PSICOLOGIA ANALÍTICA

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

Apesar do que atesta o dito popular, a curiosidade move o mundo e, mais do que isso, desperta paixões. Na Psicologia Positiva ela é uma força pessoal.

A curiosidade matou o gato

“A curiosidade matou o gato”, ditado popular bem mais antigo do que a era do conhecimento, parece ter sido criado na Idade Média, quando a caça às bruxas (e a seus respectivos gatos) corria solta, e armadilhas eram construídas para capturar os pobres bichanos que, vítimas de seu instinto curioso, tornavam-se presas fáceis dos terríveis artefatos. A partir de então, ao que tudo indica, a cena cotidiana virou metáfora cujo propósito era o de advertir as pessoas quanto aos riscos de se render ao inquietante espírito indagador.

Felizmente, no entanto, a história da humanidade esteve sempre repleta de impertinentes curiosos e, sobretudo, corajosos o suficiente para não seguirem conselhos. Principalmente conselhos estúpidos. Graças a eles o século XXI é tão maravilhosamente diferente do século XII. Contudo, a despeito das diferenças (e ao que tudo indica também de seus ditados populares), uma coisa permanece a mesma: é a curiosidade de quem escreve o futuro. Foi assim na Idade Média e continuará sendo assim até o final dos tempos. Vale dizer, todavia, que nem sempre a curiosidade   é bem-vinda, visto seu caráter impertinente tão pouco desejado em alguns contextos, tais como nas diferentes ditaduras, sejam elas políticas ou religiosas.

Na visão da Psicologia Positiva, a curiosidade é uma das 24 forças pessoais. Trata-se de uma força derivada da virtude, da sabedoria, esta compreendida como uma qualidade cognitivo­ emocional que possibilita a aquisição e o uso do conhecimento nos assuntos humanos, permitindo ao indivíduo que a possui decidir, avaliar e julgar aquilo que é importante, bem como saber lidar com as incertezas e complexidades da vida.

O sujeito curioso é, antes de qualquer coisa, uma espécie de “alma renascentista” que demonstra interesse por tudo e está sempre em busca de aumentar seu conhecimento. Por isso, costuma ser receptivo às experiências e flexível quanto à possibilidade de experimentar novos comportamentos e situações.

E é justamente por essa sua natureza, que aquele que possui a curiosidade como força talvez seja o tipo de pessoa mais adequado para viver no mundo que vivemos hoje, também conhecido como mundo VUCA, sigla criada pelos militares americanos para descrever os novos desafios que os líderes contemporâneos são obrigados a enfrentar. Formada pelos substantivos volatilidade (volatility), incerteza (uncertainty), complexidade (complexity) e ambiguidade (ambiguity), a sigla também descreve as principais características do mundo atual. A volatilidade corresponde ao aumento da magnitude à frequência das mudanças que enfrentamos atualmente; a incerteza diz respeito à menor clareza que experimentamos em relação ao futuro; a complexidade define a interdependência e a interconexão entre os elementos que compõem a nossa realidade, e a ambiguidade, por sua vez, remete à ausência cada vez mais presente de respostas únicas e certas em relação ao mundo em que vivemos. Nesse contexto, o curioso sai na frente, sobretudo por sua flexibilidade e desejo de explorar o novo, o nunca visto, o não sabido.

Mas isso não é tudo. Tenho o privilégio de viver ao lado de um curioso há 27 anos e, ultimamente, tenho refletido sobre o quanto essa força pessoal da curiosidade tem feito pelo nosso relacionamento. É simplesmente incrível estar ao lado de alguém que faz curso de ourivesaria, medicina chinesa, japonês e ukulele, passando por arco e flecha, alquimia e Psicologia Positiva! Nunca vi isso escrito em nenhum tipo de literatura científica, mas percebo que a curiosidade tem a capacidade de “arejar” relacionamentos além de, é claro, despertar paixões!

  

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

EU, MINHA FAMÍLIA E A TECNOLOGIA

Um dos principais desafios da família contemporânea é identificar a melhor forma de conviver com a tecnologia, que, ao mesmo tempo que proporciona benefícios inquestionáveis, exige cautela em seu uso.

Minha familia, eu e a tecnologia

A Revolução Industrial ampliou e trouxe novas possibilidades de mercado. A indústria substituiu as ferramentas pelas máquinas, energia humana pela força motriz. As máquinas evoluíram e atualmente apresentam um potencial para gerar informações. As novas demandas de mercado possibilitaram grandes avanços tecnológicos, tornando a vida mais prática e fazendo da tecnologia parte do nosso cotidiano, trazendo benefícios para trabalho, saúde e entretenimento. Mas será que se trata só de benefícios?

Que tal fazer uma reflexão: como era sua vida há 25 anos? Como era a comunicação? Havia necessidade dos recursos tecnológicos no cotidiano? O que você fazia quando chegava da escola? Com que frequência você dava notícias para a família? O quanto necessitava da tecnologia?

Pois é! A tecnologia foi ganhando forma e tomando espaço. A sociedade passou a clamar por esse acesso que possibilita a resolução de problemas e facilita a execução de tarefas das simples às mais complexas. A necessidade de informação ficou cada vez mais evidente. E é nesse contexto que a sociedade ingressa no processo de adaptação, transição e aquisição de novos valores, formando uma geração de “nativos digitais” que não conseguem imaginar a vida sem o uso da tecnologia. As gerações mudaram e a tecnologia acompanhou essa mudança, através de novas representações e funções, nas quais as fronteiras entre mundo real e virtual estão cada vez mais indefinidas.

NOVOS DESAFIOS

A mudança no padrão da família é vista claramente: o que aconteceu? O que deixamos acontecer? A tecnologia faz parte da rotina familiar. A atualização da tecnologia e o uso excessivo por parte de todos explicam um pouco a realidade atual, que dificulta as relações entre os membros e causa impacto direto no cotidiano.

A responsabilidade não é da criança, mas sim do contexto familiar no qual ela está inserida. Os cuidadores são responsáveis pela superexposição, que acontece quando a tecnologia é oferecida para conversar ou para entreter a criança quando chora, por exemplo. Com o tempo, os pais e/ou cuidadores se incomodam com os excessos, que foram eles mesmos responsáveis pela inserção da criança. Contexto que vai se tornar uma guerra real de retiradas, proibições e punições para o uso da tecnologia.

 RELAÇÕES INVISÍVEIS

A tecnologia transformou nossa forma de viver e conviver em sociedade. Uma rotina excessiva tecnológica rompe os laços familiares. A realidade se configura com pais e filhos cada vez mais conectados e afastados. Pais e filhos que disputam atenção, competindo com todos os recursos tecnológicos existentes.

Isso vem causando um efeito nocivo, deixando de existir uma comunicação afetiva, regada a troca de olhares, contato singelo, atenção saudável. Comportamentos estes que não são transmitidos pela tecnologia. Como consequência desse novo contexto, o afastamento é inevitável. Noções de relacionamento precisam ser reavaliadas, e dinâmicas familiares, reconstruídas. Importante que os pais façam uma autoavaliação quanto à sua forma de utilização da tecnologia para um uso consciente. Surgem questões:

Minha presença é efetiva? Muitas vezes, a presença é apenas física, porém ausente. Uma presença não efetiva, com baixo aproveitamento, se caracteriza pelo tempo “disponível”, que é disputado com conversas no WhatsApp, curtidas rápidas no Instagram, uma resposta rápida a um e-mail.

Ao utilizar os recursos, ultrapasso os limites aceitáveis?

A utilização desses recursos tecnológicos muitas vezes ultrapassa os limites de segurança e desrespeita leis básicas ou regras gerais de etiqueta, como o uso enquanto se está dirigindo, nos momentos de refeições e conversas ou quando se está cuidando dos filhos.

Momentos de lazer, família reunida, um instante de brincadeira, uma conversa enquanto veem um filme. Situações simples que, se a tecnologia estiver presente pode resultar em distanciamento, pode gerar mudança no comportamento da criança, que pode não querer a presença dos pais, evitando situações de lazer, brincadeiras e desistindo de conversar.

É preciso um momento de reflexão por parte dos responsáveis. Tomar consciência não é fácil. Perceber os prejuízos é a primeira lição. Os pais têm dificuldades de lidar com essa nova realidade e precisam se preparar mais para esse mundo cada vez mais tecnológico. Alguns questionamentos são comuns, como:

PAIS: Qual é o limite de idade em que posso oferecer a tecnologia? Por quanto tempo é adequado o uso?

No ano de 2015, a Academia de Pediatria Canadense (CPS) recomendou limitações para exposição a qualquer mídia até os 2 anos. Atualmente, houve uma mudança de postura, alegando que cada família pode e deve escolher a forma de integrar­ se com a tecnologia. A Academia Americana de Pediatria (AAP) indica apenas 1 hora de tela dos 18 meses aos 5 anos, recomendando que seja fracionada durante todo o dia e com conteúdos adequados à idade, com foco em benefícios pedagógicos ou para o desenvolvimento de inteligência emocional.

O manual de orientação, organizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), recomenda:

Tempo de uso diário ou duração total/dia do uso de tecnologia digital seja limitado e proporcional às idades e às etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicossocial das crianças e adolescentes.

Desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas digitais, com exposição aos conteúdos inapropriados de filmes e vídeos, para crianças com menos de 2 anos, principalmente durante as horas das refeições ou 1- 2 horas antes de dormir.

Limitar o tempo de exposição às mídias ao máximo de 1 hora por dia, para crianças entre 2 e 5 anos de idade.

Crianças entre O e 10 anos não devem fazer uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos.

Os pais devem estabelecer limites de horário.

PAIS: Uso liberado ou uso limitado?

Dar permissão para o acesso não é igual a dar autonomia. Os pais devem controlar seus filhos do mesmo modo que o fariam em relação às atividades convencionais. As crianças/adolescentes precisam seguir regras, os limites precisam estar claros quanto ao uso da tecnologia. Uma boa estratégia é definir previamente o tempo de uso, com horários previamente estabelecidos.

PAIS: Posso fazer checagens ou é invasão de privacidade? Posso bloquear conteúdos?

Os pais precisam ficar atentos à questão de segurança quanto ao uso. Para diminuir os riscos, é importante manter um diálogo aberto para instrução e orientação, esclarecer dúvidas, explicando o porquê da cautela e algumas proibições. Checagens e bloqueios de conteúdos impróprios, através de ferramentas específicas, fazem parte da educação e do cuidado que pais precisam ter.

Uma pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) retrata que 21% dos pais não controlam ou restringem o uso da internet pelos filhos. Nessa ausência de controle mora o perigo.

A Lei nº 12.965 de 2014 – o Marco Civil da Internet – em seu artigo 29 explicita a necessidade de controle e vigilância parental e educação digital como formas de proteção frente às mudanças tecnológicas, em especial sobre os impactos provocados nas famílias e, especialmente, nas rotinas e vivências das crianças e adolescentes.

Com isso, os pais têm o dever de exercer essa mediação entre seus filhos e a tecnologia, alertando sobre perigos e riscos, verificando a classificação indicativa de conteúdos, bloqueando conteúdos não adequados e impondo regras e limites claros.

PAIS: Quando se configura dependência?

A dependência se configura quando se tornam reféns da tecnologia, principalmente dos jogos eletrônicos, e quando ela começa a afetar todos os âmbitos de convivência: familiar, social, educacional.

As duas faces da tecnologia: vilã ou heroica?

Precisamos avaliar os dois polos da tecnologia. Tirar bom proveito, quando for bem conduzida e administrada, e perceber que o excesso é perigoso e traz consequências. Pais inteligentes usam a tecnologia a seu favor, cientes de que ela não substitui o contato físico, o olhar, o carinho e as palavras cara a cara.

FCE VILÃ

Dificuldade de socialização e conexão com outras pessoas da mesma idade.

Isolamento e troca de brincadeiras ao ar livre podem gerar problemas à saúde, como a inatividade física e falta de vitaminas pela não exposição ao sol, o sedentarismo.

Problemas relacionados ao padrão alimentar. O uso de jogos e de internet, muitas vezes intenso, pode gerar aumento ou perda de peso. O excesso de tempo dedicado a atividades que não gastam calorias, as refeições rápidas, a atenção voltada ao computador e aos jogos no momento das refeições podem fazer com que se perca noção da quantidade de alimento ingerido, além de a pessoa não perceber os sinais de saciedade e de fome, podendo gerar tanto a obesidade quanto a perda involuntária de peso.

Problemas relacionados ao sono e diminuição da melatonina, hormônio que ajuda no ato de dormir. Problemas visuais. Aumento de número de casos de miopia, junto com dores nas costas, pela postura inadequada, e dores de cabeça, pelo contexto total de exposição.

Problemas auditivos, pelo uso excessivo de fones de ouvido.

Problemas posturais e lesões por esforço repetitivo (LER).

Aumento de casos de depressão e ansiedade pelos excessos.

FACE HEROICA

A tecnologia pode ser forte aliada na aprendizagem, possibilitando acesso ao mundo da educação e da cultura, estimulando interesses pessoais, servindo de motivação para o crescimento.

Pode ser utilizada como forma integrada de projetos pedagógicos, aproximando-se da geração.

Com a utilização constante, houve uma revolução literária. Crianças e adolescentes passaram a se sentir mais confortáveis quanto ao hábito de escrever.

Pode estreitar laços afetivos entre os membros da família, quando o uso em parceria é estimulado através de jogos e aplicativos educativos.

Combate o sedentarismo, através de jogos que necessitam de movimento, como alguns de esportes ou dança.

 INVERSÃO DE PAPÉIS

Uma pesquisa realizada pelo Centro de Investigações Sociológicas (CIS) espanhol retrata que sete em cada dez pais pedem ajuda aos filhos para usar o smartphone e quatro em cada dez confiam nos filhos para explicações sobre como utilizar o computador ou navegar na internet.

As crianças que nasceram no berço tecnológico possuem um manejo rápido, diferente das outras gerações. Se não houver uma boa condução dessa relação de hierarquia tecnológica, o papel da autoridade dos pais pode ser enfraquecido, levando a criança ao desrespeito, como se os pais “não soubessem de nada”.

TEC COM MODERAÇÃO!

livro TECnologia: um Amor Quase Perfeito, da Sinopsys Editora, traz uma proposta de material dividido em duas partes, nas quais pais e filhos podem entrar na história e vivenciar o mesmo contexto sob olhares diferentes. No final de cada parte, apresenta orientações práticas para cada público.

O livro também propõe alguns experimentos e atividades que podem ser realizadas em família, como forma de estimular a percepção e busca do equilíbrio. Estimulando a construção de novos hábitos familiares e um novo padrão comportamental.

 

Experimento: #PartiuObservar

Observar a interação das pessoas com o uso de TEC, uma média de 20 minutos.

Local: shopping, restaurantes, praias, filas.

Como foi a interação dessas pessoas? Elas perderam o contato com a realidade? Como acredita que o “outro” está se sentindo?

 

Experimento: #DETOXFamília

Listar junto com a família todos as TECs que possuem em casa.

Não fazer uso de todas as TECs da casa durante um dia inteiro ou fim de semana.

Procurar atividades alternativas em família.

Conversar como foi a experiência com todos os membros (falar sobre os sentimentos e pensamentos associados).

 NOSSA MISSÃO

Seria um retrocesso se eliminássemos o avanço tecnológico. A tecnologia faz parte da nossa vida e isso é inevitável. Não existem regras inflexíveis ou orientação única. Mas aplicação de limites e regras ao uso da internet é imprescindível, com combinações claras e coerentes para todos os integrantes. Precisamos perceber que houve um desequilíbrio na nossa vida com a chegada dela, e agora é o momento de buscar estabilidade, com regulação do uso. Esse será nosso grande desafio: Conseguir compreender a linha tênue entre o uso normal e abusivo e utilizar a tecnologia de forma organizada, controlada e monitorada.

LIVRO REVELA UTILIZAÇÃO INADEQUADA DA TECNOLOGIA

O livro Desconecta: Vencendo o Uso Problemático de Jogos Eletrônicos, do autor Igor Lemos e lançado pela Sinopsys Editora, revela o uso inadequado de tecnologia. Trata- se de uma temática que vem obtendo significativa expansão na literatura científica especializada e em diversos setores da mídia. Devido à relevância do tema, a dependência de jogos eletrônicos também gerou interesse de pais e educadores que lidam constantemente com filhos e estudantes, respectivamente, com uso problemático desse recurso tecnológico, seja em casa ou no ambiente escolar. Dessa forma, esse livro, baseado na terapia cognitivo- comportamental, busca atender crianças entre 6 e 11 anos de forma que consigam usufruir de maneira saudável o mundo dos jogos eletrônicos, podendo ser utilizado como um manual, no qual as etapas deverão ser seguidas de forma progressiva, à medida que a criança for evoluindo. Esse livro será útil tanto na prática clínica como para pais e mães que querem ajudar seu filho ou filha a lidar melhor com o uso de tecnologias, assim como os educado res, que convivem diariamente com o seu uso nocivo na área escolar.

Minha família, eu e a tecnologia5

MENOS TEMPO JUNTOS

A Common Sense Media desenvolveu uma pesquisa na qual apresenta os dados de que 28% das famílias com crianças até 8 anos reconhecem que estão passando menos tempo juntas por conta das distrações provenientes das tecnologias. A Common Sense Media é uma organização sem fins lucrativos de San Francisco, Califórnia, Estados Unidos, que oferece educação para famílias menos privilegiadas, com o objetivo de promover o acesso e a democratização da cultura de forma segura.

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PAIS E FILHOS

Um estudo realizado pela AVG Technologies, em 2015, empresa especializada em segurança on-line, revela que a tecnologia está afetando o relacionamento entre pais e filhos em nível global:   54% dos pais confessaram que olham vezes demais para o seu smartphone e 29% assumem que não estão dando um bom exemplo aos filhos em relação ao uso de dispositivos móveis. E 42% das crianças ouvidas sentem que seus pais passam mais tempo no celular do que com elas.

Minha família, eu e a tecnologia3 

PAIS PRECISAM SABER!

Orientações

  • As crianças são vítimas e não vilãs. Não deixem TEC educar seus filhos! Conduzam essa interação. Proibir não é a solução, apenas dosar na medida certa. O papel dos pais é ser guia e mediador dessa relação com a tecnologia.
  • Os pais precisam colocar regras e horários para os filhos. Não existe um tempo limite, existe bom senso e coerência na utilização.
  • As crianças precisam de controle e fiscalização de conteúdos. Isso não é invasão! A tecnologia necessita de autodisciplina e autocontrole, comportamentos ainda em formação por parte das crianças. Então, isso é papel dos pais.
  • Não precisam possuir todo tipo de tecnologia lançada. Lembre-se de que a tecnologia faz parte do consumismo.
  • O uso exagerado pela criança pode causar deficiência no sono, alteração dos padrões alimentares, queda no rendimento escolar.
  • Fisicamente, o uso excessivo pode prejudicar a coluna, pela posição indevida de utilização.
  • Dependendo do conteúdo, pode gerar agressividade. Vocês precisam ficar alertas sobre a forma de utilização e conteúdo exposto.
  • Pela comodidade, praticidade e preguiça, a tecnologia pertence a um ciclo de sedentarismo. Os hábitos se resumem ao mínimo esforço. As atividades físicas de lazer ficaram em segundo plano. Invista em práticas saudáveis e atividades em que haja movimento e participação do outro, evitando o que muitas vezes a tecnologia impõe.
  • O contato excessivo com TEC pode prejudicar a consolidação da habilidade humana de percepção das emoções, uso e entendimento delas. Pode gerar comportamentos egoístas e declínio da empatia pela falta de convívio social. Procurar dosar com programas que envolvam o contato social.
  • Os pais podem estar presentes como guias ou serem orientados de como é o funcionamento pela criança. Isso seria uma maneira de integrar- se e acompanhar a utilização.
  • Podem escolher programas educativos ou jogos que estimulem a interação, criatividade e cognição. Certifiquem ­se da idade, leiam as instruções desse momento, assistam ou participem
  • Prestem a tenção em como estão fazendo uso. Muitas vezes vocês apontam e esquecem de fazer uma auto­avaliação.
  • Não esqueçam: O limite entre o público e privado é muito sutil. A vida do seu filho não precisa ser uma manchete exposta nas redes sociais através de TEC.

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CRIANÇAS PRECISAM SABER!

Orientações

  • .. Seus pais precisam delimitar o horário que você utiliza TEC, porque, às vezes, você pode entrar no mundo de TEC e esquecer de sair. Isso termina prejudicando sua relação com seus amigos, seu rendimento na escola.
  • Hummmm, você não quer que seus pais vejam o conteúdo que está acessando? Também não quer concordar que alguns conteúdos não fazem par te da sua faixa etária? Você está errado! Seus pais sabem o que é melhor para você. Eles precisam selecionar o que pode e o que não pode assistir, falar, jogar.
  • Seus pais estão proibindo você de entrar nas redes sociais? Primeiro, precisamos saber da sua idade. Você realmente precisa estar conectado nessas redes? Certo. Se seus pais permitirem, eles precisam monitorar esse conteúdo, porque, muitas vezes, essa exposição pode ser perigosa.
  • .. Assunto chato: Tempo. É verdade, amigo, precisa de um tempo limite para todo tipo de TEC, se não vira vício. Sabe o que é isso? Quando a gente não consegue mais controlar nosso impulso e queremos o tempo inteiro TEC. Para que isso não ocorra, você vai conversar com seus pais e entrar em acordo sobre o tempo necessário e saudável para utilização.
  • Você não faz atividade física? Passa o dia agarrado com TEC? Isso não é legal! Aprenda a dosar TEC com atividades livres, faça intervalos entre o uso.
  • Não troque atividades com amigos para conectar- se com TEC. Prefira o social que o virtual. Essa troca com os amigos, brincadeiras, risadas, contato … É tudo de bom!
  • Você quer ficar mais conectado do que se envolver com seus estudos? Isso pode ter consequências. Avalie se suas notas estão caindo ou se você está deixando de fazer atividades. Isso é um perigo! Percebendo isso… Mude! Antes que você se prejudique, ok?
  • Quer todos os aparelhos e tecnologias da moda? Esqueceu do meio ambiente? Evite a troca sem necessidade.
  • Está sentindo dores nas costas? Sabe o que pode significar? Às vezes é a posição em que você está sentando para jogar, assistir TV ou pela inclinação para ver o celular. Lembre-se de prestar atenção no seu corpo, para não se prejudicar.
  • Cuidado com os conteúdos de TEC! Às vezes, tem uma classificação que precisa ser seguida! Lembre-se dos recados: ‘Proibidos para menores’ ou ‘conteúdos não adequados para criança’, ‘conteúdo violento’. Então pergunte aos pais antes de acessar qualquer conteúdo em TEC. Eles saberão te orientar melhor.
  • Não esqueça: Cuidado com tudo que é postado nas redes sociais através de TEC! Têm situações perigosas no uso de TEC. Os seus pais podem te explicar melhor. Tem que ficar alerta e não se expor, ok?

 

VANINA CARTAXO – é psicóloga infantil e escritora de vários livros, todos pela Sinopsys Editora, entre eles: Tecnologia: um Amor Quase Perfeito; Previsão do Tempo: Entendendo a Bipolaridade Infantil; O Cérebro e seus Moradores: Não Quero Sair da Bolsa! Entendendo a Ansiedade de Separação; Entendendo os Padrões de Dificuldade Alimentar.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Lidar melhor com as emoções negativas (e positivas) é o caminho para liderar com eficiência, entregar resultados sob pressão e se destacar em um mercado em crise.

Inteligência emocional

Em março de 2014 o voo O6 6393 da Avianca, que havia partido de Petrolina para Belo Horizonte com conexão em Brasília e 49 pessoas a bordo, teve problemas. O trem de pouso dianteiro do Fokker 100 não abriu e forçou o comandante Eduardo Verly a fazer uma aterrissagem de emergência no Aeroporto Juscelino Kubitschek. Após comunicar calmamente a torre da capital federal, o piloto sobrevoou a cidade para gastar combustível e pousou a aeronave de bico com todos os passageiros a salvo. Na época, a tranquilidade do comandante Verly foi apontada como o principal fator para que o episódio não entrasse na lista de acidentes aéreos do país.

Embora nem todo mundo trabalhe na aviação, todos precisamos aprender a controlar nossas emoções nos momentos de tensão. Principalmente em um período de crise econômica como o que estamos passando, no qual nos deparamos com um cenário de pressão por resultados, demissões, cortes e sobrecarga de trabalho, saber lidar com sentimentos como preocupação, angústia, raiva e medo é a chave para não entrar em desespero nem perder o controle da própria carreira. “Todas as emoções têm um aspecto, até mesmo corporal, que vai variar de pessoa para pessoa. Em mim, a ansiedade pode vir acompanhada de suor e coração acelerado, em outra pessoa pode se manifestar de uma maneira diferente. Saber como essa emoção acontece é importante para aprender a controlá-la”, diz a psicóloga clínica Daniela de Oliveira, de São Paulo. E é aí que entra em jogo uma velha conhecida do mundo corporativo: a inteligência emocional.

Definida como a capacidade de sentir, entender, controlar e modificar o próprio estado emocional ou o de outra pessoa, o termo se tornou famoso após o lançamento, em 1995, do best-seller Inteligência Emocional (Objetiva, 57,90 reais), do americano Daniel Goleman. Até pouco tempo atrás, o sucesso de uma pessoa era avaliado pelo raciocínio lógico, o famoso quociente de inteligência (QI). Mas o livro de Goleman trouxe outro aspecto para justificar os sucessos e insucessos de uma pessoa, o quociente emocional (QE). “Passamos por um deslocamento no padrão de competitividade, que antes era calcado nas competências técnicas, para outro cada vez mais centrado na subjetividade e na flexibilidade como capacidade de influenciar e engajar”, diz Anderson Sant’Anna, coordenador do núcleo de desenvolvimento de pessoas e liderança da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais.

E a competência continua bastante valorizada. De acordo com uma pesquisa da consultoria americana Talent Smart, 90% dos profissionais mais bem avaliados pelos seus gestores têm um bom controle das suas emoções. Enquanto isso, apenas 20% dos funcionários com desempenho abaixo do esperado possuem a habilidade. “Quando você está consciente de si mesmo, é muito mais provável que encontre as oportunidades certas, coloque seus pontos fortes no trabalho e, talvez mais o importante, controle as emoções que o impedem de crescer”, afirma Travis Bradberry, coautor do livro Emotional Intelligence 2.0 (Perseu Books, sem edição no Brasil). Se fazer isso em momentos de calmaria já é complicado, na crise o desafio é maior. “Para grande parte das empresas, a crise significa menos recursos. Quanto mais escassos esses meios, maior a disputa por eles. Isso, em geral, leva a mais conflitos e competitividade”, diz Rogério Calia, professor do curso de administração da USP de Ribeirão Preto.

Além de maior competitividade, o clima de pessimismo também contagia. “Ambientes estressantes despertam emoções ruins, servem de gatilho ou estímulo interno para trazer emoções com as quais não lidamos bem”, diz Rodrigo Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (Sbie), de São Paulo. Saber gerir esses sentimentos ruins é a chave para não se deixar levar pelo clima de derrota que está ao redor. “Se o ambiente está desmotivador é preciso que eu controle a forma como eu ajo para não me deixar contaminar. Preciso focar no que posso fazer agora, sem sofrer por antecipação. Quanto mais reclamo ou discuto algo que não está ao meu alcance mais aumenta o sentimento negativo”, diz Rubens Pimentel, sócio da Ynner Treinamentos, consultoria de desenvolvimento pessoal, de São Paulo.

Para os líderes, essa competência é importantíssima. Afinal, seu papel é o mesmo de um piloto de avião: manter a calma para não contaminar a equipe diante de situações críticas. “Cada grupo é reflexo da liderança. Se há alguém menos equilibrado no topo, o resto da pirâmide também vai ficar em desequilíbrio”, diz José Roberto, do IBC. Por isso, os líderes precisam mais do que nunca de autocontrole. É necessário, por exemplo, respirar fundo para não dar respostas e soluções rápidas (que geralmente não funcionam) e para não colocar a culpa nos outros (o que aumenta os conflitos). Quando o líder não tem controle emocional, o resultado é a piora de um cenário que já era ruim. “Ao não saber lidar com os próprios sentimentos e com as outras pessoas, o gestor se torna mais agressivo, in- transigente e controlador”, diz Rubens.

SENTIMENTOS ELÁSTICOS

Um elástico quando é distendido pode arrebentar ou voltar ao seu estado natural devido à resiliência. Originado na física, o termo é usado para definir a capacidade de um material de retornar à forma original após ter sido submetido a uma tensão. Assim como o elástico, nós podemos sucumbir ou nos recuperar de momentos difíceis – e essa competência está intimamente relacionada com a forma com a qual lidamos com nossas emoções. “Quanto maior sua inteligência emocional, mais resiliente você é, porque consegue ressignificar os episódios ruins e gerar aprendizado com a adversidade”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC).

Porém, mais do que apenas nos reerguer após um momento crítico, a resiliência emocional está ligada ao aprendizado que aquela situação nos trouxe. “Existem dois extremos: a recuperação que acontece rápido demais e aquela que acontece muito devagar. A recuperação lenta mostra que a pessoa não é resiliente, que se deixa abater pela adversidade. A rápida demais pode ser, na verdade uma falsa resiliência, na qual o indivíduo não entra em contato com a realidade emocional. Pode até se levantar em minutos, mas não há ganhos em termos de mudança”, diz Stephen Little, professor da The School of Life, em São Paulo. De acordo com Stephen, a capacidade de aceitar a queda e vivenciar esse momento em vez de afastá-lo é o que vai diferenciar uma pessoa que passa por um momento difícil e consegue extrair algo positivo daquela que apenas atravessa a tempestade. “A nossa maneira automática de resistir é nos afastar da dor. Essa reação vem do lado direito do cérebro, aquele ligado aos processos racionais. Quando a pessoa consegue exercitar o lado esquerdo e se mantém em contato com essa dor, nem que seja por alguns minutos, fica mais consciente de suas atitudes internas e encara os desafios de uma forma mais objetiva”, afirma.

GINÁSTICA DAS EMOÇÕES

Ao contrário do seu QI, que vai permanecer mais ou menos o mesmo ao longo da sua vida, o seu quociente emocional pode ser desenvolvido. “Há uma via neuronal entre os centros racionais e emocionais do seu cérebro e você pode construir novos caminhos de informação. Depois de treinar o seu cérebro usando repetidamente novas estratégias de inteligência emocional, esses comportamentos irão se tornar hábitos”, diz Travis Bradberry. E os momentos de crise são perfeitos para fazer essa ginástica sentimental – não vão faltar situações em que seu emocional será colocado à prova. “Podemos aprender através da repetição ou após passar por episódios que tiveram forte impacto emocional. Todos nós já vivenciamos situações que fizeram uma grande transformação no nosso cérebro”, afirma Rodrigo.

Outro passo para conseguir se tornar uma pessoa mais inteligente emocionalmente é buscar saber como você e as pessoas ao seu redor funcionam. Desse jeito fica mais fácil entender o aspecto cíclico das situações e aceitar que momentos ruins sempre vão aparecer – e passar. “Somos engolidos pelos ambientes sem nem perceber. É preciso entender o contexto e como isso afeta você”, diz a psicóloga Daniela. A partir daí, é possível encontrar recursos internos para lidar com as dificuldades. “Você percebe que tudo é passageiro, tanto as crises quanto as alegrias.” Só lembre-se que ser inteligente emocionalmente não vai deixá-lo imune aos altos e baixos. Essa competência apenas ajuda a lidar com as emoções negativas, sem anulá-las. “Quem tem essa capacidade mantém o foco no que é solucionável”, diz Rodrigo. Mas saiba que, por mais treinado que você seja, ainda é possível que tenha dias ruins. “Dependendo da situação, estamos mais ou menos controlados emocionalmente. É importante reconhecer isso também porque, em alguns momentos, devido ao estresse ou ao cansaço, você estará mais propenso a perder o controle”, diz Daniela. O objetivo é melhorar sua capacidade, porque, embora a inteligência emocional não o impeça de sentir aquele frio na barriga no meio da montanha-russa das emoções, vai ajudar a lidar melhor com as reviravoltas — da carreira ou da vida.

 

8 SINAIS DE QUE VOCÊ TEM COMPETÊNCIA EMOCIONAL

1 – PENSAR POSITIVO – Saber que a vida é um ciclo interminável de altos e baixos e se concentrar apenas no que pode resolver.

2 – VOCABULÁRIO EMOCIONAL – Capacidade de descrever corretamente o que está sentindo, e não apenas categorizar os sentimentos em bons ou ruins.

3 – SER ASSERTIVO – Equilibrar boas maneiras, empatia e bondade com a capacidade de se afirmar e estabelecer limites.

4 – CURIOSIDADE SOBRE AS PESSOAS – Ser empático, preocupando- se e tendo interesse em entender a realidade dos outros.

5 – PERDOAR, MAS NÃO ESQUECER – Entender que guardar rancor é um sentimento negativo e perdoar os erros cometidos – embora isso não queira dizer que dará sempre uma segunda chance.

6 – NÃO SE ABATER – Não se deixar influenciar facilmente pelo julgamento alheio e, por isso, não balizar seus méritos de acordo com parâmetros dos outros.

7 – SEM SE OFENDER – Ter autoconfiança alta, sendo mais resistente a críticas ou ofensas.

8 – SE DIVERTIR – Saber quais atividades dão prazer e entender a importância de realizá-las regularmente.

MANIPULADORES EMOCIONAIS

Alguns pesquisadores apontaram para o lado maquiavélico do controle das emoções. De acordo com um estudo publicado pela escola de negócios da Universidade A&M do Texas, feito pelos professores Martin Kilduff, Dan S. Chiaburu e Jochen I. Menges, a inteligência emocional pode adquirir um viés de manipulação. Segundo os estudiosos, ter essa habilidade de forma muito elevada pode levar as pessoas a fabricar sentimentos para conseguir informações ou ganhos pessoais. A linha tênue para o lado obscuro é a ética pessoal. “Há pessoas que, naturalmente, influenciam os outros. A diferença é se você vai usar essa interferência em benefício próprio ou não”, diz Rubens Pimentel, sócio da Ynner Treinamentos, consultoria de desenvolvimento pessoal, de São Paulo. Usar a inteligência emocional para manipular outra pessoa fará com que se perca algo muito importante nas relações interpessoais: a confiança. Essa estratégia no longo prazo pode trazer prejuízos. Não há carisma que sustente uma relação em que apenas uma das partes é beneficiada. Com o tempo, quem comete esse tipo de influência vai sentir as emoções negativas que isso traz.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 39-36

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

Nestes versículos, temos um relato do testemunho de João a respeito de Jesus Cristo, quando deu testemunho aos seus próprios discípulos, que o seguiam. Imediatamente depois de ter sido batizado, Cristo foi rapidamente ao deserto, para ser tentado. E ali esteve durante quarenta dias. Durante sua ausência, João tinha continuado a testificar dele, e a falar ao povo sobre Ele, mas agora, por fim, ele viu a Jesus, que vinha para ele, retornando do deserto da tentação. Depois de terminado o conflito, Cristo retornou imediatamente a João, que estava pregando e batizando. Cristo foi tentado para nos dar um exemplo e incentivo. E isto nos ensina:

1. Que as dificuldades de uma condição de tentação devem nos incentivar a nos aproximarmos das ordenanças, a entrarmos no santuário de Deus, Salmos 73.17. Nossos combates com Satanás devem nos estimular a nos aproximarmos da comunhão dos santos. Dois são melhores do que um.

2. Que as honras de uma situação vitoriosa não devem nos colocar acima das ordenanças. Cristo tinha triunfado sobre Satanás, e tinha sido auxiliado por anjos, e, ainda assim, depois de tudo, Ele retorna ao lugar onde João estava pregando e batizando. Enquanto nós estivermos deste lado do céu, quaisquer que sejam as visitas extraordinárias da graça divina que possamos ter, em qualquer ocasião, nós ainda devemos nos aproximar dos meios comuns de graça e consolo, e andar com Deus neles. Aqui estão dois testemunhos dados por João a respeito de Cristo, mas os dois significam a mesma coisa.

 

I – Aqui está seu testemunho a respeito de Cristo, no primeiro dia, quando o viu retornando do deserto. E aqui ele testifica quatro coisas a respeito de Cristo, quando o teve diante de seus olhos:

1. Que Ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, v. 29. Aqui, aprendemos:

(1) Que Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus, o que evidencia que Ele é o grande sacrifício, por cujo intermédio é feita a expiação dos pecados, e o homem se reconcilia com Deus. Entre todos os sacrifícios legais, ele decide fazer alusão aos cordeiros que eram ofertados, não somente porque o cordeiro é um símbolo de mansidão, e Cristo deve ser conduzido como um cordeiro para o matadouro (Isaias 53.7), mas com uma referência especial:

[1] Ao sacrifício diário, que era oferecido todas as manhãs e todas as tardes, continuamente, e que era sempre um cordeiro (Êxodo 29.38), que era um tipo de Cristo, como a propiciação duradoura, cujo sangue fala continuamente.

[2] Ao cordeiro pascal, cujo sangue, sendo espargido sobre a verga das portas, protegeu os israelitas do ataque do anjo destruidor. Cristo é nossa Páscoa, 1 Coríntios 5.7. Ele é o Cordeiro de Deus. Ele foi designado por Deus (Romanos 3.25), Ele é dedicado a Ele (cap. 17.19), e Ele é aceito por Ele. Deus se compraz neste precioso Cordeiro. A sorte que caiu sobre o bode que seria oferecido para expiação do pecado foi chamada de “sorte pelo Senhor” (Levítico 16.8,9). Também Cristo, que faria a expiação definitiva do pecado, é chamado de Cordeiro de Deus.

(2) Que Jesus Cristo, como o Cordeiro de Deus, tira o pecado do mundo. Esta era sua missão. Ele manifestou-se “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo”, Hebreus 9.26. João Batista tinha convocado as pessoas para que se arrependessem dos seus pecados, para sua remissão. Aqui ele mostra como, e por intermédio de quem, esta remissão devia ser esperada, qual base para esperança nós temos de que nossos pecados serão perdoados com nosso arrependimento, embora nosso arrependimento não os compense. Nós temos esta base de esperança – Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus.

[1] Ele tira o pecado. Sendo o Mediador entre Deus e o homem, Ele tira o que é, acima de qualquer coisa, ofensivo à santidade de Deus, e destrutivo à felicidade do homem. Ele veio, em primeiro lugar, para remover a culpa pelo peca­ do através do mérito da sua morte, para cancelar o julgamento e reverter a desonra e a condenação, sob as quais a humanidade se encontrava, através de um ato indenizatório, cujo benefício todos os crentes penitentes e obedientes podem reivindicar. Em segundo lugar, para remover o poder do pecado, pelo Espírito da sua graça, de modo que ele não tenha domínio sobre nós, Romanos 6.14. Cristo, como o Cordeiro de Deus, lava-nos dos nossos pecados com seu próprio sangue. Isto é, Ele nos justifica e, ao mesmo tempo, nos santifica, Ele tira o pecado. Ele está removendo o pecado do mundo, o que indica não um ato isolado, mas um ato contínuo. Tirar o pecado é seu trabalho e ofício constante, o que é um trabalho de tempo, que jamais será completado até que não haja mais tempo. Ele está sempre tirando o pecado, pela contínua intercessão do seu sangue no céu, e pela contínua influência da sua graça na terra.

[2] Ele tira o pecado do mundo. Ele comprou o perdão para todos aqueles que se arrependem, e creem no Evangelho, não importando a qual país, nação ou língua pertençam. Os sacrifícios legais faziam referência somente aos pecados de Israel, para expiá-los, mas o Cordeiro de Deus foi oferecido como propiciação dos pecados de todo o mundo. Veja 1 João 2.2. Isto é encorajador para nossa fé. Se Cristo tira o pecado do mundo, então por que não tirará meu pecado? Cristo direcionou sua força ao corpo principal do exército do pecado, e golpeou sua raiz visando a derrubada de toda aquela maldade em que o mundo inteiro se encontrava. Nele, Deus estava reconciliando o mundo com Ele mesmo.

[3] Ele faz isto assumindo o pecado sobre si mesmo. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Várias traduções da Bíblia Sagrada trazem esta anotação em sua margem. Ele tomou sobre si nossos pecados, e, sendo assim, Ele o remove da nossa vida. Ele suportou o pecado de muitos, assim como o bode expiatório teve os pecados de Israel colocados sobre sua cabeça, Levítico 16.21. Deus poderia ter tirado o pecado tirando o pecador, que era a forma que Ele utilizava para tirar o pecado no mundo antigo. Mas Ele providenciou uma maneira de eliminar o pecado e poupar o pecador, tornando seu próprio Filho pecado por nós.

(3) Que é nosso dever, com olhos de fé, observar o Cordeiro de Deus removendo assim o pecado do mundo. Veja-o tirando o pecado, e permita que cresça o ódio que sentimos do pecado, e nossa determinação contra ele. Não nos apeguemos àquilo que o Cordeiro de Deus veio para remover, pois Cristo irá remover nossos pecados, ou a nós. Que cresça nosso amor por Cristo, que nos amou, e que em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, Apocalipse 1.5. Seja o que for que Deus se compraz em remover de nós, se além disto Ele remover nossos pecados, nós teremos razão para sermos gratos, e não teremos motivos para reclamar.

2. Que este era aquele de quem ele tinha falado antes (vv. 30,31): “Este é aquele, esta pessoa a quem eu aponto agora, vocês podem ver onde Ele está, este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem”. Observe:

(1) João teve esta honra acima de todos os profetas, pois, enquanto eles falavam dele como alguém que viria, Ele o viu já chegado. “Este é aquele”. Ele o vê agora, o vê de perto, Números 24.17. Esta é a diferença que existe entre a fé atual e a visão futura. Agora nós amamos àquele a quem não vimos. Então nós veremos àquele a quem nossas almas amam, nós o veremos e diremos: “Este é aquele do qual eu disse, meu Cristo, e meu tudo, meu Amado, e meu Amigo”.

(2) João chama a Cristo de homem: ”Após mim vem um homem” – um homem forte, como o homem, o Renovo, ou o homem que está à direita de Deus.

(3) Ele faz referência ao que ele mesmo tinha dito antes sobre Cristo: “Este é aquele do qual eu disse”. Observe que aqueles que disseram as coisas mais honrosas a respeito de Cristo, nunca terão motivos para retirar o que disseram, mas quanto mais o conhecerem, mais serão confirmados na avaliação que fazem dele. João ainda pensa tão humildemente sobre si mesmo, e de uma forma tão elevada a respeito de Cristo, como sempre. Embora Cristo não aparecesse com nenhuma pompa externa, ou grandeza, ainda assim João não se envergonha de reconhecer: “Este é aquele [que] era primeiro do que eu”. E era necessário que João lhes apresentasse a pessoa de Cristo desta forma, pois, de outra maneira, eles não teriam acreditado que alguém que tinha uma aparência tão humilde pudesse ser aquele de quem João tinha dito coisas tão grandes.

(4) Ele protesta quanto à coligação ou combinação com este Jesus: “E eu não o conhecia”. Embora houvesse algum parentesco entre eles (Isabel era prima de Maria), ainda assim eles não se conheciam. João não conhecia Jesus pessoalmente, até que o viu vindo para seu batismo. Seus estilos de vida tinham sido diferentes. João tinha passado seu tempo no deserto, no isolamento. Jesus, em Nazaré, em um intercâmbio social constante. Não houve correspondência, nem encontros entre eles, para que ficasse claro que o assunto estava sendo completamente realizado pela orientação e disposição do Céu, e não por qualquer desígnio ou concerto das próprias pessoas. E da mesma maneira como ele negou conluio, também negou parcialidade e desonestidade a este respeito. João não poderia ser considerado como alguém que estivesse favorecendo o Senhor Jesus como um amigo, pois não havia amizade nem familiaridade entre eles. Na verdade, assim como ele não poderia ser levado a falar honrosamente a respeito do Senhor, por ser um estranho para Ele, João não podia dizer nada dele, exceto o que recebia do céu, ao qual ele apela, cap. 3.27. Observe que aqueles que são ensinados, creem e confessam aquele a quem não viram, e bem-aventurados são aqueles que, apesar disso, têm crido.

(5) A grande intenção do ministério e do batismo de João era apresentar a Jesus Cristo: “Para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água”. Observe:

[1] Embora João não conhecesse a Jesus pessoalmente, ainda assim ele sabia que Ele devia manifestar-se. Observe que nós podemos conhecer a certeza daquilo cuja natureza e intenção nós não conhecemos completamente. Nós sabemos que a felicidade do céu deverá se manifestar a Israel, mas não podemos descrevê-la.

[2] A completa certeza que João tinha, de que Cristo seria manifestado, serviu para conduzi-lo com diligência e resolução no seu trabalho, em­ bora ele fosse mantido no escuro quanto aos detalhes: “Vim eu, por isso”. Nossa certeza da realidade das coisas, embora sejam invisíveis, é suficiente para nos incentivar no nosso dever.

[3] Deus se revela ao seu povo gradualmente. A princípio, João não sabia, a respeito de Cristo, nada além de que Ele deveria se manifestar. Confiando nisto, ele veio batizando, e agora é privilegiado com uma visão dele. Aqueles que, pela Palavra de Deus, creem naquilo que não veem, em breve verão aquilo em que agora creem.

[4] O ministério da palavra e dos sacramentos não tem outro objetivo, senão conduzir as pessoas a Cristo, e torná-lo cada vez mais manifesto.

[5] O batismo com água abre caminho para a manifestação de Cristo, como também pressupõe nossa corrupção e imundície, e significa nossa purificação por aquele que é a “fonte aberta”.

3. Que este era aquele sobre o qual o Espírito desceu do céu como uma pomba. Para a confirmação do seu testemunho a respeito de Cristo, aqui ele testemunha a extraordinária aparição na ocasião do seu batismo, na qual o próprio Deus deu testemunho dele. Esta era uma evidência considerável da missão de Cristo. Para nos assegurarmos desta verdade, aqui lemos (vv. 32-34):

(1)  Que João Batista a viu: ele “testificou”. Não a narrou como uma história, mas solenemente a testificou, com toda a seriedade e solenidade de um testemunho. Ele deu um depoimento disto: “Eu vi o Espírito descer do céu”. João não pôde ver o Espírito, mas viu a pomba, que foi um sinal e a representação do Espírito. O Espírito desceu sobre Cristo, para adequá-lo para seu trabalho, e para torná-lo conhecido ao mundo. Cristo foi identificado, não por uma coroa descendo sobre Ele, nem por uma transfiguração, mas pela descida do Espírito sobre Ele, como uma pomba, para capacitá-lo para sua missão. Assim, o primeiro testemunho dado aos apóstolos foi por meio da descida do Espírito sobre eles. Os filhos de Deus são manifestos pelas suas graças. Suas glórias estão reservadas para sua condição futura. Observe:

[1] O Espírito desceu do céu, pois “toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto”.

[2] Ele “desceu do céu como uma pomba” – um símbolo de submissão, mansidão e bondade, o que o torna adequado para ensinar. A pomba trouxe o ramo de oliveira da paz, Gênesis 8.11.

[3] O Espírito que desceu sobre Cristo, repousou sobre Ele, como tinha sido predito, Isaías 11.2. O Espírito não o impele de quando em quando, como a Sansão (Juízes 13.25), mas sempre. O Espírito foi-lhe dado sem medida. Era prerrogativa de Cristo ter o Espírito sempre sobre si, de modo que Ele não poderia, em nenhuma ocasião, ser encontrado desqualificado para sua obra, nem incapacitado para prover por aqueles que procuram sua graça.

(2)  Que a ele tinha sido dito que esperasse por isto, o que corrobora, e muito, a evidência. Não era uma pura conjectura de João, de que certamente aquele sobre o qual ele visse o Espírito descendo seria o Filho de Deus, mas era um sinal instituído, dado a ele anteriormente, pelo qual ele poderia, com certeza, conhecê-lo (v. 33): “Eu não o conhecia”. Ele insiste muito no fato de que ele não o conhecia, não mais do que qualquer outra pessoa, nem por revelação. “Mas o que me mandou a batizar me deu este sinal: Ele é aquele sobre o qual vires descer o Espírito”.

[1] Veja aqui como eram bons os fundamentos sobre os quais João prosseguiu no seu ministério e batismo, para que pudesse proceder com toda satisfação imaginável. Em primeiro lugar, ele não agiu sem ter sido enviado: Deus o “mandou a batizar”. Ele tinha uma autorização do céu para fazer o que fazia. Quando a vocação do ministro é clara, seu consolo é certo, embora seu sucesso nem sempre o seja. Em segundo lugar, ele não agiu sem orientação, pois, quando foi enviado a batizar com água, ele foi orientado àquele que iria batizar com o Espírito Santo. Com esta noção, João Batista foi ensinado a esperar por Cristo, como aquele que daria aquele arrependimento e aquela fé aos quais ele convocava as pessoas, e prosseguiria e completaria esta estrutura abençoada da qual ele agora lançava a fundação. Observe que é um grande consolo para os ministros de Cristo, na sua administração dos sinais exteriores, que aquele de quem eles são ministros conceda a graça que os sinais representam, e assim coloque vida, e alma, e virtude nos seus ministérios. Ele pode falar ao coração o que eles falam aos ouvidos, e soprar sobre os ossos secos aos quais eles profetizam.

[2] Veja os fundamentos seguros que ele teve para designar a pessoa do Messias. Anteriormente, Deus lhe tinha dado um sinal, como tinha feito com Samuel a respeito de Saul: “Sobre aquele que vires descer o Espírito”. Isto não apenas evitou qualquer engano, como também lhe deu ousadia no seu testemunho. Quando ele teve tal certeza, como esta, ele pôde falar com segurança. Quando João ouviu isto antes, não foi possível evitar que suas expectativas se elevassem, e muito, e, quando o evento respondeu com exatidão a esta predição, sua fé não pôde deixar de ser muito confirmada. E estas coisas estão escritas para que possamos crer.

4. Que Ele é o Filho de Deus. Esta é a conclusão do testemunho de João, em torno do qual se centram todos os detalhes, como o fato a ser demonstrado (v. 34): “E eu vi e tenho testificado que este é o Filho de Deus”.

(1) A verdade afirmada é “que este é o Filho de Deus”. A voz do céu proclamou, e João a reiterou, não somente que Ele batizaria com o Espírito Santo por uma autoridade divina, mas que Ele tinha uma natureza divina. Este é o credo peculiar cristão, de que Jesus é o Filho de Deus (Mateus 16.16), e aqui está sua primeira formulação.

(2) O testemunho de João a este respeito: ‘”Eu vi e tenho testificado’. Não somente agora eu dou testemunho disto, mas o fiz tão logo o vi”. Observe:

[1] Que ele se prontificou a testemunhar o que viu, como Pedro e João, Atos 4.20: “Não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido”.

[2] Que ele testificou sobre o que viu. As testemunhas de Cristo eram testemunhas oculares, e, portanto, mais crédito deviam ter. Eles não falavam por ouvir dizer e repetir, 2 Pedro 1.16.

 

II – Aqui está o testemunho de João a respeito de Cristo, no dia seguinte, vv. 35,36. Onde observamos:

1. Ele aproveitou todas as oportunidades que se ofereciam para conduzir as pessoas a Cristo: João viu Jesus passar. Aparentemente, João agora estava afasta­ do da multidão, e estava conversando em particular com dois de seus discípulos. Observe que os ministros devem, não somente na sua pregação pública, mas também nos seus relacionamentos mais reservados, dar testemunho de Cristo, e servir aos seus interesses. Ele viu Jesus, andando a alguma distância, mas não foi encontrá-lo, porque desejava evitar tudo o que pudesse dar a mínima indicação para que se suspeitasse de uma combinação. Ele estava olhando para Jesus. Ele olhou firmemente, e fixou seus olhos nele. Aqueles que desejam conduzir outros a Cristo, devem ser diligentes e frequentes na contemplação a Ele. João tinha visto Cristo antes, mas agora o contemplou com grande atenção e cuidado, 1 João 1.1.

2. Ele repetiu o mesmo testemunho que tinha dado a respeito de Cristo, no dia anterior, embora pudesse ter proferido alguma outra grande verdade a respeito dele. Mas assim ele desejava mostrar que era uniforme e constante no seu testemunho, e coerente consigo mesmo. Sua doutrina era a mesma em particular e em público, como era a de Paulo, Atos 20.20,21. É bom que seja repetido o que já ouvimos, Filipenses 3.1. A doutrina do sacrifício de Cristo removendo o pecado do mundo deve ser especialmente repetida por todos os bons ministros: Cristo, o Cordeiro de Deus, Cristo e este crucificado.

3. Sua intenção foi especialmente dirigida a estes dois de seus discípulos que estavam com ele. Ele desejava entregá-los a Cristo, pois para esta finalidade ele testificou a respeito de Cristo diante deles, para que deixassem tudo para segui-lo, e assim teriam que deixar João Batista. Ele não considerava ter perdido aqueles discípulos que passaram para Cristo. E, por exemplo, o mesmo caso do professor do colegial, que não considera que perdeu o aluno que passou para a universidade. João reunia discípulos, não para si mesmo, mas para Cristo, para prepará-los para o Senhor, Lucas 1.17. Tão longe ele estava de sentir inveja do interesse crescente que Cristo despertava, que não havia nada que ele pudesse desejar mais. As almas generosas e humildes darão a outros seu devido louvor, sem temer se sentirem diminuídas por isto. Nossa reputação, assim como outras qualidades em nossa vida, não será diminuída se dermos a cada um o que lhes pertence.