PSICOLOGIA ANALÍTICA

SOLIDÃO REAL NA ERA VIRTUAL

Um grande desafio da atualidade é descobrir como compreender as mudanças nos relacionamentos interpessoais provocadas pela internet, baseadas na falsa sensação de pertencimento criada pelo mundo virtual.

Solidão real na era virtual

Quem sou eu e o que faço aqui? De onde venho? Para onde vou? Até hoje, ainda buscamos respostas para essas perguntas. O homem é o único animal que conta a sua própria história, que está sempre se lembrando dos atos passados. Segundo Derrida (2002), é um “animal autobiográfico”, e essa autobiografia, a história de si, depois do pecado original, torna-se confissão, testemunho de um erro inaugural, uma dívida estabelecida entre criador e criatura.

Ao criar a sua história, questionando a sua existência, interpreta um mundo repleto de enigmas a serem decifrados. Cada resposta constitui um mito criado para tentar responder ao que não tem resposta.

Quando a criança olha no espelho e se surpreende com o seu próprio reflexo, surge o primeiro enigma, a primeira interrogação e a primeira exclamação, eu existo! Reconhece maravilhada que ela é ela. É quando Narciso olha para as águas do lago e se percebe. O herói da mitologia nos representa, seres humanos, em sua eterna autopercepção. A busca especular é uma forma legítima de amor, sendo a busca pelo reconhecimento uma marca da nossa humanidade.

A partir da marca inicial do primeiro espelho, cada pessoa que passa em nossa vida vai deixando o seu reflexo. Sim, porque precisamos do espelho do outro para nos refletir e construir a nossa própria imagem. A humanização se fundamenta no respeito e valorização da pessoa humana. Precisamos ter relações que confiram significado à nossa vida. Quando isso não é viável, nos dissociamos afetiva e emocionalmente.

O outro como espelho pode trazer aspectos negativos para a nossa experiência, como a inibição que podemos ter, decorrente da nossa exposição, mas carrega inegável papel importante pelo fato de que o outro e as relações podem ser um veículo para o nosso autoconhecimento. No teatro da vida, o outro pode entrar em cena constituindo o pano de fundo de determinados papéis, que muitas vezes sem saber delegamos para eles. Como nos diz o sociólogo da Sorbonne Michel Maffesoli: “Cabe a qualquer um reconhecer-se e comungar com os outros tipos sociais que permitem uma estética comum e que servem de receptáculo à expressão do nós” (Maffesoli, 2006).

Sem um vínculo com o próximo, portanto, aceito conscientemente, nós não conseguimos nos realizar plenamente. Mas será que no veloz mundo contemporâneo, com as suas relações virtuais, as pessoas estão conseguindo se conhecer (e reconhecer) ou estão solitárias, cada vez mais fechadas em seus casulos sem janelas? Parafraseando Zeca Baleiro, na música Dezembros, será que os nossos olhos têm a fome do horizonte e a face do outro, no artifício das cidades contemporâneas, é um espelho sem promessas? Podemos, como o poeta, nos edifícios sem janelas do mundo contemporâneo, desenhar os olhos do outro?

COMMODITY DO AMOR

O mundo contemporâneo tem vivenciado mudanças e transformações que, gradativamente, vêm alterando a estrutura e os valores da sociedade. Estamos imersos no que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2001) chama de modernidade líquida. O mundo líquido é caracterizado pelo esgarçamento e liquefação do tecido social, ou seja, a sociedade torna-se amorfa, paradoxalmente, como os líquidos. É o mundo onde os adolescentes “ficam”, as relações amorosas se desfazem, a depressão assola as pessoas. Os casais trocam de amores como trocam de roupa.

As principais características da modernidade líquida são desapego, provisoriedade e acelerado processo da individualização; tempo de liberdade, ao mesmo tempo, de insegurança. Há uma diversidade de tribos, com as suas diferentes éticas e estéticas. Há uma ansiedade generalizada e a vida passa a ser construída na fluidez da rede, na incerteza, no não saber. O acaso é uma força determinante.

A angústia gerada pelas contradições psicológicas contemporâneas, individuais e interindividuais, assim como a falta de um suporte ideológico capaz de dar sentido ao ser humano, fazem com que as pessoas acionem sistemas de defesa sólidos e legitimados pela sociedade. As instituições, o trabalho, a religião e o capitalismo, muitas vezes, tornam­ se verdadeiros templos de veneração, invadindo a vida do indivíduo, de uma forma psicologicamente tão profunda em seu alcance que se chega a questionar se existe efetivamente algo como “o indivíduo”.

A velocidade é a marca atual do espírito do tempo. Podemos ver Hermes, com as suas sandálias ala­ das, como o patrono da cibercultura. Experienciamos uma nova relação espaço-tempo. Queremos falar com alguém e imediatamente nos conectamos ao outro. Ocorrem trocas simbólicas na internet, como uma segunda pele a reger a nossa vida.

Estamos na era dos amores líquidos, termo cunhado por Bauman (2004) para referir-se às relações efêmeras, frágeis, descartáveis e superficiais que caracterizam o mundo pós-moderno. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água. Relacionar-se é caminhar na neblina sem a certeza de nada. Curtimos e deletamos pessoas na rede, como se fôssemos um pacote humano de delivery. O amor na atualidade entra na lógica do mercado e se apresenta como transitório, feito de conexões e desconexões.

Na commodity do amor há um excesso e deformação do indivíduo, cujo papel na sociedade fica definido primordialmente como consumidor. E como se o mundo fosse um grande shopping center, com prateleiras lotadas de atrações que são trocadas diariamente, inclusive as pessoas. Há a emergência de um novo tipo de consumo subjetivo, emocional ou experiencial, muito mais voltado para a satisfação do eu do que para a exibição social e a busca de status.

A dissociação do sujeito e a perda de suportes sociais e éticos, somadas ao modo narcísico de ser, criam as condições para a intolerância à diferença, e o outro é visto não como parceiro ou aliado, mas como ameaça. O individualismo, que nasceu com o modernismo, na contemporaneidade faz sua apoteose narcísica.

WEBNARCISISMO

Na atualidade, ficamos presos na hipertrofia e deformação do eu (precisamos a todo custo ser observados). Existe, no entanto, um grande vazio existencial. Tornamo­nos alienados, cegos, insensatos e ignorantes de nossas raízes. Proclamamos, de forma audaciosa, porém falsa, que “não há nenhum outro Deus perante nós”.

Esse eu grandioso, hipertrofiado, é o Narciso deformado, paralisado e olhando compulsivamente para o espelho, somente enxergando a si mesmo. Os outros tornam-se ecos e reverberações da sua própria imagem. Narciso hipertrofiado, afogado em sua autocontemplação egoica, acha feio o que não é espelho, como diz Caetano Veloso.

Nessa vertente, Lasch (1983) dá aos tempos atuais o nome de “cultura narcísica”, e Debord (1997), de “sociedade do espetáculo” ora ressaltando o individualismo, o culto ao corpo e a supervalorização dos aspectos da aparência estética, ora ressaltando o exibicionismo, a captura pela imagem e o comportamento histriônico que se realiza como espetáculo.

A forma narcísica de ser no mundo contemporâneo está associada à solidão. Estamos cada vez mais solitários, porque buscamos a ilusão de segurança como forma de controlar o que não tem controle, que é a própria vida. Solitários, por­ que cada passo de autonomia que damos em relação à participação mística primitiva e instintiva com o rebanho nos afasta da segurança tão almejada, que, em termos psíquicos, poderia ser obtida por uma volta ao passado (que não existe mais) ou por uma mudança no modo de viver e na cosmovisão (que não existe ainda).

METÁFORAS DAS VITRINES

Uma das ilusões criadas pelo mundo virtual é a falsa sensação de pertencimento, o nosso desejo básico de ser refletido, amado e aceito pelos outros. Essa necessidade traduz o nosso desejo de estar próximo das outras pessoas, compartilhar das suas alegrias, construir amizades sólidas, obtendo um bom relacionamento interpessoal.

A internet pode parecer um continente de pertencimento para as pessoas. Podemos acreditar que todo o aparato tecnológico que nos cerca é capaz de suprir cada uma de nossas necessidades e que por estarmos “conectados” jamais estaremos sozinhos. Preferimos varrer nossas próprias neuroses para debaixo do tapete, para não termos que encarar o mundo real, que se insurge como uma ameaça à nossa aparente comodidade.

O que criamos no espaço virtual nada mais é do que uma vitrine, através da qual esperamos ser reconhecidos, ainda que essa seja apenas uma montagem forjada por nós. Muitas vezes, na internet, podemos criar falsos personagens, eus aprimorados, perfeitos, que reflitam os padrões que a sociedade deseja. A “segurança” do anonimato na web favorece a ilusão. A internet pode nos aproximar do mundo, mas nos distanciar da vida.

Estamos de forma consciente conectados com determinados papéis que desempenhamos na sociedade, constituindo o arquétipo de adaptação social, chamado por Jung de persona, ou seja, a persona sumariamente corresponde aos diversos papeis, que assumimos na vida, coletivos, que servem como função de relacionamento com os outros e com o mundo. Esses “papeis” que representamos, como os de pai, filho, cônjuge, profissional liberal etc., vão sendo moldados pela sociedade.

Para Maffesoli (2000), a persona corresponde ao “figurino” utilizado pelo indivíduo, o qual facilita o seu reconhecimento social. É a máscara que o sujeito utiliza para conviver em sociedade, no teatrum mundi da existência. Nesse sentido, a persona é necessária; só se torna negativa quando o indivíduo se identifica com ela, acha que realmente é apenas aquela máscara de adaptação construída, tornando-se assim proporcionalmente mais coletivo (abdicando de suas peculiaridades individuais).

Ainda para Maffesoli (2006), as personas nos subordinam às nossas sociedades secretas (grupos afinitários escolhidos). Aí, existe a “desindividualização”, a participação no sentido místico do termo, em um conjunto mais vasto. A máscara faz de mim um conspirador contra os poderes estabelecidos, mas me une a outros, e isso não acontece de maneira acidental, mas estruturalmente operante.

O figurino, a aparência, é um meio de experimentar, de sentir em comum, de agregação ou desunião e também um meio de se reconhecer. Há um desejo de se encontrar ou se perder no outro. O que predomina é o momento vivido, o que interessa é o presente compartilhado com outros, num determinado lugar. Não é mais necessário renunciar ao hoje, acreditando num amanhã melhor ou num futuro porvir, o presente, hoje, é vivido intensamente. E essa forma de vida contamina as representações e as práticas sociais (Maffesoli, 2000).

Na internet podemos ensaiar diferentes personas. Se as diferentes máscaras que ensaiamos estão em ressonância com a nossa individualidade, isso facilita a nossa expressão pessoal no mundo. Por outro lado, quando não há um alinhamento entre a persona e a nossa individualidade, a mesma se torna patológica, rígida ou falsa e pode nos levar a uma dissociação. Ou ficamos como um ator que representa um personagem e vive a vida achando que ele é apenas aquele personagem, ou representamos um falso papel, que nos leva a viver uma vida dupla (uma vida real desalinhada da vida virtual). Nesse caso, adquirimos um rosto artificial, produzido pela sociedade, muitas vezes completamente diferente do rosto que essencialmente possuímos.

 PARADIGMA DO PARADOXO

”Paradigma do paradoxo, esta poderia ser a chave da compreensão do mundo em gestação. E paradoxo vamos encontrar, justamente, a partir do momento em que pensamos a relação da pessoa com a comunidade que a envolve. A pessoa, em seu aspecto plural, só adquire sentido no contexto comunitário” (Maffesoli, 2007, p. 133).

Um paradoxo existe sempre que encontramos dois estados aparentemente inconsistentes, duas realidades opostas e aparentemente inconciliáveis. Esse mundo cindido, dividido, está no cerne do mundo contemporâneo. Enquanto sujeito, o ser humano está bem no ponto de cruzamento de duas grandes dimensões históricas: a verticalidade e a horizontalidade. A verticalidade é a dimensão da sua história individual, é o desenvolvimento no tempo da constituição de sua identidade. A horizontalidade é a história do grupo social a que pertence. É aí, bem no centro, bem nesse ponto, que estamos nós, unidades bio-psico-sócio-espirituais, inseridos no tempo, individual, social e espiritualmente.

Bauman (2003) nos diz que há um preço a pagar pelo privilégio de viver em comunidade. O preço é pago em forma de liberdade, também chamada autonomia. Qualquer que seja a escolha, ganha-se alguma coisa e perde-se outra. Não ter comunidade significa não ter proteção; alcançar a comunidade, se isso ocorrer, poderá em breve significar perder a liberdade.

Como sair da encruzilhada em que nos encontramos? Como encontrar o nosso eixo? Lévy (1999) nos dá uma dica: “O desafio consiste em mergulhar nesse vasto oceano e conseguir controlar a própria deriva no meio de suas correntes”. Controlar a deriva implica em utilizarmos a mudança como o movimento interno da contradição. Isso significa sustentarmos a tensão entre os opostos (o que gera angústia), até que possamos encontrar a síntese, que seria um estado criativo. Com a criatividade, começamos a entender os nossos mecanismos internos de reforço, emergindo um sentimento de paz.

Precisamos primeiro partir da noção de que somos seres em construção. Tornarmo-nos pessoas requer romper com a massificação e rejeitar a aceitação passiva das convenções de toda ordem para desenvolver o ser próprio relacional, aquele ser que se faz e se descobre ao longo da rede de relações em que nos vemos envolvidos e que estabelecemos. “A construção da pessoa não pode operar-se senão na medida em que seja possível juntar na unicidade os diversos pedaços – melhor seria dizer cacos – que a compõem” (Maffesoli, 1998, p. 105).

Cada um de nós é como um nó numa rede grupal. Constituímo-nos e ganhamos forma em situações de interação. A dinâmica circular não tem pontos de partida, nem pontos de chegada, apenas pontos de passagem. É a experiência que nos prepara a experiência. Nós aprendemos nas conversações com os outros. Novas formas de comunicação surgem, podendo propiciar novas formas de conversação.

Quando encaramos a internet e os relacionamentos humanos que emergem a partir dela com alteridade, podemos, a partir dela (e não só com ela), afirmar e confirmar o outro, e ambos se beneficiam com a troca. Enfrentando desafios e ganhando coragem podemos utilizar a nossa mente fértil e imaginativa para entrar no mundo simbólico e criativo da rede.

Podemos utilizar as imagens virtuais como o nosso álbum perdido de fotos anônimas rasgadas, brincando com a curiosidade sobre quem é o outro enigmático, utilizando as fotos desse álbum para nos comunicarmos, complementando o álbum com nossas fotos, muitas vezes ainda mascaradas – quer me conhecer? Eu sou você. A partir dos encontros virtuais, podemos utilizar uma sequência de encontros presenciais (na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé) para a entrega do álbum, descrevendo com incrível bom humor as nossas dificuldades de relacionamento, ao mesmo tempo revelando a criatividade e o uso da imaginação a serviço da transformação e do encontro.

O romance com o outro pode ser uma bela retomada do mito do amor romântico, idealizado (ou não), aquele/aquela que está desde sempre em nossos sonhos, aquele que vem banhado nas águas de um narcisismo saudável e necessário, principalmente se pensarmos que muitas vezes não tivemos espelhos simbólicos adequados na infância – relacionamentos afetivos significativos e saudáveis que nos propiciassem o desenvolvimento da autoimagem e da autoestima, e que precisam ser vividos, pelo menos uma vez, pelo menos a primeira vez, mesmo que depois seja desconstruído e reconstruído, quantas vezes se fizerem necessárias.

NARCISO

Narciso é um dos principais protagonistas da mitologia grega. Filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope, ele representa um forte símbolo da vaidade, se transformando, ao longo da história, como um dos personagens mitológicos mais citados em questões ligadas às áreas de Psicologia, filosofia, em letras de música, artes plásticas e literatura. Na Psicologia, narcisismo é o nome dado por Freud, que determina o amor exagerado por si próprio, principalmente pela imagem.

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 OS MUNDOS INTERNO E EXTERNO NA TEORIA JUNGUIANA

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, criador da Psicologia analítica, preconizou: “Ao longo da enorme estrada do mundo, tudo parece devastado e desgastado. Certamente é por isso que o instinto, em sua busca de satisfação, abandona as estradas feitas e passa a caminhar a esmo, exatamente como o homem antigo se livrou de suas divindades do Olimpo e se voltou para os cultos misteriosos da Ásia Menor” (Jung, 1993, p. 91-92). Para Jung (1993), esse homem solitário, que anda a esmo, buscando atingir a “experiência primordial”, busca encontrá-la no mundo externo e no mundo interno. Na verdade, o que está por trás do Narciso de hoje é uma busca pela experiência primordial, contemplativa. Essa experiência é atingida na relação, na comunhão com os outros (Maffesoli, 2006). No entanto, cabe um questionamento: como podemos atingir essa comunhão com os outros se ao olharmos no espelho social do oceano virtual nos vemos como mercadorias?

 

ERMELINDA GANEM FERNANDES – é médica, psicoterapeuta junguiana e doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). Coordena o curso de especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos (abordagem junguiana) do Instituto Junguiano da Bahia.

OUTROS OLHARES

ENTREGA VISCERAL DO AMOR

“Mais amor, por favor”, ricocheteia a frase anônima pelas redes sociais. Uma súplica que denuncia os tempos áridos que vivemos e que o filme Me Chame Pelo Meu Nome capta de maneira singular.

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Amar necessita doses extras de generosidade, porque, quando se ama alguém, o outro se torna o objeto para o qual os desejos, ter a capacidade de realizá-los é a grande meta e satisfação. Ao compor um vínculo amoroso, cada sujeito busca mais se fazer amar do que propriamente amar, porque a emoção já precede tudo, é soberana, o amor é como a singularidade, solitário, primeiro acontece enquanto algo único nascido na interioridade, só depois é compartilhado com alguém, chamando o fora para dentro de si. Em todo amor há um tanto de busca e um bocado de espelho, ele doa sem parcimônia, mas também exige como um faminto diante do alimento: satisfaça-me, alimente-me, salve-me da ilha do isolamento e da esterilidade da ausência de afeto. E é nessa capacidade de ligar-se sem medida que o filme Me Chame pelo Meu Nome belamente toca de forma devastadora, e inclusive como foi descrito por muitos espectadores. Talvez porque toque em cada uma daquelas capacidades viscerais dos primeiros amores. Quase todos possuem um amor inesquecível que se perdeu pelo caminho, aquele que ainda carrega na lembrança todo o peso da idealização, a capacidade máxima de sair de si em uma entrega total.

O diretor Luca Guadagnino parece estar sempre em suas produções às voltas com o jogo das paixões irrefreáveis, como pode ser visto em seu filme mais publicamente conhecido, 100 Escovadas Antes de Dormir (Melissa P./ 2005) ou em Um Sonho de Amor (Lo Sono L’Amore/2009), e assim também veremos neste filme que vem angariando boas críticas e indicações para inúmeros prêmios. Aclamado nos festivais de Berlim, Toronto, Rio, Sundance e um dos fortes candidatos ao Oscar de 2018.

Uma pena que um filme tão esplêndido esteja no mesmo ano concorrendo com o do diretor Guillermo Del Toro, A Fórmula da Água (Shape of Watter, pois os dois merecem o prêmio, dois belos filmes de amor que assinam-se com muita originalidade, apesar de ambos, todo o tempo, flertarem com fórmulas cinematográficas já desgastadas e se afastarem desse risco com maestria. Baseado no livro homônimo do escritor nascido no Egito e radicado nos Estados Unidos, André Aciman, com a belíssima direção de fotografia do tailandês Sayombhu Mukdeeprom e roteiro de James lvory, é uma produção de encher os olhos, inundar o coração de paixão e excitar o corpo até os pelos. O Brasil, para nosso orgulho, aparece nas fichas técnicas como um dos países produtores pela participação de Rodrigo Teixeira.

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PAIXÃO E EROTISMO

O filme narra a história da família Perlman, americana com ascendências italiana e francesa; os pais (Michael Stuhlbarg e Amira Casar) de Elio (Timothée Chalamet) são pesquisadores e professores universitários estadunidenses, e encontram­ se de férias em sua casa na Itália. Apesar disso, um jovem acadêmico, o doutorando Oliver (Armie Hammer), chega à casa para ajudar na organização de pesquisas sobre a cultura greco-romana, coordenadas por Mr. Perlman. O que até então parecia mais um verão como tantos outros se revelará o momento da descoberta do primeiro amor para Elio junto a Oliver.

A paixão e o erotismo preenchem todos os vãos da história que será apresentada, capturando de maneira intensa o espectador. É excelente a escolha do diretor de transbordar a tela com erotismo sem despotencializar isso, não trabalhar com cenas repetitivas e abertamente sexuais. Na atualidade, a grande centralidade que o sexo ocupa em nossa constituição tem sido apartada tanto pelo excesso de demanda e exposição (ler Eros e Civilização, de Herbert Marcuse) quanto pela captura de um discurso que o normatiza em suas vivências, tornando-o pobre e quase mecânico, no qual a fantasia, parte essencial da plena sexualidade, acaba banida.

O filme começa localizando o tempo em que a história se desenvolverá, ano de 1983, fator importante para refletir sobre seu desenvolvimento e mesmo para entendê-lo e gostar ou não do que se verá nos minutos seguintes. Abre as falas Elio (Timothée Chalamet) avisando a sua irmã que o “usurpateur” estava chegando. Com certeza esse usurpador irá tomar pra si as emoções principais daquelas férias, e como um rito de passagem, ao invés de ser aquele que tira a atenção do pai, se constituirá no surgimento do investimento para fora do seio familiar. Avista-se, então, pelos olhos de Elio na janela, a chegada do belo acadêmico Oliver (Armie Hammer), um jovem de 29 anos. Elio é um rapazote de 17 anos que em breve fará 18, estudante de música e compositor. Está sempre mais envolvido com essa tarefa do que com a diversão do grupo de jovens que movimenta o lugar. Reservado, mas sem qualquer dificuldade de se inserir no grupo quando assim deseja, Oliver, segundo sua primeira impressão, parece muito seguro de si. Mr. Perlman faz uma brincadeira sobre sua grande altura, ao que ele responde também brincando, com bom humor. Assim esse improvável par se conhece, quando então Elio o leva ao que é o seu quarto e que Oliver passará a ocupar durante sua estadia, deslocando-o para o aposento contíguo. Elio avisa que terão que dividir o banheiro que une os dois aposentos separados por portas autônomas.

Início da década de 1980, época em que a sexualidade esteve em pauta em uma libertação preparada pelas décadas anteriores e jamais pensada como possível, ainda não existia a ameaça da Aids, respirava-se liberdade e permissividade, como veremos acontecer em todo o grupo de rapazes e moças. A virgindade já não era mais um tabu, ao contrário, as relações eram fluidas, não necessariamente gerando compromisso, ficava-se, experimentava-se. Começava a surgir toda uma geração para a qual a sexualidade poderia assumir variações e experimentações para se erguer sobre sua preferência. Embora isso, a homo afetividade ainda era uma vivência complicada e punida principalmente pelo mundo adulto. No filme, os representantes desse mundo adulto, o casal Perlman, pais de Elio, não parecem preocupados em vigiar ou mesmo reprimir as manifestações desses impulsos, mostram-se permissivos e até incentivadores sutis, como se quisessem que o filho descobrisse algo que desconhecia sobre si mesmo. Interessante aí observar que Mr. Perlman é um estudioso da cultura greco-romana, na qual a homossexualidade tinha todo um status de experiência no mundo masculino. Talvez aí possamos pensar em um “mundo perdido”, uma vez que sabemos que as décadas seguintes à de 1980 se esforçaram para recompor um conservadorismo que havia muito se enfraquecido. Vemos esse embate ainda com mais vigor na atualidade, há uma disputa ferrenha entre esse mundo livre não totalmente calado e todo um retrocesso que ganhou uma força inexplicável.

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CONTINUAÇÃO RELEVANTE

O diretor Luca Guadagnino declarou em algumas entrevistas que pretende fazer a continuação dessa história com esses dois personagens incríveis e que nessa posterior sequência já nos anos 90 abordará a Aids, a transformação do mundo com o fim da Guerra Fria e quando possivelmente Elio, aos 25 anos, estará casado e terá filhos com a personagem Marzia (Esther Garrel). Perguntado sobre o porquê de colocá-lo em um casamento heterossexual, o diretor respondeu que não vê nem Elio nem Oliver como gays necessariamente –  vale lembrar que no livro há nas informações sobre os personagens bem depois o fato de Oliver estar casado e com filhos; no filme, o espectador junto com Elio fica sabendo que ele ficou noivo. Talvez assim o diretor queira com isso aproximar seu roteiro com o posicionamento do escritor André Aciman, que retorna com um conceito bem anos 80, portanto datado, de uma sexualidade fluida e sem necessariamente uma orientação dominante, questão que hoje é debatida e defendida pelos movimentos LGBTQI como algo mais fixo e definido, a ser visto dessa maneira como leitura sobre a sexualidade e identidade de gênero, incluindo a bissexualidade. Fica muito claro no filme, e essa talvez seja sua maior beleza, a forte afetividade de Elio que, apesar de se relacionar sexualmente com Marzia, apaixona-se furiosamente por Oliver, em uma clara dominância da homo afetividade, uma aula sobre a diferença entre prática e orientação sexual, desmanchando assim a tese que ignora que a relação sexual com o sexo oposto, como prática, não fica descartada mesmo diante de uma orientação homossexual, porém essa não é a busca nem o lugar do afeto. Então torceremos para que Guadagnino repense sua disposição, em nome ao respeito bem-vindo para os que enfrentaram e garantiram seu amor frente ao mundo. Se o autor do livro já declarava que não pretendia com a história “defender bandeira”, ao menos agora torcemos para que ambos não as derrubem. Temos visto e lido matérias hoje de como homens (e mulheres) cinquentões ou sessentões finalmente conseguem assumir sua forma de amar depois de décadas de um casamento heterossexual, filhos, e muitas vezes até netos, e a grande alegria e serenidade que essa decisão traz. Uma série que trata disso com muita beleza é Grace and Frankie, da Netflix, onde a infelicidade e confusão que o chamado de “armário” gera para todos os envolvidos ficam bastante evidenciadas. Ainda bem hoje não é preciso chegar aos 70 anos como Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston) da série para poder assumir uma relação e/ou uma forma de amar de toda uma vida. Podemos fantasiar a quantidade de homens e mulheres já maduros que deixarão as lágrimas escorrerem sobre a face no escurinho do cinema.

 

O SUJEITO E SUAS VERDADES

Mas voltemos ao filme e à bela história de paixão que ele traz para quem assiste, que prepara o espectador na angústia da espera, até pela forma como encaminha a aproximação de Elio e Oliver. Há todo um cerco aproximativo, uma espera e uma resistência até que ambos se decidem entregar-se à intensa atração e desejo que os une. O que vemos então tomar a tela é pura libido aberta e franca, a urgência do tesão que quer sempre realizar, não suporta adiamento ou suspensão. Há uma presença sensitiva desses corpos que se encontram, que se atraem com um magnetismo incontornável, com a força daquilo que “não tem governo nem nunca terá”. As histórias de paixão vividas ao longo da existência, ou ainda as jovens que surgem agora, ganham assim uma presença inegociável. Em tempos em que o corpo tem sido tão maltratado ou mesmo relegado a um segundo plano virtual, o encontro de Elio e Oliver faz refletir no quanto a sexualidade e o vínculo amoroso são partes essenciais da existência humana. E se um dia a Psicanálise sublinhou isso com tanta coragem e ineditismo, cabe não deixar que uma normatividade sutil impeça que acordos de prazer possam ainda existir e ser compostos pela nova subjetividade. Não permitir que até mesmo a Psicanálise seja capturada por uma visão que aparta o sujeito de suas verdades mais profundas, seus desejos mais intensos e que possa colaborar para que os laços da cultura deixem espaço para que se viva esses impulsos no lúdico e no possível. Nesse sentido, essa história contada ultrapassa em muito a questão de uma defesa quanto à normalidade dessa ou daquela vivência em termos de orientação sexual. A já famosa cena do pêssego é uma provocação que chama a esse lúdico da sexualidade. É uma história de paixão avassaladora, é isso, e é capaz de capturar suspiros de todos, a questão de discutir o homo erotismo é mais nossa do que a naturalidade como o filme conta o encontro de dois apaixonados.

Que a coragem de enfrentar o grande risco de se entregar ao mais poderoso dos sentimentos, que pode ser ele, o céu ou o inferno, ou ainda as duas coisas ao mesmo tempo, devastador, jamais abandone a cada um, e que o filme seja uma inspiração em tempos em que a dor apavora tanto, e é tão quimicamente tratada, que os riscos de uma alta expectativa quanto aos encontros não nos tornem pouco aventureiros nas terras das emoções. Elio e Oliver o convidam a isso. Um filme que é ao mesmo tempo uma história de amor, mas que poderá também ser interpretado como uma metáfora do que, de maneira geral, tem se vivido e pensado sobre a sexualidade nas últimas décadas, e, mais que nunca, é preciso produzir reflexão sobre isso.

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EDUARDO J. S. HONORATO – é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinema terapia: Entendendo Conflitos. Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre esse tema. Coordenam o site http://www.cinematerapia.psc.br

 

 

 

 

 

GESTÃO E CARREIRA

O MUNDO AGORA É DELAS

Segundo um estudo recente feito pela Rede Mulher Empreendedora (RME), de cada 100 empresas abertas no Brasil, 52 são lideradas por mulheres. Com um mercado cada vez mais feminino, chegou a hora de aprender com elas como ir à luta e conquistar seu próprio espaço.

O mundo agora é delas

Mulheres empreendedoras tomam cada vez mais espaço no mundo dos negócios e muitas vezes, provam até que possuem mais poder de negociar do que os homens. Elas aplicam ao mercado uma nova maneira de delegar e se comportar com visão e formas diferentes de lidar com as situações e relações humanas e financeiras. As mulheres modificaram esse cenário que até então era dominado pelos homens. Parece fácil, mas não foi e não é. Pois nas entrelinhas as mulheres empreendedoras enfrentam ainda diversas dificuldades.

Existem ainda machismo e preconceito nesse universo, e para mudar isso elas contam com pitadas de coragem, determinação, persistência e insistência. Pois para elas, não basta ter conhecimento, é necessário muito mais.

Nesta matéria, contaremos um pouco das histórias de várias empreendedoras que enfrentaram o mundo corporativo, o qual – em um passado não muito distante – era dominado pelos homens. Elas relatam como alcançaram o sucesso em áreas predominantemente masculinas. E mais: como fazem a diferença. Afinal, o mundo do empreendedorismo também é das mulheres.

 UMA LONGA HISTÓRIA

Quando falamos sobre gênero, a diferença entre homens e mulheres está muito ligada às questões cultural e social. Mulheres e homens se comportam, agem e têm visões diferentes sobre os variados assuntos, e no empreendedorismo isso não é diferente.

A CSO da Smarkets, Mary Albuquerque, explica que no mundo do empreendedorismo as mulheres conseguem trazer um olhar multifacetado, polivalente, além das questões que envolvem sensibilidade, comprometimento e garra. Por ter isso, elas entregam um melhor desempenho em suas empresas, apesar de lidarem com a gestão e a operação, enquanto o homem possui um perfil mais objetivo e competitivo. Estudos da Fortune apontam que a diversidade é o fator-chave para os negócios. Por outro lado, ela diz que: “Olhando para o universo empreendedor as mulheres sentem falta de representatividade em palestras e publicações veiculadas na mídia para se inspirarem”.

A experiência da gerente de Programas Estratégicos e responsável pelo Grupo Mulheres ACATE, Associação Catarinense de Tecnologia, Tatiana Takimoto, com mulheres empreendedoras a fez entender que elas apresentam muitas similaridades em suas atuações com os homens em se tratando de terem estudos, a busca pelo conhecimento, a capacidade para vendas ou o trabalho com a governança da empresa.

Segundo Tatiana, ambos buscam a maturidade nos negócios e também na liderança de suas empresas. “O que vejo é que quando elas chegam à liderança, são menos centralizadoras e mais confiantes na equipe. Os homens são mais agressivos ao colocar seus pontos de vista, e as mulheres, mais pacificadoras. Talvez pelo lado cultural gerador de inseguranças, ela sinta mais necessidade de se preparar e por isso troca ideias com outras pessoas. integra a equipe, cuida dos detalhes e reflete mais antes de agir, lembra.

Tatiana Takimoto explica que ter uma líder feminina significa ter ideias diferentes, um olhar distinto sobre um determinado produto ou serviço. Ela conta que a mulher possui uma visão holística, sistêmica, de conectar pontos que antes não eram conectados, e isso influencia o mercado, tanto com produtos mais inovadores quanto com mais vendas, lucros para as empresas, contatos com os clientes.

 PODER DE NEGOCIAÇÃO

As empreendedoras não levam vantagem apenas nos quesitos anteriores, mas também no da comunicação. “Estive com algumas mulheres no momento de negociar e elas são diretas, não deixam margem para dúvidas. Acredito que por elas já sofrerem muita pressão da sociedade, estudam mais as possibilidades e vão mais preparadas para fazer o negócio e ter assertividade. Existem vários treinamentos que preparam a mulher para o negócio, liderança, autoestima, segurança, pois sabemos que ela precisa se desenvolver e quebrar algumas crenças” relata Tatiana.

Outro pomo importante levantado por Mary é que as mulheres se diferenciam dos homens pelo senso de aprender com os erros. Eles os enxergam de forma prática, elas aprendem muito com o processo. “Segundo fontes do Entrepreneurship Monitor, as mulheres participam menos de grupos de network, o que é fundamental para quem empreende. “Ao participar, é possível fomentar o seu negócio. além de obter orientação e mentoria”, indica a CSO da Smarkets,

Atualmente a atuação da mulher na força de trabalho mundial é de mais de 70 %, segundo a pesquisa “O poder da paridade” elaborada pela McKinsey. O estudo ainda aponta que no mundo essa força de trabalho liderada pelo empreendedorismo feminino, se igualitária, pode gerar mais de 12 trilhões de dólares. Essa potência pode melhorar significativamente o mercado e a sociedade como um todo. Devemos levar em consideração que vivemos em um universo no qual cerca de 52% do público é masculino e 48% é feminino. E entendemos que o caminho pela igualdade de gênero é muito longo. Pensando antropologicamente, os homens são filhos de mulheres. Então trazê-los para uma realidade mais próxima das mulheres, mais harmoniosa é uma grande quebra de barreiras”, lembra Mary.

Uma das inúmeras recomendações que a CSO da Smarkets faz em seus encontros de mentoria para mulheres é tratar questões de negócios dosando as emoções de forma objetiva e com planejamento. Separe as frentes de trabalho, anote tudo, utilize controles para não se perder, peça ajuda e nunca perca o foco da sua meta!”, finaliza.

EMOÇÕES

As mulheres empreendedoras podem e devem usar suas emoções, características e traços de personalidades a favor de seus negócios. A CEO do grupo It Brazil, Patricia Brazil, diz que uma das vantagens femininas é a percepção dos detalhes, que as fazem entender melhor “as dores dos clientes e fornecedores. “Acredito que esse sexto sentido nada mais é do que a nossa capacidade de observação e percepção do outro. Temos que usar e abusar disso, aumentar a nossa capacidade de compreender o outro faz com que possamos entregar aquilo que ele precisa. Quanto mais acertarmos ao resolver as dores e atender aos sonhos dos nossos clientes, mais geramos valor para ele. Empreender é sobre isso”, exemplifica.

Além dos aspectos levantados por Patrícia, é bem-vinda a criatividade para atender às necessidades das pessoas, resolver seus problemas, tornar a vida delas melhor. “Isso acaba ajudando nas várias etapas na hora de comandar a empresa e realizar uma entrega que surpreenda os clientes. Temos ainda a nossa resiliência feminina, força, vontade, capacidade para superar os desafios e seguir adiante. Acredito que essa flexibilidade também seja uma característica que ajuda demais”, lembra Patrícia.

Tudo isso só pode ser usado se a empreendedora buscar o autoconhecimento. Pode parecer difícil, mas, no mundo dos negócios as coisas podem ser simples. “Ao invés de tentar melhorar aquilo   em que você não é tão bom, invista e fique ainda melhor naquilo em que você já é bom e delegue o restante. Eu também acredito que é importante desenvolver uma mentalidade vencedora. Acreditar no próprio potencial e aumentar a autoconfiança é algo em que os empreendedores sempre precisam investir, pois são ativos e fundamentais para vencer no mundo dos negócios”, lembra.

AS DIFERENÇAS

Tatiana Takimoto, que a tua no setor da tecnologia, conta que, apesar de as pesquisas indicarem que as mulheres já estão empreendendo mais que os homens, essa realidade ainda não é a deste segmento. “Somos 25% apenas e muitas empreendem com os seus cônjuges. Percebo que antes de abrir um negócio, as mulheres se fazem muito mais perguntas. É aqui é um ponto interessante, pois não é comum termos referências femininas na tecnologia”, relata.

Tatiana lembra que existem pesquisas afirmando que os homens buscam líderes nas suas empresas com estilos parecidos com os deles e assim fica difícil para uma mulher alcançar cargos como CEOs. Além disso, somos testadas o tempo todo e muitos homens não acreditam que somos capazes de desempenhar bem o papel de líder e representante da empresa, mesmo sendo sócias. Somos diferentes e a diferença gera desconfiança, diz.

Outra forte diferença é cultural, as mulheres são educadas para não errar, e empreender é errar o tempo todo. Essa também é uma barreira a ser quebrada que dificulta a entrada feminina no empreendedorismo.

Sobre o machismo e o preconceito enfrentados pelas mulheres, Mary conta: “Em congressos nacionais e internacionais dos quais tive a oportunidade de participar, ao perguntar se alguma mulher sofreu assédio ou passou por algum momento de machismo nos últimos 12 meses, praticamente 100% do público feminino levantou a mão para dizer que já se deparou com o machismo. Vivemos em uma sociedade na qual o machismo é muito comum, naturalizado e institucionalizado, aceito pela sociedade por muitos anos. Ao passar por uma situação constrangedora ligada ao machismo, não se cale! De forma simples e educada pontue que o comentário/ação não a agradou. “Não gostei do seu posicionamento, a forma como você falou não foi tão legal assim”, aconselha.

A consultora, coach e membro do Grupo Nikaia, Ana Paula Alfredo, acredita no protagonismo feminino e explica que a mulher deve assumir seu papel, investir em programas que a ajudem a fortalecer sua autoconfiança, seu autoconhecimento, a reconhecer suas forças e seguir adiante. “Precisamos ter menos tolerância com o preconceito. Temos que dar direitos iguais para meninos e meninas no que diz respeito ao serviço doméstico. Temos que aceitar menos as piadinhas. Nas organizações de grande porte ainda existem muitos limitadores para o crescimento feminino. Empreender precisa de planejamento. Investir tempo para planejar o negócio, entender de finanças. Mas investir principalmente em reconhecer seus pontos fortes, sua capacidade realizadora e na sua rede de suporte”, indica.

 

LIÇÕES PARA SEWR UMA BOA EMPREENDEDORA

1 – ACREDITE em você e em sua capacidade de fazer o negócio dar certo. Pense no que você tem de melhor, nos seus talentos.

2 – PENSE qual problema de um grupo de clientes você resolverá e como fará isso de uma forma única. Use suas habilidades de escuta e empatia para entender as oportunidades que existem no mercado.

3 – PLANEJE. Pesquise. Negócios precisam ser pensados e planejados sob todos os aspectos em termos de recursos humanos, tempo e recursos financeiros.

4 – COMECE. Você nunca estará 100% preparada. O que a tecnologia nos ensina hoje é o valor do protótipo e do aprendizado. Comece menor, mas saiba que vai errar. Aprenda com os erros e recomece.

5 – OUSE crescer. Ouse dar certo!

FONTE: ANA PAULA ALFREDO, consultora, coach e membro do Grupo Nikaia.

 

10 PASSOS PARA O SUCESSO NO EMPREENDEDORISMO

1 – Buscar apoio em outras mulheres que já são empreendedoras.

2 – Olhar para a frente usando os aprendizados adquiridos, com foco no futuro.

3 – Pensar sim, mas agir rápido também.

4 – Persistir independentemente das dificuldades.

5 – Conversar com outras mulheres, mesmo que de outros setores.

6 – Pensar grande.

7 – Pedir ajuda quando necessário.

8 – Errar e aprender com os erros.

9 – Mudar sempre que necessário.

10 – Desistir não pode ser uma opção.

 

FONTE: TATIANA TAKIMOTO – gerente de programas estratégicos e responsável pelo grupo Mulheres ACATE – Associação Catarinense de Tecnologia.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 2: 1-11

Alimento diário

A Água Transformada em Vinho

Aqui temos a história da milagrosa conversão da água em vinho que Jesus realizou em um casamento, em Caná da Galileia. Havia alguns dispostos a crer em Cristo, e a segui-lo, quando Ele não tinha realizado nenhum milagre, mas não era provável que muitos devessem ser realizados até que Ele tivesse algo com que responder àqueles que perguntavam: “Que sinal nos mostras?” Ele podia ter realizado milagres antes, podia ter feito deles os atos comuns da sua vida, e o entretenimento normal dos seus amigos. Mas, sendo os milagres designados como os selos sagrados e solenes da sua doutrina, Ele começou sem realizar nenhum, até começar a pregar sua doutrina. Agora observe:

 I – A circunstância sob a qual este milagre foi realizado. Maimônides observa que a honra de Moisés consiste em que todos os milagres que ele realizou no deserto deveram-se à necessidade. Nós precisávamos de alimento, ele nos trouxe o maná, e Cristo também agiu assim. Observe:

1. A data: no “terceiro dia” depois que Ele entrou na Galileia. O evangelista mantém um diário das ocorrências, pois nenhum dia passava sem que alguma coisa extraordinária fosse dita ou feita. Nosso Mestre preenchia melhor seu tempo do que seus servos, e nunca se deitava à noite reclamando, como fazia o imperador romano, de que tivesse perdido um dia.

2. O lugar: foi em Caná da Galileia, na tribo de Aser (Josué 19.28), da qual, anteriormente, tinha sido dito que daria “delícias reais”, Gênesis 49.20. Cristo começou a realizar milagres em uma região obscura da nação, distante de Jerusalém, que era o centro público da ação, para mostrar que Ele não procurava a honra dos homens (cap. 5.41), mas honrar os humildes. Sua doutrina e seus milagres não seriam tão combatidos pelos simples e honestos galileus como seriam pelos orgulhosos e preconceituosos rabinos, políticos e aristocratas de Jerusalém.

3. A ocasião propriamente dita foi um casamento. Provavelmente, uma ou as duas famílias eram aparentadas com nosso Senhor Jesus. A mãe de Jesus estava ali, e sem ser considerada convidada, como tinha sido Jesus e seus discípulos, o que sugere que ela era como alguém da família. Observe a honra que Cristo, aqui, coloca sobre a ordenança do casamento. Ele agraciou sua solenidade não somente com sua presença, mas com seu primeiro milagre. O casamento foi instituído e abençoado em inocência, porque, através deste, o Senhor ainda poderia procurar uma semente piedosa. O casamento assemelha-se à união mística entre o Senhor Jesus e sua igreja. O Senhor também previa que, no reino papal, enquanto a cerimônia de casamento seria dignificada de uma forma indevida e transformada em um sacramento, a condição de casado seria indevidamente denegrida, considerada incoerente com qualquer função sagrada. Havia umas bodas, um banquete de bodas, para honrar a solenidade. As bodas eram, normalmente, comemoradas com banquetes (Genesis 29.22; Juízes 14.10), em sinal de alegria e de respeito amistoso, e para a confirmação do amor.

4. Cristo e sua mãe, e os discípulos, eram convidados importantes nesta comemoração. A mãe de Jesus (este era seu título mais honroso) estava ali. Não sendo feita menção a José, nós concluímos que ele tivesse morrido antes desta ocasião. Jesus foi convidado, e veio, aceitou o convite, e participou do banquete com eles, para nos ensinar a ser respeitosos nos nossos relacionamentos, e sociáveis com as pessoas, ainda que sejam humildes. Cristo devia vir de uma maneira diferente da de João Batista, que veio não comendo nem bebendo, Mateus 11.18,19. A sabedoria do prudente consiste em estudar como melhorar as relações, em vez de procurar desvalorizá-las.

(1) Havia um casamento, e Jesus foi convidado. Observe:

[1] É muito desejável, quando há um casamento, que Jesus Cristo esteja presente. Para ter sua presença espiritual graciosa, para ter o casamento reconhecido e abençoado por Ele. O casamento, então, será verdadeiramente honroso, e aqueles que se casam no Senhor (1 Coríntios 7.39), não se casam sem Ele.

[2] Aqueles que desejam ter a Cristo presente no seu casamento, devem convidá-lo por meio da oração, que é a mensageira que deve ser enviada ao céu para buscá-lo. E ele virá: “Chama… e eu responderei”. E transformará a água em vinho.

(2) Os discípulos também foram convidados, aqueles cinco que Ele tinha chamado (cap. 1), pois Ele ainda não tinha mais discípulos. Eles eram sua família, e foram convidados com Ele. Eles tinham se colocado sob seus cuidados, e logo descobriram que, embora Ele não tivesse riqueza, tinha bons amigos. Observe:

[1] Aqueles que seguem a Cristo se banquetearão com Ele, comerão o que Ele comer, pois o próprio Senhor lhes disse (cap. 12.26):”Onde eu estiver, ali estará também o meu servo”.

[2] O amor a Cristo é testemunhado por um amor àqueles que são seus, por sua causa. Nossa bondade estende-se não a Ele, mas aos santos. Calvino observa como era generosa a pessoa que ofereceu a festa. Embora pareça ter sido de poucas posses, o anfitrião convidou quatro ou cinco estranhos, quatro ou cinco pessoas a mais do que ele tinha calculado, porque eram seguidores de Cristo, o que mostra, segundo afirma Calvino, que existe mais liberdade, e liberalidade, e verdadeira amizade, nas relações de algumas pessoas humildes do que entre muitas de posição elevada.

 

II – O milagre propriamente dito. Observe nele:

1. Eles sentiram falta de vinho, v. 3.

(1) Havia escassez em um banquete. Embora a provisão fosse muita, ainda assim foi toda consumida. Enquanto estamos neste mundo, às vezes nos encontramos em dificuldades, mesmo quando nos achamos na plenitude da nossa suficiência. Se formos pessoas que gastam muito dinheiro, tal vez tudo o que tivermos seja gasto antes que percebamos.

(2) Havia escassez em um banquete de casamento. Observe que aqueles que, quando se casam, têm que se preocupar com as coisas do mundo, devem esperar problemas na carne, e podem esperar desapontamentos.

(3) Aparentemente, Cristo e seus discípulos foram um dos motivos desta escassez, porque houve mais pessoas presentes do que o esperado quando a provisão foi feita. Mas aqueles que enfrentar em dificuldades por Cristo podem estar certos de que não se arruinarão por causa dele.

2. A mãe de Jesus pediu que Ele auxiliasse seus amigos nesta dificuldade. Nós lemos (vv. 3-5) o que aconteceu entre Cristo e sua mãe nesta ocasião:

(1) Ela o coloca a par da dificuldade em que se encontravam (v. 3). Ela lhe disse: “Não têm vinho”. Alguns opinam que ela não esperava dele nenhuma provisão milagrosa (Ele ainda não tinha realizado nenhum milagre), mas desejava que Ele desse alguma justificativa apropriada ao grupo, que fizesse o possível para salvar a reputação do noivo, e mantivesse sua compostura. Ou (como sugere Calvino) desejava que Ele compensasse a falta de vinho com algumas palavras santas e proveitosas. Mas, o que é mais provável, ela esperava por um milagre, pois sabia que Ele aparecia agora como o grande profeta, como Moisés, que, com frequência, e no momento oportuno, supria as necessidades de Israel. E, embora este fosse seu primeiro milagre público, talvez algumas vezes Ele a tivesse auxiliado, e ao seu marido, na sua condição humilde. O noivo poderia ter saído para obter mais vinho, mas ela era favorável a ir diretamente à fonte. Observe:

[1] Nós devemos nos preocupar com as necessidades e dificuldades dos nossos amigos, e não procurar somente nossas coisas.

[2] Nas nossas dificuldades, e nas dificuldades dos nossos amigos, é nosso dever e nossa prudência nos dirigirmos a Cristo em oração.

[3] Quando nos dirigirmos a Cristo, nós não devemos exigir nada dele, mas humildemente apresentar nosso caso diante dele, e então nos entregarmos a Ele para que faça como desejar.

(2) Ele a repreendeu por isto, pois considerou a atitude dela mais errada do que costumamos considerar. Caso contrário, Ele não teria lidado com a situação daquela maneira. Aqui, temos:

[1] A repreensão propriamente dita: “Mulher, que tenho eu contigo?” Cristo repreende e castiga aqueles que Ele ama. Ele a chama de mulher, não de mãe. Quando começamos a agir com arrogância, devemos ser lembrados daquilo que somos, homens e mulheres, frágeis, tolos e corrompidos. A pergunta pode ser interpretada como: O que isto tem a ver comigo e com você? O que temos nós a ver com a necessidade deles? Mas nós sempre traduzimos: “Que tenho eu contigo?” Como em Juízes 11.12; 2 Samuel 16.10; 2 Reis 3.13; Mateus 8.29. Portanto, a expressão traduz um ressentimento, embora não incoerente com a reverência e submissão que Ele prestava à sua mãe, em conformidade com o quinto mandamento (Lucas 2.51). Houve um tempo em que era um louvor para Levi, que ele dissesse ao seu pai: “Nunca o vi”, Deuteronômio 33.9. Mas, neste caso, a atitude do Senhor tinha algumas funções. Em primeiro lugar, uma repreensão à sua mãe, por interferir em um assunto que pertencia exclusivamente à sua divindade, que não dependia dela, e da qual ela não era a mãe. Embora, como homem, Ele fosse filho de Davi, e dela, ainda assim, como Deus, Ele era o Senhor de Davi, e dela, e desejava que ela soubesse disto. Os maiores progressos não devem nos fazer esquecer quem somos e qual é nosso lugar; nem a familiaridade com que o concerto da graça nos aceita deve gerar desprezo, irreverência, ou qualquer tipo ou grau de presunção. Em segundo lugar, era uma instrução aos outros parentes (muitos dos quais estavam presentes aqui), que eles nunca deveriam esperar que Ele tivesse uma consideração especial pelos seus parentes segundo a carne, na realização dos seus milagres, ou que privilegiasse aqueles que, nesta questão, não eram mais para Ele do que as outras pessoas. Nas coisas de Deus, nós não devemos fazer diferenças. Em terceiro lugar, é um notável testemunho contra aquela idolatria na qual Ele previa que sua igreja iria cair, depois de séculos, ao dar honras indevidas à virgem Maria, um crime de que os católicos romanos, como se intitulam, são notoriamente culpados, quando a chamam de rainha do céu, a salvação do mundo, sua mediadora, sua vida e esperança, não apenas confiando no seu mérito e intercessão, mas pedindo que ela ordene que seu Filho lhes faça o bem: Mostre que você é a mãe dele. Dê esta ordem materna ao Salvador: Ele diz aqui, expressamente, quando um milagre devia ser realizado, mesmo nos dias da sua humilhação, e sua mãe apenas tacitamente tenciona uma intercessão: “Mulher, que tenho eu contigo?” Isto foi claramente designado para evitar ou agravar esta idolatria grosseira, esta blasfêmia horrível. O Filho de Deus é nomeado como nosso Advogado para com o Pai, mas a mãe do nosso Senhor nunca foi designada para ser nossa advogada para com o Filho.

[2] A razão desta repreensão: ainda não é chegada a minha hora” Pois havia a hora certa para tudo o que Cristo fazia, e para tudo o que era feito a Ele. Havia sempre a ocasião fixada, e mais adequada, que era pontualmente observada. Em primeiro lugar: “Minha hora de realizar milagres ainda não é chegada”. Ainda assim, pouco depois, Ele realizou este milagre, antes da hora, porque previu que isto iria confirmar a fé dos seus jovens discípulos (v. 11), o que era a finalidade de todos os seus milagres. De modo que este foi o penhor dos muitos milagres que Ele realizaria quando sua hora fosse chegada. Em segundo lugar: “Minha hora de realizar milagres abertamente ainda não é chegada. Por isto, não falemos disto publicamente”. Em terceiro lugar, segundo Gregório de Nissa: “Não é chegada a hora da minha dispensa da sua autoridade, agora que Eu comecei a atuar como um profeta?”. Em quarto lugar: “Minha hora de realizar este milagre ainda não é chegada”. Sua mãe pediu que Ele os ajudasse quando o vinho começou a escassear (assim pode ser interpretado, v. 3), mas sua hora ainda não seria chegada até que ele tivesse acabado, e a escassez fosse total. Não apenas para evitar qualquer suspeita de mistura do vinho que tinha sobrado com água, mas para nos ensinar que a necessidade extrema do homem é uma oportunidade de Deus de aparecer para a ajuda e o socorro do seu povo. Sua hora é chegada quando nós somos reduzidos à dificuldade extrema, e não sabemos o que fazer. Isto incentivava aqueles que esperavam por Ele a crer que, embora sua hora ainda não fosse chegada, ela chegaria. Observe que a demora da misericórdia não deve ser compreendida como negação à oração. ”Até ao fim falará”.

(3) Apesar disto, Maria incentivou a si mesma com expectativas de que Jesus ajudaria seus amigos nesta dificuldade, pois disse aos servos que obedecessem às ordens dele, v. 5.

[1] Ela aceitou muito submissa a repreensão, e não replicou. E melhor não merecer repreensão de Cristo, mas depois de recebê-la, é melhor permanecer submisso e tranquilo, e considerá-la como uma benignidade, Salmos 141.5.

[2] Ela manteve sua esperança na misericórdia de Cristo, confiando que Ele iria conceder seu desejo. Quando nos dirigimos a Deus, em Cristo, pedindo misericórdia, duas coisas podem nos desencorajar. Em primeiro lugar; a percepção das nossas próprias tolices e fraquezas: “Certamente orações tão imperfeitas como as minhas não terão êxito”. Em segundo lugar, a percepção das censuras e repreensões do nosso Senhor. A aflição continua, o auxílio tarda, e Deus parece irado com nossas orações. Este era o caso da mãe do nosso Senhor aqui, e ainda assim ela se encoraja, tendo esperança de que Ele finalmente concederá uma resposta de paz, para ensinar-nos a lutar com Deus pela fé e pelo fervor na oração, mesmo quando Ele parece, em sua providência, estar contra nós. Nós devemos, contra a esperança, crer em esperança, Romanos 4.18.

[3] Ela orientou os servos a obedecê-lo imediatamente, e não se dirigirem a ela, como provavelmente eles tinham feito. Ela abandona toda pretensão de influenciar Jesus ou de interceder junto a Ele. Suas almas devem esperar somente nele, Salmos 62.5.

[4] Ela lhes disse expressamente que obedecessem às suas ordens, sem discutir ou fazer perguntas. Consciente de ter cometido um erro ao exigir algo dele, ela adverte os servos para que não cometam o mesmo erro, e que estejam atentos tanto à hora quanto à maneira como Ele supriria: “Fazei tudo quanto ele vos disser’, ainda que possam pensar que é inadequado. Se Ele disser: Deem água aos convidados, quando pedirem vinho, façam isto. Se Ele disser: Despejem o que há no fundo das talhas, façam isto. Ele pode fazer umas poucas gotas de vinho se multiplicarem, tornando-se um grande volume, capaz de satisfazer uma multidão”. Observe que aqueles que esperam os favores de Cristo devem, com uma obediência implícita, observar suas ordens. O caminho do dever é o caminho para a misericórdia, e os métodos de Cristo não devem receber objeções.

(4) Cristo, por fim, os supriu milagrosamente. Ele é sempre capaz de agir de uma forma melhor do que prometeu, mas nunca pior.

[1] O milagre propriamente dito foi a transformação de água em vinho, a substância da água adquirindo uma nova forma, e tendo todas as características e qualidades do vinho. Tal transformação foi um milagre, mas a transubstanciação papista, a alteração da substância com as características permanecendo as mesmas, é uma monstruosidade. Com isto, Cristo mostrou ser o Deus da natureza, que faz a terra produzir vinho, Salmos 104.14,15. A extração do suco da uva, todos os anos, da umidade da terra, não é uma obra de poder inferior, embora, estando de acordo com a lei comum da natureza, não é uma obra milagrosa, como esta. O início dos milagres de Moisés deu-se com a transformação da água em sangue (Êxodo 4.9; 7.20), o início dos milagres de Cristo deu-se com a transformação de água em vinho, o que evidencia a diferença entre a lei de Moisés e o Evangelho de Cristo. A maldição da lei transforma a água em sangue, consolos comuns em amargura e terror, a bênção do Evangelho transforma água em vinho. Aqui Cristo mostrou que sua missão no mundo era aumentar e melhorar os consolos a todos os crentes, tornando-os verdadeiros consolos. Está escrito que Siló lavará sua veste no vinho (Genesis 49.11), a água da lavagem tendo sido transformada em vinho. E o chamado do Evangelho é: “Vinde às águas e comprai vinho”, Isaías 55.1.

[2] As circunstâncias do milagre o enalteceram e livraram de qualquer suspeita de trapaça ou conluio, pois:

Em primeiro lugar, o milagre realizou-se em talhas (v. 6): “Estavam ali postas seis talhas de pedra”. Observe:

1. Para que uso se destinavam estas talhas de pedra: para as purificações legais das contaminações cerimoniais, impostas pela lei de Deus, e muitas mais, pela tradição dos anciãos. Os judeus não comiam sem lavar as mãos muitas vezes (Marcos 7.3), e usavam muita água para lavar-se, e esta é a razão pela qual aqui estavam dispostas seis grandes talhas de pedra. Era um ditado entre eles: Aquele que usa muita água para lavar-se, ganha muita riqueza neste mundo.

2. Cristo as empregou para um uso bastante diferente daquele para o qual estavam dispostas, para que fossem os receptáculos do vinho milagroso. Assim, Cristo veio para trazer a graça do Evangelho, que é como um vinho, que alegra a Deus e aos homens (Juízes 9.13), em vez das sombras da lei, que eram como a água, um elemento de menor valor. Estas eram talhas que nunca tinham sido usadas para armazenar vinho; e de pedra, que não é um material adequado para reter o sabor de líquidos anteriores, se já tivessem contido vinho. “Em cada uma cabiam duas ou três metretas”, duas ou três medidas, batos ou efas. A quantidade não é sabida ao certo, mas é considerável. Nós podemos ter certeza de que a intenção não era que todo o vinho fosse bebido nesta festa, mas era uma gentileza a mais para o novo casal, assim como o azeite multiplicado o foi para a pobre viúva, do qual ela pôde pagar sua dívida e viver do resto, 2 Reis 4.7. Cristo concede suas bênçãos conforme a abundância que Ele possui. Ele nos abençoa de acordo com suas riquezas em glória. O escritor, conforme seu estilo, diz: “Em cada uma cabiam duas ou três metretas”, pois o Espírito Santo teria averiguado qual era a quantidade exata, desta maneira (como João 6.19), ensinando-nos a falar cautelosamente, e não confiantemente, das coisas sobre as quais não temos segurança.

Em segundo lugar, as talhas foram cheias até em cima pelos servos, depois da ordem de Cristo, v. 7. Assim como Moisés, o servo do Senhor, quando Deus lhe ordenou, foi até a rocha para extrair água, também estes servos, quando Cristo lhes ordenou, foram à água para obter vinho. Observe que uma vez que nenhuma dificuldade pode opor-se ao braço do poder de Deus, nenhuma improbabilidade deve ser objetada contra sua palavra de ordem.

Em terceiro lugar, o milagre foi realizado de repente, e de uma maneira que o enalteceu enormemente.

1. Tão logo eles tinham enchido as talhas, imediatamente Jesus disse: “Tirai agora” (v. 8), e assim foi feito:

(a) Sem nenhuma cerimônia, à vista dos espectadores. Poderíamos imaginar, como Naamã, que Jesus tivesse saído e se posto em pé, e tivesse invocado o nome de Deus, 2 Reis 5.11. Não, Ele ficou tranquilamente no seu lugar, não disse nenhuma palavra, mas desejou, e assim realizou o milagre. Observe que Cristo faz coisas grandiosas e maravilhosas sem alarido, realiza transformações evidentes de uma maneira oculta. Às vezes, Cristo, ao realizar milagres, usava palavras e sinais, mas era por causa daqueles que estavam ao seu redor cap. 11.42.

(b) Sem nenhuma hesitação ou incerteza no seu seio. Ele não disse: Tirem agora, e deixem-me provar, questionando se o milagre teria se realizado como Ele queria ou não. Mas com a maior segurança imaginável, embora este fosse seu primeiro milagre, Ele enviou primeiro ao mestre-sala. Assim como Ele sabia o que queria fazer, também sabia o que podia fazer, e não experimentou seu trabalho, mas tudo foi bom, muito bom, mesmo no início.

2. Nosso Senhor Jesus disse aos servos:

(a) Que tirassem, que não deixassem o vinho na talha, para ser admirado, mas que o tirassem, para ser bebido. Observe:

[a] Todas as obras de Cristo destinam-se ao uso. Ele não dá ao homem um talento para ser enterrado, mas para ser negociado. Ele transformou sua água em vinho, Ele lhe deu conhecimento e graça? É para nosso benefício, e por isto tire agora.

[b] Aqueles que desejam conhecer a Cristo devem experimentá-lo, devem acompanhá-lo no uso dos meios comuns, e então poderão esperar uma influência extraordinária. Aquilo que é guardado para todos os que temem a Deus, é realizado para aqueles que confiam nele (Salmos 31.19), que, pelo exercício da fé, tiram o que está guardado.

(b) Que levassem ao mestre-sala. Alguns pensam que este mestre-sala era somente o convidado principal, que se sentava à cabeceira da mesa. Mas, se fosse assim, certamente nosso Senhor Jesus teria tido este lugar, pois Ele era, sem dúvida, o convidado principal. Porém, parece que outra pessoa tinha o primeiro lugar, provavelmente alguém que o amava (Mateus 23.6), e que o tinha escolhido, Lucas 14.7. E Cristo, de acordo com sua própria regra, sentou-se no lugar mais inferior. Mas, embora Ele não fosse tratado como o mestre-sala, Ele foi gentilmente reconhecido como um amigo dos donos da festa. E, se não foi seu idealizador, com certeza deve ser considerado como seu principal benfeitor. Outros julgam que este mestre-sala era o inspetor e monitor do banquete, cuja função era verificar que todos tivessem o suficiente, e ninguém se excedesse, e não houvesse indecências ou desordens. Observe que um banquete precisa ter um mestre-sala, porque muitos, quando estão em banquetes, não têm controle sobre si mesmos. Alguns opinam que este mestre-sala era o capelão, algum sacerdote ou levita que deveria ordenar uma bênção e dar graças. E Cristo queria que o cálice fosse levado até ele, para que ele o abençoasse e desse graças a Deus por ele, pois os extraordinários sinais da presença e do poder de Cristo não vieram substituir, nem deixar de lado, as regras e os métodos comuns da piedade e da devoção. Toda a religiosidade e fé devem ser direcionados a Cristo.

Em quarto lugar, o vinho que foi milagrosamente providenciado era do melhor tipo, do mais rico, e foi reconhecido pelo mestre-sala do banquete. É certo que foi realmente assim, e não sua imaginação, porque ele não sabia de onde vinha aquele vinho tão excelente, vv. 9,10.

1. Era certo que isto era vinho. O mestre-sala soube disto quando o bebeu, embora não soubesse de onde vinha. Os servos sabiam de onde vinha, mas não o tinham provado. Se o provador tivesse visto o vinho sendo tirado, ou se os servos o tivessem provado, algo poderia ser atribuído à imaginação, mas agora não há lugar para suspeitas.

2. Este era o melhor vinho. Observe que as obras de Cristo se recomendam até mesmo àqueles que não conhecem seu Autor. Os resultados dos milagres sempre são os melhores possíveis. Este vinho era certamente mais encorpado, e tinha um sabor melhor do que o vinho comum. O mestre-sala comenta isto com o esposo, com um ar de satisfação, classificando-o como um vinho incomum.

(1) O costume era o oposto. O bom vinho era servido de maneira vantajosa no início de um banquete, quando os convidados têm suas mentes claras, e seus apetites, despertos, e podem prová-lo e elogiá-lo. Mas, quando já beberam bastante, quando suas mentes estão confusas, e seus apetites, satisfeitos, o vinho bom será desperdiçado se lhes for servido. O pior lhes bastará. Veja a futilidade de todos os prazeres dos sentidos, eles logo são saciados, mas nunca satisfeitos. Quanto mais se desfruta deles, menos agradáveis se tornam.

(2) Este esposo favoreceu seus amigos com uma reserva do melhor vinho para o brinde final: “Tu guardaste até agora o bom vinho”. Não sabendo a quem devia agradecer por este bom vinho, ele confere o agradecimento à mesa do esposo. “Ela, pois, não soube que eu é que lhe dei o trigo, e o vinho”, Oseias 2.8 (versão RA). Veja:

[1] Cristo, ao prover esta abundância para os convidados, embora permita um uso animado do vinho, especialmente em ocasiões de alegria (Neemias 8.10), ainda assim não invalida sua própria advertência, nem a transgride, ou seja, que nosso coração não deve estar; em nenhuma ocasião, nem mesmo em uma festa de casamento, carregado de glutonaria e de embriaguez, Lucas 21.34. Quando Cristo providenciou tanto vinho bom para aqueles que já tinham bebido bastante, Ele pretendia testar sua sobriedade, e ensiná-los como se comportar tanto na abundância quanto na escassez. A moderação forçada é uma virtude ingrata, mas, se a providência divina nos der abundância das delícias dos sentidos, e a graça divina nos capacitar a usá-las moderadamente, esta será uma abnegação digna de elogios. Ele também pretendia que sobrasse algum vinho para a confirmação da veracidade do milagre, para o aumento da fé de outros. E nós temos motivos para acreditar que os convidados estavam tão bem ensinados, ou pelo menos estavam tão bem impressionados pela presença de Cristo, que nenhum deles consumiu vinho em excesso. Duas considerações, extraídas desta história, podem ser sufi­ cientes, em qualquer tempo, para nos fortalecer contra as tentações à intemperança. Em primeiro lugar, que nosso alimento e nossa bebida são dádivas da generosidade de Deus para nós, e devemos nossa liberdade para usá-los, e nosso consolo ao usá-los, à mediação de Cristo. Portanto, é ingrato e ímpio abusar delas. Em segundo lugar, que, onde quer que estejamos, Cristo está nos observando. Nós devemos comer nosso pão diante de Deus (Êxodo 18.12), e assim não nos alimentaremos sem temor.

[2] O Senhor Jesus nos deu uma amostra do método que usa para lidar com aqueles que lidam com Ele, isto é, reservar o melhor para o final. Portanto, eles devem tratar o Senhor com confiança. A recompensa pelos seus serviços e sofrimentos está reservada para o mundo porvir. É uma glória a ser revelada. Os prazeres do pecado dão sua cor à taça, mas, no final, trazem tristes consequências. Porém, os prazeres da religião serão prazeres eternos.

 

III – Na conclusão desta história (v. 11), lemos:

1. Que este foi o princípio dos milagres que Jesus realizou. Muitos milagres tinham se realizado a respeito dele no seu nascimento e batismo, e Ele mesmo foi o maior milagre de todos, mas este foi o primeiro que foi realizado por Ele. Ele podia ter realizado milagres quando argumentou com os doutores, mas sua hora ainda não era chegada. Ele tinha poder; mas era a hora de ocultar seu poder.

2. Que, com isto, Ele manifestou sua glória. Com isto, Ele provou ser o Filho de Deus, e que sua glória é a do Unigênito do Pai. Ele também revelou a natureza e a finalidade da sua obra. O poder de um Deus, e a graça de um Salvador, que apareciam em todos os seus milagres, e particularmente neste, manifestavam a glória do Messias esperado há tanto tempo.

3. Que seus discípulos creram nele. Aqueles a quem Ele tinha chamado (cap.1), que não tinham visto nenhum milagre, e ainda assim o seguiram, agora viram este milagre, participaram dele, e tiveram sua fé fortalecida. Observe:

(1) Até mesmo a fé que é verdadeira, a princípio, é fraca. Os homens mais fortes foram, uma vez, bebês, e assim também foram os cristãos mais fortes.

(2) A manifestação da glória de Cristo é a grande confirmação da fé dos cristãos.