PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER LIMITADO DA RAZÃO

O desastre mundial no combate à dependência química pode ser considerado um retrato da nossa insistência em reduzir a importância do afeto como agente de mudança, colocando-o à sombra do intelecto.

O poder limitado da razão

A sofisticada capacidade de buscar justificativas lógicas para tudo o que acontece dentro e fora de nós não é, ao contrário do que parece, a protagonista das nossas decisões. A verdade é que as razões que arquitetamos por vezes com tanta engenhosidade têm pouca influência sobre a forma como vivemos – dos hábitos e tarefas que executamos até as pessoas das quais nos aproximamos. A consciência nem tem acesso à maior parte do que está sendo processado em nosso cérebro e é ali, nesse universo desconhecido da nossa identidade, que são feitas as escolhas que moldam a vida. É dali que surgem o que chamamos de insights, ali que nascem as paixões, que se forma o senso de conexão e pertencimento e tudo o que consideramos produto da intuição. Isso explica por que as melhores ideias são aquelas que dão a impressão de que nos encontraram, chegaram a nós – e não o contrário. Não raramente, a forma como respondemos a situações emocionalmente muito significativas causa o mesmo estranhamento.

Não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e os desafios da convivência social e suas inevitáveis falhas de comunicação nos enviam constantes pistas desse fato. Para que possamos nos entender melhor é preciso redefinir o conceito de “conhecer”, conforme conclui o neurocientista David Eagleman em Incógnito as Vidas Secretas do Cérebro. “O autoconhecimento requer agora entender que o você consciente só ocupa uma salinha na mansão do cérebro e que ele tem pouco controle sobre a realidade que você constrói. A invocação ‘conhece-te a ti mesmo’ precisa ser considerada de novas maneiras”, avalia.

A sensação de ter o controle absoluto dos próprios atos e reações pode trazer segurança em alguns momentos, mas ser um peso esmagador em outros, pois vem com carga de responsabilidade e culpa. Não apenas somos pouco compreensivos com relação às próprias fraquezas ou falhas: dificilmente interpretamos os comportamentos dos outros como resultado de fatores que ficam fora do campo do intelecto.

Como já verificou o neurocientista português Antônio Damásio, somos incapazes de tomar qualquer tipo de decisão sem antes consultarmos nosso campo emocional. E nossas emoções são extremamente suscetíveis aos mais variados fatores, momentâneos ou enraizados: carências plantadas ainda na infância, dificuldades, alterações hormonais, cansaço, falta de sono, problemas de saúde e todos os tipos de medos influenciam profundamente a forma como agimos, pensamos e nos relacionamos.

“Sentimentos, juntamente com as emoções de onde eles surgiram, não são um luxo supérfluo. Eles servem como guias internos e nos ajudam a comunicar sinais que também servem de guias aos outros. Não são intangíveis nem elusivos. De forma contrária à opinião científica, são tão cognitivos quanto outras percepções”, escreveu Damásio em seu fantástico O Erro de Descartes.

Ao investigar pessoas com danos no sistema límbico, onde as emoções são geradas, ele percebeu nelas uma incapacidade de fazer até as mais simples escolhas. A imparcialidade em qualquer tipo de julgamento, portanto, é sempre suspeita, e até o mais racional dos seres humanos é refém de suas emoções, mesmo que escondidas timidamente sob o manto da razão. Por isso, armar embates contra o intelecto, ao superestimar sua capacidade de controlar o comportamento, em algumas circunstâncias pode ser muito ineficaz.

Um bom exemplo disso está na dificuldade de mudarmos alguns comportamentos, tendo a razão nos convencido de que é o que deve ser feito não nos falta o conhecimento de argumentos lógicos que suportem a mudança, nem quem tente nos influenciar usando racionalidade. Mas a lógica, apesar de impressionar, é pouco motivadora quando o que se busca é um movimento profundo. Dentro desse desafio encontram-se vícios de todos os tipos – das condenadas dependências químicas às inevitáveis e mais aceitas dependências emocionais. Seja qual for a forma que assumem, elas surgem da mesma necessidade, que é a busca por vínculos. Portanto, se o comportamento nasce e reside na via emocional, é somente por meio dessa via que pode ser alterado.

Para exercer uma ação transformadora na vida de alguém é preciso buscar conexão afetiva antes de oferecer qualquer solução baseada na razão. Isso se constrói pela forma como nos comunicamos. Uma comunicação eficaz atinge positivamente o campo emocional em um nível subconsciente – algo muito mais poderoso que a supervalorizada comunicação verbal. O amor e a empatia não se transmitem apenas com palavras. Elas têm seu papel e podem assegurá-los, mas pertencem ao universo limitado e questionável da razão.

O desastre mundial no combate à dependência química pode ser considerado um retrato da nossa insistência em reduzir a importância do afeto como agente de mudança, colocando­ o à sombra do intelecto. Lutamos usando palavras e castigos como armas e, quando o método falha, promovemos o isolamento dos desobedientes. E o vínculo com as drogas, na falta de outros significativos, torna-se ainda mais necessário.

Aos poucos, a discussão sobre o que o vício de fato representa está se distanciando do preconceito e oferecendo soluções mais humanas e eficazes. O caso de Portugal é um exemplo disso: diante da evidente ineficiência dos tratamentos tradicionais, que partem de um julgamento moral, o país tomou a inédita iniciativa de descriminalizar o uso de todas as drogas. A questão passou a ser tratada como um problema emocional e de saúde. A penalização foi convertida para a ações motivadoras, com a atuação, em casos mais graves, de profissionais da saúde mental e assistentes sociais. Quinze anos depois, podemos dizer que o resultado foi um sucesso. Os índices de reincidência e uso contínuo de drogas caíram de forma inédita e os casos de morte por overdose foram reduzidos drasticamente.

No Brasil, a conquista recente no tratamento da dependência foi a liberação, pela Anvisa, da importação e uso da Ibogaína, uma substância psicodélica retirada da raiz de uma espécie de arbusto africano. Até hoje não se encontrou forma mais eficaz de livrar alguém de algum vício. Enquanto centros de recuperação alcançam êxito próximo do zero no abandono definitivo às drogas, o uso da planta oferece, em uma única sessão, uma taxa de 70% de chance de recuperação. A substância promove alterações químicas no cérebro favoráveis à mudança, mas seu grande êxito está em manter o paciente livre do vício – o que pode ser explicado por sua profunda ação psicológica.

A droga permite o acesso a memórias e a todas as emoções encobertas pela capa impermeável da lucidez. Atua no nível em que as verdadeiras transformações ocorrem, como uma sessão intensiva da mais eficaz das terapias – aquela que age onde a lógica não chega e promove percepções que não cabem em palavras.

 

MICHELE MULER – é especialista em Neurociências e Neuropsicologia da Educação. Pesquisa e cria ferramentas para o desenvolvimento da linguagem. É autora do blog wwwJeituraesentido.blogspot.com

OUTROS OLHARES

UMA CONQUISTA PARA A FAMÍLIA

Projeto de lei, em caso de aprovação, incidirá sobre a Lei da Alienação Parental, criminalizando essa prática, que traz como consequência inúmeros problemas para crianças e adolescentes.

Uma conquista para a família

Em 10 de fevereiro de 2017 foi apresentado à Câmara dos Deputados o projeto de lei nº 4.488 [DMP1], de autoria do deputado Arnaldo Faria de Sá (PDT-SP) e sob relatoria da deputada Shéridan ( PSDB-RR ) desde 08/ 06 / 2016, que, se aprovado e convertido em lei, incidirá sobre a Lei nº 12.318/ 2010 (Lei da Alienação Parental) no tocante à necessidade de criminalização dos atos de alienação parental. O objetivo é imputar responsabilidade e sanções mais severas e eficazes a quem pratica e a quem cola bora e/ou facilita os atos de alienação, em qualquer das formas elencadas nos incisos exemplificativos do parágrafo único do artigo 2° [DMP1] da referida lei, que até então não estavam surtindo os efeitos esperados para coibir e erradicar definitivamente essa prática perniciosa.

O projeto de lei pretenderá penalizar as práticas de alienação parental, a partir da premissa do artigo 3° [DMP1] da Lei da Alienação Parental, que considera tal ato um “abuso psicológico  indesculpável contra a criança ou adolescente”, pois fere direito fundamental da criança ou do adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização de afeto nas relações com  genitor e com o grupo familiar e fomenta o descumprimento impune dos deveres inerentes à autoridade parental ou decorrentes de tutela ou guarda. As sanções previstas no artigo 6° [DMP1]  da referida lei não estavam sendo devidamente aplicadas e/ou não surtiam o efeito desejado e necessário: assim é que genitores alienadores que acusavam o outro de abuso sexual inverídico não perdiam a guarda dos filhos, pagavam multa, mas continuavam impedindo o outro de conviver com os filhos, viajavam ou se mudavam de localidade alegando uma motivação qualquer (ou nem isso! ) só para dificultar o acesso da criança ao (à) outro(a) genitor(a).

O mais grave é que a mesma autoridade judicial que determinou a sanção àquele( a) genitor(a) alienador(a), por vezes reincidente e renitente em cumpri-la, não expede nenhuma providência em outro âmbito (ex.: criminal) para efetivamente puni-lo (a), o que aumenta ainda mais a sensação de impunidade – o que prejudica de forma mais danosa o desenvolvimento dos filhos, porque além do mau exemplo de se acusar e atacar o outro existe a “lição” de que “nada vai acontecer”, então o filho vai poder acusar levianamente um professor ou chefe só porque o contrariou, sem que isso tenha consequências. A intenção pedagógica original (do artigo 6° da Lei n º 1 2.318/ 2010) de conscientizar o(a) alienador(a) e minimizar os danos familiares resultou na situação inversa: aumentou a crença de que “o juiz não manda na minha casa”,  então se o(a) alienador(a) está,  supostamente,  “protegendo a criança”,  isso é suficiente  para o Judiciário “não se intrometer”. Para o Judiciário, fica uma sensação de impotência ou de inércia (omissão) porque nenhuma das suas determinações estaria sendo cumprida, ocorrendo um esvaziamento da autoridade judicial e um fortalecimento das práticas inescrupulosas de alienação parental. Cria-se, assim, o instituto da Alienação Parental Judicial, que ocorre quando o próprio Judiciário (através da figura do magistrado, do promotor e/ou dos técnicos), por ação ou omissão, permite que a alienação parental continue sendo praticada impunemente. Não há necessidade de que a criança manifeste sintomas da síndrome de alienação parental (alteração da percepção infantil em relação ao(à) outro(a) genitor(a)), basta a continuidade livre dos atos de alienação parental.

Mas essa “farra” está com os dias contados. O projeto de lei nº 4.488 /2016 pretende, de fato, criminalizar todas as formas de obstrução da convivência de menor com ascendentes, descendentes, colaterais ou com quem exista vínculo de parentalidade de qualquer natureza. A punição será com detenção de três meses a três anos, e também prevê os seguintes agravantes, que aumentam em um terço a dosimetria da pena:

“Se praticado por motivo torpe, por manejo irregular da Lei nº 11.340/2006, por falsa denúncia de qualquer ordem, inclusive de abuso sexual aos filhos” (inciso I). Com isso, pretende o legislador punir todas as formas de acusação leviana ao outro, seja abuso sexual fictício (por vezes decorrentes de estados delirantes, ou má-fé, agressão física, ou negligência);

“Se a vítima é submetida a violência psicológica ou física por ascendentes, descendentes, colaterais ou com quem exista um vínculo parental de qualquer natureza, que mantenham vínculos afetivos com a vítima” (inciso II). Alienação parental pode ser comparada ao crime de tortura psicológica, porque existe uma “lavagem cerebral” do(a) alienador (a) para manter um discurso de ódio e aversão ao(à) outro (a), que altera a percepção e o comportamento da criança / adolescente contra ele(a), por uma motivação alheia às reais necessidades do filho, e sim por interesses egoísticos, infantilizados e irracionais do(a) alienador(a);

“Se a vítima for portadora de deficiência física ou mental (inciso III).  Quando há um a deficiência intelectual e / ou física que reduza a capacidade de discernimento, como nos quadros de espectro autista ou de determinadas síndromes congênitas, o filho não percebe que as mensagens difamatórias do(a) alienador(a) contra o(a) outro(a) lhe são prejudiciais e inadequadas, e fica muito mais fácil que o filho assimile o discurso abjeto.

O § 3° do projeto de lei nº 4.488 / 2016 determina que: “Incorre nas mesmas penas quem de qualquer modo participe direta ou indiretamente dos atos praticados pelo infrator”. Assim, demais familiares, agregados, profissionais de educação ou de saúde, amigos que, de alguma forma, colaboram com o(a) alienador(a), e/ou se omitem de coibir suas práticas, também se tornam cúmplices da alienação parental, incidindo sobre eles as mesmas penas do agente principal. Não será mais possível alegar que “não sabia o que a pessoa estava fazendo”, ou que “ele(a) estava só protegendo a criança”, ou que “fulano(a) me obrigou a não dizer nada”, porque a ação conjunta ou a esquiva de impedimento dos atos de alienação parental também serão puníveis.

O psicólogo clínico que avalia uma criança para depois “atestar” um abuso sexual ou qualquer outra forma de violência (ativa ou passiva), por determinação de seu(sua) cliente, sem entrevistar o(a) outro genitor(a), e que depois emite relatórios (que serão juntados pelo(a) cliente em eventual processo judicial) culpabilizando esse(a) outro(a) genitor(a ) sem a preocupação ética de sequer conhecê-lo (a), também incorre nas penas do(a) alienador(a ), sem prejuízo das sanções ético-profissionais, cíveis e penais cabíveis. O psicólogo clínico não pode / deve se envolver no litígio judicial entre os pais (essas são funções do perito e assistentes técnicos). Portanto, lhe compete a condução de uma avaliação psicológica e / ou psicoterapia de forma neutra, imparcial, sem juízos de valor. Qualquer relatório produzido em circunstâncias diferentes do acima descrito torna-se um documento inepto para a formação da convicção judicial, além de ter sido produzido sob circunstâncias que violam a ética e a técnica da Psicologia.

O § 4° do referido projeto de lei se mostra mais incisivo e eficaz do que o artigo 6° da Le i nº 12.318 / 2010, porque já determina como única e principal sanção a reversão da guarda do menor em favor do{a) genitor{a) inocente, em casos de comprovada acusação leviana contra este (a). Assim, evitamos as atitudes desafiadoras do (a) alienador (a) contra a autoridade judiciária, e o enfraquecimento do magistrado com sentenças e demais determinações que são intencionalmente descumpridas por quem zomba de qualquer autoridade e quer cometer seus crimes impunemente. Obviamente, nenhuma atitude do magistrado ocorrerá sem a opinião do Ministério Público como fiscal da lei e garantidor dos direitos de menores, mas certamente, diante de determinados quadros hediondos de acusações infundadas e alucinatórias, não terá dúvidas quanto à atitude mais sensata a se tomar.

Uma conquista para a família.4

CRIME DE RESPONSABILIDADE

Por fim, mas não em importância, determina o § do projeto de lei que: § – O juiz, o membro do Ministério Público e qualquer outro servidor público, ou, a que esse se equipare à época dos fatos por conta de seu ofício, tome ciência das condutas descritas no §1°, deverá adotar em regime de urgência as providências necessárias para apuração da infração sob pena de responsabilidade nos termos dessa lei.

Desse modo, entende-se que qualquer conclamação ao Judiciário para que declare os atos de alienação parental não podem ser negligenciados, sob pena de crime de responsabilidade dos agentes públicos. Igualmente os setores técnicos deverão agir com responsabilidade e profissionalismo, e buscar todos os meios de observar e interpretar o contexto familiar, realizando estudos psicológicos e sociais aprofundados (não se ater a entrevistas superficiais que identifiquem os atos de alienação parental a tempo de impedir que a situação se torne prejudicial para a criança / adolescente (efetiva instauração dos sintomas da síndrome de alienação parental).

Uma conquista para a família.5

PRERROGATIVA DE ATUAÇÃO

O assistente técnico, conforme preconizam o Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/ 2015) e a Resolução nº 08 / 2010 do Conselho Federal de Psicologia, é contratado por uma das partes (e não pela parte contrária, nem por ambas!) – para orientá-la e assessorá-la no que entender pertinente para o deslinde da causa em favor do seu próprio cliente, e não da parte contrária, e também não incorre em impedimento ou suspeição, tem isenção profissional para agir conforme lhe determinam as contingências (por vezes, do próprio litígio judicial). Por ser um profissional de apenas uma das partes, tem sim o direito / dever de manifestar sua opinião conforme suas convicções oferecidas pelos elementos apresentados pelo seu próprio cliente. Não é à toa que a doutrina especializada (Shine, 2008) o denomina “perito parcial”, em oposição ao perito, esse sim deve adotar uma postura imparcial, não tendenciosa, ouvir ambas as partes, ser neutro e isento, com o zelo de um autêntico serventuário e auxiliar da Justiça.

Infelizmente, vem ocorrendo uma prática inescrupulosa contra assistentes técnicos psicólogos, principalmente em âmbito cível (Família): quando um assistente técnico, a serviço exclusivamente do seu cliente, se posiciona em favor da guarda compartilhada e aponta os atos de alienação parental da parte contrária, esta, querendo praticar a AP impunemente, vai ao Conselho Regional de Psicologia e denuncia o psicólogo assistente técnico (que não é o seu próprio, é o do seu oponente processual!) acusando-o de violação ética, o que é uma argumentação fútil e subjetiva, mais apropriada para a psicoterapia do que para uma Comissão de Ética.

O mais grave, e hediondo, é que as Comissões de Ética de alguns CRPs vêm acolhendo representações dessa natureza, negligenciando criminosamente os princípios da legalidade, legitimidade postulatória e de admissibilidade processual, querem invadir seara judicial e querem causar desequilíbrio processual e insegurança jurídica nos psicólogos, porque essa prática criminosa das Comissões de Ética viola não apenas o CPC (ou CPP) mas também a Constituição e a Resolução 08 / 2010 do Conselho Federal de Psicologia (determinadas Comissões de Ética querem usurpar narcisicamente  o direito de legislar do CFP).

Psicólogos assistentes técnicos, profissionais autônomos contratados por uma das partes para assessorá-la e manifestar-se acerca do laudo do psicólogo perito, quando se posicionam a favor da guarda compartilhada em benefício da manutenção da criança com o seu cliente (geralmente, pai / mãe não guardião, vítima da alienação parental) e denunciam a alienação parental praticada pela parte contrária, também estão sendo indevidamente denunciados nas Comissões de Ética dos Conselhos Regionais de Psicologia por essa mesma parte contrária, porque sente que vai perder o poder. Então, primeiramente tenta manipular o Judiciário, geralmente com acusações infundadas de agressão, negligência e/ ou abuso sexual contra o(a) outro (a) genitor (a), mas, quando seus objetivos são frustrados, procura prejudicar os profissionais da parte contrária a si, com representações éticas indevidas, sem legitimidade de parte e sem fundamentação legal. Alguns órgãos representativos de classe, como as OABs, em geral percebem a manipulação e declaram a inépcia da inicial por ilegitimidade de parte e ausência de fundamentação legal. Mas os Conselhos Regionais de Psicologia, especialmente o de São Paulo, vêm acolhendo as representações éticas contra esses profissionais, mesmo com as irregularidades processuais acima mencionadas. A pretexto de “fiscalizar a profissão”, punem o psicólogo assistente técnico que defendeu a guarda compartilhada e denunciou a prática de alienação parental da pessoa que, depois, por vingança pessoal, procurará prejudicá-lo administrativamente. E não têm consciência de reconhecer que estão sendo manipulados.

Tais condutas reprováveis das Comissões de Ética dos Conselhos Regionais de Psicologia são inaceitáveis para os pais aptos e interessados, e não podem receber o beneplácito das autoridades legítimas do país.

Resultado disso: desestímulo dos psicólogos a atuarem como assistentes técnicos (porque os CRPs confundem, intencionalmente, assistente técnico com perito, e ambos com o clínico, exigindo daqueles primeiros a imparcialidade que só compete aos dois últimos!), bem como uma ameaça gravíssima ao instituto da guarda compartilhada, porque se o psicólogo assistente técnico se posiciona a favor da guarda compartilhada pode ser condenado por violação ética pois, sem a compreensão da contextualização, o instituto da guarda compartilhada estará seriamente ameaçado por práticas inescrupulosas das pessoas que não têm interesse nela, e mais grave ainda com a cumplicidade criminosa dos órgãos de classe que deveriam defender a plena atuação profissional e as prerrogativas dos psicólogos jurídicos no interesse das crianças: a erradicação da alienação parental e a custódia física equilibrada, na faixa de 35 a 50% do tempo, sempre e quando as circunstâncias fáticas permitirem.

Esses CRPs que agem dessa forma criminosa se tornam cúmplices da alienação parental e precisam ser punidos imediatamente, com o rigor das leis, pelo crime que cometem com as crianças desse país. Por esse motivo, incorrem na violação ao§ 5° do projeto de lei nº 4.488 / 2016, devendo ser criminalizados por obstruírem a atuação de profissionais que, por cumprimento de suas funções, estão se esforçando para combater a alienação parental no Brasil. Seria necessária a complementação do referido § 5°, para inclusão das penas cabíveis ao caso.

Uma conquista para a família.2

DIFERENÇAS ENTRE ALIENAÇÃO PARENTAL E SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL

É preciso esclarecer a seguinte distinção entre alienação parental e síndrome de alienação parental: a alienação parental (AP) caracteriza o ato de induzir a criança a rejeitar o pai/mãe- alvo (com esquivas, mensagens difamatórias, até ódio ou acusações de abuso sexual). A síndrome de alienação parental (SAP) é o conjunto de sintomas que a criança pode vir ou não a apresentar, decorrentes dos atos de alienação parental. É por isso que o legislador tratou de atos de alienação parental nos termos da Lei n• 12.318/20 10: não podemos permitir que a criança/adolescente manifeste sintomas da síndrome,  porque a sua reversão será muito mais trabalhosa (embora não difícil nem impossível):  a preocupação maior é com os riscos que a criança/adolescente corre com as atitudes nocivas e temerárias do(a) alienador(a) e de seu(s) asseclas). O problema é que,  quando se instam os Setores Técnicos (peritos psicólogo e assistente social) do Judiciário a identificarem os atos de alienação parental, ficam concentrados em procurar sintomas  de  síndrome, isto é, esperam que a criança manifeste alterações de comportamento para rejeitar o (a) outro (a) genitor(a) ou familiares deste(a) para então perceberem a ocorrência  de alienação parental.

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LEI ALTERA ARTIGO SOBRE ALIENAÇÃO PARENTAL

Lei nº 12.318. de 26 de agosto de 2010. dispõe sobre a alienação parental e altera o art. 236 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, Art. 2º (…) Parágrafo único. São formas exemplificativas de alienação parental, além dos atos assim declarados pelo Juiz ou constatados por pericia, praticados diretamente ou com auxílio de terceiros: I – realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade: II – dificultar o exercício da autoridade parental: III – dificultar contato de criança ou adolescente com genitor; IV –  dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar:  V – omitir deliberadamente a genitor  informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço: VI – apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente: VII – mudar o domicilio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.

Uma conquista para a família.6

NEUTRALIDADE É A QUESTÃO

O assistente técnico é o profissional contratado por uma das partes para assessorá-la e orientá-la, tendo compromisso exclusivamente com o seu contratante. O clínico, embora por vezes seja contratado por uma das partes, deve assumir um posicionamento neutro, alheio às divergências familiares, porque ele deve conhecer esse contexto familiar e adotar uma postura conciliatória, de orientar os pais a buscarem juntos as melhores soluções para o bem-estar dos filhos.

 

DENISE MARIA PERISSINI DA SILVA – é psicóloga clínica e Jurídica, mestranda em Ciências Humanas Interdisciplinares pela Unisa (Univrsidade de Santo Amaro) Autora dos livros Psicologia Jurídica no Processo Civil Brasileiro (3 ed. Rio de Janeiro: Forense 2016) e Mediação e Guarda Compartilhada Conquistas para a Família (2 ed. Curitiba: Juruá 2016) e artigos de Psicologia Jurídica de Família

GESTÃO E CARREIRA

CULTURA ORGANIZACIONAL

Dar autonomia e lazer aos funcionários aumenta o seu desempenho e o seu engajamento.

Cultura organizacional

Funcionários que não se ajusta m ao mundo corporativo tradicional e à cultura da empresa podem se engajar mais à companhia com o auxílio de job crafting e ampliando o seu lazer. A conclusão é de estudo realizado recentemente por pesquisadores da Universidade da Geórgia, EUA, publicado no Academy of Management Journal

A saber, job crafting é uma prática que envolve dar autonomia ao funcionário para que ele desenvolva suas atividades levando mais em conta seus interesses e habilidades pessoais e, ainda, formas criativas de executar tarefas, diferentes dos modelos utilizados pela empresa. Já o conceito de lazer ampliado pode ser usado para mitigar os efeitos negativos do possível “desajuste “cultural entre funcionário e empresa e, mesmo, aumentar o desempenho do colaborador nessa situação.

No caso da pesquisa em questão, foi exatamente o que aconteceu com parte dos 193 funcionários observados, segundo seleção de empresas do Craiglist. Feito o devido diagnóstico de “desajuste”, eles responderam a questionários após a realização de atividades sob job crafting e lazer ampliado. Eles relataram seus valores individuais e no trabalho, seu nível de engajamento e satisfação, entre outras informações. Os pesquisadores enviaram um questionário também aos supervisores desses profissionais para medir o desempenho e avaliar o comportamento dos funcionários, cruzando todos os dados.

Os empregados que se envolveram mais regularmente em novas abordagens para suas tarefas ou alteraram, com autonomia, alguns pequenos procedimentos que vinham realizando na empresa foram significativamente menos propensos ao baixo nível de engajamento e desempenho. O mesmo foi verificado entre aqueles que tiveram seu lazer ampliado.

Segundo os autores do estudo, pesquisas futuras podem se concentrar na experiência de “desajuste” com base em valores específicos dos funcionários, ou sobre o efeito do rótulo de “desajustado” nos funcionários, quando emitido por colegas de trabalho, entre outras possibilidades a partir do levantamento atual.

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE II

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte II

III – A conversa entre Cristo e Nicodemos, ou melhor, o sermão que Cristo pregou para ele. Seu conteúdo, e talvez um resumo da pregação pública de Cristo. Veja os versículos 11 e 12. Nosso Salvador aqui fala sobre quatro coisas:

1. A respeito da necessidade e natureza da regeneração, ou do novo nascimento, vv. 3-8. Aqui, devemos considerar isto:

(1) Como uma resposta pertinente às palavras de Nicodemos. Jesus “respondeu”, v. 3. Esta resposta foi:

[1] Uma crítica ao que Ele viu de falho nas palavras de Nicodemos. Não era suficiente que ele admirasse os milagres de Cristo, e reconhecesse sua missão, ele devia nascer de novo. Está claro que ele esperava o reino do céu, o reino do Messias, que breve se manifestaria. Em breve, ele perceberia o amanhecer deste novo dia, e, de acordo com a noção comum dos judeus, ele espera que isto aconteça com pompa e poder externos. Ele não duvida que este Jesus, que opera estes milagres, ou é o Messias ou seu profeta, e por isto ele tenta agradá-lo, elogiando-o, e assim espera assegurar para si mesmo uma participação nas vantagens do reino. Mas Cristo lhe diz que ele não terá benefícios por esta mudança de situação, a menos que haja uma mudança de espírito, dos princípios e das disposições, o que equivale a um novo nascimento. Nicodemos veio à noite: “Mas isto não é suficiente”, diz Cristo. Sua religião deve ser admitida diante dos homens. Ou:

[2] Uma resposta aos desejos que Ele viu nas palavra s de Nicodemos. Quando Nicodemos reconheceu que Cristo era um “mestre vindo de Deus”, alguém a quem tinha sido confiada uma extraordinária revelação do céu, ele claramente expressou um desejo de conhecer qual era esta revelação, e uma disposição para recebê-la. E Cristo declara isto.

(2) Como uma declaração afirmativa e veemente de nosso Senhor Jesus: “Na verdade, na verdade te digo”. Eu, o Amém, o Amém, o digo. Assim pode ser interpretado: “Eu, a testemunha fiel e verdadeira”. A questão é decidida de maneira irreversível: a menos que um homem nasça de novo, ele não poderá ver o reino de Deus. “Eu lhe digo isto, embora você seja um fariseu, um mestre em Israel”. Observe:

[1] Qual é o requisito: nascer de novo. Isto é, em primeiro lugar, nós devemos viver uma nova vida. O nascimento é o início da vida. Nascer de novo é começar de novo, como aqueles que até então viveram, ou de maneira muito incorreta, ou com poucos objetivos. Nós não devemos pensar em remendar a antiga construção, mas em começar pela fundação. Em segundo lugar, nós devemos ter uma nova natureza, novos princípios, novos afetos, novos objetivos. Nós devemos nascer de novo, que significa tanto novamente, quanto de cima.

1. Nós devemos nascer de novo, assim é interpretada a palavra, Gálatas 4.9, e desde o princípio, Lucas 1.3. Após nosso primeiro nascimento, aprendemos a viver no pecado, tornamo-nos corruptos, moldados em pecado e iniquidade, por isto devemos nos submeter a um segundo nascimento. Nossas almas devem ser remodeladas e vivificadas.

2. Nós devemos nascer de cima, assim a palavra é usada por este evangelista, cap. 3.31; 19.11, e eu entendo que este é o significado desejado aqui, sem excluir o outro, pois nascer de cima pressupõe nascer de novo. Mas este novo nascimento tem sua origem no céu (cap. 1.13) e se dirige ao céu. Significa nascer para uma vida divina e celestial, uma vida de comunhão com Deus e o mundo superior, e, para isto, participar de uma natureza divina e espelhar a imagem do celestial.

[2] A indispensável necessidade do novo nascimento: ”Aquele (qualquer pessoa que tenha natureza humana e, consequentemente, compartilhe das suas corrupções) que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus, o reino do Messias, iniciado em graça e aperfeiçoado em glória”. A menos que nasçamos de novo, de cima, não poderemos ver o reino de Deus. Isto é, em primeiro lugar, nós não conseguimos compreender sua natureza. Tal é a natureza das coisas que pertencem ao reino de Deus (nas quais Nicodemos desejava ser instruído), que a alma precisa ser remodelada e remoldada, o homem natural deve se tornar um homem espiritual, antes de ser capaz de recebê-las e compreendê-las, 1 Coríntios 2.14. Em segundo lugar, enquanto estamos no pecado, não podemos receber seu consolo, não podemos esperar nenhum benefício de Cristo e do seu Evangelho, nem compartilhar ou participar dele. Observe que a regeneração é absolutamente necessária para nossa felicidade aqui e no futuro. Considerando o que nós somos por natureza, como somos corruptos e pecadores, e que Deus é a única possibilidade de felicidade para nós, e o que é o céu, no qual está reservada a perfeição da nossa felicidade, fica claro, pela natureza da questão, que elevemos nascer de novo, porque é impossível que possamos ser felizes se não formos santos. Veja 1 Coríntios 6.11,12.

Tendo sido estabelecida esta grande verdade da necessidade da regeneração:

Ela se torna uma objeção à vida de Nicodemos (v. 4): “Como pode um homem nascer, sendo velho”, velho como eu, sendo um homem velho? “Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?” Aqui fica evidente:

(a) Sua fraqueza em conhecimento. Aquilo que Cristo falava espiritualmente, ele parece ter compreendido de uma maneira física e carnal, como se não existisse outra maneira de regenerar e remoldar uma alma imortal, a não ser remoldando o corpo, e trazendo-o de volta à rocha de onde tinha sido cortado, como se houvesse tal conexão entre corpo e alma, que não haveria maneira de renovar o coração, a menos que se formassem novamente os ossos. Nicodemos, como outros judeus, valorizava a si mesmo, sem dúvida, em grande parte, devido ao seu nascimento e suas dignidades e privilégios – o lugar, a Terra Santa, talvez a cidade santa-, sua linhagem, como a de que Paulo teria se gloriado, Filipenses 3.5. E por isto é uma grande surpresa, para Nicodemos, ouvir Cristo falando de nascer de novo. Poderia ele ser gerado e nascer melhor do que ser gera­ do e nascer israelita, ou por algum outro nascimento estar em melhor posição para obter um lugar no reino do Messias? Na verdade, eles consideravam um gentio prosélito como tendo nascido de novo, mas não podiam imaginar como um judeu, um fariseu, podia vir a melhorar, nascendo de novo. Por isto, ele pensa, se precisa nascer de novo, deve ser daquela que o gerou primeiro. Aqueles que se orgulham do seu primeiro nascimento dificilmente são trazidos a um novo nascimento.

(b) Sua vontade de ser ensinado. Ele não dá as costas a Cristo por causa destas palavras duras, mas sinceramente reconhece sua ignorância, o que dá a entender um desejo de ser mais bem informado. E é assim que eu entendo, e não como se ele tivesse noções grosseiras do novo nascimento de que Cristo falava: “Senhor, faça-me compreender isto, pois é um enigma para mim. Eu sou muito tolo para saber que existe outra maneira para um homem nascei; que não seja da sua mãe”. Quando nós nos deparamos com aquilo que nas coisas de Deus é obscuro, e difícil de entender, nós devemos, com humildade e empenho, continuar nossa procura pelos meios do entendimento, até que Deus as revele para nós.

 

b.Isto é esclarecido e explicado pelo nosso Senhor Jesus, vv. 5-8. A partir da objeção, Ele aproveita:

(a) Para repetir e confirmar o que tinha dito (v. 5): “Na verdade, na verdade te digo”, a mesma coisa que disse antes. Observe que a palavra de Deus não é sim e não, mas sim e amém. O que Ele disse, Ele confirma, não importando quem o contra diga, e Ele não irá retirar nada do que disse, devido à ignorância e aos enganos dos homens. Embora Nicodemos não compreendesse o mistério da regeneração, ainda assim Cristo declara a necessidade dela tão positivamente quanto antes. Observe que é tolice pensar em esquivar-se da obrigação dos preceitos evangélicos, alegando que são incompreensíveis, Romanos 3.3,4.

(b) Par a explicar e esclarecer o que Ele tinha dito a respeito da regeneração. Para a explicação, Ele mostra:

[a] O autor desta transformação abençoada, e quem é que a realiza. Nascer de novo é nascer do Espírito, vv. 5-8. A transformação não se realiza por nenhuma sabedoria ou nenhum poder nosso, mas pelo poder e pela influência do bendito Espírito da graça. É a santificação do Espírito (1 Pedro 1.2) e a renovação do Espírito Santo, Tito 3.5. A palavra pela qual Ele opera é segundo sua inspiração, e Ele tem acesso ao coração que deve ser transformado.

[b] A natureza desta transformação, e como ela se realiza. Ela é espiritual, v. 6. Aqueles que são regenerados tornam-se espirituais, e refinados, livres do lixo e da sujeira da sensualidade que não segue os padrões de Deus. Os desejos e interesses da alma racional e imortal recuperaram o domínio que deviam ter sobre a carne. Os fariseus concentravam sua religião na pureza exterior, e nas aparências externas, e seria necessária uma transformação poderosa neles, verdadeiramente, nada menos do que um novo nascimento, para que se tornassem espirituais.

[e] A necessidade desta transformação. Em primeiro lugar, aqui Cristo mostra que ela é não apenas necessária, mas essencial, pois nós não estaremos adequados para entrar no reino de Deus até que nasçamos de novo: “O que é nascido da carne é carne”, v. 6. Aqui está nossa enfermidade, com suas causas, que são tais, que fica claro que não existe remédio, a não ser que nasçamos de novo.

1. Aqui lemos o que somos: nós somos carne, não somente seres corpóreos, mas corruptos, Gênesis 6.3. A alma ainda é uma substância espiritual, mas tão casada com a carne, tão cativa pelos desejos da carne, tão apaixonada pelas delícias da carne, tão empregada em fazer provisões para a carne, que é, na maioria dos casos, chamada de carne. E carnal. E que comunhão pode haver entre Deus, que é espírito, e uma alma nestas condições?

2. Como viemos a ser isto. Nascemos da carne. Esta é uma corrupção que é gerada conosco, e por isto nós não podemos ter uma nova natureza, mas devemos nascer de novo. A natureza corrupta, que é carne, surge no nosso primeiro nascimento, e, portanto, a nova natureza, que é espírito, deve surgir em um novo nascimento. Nicodemos falou em entrar novamente no ventre da sua mãe e nascer de novo, mas, mesmo que ele pudesse fazer isto, seria com que propósito? Ainda que ele fosse nascido da sua mãe cem vezes, isto não remediaria a questão, pois ainda o que é nascido da carne é carne. Uma coisa pura não pode se originar de uma impura. Ele deve procurar outra origem, deve nascer do Espírito, caso contrário não poderá tornar-se espiritual. Em resumo, o caso é este: embora o homem seja criado para consistir de corpo e alma, ainda assim sua parte espiritual tinha, no início, tanto domínio sobre sua parte corpórea, que ele era chamado de alma vivente (Genesis 2.7), mas ao ser indulgente com o apetite da carne, ao comer o fruto proibido, ele prostituiu o justo domínio da alma para a tirania dos desejos sensuais, e não mais foi uma alma vivente, mas carne: “És pó”. A alma vivente tornou-se morta e inativa. Desta forma, no dia em que o homem pecou, certamente morreu, e assim tornou-se terreno. Neste estado degenerado, ele gerou um filho à sua própria semelhança. Ele transmitiu a natureza humana, que tinha sido inteiramente depositada em suas mãos, corrupta e depravada, e com a mesma situação penosa, ela se propaga. A corrupção e o pecado estão entrelaçados na nossa natureza. Nós somos formados em iniquidade, o que torna necessário que a natureza se transforme. Não basta vestir um novo casaco, ou ter um novo rosto, mas nós devemos nos vestir do “novo homem”, devemos ser novas criaturas. Em segundo lugar, Cristo torna isto ainda mais necessário, pela sua própria palavra: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo”, v. 7. 1. Cristo tinha dito isto, e assim como Ele nunca retirou o que disse, nem jamais o fará, também o mundo não pode negar o fato de que nós devemos nascer de novo. Aquele que é o grande Legislador, cuja vontade é uma lei, aquele que é o grande Mediador do novo concerto, e que tem pleno poder para definir os termos da nossa reconciliação com Deus, e da nossa felicidade nele, aquele que é o grande Médico de almas, conhece a situação delas e o que é necessário para a cura, Ele disse: “Necessário vos é nascer de novo”. “Eu disse a você o que diz respeito a todos: Vocês devem, todos vocês, tanto uns como os outros, nascer de novo, não somente as pessoas comuns, mas os príncipes, os mestre de Israel”.

3. Nós não devemos nos maravilhar com isto, pois quando considerarmos a santidade do Deus com quem tratamos, o grande desígnio da nossa redenção, a depravação da nossa natureza, e a constituição da felicidade apresentada diante de nós, não iremos achar que é estranho que tanta ênfase seja colocada sobre a única coisa necessária, que devemos nascer de novo.

[d] Esta transformação é exemplificada por duas comparações. Em primeiro lugar, a obra regeneradora do Espírito é comparada com a água, v. 5. Nascer de novo é nascer da água e do Espírito, isto é, do Espírito operando como água. Como a expressão “com o Espírito Santo e com fogo” (Mateus 3.11) significa que o Espírito Santo trabalha como fogo.

1. A intenção básica aqui é mostrar que o Espírito, ao santificar uma alma:

(1) Limpa-a e purifica-a como água, remove dela a sujeira, pela qual ela se encontrava inadequada para o reino de Deus. É a lavagem da regeneração, Tito 3.5. “Haveis sido lavados”, 1 Coríntios 6.11. Veja Ezequiel 36.25.

(2) Refresca-a e revigora-a, como a água faz com o corço perseguido e caçado, e o viajante cansado. O Espírito é comparado com a água, cap. 7.38,39; Isaías 44.3. No início da criação, os frutos do céu eram produtos da água (Genesis 1.20), em alusão ao que, talvez, aqueles que nascem de cima são nascidos da água.

2. É provável que Cristo se referisse à ordenança do batismo, que João tinha usado e que Ele mesmo tinha começado a usar. “Vocês devem nascer de novo, do Espírito”, e a regeneração pelo Espírito devia ser representada pela lavagem com água como sinal visível daquela graça espiritual. Não que todos os que são batizados, e somente eles, sejam salvos, mas sem aquele novo nascimento que é operado pelo Espírito, e representado pelo batismo, ninguém será considerado como súdito privilegiado e protegido do reino do céu. Os judeus não podem participar dos benefícios do reino do Messias, que eles esperaram por tanto tempo, a menos que desistam de todas as expectativas de serem justificados pelas obras da lei, e se submetam ao batismo de arrependimento, o grande dever do Evangelho, para a remissão dos pecados, o grande privilégio do Evangelho. Em segundo lugar, é comparado ao vento: “O vento assopra onde quer… assim é todo aquele que é nascido do Espírito”, v. 8. A mesma palavra (pneuma) significa vento e também Espírito. O Espírito desceu sobre os apóstolos em um vento veemente e impetuoso (Atos 2.2), suas fortes influências sobre os corações dos pecadores são comparadas ao soprar do vento (Ezequiel 37.9), e suas doces influências sobre as almas dos santos, ao vento norte e sul, Cantares 4.16. Esta comparação é usada aqui para mostrar:

3. Que, na regeneração, o Espírito trabalha arbitrariam ente, e como um agente livre. O vento assopra onde quer, por nós, e não atende nossa ordem, nem está sujeito ao nosso comando. Deus o comanda. Ele executa sua palavra, Salmos 148.8. O Espírito dispensa suas influências onde, e quando, em quem, e na medida e no grau que desejar, “repartindo particularmente a cada um como quer”, 1 Coríntios 12.11. 2. Que Ele opera de maneira poderosa, e com resultados evidentes: “Ouves a sua voz”. Embora sua causa esteja oculta, seus efeitos são manifestos. Quando a alma é levada a lamentar o pecado, a gemer sob o peso da corrupção, a adorar a Cristo, a clamar ”Aba, Pai”, então nós ouvimos o som do Espírito, e vemos que Ele está trabalhando, como em Atos 9.11: “Eis que ele está orando”.

4. Que Ele opera misteriosamente, e de maneiras ocultas e secretas: “Não sabes donde vem, nem para onde vai”. Como ele reúne sua força, e como a gasta, é um mistério para nós. Também a maneira e os métodos de trabalho do Espírito são um mistério. “Por onde passou… o Espírito?” 1 Reis 22.24. Veja Eclesiastes 11.5, e compare com Salmos 139.14.