PSICOLOGIA ANALÍTICA

O AMADURECER DA MORTE FÍSICA

Em um mundo em que tudo se degenera, o que haverá de estável, real e eterno? Sete Minutos depois da Meia-noite transcende o conflito de não querer perder quem se ama.

O amadurecer da morte física

Um menino de 13 anos se prepara, com as fortes figuras da imaginação, para a perda da ligação física com sua mãe que vive a morte. Condenado a uma saudade que, diferente de um cordão umbilical, nunca poderá ser cortada. Ele repara essa dor folheando e experimentando os desenhos feitos por sua mãe até confundir a realidade com os sonhos.

O garoto chama-se Conor O’Malley. Seu pai tem uma outra família e vive distante geográfica e afetivamente. Enquanto isso, sua mãe sofre a fase terminal de um câncer de mama e o garoto experimenta a proximidade de um outro tipo de separação. É uma separação transformada num monstro representado em seu imaginário por um teixo – uma árvore milenar e venenosa, porém com virtudes curativas. Esse é um recurso da natureza para ajudar a aliviar a dor de perder uma mãe e nunca encontrar uma explicação de por que as pessoas morrem.

No Brasil, o livro Monster Call recebeu o título de Sete Minutos Depois da Meia-noite, baseado no argumento de Siobhan Sowd que, como o seu personagem, estava com uma doença terminal e morreu antes de concluí­ lo. A obra foi então romanceada, de forma espetacular, pelo escritor Patrick Ness.

O sete é um número que em diversas culturas simboliza a totalidade ou a ideia de um ciclo que se cumpre. Em nosso mito cristão, Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Podemos olhar para o céu e contemplar as sete cores do arco-íris enquanto ouvimos os artistas usarem as sete notas musicais, intercaladas ao silêncio, produzirem sinfonias que trazem vida por nos lembrarem da morte. O livro de Ness foi levado para o cinema, a sétima arte. À meia-noite, inicia-se um novo dia no lugar daquele que se foi. E nesse momento, sete minutos depois da meia-noite, quando um ciclo se completa depois da morte do ontem, em que Conor acorda aflito de um pesadelo.

0 pesadelo é um treino para que o garoto experimente a separação antes de acontecer. É como se Deus, em doses homeopáticas, ensinasse-nos a capacidade de suportar o insuportável. Não conseguimos responder por que a vida acaba nem o sentido da razão de existirmos é tão incognoscível como a ideia de Deus. No entanto, cada um pode ter suas certezas e seus mitos para diminuir a angústia que causa o mistério. Deus pode ser tudo que não entendemos, mas o que não entendemos existe.

O pesadelo trazia o cenário de um cemitério com uma grande árvore que a tudo assistia, o teixo. Ocorre um terremoto e a terra se abre enquanto Conor segura a mãe por uma das mãos até soltá-la no grande abismo no qual ela sumirá para sempre. Em meio à culpa por não ter conseguido salvá-la e à dor da perda, ele acorda gritando até constatar que foi um sonho. Mas a sua realidade que diferença tem do sonho? Essa é a questão que leva Conor a experimentar sua vida interior com as suas fantasias se fundindo com o mundo externo, proporcionando­ lhe o remédio homeopático de Deus. Na escola, os colegas fazem Conor experimentar uma piedosa invisibilidade, exceto por Harry e seus amigos, que o maltratam moral e fisicamente. Esse bullying diário funciona como uma compensação, tanto por sua culpa como também por fazê-lo existir, o que é a grande dor de sua alma: o deixar de existir. Muitos sofrimentos aos quais nos acostumamos devem-se a compensações da psique. A dor física atenua a dor da alma, por isso existem pessoas que se mutilam.

O desequilíbrio dessa compensação leva a uma explosão de toda uma energia acumulada que estava sendo suportada. Assim, quando Harry diz a Conor O’Malley que também o deixará invisível e não mais irá importuná-lo, Conor sente seu monstro irromper em si e com fúria agride Harry levando-o a ficar hospitalizado.

O monstro diz a Conor que “as histórias são criaturas selvagens. Quando você as solta, quem sabe o que podem causar?”. E conta ao garoto histórias que o fazem entender que nem sempre há um vilão e um bonzinho, as pessoas ficam entre um e outro. Essa é a forma de a nossa natureza psíquica lidar com o sim e o não, ajudando-nos a transcender o que separamos como opostos. Assim, aprendemos a lidar com o real e o imaginário, o bem e o mal, a morte e a vida.

A primeira história, como em um conto de fadas, leva o garoto a entender que sua avó não era tão má assim e que ele, apesar de se sentir culpado, poderá ser amado. A segunda o leva a pensar na luta entre as indústrias farmacêuticas e os recursos da medicina natural do boticário. E dessa polêmica que é entendida a necessidade da fé, pois sua avó, como a medicina, prevê a morte de sua mãe como certa e não admite uma cura. Podemos acreditar em fadas e bruxas, mas fé não é acreditar em algo, é sentir uma verdade.

Essa é a experiência de transcender o conflito de não querer perder quem se ama e o ter de perdê-lo. Para isso, torna-se necessário o símbolo que revela à consciência o que antes se escondia no inconsciente. E lá estava o teixo, símbolo da longevidade, de nossos antepassados, do veneno e da cura.

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Sete Minutos Depois da Meia-noite (A Monster Calls) Autor: Patrick Ness

Editora: Novo Conceito Lançamento: 2016 Páginas:160

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CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br / http://www.ijba.com.br

OUTROS OLHARES

MARCAS INDELÉVEIS

As consequências que o abuso sexual na infância e na adolescência desencadeiam ao longo do desenvolvimento têm sido tema de diversos estudos.

Marcas indeléveis

Os transtornos psiquiátricos na idade adulta, relacionados a eventos traumáticos com cunho sexual sofridos na infância e na adolescência, podem ter influência de diversos aspectos, entre eles: idade do início do abuso, sua duração (por exemplo: episódio isolado ou múltiplos – ao longo do tempo), ameaça ou gravidade da violência (em alguns casos, com risco de vida), grau de relacionamento da vítima com o agressor, diferença de idade entre a criança e o perpetrador. A futura adaptação social das vítimas varia de indivíduo para indivíduo, conforme o tipo de violência sofrida, ausência de figuras parentais protetoras e da capacidade de reação individual diante de circunstâncias que geram sofrimento.

O abuso sexual ocorrido na infância tem sido considerado como um fator de risco para ideações e/ou tentativas de suicídio; e também apresenta uma relação estreita com outros transtornos psiquiátricos, como a depressão, o estresse pós-traumático e a dependência química (uso de drogas). Além dos mencionados anteriormente, há relação do abuso sexual na infância com disfunções sexuais, transtornos de ansiedade e perturbações do sono.

As sequelas emocionais comumente relatadas compreendem: sentimentos de baixa autoestima, dificuldades de dizer não, culpa, sensação de descontentamento e/ou raiva com o próprio corpo, impressão de estar “sujo”, em alguns casos, surgem pensamentos obsessivos, como lavar- se constantemente; além disso, é frequente a dificuldade no estabelecimento de relações de confiança com outros indivíduos adultos. Também estão descritas dificuldades no desenvolvimento emocional em adultos que vivenciaram abuso sexual na infância, e, por consequência, na sua maturidade comportamental. Vários indivíduos adultos referem problemas em dar e receber afeto, alegrarem- se em ocasiões habituais da vida, além de apresentarem desinteresse por atividades recreativas e que propiciem satisfação.

Outro aspecto que merece consideração é o risco para doenças sexualmente transmissíveis, associado ao fato da imaturidade física; ou seja, pelos órgãos genitais não estarem completamente desenvolvidos, as chances de contaminação aumentam. Alguns países têm dados da relação entre abuso sexual e contaminação pelo vírus da Aids, como exemplo quase 5% das crianças infectadas na Nigéria foram contaminadas em circunstâncias que envolviam abuso sexual. No Brasil, os dados epidemiológicos sobre essa relação são escassos, apesar dos esforços empreendidos pelas autoridades nessa averiguação. Por sua vez, para outra doença sexualmente transmissível, o condiloma acuminado, verifica-se que a principal via de transmissão em crianças é em decorrência de abuso sexual; além dessa, o papiloma vírus (HPV) tem como meio de transmissão relevante essa conjuntura.

Há situações nas quais o provedor da família (geralmente o pai ou padrasto) é o perpetrador, e muitas famílias podem ficar vulneráveis na dimensão econômica com a possibilidade de se retirar essa pessoa do convívio familiar (não é incomum o acobertamento da situação de abuso sexual por parte dos familiares próximos à criança). Muito embora não seja a melhor alternativa, há circunstâncias nas quais é recomendável que a criança seja encaminhada para um local fora do ambiente familiar, como parentes próximos, casas de apoio institucionais, ou uma família adotiva; situações essas que implicarão numa ruptura e rearranjo familiar, e sem dúvida são casos que merecem assessoramento profissional especializado.

Além do que foi considerado, está descrito que há relação entre um indivíduo – na grande maioria das vezes do gênero masculino – ter sido abusado sexualmente durante a infância e ele mesmo ser um possível abusador no futuro, entretanto mais estudos são necessários para identificar as variáveis que compõem essa associação. No entanto, cada criança reagirá de forma diferenciada ao abuso sexual. Estudos que contemplem indivíduos abusadores sexuais que não tenham vivenciado essa situação durante a infância poderão contribuir para o melhor esclarecimento dessa situação, que imprime marcas indeléveis no psiquismo.

 

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

GESTÃO E CARREIRA

ELE VEM PARA MUDAR TUDO!

Conheça o trabalho do gestor de turnaround, profissional contratado para conduzir grandes projetos de transformação organizacional em empresas que passam por momentos de transição ou enfrentam dificuldades financeiras.

Ele vem para mudar tudo

Desde o começo do ano, a rotina do executivo paulistano   Frank Koji Migiyama, de 43 anos, está dividida entre Goiânia, onde ele trabalha de segunda a sexta, e São Paulo, onde passa os fins de semana e reencontra a família. Em janeiro, Frank foi contratado para assumir por dois anos, na capital goiana, a presidência de seis empresas do grupo Odilon Santos – que tem negócios em segmentos tão varia- dos como transporte público, ativos imobiliários, agronegócio e indústria alimentícia. A missão dele é sanear as finanças das companhias, que entraram com pedidos de recuperação judicial, e, assim, preservar cerca de 2 000 empregos. Frank é um gestor de turnaround, nome dado aos executivos contratados para conduzir grandes projetos de mudança da gestão. “É um trabalho que exige tomar decisões difíceis e no qual o desafio é encontrar soluções onde parece não haver solução possível”, diz ele.

Do ano passado para cá, a demanda por esse tipo de profissional tem crescido, impulsionada, principalmente, pela crise econômica – que compromete os resultados das empresas brasileiras e obriga à busca de novos mercados e modelos de negócio. Segundo dados da Serasa Experian, até junho deste ano 923 empresas entraram com pedidos de recuperação judicial – um aumento de 87,6% em relação ao mesmo período de 2017. Para efeito de comparação, em 2008, apenas 312 empresas recorreram a esse instrumento legal, que tem por objetivo evitar a falência, preservando os empregos e os interesses dos credores. Paralelamente, o cenário de dólar alto e os problemas de caixa enfrentados por algumas companhias favoreceram as fusões e aquisições. Com 210 operações realizadas, essas transações bateram recorde nos primeiros três meses do ano. Comparado com o mesmo período do ano passado, o crescimento foi de 10,5%, um quadro que também resulta em mudanças na gestão das empresas.

Seja para salvar companhias em dificuldades ou para explorar novas oportunidades de negócios, os gestores de turnaround estão no topo da lista dos profissionais mais requisitados às empresas de recrutamento executivo. “Desde 2015, dobrou a procura por presidentes e diretores financeiros com esse perfil, para reestruturações”, afirma Carlos Guilherme Nosé, do Fesap Group.

MÉTODO DE TRABALHO

Os gestores de turnaround entram em ação em momentos de transição das organizações. Podem ser períodos de crise, mas também de preparação para uma sucessão ou uma fusão, ou de mudanças na cultura ou no modelo de negócio. “Quando não se trata de empresas em dificuldades e a missão do executivo é preparar a organização para um novo momento, como um reposicionamento estratégico, o mandato do gestor de turnaround não precisa ter uma duração predeterminada”, afirma Bernardo Cavour, da Flow Executive Finders, empresa de recrutamento executivo de São Paulo. “Já no caso das empresas em quadro pré-falimentar, esse profissional é chamado a assumir o comando interinamente. Nessa situação, eles costumam ser apontados por uma consultoria especializada em turnaround”, diz Bernardo.

Este é o caso do executivo paulistano Guilherme Mota, de 42 anos, da Naxentia, empresa especializada em processos de reestruturação. Em fevereiro, ele assumiu a administração da Topack, fabricante de embalagens de Americana (SP). Com um contrato de dois anos, sua missão é recuperar os resultados da empresa, afetados pela crise econômica. “O período de dois anos dá tranquilidade para ambas as partes – para o gestor interino, que terá um prazo mínimo para desenvolver seu trabalho, e para as equipes, que veem que a nova gestão não é tão passageira”, diz Guilherme.

O trabalho desses profissionais começa com um diagnóstico, seguido de um plano de ação para alcançar as metas apontadas. “Como há um prazo predeterminado, são projetos muito intensos. O apoio dos donos da empresa – ou do Conselho – é essencial, porque, muitas vezes, é preciso administrar remédios amargos para chegar aos resultados”, afirma o presidente da Topack. Os primeiros 100 dias de trabalho, aliás, são considerados decisivos pelos gestores da mudança, principalmente quando a empresa enfrenta dificuldades ou corre risco de falir. Nesse período, é preciso entender o negócio, visualizar oportunidades, engajar as equipes na mudança e ganhar a credibilidade dos acionistas para administrar a ansiedade. “Você tem de ter disposição para trabalhar 14 horas por dia, porque tudo é para ontem”, afirma Frank Migiyama. “É preciso tomar decisões rápidas, com base em menos indicadores e lidar com uma pressão muito forte. Com pouco caixa e pouca margem de manobra, não dá para errar”, diz ele.

HISTÓRICO PROFISSIONAL

Segundo Carlos Guilherme Nosé, do Fesap Group, os executivos recrutados para esse tipo de posição devem ter experiência comprovada em projetos de gestão da mudança. “Como a expectativa é por resultados bem imediatos, não dá para apostar em profissionais não especializados”, diz ele. Em geral, esses gestores têm histórico de atuação na área financeira ou de operações, o que lhes dá uma visão holística do negócio. Em alguns casos, têm também no currículo a passagem por consultorias. Entre as competências esperadas deles estão: grande capacidade analítica, aptidão ao risco, poder de negociação, disciplina para criar e implementar processos, boa comunicação para engajar o time, resiliência para buscar soluções num cenário desanimador e grande foco nos resultados, com maior ênfase no curto prazo. “Esse profissional tem de ser 20% estrategista e 80% executor”, afirma Adilson Parrella, sócio da Caldwell Partners, empresa de recrutamento executivo. “É preciso comandar diretamente a operacionalização da estratégia, além de acompanhar os indicadores de perto, para fazer as mudanças necessárias rapidamente”, diz ele.

Quem trabalha na área destaca a necessidade de automotivação. “Você tem de ter muito controle emocional e resiliência, porque precisa mudar rapidamente o status quo num ambiente hostil, de altíssimo estresse, afinal, quando somos chamados, geralmente os resultados não vão bem. Também é preciso fazer a gestão da ansiedade dos sócios”, diz Frank Migiyama.

Para quem já está se perguntando o que atrai um profissional a se especializar nesse tipo de trabalho, a resposta costuma estar na falta de rotina e na possibilidade de fazer a diferença. “É muito dinâmico e envolve muita adrenalina”, afirma Frank. “Você vê os resultados acontecendo no curto prazo e enxerga suas decisões impactando o fechamento do mês”, afirma Guilherme Mota.  O rápido aprendizado é outro ponto alto. “Esse tipo de atividade te proporciona um aprendizado muito intenso sobre o trabalho com fundos de investimento internacionais, negociação com bancos e sobre processos de abertura de capital e de fusão e aquisição”, diz ele. O pacote de remuneração de um gestor de turnaround costuma ser maior do que o oferecido a um executivo que assume em condições normais. “Mas há uma amarração das recompensas aos resultados alcançados”, diz Bernardo Cavour, da Flow.

 PRESERVAÇÃO DA CULTURA

Os gestores de turnaround também podem ser chamados para conduzir transformações mais longas em empresas que não estão em crise. Esse foi o caso do executivo Leonardo Horta, de 40 anos, de São Paulo, contratado há sete meses para presidir a FLC Lâmpadas, adquirida por um fundo de investimentos em 2014. “O mercado de iluminação passou por uma grande transformação após a tecnologia LED, que tem aplicações tão variadas quanto a conservação de alimentos ou tratamentos de saúde”, diz Leonardo. “Minha tarefa é preparar a empresa para um negócio muito mais amplo do que lâmpadas.”

Para o executivo, que tem no currículo a mudança no modelo de negócio da calçadista Vulcabrás, companhia presidida por ele até 2015, o grande desafio de um processo de turnaround é engajar as pessoas na mudança. “E você só ganha a credibilidade dos seus parceiros sendo transparente e trabalhando junto deles”, diz Leonardo. “Tem de virar a noite com o comercial, entender o centro de distribuição, conhecer o fornecedor e visitar o cliente, o que exige disposição para abdicar um pouco da vida pessoal.” Ele alerta que o turnaround não deve destruir a cultura e os valores de uma empresa. “Não deve ser uma ruptura, mas uma transição para atitudes que trarão mais resultados.”

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QUEM SABE FAZ AO VIVO

A seguir, as principais competências esperadas de um gestor de turnaround.

CAPACIDADE ANALÍTICA

Esse profissional precisa entender rapidamente um negócio e seus problemas, para fazer um diagnóstico e elaborar um plano de ação. Também é necessário tomar decisões rápidas e assertivas, analisando poucos indicadores.

APTIDÃO AO RISCO

Quando assumem empresas que enfrentam dificuldades, esses gestores devem tomar decisões de grande impacto em pouco tempo e com poucos recursos, o que quase não lhes dá margem para erros.

PODER DE NEGOCIAÇÃO

O profissional terá de se envolver diretamente na renegociação de contratos com fornecedores e clientes.

BOA COMUNICAÇÃO

Esta habilidade é essencial para conseguir engajar o time nas mudanças propostas e, assim, possibilitar que se tornem realidade.

RESILIÊNCIA

Quando o quadro é pré-falimentar, os gestores de turnaround precisam apresentar soluções mesmo diante de um cenário muito adverso.

FOCO NOS RESULTADOS

Esses profissionais têm de dedicar a maior parte das energias a cumprir metas de curto prazo.

EQUILÍBRIO EMOCIONAL

Durante um processo de transformação organizacional, os gestores de turnaround, principalmente quando interinos, têm de lidar com a hostilidade de colegas, com o desânimo das equipes e com a ansiedade dos acionistas e conselheiros.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 43-51

Alimento diário

O Chamado de Filipe e Natanael

Aqui temos o chamado de Filipe e Natanael.

I – Filipe foi chamado imediatamente pelo próprio Cristo, não como André, que foi dirigido a Cristo por João, ou como Pedro, que foi convidado por seu irmão. Deus tem vários métodos de trazer seus escolhidos até Ele. Mas, quaisquer que sejam os meios que Ele usa, Ele não se limita a nenhum deles.

1. Filipe foi chamado de uma maneira antecipada: Jesus “achou a Filipe”. Cristo nos procurou, e nos encontrou, antes que fizéssemos quaisquer buscas por Ele. O nome Filipe é de origem grega, e muito usado entre os gentios, o que alguns interpretam como um exemplo da degeneração da igreja judaica nesta época, e sua conformidade com as nações. Mas, ainda assim, Cristo não mudou seu nome.

2. Ele foi chamado “no dia seguinte”. Veja de que maneira cuidadosa Cristo se dedica ao seu trabalho. Quando existe trabalho a ser feito para Deus, nós não devemos perder um dia sequer. Contudo, observe que Cristo agora chamava um ou dois por dia, mas depois que o Espírito foi derramado, houve milhares efetivamente chamados em um dia, quando João 14.12 se cumpriu.

3. Jesus quis ir à Galileia para chamá-lo. Cristo irá encontrar aqueles que lhe são dados, onde quer que estejam, e nenhum deles se perderá.

4. Filipe foi trazido para ser um discípulo pela virtude de Cristo, juntamente com as palavras: “Segue-me”. Veja a natureza do verdadeiro cristianismo. Ele consiste em seguir a Cristo, dedicar-se às suas palavras e à sua conduta, acompanhar seus movimentos, e seguir seus passos. Enxergar a eficácia da graça em tudo isto é a base da nossa força.

5. Nós lemos que Filipe era de Betsaida, e André e Pedro também eram, v. 44. Estes eminentes discípulos não receberam honra do lugar onde nasceram, mas refletiram honra sobre este lugar. Betsaida quer dizer “casa de redes”, porque era habitada, na sua maioria, por pescadores. Dali, Cristo escolheu discípulos, que seriam dotados com dons extraordinários, e por isto não precisavam das vantagens normais do estudo. Betsaida era um lugar iníquo (Mateus 11.21), no entanto ali havia um remanescente, de acordo com a eleição da graça.

 

II – Natanael foi convidado a ir a Cristo através de Filipe, e muito é dito a respeito dele. E aqui podemos observar:

1. O que aconteceu entre Filipe e Natanael, um episódio em que vemos uma notável mescla de zelo piedoso com fraqueza, como normalmente se encontra em iniciantes, que estão perguntando qual é o caminho para Sião. Aqui temos:

(1) As boas novas que Filipe trouxe a Natanael, v. 45. Como André anteriormente, também Filipe aqui, tendo algum conhecimento de Cristo, não descansa até que manifesta o sentimento de tal conhecimento. Filipe, em­ bora trazido recentemente ao relacionamento com Cristo, corre para procurar Natanael. Observe que quando temos a melhor oportunidade de fazer o bem às nossas próprias almas, ainda assim devemos sempre procurar oportunidades de fazer o bem às almas de outros, lembrando das palavras de Cristo: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”, Atos 20.35. Diz Filipe: “Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na Lei e de quem escreveram os Profetas”. Observe aqui:

[1] O arrebatamento de alegria em que se encontrava Filipe, depois de conhecer a Cristo: “Nós achamos aquele de quem tanto falamos, a quem tanto esperamos, e que tanto desejamos. Por fim, Ele está aqui, Ele veio, e nós o achamos!”

[2] Que vantagem representava, para ele, o fato de que ele conhecesse tão bem as Escrituras do Antigo Testamento, que prepararam sua mente para receber a luz do Evangelho, e fizeram sua apresentação mais fácil: “Aquele de quem Moisés escreveu na Lei e de quem escreveram os Profetas”. Aquilo que estava escrito inteiramente, e desde a eternidade, no livro dos conselhos divinos, foi, em parte, em diferentes épocas e ele diversas maneiras, copiado no livro das revelações divinas. Coisas gloriosas foram escritas ali a respeito da Semente da mulher, da Semente de Abraão, de Siló, do Profeta semelhante a Moisés, do Filho de Davi, do Emanuel, do Filho do Homem, do Renovo, do Messias, do Príncipe. Filipe tinha estudado estas coisas, e as conhecia muito bem, o que o preparou para receber a Cristo.

[3] Os enganos e falhas que ele cultivava: ele chamou a Cristo de “Jesus de Nazaré”, quando Ele era de Belém; e de “filho de José”, quando Ele era somente seu suposto filho. Os jovens iniciantes na fé estão sujeitos a enganos, que o tempo e a graça de Deus irão retificar. Foi falha sua dizer: “Nós o achamos”, pois Cristo os achou antes que eles o achassem. Ele ainda não tinha compreendido como fora preso por Cristo Jesus, coisa que Paulo sabia, Filipenses 3.12.

(2)  A objeção que Natanael fez contra isto: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (v. 46). Aqui:

[1] Sua precaução era elogiável, pois ele não aceitava ligeiramente tudo o que era dito, mas examinava. Nossa regra deve ser: “Examinai tudo”. Mas:

[2] Sua objeção originou-se na ignorância. Se ele queria dizer que nada bom podia vir de Nazaré, isto se devia à sua ignorância sobre a graça divina, como se ela influenciasse menos um lugar do que outro, ou se prendes se às observações tolas e de más intenções dos homens. Se ele queria dizer que o Messias, esta grande bênção, não poderia vir de Nazaré, até aí, ele estava certo (Moisés, na Lei, disse que o Messias viria de Judá, e os profetas tinham apontado Belém como o lugar do seu nascimento). Mas então ele seria ignorante quanto à verdade de que este Jesus tinha nascido em Belém, de modo que o erro que Filipe cometeu, ao chamá-lo de Jesus de Nazaré, ocasionou esta objeção. Observe que os enganos dos pregadores frequentemente dão origem aos preconceitos elos ouvintes.

(3)  A curta resposta que Filipe deu a esta objeção: “Vem e vê”.

[1] O fato de que Filipe não pudesse dar uma resposta satisfatória à objeção foi uma falha sua, mas este é o caso comum dos novos convertidos. Nós podemos saber o suficiente para satisfazer a nós mesmos, e ainda assim não conseguir dizer o suficiente para silenciar as críticas de um adversário sutil.

[2] Por não poder responder pessoalmente à objeção, ele o fez ir procurar aquele que poderia fazê-lo: “Vem e vê”. Não fiquemos discutindo aqui, e criando dificuldades que não conseguiremos superar. Vamos, e conversemos com o próprio Cristo, e estas dificuldades irã o desaparecer imediatamente. Observe que é tolice perder tempo em discussões duvidosas, quando este tempo poderia ser mais bem gasto, e com um objetivo muito melhor, no exercício de piedade e devoção. “Vem e vê”. Não: “Vá e veja”, mas: “Venha, e eu irei com você”, como Isaías 2.3; Jeremias 1.5. Neste diálogo entre Filipe e Natanael, podemos observar, em primeiro lugar, que muitas pessoas ficam afastadas dos caminhos do Senhor pelos preconceitos irracionais que criaram contra a religião, com base em alguma circunstância estranha que não vem, de forma nenhuma, ao caso. Em segundo lugar, que a melhor maneira de eliminar os preconceitos que criamos contra o Evangelho é prová-los, e colocá-los à prova. Não devemos responder sobre algum assunto antes de ouvir sobre ele.

2. O que aconteceu entre Natanael e nosso Senhor Jesus. Ele veio e viu, e isto não foi em vão.

(1) Nosso Senhor Jesus deu um testemunho muito honroso à integridade de Natanael: “Jesus viu Natanael” vir, e o recebeu com um incentivo favorável. Ele disse, sobre Natanael, àqueles que estavam ao seu lado, com o próprio Natanael entre os ouvintes: “Eis aqui um verdadeiro israelita”. Observe:

[1] Que Ele o elogiou. Não para adulá-lo, nem inflá-lo com um bom conceito de si mesmo, mas talvez porque soubesse que Natanael era um homem modesto, senão melancólico, alguém que tinha uma ideia severa e humilde a respeito de si mesmo, e estava pronto a duvidar da sua própria sinceridade. E Cristo, com este testemunho, deixa a questão fora de dúvida. Natanael tinha, mais do que qualquer dos candidatos, objetado contra Cristo. Mas Cristo, aqui, mostrou que Ele perdoava isto, e não era necessário apontar o que ele tinha dito indevidamente, porque Ele sabia que seu coração era justo. O Senhor não questionou Natanael, perguntado: “Pode vir alguma coisa boa de Caná (cap. 21.2), uma obscura cidade da Galileia?” Mas o Senhor, gentilmente, lhe aceita, para nos incentivar a ter esperanças quanto à sua aceitação, apesar das nossas falhas. O Senhor também nos ensina a falar de maneira honrosa daqueles que, sem motivo, falaram sobre nós com desprezo. Se estes merecerem algum tipo de elogio em alguma coisa, devemos lhes dar seu justo louvor.

[3] Que Ele o elogiou pela sua integridade. Em primeiro lugar: “Eis aqui um verdadeiro israelita”. É prerrogativa de Cristo conhecer como são os homens verdadeiramente. Nós podemos apenas esperar pelo melhor. Toda a nação era de israelitas, de nome, mas “nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9.6). Aqui, no entanto, havia um verdadeiro israelita.

3. Um sincero seguidor do bom exemplo de Israel, cujo caráter era o de um homem sincero, em oposição ao caráter de Esaú, um homem astuto. Ele era um filho autêntico do honesto Jacó, não somente da sua semente, mas também do seu espírito.

4. Uma pessoa que professava sinceramente a fé de Israel. Ele era fiel à religião que professava, e estava à altura dela. Ele era realmente tão bom quanto parecia, e sua prática era da mesma espécie que sua profissão. Só é judeu aquele que o é interiormente (Romanos 2.29), e o mesmo é verdade em relação ao cristão. Em segundo lugar, ele é alguém em quem “não há dolo”. Este é o caráter de um verdadeiro israelita, um verdadeiro cristão: não há dolo para com os homens; um homem sem truques ou ardis; um homem em quem se pode confiar; não há dolo para com Deus, isto é, sincero no seu arrependimento pelo pecado; sincero no seu concerto com Deus; em cujo espírito “não há engano”, Salmos 32.2. Ele não diz sem culpa, mas sem dolo. Embora, em muitas coisas, ele seja tolo e negligente, ainda assim, em nada é falso, nem se afasta de Deus com más intenções; não existe nele nenhuma culpa, aprovada ou permitida; não se disfarça, embora tenha suas manchas: “Eis aqui um verdadeiro israelita”.

1. “Prestem atenção a ele, para que possam aprender seu jeito, e agir como ele”.

2. ”Admirem-no. Olhem para ele, e admirem-no”. A hipocrisia dos escribas e fariseus tinha influenciado tanto a igreja e a nação judaica, e sua religião estava tão degenerada em formalidades e políticas de estado, que um verdadeiro israelita era um homem admirado, um milagre da graça divina, como Jó (J ó 1.8).

(2) Natanael fica muito surpreendido com isto, levando Cristo a lhe dar uma nova prova da sua onisciência, e uma lembrança gentil da sua devoção anterior.

[1) Aqui está a humildade de Natanael, que ele deixa escapar face à observação gentil que Cristo tinha prazer em fazer dele: “De onde me conheces tu, a mim, que não mereço que me conheça? Quem sou eu, Senhor Jeová?” (2 Samuel 7.18). O fato dele não receber imediatamente o elogio feito pelo Senhor era uma evidência da sua sinceridade. Cristo nos conhece melhor do que nós mesmos nos conhecemos. Nós não sabemos o que há no coração de um homem, ao olharmos para seu rosto, mas todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos de Cristo, Hebreus 4.12,13. Cristo nos conhece? Claro que sim! Então, desejemos conhecê-lo.

[2] Aqui está a manifestação adicional de Cristo a Natanael: ”Antes que Filipe te chamasse, te vi eu”. Em primeiro lugar, Ele o faz compreender que o conhecia, e assim manifesta sua divindade. É prerrogativa de Deus conhecer infalivelmente todas as pessoas e todas as coisas. Desta maneira, Cristo provou ser Deus em várias ocasiões. Havia uma profecia a respeito do Messias, de que Ele teria o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor, isto é, julgaria a sinceridade e o grau de temor a Deus das pessoas, e de que Ele não julgaria segundo aquilo que seus olhos vissem, Isaías 11.2,3. Aqui, Ele cumpre esta predição. Veja 2 Timóteo 2.19. Em segundo lugar, antes que Filipe o chamasse, Cristo o viu, debaixo da figueira. Isto manifesta uma gentileza particular para com ele.

1. O olhar do Senhor já se dirigia a Natanael antes mesmo que Filipe o chamasse, antes que Natanael estivesse com Cristo pela primeira vez. Cristo nos conhece completamente, antes mesmo que tenhamos qualquer conhecimento a respeito dele. Veja Isaías 45.4; Gálatas 4.9.

2. Os olhos do Senhor estavam sobre Natanael quando ele estava debaixo da figueira. Este foi um sinal pessoal e particular·, que ninguém compreendeu, exceto Natanael: “Quando você estava afastado, debaixo da figueira do seu jardim, e pensava que ninguém podia vê-lo, Eu, então, dirigi meus olhos a você, e vi algo que era muito aceitável”. É muito provável que Natanael, debaixo da figueira, estivesse como Isaque no campo, em meditação, e oração, e comunhão com Deus. Talvez ali, naquele momento, ele tivesse se unido solenemente ao Senhor, em um concerto inviolável. Cristo viu secretamente, e, pela sua observação pública deste fato, o recompensou parcialmente e abertamente. Estar debaixo da figueira indica tranquilidade e paz de espírito, o que combina muito bem com a comunhão com Deus. Veja Miquéias 4.4; Zacarias 3.10. Natanael, aqui, era um verdadeiro israelita, que, como Israel, lutava com Deus sozinho (Genesis 32.24), não orava como os hipócritas, nas esquinas das ruas, mas debaixo de uma figueira.

(3) Com isto, Natanael teve sua fé em Jesus Cristo completamente assegurada, e ela foi expressa nesta nobre declaração (v. 49): “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. Isto é, em resumo: “Tu és o verdadeiro Messias”. Observe aqui:

[1] Com que firmeza ele creu com o coração. Embora ele tivesse, recentemente, cultivado alguns preconceitos a respeito de Cristo, agora todos eles tinham sido dissipados. Observe que graça de Deus, ao operar na fé, destrói fantasias. Agora, ele já não pergunta: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” Pois ele crê que Jesus de Nazaré é o bem supremo, e o aceita adequadamente.

[2] Com que liberdade ele confessou com a boca. Sua confissão é feita sob a forma de uma oração, dirigida ao próprio Senhor Jesus, o que é uma maneira adequada de confessar nossa fé. Em primeiro lugar, ele confessa a obra profética de Cristo, ao chamá-lo de rabi, um título que os judeus normalmente davam aos seus mestres. Cristo é o grande rabi, a cujos pés todos nós devemos ser criados. Em segundo lugar, Natanael confessa a natureza e missão divina de Jesus, ao chamá-lo de Filho de Deus (aquele Filho de Deus mencionado em Salmos 2.7). Embora Ele tivesse forma e aspecto humanos, ainda assim, por ter um conhecimento divino, o conhecimento do coração e de coisas distantes e secretas, Natanael, consequentemente, conclui que Ele é o Filho de Deus. Em terceiro lugar, ele confessa: “‘Tu és o Rei de Israel’, aquele Rei de Israel que esperamos por tanto tempo”. Se Ele é o Filho de Deus, Ele é o Rei do Israel de Deus. Quando tão prontamente reconhece e se submete ao Rei de Israel, Natanael prova ser um verdadeiro israelita.

(4) Aqui, Cristo aumenta as esperanças e expectativas que Natanael nutria, de que houvesse algo maior em tudo isto, vv. 50,51. Cristo é muito afetuoso com os novos convertidos, e encorajará os bons inícios, mesmo que frágeis, Mateus 12.20.

[1] Ele aqui anuncia sua aceitação, e (aparentemente) sua admiração pela fé disposta de Natanael: “Porque te disse: vi-te debaixo da figueira, crês?” Ele admira-se de que uma tão pequena indicação do conhecimento divino de Cristo tivesse tal efeito. Isto era um sinal de que o coração de Natanael estava preparado de antemão, caso contrário a obra não teria se realizado tão rapidamente. Observe que é uma honra tanto a Cristo corno à sua graça, quando o coração se rende a Ele na primeira convocação.

[2] Ele promete a Natanael auxílios muito maiores, para a confirmação e aumento da sua fé, do que ele tinha tido no início.

Em primeiro lugar, em geral: “Coisas maiores do que estas verás, maiores provas de que Eu sou o Messias”. Os milagres de Cristo e sua ressurreição. Observe:

1. A qualquer que tiver; e fizer bom uso do que tem, ser-lhe-á dado.

2. Aqueles que verdadeiramente creem no Evangelho, descobrirão que suas evidências crescem continuamente, e verão cada vez mais motivos para crer nele.

3. Quaisquer que sejam as revelações que Cristo se agrade de fazer a seu respeito ao seu povo, enquanto ainda está neste mundo, Ele tem ainda maiores coisas que estas para lhes dar a conhecei; uma glória ainda maior a ser revelada.

Em segundo lugar, em particular: “Não somente você, mas vocês, todos vocês, meus discípulos, para a confirmação de cuja fé isto se destina, verão o céu aberto”. Isto é mais do que dizer a Natanael que ele estava debaixo da figueira. Isto é introduzido com um solene prefácio: “Na verdade, na verdade vos digo”, que exige tanto uma atenção fixa ao que é dito, como sendo algo de muita importância, quanto uma completa aceitação disto, como sendo uma verdade indubitável: “Eu digo isto, e nestas palavras vocês podem confiar, amém, amém”. Ninguém usou estas palavras no início de uma frase, a não ser Cristo, embora os judeus frequentemente as usassem no final de uma oração, e, às vezes, as duplicassem. É uma declaração solene. Cristo é chamado o ”Amém” (Apocalipse 3.15), e alguns assim interpretam aqui: “Eu, o Amém, digo isto a vocês. Eu, a testemunha fiel”. Observe que as certezas que temos da glória a ser revelada são edificadas sobre a palavra de Cristo. Agora veja o que é que Cristo assegura a eles: “Daqui em diante”, ou dentro de pouco tempo, ou antes que passe muito tempo, ou de agora em diante, “vereis o céu aberto”.

1. O título que Cristo aplica a si mesmo aqui é humilde: “O Filho do homem”. Um título frequentemente aplicado a Ele nos Evangelhos, mas sempre por si mesmo. Natanael o tinha chamado de Filho de Deus e Rei de Israel. Ele se chama de Filho do homem:

(a) Para expressar sua humildade em meio às honras que lhe são prestadas.

(b) Para ensinar sua humanidade, em que devemos crer tanto quanto na sua divindade.

(c) Para indicar seu atual estado de humilhação, para que Natanael não esperasse que este Rei de Israel aparecesse em pompa exterior:

2. Ele prediz grandes coisas aqui: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do Homem”.

(a) Alguns interpretam estas palavras literalmente, como indicando algum evento em particular. Ou:

[a] Houve alguma visão da glória de Cristo, na qual isto se cumpriu com exatidão, do que Natanael foi uma testemunha ocular, como Pedro, e Tiago, e João foram da sua transfiguração. Houve muitas coisas que Cristo fez, e em presença dos seus discípulos, que não foram escritas (cap. 20.30), e por que não esta? Ou:

[b] Isto se cumpriu nas muitas assistências dos anjos ao nosso Senhor Jesus, especialmente na sua ascensão, quando o céu se abriu para recebê-lo, e os anjos subiram e desceram, para auxiliá-lo e honrá-lo, e isto, à vista dos discípulos. A ascensão de Cristo foi a maior prova da sua missão, e confirmou enormemente a fé dos discípulos, cap. 6.62. Ou:

[c] Pode se referir à segunda vinda de Cristo, para julgar o mundo, quando o céu se abrirá, e todo olho o verá, e os anjos de Deus subirão e descerão ao seu redor, servindo-o. Todos estarão ocupados, e este será um dia trabalhoso. Veja 2 Tessalonicenses 1.10.

(b) Outros interpretam isto de modo figurado, como falando de uma condição, ou de uma série de coisas que teriam início daqui por diante. E assim podemos interpretar que se refira, ou:

[a] Aos milagres de Cristo. Natanael creu, porque Cristo, como os profetas da Antiguidade, pôde dizer-lhe coisas secretas. Mas o que é isto? Cristo agora está dando início a uma dispensação de milagres, muito mais grandiosa e maravilhosa do que esta, como se o céu estivesse aberto, e tal poder será exercido pelo Filho do homem, como se os anjos, que excedem em virtude, estivessem continuamente obedecendo suas ordens. Imediatamente depois disto, Cristo começou a realizar milagres, cap. 2.11. Ou:

[b] À sua mediação, e àquela bendita relação que Ele estabeleceu entre o céu e a terra, em cujo mistério seus discípulos seriam admitidos gradualmente. Em primeiro lugar, por intermédio de Cristo, como Mediador, eles verão o céu aberto. Todos nós agora podemos entrar no santuário pelo seu sangue (Hebreus 10.19,20). O céu está aberto, para que, pela fé, possamos olhar para seu interior; e, por fim, possamos entrar; para que possamos, agora, contemplar a glória do Senhor, e, daqui por diante, possamos entrar no gozo do nosso Senhor: E, em segundo lugar, eles verão anjos subindo e descendo sobre o Filho do homem. Por intermédio de Cristo, nós temos comunhão com os santos anjos, e nos beneficiamos deste fato. E assim, as coisas no céu e na terra são reconciliadas e reunidas. Cristo é, para nós, como a escada de Jacó (Genesis 28.12), pois é por Ele que os anjos continuamente sobem e descem para o bem dos santos.