PSICOLOGIA ANALÍTICA

FORMAS DE MORRER

Pode parecer estranho, mas viver alheio de si mesmo também é uma forma de morrer.

Formas de morrer

E então ele, desesperado com o rumo que as coisas haviam tomado, avançou sobre a mulher, desferindo- lhe repetidos golpes de faca que, seguidamente, reafirmavam a dimensão de seu fracasso: como homem, como marido, como pai daquela linda família congelada nas lembranças das mídias sociais. Seria preciso apagar os indícios de sua existência, já que não seria capaz de conviver com seu peso acusatório. No derradeiro controle da realidade que o cercara, joga os dois filhos do 18º andar, atirando-se, em seguida, rumo ao final de seu sofrimento.

No apartamento, a carta deixada sobre um móvel qualquer enumera “justificativas” para o ato. Todas elas girando em torno de um fracasso profissional, uma cartada arriscada para ganhar mais (e, é claro, assumida apenas pelo “bem da família”) e um contrato mal acordado que lhe trazia revés financeiro.

A despeito do tom de folhetim, a cena acima descreve um fato real ocorrido no Rio de Janeiro há poucos meses.

A imprensa, como não poderia deixar de ser, recorre a especialistas para explicar o fato. Alguns são comedidos ao fazê-lo. Em síntese, afirmam que não é possível que se faça nenhuma análise confiável sem que se conheçam os envolvidos. Já outros, deslumbrados com seus minutos de fama, desferem um sem­ número de asneiras que giram em torno de valores materialistas, pressões da sociedade de consumo e coisas do gênero. De fato, só existe uma razão que justifica a tragédia: a doença de seu protagonista que não enxergou nenhuma alternativa, nenhum outro recurso, senão o escolhido, para lidar com seus problemas. O que jamais saberemos – e que para tanto precisaríamos conhecê-lo profundamente – são as razões que o levaram ao desenvolvimento de sua doença. Contudo, uma coisa parece certa: dentro da sua confusão mental, o suicida parece realmente acreditar que seu ato se justificaria pelas razões que descreve em sua carta derradeira.

Isso posto, não estamos aqui discutindo as causas do homicídio/suicídio, mas talvez possamos analisar a justificativa deixada pelo suicida, essa sim talvez um retrato de uma sociedade doente e com indivíduos alheios a si mesmos.

Desde que nascemos somos educados para atingir o sucesso. Nossos pais, zelosos, empenham- se para isso logo nos nossos primeiros anos de vida, ao nos escolherem a melhor escola possível, o curso de inglês, o reforço de matemática, os sermões sobre a importância dos estudos. Mas, afinal de contas, o que significa o sucesso? Seria o resultado de um trabalho constante? De dedicação a um objetivo? Muitos diriam que sim e é justamente aí que se encontra o problema.

Somos levados a crer no sucesso como sendo o resultado de algo. Uma espécie de pote de ouro no fim do arco-íris. Mas o verdadeiro sucesso é processo. Parafraseando Guimarães, eu diria que “ele se dispõe pra gente é no meio da travessia”.

A crença no sucesso (e até mesmo na felicidade) como resultado de algo facilmente leva o crente a associá-lo à simples conquista de metas e objetivos, o que traz em si algumas implicações. A primeira delas é simples: não há garantias de que possamos atingi-los. Muitas coisas podem acontecer no meio do caminho e uma delas – talvez a mais dramática de todas – seria uma vida inteira vivida com sentimento de fracasso e infelicidade por algo que não se conquistou: “Pobrezinho, morreu de enfarte a um mês da tão sonhada aposentadoria!”.

A outra implicação da crença no sucesso como resultado do cumprimento de metas é a necessidade de nos perguntarmos se nossas metas são dignas de nós. Se retratam quem somos, nossos valores mais íntimos, nossa verdade mais profunda. Aí sim entra o perigo de construirmos uma vida não simplesmente buscando o sucesso como a conquista de algo, mas de um algo estéril, destituído de nós mesmos. Nesses casos, talvez o suicídio represente o fim de alguma coisa que há muito havia morrido.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, tem curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.  graziano@)psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

AINDA TEM MUITO CHÃO

Pesquisa mostra que o sistema de cotas fez aumentar o número de negros no ensino superior, mas a proporção de brancos cresceu mais ainda no mesmo período.

Ainda tem muito chão

Ao começar a ser implantado em 2002, o sistema decotas prometia ser um impulso vital na direção do fim da desigualdade entre negros e brancos no ensino superior brasileiro. Graças às cotas, de fato, o número de negros universitários praticamente quadruplicou. Naquele ano, do total de jovens pretos e pardos entre 18 e 24 anos no Brasil, apenas 3,8% estavam nas universidades. Passados quinze anos, a proporção subiu para 14% –  o que é uma excelente notícia. Uma pesquisa inédita mostra, no entanto, que, apesar desse avanço louvável, a desigualdade racial no ensino superior praticamente não se alterou – na verdade, ela até cresceu.

Estudo do Instituto IDados, do Rio de Janeiro, baseado em números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), informa que, em 1992, do total de jovens negros apenas 1,5% estava matriculado em universidades, enquanto os brancos eram 7,3% – uma diferença de 5,8 pontos porcentuais. Em 2017, os negros alcançaram os citados 14%, mas a proporção de brancos disparou para 27% – ou 13 pontos de diferença. A explicação está no crescente papel no ensino superior brasileiro das universidades privadas, que não cabem no bolso da população pobre (no Brasil, quase sinônimo de negra). As cotas são obrigatórias nas instituições públicas e todas (menos a Universidade Estadual do Paraná) aderiram ao sistema.

Desde a implantação das cotas, as matrículas nas escolas federais e estaduais – de negros e brancos – dobraram. Nas privadas, triplicaram. É nelas, hoje, que estão três de cada quatro universitários. ”A maior parte desse aumento de matrículas veio de financiamentos públicos, e quem se beneficia deles é a população branca”, diz a pesquisadora Talita Mereb, do IDados. Isso explica por que a diferença se tornou ainda maior. Assim, a ideia de que a proporção de negros e brancos nas universidades seja igual à da população em geral acabou ficando mais distante.

Por mais que as cotas tenham aumentado o número de negros no ensino superior, elas continuam sendo, e sempre serão, uma ferramenta paliativa – selecionam os melhores e deixam de fora a enorme massa de negros que nem passa das fases iniciais do aprendizado. “É mais eficaz e barato corrigir as distorções no acesso ao ensino, na primeira infância, quando o cérebro da criança está sendo formado. Tudo o que acontecer nos dois primeiros anos de vida de um ser humano tende a se perpetuar ao longo de sua vida”, diz João Batista de Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beta. Enquanto o ensino básico público não tiver qualidade, negros e pobres continuarão a perder a corrida para a universidade.

Ainda tem muito chão.2

GESTÃO E CARREIRA

ATITUDES PARA MANTER A EFICÁCIA

Alto grau de eficiência e equilíbrio é o resultado que buscamos constantemente para a vida pessoal e profissional e que também esperamos encontrar nas empresas em que trabalhamos.

Atitudes para manter a eficácia

Organizar, gerir, liderar, entre outras inúmeras atribuições do mundo corporativo, geram tensão e estresse, o que acaba nos desestabilizando em certos momentos. Mas diante desse cenário, será possível manter a produtividade e os resultados sem que se percam a serenidade e o controle da situação? Como podemos agir de forma mais eficaz e enfrentar melhor os desafios do cotidiano profissional?

Antes de tudo, é necessário entender que para sobreviver aos incontáveis compromissos, à correria do dia a dia e às exigências de produtividade e prazos, é preciso de disciplina mental, comportamental e algumas atitudes que colaboram para a eficácia profissional.

Não acumular trabalho, por exemplo, é um ponto muito importante. Adiar as tarefas a serem feitas não é algo inato no ser humano, mas sim um hábito que pode ser mudado e treinado.

Mantenha a atenção no movimento ativo e construtivo que precisa ser feito. Às vezes, as pessoas adiam trabalhos que poderiam ser resolvidos em poucos minutos. Quando não temos tempo suficiente para finalizar um trabalho, precisamos nos questionar e compreender que o problema não é o tempo, mas sim algo que estamos fazendo de forma improdutiva ou que estamos deixando de fazer. Distrações variadas ou até mesmo pessoas que estão ao redor podem gerar interrupções que roubam um tempo precioso, por isso é preciso cuidado nesse aspecto.

Se permitirmos que conversas, comentários, telefonemas, celular e mensagens nos distraiam demais e tirem a atenção e o foco durante o trabalho, é necessário treinar a nossa capacidade de concentração direcionada. O sucesso e o êxito exigem uma mente ordenada, que sabe, naturalmente, concentrar a atenção na tarefa que está fazendo, que não é afetada por intervenção externa, mas mantém seus pensamentos constantemente organizados e focados por um período suficientemente longo de tempo. Isso permite fortalecer a autoconfiança, calma, clareza mental e força interior.

Pesquisa realizada pela Robert Half nos Estados Unidos, com 300 diretores de RH, revelou que uma mesa desorganizada coloca em cheque as competências e a eficácia de um colaborador. Essa é a percepção de 32% dos entrevistados pela consultoria – e eles não estão errados. Um local de trabalho coberto de papéis e materiais bloqueia a produtividade e aumenta a confusão, não só externa e concreta, mas também mental, de pensamentos, decisões e ideias. A desordem desenvolve um círculo vicioso: adiar a organização do ambiente de trabalho cria a desorganização que, por sua vez, alimenta a procrastinação e mantém a desordem.

Alguma vez já aconteceu de perder muito tempo procurando algo fora do lugar? Demora-se mais tempo procurando documentos na bagunça do que em decidir agir e organizar o que é preciso. Quem consegue organizar seu sistema e ambiente de trabalho aumenta muito a sua performance e os seus resultados.

Uma organização externa e material ajuda a criar uma organização mental e vice-versa. Porém, grande parte da energia e do tempo desperdiçados é decorrente de uma mente desorganizada, ou seja, pela falta de objetivos claros, de planejamento e de definição de prioridades.

Para evitar essa perda, mantenha o foco no planejamento e não no improviso. Às vezes, recusamos a nos programar por acreditar na ideia de que o improviso está associado à liberdade, quando, na verdade, é o contrário. Livre é quem sabe planejar, pois consegue equilibrar melhor o tempo, as exigências, tarefas e a ânsia dos prazos que se aproximam. Priorize suas atividades e tarefas, permitindo que seus próprios projetos sejam concluídos com mais eficácia. Quando nos distraímos, temos a tendência de agir de forma improdutiva. Além disso, é muito importante saber dizer não quando necessário, pois ao assumir compromissos que não são de sua competência, seu tempo e energia podem ser desperdiçados.

Uma mente organizada permite ter ação e não procrastinar, portanto treine sempre o hábito de agir. Uma vez identificados os objetivos e as soluções, é importante segui-los, e a autodisciplina é essencial para bloquear os eventuais hábitos limitantes. Não bastam os dons naturais, os talentos e potenciais, se estes não forem aperfeiçoados, direcionados e colocados a serviço de um objetivo.

Sabemos que algumas variáveis são imprevisíveis e fogem do nosso controle, mesmo fazendo todos os planejamentos possíveis. Mas, exatamente por essa razão, treinar a capacidade de planejar nos permite antecipar as consequências, prever quais resultados as ações poderão ter, e gerenciar melhor as urgências que podem aparecer. Assim, ficamos mais disciplinados e aumentamos a nossa própria realização e satisfação.

O paradoxo é que quando estamos agindo dentro desses padrões de comportamento – acumular trabalho, permitir interrupções e manter a desorganização – perdemos muito tempo e nos tornamos extremamente ocupados e atarefados, e acabamos dedicando pouco tempo e atenção para verificar e avaliar para onde estamos indo, qual a direção do nosso trabalho e da nossa vida.

Não precisamos mais enfrentar continuamente emergências, nem ficarmos esgotados trabalhando de forma confusa e improdutiva, mas podemos encontrar energia, calma interior e vontade de realizar cuidando do que realmente é importante e, assim, conquistar resultados significativos para todas as esferas da vida.

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua publicação mais recente. www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE III

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte III

2. Aqui está um sermão a respeito da certeza e da sublimidade das verdades do Evangelho. O Senhor Jesus Cristo aproveita a fraqueza de Nicodemos para proferi-lo. Aqui temos:

(1) A objeção que Nicodemos ainda fez (v.9): “Como pode ser isso?” A explicação de Cristo da doutrina da necessidade da regeneração, aparentemente, não ficou clara para ele. A corrupção da natureza que a torna necessária, e a maneira como o Espírito a torna executável, são mistérios para ele, tanto quanto o próprio evento. Embora, de maneira geral, ele reconhecesse Cristo como um mestre divino, ele ainda se recusava a receber seus ensinamentos, quando não estavam de acordo com as noções que o impregnavam. Desta maneira, muitos professam aceitar a doutrina de Cristo, de uma forma geral, mas, na realidade, não crêem nas verdades do cristianismo, nem se submetem a elas. Estes seguem suas próprias vontades. Cristo será seu professor, desde que eles possam escolher sua lição. Aqui:

[1] Nicodemos reconhece ser ignorante do que Cristo quer dizer afinal: “‘Como pode ser isso?’ Estas são coisas que eu não consigo compreender, minha capacidade não as alcança”.

Assim, “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura”. Ele não somente é alheio a elas, e desta forma elas são obscuras a ele, mas ele também é preconceituoso contra elas, e por isto são loucura par a ele.

[2] Por esta doutrina ser incompreensível para si (assim ele se satisfazia em torná-la), ele questiona a verdade que há nela, como se, por ser um paradoxo para ele, fosse uma quimera em si mesma. Muitos têm esta opinião sobre sua própria capacidade, a ponto de pensar que aquilo em que eles não conseguem crer não possa ser provado. Eles não conhecem Cristo de uma forma sábia.

(2)  A repreensão que Cristo fez, devido à estupidez e ignorância de Nicodemos: “‘Tu és mestre de Israel’, um tutor, alguém que se senta na cadeira de Moisés, e não somente não está familiarizado com a doutrina da regeneração, mas também é incapaz de compreendê-la?” Isto é uma reprovação:

[1] Àqueles que se incumbem de ensinar os outros, e ainda assim eles mesmos são ignorantes e inexperientes na palavra da justiça.

[2] Àqueles que passam seu tempo aprendendo e ensinando noções e cerimônias religiosas, detalhes e críticas às Escrituras, e se esquecem daquilo que é prático e que transforma o coração e a vida. Duas palavras na repreensão são muito enfáticas. Em primeiro lugar, o local onde sua sorte tinha sido lançada: em Israel, onde havia tanta abundância de meios de conhecimento, onde estava a revelação divina. Ele podia ter aprendido isto do Antigo Testamento. Em segundo lugar, as coisas de que ele era ignorante: essas coisas, essas coisas necessárias, essas coisas grandiosas, essas coisas divinas. Será que ele nunca tinha lido Salmos 50.5,10; Ezequiel 18.31; 36.25,26?

(3)  O sermão de Cristo, como consequência disto, sobre a certeza e a sublimidade das verdades do Evangelho (vv. 11-13), para mostrar a loucura daqueles que se fazem alheios a estas coisas, e recomendar que as busquemos. Observe aqui:

[1] Que as verdades que Cristo ensinava eram garantidas. Elas são dignas de absoluta confiança (v. 11): “Nós dizemos o que sabemos”. Nós. A quem Ele se refere, além de si mesmo? Alguns opinam que Ele se referia àqueles que testificavam dele e com Ele na terra, os profetas e João Batista. Eles diziam o que sabiam e tinham visto, aquilo com que estavam plenamente satisfeitos. A revelação divina traz suas próprias evidências consigo. Outros julgam que Ele se referia àqueles que davam testemunho no céu, o Pai e o Espírito Santo. O Pai estava com Ele, o Espírito do Senhor estava sobre Ele, por isto Ele fala no plural, como em João 14.23: “Viremos para ele”. Observe, em primeiro lugar, que as verdades de Cristo são de certeza indubitável. Nós temos todas as razões do mundo para ter certeza de que as palavras de Cristo são palavras fiéis, e em que podemos arriscar nossas almas, pois Ele não somente é uma testemunha digna de crédito, que não faria nada para nos enganar, mas é também uma testemunha competente, que não se deixaria enganar: “Testificamos o que vimos”. Ele não fala do que ouviu dizer, mas fala sobre as evidências mais claras, e, portanto, com a maior certeza. Aquilo que Ele falava sobre Deus, sobre o mundo invisível, sobre o céu e o inferno, sobre a vontade divina a nosso respeito, e os conselhos de paz, era aquilo que Ele conhecia, e tinha visto, pois Ele estava com Deus, o Pai, como alguém que sempre viveu com Ele, Provérbios 8.30.Tudo o que Cristo dizia, Ele dizia com base no seu próprio conhecimento. Em segundo lugar, que a incredulidade dos pecadores é enormemente agravada pela infalível certeza das verdades de Cristo. As coisas são claras e certas, desta maneira, contudo “não aceitais o nosso testemunho”. Haverá multidões de descrentes naquilo em que (por serem tão convincentes as razões da credibilidade) não poderiam deixar de crer!

[2] As verdades que Cristo ensinava, embora transmitidas com linguagem e expressões emprestadas de coisas comuns e terrenas, ainda assim, na sua própria natureza, eram extremamente sublimes e celestiais. Isto é dado a entender no versículo 12: “‘Se vos falei de coisas terrestres’, isto é, se falei das grandes coisas de Deus por meio de similaridades com as coisas terrenas, para torná-las mais fáceis e compreensíveis, como quando falei do novo nascimento e do vento – se me adaptei às vossas capacidades, e vos falei na vossa própria língua, e não consigo fazer com que entendais minha doutrina -, o que faríeis se Eu me acomodasse à natureza das coisas, e falasse na língua dos anjos, a língua que os mortais não conseguem falar? Se estas expressões familiares são pedras de tropeço, o que poderiam ser as ideias abstratas, e as coisas espirituais, expressas de maneira adequada?” Aqui podemos aprender, em primeiro lugar, a admirar a estatura e a profundidade da doutrina de Cristo. Ela é um grande mistério da piedade. As coisas do Evangelho são coisas celestiais, fora da esfera das indagações da razão humana, e muito mais fora do alcance das suas descobertas. Em segundo lugar; a reconhecer, com gratidão, a condescendência de Cristo, porque Ele se alegra de adequar a forma da revelação do Evangelho às nossas capacidades, a falar conosco como se fôssemos crianças. Ele considera nossa estrutura, o fato de que somos originários da terra, e nosso lugar, pois estamos sobre a terra, e nos fala de coisas terrenas, e faz das coisas concretas o veículo das coisas espirituais, para torná-las mais fáceis e familiares para nós. Isto Ele fez tanto em parábolas quanto em sacramentos. Em terceiro lugar, a lamentar a corrupção da nossa natureza, e nossa grande inaptidão para receber e aceitar as verdades de Cristo. As coisas terrenas são desprezadas porque são vulgares, e as coisas celestiais, porque são abstratas e, aparentemente, de difícil compreensão. Sendo assim, qualquer que seja o método adotado, um ou outro defeito ainda serão encontrados neles (Mateus 11.17), mas, apesar disto, a Sabedoria é, e sempre será justificada através de seus filhos.

[3] Nosso Senhor Jesus, e somente Ele, estava capacitado para nos revelar uma doutrina tão certa e tão sublime: “Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu”, v. 13.

Em primeiro lugar, ninguém, exceto Cristo, tinha a capacidade de nos revelar a vontade de Deus para nossa salvação. Nicodemos dirigiu-se a Cristo como a um profeta, mas ele devia saber que Ele é maior do que todos os profetas do Antigo Testamento, pois nenhum deles tinha subido ao céu. Eles escreviam por inspiração divina, e não pelo seu próprio conhecimento. Veja cap. 1.18. Moisés subiu ao monte, mas não ao céu. Nenhum homem tem o conhecimento de Deus e das coisas celestiais como Cristo tem. Veja Mateus 11.27. Não nos cabe pedir instruções ao céu, nós devemos esperar para receber as instruções que o Céu nos enviar. Veja Provérbios 30.4; Deuteronômio 30.12.

Em segundo lugar, Jesus Cristo é capaz, e é adequado, e está completamente capacitado, para revelar a vontade de Deus para nós, pois é Ele que desceu do céu e que está no céu. Ele tinha dito (v. 12): “Como crereis, se vos falar das celestiais?” Aqui:

1. Ele lhes dá um exemplo destas coisas celestiais de que Ele lhes poderia falar, quando lhes fala de alguém que desceu do céu, e ainda assim é o Filho do homem: “O Filho do homem, que está no céu”. Se a regeneração da alma do homem é um mistério tão grande, o que será, então, a encarnação do Filho de Deus? Estas são verdadeiramente coisas divinas e celestiais. Aqui temos uma indicação das duas naturezas distintas de Cristo, em uma única pessoa: sua natureza divina, na qual Ele desceu do céu; sua natureza humana, na qual, Ele é o Filho do homem; e a união das duas, na qual embora Ele seja o Filho do Homem, também está no céu.

2. Ele lhes dá uma prova da sua capacidade de falar a eles sobre coisas celestiais, e de levá-los aos mistérios do reino do céu, ao dizer-lhes:

(1) Que Ele desceu do céu. A relação entre Deus e o homem teve início no alto. O primeiro movimento rumo a ela não subiu desta terra, mas desceu do céu. Nós o amamos, e o chamamos, porque Ele nos amou primeiro, e nos chamou. Isto sugere:

[1] A natureza divina de Cristo. Aquele que desceu do céu certamente é mais do que um mero homem, Ele é o Senhor do céu, 1 Coríntios 15.47.

[2] Sua íntima familiaridade com os conselhos divinos, pois, vindo da corte do céu, e sendo Deus, Ele tinha estado, desde a eternidade, familiarizado com eles.

[3] A manifestação de Deus. Sob o Antigo Testamento, os favores de Deus ao seu povo são expressos pelo seu ouvir do céu (2 Crônicas 7.14), atender do céu (Salmos 80.14), falar do céu (Neemias 9.13), enviar do céu, Salmos 57.3. Mas o Novo Testamento nos mostra Deus descendo do céu, para nos ensinar e salvar. O fato de que Ele tenha descido assim é um mistério admirável, pois a Divindade não pode trocar de lugar, nem trazer seu corpo do céu, mas o fato de que Ele condescendesse assim para nossa redenção é uma misericórdia ainda mais admirável. Aqui, Ele enobrece seu próprio amor.

(2) Que Ele é o Filho do homem, o Filho do homem de que Daniel falou (Daniel 7.13), e que os judeus sempre entenderam que se tratava do Messias. Cristo, ao dizer que é o Filho do homem, mostra que Ele é o segundo Adão, pois o primeiro Adão foi o pai do homem. E de todos os títulos do Antigo Testamento usados para o Messias, Ele decide fazer uso deste, porque era o que mais expressava sua humildade, e o que mais estava de acordo com sua atual condição de humilhação.

(3) Que Ele está no céu. Agora, nesta ocasião, Ele fala com Nicodemos na terra, mas ainda assim, como Deus, Ele faz parte da Divindade, que está no céu. O Filho do homem, como tal, não esteve no céu, até sua ascensão, mas aquele que era o Filho do homem estava agora, pela sua natureza divina, presente em todos os lugares, e particularmente no céu. Desta maneira, o Senhor de glória, como tal, não podia ser crucificado, nem podia Deus, como tal, derramar seu sangue, mas aquela pessoa que era o Senhor da glória foi crucificada (1 Coríntios 2.8), e Deus resgatou a igreja com seu próprio sangue. Atos 20.28. Tão íntima é a união das duas naturezas em uma pessoa, que existe uma comunicação de propriedades. Ele não diz Deus é aquele que é, e o céu é a habitação da sua santidade.

3. Aqui Cristo fala do grande desígnio da sua própria vinda ao mundo, e da felicidade daqueles que creem nele, vv. 14-18. Aqui temos a verdadeira essência de todo o Evangelho, esta palavra fiel (1 Timóteo 1.15), que consiste no fato de que Jesus Cristo veio para buscar e salvar os filhos dos homens da morte, e restaurá-los à vida. Os pecadores são homens mortos, segundo uma consideração dupla:

(1) Como alguém que está mortalmente ferido, ou afligido por uma doença incurável, é considerado um homem morto, pois está à morte. E assim Cristo veio para nos salvar, curando- nos, como a serpente de metal curava os israelitas, vv. 14,15.

(2) Como alguém que é justamente condenado a morrer por um crime imperdoável é um homem morto, ele está morto na lei. E, em referência a esta parte dos nossos perigos, Cristo veio para nos salvar como um príncipe ou juiz, promulgando um decreto de anistia, ou um perdão geral, sob determinadas condições. Esta salvação é oposta à condenação, vv. 16 -18.

[1] Jesus Cristo veio nos salvar, curando-nos, assim como os filhos de Israel que eram feridos por serpentes ardentes eram curados e viviam por olhar para a serpente de metal. Esta história está registrada em Números 21.6-9, e foi o último milagre que o Senhor realizou pelas mãos de Moisés antes da sua morte. Neste tipo de Cristo, podemos observar:

Em primeiro lugar, a natureza mortal e destrutiva do pecado, que é sugerida aqui. A culpa do pecado é como a dor da picada de uma serpente ardente. O poder de corrupção é como o veneno que se espalha por todas as partes. O Diabo é a antiga serpente, sutil a princípio (Genesis 3.1), mas desde então feroz, e suas tentações, dardos violentos; seus ataques, aterrorizadores; suas vitórias, destruidoras. Pergunte às consciências despertas, pergunte aos pecadores condenados, e eles lhe dirão que, não importa como as seduções do pecado possam ser encantadoras, no final ele morde como uma serpente, Provérbios 23.80-32. A ira de Deus contra nós, devido ao pecado, é como aquelas serpentes ardentes que Deus enviou entre o povo, para puni-los por suas murmurações. As maldições da lei são como ser pentes ardentes, assim são todos os sinais da ira divina.

Em segundo lugar, o remédio poderoso fornecido contra esta doença fatal. A situação dos pobres pecadores é deplorável, mas é desesperadora? Graças a Deus, não é. Existe bálsamo em Gileade. O Filho do homem é erguido, como a serpente de metal que curou os israelitas feridos foi erguida por Moisés.

1. Foi uma serpente de metal que os curou. O metal é brilhante. Nós lemos sobre os pés de Cristo reluzindo como latão, Apocalipse 1.15. É durável. Cristo também o é. Ela estava moldada na forma de uma serpente ardente, mas não tinha veneno, nem picava, adequadamente representando Cristo, que foi feito pecado por nós, e não conheceu pecado; foi feito à semelhança da carne pecaminosa, mas não foi pecador; tão inofensivo quanto uma serpente de metal. A serpente era uma criatura amaldiçoada, Cristo se fez maldição. A cura deveria lembrá-los do seu mal, e assim, em Cristo, o pecado é apresentado diante de nós da forma mais violenta e terrível possível.

2. Ela foi erguida em uma haste, e o Filho do homem também devia ser levantado. Convinha a Ele, Lucas 24.26,46. Não há remédio agora. Cristo é erguido:

(1) Na sua crucificação. Ele foi levantado na cruz. Está escrito que, na sua morte, Ele foi levantado, cap. 12.32,33. Ele foi levantado como um espetáculo, como uma marca, levantado entre o céu e a terra, como se tivesse sido indigno de qualquer um deles, e tivesse sido abandonado por ambos.

(2) Na sua exaltação. Ele foi elevado até à destra do Pai, para dar o arrependimento e a remissão. Ele foi levantado na cruz, para depois ser levantado até à coroa.