ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE III

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte III

2. Aqui está um sermão a respeito da certeza e da sublimidade das verdades do Evangelho. O Senhor Jesus Cristo aproveita a fraqueza de Nicodemos para proferi-lo. Aqui temos:

(1) A objeção que Nicodemos ainda fez (v.9): “Como pode ser isso?” A explicação de Cristo da doutrina da necessidade da regeneração, aparentemente, não ficou clara para ele. A corrupção da natureza que a torna necessária, e a maneira como o Espírito a torna executável, são mistérios para ele, tanto quanto o próprio evento. Embora, de maneira geral, ele reconhecesse Cristo como um mestre divino, ele ainda se recusava a receber seus ensinamentos, quando não estavam de acordo com as noções que o impregnavam. Desta maneira, muitos professam aceitar a doutrina de Cristo, de uma forma geral, mas, na realidade, não crêem nas verdades do cristianismo, nem se submetem a elas. Estes seguem suas próprias vontades. Cristo será seu professor, desde que eles possam escolher sua lição. Aqui:

[1] Nicodemos reconhece ser ignorante do que Cristo quer dizer afinal: “‘Como pode ser isso?’ Estas são coisas que eu não consigo compreender, minha capacidade não as alcança”.

Assim, “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura”. Ele não somente é alheio a elas, e desta forma elas são obscuras a ele, mas ele também é preconceituoso contra elas, e por isto são loucura par a ele.

[2] Por esta doutrina ser incompreensível para si (assim ele se satisfazia em torná-la), ele questiona a verdade que há nela, como se, por ser um paradoxo para ele, fosse uma quimera em si mesma. Muitos têm esta opinião sobre sua própria capacidade, a ponto de pensar que aquilo em que eles não conseguem crer não possa ser provado. Eles não conhecem Cristo de uma forma sábia.

(2)  A repreensão que Cristo fez, devido à estupidez e ignorância de Nicodemos: “‘Tu és mestre de Israel’, um tutor, alguém que se senta na cadeira de Moisés, e não somente não está familiarizado com a doutrina da regeneração, mas também é incapaz de compreendê-la?” Isto é uma reprovação:

[1] Àqueles que se incumbem de ensinar os outros, e ainda assim eles mesmos são ignorantes e inexperientes na palavra da justiça.

[2] Àqueles que passam seu tempo aprendendo e ensinando noções e cerimônias religiosas, detalhes e críticas às Escrituras, e se esquecem daquilo que é prático e que transforma o coração e a vida. Duas palavras na repreensão são muito enfáticas. Em primeiro lugar, o local onde sua sorte tinha sido lançada: em Israel, onde havia tanta abundância de meios de conhecimento, onde estava a revelação divina. Ele podia ter aprendido isto do Antigo Testamento. Em segundo lugar, as coisas de que ele era ignorante: essas coisas, essas coisas necessárias, essas coisas grandiosas, essas coisas divinas. Será que ele nunca tinha lido Salmos 50.5,10; Ezequiel 18.31; 36.25,26?

(3)  O sermão de Cristo, como consequência disto, sobre a certeza e a sublimidade das verdades do Evangelho (vv. 11-13), para mostrar a loucura daqueles que se fazem alheios a estas coisas, e recomendar que as busquemos. Observe aqui:

[1] Que as verdades que Cristo ensinava eram garantidas. Elas são dignas de absoluta confiança (v. 11): “Nós dizemos o que sabemos”. Nós. A quem Ele se refere, além de si mesmo? Alguns opinam que Ele se referia àqueles que testificavam dele e com Ele na terra, os profetas e João Batista. Eles diziam o que sabiam e tinham visto, aquilo com que estavam plenamente satisfeitos. A revelação divina traz suas próprias evidências consigo. Outros julgam que Ele se referia àqueles que davam testemunho no céu, o Pai e o Espírito Santo. O Pai estava com Ele, o Espírito do Senhor estava sobre Ele, por isto Ele fala no plural, como em João 14.23: “Viremos para ele”. Observe, em primeiro lugar, que as verdades de Cristo são de certeza indubitável. Nós temos todas as razões do mundo para ter certeza de que as palavras de Cristo são palavras fiéis, e em que podemos arriscar nossas almas, pois Ele não somente é uma testemunha digna de crédito, que não faria nada para nos enganar, mas é também uma testemunha competente, que não se deixaria enganar: “Testificamos o que vimos”. Ele não fala do que ouviu dizer, mas fala sobre as evidências mais claras, e, portanto, com a maior certeza. Aquilo que Ele falava sobre Deus, sobre o mundo invisível, sobre o céu e o inferno, sobre a vontade divina a nosso respeito, e os conselhos de paz, era aquilo que Ele conhecia, e tinha visto, pois Ele estava com Deus, o Pai, como alguém que sempre viveu com Ele, Provérbios 8.30.Tudo o que Cristo dizia, Ele dizia com base no seu próprio conhecimento. Em segundo lugar, que a incredulidade dos pecadores é enormemente agravada pela infalível certeza das verdades de Cristo. As coisas são claras e certas, desta maneira, contudo “não aceitais o nosso testemunho”. Haverá multidões de descrentes naquilo em que (por serem tão convincentes as razões da credibilidade) não poderiam deixar de crer!

[2] As verdades que Cristo ensinava, embora transmitidas com linguagem e expressões emprestadas de coisas comuns e terrenas, ainda assim, na sua própria natureza, eram extremamente sublimes e celestiais. Isto é dado a entender no versículo 12: “‘Se vos falei de coisas terrestres’, isto é, se falei das grandes coisas de Deus por meio de similaridades com as coisas terrenas, para torná-las mais fáceis e compreensíveis, como quando falei do novo nascimento e do vento – se me adaptei às vossas capacidades, e vos falei na vossa própria língua, e não consigo fazer com que entendais minha doutrina -, o que faríeis se Eu me acomodasse à natureza das coisas, e falasse na língua dos anjos, a língua que os mortais não conseguem falar? Se estas expressões familiares são pedras de tropeço, o que poderiam ser as ideias abstratas, e as coisas espirituais, expressas de maneira adequada?” Aqui podemos aprender, em primeiro lugar, a admirar a estatura e a profundidade da doutrina de Cristo. Ela é um grande mistério da piedade. As coisas do Evangelho são coisas celestiais, fora da esfera das indagações da razão humana, e muito mais fora do alcance das suas descobertas. Em segundo lugar; a reconhecer, com gratidão, a condescendência de Cristo, porque Ele se alegra de adequar a forma da revelação do Evangelho às nossas capacidades, a falar conosco como se fôssemos crianças. Ele considera nossa estrutura, o fato de que somos originários da terra, e nosso lugar, pois estamos sobre a terra, e nos fala de coisas terrenas, e faz das coisas concretas o veículo das coisas espirituais, para torná-las mais fáceis e familiares para nós. Isto Ele fez tanto em parábolas quanto em sacramentos. Em terceiro lugar, a lamentar a corrupção da nossa natureza, e nossa grande inaptidão para receber e aceitar as verdades de Cristo. As coisas terrenas são desprezadas porque são vulgares, e as coisas celestiais, porque são abstratas e, aparentemente, de difícil compreensão. Sendo assim, qualquer que seja o método adotado, um ou outro defeito ainda serão encontrados neles (Mateus 11.17), mas, apesar disto, a Sabedoria é, e sempre será justificada através de seus filhos.

[3] Nosso Senhor Jesus, e somente Ele, estava capacitado para nos revelar uma doutrina tão certa e tão sublime: “Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu”, v. 13.

Em primeiro lugar, ninguém, exceto Cristo, tinha a capacidade de nos revelar a vontade de Deus para nossa salvação. Nicodemos dirigiu-se a Cristo como a um profeta, mas ele devia saber que Ele é maior do que todos os profetas do Antigo Testamento, pois nenhum deles tinha subido ao céu. Eles escreviam por inspiração divina, e não pelo seu próprio conhecimento. Veja cap. 1.18. Moisés subiu ao monte, mas não ao céu. Nenhum homem tem o conhecimento de Deus e das coisas celestiais como Cristo tem. Veja Mateus 11.27. Não nos cabe pedir instruções ao céu, nós devemos esperar para receber as instruções que o Céu nos enviar. Veja Provérbios 30.4; Deuteronômio 30.12.

Em segundo lugar, Jesus Cristo é capaz, e é adequado, e está completamente capacitado, para revelar a vontade de Deus para nós, pois é Ele que desceu do céu e que está no céu. Ele tinha dito (v. 12): “Como crereis, se vos falar das celestiais?” Aqui:

1. Ele lhes dá um exemplo destas coisas celestiais de que Ele lhes poderia falar, quando lhes fala de alguém que desceu do céu, e ainda assim é o Filho do homem: “O Filho do homem, que está no céu”. Se a regeneração da alma do homem é um mistério tão grande, o que será, então, a encarnação do Filho de Deus? Estas são verdadeiramente coisas divinas e celestiais. Aqui temos uma indicação das duas naturezas distintas de Cristo, em uma única pessoa: sua natureza divina, na qual Ele desceu do céu; sua natureza humana, na qual, Ele é o Filho do homem; e a união das duas, na qual embora Ele seja o Filho do Homem, também está no céu.

2. Ele lhes dá uma prova da sua capacidade de falar a eles sobre coisas celestiais, e de levá-los aos mistérios do reino do céu, ao dizer-lhes:

(1) Que Ele desceu do céu. A relação entre Deus e o homem teve início no alto. O primeiro movimento rumo a ela não subiu desta terra, mas desceu do céu. Nós o amamos, e o chamamos, porque Ele nos amou primeiro, e nos chamou. Isto sugere:

[1] A natureza divina de Cristo. Aquele que desceu do céu certamente é mais do que um mero homem, Ele é o Senhor do céu, 1 Coríntios 15.47.

[2] Sua íntima familiaridade com os conselhos divinos, pois, vindo da corte do céu, e sendo Deus, Ele tinha estado, desde a eternidade, familiarizado com eles.

[3] A manifestação de Deus. Sob o Antigo Testamento, os favores de Deus ao seu povo são expressos pelo seu ouvir do céu (2 Crônicas 7.14), atender do céu (Salmos 80.14), falar do céu (Neemias 9.13), enviar do céu, Salmos 57.3. Mas o Novo Testamento nos mostra Deus descendo do céu, para nos ensinar e salvar. O fato de que Ele tenha descido assim é um mistério admirável, pois a Divindade não pode trocar de lugar, nem trazer seu corpo do céu, mas o fato de que Ele condescendesse assim para nossa redenção é uma misericórdia ainda mais admirável. Aqui, Ele enobrece seu próprio amor.

(2) Que Ele é o Filho do homem, o Filho do homem de que Daniel falou (Daniel 7.13), e que os judeus sempre entenderam que se tratava do Messias. Cristo, ao dizer que é o Filho do homem, mostra que Ele é o segundo Adão, pois o primeiro Adão foi o pai do homem. E de todos os títulos do Antigo Testamento usados para o Messias, Ele decide fazer uso deste, porque era o que mais expressava sua humildade, e o que mais estava de acordo com sua atual condição de humilhação.

(3) Que Ele está no céu. Agora, nesta ocasião, Ele fala com Nicodemos na terra, mas ainda assim, como Deus, Ele faz parte da Divindade, que está no céu. O Filho do homem, como tal, não esteve no céu, até sua ascensão, mas aquele que era o Filho do homem estava agora, pela sua natureza divina, presente em todos os lugares, e particularmente no céu. Desta maneira, o Senhor de glória, como tal, não podia ser crucificado, nem podia Deus, como tal, derramar seu sangue, mas aquela pessoa que era o Senhor da glória foi crucificada (1 Coríntios 2.8), e Deus resgatou a igreja com seu próprio sangue. Atos 20.28. Tão íntima é a união das duas naturezas em uma pessoa, que existe uma comunicação de propriedades. Ele não diz Deus é aquele que é, e o céu é a habitação da sua santidade.

3. Aqui Cristo fala do grande desígnio da sua própria vinda ao mundo, e da felicidade daqueles que creem nele, vv. 14-18. Aqui temos a verdadeira essência de todo o Evangelho, esta palavra fiel (1 Timóteo 1.15), que consiste no fato de que Jesus Cristo veio para buscar e salvar os filhos dos homens da morte, e restaurá-los à vida. Os pecadores são homens mortos, segundo uma consideração dupla:

(1) Como alguém que está mortalmente ferido, ou afligido por uma doença incurável, é considerado um homem morto, pois está à morte. E assim Cristo veio para nos salvar, curando- nos, como a serpente de metal curava os israelitas, vv. 14,15.

(2) Como alguém que é justamente condenado a morrer por um crime imperdoável é um homem morto, ele está morto na lei. E, em referência a esta parte dos nossos perigos, Cristo veio para nos salvar como um príncipe ou juiz, promulgando um decreto de anistia, ou um perdão geral, sob determinadas condições. Esta salvação é oposta à condenação, vv. 16 -18.

[1] Jesus Cristo veio nos salvar, curando-nos, assim como os filhos de Israel que eram feridos por serpentes ardentes eram curados e viviam por olhar para a serpente de metal. Esta história está registrada em Números 21.6-9, e foi o último milagre que o Senhor realizou pelas mãos de Moisés antes da sua morte. Neste tipo de Cristo, podemos observar:

Em primeiro lugar, a natureza mortal e destrutiva do pecado, que é sugerida aqui. A culpa do pecado é como a dor da picada de uma serpente ardente. O poder de corrupção é como o veneno que se espalha por todas as partes. O Diabo é a antiga serpente, sutil a princípio (Genesis 3.1), mas desde então feroz, e suas tentações, dardos violentos; seus ataques, aterrorizadores; suas vitórias, destruidoras. Pergunte às consciências despertas, pergunte aos pecadores condenados, e eles lhe dirão que, não importa como as seduções do pecado possam ser encantadoras, no final ele morde como uma serpente, Provérbios 23.80-32. A ira de Deus contra nós, devido ao pecado, é como aquelas serpentes ardentes que Deus enviou entre o povo, para puni-los por suas murmurações. As maldições da lei são como ser pentes ardentes, assim são todos os sinais da ira divina.

Em segundo lugar, o remédio poderoso fornecido contra esta doença fatal. A situação dos pobres pecadores é deplorável, mas é desesperadora? Graças a Deus, não é. Existe bálsamo em Gileade. O Filho do homem é erguido, como a serpente de metal que curou os israelitas feridos foi erguida por Moisés.

1. Foi uma serpente de metal que os curou. O metal é brilhante. Nós lemos sobre os pés de Cristo reluzindo como latão, Apocalipse 1.15. É durável. Cristo também o é. Ela estava moldada na forma de uma serpente ardente, mas não tinha veneno, nem picava, adequadamente representando Cristo, que foi feito pecado por nós, e não conheceu pecado; foi feito à semelhança da carne pecaminosa, mas não foi pecador; tão inofensivo quanto uma serpente de metal. A serpente era uma criatura amaldiçoada, Cristo se fez maldição. A cura deveria lembrá-los do seu mal, e assim, em Cristo, o pecado é apresentado diante de nós da forma mais violenta e terrível possível.

2. Ela foi erguida em uma haste, e o Filho do homem também devia ser levantado. Convinha a Ele, Lucas 24.26,46. Não há remédio agora. Cristo é erguido:

(1) Na sua crucificação. Ele foi levantado na cruz. Está escrito que, na sua morte, Ele foi levantado, cap. 12.32,33. Ele foi levantado como um espetáculo, como uma marca, levantado entre o céu e a terra, como se tivesse sido indigno de qualquer um deles, e tivesse sido abandonado por ambos.

(2) Na sua exaltação. Ele foi elevado até à destra do Pai, para dar o arrependimento e a remissão. Ele foi levantado na cruz, para depois ser levantado até à coroa.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.