PSICOLOGIA ANALÍTICA

VIOLÊNCIA EM EFEITO DOMINÓ

Crimes violentos e de grande repercussão na mídia, segundo uma linha de pensamento chamada “teoria da modelagem”, podem desencadear outros, servindo de modelo comportamental e provocando o fenômeno copycat.

Violência em efeito dominó

Discute-se, há tempos, nas diferentes áreas da humanidade, como Antropologia, Sociologia e Psicologia, o poder de influência que a mídia pode exercer sobre a sociedade. Entende-se aqui, por mídia, todos os canais de transmissão de informações, por meio impresso, eletrônico ou digital. O termo, hoje, é amplamente utilizado como sinônimo para meios de comunicação em massa.

A mídia foi aos poucos, se desenvolvendo e crescendo em seu importante papel de informar a sociedade, embora, muitas vezes, venha a tornar-se também “formadora” de opiniões e ideologias, e a influência gerada por ela, hoje, atinge patamares altíssimos. Moda, expressões, estilos de vida, looks são apenas alguns dos vários exemplos que demonstram o quanto nossos comportamentos podem ser moldados ou modelados por influência de artistas, novelas, propagandas e até mesmo por jornalistas que estão inseridos nesse contexto como formadores de opiniões.

Importantíssimo meio para propor reflexões, a mídia pode se transfigurar como um canal de grandes mudanças sociais. Campanhas de doação de sangue, de incentivo à sustentabilidade, campanhas pela paz são exemplos positivos que ganham proporções enormes graças à mídia!

Muitos assuntos polêmicos e até considerados tabus por anos foram e estão sendo retratados em novelas, que alcançam a grande massa da população, provocando reflexões e mudanças, como, por exemplo, na novela Laços de Família, em que se discutiram a leucemia e o transplante de medula; em Páginas da Vida, em que a síndrome de Down foi amplamente exposta; ou em Caminho das Índias, em que a esquizofrenia foi um dos importantes temas abordados.

Por outro lado, o incentivo ao consumismo, principalmente apelando para o público infantil, e os padrões de beleza impostos pela cultura da vaidade e do corpo são exemplos negativos de como as pessoas podem ser manipuladas pelos meios de comunicação.

Uma das bases teóricas que tenta explicar esse comportamento social tão influenciável é a teoria da aprendizagem social, também chamada de “teoria da modelagem”, que sustenta a ideia segundo a qual os indivíduos podem aprender comportamentos sociais de maneira informal, através da observação daquilo ou daquele que pode ser chamado de “modelo”, que geraria, nesse sentido, comportamentos modelados.

A teoria da modelagem tem como um de seus precursores o psicólogo Albert Bandura, que, em seus estudos, demonstrou que as tendências violentas podem ser aprendidas desde cedo pelas crianças ao observarem outras pessoas praticando atos violentos, ou mesmo pela mídia, através de filmes, desenhos e outros canais. O autor estudou bastante o comportamento agressivo em crianças e descobriu que as que são expostas a situações de agressividade não só apresentam um comportamento imitativo dessa agressividade como também outros tipos de agressividade, não vistos no “modelo”. Assim, o comportamento imitado, segundo a teoria, serviria como início para um processo mais amplo e complexo. Nesse contexto, a mídia, em suas diversas vertentes, assim como a literatura, funcionaria como um manancial de situ ações que poderiam ser imitadas.

Da mesma forma como bons modelos podem ser copiados, um mau comportamento também pode servir de referência a quem não tem uma boa e equilibrada estrutura psíquica. Sendo assim, e seguindo essa linha de pensamento, crimes violentos e de grande repercussão na mídia poderiam desencadear outros, servindo de modelagem comportamental e gerando o que a literatura criminológica chama de fenômeno copycat. A expressão em inglês é formada pela junção das palavras copy, que quer dizer “copiar”, e cat, que significa “gato”. Ela está relacionada, originalmente, ao que acontece com os filhotes de gatos, que, juntos, tentam imitar o comportamento da mãe.

Ela tem sido largamente apontada cada vez que, após a ocorrência e divulgação de um crime, outro semelhante ao anterior é praticado, caracterizando o processo de modelagem. Dessa forma, a mídia teria, de certa maneira, responsabilidade sobre essas ocorrências, uma vez que o sensacionalismo ou a cobertura exagerada de um crime poderiam promover a ocorrência de outro. Crimes violentos, homicídios em massa, massacres, suicídios estariam entre os maiores copycats. Estes últimos, chama dos também de suicídios em cluster, estariam atrelados, geralmente, à imitação de suicídios de pessoas famosas. Em 1994, quando o músico Kurt Cobain, da banda Nirvana, cometeu suicídio, outros ocorreram seguidamente ao fato.

Algumas letras de músicas e até a literatura estão relacionadas a esse fenômeno também. Um exemplo foi o que ocorreu com o romance, até hoje referência no meio literário, Os Sofrimentos do Jovem Werther, do renomado escritor Johann Wolfgang von Goethe, que o escreveu em 1774. Na história, o personagem principal, Werther, apaixona-se por uma jovem prometida a outro. Desiludido com a situação, o protagonista comete suicídio, descrevendo-o em detalhes. Como uma epidemia, nos anos subsequentes à publicação do livro, em toda a Europa vários jovens cometeram suicídio, muitos deles reproduzindo a mesma cena descrita, com o livro aberto sobre a mesa. O romance chegou a ser proibido em diversos países, como Itália, Alemanha e Dinamarca. O fato ficou tão conhecido que a expressão “efeito Werther” começou a ser utilizada em situações de imitação.

 

EPIDEMIA TRÁGICA

Durante os anos de 2007 a 2009, o pequeno condado de Bridgend, com 130 mil habitantes, no País de Gales, Reino Unido, vivenciou uma trágica epidemia de suicídios de jovens amigos. No total, foram mais de 25 mortes, sendo que, só no decorrer de um ano 117 jovens cometeram suicídio, um a um.

Os pais de adolescentes e jovens estavam desesperados e começaram a criticar a mídia, na cobertura das mortes, dizendo que os casos podiam estar sendo desencadeados por influência da exagerada exposição dos casos.

Um estudo realizado pela Universidade de Colúmbia, nos EUA, pelo Departamento de Epidemiologia revelou urna forte relação entre as publicações impressas, em redes sociais, em canais de televisão sobre suicídio e novos casos.

Uma nova polêmica em relação a isso ganhou grandes proporções com a morte do ator Robin Williams, em 2014. Na época, a Academia, responsável pelo prêmio Oscar, resolveu publicar uma homenagem ao ator, colocando a foto do Gênio da Lâmpada, personagem dublado por ele no filme Aladim, da Disney, junto com a seguinte frase: “Gênio, agora você está livre”. O site do laboratório de pesquisas sobre comportamento suicida, da Universidade de Glasgow, publicou imediatamente um texto de advertência, dizendo que tais palavras poderiam influenciar diretamente pessoas com tendências suicidas, em relação à utilização da palavra “livre”, que poderia ser interpretada como o término de problemas e sofrimentos encarados por alguém nessa situação de vulnerabilidade em relação ao suicídio.

No meio policial é tão relevante o fenômeno copycat que algumas cidades chegam a vedar a publicação em jornais ou de qualquer outra forma de chegada ao público, das estatísticas de suicídios. Na maioria das vezes eles nem chegam a ser noticiados, por medidas de prevenção.

O pesquisador Loren Coleman, dos Estados Unidos, escreveu um livro intitulado The Copycat Effect How the Media and Popular Culture Trigger the Mayhem in Tomorrow’s Headlines (sem título em português), citando alguns casos de massacres ocorridos no país, que poderiam ter sido   influenciados por outros semelhantes noticiados pela mídia. O autor estudou por anos o comportamento suicida e homicida a partir do sensacionalismo nos casos policiais e chega a dizer, em seu livro, que seria como se as informações, personagens e fatos de um crime passassem a tomar conta do inconsciente de pessoas propensas a praticar tais crimes, até que elas realmente concretizem essas ideias.

 

MASSACRE

Em 1999, uma notícia estarreceu o mundo: o massacre de Columbine Hight School, em que dois estudantes planejaram e executaram um ataque à escola onde estudavam. Durante o massacre, que envolveu uso de armas, bombas e explosivos, os dois jovens mataram 12 alunos, um professor e feriram mais 21 estudantes, além de cometerem suicídio. As causas e motivações para o crime, que vinha sendo planeja do por eles durante muito tempo, até hoje não foram totalmente esclarecidas. Muitas discussões envolvendo temas como bullying, acesso a armas por jovens americanos, liberdade na internet, uso de antidepressivos por adolescentes e práticas de exclusão social, entre outros, foram mencionados como supostos gatilhos para o trágico evento. Porém, a polícia documenta, por meio de depoimentos, que, ao vasculhar a casa e os objetos dos adolescentes, foram encontrados diários pessoais dos jovens relatando que eles desejavam praticar um crime e atentado de igual importância e repercussão ao de Oklahoma City e outros grandes crimes que ocorreram nos Estados Unidos, nos anos 90. O caso foi um dos mais conhecidos no mundo todo, inclusive chegando a ser representado no cinema. Sua divulgação massiva na mídia pode ainda ter provocado, por anos, ondas de outros massacres realizados por novos imitadores.

Em 2012, novo massacre ocorreu nos EUA, no Colorado. Um atirador entrou em uma galeria de cinemas na pré-estreia do filme Batman, o Cavaleiro das Trevas, e atirou no público, em determinada cena em que havia tiros. Doze pessoas morreram e 30 ficaram feridas. O detalhe é que o atirador estava fantasiado de Coringa. Logo em seguida a essa tragédia, outra bem parecida ocorreu em uma igreja.

Muitos são os estudiosos que pesquisam sobre o fenômeno copycat e a respeito do perfil dos sujeitos que poderiam ser influenciados nesse contexto. Pessoas vulneráveis, com distúrbios psicológicos, podem facilmente ceder à influência midiática, desejando o reconhecimento e a fama advindos do protagonismo de um crime bárbaro, de grande repercussão.

 

LINCHAMENTOS

No Brasil, o fenômeno copycat está muito presente nos linchamentos. Segundo as estatísticas, há uma tentativa de linchamento por dia no Brasil. Em 2014, houve, durante o período de três meses, vinte casos de linchamento coletivo. Grande parte deles ocorrido logo depois de a mídia noticiar um anterior com destaque. Outros crimes bárbaros de grande repercussão podem ter servido de modelo para outros do mesmo gênero.

Em 2002, um desses crimes chocou os brasileiros: Suzane von Richthofen foi a mandante do assassinato de seus pais, executado pelo namorado Daniel Cravinhos e o irmão deste, Cristian Cravinhos. Suzane e os irmãos confessaram que queriam o dinheiro dos pais dela. Em 2004, apenas dois anos depois, outro filho é acusado de assassinar o pai e a madrasta: o ex- seminarista Gil Rugai. Novamente o motivo do crime era a herança.

Já em 2013, outra tragédia surpreende a população e passa a ser manchete de todos os jornais e  veículos de comunicação, explorada massivamente: o caso Pesseghini, em São Paulo, no qual os  membros de  uma  família  (pai, mãe, avó e tia ­ avó)  são, supostamente assassinados pelo filho  do casal, um menino de 13 anos, que ficou conhecido no Brasil todo por Marcelinho, e que teria, após matar a família  toda, ido à escola e voltado para casa para cometer suicídio. Apesar de controvérsias e muitas polêmicas em relação à cena do crime, a versão de que o garoto realmente matou a família é a mais sustentada, até por falta de provas contrárias.

Comprovando o fenômeno copycat, apenas quatro dias após o caso, outra tragédia envolvendo um policial e sua família ocorreu em Mairinque. O policial e sua esposa foram executados, enquanto o filho, baleado na cabeça.

O meio social em que estamos inseridos contribui essencialmente para o nosso desenvolvimento. Estamos expostos diariamente a modelos e processos de modelagem do comportamento.

Dessa forma, todos os meios que, de alguma forma, possam atuar como agentes sociais na formação humana devem ser encarados com muito cuidado, discernimento e responsabilidade, para que possamos, como sociedade, incorporar experiências e atitudes positivas.

 Violência em efeito dominó.2 EFEITO WERTHER

O chamado efeito Werther designa um comportamento imitativo, proveniente da influência de outro e que surgiu a partir da epidemia de casos de suicídios após a publicação da obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Joham W. von Goethe, em 1774, e que contava a história de um rapaz que, desiludido amorosamente, comete suicídio. Inaugurando o Romantismo, a literatura, que até então retratava a sociedade, passa a ser vista como principal meio de comunicação a influenciar a sociedade. Nesse contexto, o suicídio começa a ser encarado não só como fato psicológico, mas também como um fenômeno social.

Violência em efeito dominó.3

NO UNIVERSO INFANTIL

A posição que a TV ocupa no cotidiano infantil ainda é polêmica e tema de muitas discussões. Alguns estudiosos continuam afirmando que a televisão permanece sendo a babá eletrônica preferida pelos pais. É muito importante que esses pais conheçam a fundo o conteúdo dos desenhos que seus filhos assistem, pois é comprovado cientificamente que eles podem influenciar o comportamento infantil. Crianças imitam a violência dos desenhos, cujos conteúdos podem transmitir a mensagem, mesmo subliminar, de que a violência é aceitável, normal e até divertida. Sabe-se que crianças copiam o que veem e, até certa idade, possuem dificuldades para diferenciar a fantasia da realidade, necessitando de orientação e direção nesse sentido.

Sendo assim, desenhos, filmes e jogos infantis precisam passar pelo crivo dos pais, para que não comprometam significativamente o desenvolvimento emocional e social de seus filhos.

 INFLUÊNCIA NO COMPORTAMENTO HUMANO

Mateus da Costa Meira, estudante de Medicina de uma renomada universidade de São Paulo, protagonizou, em 1999, até então, um dos crimes inéditos no Brasil, o assassinato em massa. Mateus matou três pessoas, feriu quatro e colocou em risco a vida de mais 15 pessoas, na sala de exibição de um cinema, em um shopping center, na cidade de São Paulo. Mateus entrou na sala como espectador, sentou-se na primeira fila e assistiu às primeiras cenas do filme Clube da Luta. Em determinado momento, levantou-se, foi ao banheiro e tirou da mochila uma metralhadora, com a qual disparou contra o espelho, como se quisesse atingir sua imagem. Depois voltou à sala de exibição, virou-se para a plateia, de costas para a tela e começou a atirar, atingindo algumas pessoas. Mateus foi condenado a 120 anos de prisão, e os argumentos utilizados em sua defesa eram de que o jovem estaria sendo influenciado psicologicamente por um game, que trazia, em seu conteúdo, uma cena semelhante, de um tiroteio dentro de um cinema. Ainda há muitas controvérsias sobre o assunto, mas muitos estudos em Psiquiatria, Psicologia e Pedagogia defendem a ideia de que os games e filmes violentos podem afetar mentes perturbadas psicologicamente, provocando uma mudança de comportamento e até mesmo o fenômeno copycat.

THE CHOKING GAME – O JOGO DA MORTE

Recentemente, uma notícia chocou pais e autoridades: a morte de um garoto de 13 anos, em São Vicente, litoral de São Paulo, durante uma partida de um jogo on-line, tendo sido, inclusive, presenciada pelos outros jogadores em tempo real, pela internet. Outras mortes de garotos da mesma faixa etária, nas mesmas condições, tidas como suicídio, estão sendo investigadas por todo o país. O jogo é conhecido nos Estados Unidos como The Choking Game. Aqui, ganhou traduções como: 1090 da Asfixia, 1090 do Enforcamento, 1090 do Desmaio ou Abraço do Urso. Segundo as instituições Ericks Cause e Instituto Dimicuida, já vitimizou mais de 1.260 pessoas e chegou ao Brasil há dois anos, mas só agora tem se difundido. Ele consiste na interação de vários participantes on-line (ou, em alguns casos, em grupos presenciais, principalmente na escola) e, em certo momento, aquele jogador que está perdendo a partida é desafiado a um sufocamento ou enforcamento. A intenção é bloquear a passagem do ar para o cérebro por alguns instantes, provocando desmaio para que, ao retornar, o jovem sinta-se em estado de euforia, como se tivesse usado uma droga. No caso do jogo ocorrer pela internet, geralmente o desafiado está sozinho e tenta realizar o próprio sufocamento ou enforcamento. Quando ocorre em grupos, na escola, um ou mais jogadores pressionam fortemente o peito do desafiado, até que ele desmaie. Tudo é sempre filmado e o vídeo postado imediatamente, sendo viralizado na internet.

O participante desafiado demonstra, assim, na visão (deturpada) do grupo, coragem, influenciando outros a fazerem o mesmo. Desafiar o perigo e o medo é uma das características comuns à adolescência, mas sabe- se que o cérebro, nessa idade, não está maduro suficientemente para que o adolescente possa compreender e calcular os riscos e as consequências de seus atos. Muitos jovens estão atentando contra a vida. como uma brincadeira. Alguns morrem durante o jogo e outros podem permanecer com sequelas cerebrais irreversíveis pela perda de oxigênio no cérebro. Ê preciso urgentemente rever o conceito de que crianças e jovens estão protegidos em casa. Muitos deles passam horas sozinhos, trancados em seus quartos, sendo influenciados pela mídia e, como demonstrado, podem estar colocando suas vidas seriamente em perigo.

  

CARLA DANIELA P. RODRIGUES –  é psicopedagoga clínica neuropsicóloga e facilitadora em treinamento bio e neurofeedback nos transtornos de aprendizagem. Ministra palestras nas áreas relacionadas a Neurociências, inclusão e aprendizagem e-mail: carladaniela_psico@hotmaiI.com

OUTROS OLHARES

CEFALÉIA, TENSÃO MUSCULAR E SCREENAGERS*

* screenagers termo para adolescentes inseridos na era digital

Uma queixa recorrente em consultórios de psicologia ou medicina é a ocorrência de dores de cabeça, pescoço e ombros devido ao uso de eletrônicos.

CefaléiaA, tensão Mmuscular e screenagers

 Devido ao alto tempo despendido no usufruto dos modelos tecnológicos e às posições corporais inadequadas durante esse uso, diversos estudos foram elaborados para investigar essa importante relação.

O primeiro trabalho revela que nos últimos dez anos houve um aumento significativo de adolescentes queixosos de dores de cabeça devido ao uso de eletrônicos (Hakala et ai, 2002). Comparando os dados de 1991 e 2001, o estudo revela que essas dores aumentaram entre 23 – 50% entre os meninos e 44 -50% entre as meninas. Pesquisadores sugerem que esse mecanismo doloroso é acionado por causa dos longos períodos de uso de eletrônicos, que geram uma tensão muscular sustentada (prolongada) e uma dificuldade na recuperação dessa tensão (devido ao uso excessivo), o que poderia acarretar esse sofrimento físico.

Essa informação está em sincronia com aquilo que é narrado em consultórios psicológicos por diversos pacientes, porém, vários deles, dependentes, mencionam que podem (e devem) ignorar qualquer tipo de dor para manter a prática de eletrônicos. Um mecanismo que explica esse cenário é chamado de “fluxo”, que nada mais é do que uma imersão profunda na prática de jogos eletrônicos ou uso de celular e, nesse momento, necessidades biológicas básicas são ignoradas (dentre elas a dor).

Uma pesquisa realizada em diversos países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega, Islândia e Groenlândia), com 31.022 adolescentes, revelou novos e importantes dados nessa correlação (Torsheim et ai, 2010). Os participantes preencheram diversos instrumentos de mensuração: o primeiro deles mediu a intensidade do uso de mídia (televisão, jogos eletrônicos e internet) durante dias úteis e finais de semana, o segundo o status socioeconômico da família e, por fim, uma escala relacionada à atividade física. Os resultados do estudo demonstraram que aproximadamente 21,1% dos adolescentes sentem dores nas costas ou pescoço e 34,8% sentem dor de cabeça devido ao uso de eletrônicos. Os autores sugerem que, com esses dados, é necessário avaliar se os adolescentes estão mostrando prejuízo em fatores ergonômicos e mencionam a necessidade de a família monitorar o tempo de uso desses indivíduos. Outra pesquisa buscou revelar a associação entre o uso de eletrônicos e sintomas depressivos, sintomas musculoesqueléticos e somáticos (Hellstrõm et ai., 2015). Após o preenchimento de um questionário por 7.757 adolescentes suecos entre 13 e 18 anos, os resultados demonstraram que quanto maior o tempo de uso de tecnologia, maior também é a chance da ocorrência de adoecimentos. Aqueles usuários, segundo os pesquisadores, que utilizam os recursos tecnológicos para escapar de problemas cotidianos e passam mais de cinco horas ao dia nesse usufruto apresentaram maior ocorrência de sofrimento físico/psíquico.

De forma antagônica, também existem estudos que demonstram que o uso de eletrônicos pode ser útil para ignorar a dor de forma positiva. Um deles realizou um experimento no qual os participantes de veriam colocar as mãos dentro de um recipiente com água gelada (2° C) Jameson; Trevena; Swain, 2011). Os grupos foram divididos naqueles que utilizaram jogos eletrônicos e nos que assistiram programas midiáticos (passivamente). Os resultados demonstraram que aqueles que jogaram toleraram a dor por um tempo maior em relação ao segundo grupo. Esse resultado sugere que os jogos eletrônicos podem também ser utilizados no controle da dor (em hospitais, por exemplo). Além desse modelo, sabe-se dos jogos eletrônicos chamados de exergames (que utilizam o corpo do jogador para o correto funcionamento dos movimentos na tela), que já são utilizados em diversos centros de saúde para a recuperação de pacientes com transtornos neurológicos ou mesmo internados por outros motivos. Dessa forma, volta­ se à questão da neutralidade da tecnologia: o bom ou mau uso está relacionado aos valores atribuídos pelo usuário.

Como forma de reflexão, gostaria de deixar a seguinte sugestão: realize uma observação do seu uso de tecnologia (mensuração de tempo, postura e motivo que o conduziram a esse uso). Após isso, verifique se existem fatores que possam estar prejudicando sua saúde, dentre eles as dores mencionadas nesta matéria.

 

IGOR LINS LEMOS –  é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo- comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com

GESTÃO E CARREIRA

PODER PESSOAL

Um modelo de personalidade magnética pode ser construído de forma inconsciente apenas com a observação das pessoas que se considera influentes no ambiente de trabalho.

Poder pessoal

Provavelmente todos conhecem alguém que quando adentra o ambiente atrai a atenção de todos mesmo sem pronunciar uma só palavra. Independentemente do cargo que ocupe na empresa, essa pessoa possui o que muitos chamam de magnetismo pessoal. Parece uma força de atração, silenciosa, que transforma certas pessoas em referências de poder e sabedoria.

O que há nelas que cria essa atmosfera positiva de atração? Pode ser replicado para se alcançar os mesmos resultados?

No universo comportamental tudo é possível com técnica, esforço e prática. Mas para que possamos direcionar nossas energias para a criação de um avatar que modele um personagem de grande magnetismo pessoal é necessário que saibamos quais são os pontos principais exibidos por uma pessoa nesse perfil de excelência:

1 – VOZ E FALA: Tanto homens quanto mulheres, no perfil de grande poder pessoal, possuem uma fluência mais lenta que o seu grupo de contato. Também mantêm um tom de voz mais grave sem cruzar a linha do estereótipo. Jamais falam rápido, mas sabem usar as pausas para criar um toque emocional em suas frases.

 2 – MOVIMENTOS GERAIS: Uma pessoa de grande poder não tem pressa. Anda devagar, não balança os braços além da área do corpo ao caminhar e mantém o queixo em 90° em relação ao pescoço (nem mais nem menos).

3 – MOVIMENTO DAS MÃOS: Jamais uma pessoa de grande poder pessoal irá falar movimentando as mãos acima da linha do osso esterno (peito). Essa gesticulação expressa uma grande insegurança do falante e, como nosso avatar é muito seguro de si, ele jamais se movimenta dessa forma.

4 – OLHAR CENTRADO: Pode-se notar que o olhar das pessoas magnéticas é sempre expressivo. No entanto, ao questionar os que convivem diretamente com elas, o que realmente têm de diferente poucos irão responder corretamente: elas piscam menos e mais devagar.

Esses são os quatro pontos mais comuns naqueles que exercem uma forte atratividade, os que emanam poder no ambiente. Muitos são assim naturalmente e outros tantos treinaram o próprio perfil comportamental para incorporarem essa calma natural que existe nos poderosos.

Para os que desejam expandir, de forma natural, esse dom apresentamos aqui quatro práticas de exercícios que podem ajudar a delinear esse perfil:

1 – VOZ DE AUTORIDADE: Basta colocar alguns objetos sobre a mesa e comandar, a si mesmo, a movimentação deles. Com uma voz calma e tranquila, porém altiva, diga o seu nome e para pegar um ou outro objeto, e depois, ainda com o comando de voz, ordene que o objeto seja de novo colocado no mesmo lugar. A mente irá “ver” que tudo que é dito com aquela voz ocorre no mundo real. Criando assim uma notável segurança na fluência verbal.

2 – MOVIMENTOS DE CORPO: Tomar consciência do próprio corpo requer atenção. Para isso é necessário que uma prática de meditação seja incorporada no dia a dia das pessoas que desejam manter uma marcha bem estruturada. Yoga pode ajudar muito no desenvolvimento dessa consciência corporal.

3 – MÃOS E PÉS MAIS SEGUROS: Para evitar muita movimentação ao falar, uma boa prática é pressionar os dedões dos pés dentro dos sapatos. Não há como a outra pessoa perceber mesmo se os pés estiverem à mostra (sapatos femininos). Nas mãos a dica é unir os três dedos: polegar, indicador e anelar. De forma suave e sutil essa postura com as mãos parece natural e as inibe de desenhar no ar o que falamos.

4 – OLHAR MAGNÉTICO: Essa é uma técnica milenar tibetana, o melong, uso de espelhos para desenvolver um olhar penetrante e magnético. Qualquer espelho serve para esse treino. Basta olhar a própria imagem e tentar permanecer o maior tempo possível sem piscar. Sem esforço, sem perder uma expressão de calma natural, ficar dois minutos sem piscar pode causar um impacto bem forte mesmo que a pessoa com quem fala jamais perceba o que ocorre de diferente. Atenção para as limitações físicas de cada pessoa. Usuários de lentes de contato, por exemplo, terão enorme dificuldade nesse exercício e, de fato, para eles isso não é aconselhável.

A prática desses exercícios não irá transformar você em um líder natural em 15 dias. Mas com a constante observação de pessoas que você mesmo considera influentes no ambiente, mais detalhes virão à tona de forma consciente. Assim, dentro de algum tempo será possível criar o seu próprio modelo de personalidade magnética. Um perfil de poder pessoal somente seu.

 

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Púbica, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções (Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional: Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE I

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos 

No final do capítulo anterior, nós vimos que poucos foram levados até Cristo em Jerusalém. No entanto, aqui está um deles, uma pessoa considerável. Vale a pena empenhar-se pela salvação, mesmo que seja de uma única alma. Observe:

I – Quem era este Nicodemos. “Não são muitos… os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” (1 Coríntios 1.26). No entanto, alguns o são, e aqui estava um deles. Nem muitos governantes, ou fariseus. Ainda assim:

1. Este era um fariseu, criado para o estudo, um erudito. Que não se diga que todos os seguidores de Cristo não têm estudo ou são homens ignorantes. Os princípios dos fariseus, e as peculiaridades da sua seita eram diretamente contrários ao espírito do cristianismo. Ainda assim, havia alguns em quem até mesmo estes pensamentos elevados eram derrubados e trazidos à obediência a Cristo. A graça de Cristo é capaz de subjugar a mais ferrenha oposição.

2. Ele era um “príncipe dos judeus”, um membro do grande Sinédrio, um senador, um conselheiro privado, um homem de autoridade em Jerusalém. Por mais que as coisas estivessem ruins, havia alguns príncipes com boa inclinação, que, no entanto, faziam pouco bem, porque a corrente contra eles era muito forte. Eles eram dominados pela maioria, e subjugados àqueles que eram corruptos, de modo que não conseguiam fazer o bem que desejavam. Ainda assim, Nicodemos continuou na sua posição, e fazia o que podia, quando não podia fazer o que queria.

II – A maneira solene como ele se dirige ao nosso Senhor Jesus Cristo, v. 2. Veja aqui:

1. Quando ele veio: ele “foi ter de noite com Jesus”. Observe:

(1) Ele teve uma conversa privativa e particular com Cristo, e não julgou suficiente ouvir seus sermões públicos. Ele decidiu falar com Ele sozinho, quando poderia ter liberdade com Ele. A conversa pessoal com ministros hábeis e fiéis sobre as questões das nossas almas é de grande utilidade para nós, Malaquias 2.7.

(2) Ele se dirigiu a Jesus à noite, o que pode ser considerado:

[1] Como um ato de prudência e discrição. Durante o dia inteiro, Cristo estava engajado no seu ministério público, e Nicodemos não desejava interrompê-lo, nem esperava que Ele o atendesse, mas observou os horários de Cristo, e o procurou quando Ele estava desocupado. Observe que as vantagens privativas que beneficiam apenas a nós e nossas famílias devem ceder lugar às públicas. O bem maior deve ter preferência sobre o menor. Cristo tinha muitos inimigos, e por isto Nicodemos veio até Ele incógnito, pois se os principais dos sacerdotes ficassem sabendo disto, eles se enfureceriam ainda mais contra Cristo.

[2] Como um ato de zelo e diligência. Nicodemos era um homem de negócios, e talvez não tivesse tempo, durante o dia, para fazer uma visita a Cristo. Por esta razão, ele pode ter preferido aproveitar o início da noite, ou ainda mais tarde, do que deixar de conversar com Cristo. Quando os outros estavam dormindo, ele estava adquirindo conhecimento, como Davi em meditação, Salmos 63.6 e 119.148. Provavelmente, isto aconteceu uma noite após ele ter visto os milagres de Cristo, e não desejava negligenciar a primeira oportunidade de seguir suas convicções. Ele não sabia quando Cristo poderia deixar a cidade, nem o que poderia vir a acontecer entre esta festa e a próxima, e por isto desejou não perder tempo. À noite, sua conversa com Cristo seria mais à vontade, e menos sujeita a distúrbios. Estas eram Noites cristãs, muito mais instrutivas que as Noites de Atenas. Ou

[3] Como um ato de medo e covardia. Ele tinha medo, ou vergonha, de ser visto com Cristo, e por isto veio à noite. Quando o Evangelho está fora de moda, existem muitos Nicodemos, especialmente entre os líderes, que têm um afeto por Cristo e por sua religião maior do que se supõe que tenham. Mas observe que, em primeiro lugar embora ele viesse à noite, Cristo o recebeu bem, aceitou sua integridade e perdoou sua fraqueza. Ele levou em consideração seu temperamento, que talvez fosse temeroso, e a tentação em que ele se encontrava, devido à sua posição e trabalho, e assim ensinou seus ministros a tolerar todas as coisas de todos os homens, e a incentivar bons inícios, ainda que sejam fracos. Paulo pregava particularmente aos que estavam em estima ou que pareciam de maior influência, Gálatas 2.2. Em segundo lugar, embora ele venha agora à noite, posteriormente, quando houve oportunidade, Ele reconheceu a Cristo publicamente, cap. 7.50; 19.39. A graça que a princípio é apenas um grão de mostarda pode crescer e se tornar uma grande árvore.

2. O que ele disse. Ele não veio falar com Cristo sobre política e questões de estado (embora fosse um príncipe), mas sobre os interesses da sua própria alma e sua salvação, e, sem rodeios, vai direto ao assunto. Ele chama Cristo de Rabi, o que significa um grande homem. Veja Isaías 19.20. “Ele lhes enviará um Redentor e Protetor que os livrará”. Um Salvador e um Rabi, é isto o que a palavra quer dizer. Há esperanças para aqueles que têm respeito por Cristo, e pensam e falam honrosamente dele. Ele diz a Cristo o que já sabia: “Bem sabemos que és mestre”. Observe:

(1) Sua declaração direta a respeito de Cristo: “És mestre vindo de Deus”. Não educado ou ordenado pelos homens, como outros mestres, mas sustentado com inspiração e autoridade divinas. Aquele que seria o Príncipe soberano veio, primeiramente, ser um mestre, pois Ele irá governar com a razão, não com rigor, pelo poder da verdade, e não o da espada. A palavra repousava em ignorância e enganos. Os professores judeus eram corruptos e levavam o povo a enganos. É hora do trabalho do Senhor. Ele era um mestre vindo de Deus, de Deus, que é o Pai das misericórdias, por piedade de um mundo obscuro e enganado; de Deus, que é o Pai das luzes e a fonte da verdade, toda a luz e toda a verdade em que podemos aventurar nossas almas.

(2) Sua garantia disto: “Bem sabemos”, não somente eu, mas também outros. Assim, Nicodemos tinha certeza da divindade do Senhor Jesus, pois ela era clara e evidente. Talvez ele soubesse que havia diversos entre os fariseus e príncipes com quem ele convivia que tinham as mesmas convicções, mas não tinham a graça para admitir isto. Ou podemos supor que ele fala no plural (“sabemos”) porque trazia consigo um ou mais de seus amigos e alunos, para receber instruções de Cristo, sabendo que elas seriam de interesse público. “Mestre”, diz ele, “nós viemos com um desejo de ser ensinados, de ser seus alunos, pois estamos plenamente convencidos de que és um mestre divino”.

(3) A base da sua garantia: “Ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”. Aqui:

[1] Nós somos assegurados da veracidade dos milagres de Cristo, e do fato de que eles não eram falsos. Aqui estava Nicodemos, um homem sábio, sensível e curioso, alguém que tinha todos os motivos e oportunidades imagináveis para examiná-los, tão completamente convencido de que eram milagres verdadeiros, que foi levado por eles a agir contra seus próprios interesses, e contra a corrente da sua própria classe, que tinha preconceitos contra Cristo.

[2] Nós recebemos a orientação sobre o que deduzir dos milagres de Cristo. Portanto, nós devemos recebê-lo como um “Mestre vindo de Deus”. Seus milagres eram suas credenciais. O curso da natureza não podia ser alterado, exceto pelo poder do Deus da natureza, que, temos certeza, é o Deus da verdade e da bondade, e nunca coloca­ ria seu selo sobre uma mentira ou trapaça.