PSICOLOGIA ANALÍTICA

DISCIPLINA NO DOMÍNIO SORE AS EMOÇÕES

Entenda por que a autodisciplina está mais relacionada ao bom desempenho acadêmico que a resultados em testes de inteligência.

Disciplina no domínio sobre as emoções

Costumamos associar rotina a algo chato e sem graça pelo simples fato de que é sempre bom sair dela. Para as crianças, que adoram novidades, fazer uma coisa diferente pode ser muito empolgante. Mas para que possamos curtir esses momentos é preciso haver uma rotina a ser quebrada. Sem ela, os dias passam a ser caóticos, a alimentação e o sono são prejudicados, a criança não desenvolve a persistência e não exercita o controle da atenção.

A relação com a atenção pode não ser óbvia, mas é direta: toda atividade que requer concentração exige esforço, traz um desconforto que nos leva a adiar a tarefa até o último momento. Se já temos um tempo determinado para atividades nas quais precisamos nos concentrar, não damos chance à procrastinação.

Entre crianças, a rotina é uma forma de tirar seu poder de decisão; de não deixar espaço para que decidam quando farão a tarefa, por exemplo. Isso as poupa de uma ansiedade desnecessária, acionada pela projeção do momento desconfortável de estudo. Um horário muito flexível e variável para as obrigações também dá margem para que elas lutem contra esse momento não apenas com procrastinação ou distrações, mas com birras e desobediência.

A rotina está relacionada ao comportamento porque se impõe, fecha espaço para negociações e torna-se inquestionável. Quando criamos e seguimos uma rotina, paramos de consultar a vontade e partimos para a ação.

Disciplina é exatamente isso: colocar a ação acima da vontade e dos sentimentos. Não se trata de obediência e sim de assumir um compromisso – geralmente consigo mesmo – e cumpri-lo, independentemente das condições emocionais. Ela nos ensina a termos mais controle sobre as próprias emoções e a focarmos na produtividade, no processo. Ao direcionarmos a atenção àquilo que nos comprometemos a fazer, somos transformados pela ação e deixamos de ser dominados pelos desejos.

Estabelecer horários para as atividades das quais costumamos fugir, por exigirem esforço cognitivo ou físico, nos permite maior produtividade e ganho de destreza em qualquer domínio – pois o desenvolvimento de habilidades necessariamente passa pela repetição, persistência e disciplina, atributos que se recusam a se submeter à disposição. Se esperamos que uma criança desenvolva sozinha e naturalmente habilidades de seu interesse, acabamos privando-a da satisfação de se descobrir capaz de fazer algo com maestria e de perceber que o exercício programado transforma o esforço inicial em uma ação automática, realizada de forma ágil e com prazer.

Ao experimentar os ganhos relacionados à ação sem procrastinação, as crianças aprendem a se autodisciplinar – uma capacidade que está mais relacionada ao bom desempenho acadêmico que a resultados em testes de QI. Foi o que descobriram pesquisadores da Universidade da Pensilvânia em um estudo longitudinal com adolescentes a partir de uma série de questionários relacionados aos hábitos.

A conclusão foi de que autodisciplina é um preditor preciso de notas e frequência acadêmica, com impacto maior nesses quesitos que testes de inteligência.

A disciplina é uma virtude muito presente nos ensinamentos do pensamento oriental. E um dos fundamentos da terapia japonesa Morita, voltada para a transformação por meio da ação. Em Constructive Living, um de seus livros sobre essa visão oriental, o filósofo David Reynolds destaca: “Escrevo mais sobre rotinas que sobre variedade (embora ambas sejam importantes), porque a maioria das pessoas que encontro são naturalmente atraídas pela variedade, por mudanças, pela dispersão. Elas necessitam da estabilidade da rotina para superar a tendência de serem controladas por seus sentimentos”.

Apesar de parecer uma afirmação contraditória em uma primeira leitura, a rotina nos gratifica com mais espaço para a criatividade. Isso porque ao cumprirmos uma agenda livramos nossa mente das pequenas decisões e, portanto, da atenção que novas situações ou ambientes requerem. Por tornarem-se automáticas, as tarefas realizadas sistematicamente exigem um esforço mental menor e permitem que os recursos cognitivos sejam empregados em momentos mais criativos e produtivos.

Isso quer dizer que, como define Reynolds, variedade, ou seja, novidades, também é importante no nosso processo de criação e produção. Somos naturalmente tão ávidos por novidades, que são elas – e não a rotina e a repetição – que ativam o sistema de recompensa do cérebro, nos fazendo querer mais. No entanto, uma vida produtiva e criativa depende do equilíbrio entre o inesperado e o costumeiro, de um direcionamento inteligente de energia.

As obras inovadoras e os trabalhos mais admiráveis não surgem do caos nem aparecem por acaso para alguns raros sortudos que foram escolhidos pela inspiração. Pelo contrário: eles podem aparecer quando menos esperamos, mas só escolhem aqueles que enfrentaram os longos, lentos e pouco românticos períodos de dedicação e disciplina.

  

MICHELE MULLER – é jornalista. pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

AVATAR CONTRA A OBESIDADE

A realidade virtual ganha espaço na briga contra a balança. Ela ajuda os pacientes a mudarem hábitos na vida real.

Avatar contra a obesidade

Mudar as emoções e o comportamento em relação à comida e à prática de exercícios físicos é passo chave para o sucesso de qualquer programa de emagrecimento. Duro é conseguir fazer isso. Para ajudar os pacientes nesta tarefa complicada, especialistas do mundo têm recorrido ao uso da realidade virtual. A ferramenta consiste em promover a inserção do paciente em cenários que o estimulem a adotar hábitos saudáveis, a se afastar de armadilhas, a controlar a ansiedade e a modificar a percepção que possuem do corpo. O recurso ganhou a aprovação científica por sua comprovada eficácia e conquista quem quer perder peso e sabe o quanto isso pode ser difícil.

No Brasil, uma das que utiliza a tecnologia é a psicóloga Vânia Calazans, de São Paulo. No sistema criado par ela, há algumas possibilidades. Em uma delas, o paciente é exposto a imagens que fazem parte de sua rotina verdadeira e gravadas por ele próprio. Uma situação comum é chegar em casa e exagerar na comida. Com a ajuda da terapeuta, a pessoa se imagina naquele mesmo contexto, porem escapando dos vícios. Em outra, quem detesta atividade física é exposto a cenas da prática de várias modalidades e incentivado a associar a elas sensação de bem-estar. A secretária paulista Eliane da Fonseca beneficiou-se com as estratégias. Perdeu mais de dez quilos sem muito sacrifício. “Incorporei as mudanças de verdade”, conta.

EFICÁCIA DE LONGO PRAZO

Giuseppe Riva, professor da Universittá Cattolica del Sacro Cuore, de Milão, é um dos principais investigadores do recurso. Um de seus estudos mostrou a eficácia para ajudar quem emagreceu a corrigir a imagem que tem do corpo. É comum a pessoa perder peso, mas continuar achando-se gorda”, explicou. “Usamos a realidade virtual para mostrar a ela a perspectiva real de seu corpo. Os resultados a longo prazo são muito melhores do que apenas dieta e terapia”. A experiência da psicóloga Vânia com o método é igualmente positiva. “As transformações de comportamento na vida real são gradativas, mas consistentes”.

Avatar contra a obesidade.2

Vania usa o recurso para auxiliar Eliane, que perdeu mais de dez quilos.

PORQUE A TECNOLOGIA FUNCIONA

  • Auxilia o paciente a mudar o comportamento e emoções em relação à comida, aos exercícios e ao corpo.
  • Corrige a imagem corporal ao expor o paciente a uma perspectiva real de seu corpo.
  • Ajuda o indivíduo a achar formas de controlar a ansiedade que o leva a comer demais.
  • Também cria associações negativas com alimentos prejudiciais à saúde. Aos poucos, a pessoa para de consumi-los.

NO CÉREBRO

Há forte atividade em áreas responsáveis pelo julgamento, emoções e processamento de Informações multissensoriais.

GESTÃO E CARREIRA

BEM-VINDO À ECONOMIA CIRCULAR

Para salvar o planeta – e os negócios – do colapso, surge um novo modelo de capitalismo, no qual nada se descarta e tudo se reaproveita. O sistema vai gerar 3,4 milhões de empregos, além de oportunidades para quem sonha empreender. Saiba como se preparar para esse mercado em ascensão.

Bem vindo a economia circular

Mais de 1,5 bilhão de smartphones foram vendidos no mundo em 2017. Cada aparelho tem milhares de componentes, sendo dois quintos deles metais que vão de cobalto ao chumbo; outros dois quintos, plástico. Para fabricar um único modelo são necessários 12.000 litros de água, a mesma quantidade que uma pessoa usa ao tomar banho todos os dias durante três meses. Agora imagine que mais da metade da população mundial terá um celular até 2022. Junte a água, os metais, o vidro e o plástico para produzir não só esses telefones, mas também as TVs, os computadores, as roupas, as embalagens dos produtos – inclusive dos que se dizem sustentáveis. O resultado é alarmante. Só de plástico, os seres humanos geraram mais de 8 bilhões de toneladas até 2015, das quais 80% foram jogadas em aterros sanitários ou na natureza, como no fundo dos oceanos. Pelos cálculos de pesquisadores da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, menos de um décimo desse material foi reciclado. Além do lixo, o gás carbônico liberado por fábricas e automóveis tem modificado os padrões climáticos, o que no futuro poderá levar a Floresta Amazônica a secar. No fim do ano passado, 15.000 cientistas de 184 países assinaram o Alerta Mundial à Humanidade: Um Segundo Aviso. No artigo, eles advertem que o bem-estar humano está comprometido por questões como o desmatamento, o déficit de água potável, a extinção de espécies e o crescimento da população.

O colapso bate à porta e, na soleira, traz ideias que tentam livrar a humanidade (e os negócios) de sua extinção. É assim que surge a proposta da economia circular, novo modelo econômico que defende que nada se jogue fora tudo se transforme, infinitamente. Se isso parece algo distante, não é. Na Europa, mercado que encampando a ideia, há iniciativas circulares avançadas. E calcula-se que só nesse continente o sistema será responsável pela criação de 3,4 milhões de postos de trabalho ao fim de uma década.

PASSADO E FUTURO

Embora exista há décadas, o conceito circular entrou em evidência com a velejadora inglesa Ellen MacArthur, depois de ela dar a volta ao mundo pelo oceano em 2004. Ali, Ellen entendeu a necessidade de reaproveitamento. “No mar, parar no meio do caminho para reabastecer não é uma opção, e o gerenciamento cuidadoso de recursos pode ser uma questão de vida ou morte”, escreveu ela em sua página na internet. Em 2010, Ellen criou uma fundação, que leva seu nome, para estudar os conceitos de circularidade. Reuniu em torno de si políticos, acadêmicos e empresários de companhias como Google, Danone, Philips e Renault.

Naquele mesmo ano, a ativista apresentou o tema no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, atraindo a atenção dos líderes reunidos para a conferência. “As abordagens anteriores tinham uma perspectiva ambientalista e, naquele momento, eles introduziram o prisma de mercado”, diz Simone Faustini, sócia da consultoria de sustentabilidade Nexus. Em 2015, o Fórum Mundial retomou o assunto e lançou um estudo em que estimava serem necessários recursos de três planetas Terra para suportar o atual modelo de produção e consumo até 2050.

No fundo, a economia verde só ganhou a confiança do mercado por ser uma das únicas formas de sobrevivência para os negócios tradicionais. Segundo o relatório Mapping the Benefits of a Circular Economy, da consultoria McKinsey, mais da metade do valor corporativo das 50 maiores empresas do mundo depende de seu “crescimento projetado”, que está sujeito a questões como seca, limites sobre a emissão de gases de efeito estufa e danos à reputação relacionados a poluição e segurança.

Bom para o pequeno empresário, que, sem a burocracia das grandes corporações, pode criar negócios mais inovadores, como fez a figurinista Luciana Bueno. Incomodada com o descarte dos retalhos de tecidos das fantasias, ela criou um banco de pano, com direito a depósitos e saques, para oferecer o material a quem precisa costurar. Atualmente, o Banco de Tecidos conta com três “agências” e 700 correntistas. Outro empreendimento, a Revoada, fundado pelas amigas Adriana Tubino e Itiana Pasetti, em quatro anos transformou 8 toneladas de pneus e 10.000 guarda-chuvas em 27.000 mochilas, carteiras e bolsas.

E que fique claro: a economia circular não significa apenas adicionar a reciclagem ao final do processo, tampouco fazer logística reversa, incinerando ou aterrando os insumos. Para fechar o círculo produtivo é necessário ir além, reutilizando tudo o que sobra ou volta à fábrica. “A id ia é que os resíduos resultem em algo com valor de mercado”, diz Diego Iritani, fundador da consultoria UpCycle, especializada em sustentabilidade.

ESCOLAS DE PLÁSTICO

Apesar de ter desde 2010 uma política nacional para descarte e reprocessamento de resíduos que promete, entre outras coisas. a redução da quantidade de lixões, a indústria brasileira está atrasada. Ciente disso, em abril, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou um evento para discutir o assunto com empresários e criou um documento sobre as oportunidades e desafios para o setor no país. A pressão pela mudança, como diz Davi Bomtempo, gerente executivo de meio ambiente da CNI, em Brasília, vem de fora e é urgente: “Os acordos comerciais internacionais estão cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade”.

Por aqui, as principais iniciativas são puxadas pelas multinacionais. É o caso da química Dow, que tem como meta mundial a transição para a economia circular. Como um de seus principais produtos é o plástico, a companhia investe globalmente 1,6 bilhão de dólares em pesquisas para encontrar novas moléculas. Uma de suas descobertas é o Polietileno 100% reciclável, já vendido para fabricantes de alimentos e de produtos de beleza e de limpeza doméstica. “Hoje, olhamos como será a produção, a comercialização e o desenho das embalagens de nossos clientes para ajuda-los a reinserir os itens no processo”, afirma Júlio Natalense, líder de sustentabilidade para a   América Latina, de São Paulo.

Recentemente, a companhia de origem americana lançou um guia com orientações sobre pigmentos, desenhos e materiais que podem ser mais facilmente realocados na cadeia produtiva.  Na Colômbia, por exemplo, a Dow transforma o resíduo não biodegradável em blocos de plástico usados na construção de escolas públicas a última foi inaugurada em 2016 em Cartagena.

Na gigante global do aço Arcelor Mittal, os restos minerais gerados na unidade de Tubarão, em Vitória (ES), são revendidos para a indústria de cimento e viram revestimento para estradas, estacionamentos e pátios de armazenamento. “Quem atua no modelo circular aprende uma nova filosofia de trabalho, porque os projetos não têm começo, meio e fim”, diz Guilherme Abreu, gerente-geral de meio ambiente da Arcelor Mittal Brasil, em Belo Horizonte (MG).

Ações como as da Dow e da Arcelor Mittal Brasil, e replicadas, gerariam às empresas uma economia de 600 bilhões de euros por ano e “1,8 trilhão de euros a mais em outros benefícios econômicos”, segundo o relatório da McKinsey, realizado em parceria com a Fundação Ellen MacArthur. O potencial do novo sistema fica evidente quando olhamos a indústria da tecnologia.  Em 2016, foram produzidos quase 45 milhões de toneladas de entulho digital. Tudo isso poderia ser, de alguma forma, reaproveitado. Não à toa os consultores da McKinsey afirmam: “Libra por libra, há mais ouro na sucata eletrônica do que no próprio minério”.

NASCER, MORRER E REVIVER

Na prática, o que o novo capitalismo prega é uma transição do atual sistema linear (extrair, produzir e descartar), vigente desde a Primeira Revolução Industrial, para o circular (reciclar, transformar e reaproveitar). Com isso, derruba séculos de raciocínio financeiro de que só há ganhos com a extração de novos recursos e a produção exponencial. Na teoria, também causa uma profunda revisão na mentalidade de consumo, levando indivíduos a se questionarem por que precisam de tanto o tempo todo. Em estudo da consultoria Nielsen mostra que dois terços dos entrevistados aceitam pagar mais caro por itens de serviços cujas empresas sejam comprometidas com o impacto socioambiental. Além disso, o avanço tecnológico trouxe novos hábitos, como o do compartilhamento “Você não precisa mais ter um produto, mas, sim, ter a experiência de uso dele”, diz AIdo Ometto, professor na Universidade de São Paulo, no campus de São Carlos, de onde coordena o projeto de economia verde – um dos mais avançados do país e que envolve 100 professores da instituição de diferentes áreas, como engenharia, economia, administração e arquitetura.

Embora não sejam protótipos perfeitos de economia circular, companhias bem-sucedidas, como Uber e Airbnb encorajam empresários a acreditar que é possível ter lucro sem produzir novos bens. A Volvo, gigante sueca do mercado automobilístico, por exemplo, recentemente lançou carros com um botão de “compartilhar”. Quando o dono não está usando o veículo, ele fica disponível para que outras pessoas o aluguem via aplicativo.

Em vez de as empresas mirarem as vendas, elas lucrariam com a oferta de serviços e ao reaproveitar os componentes usados – tirando do consumidor a responsabilidade de dar um descarte adequado a eles. A Tarkett, multinacional francesa que fabrica pisos, já opera assim na Europa desde 2013: em vez de comprar o revestimento, o cliente o aluga por tempo determinado; ao fim do contrato, a fabricante recupera o produto e o transforma em um novo piso. “O consumidor é visto como usuário”, afirma Marco Antônio Cordeiro, diretor de marketing e vendas da Tarkett, localizada em Jacareí (SP). “É um benefício para nós, que reutilizamos o material, e para os clientes, que não precisam comprometer o capital com a aquisição do revestimento”, diz o executivo, estimando que o serviço (voltado para o mercado corporativo) chegue ao Brasil ainda neste ano. Em seu processo produtivo, a Tarkett ainda usa coisas como óleo oxidado (em vez de petróleo), redes de pescas (abandonadas em alto mar) e cartões de chips de celular. Outras empresas que vêm nessa esteira são a Philips, que trocou o conceito de vender lâmpadas pelo de prestar serviços de iluminação; e a Michelin, que comercializa quilômetros rodados, em vez pneus para caminhões. Quando bate a quilometragem contratada, a Michelin recolhe o produto, reforma, transforma e o coloca no mercado novamente, às vezes reencarnado no corpo de um porta cartão. “Você muda completamente a maneira de gerar valor em cima do ativo físico”, diz Luísa Santiago, líder da Fundação Ellen MacArthur no Brasil.

DESIGN DE OPORTUNIDADE

Em artigo na revista científica Nature, intitulada A Economia Circular, o pesquisador suíço Walter Stahel, um dos maiores especialistas no tema, mostra que a transição do padrão linear para o circular exigirá inovação em todos os campos – social, tecnológico e comercial. Serão necessários economistas para calcular os custos e os benefícios dos produtos, que nunca terão fim; engenheiros de materiais para criar componentes e matérias primas com maior vida útil e cientistas ambientais para acompanhar os impactos ecológicos e a reação do planeta.

De acordo com Walter, empresas e empreendedores também precisarão aprender como estipular o preço desses novos-velhos produtos, e precisarão de profissionais de comunicação e estrategistas de informação para aumentar a conscientização do público sobre a responsabilidade que terá sobre os produtos durante toda a sua vida útil. Designers que pensem sistemas modulares também estarão em alta nesse mercado. “As organizações não terão um trabalhador específico, mas vários atuando para que o sistema circular funcione”, diz Marcus Nakagawa, professor e coordenador no Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental, em São Paulo, e fundador da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável. Isso obrigará todos – e não só aqueles ligados à área de sustentabilidade – a se reinventar. No lugar de processos, por exemplo, eles atuarão em redes de informações multifatoriais e terão de desenvolver capacidade analítica, pensamento crítico e facilidade em resolução de problemas complexos. “Quem tiver visão de negócio e conhecimento de tecnologia para viabilizar ideias esféricas terá destaque”, diz Eliane Kihara, sócia da consultoria PwC. Mais um ponto para os empreendedores, já que boa parte das startups nasce compartilhando recursos, fazendo parcerias inovadoras e lucrando sem gerar grande quantidade de resíduos.

E, embora os projetos de capitalismo verde ainda estejam engatinhando, especialistas concordam que em breve entrarão no topo da lista de prioridades do mundo corporativo, à frente até da diversidade – inclusive no Brasil. “A tendência é que aja cada vez mais investimento em pesquisas nessa área, exigência de normas de circularidade em licitações e incentivos fiscais para quem reaproveitar materiais”, diz Hans, do Observatório de Sustentabilidade e Governança, em Florianópolis. Esteja preparado para quando isso acontecer. Afinal, não vão faltar oportunidades de em prego e de negócios.

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VIAGEM GLOBAL

Conheça algumas iniciativas circulares que já existem no mundo.

ESTADOS UNIDOS

A tradicional fabricante de impressoras HP, com sede na Califórnia, criou um programa no qual clientes individuais ou pequenos empreendedores podem fazer uma assinatura para receber cartuchos de tinta. As máquinas conectadas à internet, avisam quando a empresa deve enviar novo carregamento. Junto vai também um envelope para o cliente devolver os usados – que são reaproveitados. Com o programa, a HP reduz 57% dos resíduos gerados e os clientes economizam metade dos custos com tinta.

CHINA

A china se tornou um dos líderes em simbiose entre empresas, um dos princípios da circularidade. Nele, partilham-se serviços (transporte e infraestrutura), produtos e restos. Um exemplo disso está no Parque Indutrial em Nova Suzhou, onde 4.000 organizações compartilham resíduos. O que é lixo para uma é insumo para a outra. Esse tipo de modelo reduz a extração de novos recursos e também poupa energia.

HOLANDA

A Fairphone, fabricante de celulares, chamou a atenção ao criar. Em 2013, o primeiro smartphone modular do mundo. Vendido por 529 euros, ele é 100% reparável: em vez de substituí-lo por outro modelo novo, o cliente compra pelo site as últimas versões das peças, faz a troca sozinho e devolve as partes antigas para ser reutilizadas. O ciclo se fecha com zero resíduo.

SUÉCIA

O país criou leis, uma exige que os varejistas aceitem aparelhos eletrônicos antigos de volta; outra obriga os fabricantes de embalagens a reciclar os produtos. Até 2020, a meta do governo é dar um destino correto a 85% das embalagens de papel e a 70% de todo metal produzido.

BRASIL

A Ambev. Dona de marcas como Skol e Guaraná, anunciou que em 7 anos terá 100% de suas bebidas dentro de embalagens circulares. A empresa brasileira segue o movimento de outras multinacionais. Nestlé, Unilever, Mondelêz, L’Oréal…Também divulgaram a meta global de até 2025 embalar todos os produtos com materiais retornáveis ou biodegradáveis.

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ALERTA À HUMANIDADE

Segundo 15.000cientistas do mundo, essas são as tendências negativas para os próximos 25 anos.

  • Redução de 26% da quantidade de água doce disponível per capita
  • Queda na captura de peixes, apesar do maior esforço de pesca
  • Aumento de 75% no número de zonas mortas no oceano
  • Perda de quase 300 milhões de acres de floresta, grande parte convertida para uso agrícola
  • Crescimento contínuo e significativo na emissão global de carbono e nas temperaturas médias
  • Acréscimo de 35% na população humana
  • Diminuição de 29% no número de mamíferos, répteis, anfíbios, aves e peixes.

FONTE: World Scientists Warning to Humanity a Second Notice

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PREPARE O CURRÍCULO

Conheça os profissionais que devem ser bastante demandados no novo capitalismo:

AGRÔNOMOS E ESPECIALISTA EM MEIO AMBIENTE

Para repensar a sequência da cadeia produtiva, é essencial conhecer como funcionam os ciclos de fontes renováveis, assim como modelos de agricultura regenerativa.

DESIGNERS DE PRODUTOS E ENGENHEIROS

Redesenhar produtos e escolher matérias-primas com maior potencial de reaproveitamento serão algumas das atribuições desses profissionais na economia circular. Isso exige entender sobre materiais, formatos e até pigmentos que impactem na reutilização.

 MARQUETEIROS E COMUNICADORES

Uma das grandes vertentes da economia circular é a aproximação entre consumidores e produtores, sejam eles grandes ou pequenos. O desafio aqui é traçar a estratégia de comunicação e vender o conceito de serviço e não de posse de um objeto.

DESENVOLVEDORES

Serão fundamentais na criação de sistemas de computador ou celular que ajudam a gerenciar as complexas redes circulares, além de conectar os clientes aos fabricantes.

 

DESCE REDONDO

Listamos as quatro competências essenciais para se dar bem na economia circular:

1. VISÃO SISTÊMICA – é a capacidade de desenhar processos complexos que funcionem em rede, dando conta de múltiplos fatores. Da forma de reaproveitar o insumo à comunicação com o cliente, tudo é importante na era da economia circular.

2. COLABORAÇÃO – ninguém será “circular” sozinho: esse modelo exige a participação de diversos setores e disciplinas. Logo, trabalhar em equipe, mesmo com perfís bem diferentes, será a chave para o sucesso.

3. PENSAMENTO CIRCULAR – enxergar soluções que qubrem o atual sistema de produção e consumo é um dos maiores desafios para os profissionais do novo capitalismo. Isso vai exigir quebra de paradigmas e muita criatividade.

4. VISÃO DE NEGÓCIO – ter uma boa estratégia é essencial para fazer a ciranda girar. É preciso conhecer a área de atuação do negócio, o tipo de cliente, os materiais usados e as oportunidades de melhoria. Entender como sua atuação pode afetar positivamente a empresa e o meio ambiente será um grande diferencial.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 15-18

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

Nestes versículos:

I – O evangelista começa novamente a nos fornecer o testemunho de João Batista a respeito de Cristo, v.15. Ele tinha dito (v. 8) que João Batista tinha vindo testificar. Agora, aqui, ele nos conta que ele realmente testificou. Aqui, observe:

1. Como ele expressou seu testemunho: ele clamou, de acordo com a predição de que ele seria a “voz do que clama”. Os profetas do Antigo Testamento clamavam, para mostrar às pessoas seus pecados. Este profeta do Novo Testamento clama, para mostrar ao povo seu Salvador. Isto sugere:

(1) Que foi um testemunho público e aberto, proclamado, para que todos os tipos de pessoas pudessem tomar conhecimento dele, pois todos têm interesse nele. Os falsos mestres seduzem secretamente, mas a sabedoria proclama seus ditados nos lugares de mais afluxo de público.

(2) Que ele foi livre e sincero ao dar este testemunho. Ele gritou como alguém que era profundo conhecedor da verdade da qual testificava, e também influenciado por ela. Aquele que, no ventre da sua mãe, tinha saltado de alegria pela chegada de Cristo, recém-concebido, agora, com semelhante exultação de espírito, dá as boas-vindas à sua aparição pública.

2. Qual foi seu testemunho. Ele lembra o que tinha dito no início do seu ministério, quando tinha orientado o povo a esperar aquele que viria depois dele, de quem ele era o precursor, e nunca pretendeu nada além de levá-los até Ele, e preparar seu caminho. Disto, ele os tinha avisado desde o início. Observe que é muito consolador para um ministro ter o testemunho da sua consciência de que ele iniciou seu ministério com princípios honestos e intenções sinceras, visando somente a glória e a honra de Cristo. Agora, aquilo que ele tinha dito, ele aplica a este Jesus, a quem ele tinha batizado recentemente, e que tinha sido tão notavelmente reconhecido pelo céu: “Este era aquele de quem eu dizia”. João não diz ao povo que em breve apareceria alguém entre eles, e os abandona para que o descubram. Mas nisto, ele foi além de todos os profetas do Antigo Testamento, pois ele especificou especialmente a pessoa: “Este era aquele, o mesmo homem de quem eu lhes falei, e tudo o que eu disse se referia a Ele”. Mas, o que foi que ele disse?

(1). Ele tinha dado a prioridade a este Jesus: “O que vem depois de mim”, em relação à data do seu nascimento e da sua aparição pública, “é antes de mim”. ”Aquele que me sucede, pregando e fazendo discípulos, é uma pessoa mais excelente, sob todos os aspectos”. Como o príncipe ou nobre que vem depois tem prioridade sobre o precursor ou cavalheiro que abre caminho para ele. Observe que Jesus Cristo, que seria chamado de “Filho do Altíssimo” (Lucas 1.32), tinha prioridade sobre João Batista, que seria chamado somente de “profeta do Altíssimo”, Lucas 1.76. João era um ministro do Novo Testamento, mas Cristo era o Mediador do Novo Testamento. E observe que, embora João fosse um grande homem, e tivesse um grande nome e fosse alvo de muito interesse, ainda assim ele rapidamente deu a prioridade àquele a quem ela pertencia. Note que todos os ministros de Cristo devem dar prioridade a Ele e aos seus interesses, antes de si mesmos, ou de seus próprios interesses. Terão uma má prestação de contas os que buscam o que é seu, e não o que é de Cristo, Filipenses 2.21. “Ele vem depois de mim, mas tem prioridade sobre mim”. Observe que Deus dispensa seus dons conforme sua vontade, e, muitas vezes, diferentemente do que se espera, como Jacó, que preferiu a mais jovem à mais velha. Paulo superou, em muito, aqueles que estavam em Cristo antes dele.

(2). Aqui ele dá uma boa razão para isto: “Porque [Ele) foi primeiro do que eu”, Ele foi meu primeiro, ou primeiro do que eu. Ele foi minha primeira Causa, meu original. O “Primeiro” é um dos nomes de Deus, Isaías 44.6. “Ele é primeiro do que eu, é meu primeiro”:

[1]. Em termos de superioridade: “Ele foi primeiro do que eu, pois antes que Abraão existisse, Ele já era Deus”, cap. 8.58. Na verdade, “Ele é antes de todas as coisas”, Colossenses 1.17. “Eu sou apenas de ontem, Ele é desde a eternidade”. Foi somente naqueles dias que apareceu João Batista (Mateus 3.1), mas as aparições do nosso Senhor Jesus são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade, Miquéias 5.2. Isto prova duas naturezas em Cristo. Cristo, como homem, veio depois de João, no que se refere à sua aparição pública. Cristo, como Deus, era antes dele, e como poderia ser Cristo antes dele, exceto por uma existência eterna?

[2]. Em termos de supremacia: “Ele é meu príncipe”. Assim, alguns príncipes são chamados de “o primeiro”. “E aquele para cujo serviço eu fui enviado, é meu Mestre, eu sou seu ministro e mensageiro”.

 

II – Imediatamente, o evangelista volta a falar de Jesus Cristo, e não continua com o testemunho de João Batista, até o versículo 19. O versículo 16 tem uma correlação evidente com o versículo 14, onde o Verbo encarnado era descrito como cheio de graça e de verdade. Aqui, ele faz disto o objeto, não somente da nossa adoração, mas também das nossas graças, porque todos nós recebemos da sua plenitude. Ele recebeu dons para os homens (Salmos 68.18), para que pudesse dar dons aos homens, Efésios 4.8. Ele estava cheio, para que pudesse encher a todos (Efésios 1.23), para encher nossos tesouros, Provérbios 1. Ele tem uma fonte abundante de plenitude: “Todos nós recebemos”. “Todos nós, apóstolos”, segundo alguns comentaristas. Nós recebemos o privilégio deste apostolado, que é a graça, e uma adequação para ele, que é a verdade. Ou, mais exatamente: “Todos nós, crentes”, todos aqueles que o receberam (v.16), e todos aqueles que receberam algo dele. Observe que todos os verdadeiros crentes recebem da plenitude de Cristo. Os melhores e maiores santos não podem viver sem Ele, os mais humildes e fracos devem viver por Ele. O fato de não termos nada. a menos que o recebamos, exclui a ostentação orgulhosa, e o fato de que nada nos faltará silencia os te mores desconcertantes. Vejamos o que nós recebemos.

1. Nós recebemos “graça sobre graça”. Tudo o que recebemos por Cristo é resumido nesta única palavra, graça. Nós recebemos a própria graça, um presente tão grande, tão rico, tão inestimável. Nós recebemos nada menos que a graça. Este é um dom do qual se deve falar com ênfase. Ele é repetido, graça sobre graça, pois para cada pedra neste edifício, assim como para a primeira pedra, devemos clamar: “Graça, graça”. Observe:

(1). A bênção recebida. É a “graça”, a boa vontade de Deus para conosco, e a boa obra de Deus em nós. A boa vontade de Deus realiza a boa obra, e então a boa obra nos qualifica para outros símbolos da sua boa vontade. Como a cisterna recebe água da plenitude da fonte, os galhos retiram a seiva da plenitude da raiz, e o ar se ilumina da plenitude do sol, assim também nós recebemos graça da plenitude de Cristo.

(2). A maneira como ela é recebida: “Graça sobre graça”. A frase é singular, e os intérpretes atribuem-lhe sentidos diferentes, cada um dos quais será útil para exemplificar as inescrutáveis riquezas da graça de Cristo. “Graça sobre graça” indica:

[1] A liberalidade desta graça. É graça pela graça, segundo Grotius. Nós recebemos graça, não por nós (é bom que saibamos disto), mas pelo Pai, porque pareceu bom aos seus olhos. É um dom segundo a graça, Romanos 12.6. E graça para nós pela graça de Jesus Cristo. Deus agradou-se de Jesus Cristo, e, portanto, agradou-se de nós, nele, Efésios 1.6.

[2] A plenitude desta graça. “Graça sobre graça” é abundância de graça, graça sobre graça (segundo Camero), uma graça sobre outra, assim como pele sobre pele é uma pele depois de outra pele, e este conceito alcança até mesmo tudo o que o homem tem, Jó 2.4. É uma bênção derramada, e não haverá espaço para recebê-la, uma graça é um sinal de mais graça. José significa “Ele acrescenta”. A plenitude com que somos preenchidos é tal, que é chamada de plenitude de Deus. Precisamos endireitar nosso coração para que possamos desfrutar da graça de Cristo de uma forma completa.

[3] A utilidade desta graça. “Graça sobre graça” é graça para a promoção e o avanço da graça. Graça a ser exercida por nós mesmos, hábitos graciosos por atos graciosos. Graça a ser ministrada a outros, concessões graciosas para desempenhos graciosos: graça é um talento a ser negociado. Os apóstolos receberam graça (Romanos 1.5; Efésios 3.8), para poderem administrá-la, 1 Pedro 4.10.

[4] A substituição da graça do Novo Testa­ mento no lugar da graça do Antigo Testamento, segundo Beza. E este sentido é confirmado pelo que está escrito a seguir (v.17), pois o Antigo Testamento tinha a graça em tipo, e o Novo Testamento tem a graça em verdade. Havia uma graça sob o Antigo Testamento, e o Evangelho foi anunciado (Gálatas 3.8). Mas esta graça foi substituída, e nós temos, em seu lugar, a graça do Evangelho, uma glória excelente, 2 Coríntios 3.10. As revelações da graça são agora mais claras, e as distribuições de graça são muito mais abundantes. Esta é a graça no lugar em que a graça deve estar.

[5] Ela traduz o acréscimo e a continuidade da graça. “Graça sobre graça” é uma graça para aprimorar, confirmar e aperfeiçoar outra graça. Nós somos transformados na imagem divina, de glória em glória, de um grau de graça gloriosa a outro, 2 Coríntios 3.18. Aqueles que têm a verdadeira graça recebem ainda mais graça, Tiago 4.6. Quando Deus concede sua graça, Ele diz: “Por enquanto, receba-a em parte”, pois aquele que prometeu jamais falhará.

[6] Ela traduz a afabilidade e a conformidade da graça nos santos em relação à graça que está em Jesus Cristo, segundo Sr. Clark. Graça sobre graça é graça em nós, em resposta à graça nele, assim como a impressão sobre a cera corresponde ao selo linha por linha. A graça que nós recebemos de Cristo transforma-nos na mesma imagem (2 Coríntios 3.18), na imagem do Filho (Romanos 8.29), na imagem do celestial, 1 Coríntios 15.49.

2. Nós recebemos graça e verdade, v. 17. Ele tinha dito (v. 14) que Cristo era cheio de graça e de verdade. Agora, aqui, ele diz que, por meio dele, graça e verdade vêm a nós. De Cristo, nós recebemos a graça. Esta é uma corda de uma harpa que Ele se alegra em tocar, e Ele não pode deixar de tocá-la. Duas coisas adicionais são observadas neste versículo, a respeito desta graça:

(1). Sua preferência sobre a lei de Moisés: “A lei foi dada por Moisés”, e foi uma revelação gloriosa tanto da vontade de Deus para o homem como da sua boa vontade para com o homem. Mas o Evangelho de Cristo é uma revelação muito mais clara, tanto de dever quanto de felicidade. Pois aquilo que foi dado por Moisés era puramente aterrorizador e ameaçador, e vinculado por punições, uma lei que não podia dar vida, que era dada em abundante terror (Hebreus 12.18). Mas o que foi dado por Jesus Cristo é de outra natureza, e tem todos os usos benéficos da lei, mas não o terror, pois é graça, graça que ensina (Tito 2.11), graça que reina, Romanos 5.21. É uma lei, mas uma lei reparador a. Os fundamentos do Evangelho são a ternura e o amor, e não os terrores da lei e a maldição.

(2). Sua conexão com a verdade: graça e verdade. No Evangelho, temos a revelação das maiores verdades a serem aceitas pelo entendimento, como também da maior graça a ser aceita pela vontade e pelos afetos. São palavras fiéis e merecedoras de toda a aceitação, isto é, é graça e verdade. As ofertas de graça são sinceras, e a elas nós podemos confiar nossas almas. Elas são sérias, pois trata-se de graça e de verdade. É graça e verdade com referência à lei que foi dada por Moisés. Pois é:

[1] O cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento. No Antigo Testamento, encontramos sempre a misericórdia e a verdade juntas, isto é, misericórdia segundo a promessa. Também aqui, a graça e a verdade juntas significam graça segundo a promessa. Veja Lucas 1.72; 1 Reis 8.56.

[2] A essência de todos os tipos e sombras do Antigo Testamento. Havia um pouco de graça, tanto nas ordenanças que foram instituídas para Israel, quanto nas providências que tiveram lugar a respeito de Israel. Mas eram apenas sombras das boas coisas que viriam, até mesmo da graça que nos seria trazida pela revelação de Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Cordeiro Pascal, o verdadeiro bode expiatório, o verdadeiro maná. Eles tinham a graça como um quadro pintado por um artista hábil, nós temos a graça em pessoa, isto é, a graça e a verdade. ”A graça e a verdade vieram”, fizeram-se. Esta é a mesma expressão que foi usada (v. 3) a respeito da criação de todas as coisas por Cristo. O conhecimento da lei foi trazido por intermédio de Moisés, mas a revelação da graça e da verdade, bem como a oportunidade de experimentarmos estas preciosas virtudes, deve-se a Jesus Cristo. Esta obra foi feita por Ele, assim como o mundo, no princípio, e é através dele que esta graça e verdade ganham sua consistência.

3. Outra coisa que recebemos de Cristo é urna clara revelação de Deus a nós (v. 8): Ele nos declarou Deus, a quem nenhum homem tinha visto, em nenhuma ocasião. Esta era a graça e verdade que vinham por Cristo, o conhecimento de Deus e um relacionamento com Ele. Observe:

(1). A insuficiência de todas as outras revelações: “Deus nunca foi visto por alguém”. Isto sugere:

[1] Que a natureza de Deus, sendo espiritual, torna-o invisível aos olhos físicos, e assim Ele é um ser que ninguém viu, nem pode ver 1 Timóteo 6.16. Portanto, temos a necessidade de viver pela fé, pela qual vemos aquele que é invisível, Hebreus 11.26.

[2] Que a revelação que Deus fez de si mesmo no Antigo Testamento foi muito breve e imperfeita, em comparação com a que Cristo fez dele: “Deus nunca foi visto por alguém”, isto é, o que era visto e sabido a respeito de Deus, antes da encarnação de Cristo, não era nada em comparação com o que agora é visto e conhecido. A vida e a imortalidade são trazidas com uma luz muito mais clara do que antes.

[3] Que nenhum dos profetas do Antigo Testamento estava tão qualificado para fazer conhecidas a mente e a vontade de Deus aos filhos dos homens como nosso Senhor Jesus estava, pois nenhum deles tinha visto a Deus, em nenhuma ocasião. Moisés viu a semelhança do Senhor (Números 12.8), mas foi-lhe dito que não poderia ver sua face, Êxodo 33.20. Porém, há um fato que nos recomenda a santa religião de Cristo, que ela foi fundada por alguém que tinha visto a Deus, e conhecia mais seu pensamento do que qualquer outra pessoa jamais conheceu.

(2). A completa suficiência da revelação do Evangelho, provada pelo seu autor: “O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer”. Observe aqui:

[1] O Senhor Jesus era a pessoa mais indicada para fazer esta revelação, e estava absolutamente qualificado para isto. Ele, e somente Ele, é digno de tomar o livro e de abrir seus selos, Apocalipse 5.9. Pois, em primeiro lugar, Ele é o Filho Unigênito, e quem poderia conhecer o Pai como o Filho? Ou por quem o Pai é mais bem conhecido, senão pelo Filho? Mateus 11.27. Ele é da mesma natureza que o Pai, e, sendo assim, quem o vê, vê o Pai, cap. 14.9. O servo não sabe o que faz seu Senhor tão bem quanto o Filho, cap. 15.15. Moisés era fiel corno servo, mas Cristo é fiel como Filho. Em segundo lugar, Ele está no seio do Pai. Ele tinha estado no seu seio desde a eternidade. Quando Ele estava aqui, sobre a terra, ainda as­ sim, como Deus, Ele estava no seio do Pai, e para lá Ele retornou, quando ascendeu. “No seio do Pai”, isto é:

1. No seio do seu amor especial, amado por aquele em quem Ele se comprazia, sendo sempre suas delícias. Todos os santos de Deus estão nas suas mãos, mas seu Filho estava no seu seio, e, portanto, no grau mais elevado em termos de amor.

2. No seio dos seus conselhos secretos. Assim como havia uma complacência mútua, também havia uma consciência mútua entre o Pai e o Filho (Mateus 11.27). Ninguém é tão adequado quanto o Senhor Jesus para tornar Deus, o Pai, conhecido, pois ninguém conhecia seu pensamento como Ele. Nós costumamos dizer que nossos conselhos sagrados estão ocultos no nosso seio. Cristo tem um acesso privado aos conselhos do seio do Pai. Os profetas se sentariam aos seus pés como alunos, porém Cristo está no seio de Deus, o Pai, como um amigo. Veja Efésios 3.11.

[2] Com que liberdade o Senhor Jesus fez esta revelação: Ele fez conhecer. O pronome “o” não está no texto original. Ele divulgou, a respeito de Deus, aquilo que nenhum homem tinha visto ou sabido, em nenhuma ocasião. Não somente o que estava oculto a respeito de Deus, mas o que estava oculto em Deus (Efésios 3.9), significa uma revelação clara e plena, não por indicações gerais e duvidosas, mas por explicações particulares. Até mesmo aquele que está correndo pode, agora, ler sobre a vontade de Deus e o caminho da salvação. Estas são a graça e a verdade, que vieram através de Jesus Cristo.