PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CÉREBRO DA MÃE NO CONTEXTO BIOPSICO E SOCIAL

Ao longo dos anos ocorreu uma alteração na importância dada à mãe e nas formas de exercício da função materna, que estão ligadas a transformações sócio – histórico­ – culturais e que afetaram a família.

o cérebro da mãe no contexro biopsico e moral2

A origem e o significado da palavra mãe nunca ficaram totalmente definidos, muitos filósofos apontam que “mãe” vem do antigo provençal maire, enquanto outros defendem que é de origem latina. Mãe também pode denominado como a pessoa que adota, cria e cuida de uma criança gerada por outrem. Encontra-se com frequência casos em que uma mãe desempenha o papel de mãe e de pai simultaneamente, outros casos em que o pai cumpre o papel de pai e de mãe. Em certos casos há crianças que procuram fazer o papel de mãe na vida de outras crianças. Uma outra denominação que pode ser considerada é a de genitora ou progenitora.

Um levantamento histórico sobre a maternidade nos permite perceber que houve uma mudança na relevância dada à mãe e nas formas de exercício da função materna que estão ligadas a transformações sócio-histórico-culturais que afetaram a família, além de contribuir para maior compreensão das vicissitudes atuais que a cercam e dos processos afetivos que envolvem o relacionamento entre seus membros.

Em períodos como a Antiguidade e a Idade Média predominava o poder paterno dentro da família em detrimento do materno, configurando um sistema familiar apoiado ideologicamente pela teologia cristã e pelo absolutismo político. Não existia o “sentimento de infância, sendo a família uma realidade moral e social mais do que sentimental, cujas relações baseiam-se em fatores como idade, virtuosidade, dote, classe social, honra da linhagem, preservação do nome e integridade do património. A família cumpria, assim, a função de transmissão da vida, dos bens, dos costumes e do nome, não havendo preocupação com os laços afetivos e nem com a educação formal das crianças.

Considerando o processo orgânico, tornar-se mãe pode transformar o encéfalo logo após o parto, isso porque ocorrem modificações dentro do cérebro da mulher. Segundo estudos recentemente publicados na revista Behavioral Neuroscience da American Psychological Association, crescem as áreas ligadas à motivação e ao comportamento. Um fato a ser considerado é como ocorre a relação de empatia entre a mãe e a criança. Essa capacidade se dá a princípio por fatores neurobiológicos dos neurônios do córtex, que por meio do potencial de ação (estímulos) provocam uma adaptação importante do cérebro materno, que é a redução da massa cinzenta de várias áreas do cérebro e o aumento da quantidade de conexões neuroglias.

O cérebro da mulher grávida muda. Literalmente, a massa cinzenta é reduzida em áreas relacionadas com a empatia. Essa diminuição nas conexões neurais da mãe favorece certas funções, tais como interpretar os estados mentais do filho ou até mesmo antecipar situações ameaçadoras do meio ambiente atuando como um mecanismo adaptativo para promover a sobrevivência da criança.

PESQUISA

Estudos do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA vem contribuindo por meio de uma equipe de investigadores, liderada pelo neuro­cientista Pilyoung Kim, que avalia de que modo as mudanças hormonais que ocorrem logo após o nascimento – incluindo o aumento dos níveis de ocitocina, estrogênio e prolactina  – podem  ajudar a tornar o cérebro das mulheres depois do parto, mais propenso à reformulação, como resposta ao fato de ter um bebê. A pesquisa é baseada em exames de ressonância magnética no cérebro das mães e revela que, mesmo depois do parto, entre duas semanas e até quatro meses depois do nascimento do bebê a massa cinzenta cresce pouco, porém significativamente. As evidências demonstram que o cérebro diminui de tamanho durante a gravidez, e que se remodela aos poucos após o parto.

No cérebro das mães, as áreas que apresentaram transformações são as estruturas do hipotálamo (associado à motivação e ao sentimento materno), a substância negra e as amigdalas cerebrais (ligadas à recompensa e ao processamento da emoção), o lobo parietal (integração sensorial) e o córtex pré-frontal (raciocínio e julgamento). A evidência científica aposta em uma conexão entre hormônios, mudanças físicas e alterações funcionais, provavelmente relacionados à “cascata” de hormônios que vêm do feto, que mudam o corpo e o cérebro da mãe. As mudanças no cérebro afetam áreas associadas com funções necessárias para o gerenciamento dos “desafios da maternidade” e, mesmo depois do nascimento, as alterações permanecem modificadas, remodelando-se ao longo do processo vital.

Essa mudança, após o parto, altera a conduta e aumenta a sua motivação, o raciocínio, as emoções. Esses aspectos podem promover um “aguçamento” do cérebro materno, preparando-o para o acolhimento e cuidado do bebê. Esse fenômeno acontece por meio da neuroplasticidade ou formação de novas conexões neuronais no cérebro da mãe. Diante dessa possibilidade biológica, a mãe pode se tornar mais disponível para as atividades maternais, como por exemplo: o alerta e a interpretação do choro do bebê, dentre outras situações.

Mesmo sem saber e sem perceber, o corpo feminino cria estruturas para encarar essa nova situação totalmente diferente. Toda aquela força que faz a mulher conseguir acordar de madrugada, tendo dormido muito pouco ou quase nada, ou a vontade de cuidar do bebê e tudo aquilo que todo mundo achava se tratar de instinto maternal pode ser um mecanismo ativado por um novo arranjo cerebral.

Pode relacionar o desenvolvimento emocional no cérebro da mãe com o conteúdo do conhecimento sobre a teoria do apego. Para a Neurociência, se deve ao fato de oferecer elementos conceituais básicos que permitem pensar os vínculos afetivos do sujeito humano ao longo do ciclo de vida. Os postulados de Bowby e Amsworth têm se mostrado passíveis dos ajustes demandados pela Psicologia contemporânea, que tem considerado o desenvolvimento como um fenômeno multideterminado que sofre a ação das variáveis, que constituem o contexto no qual o sujeito se encontra inserido. Na perspectiva sistêmica., a noção de contexto envolve não apenas sua natureza física, mas também os elementos simbólicos e sociais. Entre esses se destacam os vínculos primordiais estabelecidos pelo indivíduo. As pesquisas recentes em apego destacam que não apenas os elementos individuais, isto é, as características dos sujeitos envolvidos na relação, mas também os fatores contextuais influenciam na formação dos vínculos afetivos. Assim, a dinâmica do apego está sujeita à ação de fatores de natureza individual, relacional e contextual.

Isso se dá provavelmente devido à relação que o humano herdou dos mamíferos primitivos, estabelecendo­ se, então, uma característica biológica muito presente no cérebro da mãe na aquisição do vínculo afetivo.

O cérebro humano é trino, segundo o cientista Paul MacLean, que, apresentado em 1990, no seu livro The Triune Brain in Evolution: Role in Paleo cerebral Functions, discute o fato de que os humanos/primatas têm o cérebro dividido em três unidades funcionais diferentes. Cada uma    dessas unidades representa um extrato evolutivo do sistema nervoso dos vertebrados.

 BASES

O cérebro humano no processo embrionário é desenvolvido das bases mais primitivas para as bases mais superiores e refinadas na funcionalidade cognitivo. São eles:

1 – CÉREBRO REPTILIANO: O cérebro reptiliano ou cérebro basal ou ainda, como o chamou MacLean, “R-complex”, é formado apenas pela medula espinhal e pelas porções basais do prosencéfalo. Esse primeiro nível de organização cerebral é capaz apenas de promover reflexos simples, o que ocorre em répteis, por isso o nome. Conhecido como “cérebro instintivo”, tem como característica a sobrevivência, responsável pelas emoções primárias, como fome, sede, entre outras.

2 – CÉREBRO DOS MAMÍFEROS INFERIORES: O cérebro dos mamíferos inferiores ou cérebro emocional ou “paleommamalian Brain”, é o segundo nível funcional do sistema nervoso e, além dos componentes do cérebro reptiliano, conta com os núcleos da base do telencéfalo, responsáveis pela motricidade grosseira, pelo diencéfalo, constituído por tálamo, hipotálamo e epitálamo; pelo giro do cíngulo; e pelo hipocampo e para hipocampo. Esses últimos componentes são integrantes do sistema límbico, que é responsável por controlar o comportamento emocional dos indivíduos, daí o nome cérebro emocional. Esse nível de organização corresponde ao cérebro da maioria dos mamíferos.

3 – CÉREBRO RACIONAL: Conhecido também como neocórtex, é composto pelo córtex telencéfalo. Esse, por sua vez, é dividido em lobos, sendo esses:

FRONTAL: O mais derivado dos lobos cerebrais, (responsável pelas funções executivas;

PARIETAL: Responsável pelas sensações gerais;

TEMPORAL: Responsável pela audição e pelo olfato;

OCCIPITAL: Responsável pela visão;

INSULAR: Responsável pelo paladar e gustação.

O cérebro racional é o que diferencia o homem/primata dos demais animais. Segundo Paul MacLean, é apenas pela presença do neocórtex que o homem consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem capacidade de gerar invenções. O Cérebro Emocional é o responsável pela afetividade e pela aquisição dos vínculos. As emoções estão relacionadas ao circuito de Papez e à liberação de determinados hormônios e neurotransmissores estimulados por essa estrutura.

Quando o indivíduo se encontra diante de um acontecimento que, de alguma forma, o afeta, o impulso nervoso atinge inicialmente o tálamo e aí a mensagem se divide. Uma parte vai para o córtex cerebral, onde origina experiências subjetivas de medo, raiva, tristeza, alegria etc. A outra se dirige para o hipotálamo, o qual determina as alterações neurovegetativas periféricas (sintomas). Ou seja, as reações fisiológicas e a experiência emocional são simultâneas.

 EMOÇÕES

O comportamento materno está relacionado às estruturas cerebrais das emoções, sendo de extrema relevância destacar que as áreas envolvidas com a emoção se interligam intensamente e que nenhuma delas é exclusivamente responsável por esse ou aquele tipo de estado emocional. No entanto, algumas contribuem mais que outras para esse ou aquele determinado tipo de emoção no cérebro da mãe. Existem, ainda, duas condições bem caracterizadas que, de certa forma, estão inseridas no contexto da vida afetiva materna, posto que, dependendo da intensidade dos afetos, elas podem resultar desses e, às vezes, com eles se confundirem.

Ao longo dos séculos, filósofos, médicos e psicólogos estudaram os fenômenos da vida afetiva, questionando sua origem, seu papel sobre a vida psíquica, sua ação favorecedora ou prejudicial à adaptação, seus concomitantes fisiológicos e seu substrato neuroendócrino. As manifestações afetivas teriam como causa última, a capacidade de a matéria viva responder a estímulos. Existe uma teoria clássica e antagônica sobre a questão, defendida por Darwin e seus seguidores. Prega que as reações afetivas seriam padrões inatos destinados a orientar o comportamento, com a finalidade de adaptar o ser ao meio ambiente e, assim, assegurar-lhe a sobrevivência e a da sua espécie.

Com essa definição teórica diante dos achados de Darwin, um contexto importante para se definir é a importância do funcionamento neuroendócrino na produção de ocitocina, que é considerada o hormônio do amor.

A ocitocina é responsável por promover a criação de vínculos, a doação, a socialização. A produção desse hormônio acontece quando se está na presença de bons amigos, nos relacionamentos saudáveis, quando se comemoram realizações e conquistas positivas, em situação de confraternização e empatia. E no cérebro da mãe diante do encontro e no relacionamento com os filhos(as). Pode ser considerado o hormônio do amor, do prazer, das emoções.

Enfim, ocitocina é importante durante toda a vida, mas especialmente no parto e no pós-parto. Assim, lembre-se de nessas ocasiões falar palavras de carinho para a mãe recente, elogiar, dar um abraço sentido. Atitudes simples que podem ter um grande impacto. Um brinde à ocitocina, o hormônio do amor e aos vínculos afetivos!

E como fica a reprodução social da produção biológica, no processo de construção da mulher-mãe, são conceitos que se confundem com o processo histórico e cultural do contexto na qual a sociedade possa estar inserida.

A ideologia apresenta uma visão “deturpada” da própria maternidade, por meio de histórias romanceadas do “papel de mãe” que não se sustentam na realidade. Esse olhar é difundido pela ideologia patriarcal, que pode ser estimulada por: homens, mulheres, especialistas, educadores, que transmitem a noção de maternidade como algo tão somente natural. Essa noção pressupõe a igualdade de todas as mães, negando as condições socialmente determinadas num contexto de classes sociais, num contexto diversificado.

 CONDICIONAMENTO

As mulheres se apresentam condicionadas a esse papel desde a infância, mas não somente nela, todo seu desenvolvimento é norteado para esse condicionamento, mesmo que ela nunca chegue a ser mãe. Da infância, as meninas-mães lembram brincadeiras de bonecas, cuidados dos(as) irmãos (ãs) e cuidadoras de outras crianças, dependendo de suas condições sociais. Em comum, fica-lhes determinado o futuro papel a desempenhar.

A aprendizagem de se tomar mãe, no entanto, enquanto processo, é uma possibilidade explicativa do fato de as mulheres atribuírem ao nascimento de seus (suas) filhos(as)  uma causa mágica, como consequência de uma crença numa vontade eterna de ser mãe, seguida da necessidade do cumprimento de um dever para com a vida que extrapola sua própria existência.

Uma reflexão cuidadosa a ser evidenciada é a “mãe modelo” produzida em série! O amor materno, por sua vez, constitui-se numa das mais delicadas facetas no entendimento da ideologia em relação à mulher-mãe, pois converge para a dimensão santificada atribuída à maternidade. Ser mãe não é só gerar, mas também não é só criar.

Para uma possível reflexão: sem filhos, a mulher está em falta com sua natureza de mulher, uma vez que não cumpria sua função biológica. Com filhos, fica comprometida como exclusiva criadora, e sendo o amor materno considerado e sentido como um investimento a espera do outrem, mesmo para as mães que exercem atividades; as mais diferenciadas possíveis, a maternidade ainda se caracteriza como a atividade mais sublime de sua vida. Mas o alerta é não repetir o “modelo de mãe real/ e ou a mãe ideal, sendo que o “choque” entre ambas é inevitável.

 O HORMÔNIO RESPONSÁVEL PELA MOTIVAÇÃO, DESEJO, PRAZER E AFETOS

A neurobiologia do cérebro relacionada a motivação, ao desejo, ao prazer, aos afetos está relacionada à ocitocina, que é um hormônio produzido e estimulado pelo hipotálamo no cérebro e armazenado na neuro-hipófise, de onde é liberada sob a influência de certos estilos. Na mãe gravida, por exemplo, quando o bebê está pronto para nascer, com o pulmão (que é o último órgão a estar “pronto”) já amadurecido, sinais são enviados ao cérebro, que começa então a liberar a ocitocina, hormônio responsável pelas contrações uterinas que levam ao nascimento do bebê. Depois que o bebê nasce, a ocitocina promove outras contrações uterinas que conduzem o útero a voltar ao seu tamanho normal, processo que leva em torno de seis semanas. A ocitocina também auxilia na amamentação.

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OCITOCINA

Os níveis de ocitocina sobem com o toque, abraços, carinhos, massagens, tudo impulsiona a produção desse hormônio. Estudos evidenciam que a música acalma e relaxa o cérebro e a quantidade de ocitocina no sangue se eleva provocando menos estresse. Daí a dica para as mães: relaxamento e meditação.

 

MARTA RELVAS – é doutora e mestre em Psicanálise e Neurofisiologia, autora de livros e DVDs sobre Neurociência publicados pela Wak Editora.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.