia. Ele se coloca no lugar do próximo para compreendê-lo melhor, identificar suas vontades, opiniões e motivações e assim poder flexibilizar os próprios comportamentos e atitudes.

A pessoa que possui carisma faz elogios sinceros. Quando estamos verdadeiramente interessados e atentos aos outros e as suas qualidades, os elogios são sinceros e criam um relacionamento interpessoal positivo, necessário para construir confiança e fortalecer a autoestima nos interlocutores. Lembrando que não é a quantidade dos elogios que faz a diferença, mas a qualidade e intensidade.

Reconhecer os próprios pontos fracos significa reconhecer que errar faz parte do caminho do ser humano. Quando uma pessoa não admite as próprias falhas e não se permite errar, assume uma postura teimosa e inflexível, tentando provar que ela está certa e o mundo errado, gerando afastamento, resistência e rompendo a relação de confiança com as pessoas próximas.

A relação de confiança entre líderes e equipe tem como base a honestidade, integridade e coerência. Para que uma pessoa confie em alguém e se comprometa com ele precisa acreditar nele, perceber que é verdadeiro e coerente nas ações.

Contudo, o elemento principal presente em um líder carismático é a intenção verdadeira e honesta de inspirar, servir e se dedicar às pessoas, a um objetivo comum e ao interesse dos envolvidos. É a vontade autêntica de honrar e respeitar os outros que torna alguém magnético e carismático. Ele também é um indivíduo centrado, presente na situação e nas relações, o que faz com que estejamos atraídos por ele, que desperta o nosso interesse mesmo antes de conhecê-lo melhor.

É importante ressaltar igualmente que o carisma não é uma qualidade que alguém tem e outros não, mas é uma potencialidade de todos de se tornarem inesquecíveis e encantadores, pois está fortemente ligada à força e ao poder da presença da pessoa. Ou seja, você pode sim ser um líder carismático!

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal. Com mais de 30 anos de experiência no Brasil e na Europa, é referência em ampliar o crescimento e a auto liderança das pessoas.  www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE IV

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte IV

Em quarto lugar, os grandes incentivos que nos são dados pela fé, para olhar para Ele.

1. Ele foi levantado com a finalidade de que seus seguidores pudessem ser salvos, e Ele irá perseverar rumo a este fim.

2. A oferta de salvação que é feita por Ele é geral, para que qualquer pessoa que crer nele, sem exceção, possa beneficiar-se dele.

3. A salvação oferecida é completa.

(1) Eles não perecerão, não morrerão pelos seus ferimentos. Embora possam sentir dor e muito medo, a iniquidade não será sua ruína. Mas isto não é tudo.

(2) Eles terão a vida eterna. Eles não somente não morrerão dos seus ferimentos no deserto, mas alcançarão Canaã (onde eles estariam prontos para entrar). Eles desfrutarão do descanso prometido.

[2] Jesus Cristo veio para nos salvar, perdoando-nos, para que não morrêssemos pela sentença da lei, vv. 16,17. Aqui há Evangelho verdadeiramente, boas novas, o melhor que já veio do céu para a terra. Aqui há muito, aqui há tudo em poucas palavras, a palavra de reconciliação em miniatura, o resumo da redenção.

Em primeiro lugar, aqui está o amor de Deus: Ele deu seu Filho pelo mundo (v. 16), e nisto temos três aspectos:

1. O grande mistério do Evangelho revelado: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”. O amor de Deus, o Pai, é a origem da nossa regeneração pelo Espírito e nossa reconciliação pelo levantamento do Filho. Observe:

(1) Jesus Cristo é o Filho unigênito de Deus. Isto engrandece seu amor ao dá-lo por nós, em dá-lo a nós. Uma vez que Ele deu seu Filho unigênito por nós, sabemos que Ele nos ama, o que expressa não apenas sua dignidade em si mesmo, mas o quanto Ele era amado pelo seu Pai. Ele era sempre seu deleite.

(2) Para possibilitar a redenção e a salvação do homem, Deus se alegrou em dar seu Filho unigênito. Ele não apenas o enviou ao mundo, com plenos e amplos poderes para negociar uma paz entre o céu e a terra, mas o entregou, isto é, Ele o entregou para que sofresse e morresse por nós, como o grande sacrifício propiciatório ou expiatório. Este fato mostra a razão pela qual Ele deveria ser levantado, pois assim tinha sido determinado e designado pelo Pai, que o entregou com este objetivo, e preparou para Ele um corpo para esta finalidade. Seus inimigos não poderiam ter lançado mão dele, se seu Pai não o tivesse entregado. Embora Ele ainda não estivesse crucificado, ainda assim Ele “foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus”, Atos 2.23. Na verdade, Deus o tinha entregado, isto é, Ele tinha feito dele uma oferta, a todos, e o entregou a todos os verdadeiros crentes, para todos os objetivos e propósitos do novo concerto. Ele o entregou para ser nosso profeta, uma testemunha para o povo, o sumo sacerdote da nossa profissão de fé, para ser nossa paz, para ser o líder da igreja e governar sobre todas as coisas da igreja, para ser para nós tudo o que necessitamos.

(3) Aqui Deus elogia seu amor pelo mundo: Deus amou muito o mundo, de maneira muito verdadeira, muito rica. Agora suas criaturas verão que Ele as ama, e as quer bem. Ele tanto amou o mundo de homens caídos como não amou o dos anjos caídos. Veja Romanos 5.8; 1 João 4.10. Veja e maravilhe-se com o fato de que Deus ame tanto um mundo tão indigno! Que o Deus santo ame tanto um mundo perdido com um amor que expressa tamanha boa vontade, quando, se quisesse, seria justo por não considerá-lo com nenhuma complacência. Este era um tempo de amores, verdadeiramente, Ezequiel 16.6,8. Os judeus vaidosamente presumiam que o Messias seria enviado somente por amor à sua nação, para fazê-los triunfar sobre as ruínas dos seus vizinhos, mas Cristo lhes diz que Ele veio por amor a todo o mundo, aos gentios, além dos judeus, 1 João 2.2. Embora muitos do mundo da humanidade pereçam, o fato de Deus entregar seu Filho unigênito é um exemplo do seu amor por todo o mundo, porque, por meio dele, existe uma oferta geral de vida e salvação feita a todos. Em vista deste precioso amor, as províncias revoltadas e rebeldes devem promulgar uma proclamação de perdão e anistia a rem, colocando-se de joelhos e retornando à sua fidelidade. Deus amou tanto o mundo apóstata e decaído, a ponto de enviar seu Filho com esta proposta atraente, de que quem crer nele, quem quer que seja, não perecerá. A salvação tinha sido dos judeus, mas agora Cristo é conhecido como a salvação até os confins da terra. Ele oferece a salvação a todos. A salvação agora é de todos.

2. Aqui está o grande dever do Evangelho, que é crer em Jesus Cristo (aquele a quem Deus deu por nós, aquele que Deus deu a nós), aceitar o presente, e corresponder à intenção de quem o deu. Devemos oferecer uma avaliação e um consentimento sincero, reconhecendo o testemunho que Deus deu a este mundo a respeito do seu Filho. Deus o entregou a nós, para ser nosso profeta, sacerdote e rei, e nós devemos nos entregar para ser governados, ensinados e salvos por Ele.

3. Aqui está o grande benefício do Evangelho: “Para que todo aquele que nele crê não pereça”. Jesus tinha dito isso antes, e aqui o repete. A felicidade indescritível de todos os verdadeiros crentes, pela qual eles estão eternamente em dívida com Cristo, é:

(1) Que eles estão salvos das desgraças do inferno, libertados de descer ao poço. Eles não perecerão. Deus removeu seu pecado, eles não morrerão. Um perdão foi comprado, e, desta maneira, a desonra é revertida.

(2) Eles têm direito às alegrias do céu: eles terão a vida eterna. O traidor condenado não é apenas perdoado, mas promovido, e tornado um favorito, e tratado como alguém a quem o Rei dos reis se alegra em honrar. “Um sai do cárcere para reinar”, Eclesiastes 4.14. Se somos crentes, então somos filhos, e, se somos filhos, então somos também herdeiros.

Em segundo lugar, aqui está o desígnio de Deus ao enviar seu Filho ao mundo: “Para que o mundo fosse salvo por Ele”. Ele veio ao mundo tendo a salvação como objetivo, com a salvação na sua mão. Portanto, a oferta previamente mencionada de vida e salvação é sincera, e será cumprida para todos os que, pela fé, a aceitarem (v. 17): “Deus enviou o seu Filho ao mundo”, este mundo culpado, rebelde, apóstata. Enviou-o como seu agente ou embaixador, não corno às vezes Ele tinha enviado anjos ao mundo, corno visitantes, mas como um residente. Desde que o homem pecou, ele temia a chegada e a aparição de qualquer mensageiro especial do céu, corno tendo consciência da culpa, e esperando o julgamento: “Certamente morreremos, porquanto ternos visto Deus”. Se, portanto, o próprio Filho de Deus vem, nós nos preocupamos em descobrir em que missão Ele vem: “E de paz?” Ou, como perguntaram a Samuel, tremendo: “De paz é a tua vinda?”. E esta passagem das Escrituras traz ares­ posta: “É de paz”.

1. Ele não veio para condenar o mundo. Nós teríamos razões suficientes para esperar que Ele viesse para condenar o mundo, pois este é um mundo culpado. É condenado, e que motivo pode ser apresentado pelo qual o julgamento não deva ocorrer, e a execução realizar-se, de acordo com a lei? Aquele “um só” que fez “toda a geração dos homens” (At 17.26) não somente está corrompido com uma doença que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a lepra de Geazi, mas está corrompido com uma culpa que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a dos amalequitas, com quem Deus guerreava geração após geração. E, com justiça, um mundo como este todos aqueles que vierem, colocando-se de joelhos e retornando à sua fidelidade. Deus amou tanto o mundo apóstata e decaído, a ponto de enviar seu Filho com esta proposta atraente, de que quem crer nele, quem quer que seja, não perecerá. A salvação tinha sido dos judeus, mas agora Cristo é conhecido como a salvação até os confins da terra. Ele oferece a salvação a todos. A salvação agora é de todos.

2. Aqui está o grande dever do Evangelho, que é crer em Jesus Cristo (aquele a quem Deus deu por nós, aquele que Deus deu a nós), aceitar o presente, e corresponder à intenção de quem o deu. Devemos oferecer uma avaliação e um consentimento sincero, reconhecendo o testemunho que Deus deu a este mundo a respeito do seu Filho. Deus o entregou a nós, para ser nosso profeta, sacerdote e rei, e nós devemos nos entregar para ser governados, ensinados e salvos por Ele.

3. Aqui está o grande benefício do Evangelho: “Para que todo aquele que nele crê não pereça”. Jesus tinha dito isso antes, e aqui o repete. A felicidade indescritível de todos os verdadeiros crentes, pela qual eles estão eternamente em dívida com Cristo, é:

(1) Que eles estão salvos das desgraças do inferno, libertados de descer ao poço. Eles não perecerão. Deus removeu seu pecado, eles não morrerão. Um perdão foi comprado, e, desta maneira, a desonra é revertida.

(2) Eles têm direito às alegrias do céu: eles terão a vida eterna. O traidor condenado não é apenas perdoado, mas promovido, e tornado um favorito, e tratado como alguém a quem o Rei dos reis se alegra em honrar. “Um sai do cárcere para reinar”, Eclesiastes 4.14. Se somos crentes, então somos filhos, e, se somos filhos, então somos também herdeiros.

Em segundo lugar, aqui está o desígnio de Deus ao enviar seu Filho ao mundo: “Para que o mundo fosse salvo por Ele”. Ele veio ao mundo tendo a salvação como objetivo, com a salvação na sua mão. Portanto, a oferta previamente mencionada de vida e salvação é sincera, e será cumprida para todos os que, pela fé, a aceitarem (v. 17): “Deus enviou o seu Filho ao mundo”, este mundo culpado, rebelde, apostata. Enviou-o como seu agente ou embaixador, não como as vezes Ele tinha enviado anjos ao mundo, como visitantes, mas como um residente.

Desde que o homem pecou, ele temia a chegada e a aparição de qualquer mensageiro especial do céu, como tendo consciência da culpa, e esperando o julgamento: “Certamente morreremos, porquanto temos visto Deus”. Se, portanto, o próprio Filho de Deus vem, nós nos preocupamos em descobrir em que missão Ele vem: “É de paz?” Ou, como perguntaram a Samuel, tremendo: “De paz e a tua vinda?”. E esta passagem das Escrituras traz a resposta: “É de paz”.

1. Ele não veio para condenar o mundo. Nós teríamos razões suficientes para esperar que Ele viesse para condenar o mundo, pois este e um mundo culpado. E condenado, e que motivo pode ser apresentado pelo qual o julgamento não deva ocorrer, e a execução realizar-se, de acordo com a lei? Aquele “um só” que fez “toda a geração dos homens” (At 17.26) não somente está corrompido com uma doença que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a lepra de Geazi, mas está corrompido com uma culpa que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a dos amalequitas, com quem Deus guerreava geração após geração. E, com justiça, um mundo como este deve ser condenado. E se Deus tivesse desejado condená-lo, Ele teria anjos ao seu dispor, para derramar os vasos da sua ira, um querubim com uma espada flamejante, pronto para a execução. Se o Senhor tivesse se alegrado em nos matar, Ele não teria enviado seu Filho ao nosso meio. Ele veio com plenos poderes, realmente, para realizar o julgamento (cap. 5.22,27), mas não começou com um julgamento de condenação, não começou com a incriminação, nem usou, contra nós, da vantagem do rompimento do concerto da inocência, mas nos colocou em um novo julgamento diante do trono da graça.

2. Ele veio para que o mundo fosse salvo por Ele, para que uma porta para a salvação pudesse ser aberta ao mundo, e quem desejasse pudesse passar por ela. Deus estava em Cristo “reconciliando consigo o mundo”, e, desta maneira, salvando-o. Uma declaração de anistia é aprovada e publicada, por meio de Cristo uma lei reparadora é feita, e o mundo da humanidade é tratado, não de acordo com os rigores do primeiro concerto, mas de acordo com as riquezas do segundo, para que o mundo fosse salvo por Ele, pois ele nunca poderia ser salvo, senão por Ele. Não existe salvação em ninguém mais. O fato de que Cristo, nosso Juiz, veio não para condenar, mas para salvar, são boas novas para uma consciência condenada, a cura para os ossos quebrados e as feridas ensanguentadas.

[3] De tudo isto, pode-se concluir o motivo da felicidade dos verdadeiros crentes: “Quem crê nele não é condenado”, v. 18. Embora tenha sido um pecador, um grande pecador, e permaneça condenado por sua própria confissão), ainda assim, pela sua fé, o processo é interrompido, o julgamento é detido e ele não é condenado. Isto indica mais do que um adiamento. O pecador perdoado não é condenado, isto é, ele é absolvido. Ele considera sua libertação (como dizemos), e se não é condenado, é absolvido, ou ele não é julgado, não é tratado com uma justiça rígida, de acordo com aquilo que seus pecados merecem. O pecador perdoado é acusado, e não pode alegar inocência à acusação, mas ele pode alegar no tribunal, pode alegar à acusação, como faz o bendito Paulo: “Quem os condenará?… é Cristo quem morreu”. O pecador perdoado é atormentado, castigado por Deus, perseguido pelo mundo, mas ele não é condenado. A cruz, talvez, seja pesada sobre o pecador perdoado, mas ele está salvo da maldição: condenado pelo mundo, pode ser, mas não condenado com o mundo, Romanos 8.1; 1 Coríntios 11.32.

3. Cristo, no final, fala sobre a condição deplorável daqueles que persistem na incredulidade e na ignorân­ cia voluntária, vv. 18-21.

(1) Leia aqui o destino daqueles que não creem em Cristo: eles já estão condenados. Observe:

[1] Como é grande o pecado dos descrentes. Ele é agravado pela dignidade da pessoa a quem eles desprezam. Eles não creem no nome do Filho unigênito de Deus, que é infinitamente fiel, e merece que creiam nele, é infinitamente bom, e merece ser aceito. Deus nos enviou alguém para nos salvar, alguém que Ele amava muito. E será que Ele não deveria ser amado por nós? Não devemos nós crer no nome daquele que tem “um nome que é sobre todo o nome”?

[2] Como é grande a infelicidade dos descrentes: eles já estão condenados, o que significa, em primeiro lugar, uma condenação garantida. Eles serão condenados no julgamento do grande dia com tanta certeza como se já estivessem condenados. Em segundo lugar, uma condenação imediata. A maldição já se apoderou deles. A ira de Deus agora cai sobre eles. Eles já estão condenados, pois seus próprios corações os condenam. Em terceiro lugar, uma condenação fundamentada na sua culpa anterior: eles já estão condenados, pois estão sujeitos à lei por todos os seus pecados. A obrigação da lei está em pleno vigor, poder e virtude contra eles, porque não estão, pela fé, interessados na absolvição proporcionada pelo Evangelho. Eles já estão condenados, porque não creram. A incredulidade pode ser verdadeiramente considerada como o grande pecado condenador, porque nos deixa sob a culpa de todos os outros pecados. E um pecado contra o remédio, contra nossa defesa.

(2) Leia também o destino daqueles que não desejavam conhecer Jesus, v. 19. Muitas pessoas curiosas têm conhecimento de Cristo e da sua doutrina, mas têm preconceitos contra Ele e não desejam crer nele, ao passo que a maioria está entorpecidamente descuidada e ignorante, e não deseja conhecê-lo. E esta é a condenação, o pecado que os destruiu: ”A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”. Aqui, observe:

[1] Que o Evangelho é luz e, quando o Evangelho veio, a luz veio ao mundo. A luz dá testemunho de si mesma, e também o Evangelho. Ele prova sua própria origem divina. A luz é descoberta, e “verdadeiramente suave é a luz”, e alegra o coração. E “uma luz que alumia em lugar escuro”, e um lugar escuro que o mundo realmente não deveria ter. Ela veio a todo o mundo (Colossenses 1.6), e não está confinada a uma parte dele, como a luz do Antigo Testamento estava.

[2] Que a loucura indescritível da maioria dos homens é o fato de que amem mais as trevas do que a luz, mais do que esta luz. Os judeus amavam as sombras escuras da sua lei, e as instruções dos seus guias cegos, mais do que a doutrina de Cristo. Os gentios amavam seus cultos supersticiosos a um Deus desconhecido, a quem adoravam de uma forma absolutamente ignorante, mais do que o culto racional que o Evangelho requer. Os pecadores que estavam casados com seus desejos amavam mais sua ignorância e seus enganos (que justificavam seus pecados) do que as verdades de Cristo, que os teriam afastado dos seus pecados. A apostasia do homem teve início em uma simulação de conhecimento proibido, mas é mantida por uma simulação de ignorância proibida. O homem miserável está apaixonado pela sua doença, pela sua escravidão, e não deseja ser libertado, não deseja ser curado.

[3] A verdadeira razão pela qual os homens amam as trevas mais do que a luz é porque suas obras são más. Eles amam as trevas porque pensam que são uma desculpa para suas más obras, e odeiam a luz porque ela lhes tira a boa opinião que têm de si mesmos, mostrando-lhes sua infelicidade e iniquidade. Sua situação é triste, e, porque estão determinados a não corrigi-la, eles estão decididos a não ver a luz.

[4] A ignorância voluntária está tão longe de desculpar o pecado, que será encontrada, no grande dia, agravando a condenação: ”A condenação é esta”, é o que destrói almas, que eles fecham seus olhos para a luz, e não desejam ter um relacionamento com Cristo, nem querem viver seu Evangelho. Eles colocam Deus em uma posição tão desafiadora, que não desejam ter conhecimento dos seus caminhos, Jó 21.14. Nós deveremos prestar contas no julgamento, não somente do conhecimento que tínhamos, e que não utilizamos, mas do conhecimento que poderíamos ter tido, e não desejamos; não somente do conhecimento contra o qual pecamos, mas do conhecimento que afastamos, pecando. Para exemplificar mais, o Senhor mostra (vv. 20,21) que os homens serão influenciados pela luz que Cristo trouxe ao mundo, de acordo com a bondade ou com a maldade que haja em suas vidas e em seus corações.

Em primeiro lugar, não é estranho que aqueles que fazem o mal, e decidem persistir nele, odeiem a luz do Evangelho de Cristo, pois é comum observar que “todo aquele que faz o mal aborrece a luz”, v. 20. Os malfeitores procuram um disfarce, por um sentimento de vergonha e temor da punição. Veja Jó 24.13ss. Obras pecaminosas são obras das trevas. O pecado, desde o início, procurou esconderijo, Jó 31.33. A luz sacode os ímpios, Jó 38.12,13. Desta maneira, o Evangelho é um terror para o mundo ímpio: eles não vêm esta luz, mas se afastam tanto quanto podem, para que suas obras não sejam reprovadas. Observe:

1. A luz do Evangelho é enviada ao mundo, para reprovar as más obras dos pecadores, para torná-las manifestas (Efésios 5.13), para mostrar às pessoas suas transgressões, para mostrar que era pecado aquilo que não se pensava ser pecado, e para mostrar-lhes o mal das suas transgressões, para que o pecado, pelo novo mandamento, pudesse parecer excessivamente pecaminoso. O Evangelho tem suas condenações, que abrem caminho para seus consolos.

2. É por este motivo que os malfeitores odeiam a luz do Evangelho. Havia aqueles que tinham agido mal, e que lamentavam por isto, que recebiam esta luz, como os publicanos e as prostitutas. Mas aquele que faz o mal, que o realiza e decide persistir nele, odeia a luz e não pode suportar ouvir falar dos seus erros. Toda esta oposição que o Evangelho de Cristo encontrou no mundo origina-se de corações ímpios, que são influenciados pelo Iníquo. Cristo é odiado por aqueles que amam o pecado.

3. Aqueles que não vêm para a luz evidenciam um ódio secreto da luz. Se eles não tivessem uma antipatia pelo conhecimento que salva, eles não permaneceriam de maneira tão satisfeita na ignorância que condena.

Em segundo lugar, por outro lado, os corações justos, que são aceitos por Deus na sua integridade, recebem esta luz (v. 21): “Quem pratica a verdade vem para a luz”. Parece, então, que embora o Evangelho tivesse muitos inimigos, ele tinha alguns amigos. É comum observar que a verdade não procura subterfúgios. Aqueles que pensam e agem com honestidade não temem um escrutínio, mas o desejam. Isto se aplica à luz do Evangelho. Como ela condena e aterroriza os malfeitores, assim ela confirma e consola aqueles que andam na sua integridade. Observe aqui:

1. O caráter de um homem bom.

(1) É aquele que pratica a verdade, isto é, ele age de modo verdadeiro e sincero em tudo o que faz. Embora, às vezes, ele não consiga fazer o bem, o bem que desejaria fazer, ainda assim ele pratica a verdade, ele de­ seja honestamente. Ele tem suas fraquezas, mas se apega à sua integridade. Como Gaio, que procedia fielmente (3 João 5), como Paulo (2 Coríntios 1.12), como Natanael (cap. 1.47), como Asa, 1 Reis 15.14.

(2) Ele é aquele que vem para a luz. Ele está pronto para receber e aceitar a revelação divina, até onde ela assim parecer a ele, qualquer que seja o desconforto que ela possa lhe trazer. Aquele que pratica a verdade deseja conhecer a verdade por si mesmo, e ter suas obras manifestas. O homem bom dedica-se muito à auto avaliação, e deseja que Deus o esquadrinhe, Salmos 26.2. Ele deseja saber qual é a vontade de Deus, e decide cumpri-la, embora ela possa ser contrária à sua própria vontade e aos seus interesses.

2. Aqui está o caráter de uma boa obra: ela é desempenhada na presença de Deus, em união com Ele por meio de uma fé empenhada na aliança, e em comunhão com Ele através de afetos devotos. Nossas obras, então, são boas, e resistirão ao teste, quando a vontade de Deus for aquilo que as governar, e a glória de Deus for sua finalidade, quando elas forem realizadas no seu poder, por Ele e para Ele, e não para os homens. E se, pela luz do Evangelho, nos ficar manifesto que nossas obras se realizam desta maneira, então nós teremos glória, Gálatas 6.4; 2 Coríntios 1.12.