PSICOLOGIA ANALÍTICA

GENEROSIDADE E FELICIDADE

Neurocientistas descobrem um link importante entre o exercício da generosidade e a ativação de áreas cerebrais relacionadas à sensação subjetiva de felicidade.

Generosidade e felicidade

Nossa sociedade ocidental estimula o individualismo e a competitividade, em uma luta para acúmulo pessoal de recursos e aquisição de bens de consumo materiais, supostamente trazendo mais felicidade para aqueles que conseguem juntar muito dinheiro. No entanto, várias investigações têm apontado que o dinheiro em si não aumenta a felicidade, a não ser para pessoas (ou países) muito pobres. Além disso, uma atitude individualista ou egocêntrica não parece ajudar a aumentar o nível de felicidade. Pelo contrário, quando pensamos nos outros e dedicamos recursos para ajudá-los, turbinamos nosso bem-estar mental. Apesar de as pessoas mais espiritualizadas defenderem esse ponto de vista, o mais difícil é reunir evidências científicas que apoiem essa visão.

Estudo realizado por pesquisadores suíços em Zurique, juntamente com colaboradores de outros países, lançou luz nessa questão através de um experimento engenhoso. Os participantes tiveram seus cérebros escaneados enquanto tomavam decisões sobre usar uma quantia em dinheiro para si mesmo ou para os outros. O estudo demonstrou que fazer algo bom para outras pessoas produz um sentimento chamado de warm glow, em língua inglesa, ou o que podemos chamar de “brilho quente” em português.

Os resultados da investigação revelaram que pessoas que se preocupam com o bem-estar dos outros são mais felizes que aquelas que focam em seus próprios interesses. A generosidade faz as pessoas mais felizes, mesmo se foi uma pequena dose de ajuda. Em contrapartida, pessoas que agem somente em seus próprios interesses são menos felizes.

Além disso, a mera promessa de agir de forma generosa dispara um gatilho no cérebro que aumenta a atividade de regiões associadas à felicidade. Antes do experimento iniciar, alguns participantes se comprometeram verbalmente a agir de forma bondosa com outras pessoas. Esse grupo estava disposto a aceitar custos mais altos para fazer o bem, e também se consideravam mais felizes, depois do ato generoso, que aqueles que haviam se disposto a serem bondosos consigo mesmos. Ou seja, somente a intenção já é capaz de produzir mudanças positivas na atividade do cérebro.

Os pesquisadores examinaram três áreas principais no cérebro dos participantes, enquanto estes tomavam decisões sobre agir ou não de forma generosa. Uma dessas áreas é a junção temporoparietal, que parece se encarregar do processamento do comportamento pró-social e da generosidade. As outras regiões examinadas no estudo foram o estriado ventral, área cuja ativação está associada à felicidade, e o córtex orbitofrontal, que avalia o peso dos prós e contras durante processos de tomada de decisão.

Conforme os participantes se comprometiam a agir de forma bondosa ou egoísta, essas áreas interagiram de modo diferente. Aqueles sujeitos que prometeram agir de forma mais generosa ativaram a região altruística da junção temporoparietal e intensificaram a interação com a área do estriado ventral associada à felicidade.

De acordo com os resultados do estudo, a promessa de agir de forma bondosa com os outros pode atuar como um reforçador dos comportamentos altruístas, pois gera recompensa nos circuitos cerebrais, o que aumenta a chance de repetição. A promessa de ser generoso também pode ser usada como uma estratégia para aumentar a felicidade.

Os pesquisadores agora se debruçam sobre outras questões a serem investigadas em estudos posteriores. Será possível fortalecer a comunicação entre essas regiões cerebrais através de exercícios e treinamento? Quais as melhores formas de exercitar esses circuitos? Novas pesquisas vão adicionar detalhes importantes para essa nova compreensão do funcionamento da mente humana, que traz importantes implicações para a sociedade.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011.)

OUTROS OLHARES

O DIREITO DE CADA UMA

Ação no STF propõe que o aborto até doze semanas de gestação deixe de ser considerado crime. Não é uma questão de ética nem de religião – é de vida ou morte.

O direito de cada uma

Assunto delicado, daqueles que fazem os políticos suar frio e sair pela tangente, a liberação da prática do aborto no Brasil chegou ao prédio de Brasília onde aportam todas as decisões relevantes do país nos últimos tempos: o Supremo Tribunal Federal. Ao longo de dois dias, sessenta representantes de diferentes setores da sociedade participaram de audiências públicas no plenário para expressar sua posição sobre o tema e pôr em marcha o julgamento de uma ação que, ao mesmo tempo, questiona a constitucionalidade de dois artigos do Código Penal que punem a prática do aborto e defende a descriminalização do procedimento até a 12ª semana de gravidez. Sendo o STF o guardião da Constituição, coube a ele mexer no vespeiro – o que não deixa de ser promissor. Com a questão examinada sob a letra fria da lei, que é impermeável às paixões e às polêmicas que o assunto desperta, é possível que o Brasil tenha a chance de encarar a realidade. E a realidade é que, no país, cerca de 500.000 mulheres interrompem a gravidez todos os anos, e a cada dois dias uma mulher morre de complicações decorrentes de procedimentos malfeitos.

Falar de aborto é mexer com emoções, com convicções transformadas em verdades pétreas, em um cenário em que o certo e o errado são difusos e acirram divisões. Na Argentina, país movido a mobilizações populares, a rejeição pelo Senado, na quinta-feira 9, de um projeto de descriminalização do aborto foi recebida com lágrimas e desespero nas ruas tomadas por manifestantes que encararam a derrota como uma tragédia, enquanto os defensores da criminalização celebraram com sorrisos e aplausos o que consideraram uma vitória espetacular. A força da onda pró-aborto desaguou no Brasil, onde, nos dois dias de audiências públicas, sexta 3 e segunda 6, a frente do STF virou uma pequena Buenos Aires, com grupos a favor da descriminalização replicando slogans, cartazes e até o figurino das manifestações portenhas.

A ação que pede a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação foi encaminhada ao STF pelo PSOL em março do ano passado. Em tempo: descriminalizar é uma coisa, legalizar é outra. A primeira determina que o aborto deixe de ser crime passível de prisão (um a três anos para a mulher, três a dez para quem a auxilia). A segunda vai além e obriga o Estado a oferecer o procedimento na rede de saúde pública. “Queremos que o Supremo, a quem cabe interpretar a Constituição, defina quando se dará o início da proteção da vida para fins de aplicação do Código Penal”, resume uma das redatoras da ação, Luciana Boiteux, professora de direito penal e criminologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A ação se apoia em dois argumentos principais. Primeiro: a Carta de 1988 contempla princípios que asseguram às mulheres liberdade, dignidade e voz ativa no planejamento familiar. Segundo: seu texto garante o direito à vida a adultos, adolescentes e crianças, mas não menciona a fase de gestação – brecha, por sinal, que deputados adversários do aborto tentam fechar, incluindo na Constituição um artigo que passe a garantir o direito à vida “desde a concepção”. O prazo de doze semanas que a ação quer que o Supremo avalize baseia-se no consenso científico de que até essa fase da gestação o sistema nervoso central do feto não está formado.

O aborto é permitido na maior parte do mundo desenvolvido e proibido na porção menos avançada, sobretudo onde predomina a Igreja Católica, terminantemente contra a prática. As questões religiosas e éticas que envolvem a interrupção da gravidez são profundas e relevantes, mas têm caráter intrinsecamente individual. Cada pessoa pode ser a favor ou contra o aborto e é livre tanto para censurar as mulheres que interrompem a gravidez quanto para criticar as que têm filhos sem condições de criá-los. Mas fechar um país ao aborto e qualificá-lo de crime é não só improdutivo, mas também cruel. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são realizados no mundo 25 milhões de interrupções de gravidez em condições precárias a cada ano. Nos países onde a prática é crime morrem 220 mulheres para cada 100.000 abortos realizados. Naqueles em que é permitida, a mortalidade materna não passa de 1,7 para 100.000.

No Brasil, a limitação do procedimento a situações de estupro, risco de vida da gestante e anencefalia do feto não impede que o aborto seja recorrente em todas as faixas de renda e escolaridade. “Quem são as mulheres que abortam? Essa multidão pode ser descrita por números: uma por minuto, 56% católicas, 26% evangélicas. É a mulher comum brasileira”, disse, em seu depoimento no STF, a antropóloga e ativista Débora Diniz, uma das responsáveis pelo mapeamento de perfil realizado pela Universidade de Brasília. No fim de julho, Débora precisou sair da cidade devido a ameaças que recebeu por sua posição a favor da descriminalização, o que só mostra a que níveis absurdos chegou a intolerância com quem pensa diferente.

Apesar de estar presente em toda parte, o aborto é mais disseminado – e mais letal – na camada menos favorecida da população. Mulheres que estudaram até a 4ª série ou têm renda familiar de até um salário mínimo abortam duas vezes mais. A taxa de mortalidade de grávidas em decorrência de aborto é de 3 por 100.000 nascidos vivos entre brancas, 5 por 100.000 entre negras e 8,5 por 100.000 entre as de baixa escolaridade. “A ilegalidade não impede o aborto, só empurra as grávidas para os riscos da clandestinidade”, diz a pesquisadora Mariza Theme, da Fundação Oswaldo Cruz.

O levantamento da UnB revela que uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já realizou ao menos um aborto no Brasil – com toda a carga de medo, angústia, culpa e dor que o procedimento carrega. Metade delas apelou para o uso de misoprostol, medicamento recomendado pela OMS que aqui só pode ser vendido a clínicas e hospitais cadastrados, mas é facilmente encontrado no mercado paralelo. Mesmo nesse quadro favorável, há riscos quando as mulheres fazem uso errado ou tardio do remédio. Pior ainda: quando dá errado, muitas demoram a procurar um hospital e escondem que fizeram aborto, atrasando intervenções urgentes. “Elas têm medo de ser denunciadas. Metade das notificações parte dos profissionais de saúde que as atendem”, explica Flávia Nascimento, da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

A metade que não toma o medicamento recorre a clínicas infectas, médicos inescrupulosos, poções abortivas e introdução de objetos variados no corpo. Uma análise da Defensoria do Rio dos depoimentos de 42 mulheres que respondem na Justiça por ter abortado mostra que vinte fizeram o procedimento sozinhas e apenas três interromperam a gravidez antes que ela completasse doze semanas. As 22 que procuraram clínicas clandestinas pagaram de 600 a 4.500 reais. Tiveram sorte, pois sobreviveram. Em 2014, Jandira dos Santos Cruz, de 27 anos, deixou as duas filhas em casa, em Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio, seguiu para submeter-se a um aborto clandestino e morreu. Seu corpo, carbonizado, só foi encontrado um mês depois.

Para não cair no que classifica de “açougue”, e com medo de ser presa, a paulistana Rebeca da Silva Leite, de 31 anos, mãe de dois filhos e disposta a interromper uma terceira gravidez, tomou no ano passado a inédita iniciativa de pedir à Justiça autorização para abortar. A ideia partiu da antropóloga Débora, que também ajudou na elaboração da ação levada ao STF e propôs a Rebeca que ela fosse a “face humana” do processo. Mesmo alertada de que seria alvo de críticas, Rebeca se assustou com a repercussão. Grupos contra a legalização do aborto conseguiram o número de seu telefone e ligavam para sua casa. Uma mulher foi bater à sua porta, pedindo que desistisse. O STF não aceitou conceder a liminar no âmbito da ação do PSOL. Pouco depois, Rebeca foi convidada a participar de um seminário na Colômbia, onde o aborto é permitido, e interrompeu a gravidez em uma clínica de lá. “Foi um alívio”, disse. Abortos inseguros no Brasil levam à hospitalização de 250.000 mulheres por ano. Na última década, o SUS gastou 500 milhões de reais no tratamento de complicações.

O aborto legal já chegou a 63 países, com a inclusão mais recente da católica Irlanda, onde a medida foi aprovada por 66% dos votos em um plebiscito, em maio. Caminhando na direção contrária, o Senado da Argentina rejeitou descriminalizar o aborto até catorze semanas, depois de a Câmara ter aprovado o projeto por diferença de quatro votos. A vitória inicial impulsionou quase dois meses de manifestações diárias nas ruas, com participantes vestidas com manto vermelho e touca branca – referência ao uniforme das raras mulheres férteis forçadas a reproduzir em uma sociedade dominada pelo conservadorismo religioso, tema da premiada série The Handmaid’s Tale. “As novas gerações, protagonistas dessa mobilização, representam a mudança e a certeza de que, se não sair agora, o projeto será lei em breve”, afirma a deputada Victoria Donda antes da rejeição pelos senadores, que já era esperada. Uma das vozes mais vibrantes da campanha pró-aborto, Victoria, de 41 anos, nasceu na Escola Superior de Mecânica da Armada (Esma), em Buenos Aires, o principal centro de tortura na ditadura militar argentina. Seus pais até hoje são considerados desaparecidos. “Se vamos falar de aborto clandestino, eu sei muito bem o que é clandestinidade. A clandestinidade entra no corpo. A pessoa se sente só”, disse ela para uma matéria no jornal The New York Times. Embora seja sensível aos argumentos de quem é contra o aborto, a deputada reitera que criminalizá-lo é uma afronta inaceitável à liberdade das mulheres. “Sinto pesar pelos embriões que não vão nascer, mas também sinto pesar quando vejo o rosto das mulheres que desfrutam todos os direitos e, mesmo assim, são impedidas de trocar a clandestinidade pela saúde pública”, diz.

O movimento pela descriminalização do aborto se intensificou nas últimas duas décadas na América Latina. A prática foi aprovada na Colômbia, na Cidade do México (apenas na capital, e não no país), no Uruguai, na Guiana, na Guiana Francesa e em Porto Rico. Antes disso, o aborto só era praticado legalmente em Cuba, como política nacional para garantir uma baixa taxa de mortalidade infantil. A mobilização agora está se disseminando na região. “É uma ação protagonizada pelas mulheres. Elas estão quebrando o velho sistema ao declarar que são donas do seu corpo”, reflete a antropóloga uruguaia Susana Rostagnol. No Uruguai, onde a liberação se deu em 2012, as mortes em decorrência do procedimento despencaram: foram 8% dos óbitos maternos entre 2011 e 2015, contra 37% de 2001a 2005.

Nos Estados Unidos, a liberação também foi alcançada no Judiciário. Em 1973, a Suprema Corte deliberou sobre o caso Roe vs. Wade, junção do pseudônimo Jane Roe, inventado para proteger a identidade da mulher que foi aos tribunais pelo direito ao aborto em Dallas, no Texas, e do nome do promotor Henry Wade, contrário ao pedido. Os juízes americanos deram ganho de causa à mulher, com base nas liberdades individuais garantidas pela 14ª emenda à Constituição. Posteriormente, Jane Roe foi identificada como Norma McCorvey, que veio a se converter a uma religião antiaborto e renegou sua ação. Se a virada de casaca de Norma não teve maior efeito, a virada ultraconservadora na Presidência de Donald Trump pode ter. A reabertura da questão foi tema de campanha e a Suprema Corte, na composição atual, não é refratária a reverter a decisão.

A relatora do processo de descriminalização movido pelo PSOL, a ministra Rosa Weber, começará agora a redigir seu voto, e a ação só deve ser levada ao plenário do STF no ano que vem, quando um novo governo terá assumido. Com base em opiniões emitidas no passado, os grupos pró-descriminalização estão otimistas: calculam que seis dos onze ministros sejam favoráveis à proposta. A própria Rosa já questionou, no debate de uma ação anterior, a constitucionalidade dos dois artigos do Código Penal na berlinda. A atual presidente, Carmen Lúcia, escreveu em Vida Digna: Direito, Ética e Ciência que as mulheres pobres têm muitos filhos por causa “da ordem penal vigente”. É um sinal de que talvez essa ordem mude.

O direito de cada uma.2

GESTÃO E CARREIRA

SÃO TANTAS EMOÇÕES…

São tantas emoções

Há uma crescente atenção às questões emocionais no mundo de hoje. Nunca tivemos tantas pessoas com ansiedade crônica, desequilíbrios emocionais, depressão, problemas de auto estima e dificuldades para lidar com as inseguranças nas decisões. Há cerca de dez anos, o mundo empresarial não se importava muito com questões emocionais. Tampouco as famílias com seus filhos. A sociedade procurava esconder questões que apresentassem alguém com dificuldades emocionais. Falar de emoções no trabalho poderia ser considerado quase um sacrilégio. Falar de emoções em casa tinha a ver mais com as mulheres. Homens não choravam e não sentiam, pelo menos no imaginário de todos.

Em um mundo cada vez mais participativo, as emoções ficam em maior evidência. Isso porque é nas relações que vemos que a dinâmica emocional encontra sua expressão. Por exemplo, você está preocupado com algo e fica pensando na situação a todo momento.

Quando se encontra com alguém, logo o outro interage com sua preocupação e percebe que ela faz parte da relação, podendo saber lidar com alguém preocupado ou não. Você chega em casa e escuta seu filho desesperado porque ouviu que teremos a terceira guerra mundial por causa das notícias do conflito entre EUA e Coreia do Norte. As pessoas andam nas ruas e tentam ignorar a grande quantidade de refugiados e excluídos da sociedade. No entanto, pense bem, de alguma forma, há uma insegurança social.

Inteligência emocional está na pauta empresarial como uma das competências mais pedidas, estando presente em mais de 80 % das empresas. De fato, o pedido dessa competência quer dizer o quê? Que há mais desequilíbrios? Que há mais conflitos que envolvem emoções? Que há muitas inseguranças girando nas relações profissionais? Que as pessoas estão misturando a vida pessoal mais instável com a sociedade mais instáveis, com o papel profissional mais instável e, emocionalmente, intenso e pedindo para os líderes lidarem com isso tudo ao mesmo momento? Todas as questões são respondidas com sim. Como diria o rei Roberto Carlos, “são tantas emoções”. Está na pauta também das famílias em função de seus filhos com depressão, hiperatividade e déficit de atenção, entre outros problemas. A sociedade se fragmenta polarizando o bem e o mal como dois elementos que levam a conflitos extremos e nós ficamos cada vez mais estressados com isso.

O que, de fato, ainda precisa ser entendido é o que são emoções, como elas afetam a produtividade – e afetam muito – e como nós podemos lidar com elas sem sermos “terapeutas” dos colaboradores. Entender como lidar com nossas próprias emoções nesse ambiente complexo e cheio de volatilidade. Tudo muda constantemente e o que vale hoje pode não valer totalmente amanhã. Às vezes, você se compromete diante de um grupo de pessoas com uma promessa que não é possível cumprir brevemente. E aí, coloca uma meta que, em pouco tempo não faz mais sentido. E por aí vai… Haja coração!

Em casa, ainda não sabemos lidar com filhos, esposas, maridos e casais da nova geração, porque, estamos cheios de paradigmas do que é ser uma família, não temos referências de lideranças na sociedade e perdemos a credibilidade em boa parte das instituições que, de alguma forma, achávamos que iam nos salvaguardar. Todos têm ideias e opiniões e acham que podem resolver a intrincada complexidade do que significa viver boje e queremos dar conta de salvar tudo e todos. Ficamos frustrados pela impotência diante de cada novo desafio não solucionado.

A saída é dominar as emoções, ganhar reforço interno para lidar com nossos dilemas e estar centrado emocionalmente para, mesmo sentindo raiva, insegurança ou outra emoção qualquer, colocada como sentimento e achar uma saída para lidar com o momento. Vale dizer que emoções são impulsos que nos fazem trazer uma intensa e passageira alteração do ânimo e que sentimento quer dizer que você pensou sobre as emoções e adequou sua resposta ao tempo presente. Por exemplo, eu poderia estar com raiva porque as coisas não saíram como desejei. Então eu pensei sobre as variáveis e sobre os problemas que me deixaram com raiva e expressei minha raiva buscando encontrar uma solução para a situação. Outro ponto importante é buscar ajuda e formar a ideia de estudar a si mesmo por mais tempo, saber o que sente e como age diante de cada situação e o que o levam a ser assim. Buscar não reagir, tentar pensar e encontrar novas respostas para novos desafios.

É bom saber que demonstrar suas emoções o fazem mais forte, e não fraco, como pessoa. As expressões coerentes emocionalmente dão chance ao surgimento da empatia, do diálogo e da compreensão que leva a uma ação mais produtiva e colaborativa. Precisamos lembrar que, juntos, somos mais fortes no que se trata de emoções, que podemos aprender uns com os outros em como lidar com o que está dentro de nós. Por isso, achamos tão terapêutico encontrar um amigo para um papo quando estamos perdidos.

Neste sentido, o mundo educacional não pode ser apenas conteudista, pois os conteúdos estão sempre mudando. É preciso que seja mais formador das emoções e de como aproveitar as potencialidades humanas nas soluções dos desafios mundiais, locais e pessoais. É preciso preparar os educandos para se sentirem mais seguros diante de aprender o novo, diante de lidar com o incerto e diante de relações mais interdependentes. Vale o mesmo para o ambiente empresarial. pois somos extensão da educação humana que se expressa no fazer do homem produtivo.

Recentemente, conversando com um grupo de executivos, um deles me disse que detestava lidar com a alegria do grupo que toda hora ficava rindo e se mostrando contente. Veja que o desafio não se relaciona apenas em lidar com emoções que achamos mais negativas ou difíceis, como raiva, ódio, rancor etc. Há também dificuldades de lidar com ambientes mais afetivos e humanizados que atingem resultados de forma mais leve.

As famílias se fortalecem mais, se encontrarem tempo para dialogar sobre o mundo, sobre si mesmas e sobre o que pensam sobre cada movimento que ocorre ao redor de seus membros. Pais que explicitam melhor suas emoções, tornam seus filhos mais fortes, pois permitem que também o façam. Pais que consideram a raiva dos seus filhos adolescentes na luta por se tornar adultos como algo natural, que faz par te de um processo, levam numa boa as mudanças hormonais e, mais que isso, permitem que as frustrações sejam expressas e isso leva a menores conflitos.

Com tudo isso, quero dizer que não importa se é em casa, no trabalho ou enfrentando o caos de nossa sociedade atual, ser inteligente e emocionalmente, pensar sobre suas emoções e lidar melhor com as respostas a partir daí vai lhe trazer uma série de oportunidades para seu desenvolvimento e sua saúde de um modo geral. Isso porque pessoas mais equilibradas emocionalmente são fisicamente mais saudáveis.

 

CEKSO BRAGA – é sócio-diretor do Grupo Bridge, psicólogo e mestre em Educação, pós-graduado em Psicodrama Sócio educacional pela ABPS. É qualificado como professor supervisor pela FEBRA.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 2: 12-22

Alimento diário

Os mercadores do templo são punidos.

A morte e a ressurreição de Cristo são preditas

Aqui temos:

I – A breve visita que Cristo fez a Cafarnaum, v. 12. Esta era uma cidade grande e bastante habitada, a aproximadamente um dia de viagem de Caná. Ela é chamada “sua cidade” (Mateus 9.1), porque era sua base na Galileia, e o pouco descanso que Ele tinha era desfrutado ali. Era um lugar que tinha um grande afluxo de pessoas, e por isto Cristo o escolheu, para que a fama da sua doutrina e dos seus milagres pudesse, dali, espalhar-se mais.

Observe:

1. O grupo que o acompanhou até lá: sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. Onde quer que Cristo fosse:

(1) Ele não ia sozinho, mas levava consigo aqueles que se tinham colocado sob sua orientação, para que pudesse instruí-los, e para que pudessem atestar seus milagres.

(2) Ele não ia sozinho, mas eles o seguiam, porque gostavam da doçura, fosse da sua doutrina, ou do seu vinho, cap. 6.26. Sua mãe o seguia, embora o Senhor tivesse recentemente dado a entender que, nas obras do seu ministério, não lhe prestaria maior respeito do que a qualquer outra pessoa. Ela o seguia não para interceder junto a Ele, mas para aprender com Ele. O mesmo ocorria com seus irmãos e parentes, que estavam nas bodas e que foram impactados pelo milagre que ali foi feito. Esta também era a situação dos seus discípulos, que o acompanhavam onde quer que Ele fosse. Aparentemente, as pessoas eram mais influenciadas pelos milagres de Cristo no início, do que posteriormente. Parece que se acostumavam com eles, o que os tornava menos estranhos. Se este raciocínio estiver correto, as multidões não o seguiam apenas pelos grandes milagres, mas também pela Palavra que o Senhor lhes pregava, e pela sua preciosa presença, que é sempre tão agradável.

2. Sua permanência ali, que, desta vez, não foi de muitos dias, designava-se somente a dar início às relações que Ele iria aprimorar posteriormente nesse lugar. Cristo ia de um lugar a outro, não desejava confinar sua utilidade a um único lugar, porque muitos precisavam dele. E Ele desejava ensinar seus seguidores a se considerarem somente como temporários neste mundo, e seus ministros, a seguirem as oportunidades, e irem para onde seu trabalho os conduzisse. Nós não vemos agora Cristo nas sinagogas, mas Ele ensinava privadamente seus amigos, e assim iniciou sua obra gradativamente. É bom que os jovens ministros se acostumem aos sermões piedosos e edificantes em particular, para que possam, com a melhor preparação e maior respeito, iniciar seu trabalho público. Ele não ficou muito tempo em Cafarnaum, porque a Páscoa estava próxima, e Ele precisava comemorá-la em Jerusalém, pois tudo é bonito na sua ocasião apropriada. O bem menor deve abrir caminho para o maior. e todas as habitações de Jacó devem dar lugar às portas de Sião.

 

II – Ele comemorou a Páscoa em Jerusalém. Esta é a primeira, depois do seu batismo, e o evangelista registra todas as Páscoas que Ele comemorou desde então, que foram quatro no total, sendo que na quarta Ele sofreu (três anos depois desta), e meio ano tinha se passado desde seu batismo. Cristo, nascido sob a lei, comemorava a Páscoa em Jerusalém. Veja Êxodo 23.17. Assim, Ele nos ensinou, com seu exemplo, uma observância rígida às instituições divinas, e um comparecimento diligente às assembleias religiosas. Ele subiu a Jerusalém, quando a Páscoa estava próxima, para que pudesse estar ali com os primeiros. Ela é chamada de Páscoa dos judeus porque era peculiar a eles (Cristo é nossa Páscoa). Porém, dentro de pouco tempo, Deus não mais a reconheceria como sua. Cristo passava a Páscoa em Jerusalém todos os anos, desde que tinha doze anos de idade, em obediência à lei. Mas agora que Ele tinha iniciado seu ministério público, nós podemos esperar mais dele do que antes, e lemos duas coisas que Ele fez ali:

1. Ele purificou o Templo, vv. 14-17. Observe aqui:

(1) O primeiro lugar em que o encontramos em Jerusalém foi o Templo, e, aparentemente, Ele não fez nenhuma aparição pública até chegar ali. Pois sua presença e pregação ali eram a glória da última casa, que seria maior do que a da primeira, Ageu 2.9. Tinha sido predito (Malaquias 3.1): “Eis que eu envio o meu anjo”, João Batista. Ele nunca pregou no Templo, mas “de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais”, de repente, depois da aparição de João Batista. De modo que esta era a hora, e o Templo era o lugar, quando e onde o Messias devia ser esperado.

(2) A primeira obra em que o encontramos realizando no Templo foi a purificação dele. Pois assim estava predito (Malaquias 3.2,3): Ele “assentar-se-á, afinando e purificando… e purificará os filhos de Levi”. Agora era chegado o tempo da reforma. Cristo veio para ser o grande reformador, e, segundo o método dos reis reformistas de Judá, Ele primeiramente eliminou o que estava errado (e esta também era uma obra que deveria ser feita na Páscoa, como no tempo de Ezequias, 2 Crônicas 30.14,15, e Josias, 2 Reis 23.4ss.). Então o Senhor os ensinou a fazer aquilo que era correto. Em primeiro lugar, eles deveriam purgar o fermento velho, e depois preparar a festa, 1 Coríntios 5.7,8. O desígnio de Cristo, ao vir ao mundo, foi reformar o mundo, e Ele espera que todos os que vêm a Ele reformem seus corações e suas vidas, Gênesis 35.2. E isto Ele nos ensinou ao purificar o Templo. Veja aqui:

[1] Quais eram as corrupções que deviam ser eliminadas. Ele encontrou um mercado em um dos pátios do Templo, aquele que era chamado de pátio dos gentios, que estava localizado nas dependências daquele Templo, que fora edificado sobre uma montanha. Ali, em primeiro lugar, eles vendiam bois, e ovelhas, e pombos, para sacrifício. Nós supomos que não eram para uso comum, mas para a conveniência daqueles que vinham de fora e não podiam trazer seus sacrifícios em espécie consigo. Veja Deuteronômio 14.24-26. Este mercado talvez tivesse sido mantido junto ao tanque de Betesda (cap. 5.2), mas foi admitido dentro do Templo pelos principais dos sacerdotes, para lucro profano. Pois, sem dúvida, os aluguéis para estar ali, e os honorários para procurar os animais ali vendidos, e certificar que eles eram sem mancha, representariam uma renda considerável para eles. Grandes corrupções na igreja têm sua raiz no amor ao dinheiro, 1 Timóteo 6.5,10. Em segundo lugar, eles trocavam dinheiro para a conveniência daqueles que vinham de todas as partes do mundo da época, e que deveriam pagar meio siclo, em espécie, todos os anos, como uma “taxa per capita”, para a manutenção do serviço do Tabernáculo (Êxodo 30.12), e, sem dúvida, estes cambistas lucravam muito com esta atividade.

[2] O caminho que nosso Senhor tomou para eliminar estas corrupções. Ele tinha visto estas pessoas no Templo anteriormente, quando estava em uma posição particular, mas nunca se ocupou de expulsá-los, até agora, quando tinha assumido o caráter público de um profeta. Ele não se queixou aos principais dos sacerdotes, pois sabia que eles toleravam tais corrupções. Mas Ele mesmo:

Em primeiro lugar, expulsou do Templo as ovelhas e os bois, e aqueles que os vendiam. Ele nunca usou a força para levar ninguém ao Templo, mas somente para expulsar de lá aqueles que o profanavam. Ele não apreendeu as ovelhas e os bois para si mesmo, não os sequestrou nem manteve sob custódia, embora Ele os achasse invasores da propriedade do seu Pai. Ele apenas os expulsou, e também seus proprietários. Ele fez um azorrague de cordéis, com os quais provavelmente os vendedores tinham conduzido suas ovelhas e bois. Eles certamente tinham atirado estas cordas ao chão, onde Cristo as apanhou. Os pecadores preparam os açoites com os quais eles mesmos serão expulsos do Templo do Senhor. Ele não fez um açoite para castigar os transgressores (suas punições são de outra natureza), mas somente para expulsar os animais. O Senhor não desejava nada mais nesta reforma. Veja Romanos 13.3,4; 2 Coríntios 10.8.

Em segundo lugar, Ele “espalhou o dinheiro dos cambiadores”. Ao espalhar o dinheiro, Ele mostrou seu desprezo por ele. O Senhor o espalhou lançando-o ao solo. Ao derribar as mesas, Ele mostrou seu descontentamento com aqueles que faziam da religião um assunto de ganho mundano. Os cambistas no Templo são o escândalo do Templo. Observe que, na reforma, é bom fazer o trabalho completo. Ele lançou todos fora do Templo, e não somente espalhou o dinheiro, mas, ao derribar as mesas, expulsou o comércio também.

Em terceiro lugar, Ele disse àqueles que vendiam pombos (sacrifícios dos pobres): “Tirai daqui estes”. Os pombos, embora ocupassem menos espaço e fossem um aborrecimento menor do que os bois e as ovelhas, também não deviam ser permitidos ali. Os pardais e as andorinhas eram bem-vindos, pois eram deixados à providência de Deus (Salmos 84.3), mas não os pombos, que eram apropriados para o lucro do homem. O templo de Deus não deve ser transformado em um pombal. Mas veja a prudência de Cristo no seu zelo. Quando Ele expulsou as ovelhas e os bois, os proprietários podiam ir atrás deles. Quando Ele espalhou o dinheiro, os proprietários podiam recolhê-lo novamente. Mas, se Ele tivesse soltado os pombos, que voavam, talvez eles não fossem recuperados. Por isto, àqueles que vendiam pombos, Ele disse: “Tirai daqui estes”. Observe que a ponderação sempre deve orientar e governar nosso zelo, para que não façamos nada que seja inadequado a nós mesmos, nem danoso a outros.

Em quarto lugar, Ele lhes deu uma boa razão para o que Ele estava fazendo: “Não façais da casa de meu Pai casa de vendas”. O motivo da condenação deve acompanhar a força para a correção.

2. Aqui está uma razão pela qual eles não deveriam profanar o Templo, porque era a casa de Deus, e não devia ser transformada em casa de vendas. As mercadorias são boas para permutas, mas não no Templo. Isto era:

(a) Desviar aquilo que era dedicado à honra de Deus. Isto era sacrilégio, era roubar a Deus.

(b) Degradar aquilo que era solene e venerável, e torná-lo comum.

(c) Perturbar e distrair aqueles serviços nos quais os homens deveriam ter uma conduta totalmente solene, séria e aplicada. Era, particular mente, uma afronta aos filhos elos estrangeiros, na sua adoração, serem forçados a estar junto aos bois e às ovelhas, e serem distraídos, na sua adoração, pelo ruído ele um mercado, pois este mercado era mantido no pátio dos gentios.

(d) Tornar a religião subserviente a um interesse secular; pois a santidade do lugar deveria fazer o mercado progredir e promover a venda das suas mercadorias. Fazem da casa de Deus uma casa de vendas:

[a] Aqueles cujas mentes estão repletas de preocupações com os negócios mundanos quando comparecem às atividades religiosas, como estas, Amós 8.5; Ezequiel 33.31.

[b] Aqueles que realizam trabalhos divinos com a finalidade de obter um lucro sujo, tentando vender os dons do Espírito Santo, Atos 8.18.

3. Aqui está uma razão pela qual Ele se preocupou em purificar o Templo, porque era a casa do seu Pai. E:

(a) Ele tinha autoridade para limpá-lo, pois Ele era fiel, como um Filho, à sua própria casa, Hebreus 3.5,6. Ao chamar a Deus de seu Pai, Ele indica que era o Messias, de quem estava escrito: “Este edificará uma casa ao meu nome… eu lhe serei por pai”, 2 Samuel 7.13,14.

(b) Ele tinha o zelo de purificá-lo: “É a casa do meu Pai, e por isto Eu não consigo suportar vê-la profanada, e Ele, desonrado”. Observe que Deus é nosso Pai celestial. Portanto, como nosso desejo é que seu nome possa ser santificado, vê-lo profanado só pode representar tristeza para nós. A purificação do Templo, desta maneira, pode ser, com razão, incluída entre as obras mais maravilhosas do Senhor Jesus. Deve ser considerado que:

[a] O Senhor fez isto sem a ajuda dos seus amigos. Provavelmente, não teria sido difícil incitar a multidão, que tinha uma grande veneração pelo Templo, contra os que o profanavam, mas Cristo nunca permitiu nada que fosse tumultuado ou desordeiro. Havia algo a defender, mas seu próprio braço o fez.

[b] Ele o fez sem a resistência de nenhum dos seus inimigos, fossem as próprias pessoas do mercado, ou os principais dos sacerdotes, que lhes tinham dado permissão, e tinham a polícia do Templo à sua disposição. Mas a corrupção era evidente demais para ser justificada. As próprias consciências dos pecadores são os melhores amigos do reformador. Mas isto não era tudo, havia uma força divina exercida aqui, um poder sobre os espíritos dos homens, e com esta falta de resistência deles, as Escrituras se cumpriram (Malaquias 3. 2,3): “Quem subsistir á, quando ele aparecer?”

Em quinto lugar, aqui está o comentário que seus discípulos fizeram sobre isto (v. 17): “Os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará”. Eles estavam um pouco surpresos, no início, por ver aquele que lhes tinha sido indicado como o Cordeiro de Deus em tal irritação, e aquele que eles acreditavam ser o Rei de Israel assumindo tão pouca pompa sobre si mesmo, a ponto de fazer isto pessoalmente. Mas uma passagem das Escrituras veio às suas mentes, e os ensinou a reconciliar este ato com a mansidão do Cordeiro de Deus, e também com a majestade do Rei de Israel. Pois Davi, falando a respeito do Messias, observa seu zelo pela casa de Deus, um zelo tão grande, que pratica­ mente o devorava, a ponto de fazer com que Ele se esquecesse de si mesmo, Salmos 69.9. Observe:

1. Os discípulos conseguiram compreender o significado do que Cristo tinha feito, lembrando-se das Escrituras: “Lembraram-se do que está escrito”. Observe que a palavra e as obras de Deus podem mutuamente explicar e exemplificar umas às outras. As passagens obscuras das Escrituras são explicadas pelo seu cumprimento através da providência, e as providências de difícil compreensão são explicitadas pela comparação com as Escrituras. Veja como é extremamente útil que os discípulos de Cristo sejam preparados e poderosos nas Escrituras, e que tenham a memória repleta das verdades das Escrituras, com as quais estarão capacitados a realizar qualquer boa obra.

2. A passagem das Escrituras de que eles se lembraram era muito adequada: “O zelo da tua casa me devorará”. Davi, neste aspecto, era um tipo de Cristo, que era zeloso da casa de Deus, Salmos 132.2,3. O que ele fez por ela foi com todas as suas forças. Veja 1 Crônicas 29.2. A última parte daquele versículo (Salmos 69.9) aplica-se a Cristo (Romanos 15.3), assim como a primeira parte deste. Todas as graças que deviam ser encontradas entre os santos do Antigo Testamento estavam eminentemente em Cristo, e particularmente esta, do zelo pela casa de Deus. E estas graças funcionaram como padrões para nós, e tipificaram o Senhor Jesus. Observe:

(1) Jesus Cristo era zeloso da casa de Deus, sua igreja. Ele a amava, e estava sempre zeloso da sua honra e bem-estar.

(2) Seu zelo realmente o devorou. Ele o fez humilhar-se, e desgastar-se, e arriscar-se. “O meu zelo me consumiu”, Salmos 119.139. O zelo pela casa de Deus nos proíbe de levar em conta nossa própria credibilidade, comodidade e segurança, quando elas competem com nosso dever e o serviço a Cristo. E este zelo, às vezes, conduz nossas almas no nosso dever, de tal maneira, e tão rapidamente, que nossos corpos não conseguem acompanhá-las, e nos tornam tão surdos quanto nosso Mestre foi àqueles que sugeriram: “Poupa a ti mesmo”. Os descontentamentos aqui corrigidos podem parecer pequenos, e tais, que poderiam ser tolerados, mas o zelo de Cristo era tal, que Ele não podia suportar aqueles que compravam e vendiam no Templo. Se tivesse encontrado bêbados no Templo, como Ele teria ficado ainda mais descontente! (disse Austin).

3. Cristo, tendo, desta maneira, purificado o Templo, deu um sinal àqueles que o exigiam, para provar sua autoridade para fazer isto. Observe aqui:

(1) A exigência de um sinal: “Responderam … os judeus”, isto é, a multidão de pessoas, com seus líderes. Sendo judeus, eles deveriam ter ficado ao lado de Jesus e ajudado a defender a honra do seu Templo, mas, em vez disto, eles objetaram contra isto. Observe que aqueles que se dedicam com fervor à obra de reforma devem esperar encontrar oposição. Como não puderam objetar contra o fato em si, eles questionaram sua autoridade para fazê-lo: ‘”Que sinal nos mostras, como prova de autoridade e comissão, para fazer es estas coisas?” A purificação do Templo era, realmente, uma boa obra, mas como Ele podia realizar este trabalho, se não tinha nenhuma função, se não desempenhava nenhum ofício ali? Eles consideraram esta purificação com o um ato que deveria ser realizado por alguém daquela jurisdição. Para realizá-lo, Ele deveria provar que era um profeta, e, na verdade, mais que um profeta. Mas o ato em si não seria um sinal suficiente? Sua capacidade de tirar tantas pessoas de seus lugares, sem oposição, era uma prova de sua autoridade. Aquele que estava investido com tal poder divino certamente estava investido em uma comissão divina. O que afligiu estes compradores e vendedores para que fugissem, para que tornassem atrás? Certamente, foi a presença do Senhor (Salmos 114.5,7), nada menos que sua presença.

(2) A resposta de Cristo à exigência deles, v. 19. Ele não realizou imediatamente um milagre para convencê-los, mas lhes deu um sinal relativo a algo que ainda aconteceria, cuja verdade deveria aparecer através do evento, de acordo com Deuteronômio 18.21,22.

Veja:

[1] O sinal que Ele lhes dá é o da sua própria morte e ressurreição. Ele se refere ao que seria, em primeiro lugar, seu último sinal. Se eles não estivessem convencidos por aquilo que viam e ouviam, que esperas­ sem. Em segundo lugar, o grande sinal que prova que Ele é o Messias, pois, a seu respeito, estava predito que Ele seria ferido (Isaias 53.5), tirado (Daniel 9.26), e que Ele não veria corrupção, Salmos 16.10. Estas coisas se cumpriram no bendito Jesus, e, por isto, Ele era verdadeiramente o Filho de Deus, e tinha autoridade no Templo, a casa do seu Pai.

[2] O Senhor Jesus prediz sua morte e ressurreição, não em termos claros, como frequentemente fazia com seus discípulos, mas com expressões figuradas. Como posteriormente, quando Ele apresentou isto como um sinal, e o chamou de sinal do profeta Jonas, desta forma, aqui o Senhor lhes disse: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei”. Isto Ele disse em forma de parábola, para que aqueles que eram voluntariamente ignorantes não compreendessem, Mateus 13.13,14. Aqueles que não quiserem ver, não verão. Na verdade, estas palavras figuradas usadas aqui provaram ser tal pedra de tropeço para eles, que foram transformadas em evidência contra Ele no seu julgamento, com a finalidade de provar que Ele era um blasfemo, Mateus 26.60,61. Se eles tivessem, humildemente, perguntado a Jesus qual era o significado do que Ele tinha dito, Ele lhes teria dito, e teria sido um cheiro de vida para vida para eles, mas eles decidiram criticar, e isto provou ser um cheiro de morte para morte. Aqueles que não desejavam ser convencidos, insensibilizaram-se, e a maneira de expressar esta predição provocou o cumprimento da predição propriamente dita. Em primeiro lugar, Ele prediz sua morte devido à maldade dos judeus, nas seguintes palavras: “Derribai este templo”. Isto é: “Vocês irão destruí-lo, Eu sei que irão. Eu permitirei que vocês o destruam”. Observe que Cristo, mesmo no início do seu ministério, tinha uma clara percepção de todos os seus sofrimentos no final, e ainda assim prosseguiu alegremente até o fim. Ê bom estarmos sempre conscientes dos riscos e dos perigos desde o início das nossas atividades. Em segundo lugar, Ele prediz sua ressurreição pelo seu próprio poder: “Em três dias o levantarei”. Houve outros que foram ressuscitados, mas Cristo ressuscitou a si mesmo. Ele retomou sua própria vida.

[3] Ele decidiu expressar isto com a destruição e a reconstrução do Templo, em primeiro lugar, porque Ele agora iria se justificar através da purificação do Templo, que eles tinham profanado, como se Ele tivesse dito: “Vocês que profanam um templo, destruirão outro. E Eu provarei minha autoridade purificando aquilo que vocês profanaram, e reconstruindo aquilo que vocês destruíram”. A profanação do Templo é a destruição dele, e sua reconstrução é sua ressurreição. Em segundo lugar, porque a morte de Cristo era, verdadeiramente, a destruição do Templo dos judeus. Foi a morte do Senhor que a motivou. E sua ressurreição era a reconstrução de outro templo, a igreja evangélica, Zacarias 6.12. As ruínas do seu lugar e da sua nação (cap. 11.48) eram as riquezas do mundo. Veja Amós 9.11; Atos 15.16.

(3)  O que eles responderam: “Em quarenta e seis anos, foi edificado este templo”, v. 20. O trabalho do Templo sempre foi um trabalho demorado, e tu podes fazê-lo tão depressa?” Aqui:

[1] Eles mostram ter algum conhecimento. Eles puderam dizer quanto tempo o Templo esteve em construção. O Dr. Lightfôot calcula que foram necessários exatos quarenta e seis anos, a partir da fundação do Templo de Zorobabel, no segundo ano do governo de Ciro, para completar a construção do Templo, no ano 32 de Artaxerxes. E o mesmo período desde que Herodes iniciou a construção deste Templo, no décimo oitavo ano do seu reinado, até esta época, quando os judeus se referiram como exatos quarenta e seis anos: este templo foi construído.

[2] Eles mostram mais ignorância, em primeiro lugar, do significado das palavras de Cristo. Observe que os homens frequentemente incorrem em graves enganos por interpretarem literalmente aquilo de que as Escrituras falam figuradamente. Que abundância de enganos houve quando se interpretou: “Isto é o meu corpo”, de uma maneira corpórea e carnal! Em segundo lugar, do poder todo-poderoso de Cristo, como se Ele não pudesse fazer nada além do que qualquer outro homem poderia. Se eles soubessem que tinha sido Ele quem criou todas as coisas em seis dias, eles não teriam julgado tamanho absurdo que Ele construísse um templo em três dias.

(4)  Uma justificativa da resposta de Cristo a partir da sua crítica. O problema é solucionado quando se explicam os termos: “Ele falava do templo do seu corpo”, v. 21. Embora Cristo tivesse revelado um grande respeito pelo Templo ao purificá-lo, Ele nos dá a entender que sua santidade, da qual Ele era tão zeloso, era apenas típica, e nos conduz à consideração de outro templo, do qual aquele era apenas uma sombra, sendo Cristo a essência, Hebreus 9.9; Colossenses 2.17. Alguns opinam que quando Ele disse: Derribai este templo, Ele teria apontado para seu próprio corpo, ou colocado sua mão sobre ele. No entanto, é certo que Ele “falava do templo do seu corpo”. Observe que o corpo de Cristo é o verdadeiro templo, do qual aquele Templo de Jerusalém era um tipo.

[1] Como o Templo, seu corpo havia sido formado sob orientação divina: “Corpo me preparaste”, 1 Crônicas 28.19; Hebreus 10.5.

[2] Como o Templo, o corpo do Senhor Jesus era uma casa santa. Ele é chamado de santo.

[3] Ele era, como o Templo, a habitação da glória de Deus. Ali habitava o Verbo eterno, a verdadeira shekiná. O Senhor Jesus é Emanuel Deus conosco.

[4] O Templo era o lugar e o meio de relacionamento entre Deus e Israel. Ali, Deus revelou-se a eles. Ali, eles apresentavam-se, e seus serviços, a Ele. Assim, por intermédio de Cristo, Deus fala conosco, e nós falamos com Ele. Os adoradores adoravam neste lugar, 1 Reis 8.30,35. Também nós devemos adorar a Deus com os olhos em Cristo.

(5) Uma reflexão que os discípulos fizeram depois disto, muito mais tarde, algo inserido aqui para exemplificar a história (v. 22): “Quando, pois, ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isso”. Nós os encontramos, v. 17, recordando o que havia sido escrito a respeito dele, e aqui estavam se lembrando daquilo que ouviram-no dizer. Observe que as lembranças dos discípulos de Cristo devem ser como o tesouro do bom pai de família, que está repleto de coisas velhas e novas, Mateus 13.52. Agora, observe:

[1] Quando eles se lembraram dessas palavras de Jesus: “Quando [Ele] ressuscitou dos mortos”. Ao que parece, eles não tinham, nesta ocasião, compreendido plenamente o significado das palavras de Cristo, pois eles eram apenas bebês em termos de conhecimento, mas eles conservaram as palavras em seus corações, e posteriormente elas se tornaram tanto inteligíveis como úteis. Observe que é bom ouvir sobre o futuro, Isaías 42.23. Os jovens em idade e fé devem armazenar as verdades que, no presente, não compreendem bem, quer seu significado, quer seu uso, pois elas lhes serão úteis no futuro, quando eles tiverem mais conhecimento. Foi dito sobre os alunos de Pitágoras que seus preceitos pareciam congelar neles até que tivessem quarenta anos de idade, e então eles começavam a descongelar. Estas palavras de Cristo também reviveram nas lembranças dos seus discípulos, quando Ele ressuscitou dos mortos. E por que, então? Em primeiro lugar, porque naquela ocasião o Espírito foi derramado para trazer à sua lembrança coisas que Cristo lhes tinha dito, e para deixá-los mais à vontade e prontos para elas, cap. 14.26. No mesmo dia em que Cristo ressuscitou dos mortos, Ele “abriu-lhes o entendimento”, Lucas 24.45. Em segundo lugar, porque então estas palavras de Cristo se cumpriram. Quando o templo do seu corpo foi destruído, e ressuscitado no terceiro dia, então eles se lembraram destas, entre outras, palavras que Cristo tinha dito a este respeito. Observe que é muito útil para o entendimento das Escrituras observar seu cumprimento. O evento irá explicar a profecia.

[2] O uso que os discípulos fizeram disto: eles “creram na Escritura e na palavra que Jesus tinha dito”. Sua fé nestas coisas foi confirmada e recebeu novo apoio e vigor. Eles eram lentos de coração para crer (Lucas 24.25) mas tiveram certeza. As Escrituras e a Palavra de Cristo aqui são colocadas lado a lado, não porque elas coincidiam e concordem entre si com exatidão, mas porque elas mutuamente exemplificam e fortalecem uma à outra. Quando os discípulos viram tanto o que tinham lido no Antigo Testamento quanto o que tinham ouvido da boca do próprio Cristo, cumprido na sua morte e ressurreição, ele foram mais confirmados na sua fé em ambas as coisas.