PSICOLOGIA ANALÍTICA

VIOLÊNCIA EM EFEITO DOMINÓ

Crimes violentos e de grande repercussão na mídia, segundo uma linha de pensamento chamada “teoria da modelagem”, podem desencadear outros, servindo de modelo comportamental e provocando o fenômeno copycat.

Violência em efeito dominó

Discute-se, há tempos, nas diferentes áreas da humanidade, como Antropologia, Sociologia e Psicologia, o poder de influência que a mídia pode exercer sobre a sociedade. Entende-se aqui, por mídia, todos os canais de transmissão de informações, por meio impresso, eletrônico ou digital. O termo, hoje, é amplamente utilizado como sinônimo para meios de comunicação em massa.

A mídia foi aos poucos, se desenvolvendo e crescendo em seu importante papel de informar a sociedade, embora, muitas vezes, venha a tornar-se também “formadora” de opiniões e ideologias, e a influência gerada por ela, hoje, atinge patamares altíssimos. Moda, expressões, estilos de vida, looks são apenas alguns dos vários exemplos que demonstram o quanto nossos comportamentos podem ser moldados ou modelados por influência de artistas, novelas, propagandas e até mesmo por jornalistas que estão inseridos nesse contexto como formadores de opiniões.

Importantíssimo meio para propor reflexões, a mídia pode se transfigurar como um canal de grandes mudanças sociais. Campanhas de doação de sangue, de incentivo à sustentabilidade, campanhas pela paz são exemplos positivos que ganham proporções enormes graças à mídia!

Muitos assuntos polêmicos e até considerados tabus por anos foram e estão sendo retratados em novelas, que alcançam a grande massa da população, provocando reflexões e mudanças, como, por exemplo, na novela Laços de Família, em que se discutiram a leucemia e o transplante de medula; em Páginas da Vida, em que a síndrome de Down foi amplamente exposta; ou em Caminho das Índias, em que a esquizofrenia foi um dos importantes temas abordados.

Por outro lado, o incentivo ao consumismo, principalmente apelando para o público infantil, e os padrões de beleza impostos pela cultura da vaidade e do corpo são exemplos negativos de como as pessoas podem ser manipuladas pelos meios de comunicação.

Uma das bases teóricas que tenta explicar esse comportamento social tão influenciável é a teoria da aprendizagem social, também chamada de “teoria da modelagem”, que sustenta a ideia segundo a qual os indivíduos podem aprender comportamentos sociais de maneira informal, através da observação daquilo ou daquele que pode ser chamado de “modelo”, que geraria, nesse sentido, comportamentos modelados.

A teoria da modelagem tem como um de seus precursores o psicólogo Albert Bandura, que, em seus estudos, demonstrou que as tendências violentas podem ser aprendidas desde cedo pelas crianças ao observarem outras pessoas praticando atos violentos, ou mesmo pela mídia, através de filmes, desenhos e outros canais. O autor estudou bastante o comportamento agressivo em crianças e descobriu que as que são expostas a situações de agressividade não só apresentam um comportamento imitativo dessa agressividade como também outros tipos de agressividade, não vistos no “modelo”. Assim, o comportamento imitado, segundo a teoria, serviria como início para um processo mais amplo e complexo. Nesse contexto, a mídia, em suas diversas vertentes, assim como a literatura, funcionaria como um manancial de situ ações que poderiam ser imitadas.

Da mesma forma como bons modelos podem ser copiados, um mau comportamento também pode servir de referência a quem não tem uma boa e equilibrada estrutura psíquica. Sendo assim, e seguindo essa linha de pensamento, crimes violentos e de grande repercussão na mídia poderiam desencadear outros, servindo de modelagem comportamental e gerando o que a literatura criminológica chama de fenômeno copycat. A expressão em inglês é formada pela junção das palavras copy, que quer dizer “copiar”, e cat, que significa “gato”. Ela está relacionada, originalmente, ao que acontece com os filhotes de gatos, que, juntos, tentam imitar o comportamento da mãe.

Ela tem sido largamente apontada cada vez que, após a ocorrência e divulgação de um crime, outro semelhante ao anterior é praticado, caracterizando o processo de modelagem. Dessa forma, a mídia teria, de certa maneira, responsabilidade sobre essas ocorrências, uma vez que o sensacionalismo ou a cobertura exagerada de um crime poderiam promover a ocorrência de outro. Crimes violentos, homicídios em massa, massacres, suicídios estariam entre os maiores copycats. Estes últimos, chama dos também de suicídios em cluster, estariam atrelados, geralmente, à imitação de suicídios de pessoas famosas. Em 1994, quando o músico Kurt Cobain, da banda Nirvana, cometeu suicídio, outros ocorreram seguidamente ao fato.

Algumas letras de músicas e até a literatura estão relacionadas a esse fenômeno também. Um exemplo foi o que ocorreu com o romance, até hoje referência no meio literário, Os Sofrimentos do Jovem Werther, do renomado escritor Johann Wolfgang von Goethe, que o escreveu em 1774. Na história, o personagem principal, Werther, apaixona-se por uma jovem prometida a outro. Desiludido com a situação, o protagonista comete suicídio, descrevendo-o em detalhes. Como uma epidemia, nos anos subsequentes à publicação do livro, em toda a Europa vários jovens cometeram suicídio, muitos deles reproduzindo a mesma cena descrita, com o livro aberto sobre a mesa. O romance chegou a ser proibido em diversos países, como Itália, Alemanha e Dinamarca. O fato ficou tão conhecido que a expressão “efeito Werther” começou a ser utilizada em situações de imitação.

 

EPIDEMIA TRÁGICA

Durante os anos de 2007 a 2009, o pequeno condado de Bridgend, com 130 mil habitantes, no País de Gales, Reino Unido, vivenciou uma trágica epidemia de suicídios de jovens amigos. No total, foram mais de 25 mortes, sendo que, só no decorrer de um ano 117 jovens cometeram suicídio, um a um.

Os pais de adolescentes e jovens estavam desesperados e começaram a criticar a mídia, na cobertura das mortes, dizendo que os casos podiam estar sendo desencadeados por influência da exagerada exposição dos casos.

Um estudo realizado pela Universidade de Colúmbia, nos EUA, pelo Departamento de Epidemiologia revelou urna forte relação entre as publicações impressas, em redes sociais, em canais de televisão sobre suicídio e novos casos.

Uma nova polêmica em relação a isso ganhou grandes proporções com a morte do ator Robin Williams, em 2014. Na época, a Academia, responsável pelo prêmio Oscar, resolveu publicar uma homenagem ao ator, colocando a foto do Gênio da Lâmpada, personagem dublado por ele no filme Aladim, da Disney, junto com a seguinte frase: “Gênio, agora você está livre”. O site do laboratório de pesquisas sobre comportamento suicida, da Universidade de Glasgow, publicou imediatamente um texto de advertência, dizendo que tais palavras poderiam influenciar diretamente pessoas com tendências suicidas, em relação à utilização da palavra “livre”, que poderia ser interpretada como o término de problemas e sofrimentos encarados por alguém nessa situação de vulnerabilidade em relação ao suicídio.

No meio policial é tão relevante o fenômeno copycat que algumas cidades chegam a vedar a publicação em jornais ou de qualquer outra forma de chegada ao público, das estatísticas de suicídios. Na maioria das vezes eles nem chegam a ser noticiados, por medidas de prevenção.

O pesquisador Loren Coleman, dos Estados Unidos, escreveu um livro intitulado The Copycat Effect How the Media and Popular Culture Trigger the Mayhem in Tomorrow’s Headlines (sem título em português), citando alguns casos de massacres ocorridos no país, que poderiam ter sido   influenciados por outros semelhantes noticiados pela mídia. O autor estudou por anos o comportamento suicida e homicida a partir do sensacionalismo nos casos policiais e chega a dizer, em seu livro, que seria como se as informações, personagens e fatos de um crime passassem a tomar conta do inconsciente de pessoas propensas a praticar tais crimes, até que elas realmente concretizem essas ideias.

 

MASSACRE

Em 1999, uma notícia estarreceu o mundo: o massacre de Columbine Hight School, em que dois estudantes planejaram e executaram um ataque à escola onde estudavam. Durante o massacre, que envolveu uso de armas, bombas e explosivos, os dois jovens mataram 12 alunos, um professor e feriram mais 21 estudantes, além de cometerem suicídio. As causas e motivações para o crime, que vinha sendo planeja do por eles durante muito tempo, até hoje não foram totalmente esclarecidas. Muitas discussões envolvendo temas como bullying, acesso a armas por jovens americanos, liberdade na internet, uso de antidepressivos por adolescentes e práticas de exclusão social, entre outros, foram mencionados como supostos gatilhos para o trágico evento. Porém, a polícia documenta, por meio de depoimentos, que, ao vasculhar a casa e os objetos dos adolescentes, foram encontrados diários pessoais dos jovens relatando que eles desejavam praticar um crime e atentado de igual importância e repercussão ao de Oklahoma City e outros grandes crimes que ocorreram nos Estados Unidos, nos anos 90. O caso foi um dos mais conhecidos no mundo todo, inclusive chegando a ser representado no cinema. Sua divulgação massiva na mídia pode ainda ter provocado, por anos, ondas de outros massacres realizados por novos imitadores.

Em 2012, novo massacre ocorreu nos EUA, no Colorado. Um atirador entrou em uma galeria de cinemas na pré-estreia do filme Batman, o Cavaleiro das Trevas, e atirou no público, em determinada cena em que havia tiros. Doze pessoas morreram e 30 ficaram feridas. O detalhe é que o atirador estava fantasiado de Coringa. Logo em seguida a essa tragédia, outra bem parecida ocorreu em uma igreja.

Muitos são os estudiosos que pesquisam sobre o fenômeno copycat e a respeito do perfil dos sujeitos que poderiam ser influenciados nesse contexto. Pessoas vulneráveis, com distúrbios psicológicos, podem facilmente ceder à influência midiática, desejando o reconhecimento e a fama advindos do protagonismo de um crime bárbaro, de grande repercussão.

 

LINCHAMENTOS

No Brasil, o fenômeno copycat está muito presente nos linchamentos. Segundo as estatísticas, há uma tentativa de linchamento por dia no Brasil. Em 2014, houve, durante o período de três meses, vinte casos de linchamento coletivo. Grande parte deles ocorrido logo depois de a mídia noticiar um anterior com destaque. Outros crimes bárbaros de grande repercussão podem ter servido de modelo para outros do mesmo gênero.

Em 2002, um desses crimes chocou os brasileiros: Suzane von Richthofen foi a mandante do assassinato de seus pais, executado pelo namorado Daniel Cravinhos e o irmão deste, Cristian Cravinhos. Suzane e os irmãos confessaram que queriam o dinheiro dos pais dela. Em 2004, apenas dois anos depois, outro filho é acusado de assassinar o pai e a madrasta: o ex- seminarista Gil Rugai. Novamente o motivo do crime era a herança.

Já em 2013, outra tragédia surpreende a população e passa a ser manchete de todos os jornais e  veículos de comunicação, explorada massivamente: o caso Pesseghini, em São Paulo, no qual os  membros de  uma  família  (pai, mãe, avó e tia ­ avó)  são, supostamente assassinados pelo filho  do casal, um menino de 13 anos, que ficou conhecido no Brasil todo por Marcelinho, e que teria, após matar a família  toda, ido à escola e voltado para casa para cometer suicídio. Apesar de controvérsias e muitas polêmicas em relação à cena do crime, a versão de que o garoto realmente matou a família é a mais sustentada, até por falta de provas contrárias.

Comprovando o fenômeno copycat, apenas quatro dias após o caso, outra tragédia envolvendo um policial e sua família ocorreu em Mairinque. O policial e sua esposa foram executados, enquanto o filho, baleado na cabeça.

O meio social em que estamos inseridos contribui essencialmente para o nosso desenvolvimento. Estamos expostos diariamente a modelos e processos de modelagem do comportamento.

Dessa forma, todos os meios que, de alguma forma, possam atuar como agentes sociais na formação humana devem ser encarados com muito cuidado, discernimento e responsabilidade, para que possamos, como sociedade, incorporar experiências e atitudes positivas.

 Violência em efeito dominó.2 EFEITO WERTHER

O chamado efeito Werther designa um comportamento imitativo, proveniente da influência de outro e que surgiu a partir da epidemia de casos de suicídios após a publicação da obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Joham W. von Goethe, em 1774, e que contava a história de um rapaz que, desiludido amorosamente, comete suicídio. Inaugurando o Romantismo, a literatura, que até então retratava a sociedade, passa a ser vista como principal meio de comunicação a influenciar a sociedade. Nesse contexto, o suicídio começa a ser encarado não só como fato psicológico, mas também como um fenômeno social.

Violência em efeito dominó.3

NO UNIVERSO INFANTIL

A posição que a TV ocupa no cotidiano infantil ainda é polêmica e tema de muitas discussões. Alguns estudiosos continuam afirmando que a televisão permanece sendo a babá eletrônica preferida pelos pais. É muito importante que esses pais conheçam a fundo o conteúdo dos desenhos que seus filhos assistem, pois é comprovado cientificamente que eles podem influenciar o comportamento infantil. Crianças imitam a violência dos desenhos, cujos conteúdos podem transmitir a mensagem, mesmo subliminar, de que a violência é aceitável, normal e até divertida. Sabe-se que crianças copiam o que veem e, até certa idade, possuem dificuldades para diferenciar a fantasia da realidade, necessitando de orientação e direção nesse sentido.

Sendo assim, desenhos, filmes e jogos infantis precisam passar pelo crivo dos pais, para que não comprometam significativamente o desenvolvimento emocional e social de seus filhos.

 INFLUÊNCIA NO COMPORTAMENTO HUMANO

Mateus da Costa Meira, estudante de Medicina de uma renomada universidade de São Paulo, protagonizou, em 1999, até então, um dos crimes inéditos no Brasil, o assassinato em massa. Mateus matou três pessoas, feriu quatro e colocou em risco a vida de mais 15 pessoas, na sala de exibição de um cinema, em um shopping center, na cidade de São Paulo. Mateus entrou na sala como espectador, sentou-se na primeira fila e assistiu às primeiras cenas do filme Clube da Luta. Em determinado momento, levantou-se, foi ao banheiro e tirou da mochila uma metralhadora, com a qual disparou contra o espelho, como se quisesse atingir sua imagem. Depois voltou à sala de exibição, virou-se para a plateia, de costas para a tela e começou a atirar, atingindo algumas pessoas. Mateus foi condenado a 120 anos de prisão, e os argumentos utilizados em sua defesa eram de que o jovem estaria sendo influenciado psicologicamente por um game, que trazia, em seu conteúdo, uma cena semelhante, de um tiroteio dentro de um cinema. Ainda há muitas controvérsias sobre o assunto, mas muitos estudos em Psiquiatria, Psicologia e Pedagogia defendem a ideia de que os games e filmes violentos podem afetar mentes perturbadas psicologicamente, provocando uma mudança de comportamento e até mesmo o fenômeno copycat.

THE CHOKING GAME – O JOGO DA MORTE

Recentemente, uma notícia chocou pais e autoridades: a morte de um garoto de 13 anos, em São Vicente, litoral de São Paulo, durante uma partida de um jogo on-line, tendo sido, inclusive, presenciada pelos outros jogadores em tempo real, pela internet. Outras mortes de garotos da mesma faixa etária, nas mesmas condições, tidas como suicídio, estão sendo investigadas por todo o país. O jogo é conhecido nos Estados Unidos como The Choking Game. Aqui, ganhou traduções como: 1090 da Asfixia, 1090 do Enforcamento, 1090 do Desmaio ou Abraço do Urso. Segundo as instituições Ericks Cause e Instituto Dimicuida, já vitimizou mais de 1.260 pessoas e chegou ao Brasil há dois anos, mas só agora tem se difundido. Ele consiste na interação de vários participantes on-line (ou, em alguns casos, em grupos presenciais, principalmente na escola) e, em certo momento, aquele jogador que está perdendo a partida é desafiado a um sufocamento ou enforcamento. A intenção é bloquear a passagem do ar para o cérebro por alguns instantes, provocando desmaio para que, ao retornar, o jovem sinta-se em estado de euforia, como se tivesse usado uma droga. No caso do jogo ocorrer pela internet, geralmente o desafiado está sozinho e tenta realizar o próprio sufocamento ou enforcamento. Quando ocorre em grupos, na escola, um ou mais jogadores pressionam fortemente o peito do desafiado, até que ele desmaie. Tudo é sempre filmado e o vídeo postado imediatamente, sendo viralizado na internet.

O participante desafiado demonstra, assim, na visão (deturpada) do grupo, coragem, influenciando outros a fazerem o mesmo. Desafiar o perigo e o medo é uma das características comuns à adolescência, mas sabe- se que o cérebro, nessa idade, não está maduro suficientemente para que o adolescente possa compreender e calcular os riscos e as consequências de seus atos. Muitos jovens estão atentando contra a vida. como uma brincadeira. Alguns morrem durante o jogo e outros podem permanecer com sequelas cerebrais irreversíveis pela perda de oxigênio no cérebro. Ê preciso urgentemente rever o conceito de que crianças e jovens estão protegidos em casa. Muitos deles passam horas sozinhos, trancados em seus quartos, sendo influenciados pela mídia e, como demonstrado, podem estar colocando suas vidas seriamente em perigo.

  

CARLA DANIELA P. RODRIGUES –  é psicopedagoga clínica neuropsicóloga e facilitadora em treinamento bio e neurofeedback nos transtornos de aprendizagem. Ministra palestras nas áreas relacionadas a Neurociências, inclusão e aprendizagem e-mail: carladaniela_psico@hotmaiI.com

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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