GESTÃO E CARREIRA

BEM-VINDO À ECONOMIA CIRCULAR

Para salvar o planeta – e os negócios – do colapso, surge um novo modelo de capitalismo, no qual nada se descarta e tudo se reaproveita. O sistema vai gerar 3,4 milhões de empregos, além de oportunidades para quem sonha empreender. Saiba como se preparar para esse mercado em ascensão.

Bem vindo a economia circular

Mais de 1,5 bilhão de smartphones foram vendidos no mundo em 2017. Cada aparelho tem milhares de componentes, sendo dois quintos deles metais que vão de cobalto ao chumbo; outros dois quintos, plástico. Para fabricar um único modelo são necessários 12.000 litros de água, a mesma quantidade que uma pessoa usa ao tomar banho todos os dias durante três meses. Agora imagine que mais da metade da população mundial terá um celular até 2022. Junte a água, os metais, o vidro e o plástico para produzir não só esses telefones, mas também as TVs, os computadores, as roupas, as embalagens dos produtos – inclusive dos que se dizem sustentáveis. O resultado é alarmante. Só de plástico, os seres humanos geraram mais de 8 bilhões de toneladas até 2015, das quais 80% foram jogadas em aterros sanitários ou na natureza, como no fundo dos oceanos. Pelos cálculos de pesquisadores da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, menos de um décimo desse material foi reciclado. Além do lixo, o gás carbônico liberado por fábricas e automóveis tem modificado os padrões climáticos, o que no futuro poderá levar a Floresta Amazônica a secar. No fim do ano passado, 15.000 cientistas de 184 países assinaram o Alerta Mundial à Humanidade: Um Segundo Aviso. No artigo, eles advertem que o bem-estar humano está comprometido por questões como o desmatamento, o déficit de água potável, a extinção de espécies e o crescimento da população.

O colapso bate à porta e, na soleira, traz ideias que tentam livrar a humanidade (e os negócios) de sua extinção. É assim que surge a proposta da economia circular, novo modelo econômico que defende que nada se jogue fora tudo se transforme, infinitamente. Se isso parece algo distante, não é. Na Europa, mercado que encampando a ideia, há iniciativas circulares avançadas. E calcula-se que só nesse continente o sistema será responsável pela criação de 3,4 milhões de postos de trabalho ao fim de uma década.

PASSADO E FUTURO

Embora exista há décadas, o conceito circular entrou em evidência com a velejadora inglesa Ellen MacArthur, depois de ela dar a volta ao mundo pelo oceano em 2004. Ali, Ellen entendeu a necessidade de reaproveitamento. “No mar, parar no meio do caminho para reabastecer não é uma opção, e o gerenciamento cuidadoso de recursos pode ser uma questão de vida ou morte”, escreveu ela em sua página na internet. Em 2010, Ellen criou uma fundação, que leva seu nome, para estudar os conceitos de circularidade. Reuniu em torno de si políticos, acadêmicos e empresários de companhias como Google, Danone, Philips e Renault.

Naquele mesmo ano, a ativista apresentou o tema no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, atraindo a atenção dos líderes reunidos para a conferência. “As abordagens anteriores tinham uma perspectiva ambientalista e, naquele momento, eles introduziram o prisma de mercado”, diz Simone Faustini, sócia da consultoria de sustentabilidade Nexus. Em 2015, o Fórum Mundial retomou o assunto e lançou um estudo em que estimava serem necessários recursos de três planetas Terra para suportar o atual modelo de produção e consumo até 2050.

No fundo, a economia verde só ganhou a confiança do mercado por ser uma das únicas formas de sobrevivência para os negócios tradicionais. Segundo o relatório Mapping the Benefits of a Circular Economy, da consultoria McKinsey, mais da metade do valor corporativo das 50 maiores empresas do mundo depende de seu “crescimento projetado”, que está sujeito a questões como seca, limites sobre a emissão de gases de efeito estufa e danos à reputação relacionados a poluição e segurança.

Bom para o pequeno empresário, que, sem a burocracia das grandes corporações, pode criar negócios mais inovadores, como fez a figurinista Luciana Bueno. Incomodada com o descarte dos retalhos de tecidos das fantasias, ela criou um banco de pano, com direito a depósitos e saques, para oferecer o material a quem precisa costurar. Atualmente, o Banco de Tecidos conta com três “agências” e 700 correntistas. Outro empreendimento, a Revoada, fundado pelas amigas Adriana Tubino e Itiana Pasetti, em quatro anos transformou 8 toneladas de pneus e 10.000 guarda-chuvas em 27.000 mochilas, carteiras e bolsas.

E que fique claro: a economia circular não significa apenas adicionar a reciclagem ao final do processo, tampouco fazer logística reversa, incinerando ou aterrando os insumos. Para fechar o círculo produtivo é necessário ir além, reutilizando tudo o que sobra ou volta à fábrica. “A id ia é que os resíduos resultem em algo com valor de mercado”, diz Diego Iritani, fundador da consultoria UpCycle, especializada em sustentabilidade.

ESCOLAS DE PLÁSTICO

Apesar de ter desde 2010 uma política nacional para descarte e reprocessamento de resíduos que promete, entre outras coisas. a redução da quantidade de lixões, a indústria brasileira está atrasada. Ciente disso, em abril, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou um evento para discutir o assunto com empresários e criou um documento sobre as oportunidades e desafios para o setor no país. A pressão pela mudança, como diz Davi Bomtempo, gerente executivo de meio ambiente da CNI, em Brasília, vem de fora e é urgente: “Os acordos comerciais internacionais estão cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade”.

Por aqui, as principais iniciativas são puxadas pelas multinacionais. É o caso da química Dow, que tem como meta mundial a transição para a economia circular. Como um de seus principais produtos é o plástico, a companhia investe globalmente 1,6 bilhão de dólares em pesquisas para encontrar novas moléculas. Uma de suas descobertas é o Polietileno 100% reciclável, já vendido para fabricantes de alimentos e de produtos de beleza e de limpeza doméstica. “Hoje, olhamos como será a produção, a comercialização e o desenho das embalagens de nossos clientes para ajuda-los a reinserir os itens no processo”, afirma Júlio Natalense, líder de sustentabilidade para a   América Latina, de São Paulo.

Recentemente, a companhia de origem americana lançou um guia com orientações sobre pigmentos, desenhos e materiais que podem ser mais facilmente realocados na cadeia produtiva.  Na Colômbia, por exemplo, a Dow transforma o resíduo não biodegradável em blocos de plástico usados na construção de escolas públicas a última foi inaugurada em 2016 em Cartagena.

Na gigante global do aço Arcelor Mittal, os restos minerais gerados na unidade de Tubarão, em Vitória (ES), são revendidos para a indústria de cimento e viram revestimento para estradas, estacionamentos e pátios de armazenamento. “Quem atua no modelo circular aprende uma nova filosofia de trabalho, porque os projetos não têm começo, meio e fim”, diz Guilherme Abreu, gerente-geral de meio ambiente da Arcelor Mittal Brasil, em Belo Horizonte (MG).

Ações como as da Dow e da Arcelor Mittal Brasil, e replicadas, gerariam às empresas uma economia de 600 bilhões de euros por ano e “1,8 trilhão de euros a mais em outros benefícios econômicos”, segundo o relatório da McKinsey, realizado em parceria com a Fundação Ellen MacArthur. O potencial do novo sistema fica evidente quando olhamos a indústria da tecnologia.  Em 2016, foram produzidos quase 45 milhões de toneladas de entulho digital. Tudo isso poderia ser, de alguma forma, reaproveitado. Não à toa os consultores da McKinsey afirmam: “Libra por libra, há mais ouro na sucata eletrônica do que no próprio minério”.

NASCER, MORRER E REVIVER

Na prática, o que o novo capitalismo prega é uma transição do atual sistema linear (extrair, produzir e descartar), vigente desde a Primeira Revolução Industrial, para o circular (reciclar, transformar e reaproveitar). Com isso, derruba séculos de raciocínio financeiro de que só há ganhos com a extração de novos recursos e a produção exponencial. Na teoria, também causa uma profunda revisão na mentalidade de consumo, levando indivíduos a se questionarem por que precisam de tanto o tempo todo. Em estudo da consultoria Nielsen mostra que dois terços dos entrevistados aceitam pagar mais caro por itens de serviços cujas empresas sejam comprometidas com o impacto socioambiental. Além disso, o avanço tecnológico trouxe novos hábitos, como o do compartilhamento “Você não precisa mais ter um produto, mas, sim, ter a experiência de uso dele”, diz AIdo Ometto, professor na Universidade de São Paulo, no campus de São Carlos, de onde coordena o projeto de economia verde – um dos mais avançados do país e que envolve 100 professores da instituição de diferentes áreas, como engenharia, economia, administração e arquitetura.

Embora não sejam protótipos perfeitos de economia circular, companhias bem-sucedidas, como Uber e Airbnb encorajam empresários a acreditar que é possível ter lucro sem produzir novos bens. A Volvo, gigante sueca do mercado automobilístico, por exemplo, recentemente lançou carros com um botão de “compartilhar”. Quando o dono não está usando o veículo, ele fica disponível para que outras pessoas o aluguem via aplicativo.

Em vez de as empresas mirarem as vendas, elas lucrariam com a oferta de serviços e ao reaproveitar os componentes usados – tirando do consumidor a responsabilidade de dar um descarte adequado a eles. A Tarkett, multinacional francesa que fabrica pisos, já opera assim na Europa desde 2013: em vez de comprar o revestimento, o cliente o aluga por tempo determinado; ao fim do contrato, a fabricante recupera o produto e o transforma em um novo piso. “O consumidor é visto como usuário”, afirma Marco Antônio Cordeiro, diretor de marketing e vendas da Tarkett, localizada em Jacareí (SP). “É um benefício para nós, que reutilizamos o material, e para os clientes, que não precisam comprometer o capital com a aquisição do revestimento”, diz o executivo, estimando que o serviço (voltado para o mercado corporativo) chegue ao Brasil ainda neste ano. Em seu processo produtivo, a Tarkett ainda usa coisas como óleo oxidado (em vez de petróleo), redes de pescas (abandonadas em alto mar) e cartões de chips de celular. Outras empresas que vêm nessa esteira são a Philips, que trocou o conceito de vender lâmpadas pelo de prestar serviços de iluminação; e a Michelin, que comercializa quilômetros rodados, em vez pneus para caminhões. Quando bate a quilometragem contratada, a Michelin recolhe o produto, reforma, transforma e o coloca no mercado novamente, às vezes reencarnado no corpo de um porta cartão. “Você muda completamente a maneira de gerar valor em cima do ativo físico”, diz Luísa Santiago, líder da Fundação Ellen MacArthur no Brasil.

DESIGN DE OPORTUNIDADE

Em artigo na revista científica Nature, intitulada A Economia Circular, o pesquisador suíço Walter Stahel, um dos maiores especialistas no tema, mostra que a transição do padrão linear para o circular exigirá inovação em todos os campos – social, tecnológico e comercial. Serão necessários economistas para calcular os custos e os benefícios dos produtos, que nunca terão fim; engenheiros de materiais para criar componentes e matérias primas com maior vida útil e cientistas ambientais para acompanhar os impactos ecológicos e a reação do planeta.

De acordo com Walter, empresas e empreendedores também precisarão aprender como estipular o preço desses novos-velhos produtos, e precisarão de profissionais de comunicação e estrategistas de informação para aumentar a conscientização do público sobre a responsabilidade que terá sobre os produtos durante toda a sua vida útil. Designers que pensem sistemas modulares também estarão em alta nesse mercado. “As organizações não terão um trabalhador específico, mas vários atuando para que o sistema circular funcione”, diz Marcus Nakagawa, professor e coordenador no Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental, em São Paulo, e fundador da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável. Isso obrigará todos – e não só aqueles ligados à área de sustentabilidade – a se reinventar. No lugar de processos, por exemplo, eles atuarão em redes de informações multifatoriais e terão de desenvolver capacidade analítica, pensamento crítico e facilidade em resolução de problemas complexos. “Quem tiver visão de negócio e conhecimento de tecnologia para viabilizar ideias esféricas terá destaque”, diz Eliane Kihara, sócia da consultoria PwC. Mais um ponto para os empreendedores, já que boa parte das startups nasce compartilhando recursos, fazendo parcerias inovadoras e lucrando sem gerar grande quantidade de resíduos.

E, embora os projetos de capitalismo verde ainda estejam engatinhando, especialistas concordam que em breve entrarão no topo da lista de prioridades do mundo corporativo, à frente até da diversidade – inclusive no Brasil. “A tendência é que aja cada vez mais investimento em pesquisas nessa área, exigência de normas de circularidade em licitações e incentivos fiscais para quem reaproveitar materiais”, diz Hans, do Observatório de Sustentabilidade e Governança, em Florianópolis. Esteja preparado para quando isso acontecer. Afinal, não vão faltar oportunidades de em prego e de negócios.

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VIAGEM GLOBAL

Conheça algumas iniciativas circulares que já existem no mundo.

ESTADOS UNIDOS

A tradicional fabricante de impressoras HP, com sede na Califórnia, criou um programa no qual clientes individuais ou pequenos empreendedores podem fazer uma assinatura para receber cartuchos de tinta. As máquinas conectadas à internet, avisam quando a empresa deve enviar novo carregamento. Junto vai também um envelope para o cliente devolver os usados – que são reaproveitados. Com o programa, a HP reduz 57% dos resíduos gerados e os clientes economizam metade dos custos com tinta.

CHINA

A china se tornou um dos líderes em simbiose entre empresas, um dos princípios da circularidade. Nele, partilham-se serviços (transporte e infraestrutura), produtos e restos. Um exemplo disso está no Parque Indutrial em Nova Suzhou, onde 4.000 organizações compartilham resíduos. O que é lixo para uma é insumo para a outra. Esse tipo de modelo reduz a extração de novos recursos e também poupa energia.

HOLANDA

A Fairphone, fabricante de celulares, chamou a atenção ao criar. Em 2013, o primeiro smartphone modular do mundo. Vendido por 529 euros, ele é 100% reparável: em vez de substituí-lo por outro modelo novo, o cliente compra pelo site as últimas versões das peças, faz a troca sozinho e devolve as partes antigas para ser reutilizadas. O ciclo se fecha com zero resíduo.

SUÉCIA

O país criou leis, uma exige que os varejistas aceitem aparelhos eletrônicos antigos de volta; outra obriga os fabricantes de embalagens a reciclar os produtos. Até 2020, a meta do governo é dar um destino correto a 85% das embalagens de papel e a 70% de todo metal produzido.

BRASIL

A Ambev. Dona de marcas como Skol e Guaraná, anunciou que em 7 anos terá 100% de suas bebidas dentro de embalagens circulares. A empresa brasileira segue o movimento de outras multinacionais. Nestlé, Unilever, Mondelêz, L’Oréal…Também divulgaram a meta global de até 2025 embalar todos os produtos com materiais retornáveis ou biodegradáveis.

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ALERTA À HUMANIDADE

Segundo 15.000cientistas do mundo, essas são as tendências negativas para os próximos 25 anos.

  • Redução de 26% da quantidade de água doce disponível per capita
  • Queda na captura de peixes, apesar do maior esforço de pesca
  • Aumento de 75% no número de zonas mortas no oceano
  • Perda de quase 300 milhões de acres de floresta, grande parte convertida para uso agrícola
  • Crescimento contínuo e significativo na emissão global de carbono e nas temperaturas médias
  • Acréscimo de 35% na população humana
  • Diminuição de 29% no número de mamíferos, répteis, anfíbios, aves e peixes.

FONTE: World Scientists Warning to Humanity a Second Notice

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PREPARE O CURRÍCULO

Conheça os profissionais que devem ser bastante demandados no novo capitalismo:

AGRÔNOMOS E ESPECIALISTA EM MEIO AMBIENTE

Para repensar a sequência da cadeia produtiva, é essencial conhecer como funcionam os ciclos de fontes renováveis, assim como modelos de agricultura regenerativa.

DESIGNERS DE PRODUTOS E ENGENHEIROS

Redesenhar produtos e escolher matérias-primas com maior potencial de reaproveitamento serão algumas das atribuições desses profissionais na economia circular. Isso exige entender sobre materiais, formatos e até pigmentos que impactem na reutilização.

 MARQUETEIROS E COMUNICADORES

Uma das grandes vertentes da economia circular é a aproximação entre consumidores e produtores, sejam eles grandes ou pequenos. O desafio aqui é traçar a estratégia de comunicação e vender o conceito de serviço e não de posse de um objeto.

DESENVOLVEDORES

Serão fundamentais na criação de sistemas de computador ou celular que ajudam a gerenciar as complexas redes circulares, além de conectar os clientes aos fabricantes.

 

DESCE REDONDO

Listamos as quatro competências essenciais para se dar bem na economia circular:

1. VISÃO SISTÊMICA – é a capacidade de desenhar processos complexos que funcionem em rede, dando conta de múltiplos fatores. Da forma de reaproveitar o insumo à comunicação com o cliente, tudo é importante na era da economia circular.

2. COLABORAÇÃO – ninguém será “circular” sozinho: esse modelo exige a participação de diversos setores e disciplinas. Logo, trabalhar em equipe, mesmo com perfís bem diferentes, será a chave para o sucesso.

3. PENSAMENTO CIRCULAR – enxergar soluções que qubrem o atual sistema de produção e consumo é um dos maiores desafios para os profissionais do novo capitalismo. Isso vai exigir quebra de paradigmas e muita criatividade.

4. VISÃO DE NEGÓCIO – ter uma boa estratégia é essencial para fazer a ciranda girar. É preciso conhecer a área de atuação do negócio, o tipo de cliente, os materiais usados e as oportunidades de melhoria. Entender como sua atuação pode afetar positivamente a empresa e o meio ambiente será um grande diferencial.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.