VOCACIONADOS

Por se tratar de uma data onde a sociedade é despertada para um assunto que diz respeito à todos, vitimas ou não, segue artigo em comemoração aos 12 anos da LEI MARIA DA PENHA…Que possamos ler e entender quão grande mal problemas como estes nos afetam ética, moral, emocional e psicologicamente.

Abuso emocional, físico e sexual

ABUSO EMOCIONAL, FÍSICO E SEXUAL

As variadas formas de violência, muitas vezes praticadas por pessoas afetivamente próximas das vítimas, deixam marcas não só no corpo, mas também no psiquismo e podem culminar em desfechos fatais. Mulheres e crianças são as principais afetadas.

 UMA HISTÓRIA COMO TANTAS OUTRAS

A tragédia familiar protagonizada por Débora, Pedro e os quatro filhos culminou com o assassinato da mulher cometido pelo marido na frente das crianças. Infelizmente, o caso se confunde com tantos outros semelhantes, com desfechos que também deixam marcas de profundo sofrimento.

Durante as primeiras horas de uma manhã de setembro de 2007, Pedro, de 42 anos, invade a sua casa em um condomínio de classe média alta, armado com uma grande faca de cozinha. Ele tentou entrar pela garagem, mas o sensor não respondeu ao seu comando. Em seguida, forçou a porta da frente, mas a fechadura havia sido mudada. Então, pegou uma cadeira do deck e a atirou através de uma janela da cozinha. Assim que ouviu o barulho do vidro se estilhaçando, sua mulher, Débora, chamou a polícia e disse que o marido tinha entrado à força em sua casa. Ela mandou dois filhos, de 4 e 9 anos, que estavam dormindo em sua cama, permanecerem deitados. Pegou um taco de golfe e correu pelo corredor passando pelos quartos dos outros dois, um menino de 10 e uma garota de 7. E deu de cara com Pedro na escada. Virou-se e correu de volta para seu quarto, batendo a porta, mas ele a alcançou. Com a faca em punho, Pedro se aproximou de Débora e a esfaqueou no estômago. A mulher caiu sobre a cama. Enquanto gritavam e o chutavam, as crianças imploravam: “Pare! Pare!”. Até o cachorro tentou mordê-lo. Débora rolou para o chão, ainda respirando e ele de novo a esfaqueou repetidamente – sete vezes, segundo os jornais. Pedro, então, tapou o nariz e a boca da mulher até que não se movesse mais. Na sequência, se deitou ao lado do corpo de sua vítima e esperou a polícia chegar. “Por quê, papai?”, as crianças indagavam aos prantos. O doutor em sociologia Michael S. Kimmel, pesquisador da Universidade Stony Brook, escreveu: “O tipo de violência mais sistemático, persistente e danoso (…) é esmagadoramente perpetuado por homens (…) em mais de 90% dos casos”. Como tantas mulheres, Débora foi vítima de uma brutalidade implacável. Nem privilégios econômicos poderiam protegê-la das forças psicológicas e sociais que colaboraram com o comportamento do marido.

“VOCÊ É TÃO ESTÚPIDA!”

Débora conheceu Pedro, três anos mais velho que ela, ainda na adolescência. Ambos frequentavam os mesmos círculos sociais. Extremamente inteligente, ele foi um excelente aluno na faculdade. Era do tipo que dizia conhecer tudo e não aceitava a opinião de ninguém, o que não o ajudou a construir laços de amizade. A mãe de Débora recorda-se de Pedro como um garoto religioso e estudante promissor. Débora era extrovertida, amava os animais e tinha muitos amigos, mas não era a melhor aluna. A autoconfiança e o intelecto de Pedro a atraíam. Ele foi seu primeiro namorado, quando ela tinha 16 anos. Ele controlava o relacionamento. Tinha opinião formada sobre praticamente tudo e ditava como deveriam ser a maquiagem e os cabelos da namorada. Extremamente ciumento, não permitia sequer que ela tivesse encontros sociais sem que ele estivesse por perto, mesmo com a própria família. Com o tempo, os amigos se cansaram desse comportamento possessivo e aos poucos foram se afastando dela. Por diversas vezes, o modo de agir de Pedro fazia sua parceira se questionar se queria levar a relação adiante. Nesses momentos, porém, ele sabia ser bondoso e compassivo – e ela reconsiderava. Débora se convencia de que ele era apenas superprotetor e queria o melhor para ela. “Como poderia ser diferente? Ele me ama tanto”, costumava dizer. De fato, as ações de Pedro podem ter atraído Débora de uma maneira perversa. Desde os anos 80, especialistas reconhecem a síndrome de Estocolmo, em que ligações emocionais profundas se desenvolvem a partir de duas características do relacionamento abusivo: desequilíbrio de poder e mudanças imprevisíveis entre cuidado e intenção criminosa (explícita ou não). Nessa dinâmica, a vítima se esforça cada vez mais para fazer feliz seu agressor, na esperança de ganhar um pouco de afeto, mas é acusada de causar problemas. E se sente responsável por corrigi-los. Gradualmente, esse tipo de relacionamento se torna um padrão e começa a parecer aceitável. Os laços se fortificam entre agressor e vítima. Para fortalecer os vínculos, Pedro defendia suas ações com declarações de amor, insistindo que tinha as melhores intenções. Ele não se cansava de dizer à mulher que estava em sua vida para ajudá-la a se tornar uma pessoa melhor. E frisava que, sem ele, ela não chegaria a lugar algum. A verdade é que esse tratamento tóxico não é motivado pelo amor, mas pela insegurança e necessidade de poder e controle. “Esse tipo de homem se sente seguro apenas com pessoas com baixa autoestima”, diz o psiquiatra Rahn Kennedy Bailey, da Escola Médica Meharry, especialista no tratamento de vítimas de violência intrafamiliar. As tentativas de Pedro de isolar Débora de seus amigos e de sua família foram decisivas para deixá-la mais insegura. Comentários humilhantes são outro meio comum de controla a parceira e consolidar o poder. E Pedro dizia constantemente que Débora não passava de uma mulher “estúpida e sem cérebro”. (Mais tarde, quando o segundo filho nasceu, ele começou a chamá-la de “bunda gorda”.) Depois do ensino médio, o casal viveu em um pequeno apartamento, propriedade da família de Pedro. Enquanto ele estudava engenharia civil, Débora decidiu arrumar um trabalho. Depois de se formar, Pedro resolveu fazer pós-graduação. Foi aceito na Escola de Negócios Harvard, uma conquista que o ajudou a convencer a jovem de que teriam um futuro maravilhoso. Eles se casaram em junho de 1983 e se mudaram para Boston. Na época, Pedro decidiu se concentrar nos estudos. Deb, então, resolveu arrumar um emprego como secretária, que ficava a 16 quilômetros de casa. Ele comprou um carro para dirigir por menos de 5 quilômetros até a escola e deu a ela uma bicicleta para chegar ao trabalho. Com sol ou chuva, ela pedalava. E tinha de entregar seu pagamento a ele. Quando a família fazia algum questionamento, Débora respondia: “Ele está focado em fazer o melhor para a nossa família; tenho de apoiá-lo”. “Ele dava ordens a ela constantemente; suspeito de que ela obedecia para evitar sua ira”, relembra Darlene, irmã de Débora. Quando soube que a cunhada desaprovava essa situação, Pedro dizia que ela tinha ciúme da felicidade do casal e tentava prejudicar o relacionamento. Depois que ele terminou os estudos, ambos se mudaram para Nova York. Débora queria ser chef de cozinha e começou a ter aulas em uma escola de culinária local. E Pedro conseguiu seu primeiro emprego no setor bancário. Embora ele não gostasse de que a esposa estudasse, em algumas ocasiões oferecia alguma ajuda. Sua irmã estava feliz ao vê-la circular com mais liberdade, mas permanecia cautelosa em relação ao cunhado. Uma noite, quando Darlene e seu marido foram visitar o casal, viram Pedro dar um tapa no rosto da esposa por ela não compreender uma ordem. “Você é tão estúpida!”, ele gritou aborrecido. Profundamente abalada, Darlene chamou-a para outra sala, e, durante a conversa, Débora admitiu que não era a primeira vez que apanhava.

Darlene se recorda de que as agressões físicas e emocionais tinham começado a deteriorar a relação do casal. Os novos amigos na escola de culinária ajudaram Débora a perceber que aquilo não era saudável. Ela sabia também que, apesar de Pedro bancar financeiramente as aulas, ele estava no controle e não permitiria que ela de fato se tornasse chef. Além disso, tinham uma divergência fundamental: o marido não queria filhos, mas ela decidiu engravidar. Ele, então, disse à esposa que deveria conhecer outra pessoa para ter uma família. Ela deixou sua casa e foi morar com uma amiga. A separação, porém, não durou um mês. Pedro dizia a Débora que não conseguiria viver sem ela e concordou em ser pai.

NINGUÉM ESTÁ A SALVO

Pedro conseguiu uma promoção importante e o casal comprou uma casa espaçosa e um bom carro. Em 1998, já tinham quatro filhos. Débora estava bastante envolvida com os pequenos e sua formação escolar. Nos fins de semana, Pedro levava os mais velhos para jogar futebol. Por trás da aparência de uma vida comum, porém, o marido continuava com os abusos. Apesar de Débora ser a responsável por administrar a rotina da família, Pedro inventou maneiras inteligentes de controlar sutilmente a mulher, geralmente por meio das finanças. Ele deixava pouco dinheiro, que, muitas vezes, não era suficiente para cobrir as despesas. Não era incomum Deb bater na porta da sua vizinha, Elen, para pedir emprestado dinheiro para comprar leite ou outros produtos essenciais para os filhos. Pedro monitorava os gastos minuciosamente. Para evitar conflitos, quando comprava roupas ou brinquedos para as crianças, Débora costumava pedir à irmã que dissesse que eram seus presentes. O marido ficaria furioso se soubesse que ela havia gastado com esses itens. Débora contou a Elen que certa vez ele tirou, sem nenhum remorso, os alimentos preferidos da lancheira das crianças e insistiu que ela devolvesse porque acreditava que eram muito caros, mesmo vendo os pequenos chorando. No entanto, o patrimônio, como carros e casa, foi colocado no nome de Pedro, claro.

Como não queria gastar dinheiro para manter os gramados da casa, o engenheiro comprou um pequeno trator para a esposa. Os vizinhos assistiam Deb capinar e cortar a vasta extensão de grama toda semana. Às vezes, ela pedia ao marido de Elen para ajudá-la a mover os pesados móveis do quintal, como mesas, cadeiras e a cama elástica das crianças, que pesava 70 kg. Quando lhe perguntavam o porquê de não contratar alguém, ela respondia com um sorriso: “Eu não me importo”.

Pedro controlava também o que a família deveria assistir na televisão. Segundo ele, “famílias reprováveis”, com nível socioeconômico baixo, poderiam levar a mulher e as crianças a se acostumar com hábitos inconvenientes. Alegando razões semelhantes, ele tentou se certificar de que seus filhos mantivessem contato apenas com outras crianças da mesma classe social e de nível educacional semelhante.

A estabilidade financeira entre casais pode estar associada com menor violência doméstica. A pobreza, por sua vez, pode ser um fator de risco. Maior nível socioeconômico e educacional pode ajudar a protegeras mulheres de agressões intrafamiliares, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que pesquisou recentemente 19.517 mil voluntárias, de dez países, envolvidas numa relação amorosa. Em outro estudo com casais americanos, uma equipe liderada pela epidemiologista Carol B. Cunradi, do Instituto Pacífico para Pesquisa e Avaliação, constatou que, entre todos os fatores investigados, a baixa renda familiar anual foi um importante preditor de agressão praticada pelo companheiro.

No entanto, é preciso reconhecer que o fenômeno atinge todas as classes sociais. Já atendi aproximadamente mil vítimas desse tipo de violência, tanto por meio de organizações sem fins lucrativos, como em meu consultório particular. A maioria das minhas clientes é mulher, branca e com bom nível de escolaridade. Em minha experiência, entendo que as vítimas com mais recursos financeiros tendem a recorrer a terapeutas privados – e ficam fora das estatísticas. A verdade, porém, é que qualquer uma pode sofrer esse tipo de violência. Ninguém está a salvo.

“POR QUE VOCÊ FICA?”

Ninguém ouvia gritos na casa de Débora e Pedro. Ele usava belos ternos, mostrava-se ser calmo e educado. Os vizinhos o consideravam reservado, mas agradável, embora não fizesse amizades. Moradores do condomínio costumavam se reunir às sextas, nas noites de pizza da casa de Elen, e o casal nunca ia. Às vezes, Deb passava rapidamente, mas logo dizia que precisava voltar. Assim como Elen, outra vizinha, Fran, fez amizade com Débora e também começou a notar comportamentos estranhos. Se as crianças entupissem o vaso sanitário com um brinquedo ou quebrassem uma janela com a bola de beisebol, por exemplo, ela pedia desesperadamente que o marido de Fran consertasse o problema antes que Pedro chegasse do trabalho. Não foram raras as vezes em que, no final da tarde, Débora suplicava a Elen que cuidasse de seus filhos enquanto ela corria para trocar de roupa e se maquiar porque Pedro esperava encontrá-la com boa aparência quando voltasse. Ela pedia também frequentemente à vizinha que deixasse colocar o lixo em sua cesta porque o marido o revirava tentando encontrar evidências de compras para repreendê-la.

Esses pedidos incomuns chamavam atenção dos vizinhos. Muitos acreditavam que ela era simplesmente estranha ou que tinha uma vida conturbada. Deb imaginava que as pessoas faziam esses comentários e temia que o assunto chegasse aos ouvidos do marido, o que poderia fazê-lo isolar ainda mais a família. Ela tinha medo também de que a verdade viesse à tona e sofressem ainda mais com o ostracismo. No entanto, aos poucos, Débora começou a fazer algumas revelações. Em três ou quatro ocasiões, confessou usar mangas compridas para cobrir hematomas nos braços provocados, já que Pedro costumava agarrá-la com força. No início, Elen e Fran achavam que era exagero. Elas não conseguiam imaginar o engenheiro como um homem violento. Mas os relatos de Deb se tornavam cada vez mais assustadores. Durante uma conversa, ela disse às vizinhas que ele a havia jogado no chão e batido sua cabeça repetidas vezes. Ele só parou quando viu geleia esparramada no azulejo e achou que fosse sangue. “Pedro vai acabar me matando”, disse. Elen e Fran perguntavam: “Por que você fica?”. Muitas de minhas clientes chegam a essa pergunta. Sair da relação pode parecer uma escolha óbvia – se a história não é com você. Considere ter de deixar seu parceiro hoje.  Para onde você iria? Agora, imagine que não tem acesso ao dinheiro da família nem renda própria. Muitas vítimas de violência intrafamiliar são tão controladas financeiramente que somente a ideia de terminar a relação – o que pode implicar mudar os filhos da escola e de casa – é suficiente para causar enorme angústia.

Grande parte das mulheres se sente responsável por manter a família unida. Se isso falha, independentemente do motivo, não raro, a culpa recai sobre elas. Como resultado, muitas decidem permanecer enquanto tentam descobrir um jeito de melhorar a situação. Principalmente quando sofrem abuso emocional, mas não passam por agressões físicas. Nesses casos, muitas vítimas não encaram a situação como uma violência, mas acreditam que precisam se esforçar mais no casamento.

Os filhos também podem ser usados como armas. Quando discutiam, Pedro costumava dizer que, se ela o deixasse, ele levaria as crianças, e Deb jamais os veria novamente. Ela não tinha nenhuma razão para duvidar. Pedro tinha poder e sempre cumpria suas ameaças. Além de todos esses obstáculos e pressões, ainda há uma terrível dificuldade para uma mulher na posição de Débora: se ela deixa o lar, o marido se torna mais perigoso do que nunca. Nesses casos, a resposta é a agressão. “O uso da violência indica não uma experiência em que há domínio da situação, mas de perda de controle”, escreve Kimmel. Ele destaca três antecedentes: ciúme sexual; a percepção de que a mulher não executou uma tarefa doméstica como ele gostaria em relação à limpeza ou à preparação de refeições; ou sensação de que ela desafia sua autoridade em questões financeiras. “Trata-se de indicadores da quebra de expectativa de dominação e controle masculino”, afirma Kimmel. Quando uma mulher deixa esse tipo de parceiro, ele rapidamente perde o controle sobre ela. E o risco de violência sobe. A probabilidade de uma mulher ser assassinada aumenta significativamente quando ela tenta se afastar, segundo dados recentes da OMS. Por essa razão, muitas de minhas clientes têm mais medo de viver sem o marido do que com ele.

EXATAMENTE 14 DIAS

Elen, Fran e Darlene estavam preocupadas com o que observavam. “Depois de anos de convivência, percebemos que Débora sofria abuso e violência física e que estava com muito medo, mas não sabíamos o que fazer”, relata Fran. “Ela estava tão triste e aflita, mas insistia em dizer que temia que ele levasse seus filhos e que nunca mais os visse.

”Apesar das preocupações, ninguém se atrevia a dizer as palavras “violência doméstica”. Não havia registros de agressões intrafamiliares no condomínio e os moradores tinham a impressão de viver numa espécie de redoma. Mas será que Débora sabia que era uma vítima? Mesmo depois de terem sido fisicamente agredidas, muitas mulheres não acreditam que sofrem violência doméstica. Não raro, enxergam o parceiro apenas como insensível, egoísta ou talvez um canalha. A maioria não considera ter passado por uma ofensa grave, principalmente de alguém que conhece há tanto tempo.

Débora, Pedro e as crianças tinham momentos agradáveis, claro. Ela se mostrava feliz nos fins de semana de passeio e em alguns dias “mais tranquilos”. Mas escondia uma profunda tristeza e se tornava cada vez mais debilitada por enxaquecas graves e frequentes, certamente uma resposta somática para a dor emocional. Enquanto isso, as tarefas de Deb se acumulavam. Ela não cuidava somente do interior da casa e do gramado. Se um degrau do lado de fora quebrasse, por exemplo, ela deveria consertar. Nas manhãs de inverno, costumava se levantar cedo para limpar e aquecer o carro de Pedro antes que ele usasse. Ela lavava e passava a roupa dele com equipamento profissional que o marido comprou, porque ele se recusava a pagar por um serviço de limpeza a seco. Ainda mais perturbador: a mulher dizia a Darlene que tinha de agradá-lo sexualmente, mesmo que estivesse doente ou simplesmente exausta. Era mais fácil não resistir ou seria fortemente repreendida. Ela ainda tentou a psicoterapia de casal, na esperança de obter a confirmação de que o comportamento de Pedro não era saudável. O que ela não sabia é que, em caso de violência doméstica perpetrada pelo companheiro, essa abordagem não costuma ser adequada. O agressor provavelmente irá punir a vítima se ela revelar muitos fatos sobre o casamento, porque isso causa um desequilíbrio de poder. Nessas situações, costuma ser mais adequado o atendimento individual para ambos.

Em momento algum Deb procurou um serviço de proteção contra violência doméstica. Muitas mulheres de classe média alta não consideram esse tipo de ajuda porque acreditam que seja para pessoas de baixa renda que não podem pagar terapeutas particulares. Mas, na verdade, essas organizações oferecem apoio numa perspectiva multidisciplinar (aconselhamento, tratamento psicossocial, orientação jurídica, visita domiciliar, encaminhamento para serviços de saúde mental e para solicitar benefícios sociais etc.) a qualquer pessoa que tenha sofrido agressão no relacionamento, enquanto muitos profissionais privados não são especialistas na área. Débora ficou presa pelo medo. As enxaquecas pioraram. O marido continuava a atormentá-la sobre os gastos e insistia que apresentasse recibos e anotações contábeis. Darlene acredita que Pedro cumpriu a promessa que fez à esposa: “Se não me apresentar o que pedi até a hora que chegar em casa, você está morta”.

Depois de 25 anos sob o controle de Pedro, Débora comentou com sua mãe que queria o divórcio. Ela não ignorava os abusos sofridos pela filha, mas não sabia de sua extensão. Deb planejava pedir uma ordem de afastamento judicial, como foi orientada quando ligou para um advogado local. Ela entrou com o pedido pelo tribunal, onde descreveu os abusos emocional, verbal, sexual, financeiro e físico que sofria. O juiz decidiu que Pedro deveria ficar temporariamente longe de casa, exceto para buscar as crianças (que teria de encontrar na calçada) durante visitas autorizadas. Ele não podia ter nenhum contato com Deb. Ela ficou na casa com os filhos, e Pedro foi obrigado a sair. Policiais o acompanharam quando o engenheiro recolheu seus pertences.

Finalmente, Deb se sentia livre. Elen, Fran e Darlene dizem que nunca tinham visto a amiga tão feliz. Ela poderia ir e vir quando quisesse, sem se preocupar se uma das crianças havia quebrado algo enquanto brincava. Pedro se hospedou na casa de um parente, mas se mostrou arrependido e pediu que Débora o deixasse voltar. Também entrou em contato com Darlene, suplicando para que “colocasse algum juízo” na cabeça da esposa. Deb, porém, não reconsiderou. Ela voltou a sorrir, ter contato com os vizinhos e a controlar a própria vida por exatamente 14 dias.

FATOS DESVENDADOS

Como muitos abusadores, Pedro acreditava ser a vítima. E tentou obstinadamente desenterrar informações sobre Deb: “Ao que tudo indica, ele se tornava cada vez mais obcecado em investigar as atividades da mulher, mas parecia se concentrar principalmente na coleta de dados para conseguir a guarda dos filhos”, segundo uma avaliação psiquiátrica pedida pelo advogado do agressor. Com base nos comentários de um amigo e de uma irmã, entre outros, Pedro desconfiava cada vez mais que Deb mantinha casos extraconjugais. Ele dizia também que ela era dependente de drogas e que machucaria as crianças, expondo-as a comportamentos pouco saudáveis. Darlene diz que Débora se tornou dependente de analgésicos depois de sofrer por anos com enxaquecas lancinantes. Mais tarde, assim que praticou o crime, Pedro usou esse argumento para justificar para os filhos a punhalada fatal.

Enquanto isso, ele tentava diminuir a gravidade das agressões contra a esposa. Admitiu para um profissional de um serviço de proteção à criança, por exemplo, ter agredido Deb apenas uma vez, três anos antes, de acordo com uma avaliação psiquiátrica. Em outra ocasião, disse se recordar de ter chutado Débora, dando a entender que não provocou lesões. “Ela disse que quebrei sua pélvis quando a acertei, mas jamais procurou um médico”, ele citou no documento.

Débora estava em grande perigo após a separação. Não sabemos até que ponto ela calculou a melhor maneira de proteger a si mesma e a família (ou se estava ciente dos riscos que corria). Quando conseguiu a ordem de afastamento, um defensor do tribunal deveria tê-la alertado sobre a ameaça crescente e discutido algum plano de segurança. Débora deveria ter dito aos vizinhos para chamarem a polícia caso vissem Pedro pelas redondezas fora da hora de buscar e trazer as crianças. Poderia ter combinado também uma senha com os filhos que significasse “se escondam ou corram para a casa de vizinhos”. Ela deveria ter sido orientada sobre segurança e abrigos secretos. Tudo o que sabemos é que Débora mudou as fechaduras da casa.

Em 8 de setembro de 2007, o assassino pegou as crianças e as deixou em casa como de costume. Um conhecido se lembra de ter visto o carro de Pedro retornar mais tarde naquele dia, uma violação da ordem de afastamento que poderia mandá-lo para a prisão. Mas o rapaz, que não foi orientado sobre as disposições da lei, não considerou a possibilidade de chamar a polícia.

Os vizinhos ficaram em estado de choque ao saber do assassinato. Muitas vezes, quando alguém percebido como “normal” comete um crime violento, a comunidade conclui que a pessoa “enlouqueceu”. No entanto, assim como a história de Pedro revela, a verdade é bem mais complexa. Em 2009, os criminologistas Russell P. Dobash e Rebecca E., da Universidade de Manchester, e a falecida colega Kate Cavanagh, da Universidade de  Stirling, na Inglaterra, publicaram um artigo em que afirmam que homens que cometem assassinatos aparentemente inesperados têm um perfil psicológico muito semelhante ao dos autores com condenações anteriores.

Pessoas de ambos os grupos podem ser possessivas, ciumentas e apresentar falta de empatia ou remorso. Segundo Bailey, homens abusivos também podem ser intempestivos e ter o julgamento e o controle de impulsos extremamente prejudicados. Mesmo os atos que parecem súbitos estão relacionados a uma história pessoal. No caso de Pedro, os sinais estavam lá já havia algum tempo.

PERIGOS DA DISCRIÇÃO

Débora sofreu abuso por vários anos, mas a polícia nunca havia visitado sua casa, até o dia em que Pedro recebeu uma ordem de afastamento. Segundo as estatísticas, apenas cerca de metade de todos os casos de violência praticados pelo companheiro é denunciada. Dados de países europeus indicam um número ainda menor, aproximadamente 14%. Minha experiência de 15 anos como conselheira, advogada e diretora de programas nessa área sugere que vítimas da classe média e alta são especialmente relutantes para compartilhar o que acontece no lar. Em bairros nobres, não se “lava roupa suja” em público. Diferentemente das comunidades com alta criminalidade, a chegada do carro policial em lugares com moradores mais abastados chama muita atenção, trazendo os vizinhos para as calçadas para examinar a situação. No entanto, independentemente do local onde moramos, todos temos razões para evitar chamar a polícia para a pessoa com quem convivemos. Geralmente, as vítimas querem interromper o ciclo de violência, e não mandar o parceiro para a cadeia. Embora os policiais possam simplesmente apartar uma briga para acalmar a situação, a prisão pode ser uma consequência. As vítimas temem também que os serviços sociais retirem as crianças da casa caso sejam detectados sinais de maus-tratos. Infelizmente, essa preocupação não é infundada.

No entanto, é preciso estar atento para não atuar de forma negligente. Policiais que entram numa casa de alto padrão podem ser manipulados e acabar acreditando que um grito de socorro foi um alarme falso ou uma reação exagerada. E assim, deixar a verdadeira vítima em perigo.

Por isso, é fundamental que esses profissionais da saúde, policiais e assistentes sociais sejam treinados para detectar o abuso em suas diversas formas (emocional, verbal, sexual, financeiro e físico) e diferenciar brigas ocasionais ou comentários dolorosos de um padrão crescente de violência. É indispensável que as vítimas sejam encaminhadas para locais que oferecem aconselhamento até que estejam prontas para tomar medidas legais.

Em termos ideais, alguém que passa por esse tipo de situação, mas não está em perigo imediato, pode consultar um psicólogo ou assistente social em uma organização especializada em casos de violência doméstica. O profissional pode ajudar a avaliar as circunstâncias e a decidir como agir. Caso a pessoa opte por deixar o relacionamento, um defensor legal irá acompanhá-la ao tribunal para obter uma ordem de afastamento. A organização pode ajudar a traçar um “plano de segurança” e oferecer serviços como psicoterapia, apoio à carreira, assistência infantil, ajuda jurídica e abrigamento institucional.

Após mais de uma década, a família de Débora ainda luta com o horror do crime. Talvez o que tenha me comovido tanto é que Débora parecia a garota da “porta ao lado”. Ela era a mãe que acompanhava os filhos ao jogo de futebol, a mãe que esperava os filhos na saída da escola. Se pudesse voltar no tempo e conversar com ela, teria dito que o comportamento de Pedro não era sua culpa e que ela tinha o direito de ser tratada com respeito. Acima de tudo, gostaria de ter tentado ajudá-la a sair da relação com segurança.

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SEGURANÇA PASSO A PASSO

O momento de deixar um relacionamento violento costuma ser o mais perigoso para as vítimas. Mas, vivendo ou não com o abusador, é conveniente ter um plano para proteger a si mesma e a sua família. Confira as orientações oferecidas em reuniões de aconselhamento:

ROTAS DE FUGA:

  • Se não puder evitar algum atrito, procure discutir em uma sala ou área com acesso à saída, e não no banheiro, na cozinha ou lugares com objetos perigosos ou que possam ser usados como armas
  • Pratique como sair de casa em segurança. Tenha em mente as janelas, os elevadores e as escadas que permitem uma fuga
  • Mantenha uma mala pronta num lugar secreto e acessível que permita uma partida rápida
  • Escolha um vizinho a quem possa contar sobre a violência e peça que chame a polícia caso perceba alguma agitação em sua casa
  • Invente uma palavra que sirva de código entre os filhos, familiares, amigos e vizinhos para que liguem para o 190
  • Planeje para onde ir caso tenha de sair de casa (mesmo que acredite que isso não será necessário)

PARA TERMINAR A RELAÇÃO:

  • Saiba quem pode recebê-la em casa ou emprestar algum dinheiro caso precise
  • Procure sempre levar os filhos ou deixá-los com pessoas de confiança
  • Separe dinheiro, roupas, chaves extras e cópias de documentos importantes e deixe-os aos cuidados de amigos ou parentes
  • Abra uma conta poupança em seu próprio nome para aumentar sua independência financeira
  • Anote o número de telefone de alguns abrigos no celular
  • Desenvolva um plano de segurança com um advogado especialista em violência doméstica para que decidam a forma mais segura de deixar o agressor

DEPOIS DA SEPARAÇÃO:

  • Escolha uma pessoa do ambiente profissional para quem possa contar a situação. Não se esqueça de avisar no local de trabalho que o agressor não deve entrar. Se possível, disponibilize uma foto dele
  • Providencie para que uma recepcionista ou colega, por exemplo, selecione seus telefonemas no trabalho
  • Procure ter companhia até o carro, o ônibus ou o trem. Use rotas diferentes para ir para casa. Tente imaginar como poderá reagir se algo acontecer nesse trajeto
  • Se você tem uma ordem de afastamento, certifique-se de que todos os encarregados das instituições que você e seus filhos frequentam tenham uma cópia
  • Informe os vizinhos de que seu parceiro já não vive com você e de que devem chamar a polícia caso o vejam perto de casa
  • Mude a fechadura ou a senha de bloqueio de portas e janelas o mais rapidamente possível.

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 A CADA CINCO MINUTOS UMA MULHER É AGREDIDA

O Brasil tem a quinta taxa de violência contra a mulher no mundo, segundo estudo feito pela Organização das Nações Unidas: são 5 mil assassinatos por ano, 13 por dia. A cada cinco minutos uma mulher é agredida – isso contando apenas os casos denunciados, já que muitas vítimas se escondem por vergonha, dor e medo do agressor, que em 70% dos casos é o próprio parceiro. Segundo dados do Balanço 180, realizado pela Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, ligada à Secretaria dos Direitos Humanos, entre 2015 e 2016 houve um aumento de 93,87% nos relatos de violência física no serviço de disque denúncia. O risco de que a violência relatada acarreta a morte da vítima foi constatado em 29% dos casos. Em 66% dos registros, a agressão é cometida por homens com quem a vítima tem ou teve algum vínculo afetivo: cônjuges, namorados ou amantes. O tempo de relacionamento dessas mulheres com seus agressores ultrapassa dez anos em quase 40% das situações. Diferentemente de uma concepção enraizada no imaginário coletivo, a maioria das mulheres que sofreu algum tipo de violência doméstica e a relatou pelo 180 não depende financeiramente de seu agressor. Somente 36,63% declararam ter essa relação de dependência econômica.

Ainda que causem a morte, em muitos casos as agressões chegam a provocar danos cerebrais, ossos quebrados, perda de audição e, em situações extremas, morte. E a violência psicológica pode causar prejuízos tão graves quanto a física. Aproximadamente metade das vítimas sofre de depressão; mais de 60%, de transtorno de estresse pós-traumático; e quase 20% apresentam ideação suicida, segundo uma análise estatística feita pela psicóloga Jacqueline Golding, da Universidade da Califórnia em São Francisco. Grande parte dos atritos entre casais acontece de maneira intermitente, geralmente desencadeada por divergências a respeito de temas tensos, como sexo e dinheiro. Homens e mulheres costumam gritar. Eles, porém, costumam ser mais violentos do que elas e iniciar as agressões físicas. E, por serem mais fortes, tendem a causar mais danos. Mais de 90% das vítimas de violência entre casais são do sexo feminino. A agressão nem sempre é mútua, mas pode, em alguns casos, ser um padrão persistente, crescente e intencionalmente cruel – não raro, instigada pelo sexo masculino.

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QUANDO ALGUÉM PRECISA DE AUXÍLIO

Se você conhece uma pessoa em um relacionamento abusivo, fique atento:

  1. Não se acanhe ao dizer com delicadeza e discrição os sinais e os comportamentos que tem observado e chamado sua atenção
  2. Ofereça apoio e diga que existem instituições para ajudar mulheres nessa situação
  3. Demonstre que se preocupa com a segurança, mas não julgue. Ouça
  4. Evite apresentar soluções prontas. Pergunte de que maneira você pode ajudar
  5. Evite dizer coisas que sugerem que a mulher tem alguma culpa. Não pergunte, por exemplo, “por que você não o deixa?” ou “o que você faz para irritá-lo?”
  6. Procure saber que comportamentos do agressor deixaram a parceira assustada. Esse tipo de questionamento ajuda a vítima a ter clareza da situação
  7. Ofereça apoio sem fazer pressão. Deixe a mulher tomar as decisões em seu próprio ritmo. Ela deve orientar o processo e decidir quando agir, até porque conhece melhor o agressor
  8. Ofereça-se para se sentar ao lado dela na hora de ligar para o disque denúncia ou para acompanhá-la em um atendimento

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SINAIS DE ABUSO

  • Presença constante de HEMATOMAS. Quando é questionada, geralmente diz que se machucou acidentalmente
  • Parece sempre pedir PERMISSÃO do parceiro para fazer qualquer coisa
  • Consulta frequentemente o companheiro e JUSTIFICA onde está o tempo todo
  • Tímida, DEMORA mais para responder a perguntas quando está na presença do parceiro
  • É PROIBIDA de manter contato social com pessoas do sexo oposto ou de ficar sozinha com as amigas
  • Não raro, justifica as ATITUDES rudes ou desagradáveis do companheiro
  • Costuma QUESTIONAR comportamentos saudáveis do relacionamento de outros. Por exemplo, “O seu marido não se importa de você ter um amigo homem?” ou “Você pode fazer planos sem a permissão dele?”
  • Conta situações de CIÚME extremo do parceiro
  • O companheiro liga EXCESSIVAMENTE para o seu celular
  • Sempre dá DESCULPAS aos parentes e amigos para não vê-los.

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10 TIPOS DE ABUSO

A Lei Maria da Penha (Lei nº11.340/2006) é a principal legislação brasileira para enfrentar a violência contra a mulher. A norma é reconhecida pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento da violência de gênero. Além da Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 2015, colocou a morte de mulheres no rol de crimes hediondos e diminuiu a tolerância nesses casos. Mas o que poucos sabem é que a violência doméstica vai muito além da agressão física ou do estupro. A Lei Maria da Penha classifica os tipos de abuso contra a mulher nas seguintes categorias: violência patrimonial, violência sexual, violência física, violência moral e violência psicológica. Conheça algumas formas de agressões consideradas violência doméstica no Brasil:

  1. Humilhar, xingar e diminuir a autoestima.

Agressões como humilhação, desvalorização moral ou deboche público em relação à mulher constam como tipos de violência emocional.

  1. Tirar a liberdade de crença.

Um homem não pode restringir a ação, a decisão ou a crença de uma mulher. Isso também é considerado como uma forma de violência psicológica.

  1. Fazer a mulher achar que está ficando louca.

Há um nome para isso: o gaslighting. Uma forma de abuso mental que consiste em distorcer os fatos e omitir situações para deixar a vítima em dúvida sobre a sua memória e sanidade.

  1. Controlar e oprimir a mulher.

Aqui o que conta é o comportamento obsessivo do homem em relação à mulher, como querer controlar o que ela faz, não deixá-la sair, isolar sua família e amigos ou procurar mensagens no celular ou e-mail.

  1. Expor a vida íntima.

Falar sobre a vida do casal para outros é considerado uma forma de violência moral, como, por exemplo, vazar fotos íntimas nas redes sociais como forma de vingança.

  1. Atirar objetos, sacudir e apertar os braços.

Nem toda violência física é o espancamento. É considerado também abuso físico a tentativa de arremessar objetos, com a intenção de machucar, sacudir e segurar com força uma mulher.

  1. Forçar atos sexuais desconfortáveis.

Não é só forçar o sexo que consta como violência sexual. Obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa, como a realização de fetiches, também é violência.

  1. Impedir a mulher de prevenir a gravidez ou obrigá-la a abortar.

O ato de impedir uma mulher de usar métodos contraceptivos, como a pílula do dia seguinte ou o anticoncepcional, é considerado uma prática da violência sexual. Da mesma forma, obrigar a abortar também é outra forma de abuso.

  1. Controlar o dinheiro ou reter documentos.

Se o homem tenta controlar, guardar ou tirar o dinheiro de uma mulher contra a sua vontade, assim como guardar documentos pessoais da mulher, isso é considerado uma forma de violência patrimonial.

  1. Quebrar objetos da mulher.

Outra forma de violência ao patrimônio da mulher é causar danos de propósito a objetos dela, ou objetos de que ela goste.

Fonte: Portal Brasil

Abuso emocional, físico e sexual.6

ONDE PROCURAR AJUDA:

Disque 180

Principal de acesso aos serviços que integram a rede nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha, e base de dados para de políticas nessa área.

http://www.spm.gov.br/ligue-180

Curitiba:

Mais Marias – Contato somente pelo portal www.maismarias.com

Florianópolis:

Casa da Mulher Catarina (48) 3223-8010. www.casadamulhercatarina.com.br

Fortaleza:

Instituto Maria da Penha (85) 4102-5429. http://www.institutomariadapenha.org.br

Porto Alegre:

Mulheres Mirabal (51) 90010-280. www.facebook.com/MulheresMiraba

Recife:

A Casa da Mulher do Nordeste (CMN) (87) 3838-2482. www.casadamulherdonordeste.org.br

Rio de Janeiro:

Ceam Chiquinha Gonzaga (21) 2517-2726. ceam.spmrio@gmail.com

São Paulo:

Casa Eliane de Grammont (11) 5549-9339/5549-0335. caseliane@yahoo.com.br

 

 

ALLISON BRESSLER – é advogada especialista em violência doméstica, com pós-graduação em psicologia social.

*Nomes e datas foram alterados para proteção das crianças

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MARCADAS PARA SEMPRE

A ciência mostra que crianças submetidas a situações de “stress tóxico”, como as que foram separadas dos pais nos Estados Unidos, carregam sequelas físicas e mentais até a vida adulta.

Marcadas para sempre

As imagens de famílias de imigrantes separadas na fronteira entre Estados Unidos e México causaram comoção em todo o mundo. Infelizmente, para as crianças, as marcas deixadas por esse sofrimento são muito mais duradouras e profundas do que se imagina. Encaradas logo no começo da vida, essas adversidades produzem um impacto negativo cujo efeito se prolonga até a vida adulta – e se reflete na saúde física e mental do indivíduo, no seu desempenho acadêmico, na produtividade no trabalho e até na maior probabilidade de envolvimento com o crime.

Os avanços das pesquisas na área das neurociências permitiram que se mapeassem as alterações cerebrais decorrentes de situações de violência como a separação de filhos dos seus pais. A infância, sobretudo em sua primeira fase, que vai até os 6 anos, é uma etapa de grande plasticidade cerebral, em que as redes formadas pelas dezenas de bilhões de neurônios se modificam a partir de novas experiências. As sinapses-conexões entre os neurônios – saem fortalecidas ou enfraquecidas, conforme a situação a que a criança é exposta. A arquitetura cerebral é ”esculpida” pelas experiências. A maior plasticidade do cérebro infantil serve para expandir as chances de aprendizagem da criança, mas também aumenta a sua vulnerabilidade. As redes neurais adaptam-se tanto às situações positivas quanto às negativas.

O primeiro estudo controlado sobre as consequências da ocorrência de adversidades psicossociais na mente infantil é conhecido como Programa de Intervenção Precoce. Realizado em Bucareste, capital da Romênia, ele envolveu aspectos éticos bastante questionáveis, mas a metodologia científica é considerada adequada. A pesquisa foi aplicada em um grupo de crianças, com idade média de 22 meses, que viviam em condições de negligência em instituições romenas. Metade delas, selecionada aleatoriamente, foi transferida para lares bem estruturados; a outra metade continuou onde estava. O desenvolvimento de todas foi acompanhado ao longo da infância e da adolescência, aplicando-se no período avaliações cognitivas, socioemocionais e psiquiátricas e da estrutura e da conectividade cerebrais. Os resultados apontaram impactos em todas as dimensões. As crianças que permaneceram institucionalizadas, comparadas àquelas que viveram em ambiente familiar, mostraram atraso no desenvolvimento intelectual e significativas modificações no funcionamento cerebral, medidas por meio de eletroencefalografia, além de alterações comportamentais, como maior agressividade. A conclusão é que situações de grande impacto emocional – sejam elas positivas ou negativas – deixam marcas no cérebro.

Durante a evolução humana, a arquitetura cerebral foi construída para consolidar experiências que se mostrassem mais relevantes para a sobrevivência. Muitas vezes, situações de sofrimento são aquelas que põem a vida em risco. Sendo assim, é importante que sejam memorizadas e processadas, para que as respostas em situações futuras sejam modificadas. O excesso de stress, no entanto, traz consequências negativas para o desenvolvimento. Negligência, abuso, pobreza extrema e famílias disfuncionais são fatores que, quando ocorrem de maneira frequente ou prolongada, desencadeiam nas crianças um quadro que ganhou o nome de “stress tóxico”. Em 2012, a Academia Americana de Pediatria divulgou um documento no qual relatava seus efeitos sobre a saúde. Além de apresentarem alterações na cognição e na regulação emocional, crianças expostas ao stress tóxico têm maior risco de desenvolver problemas de saúde na vida adulta, como doenças cardiorrespiratórias, alguns tipos de câncer, doenças autoimunes e depressão.

A associação entre adversidades na infância e doenças na vida adulta foi demonstrada em uma série de estudos publicados no início da década passada. Uma pesquisa realizada na Nova Zelândia em 2002, por exemplo, divulgada na revista científica Lancet, acompanhou 1.000 crianças até a vida adulta e mostrou que aquelas cuja família apresentava dificuldades socioeconômicas desenvolviam mais problemas cardiovasculares quando ficavam mais velhas. Os mecanismos envolvidos nesse processo também vêm sendo descritos com o auxílio de estudos realizados com animais de laboratório. A elevação persistente da secreção de hormônios associados ao stress pode alterar o tamanho de diversas áreas do cérebro e a arquitetura das redes neurais, incluindo as que lidam com memória, aprendizagem e regulação emocional. Os achados dão respaldo aos resultados obtidos em pesquisas com seres humanos e aprofundam a investigação dos mecanismos pelos quais a plasticidade cerebral é afetada pelo stress crônico.

Estudos feitos com macacos Rhesus avaliaram as consequências da separação dos filhotes da mãe em diferentes idades. Apartados com 1 semana de vida, os animais apresentaram menor contato social com outros macacos e maiores níveis de ansiedade quando adultos. Já os separados aos 3 meses não mostraram diferenças comportamentais significativas em relação aos que permaneceram com a mãe até os 6 meses – idade em que normalmente os filhotes “saem de casa” e vão formar casais para a próxima estação reprodutiva. Comparando-se o cérebro dos animais dos dois grupos, os separados da mãe com 1 semana e os separados com 3 meses de vida, observou-se uma gama de diferenças no funcionamento de genes em neurônios de regiões como a amígdala cerebral, fundamental para o processamento emocional. Isso significa que a separação não deixou apenas marcas comportamentais, mas modificou a expressão gênica dos animais – mais uma evidência deque adversidades no início da vida provocam efeitos profundos e duradouros.

Observa-se neste momento uma crescente preocupação entre os especialistas no sentido de reduzir o impacto do stress tóxico sobre crianças refugiadas, com intervenções dedicadas a ampliar os cuidados e a prevenção de sua incidência. É verdade que a questão dos refugiados é extremamente complexa. Mas o conhecimento científico alcançado sobre o desenvolvimento humano conduz à certeza de que separar pais e filhos não pode fazer parte do rol de soluções para o problema. Uma frase atribuída ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi diz que o futuro depende daquilo que fazemos no presente. No episódio dos imigrantes ilegais, o fato de o governo dos Estados Unidos só ter revogado a separação obrigatória de filhos e pais depois da intensa pressão da sociedade mostrou que ele trafega na contramão da história.

 

FERNANDO LOUZADA – é neurocientista, professor associado do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro do comitê científico do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI).

 

 

OUTROS OLHARES

O PRIMEIRO DA CLASSE

Todos os pais desejam que seus filhos se sobressaiam nos estudos, pois a cultura e o preparo acadêmico são uma espécie de garantia de um futuro mais tranquilo.

O primeiro da classe

Embora muito bem-intencionados, percebo que alguns pais agem de modo a criar obstáculos para que os filhos se tornem alunos brilhantes, autônomos, motivados e bem-sucedidos. Empecilhos são criados mesmo por excesso de zelo, de proteção e outros por simples ingenuidade, a que todos nós estamos sujeitos quando somos jovens pais.

Algumas orientações podem ajudar a quem deseja ter um filho que, mesmo não sendo (pois não precisa mesmo ser) o primeiro da classe, terá tudo para se dar muito bem na vida acadêmica e mais tarde na vida profissional. Imagine que ao invés de seus familiares lhe perguntarem como você vai, lhe perguntassem sempre sobre seu saldo bancário, seu salário, suas promoções no emprego … como você se sentiria? Da mesma forma se sentem as crianças cujos pais as pressionam diariamente com perguntas do tipo “que nota você tirou hoje?” ao invés de se importarem em saber como foi o seu dia na escola, se aprendeu coisas novas, se foi divertido estar com os amigos. O aspecto humano nunca pode perder espaço para a produção!

FAZER AS LIÇÕES JUNTO COM O FILHO: a princípio, toda criança precisa de alguma ajuda, até para se organizar e compreender o que é exigido dela. Mas fazer pela criança, seja o que for, é contraindicado, pois, além de lhe dar a impressão de que ela sofre de alguma incapacidade, cria dependência. O correto é o pai ou a mãe checar se as tarefas foram feitas com esmero, ouvir as dúvidas e orientar, quando possível. Mas as dificuldades devem ser encaminhadas aos professores. Lição de casa é um importante momento de aprendizagem para a criança desenvolver a sua cognição e metacognição. Outro problema é permitir que tarefas sejam feitas às pressas, às vezes no carro, outras na porta da escola, com o adulto ditando as respostas: a lição não é uma provação! Além disso, criar responsabilidade é uma conquista gradativa e, na prática, nunca se desenvolve quando outras pessoas fazem por nós.

RESOLVER OS PROBLEMAS DOS FILHOS PARA POUPÁ-LOS: se desde pequenos os filhos se habituam que tudo será provido e resolvido pelos pais ou adultos de modo geral, eles dificilmente aprenderão a planejar, se organizar, prever necessidades futuras, suprir faltas. Se tornarão jovens frágeis, imaturos, dependentes e frustrados. Aprenderão a postergar suas responsabilidades à espera de alguém que os venha socorrer de última hora. Infelizmente há familiares que chegam ao cúmulo de tentar justificar comportamentos de desleixo e desinteresse dos filhos com atestados de transtornos de aprendizagem para que possam usufruir de benefícios desnecessários. Um exemplo que constitui uma verdadeira temeridade e que deve ser com batido. Na vida profissional como será que esses pais pensam em proteger os filhos? Qual desafio terão capacidade de enfrentar, se mesmo os pequenos problemas não tiverem sido resolvidos?

PREMIAR BOAS NOTAS: se o prêmio for um abraço, um carinho, uma comemoração familiar, tudo bem. Mas trocar notas por bens materiais desvirtua a educação e aumenta o sentimento de frustração naquela criança que, embora se esforce, não consegue ser bem-sucedida. Notas se conquistam, não se compram: não têm preço, têm valor. Valor correspondente ao empenho de cada um. Por isso, o que vale não é o “10 “, mas a superação gradativa em relação a si mesmo.

ESTUDO E PRAZER: todo mundo sabe que antes de entrar na educação formal as crianças adoram os livros. Todas parecem que serão leitoras vorazes, mas bastou entrar no ensino formal e uma boa parte parece que perde o prazer de ler. Quando se impõe gradativamente a obrigação, a criança bem-educada compreende que está crescendo e suas responsabilidades também e que mesmo que prefira naquele momento estar brincando, é necessário ler um livro ou estudar. A obrigação deve vir primeiro, antes das brincadeiras. A superproteção dos pais que não dão as devidas responsabilidades aos filhos cria crianças que não querem ler, não querem fazer lição, não querem enfrentar nada que os desaponte, desafie ou desagrade. Gradativamente vão se afastando do rendimento escolar médio de sua classe. Surgem problemas de aprendizagem, perfeitamente evitáveis!

O RESPEITO PELA ESCOLA: é a instituição socialmente destinada às crianças e com várias metodologias, justamente para que as famílias busquem e escolham aquela que mais se aproxima da linha educativa que oferece em casa. Saber identificar e respeitar os pontos em que família e escola não concordam é primordial para a manutenção do aluno nesse ambiente e até como lição de vida: afinal, nenhum lugar, nem mesmo a família, é perfeito! Sempre há um ponto de discordância, que desagrada e exige paciência e compreensão. Falar mal da escola ou dos professores então é inimaginável, já que esses profissionais representam os pais dentro da escola, a qual em última análise foi selecionada pela família para seus filhos.

O assunto obviamente não se esgota por aqui, mas tudo que se refere a respeito humano, afetividade, estímulo intelectual, dignidade, valores faz muito bem e é bom para o futuro das crianças. A dedicação ao filho não é apenas cuidar fisicamente dele, pagar boas escolas, oferecer férias e brinquedos, fazer-lhe as vontades, mas lhe dar estímulo e oportunidade de crescer de modo autônomo, responsável, dentro de normas socialmente ace itas, para que se desenvolva a partir de suas características pessoais e assim atinja o seu melhor, tanto pessoal como social e profissionalmente.

 

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07}. É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

 

 

GESTÃO E CARREIRA

ALEGRIA CERTIFICADA

O projeto Riso 9.000, do Doutores da Alegria, tem o objetivo de melhorar a felicidade e o bom humor dos profissionais.

Alegria certificada

De repente, um grupo de palhaços entra em um escritório. Munidos de narizes vermelhos, jalecos e um violão, eles chegam com um objetivo muito nobre: fazer com que os funcionários relaxem e riam um pouco. O projeto, batizado de Riso 9.000, é de autoria do Doutores da Alegria,

ONG que completou 27 anos em 2018. Da atuação em hospitais, nasceu a ideia de melhorar, também, o bem-estar dos profissionais. Isso surgiu quando Luís Vieira da Rocha, atual diretor executivo da instituição, comentou com Wellington Nogueira, o fundador do Doutores, que o clima na Fundação Abrinq, onde ele trabalhava, estava muito pesado. “Wellington me disse que viria fazer um check-up, interagiu com os funcionários e amenizou a tensão”, diz Luís. Isso aconteceu nos anos 2000. De lá para cá, o projeto cresceu e, hoje, as empresas que são parceiras e doadoras do Doutores podem receber o programa que certifica se as “veias cômicas” dos colaboradores estão funcionando bem. O Atacadão, supermercado da rede Carrefour, é uma das companhias que levam o projeto para vários de seus 35.000 funcionários. “Eles quebram a seriedade do ambiente corporativo e trazem leveza ao trabalho”, diz Marco Oliveira, vice-presidente do Atacadão. “No começo, as pessoas ficam inibidas. Mas depois que o primeiro se solta, todo mundo sai da zona de conforto”, afirma Marcia Esteves, presidente da agência de publicidade Grey Brasil, outra parceira da ONG.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 37-42

Alimento diário

O Chamado de André e Pedro

Aqui temos a transferência dos dois discípulos de João a Jesus, e um deles chamando um terceiro, e estes foram as primícias dos discípulos de Cristo. Veja como a igreja era pequena no seu início, e como foi o amanhecer do dia das suas coisas grandiosas.

 

I – André e outro que estava com ele foram os dois a quem João Batista indicou a Cristo, v. 37. Quem era o outro, não se sabe. Alguns pensam que era Tomé, comparando com João 21.2. Outros pensam que era o próprio João, o autor deste Evangelho, que tinha o estilo de habilmente ocultar seu nome, cap. 13.23; 20.3.

1.  Aqui está a prontidão de ambos em seguir a Cristo: eles ouviram João falando de Cristo como sendo o Cordeiro de Deus, e seguiram a Jesus. Provavelmente, eles tinham ouvido João dizer a mesma coisa no dia anterior, o que, naquele momento, não tinha tido sobre eles o efeito que tinha agora. Veja o benefício da repetição, e da conversa pessoal particular. Eles o tinham ouvido falar de Cristo como sendo o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e isto os levou a segui-lo. O argumento mais forte e mais predominante, para que uma alma sensível e despertada siga a Cristo, é o de que é Ele, e somente Ele, que tira o pecado.

2.  A gentil maneira como Cristo percebeu a presença deles, v. 38. Eles o seguiam, mas, embora tivesse as costas voltadas para eles, Ele logo percebeu a presença deles, e voltou-se, e os viu seguindo-o. Observe que Cristo percebe logo os primeiros movimentos de uma alma em direção a Ele, e o primeiro passo dado a caminho do céu. Veja Isaías 64.5; Lucas 15.20. Ele não esperou até que eles pedissem permissão para falar com Ele, mas falou antes disto. Qualquer comunhão que exista entre uma alma e Cristo, é Ele que começa a conversa. Ele lhes disse: “Que buscais?” Isto não era uma repreensão pela sua ousadia em penetrar no seu grupo: aquele que veio nos buscar nunca repreendeu ninguém por procurá-lo. Ao contrário do que possa parecer, este é um gentil convite para que façam parte do seu grupo, um convite dirigido àqueles que Ele via acanhados e modestos: “Vamos, o que vocês têm a me dizer? Qual é seu pedido? Qual é sua solicitação?” Observe que aqueles que se dedicam a ensinar as pessoas nas questões das suas almas devem ser humildes, e mansos, e acessíveis, e devem incentivar aqueles que se dirigem a eles. A pergunta que Cristo lhes faz é a que nós deveríamos propor a nós mesmos quando começamos a seguir a Cristo, e assumimos a profissão da sua santa religião: “‘Que buscais?’ O que estais procurando, o que desejais?” Aqueles que seguem a Cristo, e ainda buscam o mundo, ou a si mesmos, ou o elogio dos homens, estão se enganando. “O que buscamos, quando buscamos a Cristo? Nós procuramos um mestre, um soberano, um reconciliador? Quando seguimos a Cristo, nós procuramos a graça de Deus e a vida eterna?” Se nossos olhos estiverem fixos somente nisto, estaremos cheios de luz.

3.  A pergunta humilde que fizeram a respeito do lugar de sua moradia: “Rabi, onde moras?”

(1) Ao chamá-lo de Rabi, eles indicam que seu desejo, ao segui-lo, era o de serem ensinados por Ele. Rabi significa mestre, um mestre que ensina. Os judeus chamavam de rabi seus doutores, ou homens eruditos. A palavra origina-se de rab, rnultus ou magnus, um rabi, um grande homem, e alguém que, como dizemos, conhece muitas coisas. Nunca houve um Rabi como nosso Senhor Jesus, um tão grandioso, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência”. Eles seguiram a Cristo para serem seus alunos, e a mesma coisa devem fazer todos aqueles que se dirigem a Ele. João tinha-lhes dito que Ele era o Cordeiro de Deus. Este Cordeiro é digno de tomar o livro e de abrir seus selos, como um rabi, Apocalipse 5.9. E, a menos que renunciemos a nós mesmos, para sermos sujeitos a Ele, e ensinados por Ele, Ele não tirará nossos pecados.

(2) Ao perguntarem onde Ele mora, eles indicam um desejo de conhecê-lo melhor. Cristo era um estrangeiro nesta região, e o que eles queriam saber era onde Ele estava hospedado, pois ali eles o encontrariam no momento oportuno, quando Ele indicasse, para receberem dele sua instrução. Eles não queriam pressioná-lo rudemente, pois isto não era adequado. Civilidade e boas maneiras são adequadas, e até mesmo indispensáveis, àqueles que seguem a Cristo. E, além disto, eles esperavam obter mais dele do que poderiam obter em uma conversa curta, agora, pelo caminho. Eles decidiram se dedicar integral­ mente, e não superficialmente, à conversa com Cristo. Aqueles que tiveram algum tipo de comunhão com Cristo, não podem deixar de desejar:

[1] Uma comunhão adicional com Ele. Eles o seguiam para saber mais sobre Ele.

[2] Uma comunhão fixa com Ele, onde possam se sentar aos seus pés, e receber suas instruções. Não é suficiente passar algum tempo com Cristo, de vez em quando. Nós devemos morar com Ele.

4.  O convite cortês que Cristo lhes fez para que entrassem no seu alojamento: “Ele lhes disse: Vinde e vede”. Assim devem ser estimulados os bons desejos com relação a Cristo, e a comunhão com Ele.

(1) Ele os convida para que entrem no seu alojamento. Quanto mais nos aproximarmos de Cristo, mais veremos da sua beleza e excelência. Os enganadores conservam o interesse dos seus seguidores, mantendo-os à distância, mas o que Cristo desejava, que o recomendava para a estima e o afeto dos seus seguidores, era que eles entrassem e vissem. “Entrem e vejam o alojamento simples que Eu tenho, como Eu me satisfaço com acomodações modestas, para que vocês não esperem nenhuma vantagem deste mundo por me seguir, como esperam aqueles que seguem os escribas e fariseus, e os chamam de rabi. Entrem e vejam com que poderão contar, se me seguirem”. Veja Mateus 8.20.

(2) Ele os convida para que venham imediatamente e sem demora. Eles perguntaram onde Ele morava, para que pudessem estar com Ele em uma ocasião mais conveniente, mas Cristo os convida imediatamente, para que venham e vejam. Nunca haverá melhor ocasião do que agora. Com isto, aprendemos:

[1] Quanto aos outros, que é melhor trazer as pessoas quando estão dispostas, bater enquanto o ferro está quente.

[2] Quanto a nós, que é sábio aceitar as oportunidades presentes: “Eis aqui agora o tempo aceitável”, 2 Coríntios 6.2.

5.  A alegre e (sem dúvida) grata aceitação do convite de Jesus por parte dos dois discípulos: “Foram, e viram onde morava, e ficaram com ele aquele dia”. Se eles tivessem recusado sua oferta, esta teria sido uma demonstração de humildade e bons modos que não lhes teria feito bem.

(1) Eles foram com Ele prontamente: “Foram, e viram onde morava”. As almas graciosas aceitam alegremente os convites graciosos de Cristo, como Davi, Salmos 27.8. Eles não perguntaram como poderiam se alojar com Ele, mas deixaram este assunto como uma preocupação secundária, e aproveitaram ao máximo o que encontraram. É bom estar onde Cristo está, seja onde for.

(2) Eles estavam tão satisfeitos com o que encontraram, que ficaram com Ele aquele dia (“Mestre, bom é que nós estejamos aqui”), e Ele lhes deu boas vindas. Era já quase a hora décima. Alguns pensam que João calcula de acordo com o sistema romano, e que eram aproximadamente dez horas da manhã, e eles ficaram com Ele até a noite. Outros opinam que João calcula como os demais evangelistas, de acordo com o sistema judaico, e que eram quatro horas da tarde, e eles ficaram com Ele durante aquela noite e o dia seguinte. O Dr. Lightfoot opina que este dia seguinte, que eles passaram com Cristo, era um sábado, e, como já era tarde, eles não puderam ir para casa antes do sábado. Como é nosso dever, onde quer que estejamos, planejar passar nosso dia de repouso de um modo que nos traga algum benefício espiritual, também são abençoados aqueles que, pelo livre exercício da fé, do amor e da devoção, passam seus dias de repouso em comunhão com Cristo. Estes realmente são dias do Senhor, dias do Filho do homem.

II – André trouxe seu irmão Pedro a Cristo. Se Pedro tivesse sido o primeiro discípulo de Cristo, os papistas teriam criado um alvoroço. Realmente, mais tarde, ele veio a ser mais eminente em dons, mas André teve a honra de conhecer primeiro a Cristo, e de ter sido o instrumento que trouxe Pedro até Ele. Observe:

1.  A informação que André deu a Pedro, com uma intimação para que fosse a Cristo.

2.  Ele o achou: “Este achou primeiro a seu irmão Simão”. O fato de que tenha achado implica que o procurou. Simão tinha vindo com André para o ministério e batismo de João, e André sabia onde encontrá-lo. Talvez o outro discípulo que estava com ele tivesse saído para procurar algum amigo seu, na mesma ocasião, mas André foi mais bem-sucedido. Ele “achou primeiro a seu irmão Simão”, que tinha vindo somente ouvir a João, mas teve suas expectativas superadas, ele se encontra com Jesus.

3.  Ele lhe disse quem tinham encontrado: “Achamos o Messias”. Observe:

[1] Ele fala com humildade. Ele não diz: “Eu encontrei”, tomando para si a honra da descoberta, mas diz: “Achamos”, alegrando-se de ter compartilhado isto com outros.

[2] Ele fala de modo exultante, e com triunfo: “Nós encontramos”, esta pérola inestimável, este verdadeiro tesouro, e, tendo-o encontrado, ele proclama isto, como os leprosos, 2 Reis 7.9, pois sabe que ele nunca terá menos de Cristo, se compartilhá-lo com outros.

[3] Ele fala de modo inteligente: ”Achamos o Messias”, dizendo mais do que já tinha sido dito. João tinha dito: “Ele é o Cordeiro de Deus, e o Filho de Deus”, o que André compara com as Escrituras do Antigo Testamento. E, ao fazer a comparação, conclui que Ele é o Messias prometido aos patriarcas, pois, naquele momento, era chegada a plenitude dos tempos. Desta forma, ao meditar sobre os testemunhos de Deus, ele fala claramente a respeito de Cristo, até mais do que seu mestre havia falado, Salmos 119.99.

4.  Ele o levou a Jesus. Não pretendeu instruí-lo ele mesmo, mas levou-o à fonte, persuadiu-o a vir até Cristo, e apresentou-o. Isto foi:

[1] Um exemplo de verdadeiro amor pelo seu irmão, seu próprio irmão, assim ele é mencionado aqui, porque era muito amado por ele. Observe que nós devemos, com um interesse particular, procurar o bem-estar espiritual daqueles com quem nos relacionamos, pois sua relação conosco aumenta a obrigação e motiva a oportunidade de fazer o bem às suas almas.

[2] Um resultado da conversa deste dia com Cristo. Observe que a melhor evidência de que aproveitamos os meios da graça é a piedade e a utilidade da nossa conversa posteriormente. Aqui, André estava tão cheio da graça e da preciosa presença do Senhor Jesus, que parecia que tinha estado com Ele no monte, pois seu rosto resplandecia. Ele sabia que havia em Cristo o suficiente para todos, e, tendo sentido que Ele é gracioso, ele não podia descansar até que aqueles a quem ele amava tivessem sentido a mesma coisa também. Observe que a verdadeira graça odeia os monopólios, e ama desfrutar seus tesouros em companhia de outras pessoas.

5.  As boas-vindas de Jesus Cristo a Pedro, que não foi menos bem-vindo por ter sido influenciado por seu irmão a vir, v. 42. Observe:

(1) Cristo o chamou pelo nome: “Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas”. Aparentemente, Pedro era um total estranho para Cristo, e sendo assim:

[1] O fato de que Ele, à primeira vista, sem fazer nenhuma pergunta, pôde dizer o nome de Pedro, e também do seu pai, era uma prova da sua onisciência. O Senhor conhece os que são seus, e toda a sua história. No entanto:

[2] O fato de que Ele, livremente e afavelmente, o chame pelo seu nome, embora Pedro fosse um homem de origem humilde, um homem sem nome, era um exemplo da sua graça condescendente. O fato de que Deus conhecesse a Moisés pelo nome foi um exemplo do seu favor a ele, Êxodo 33.17. Alguns observam o significado destes nomes: Simão obediente; Jonas uma pomba. Um espírito como o de uma pomba obediente qualifica-nos para sermos discípulos de Cristo.

(2) Ele lhe deu um novo nome: “Cefas”.

[1] O fato de Cristo lhe dar um nome indica seu favor a ele. Um novo nome indica alguma grande dignidade, Apocalipse 2.17; Isaías 62.2. Com isto, Cristo não somente eliminou a vergonha dos seus familiares humildes e obscuros, como também o adotou na sua família como um dos seus.

[2] O nome que Jesus deu a Pedro evidencia sua fidelidade a Cristo: “Tu serás chamado Cefas” (que, em hebraico, significa “uma pedra”), que é, assim, interpretado como Pedro. Considere Atos 9.36: “Tabita, que, traduzido, se diz Dorcas”. O primeiro nome é hebraico, o segundo, grego, e representa uma corça jovem. O temperamento natural de Pedro era impetuoso, vigoroso e resoluto, que eu considero como a principal razão pela qual Cristo o chamou de Cefas uma pedra. Quando, mais adiante, Cristo orou por ele, para que sua fé não esmorecesse, para que ele fosse firme e leal ao próprio Cristo, e, ao mesmo tempo, pediu-lhe que fortalecesse seus irmãos, e se dedicasse a apoiar os outros, o Senhor fez de Pedro aquilo de que aqui o chamou, Cefas uma pedra. Aqueles que vão a Cristo devem se apresentar com uma decisão fixa de serem firmes e constantes para Ele, como uma pedra, que é sólida e firme. E é pela sua graça que eles assim o são. Suas palavras: “Sede firmes”, fazem com que sejam assim. Isto não prova que Pedro fosse a única rocha sobre a qual a igreja seria edificada, nem que o chamado de Tiago e João Boanerges (Me 3.17) prova que eles fossem os únicos filhos do trovão, ou que o chamado de José Barnabé (Atos 4.36) prova que ele fosse o único filho da consolação.