ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 6-14

Alimento diário

O Testemunho de João Batista / A Encarnação de Cristo

 

O evangelista deseja apresentar João Batista dando um honroso testemunho a respeito de Jesus Cristo. Nestes versículos, antes de fazer isto:

I – Ele nos dá algumas informações sobre a testemunha que irá apresentar. Seu nome era João, que significa “gracioso”. Suas palavras eram austeras, mas ele não era menos gracioso por isto. Veja:

1. Aqui nós lemos a respeito dele, de uma forma geral, que era um homem enviado por Deus. O evangelista tinha dito, a respeito de Jesus Cristo, que Ele estava com Deus, e que Ele era Deus. Mas aqui, a respeito de João, ele diz que se tratava de um homem, um mero homem. Deus se agrada de falar conosco por meio de homens como nós mesmos. João era um grande homem, mas era um homem, filho de homem. Era enviado de Deus, um anjo de Deus, assim ele é chamado, Malaquias 3.1. Deus deu a ele tanto sua missão quanto sua mensagem, tanto suas credenciais quanto suas instruções. João não realizou nenhum milagre, nem lemos que tenha tido visões e revelações, mas a rigidez e a pureza da sua vida e doutrina, e a tendência direta de ambas para transformar o mundo e reavivar os interesses do reino de Deus entre os homens, eram indicações claras de que ele era enviado por Deus.

2. Aqui nós lemos quais eram suas funções (v.7): “Este veio para testemunho”, uma testemunha ocular, uma testemunha líder. Ele veio para testemunho. As instituições legais tinham sido, por muito tempo, um testemunho de Deus na igreja judaica. Por seu intermédio, a religião revelada era acompanhada. Nela, nós lemos sobre o Tabernáculo do testemunho, a Arca do testemunho, a Lei e o testemunho. Mas agora a revelação divina será dirigida a outro canal, agora o testemunho de Cristo é o testemunho de Deus, 1 Coríntios 1.6; 2.1. Deus realmente não deixou a si mesmo sem um testemunho entre os gentios (Atos 14.17), mas o Redentor não tinha testemunhas a seu favor entre eles. Havia um profundo silêncio a respeito dele, até que João Batista veio para testificar sobre sua bendita pessoa. Observe:

(1) O assunto do seu testemunho: “Para que testificasse da luz”. A luz é algo que testemunha por si mesma, e traz sua própria evidência consigo. Mas para aqueles que fecham seus olhos contra a luz, é necessário que haja aqueles que testifiquem dela. A luz de Cristo não precisa do testemunho do homem, mas as trevas do mundo, sim. João era como o vigia noturno que anda pela cidade, pro­ clamando a chegada da luz da manhã àqueles que têm os olhos fechados, e não desejam observá-la. Ou como aquele vigia que se colocava para dizer àqueles que lhe perguntavam o que houve de noite que “vem a manhã”, e, “se quereis perguntar, perguntai”, Isaías 21.11,12. Ele era o enviado de Deus para dizer ao mundo que o tão esperado Messias era chegado, aquele que seria uma luz para iluminar os gentios, e a glória do seu povo, Israel, e para proclamar que era chegada a dispensação que traria à luz a vida e a imortalidade.

(2) O desígnio do seu testemunho: “Para que todos cressem por ele”. Não nele, mas em Cristo, cujo caminho ele tinha sido enviado para preparar. Ele ensinou os homens a olharem através dele, e a passarem, por seu intermédio, a Cristo; através da doutrina do arrependimento do pecado, à doutrina da fé em Cristo. Ele preparou os homens para a recepção de Cristo e do seu Evangelho, despertando-os a uma visão e a uma percepção do pecado, e para que, com os olhos abertos, eles pudessem estar prontos para aceitar os raios de luz divina que, na pessoa e doutrina do Messias, agora estavam prontos para brilhar em seus rostos. Se eles apenas recebessem o testemunho dos homens, logo descobririam que o testemunho de Deus é maior, 1 João 5.9. Veja cap. 10.41. Observe que o objetivo era que todos os homens, por seu intermédio, cressem, sem excluir das gentis e benéficas influências do seu ministério a ninguém que não se excluísse, como faziam as multidões que rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmas, e desta maneira receberam inutilmente a graça de Deus.

3. Aqui somos avisados para não confundir com a luz aquele que somente veio para dar testemunho dela (v. 8): “Não era ele a luz”, que era esperada e prometida, mas somente se colocou para dar testemunho desta grande e soberana luz. Ele era uma estrela, como aquela que guiou os magos para que encontrassem a Cristo, a Estrela da Manhã, mas ele não era o Sol; não era o Esposo, mas um amigo do Esposo; não era o Príncipe, mas seu arauto. Havia aqueles que se acomodavam ao batismo de João, e não iam adiante, como alguns efésios, Atos 19.3. Para corrigir este erro, o evangelista, aqui, ao falar muito honrosamente a respeito de João Batista, ainda assim mostra que ele deveria dar lugar a Cristo. Ele era grande, como o profeta do Altíssimo, mas não era o Altíssimo. Observe que nós devemos tomar o mesmo cuidado para não supervalorizar os ministros, e também para não subvalorizá-los. Eles não são nossos senhores, nem têm domínio sobre nossa fé, mas são ministros pelos quais nós cremos, são administradores da casa do Senhor. Não devemos assumir uma fé cega em relação à sua conduta, pois eles não são a luz, mas devemos prestar atenção ao seu testemunho, e recebê-lo, pois eles são enviados para dar testemunho da luz. Devemos, então, estimá-los, não fazendo nada diferente disto. Se João fingisse ser aquela luz, ele não teria sido uma testemunha tão fiel daquela luz. Aqueles que usurpam a honra de Cristo perdem a honra de ser servos de Cristo. João era muito útil como uma testemunha da luz, embora não fosse a luz. Até mesmo aqueles que brilham com uma luz emprestada podem ser muito úteis para nós.

 

II – Antes de prosseguir com o testemunho de João, ele retorna para nos dar informações adicionais sobre este Jesus de quem o evangelista estava escrevendo. Tendo mostrado, no início do capítulo, as glórias da sua divindade, aqui ele vem mostrar as graças da sua encarnação, e seus favores ao homem como Mediador.

1. Cristo era a “luz verdadeira” (v.9). Não como se João Batista fosse uma falsa luz, mas, em comparação com Cristo, ele era uma luz muito pequena. Cristo é a grande luz, e merece ser chamado assim. Outras luzes são apenas figurativamente e equivocadamente assim chamadas. Cristo é a verdadeira luz. A fonte de todo conhecimento e de todo consolo deve, necessariamente, ser a verdadeira luz. Ele é a verdadeira luz, por cuja prova nós não somos remetidos às emanações da sua glória no mundo invisível (os raios com os quais Ele o ilumina), mas aos raios da sua luz que são lançados para baixo, e com os quais este nosso mundo escuro é iluminado. Mas como Cristo ilumina todo homem que vem ao mundo?

(1) Pelo seu poder de criação, Ele ilumina todo homem com a luz da razão. Aquela vida, que é a luz dos homens, origina-se nele. Todas as revelações e orientações da razão, todo o consolo que ela nos dá, e toda a beleza que coloca em nós vêm de Cristo.

(2) Pela divulgação do seu Evangelho a todas as nações, Ele verdadeira­ mente ilumina todos os homens. João Batista era uma luz, mas ele iluminava somente Jerusalém e a Judéia, e a região próxima ao Jordão, como uma candeia que ilumina somente uma sala. Porém, Cristo é a luz verdadeira, pois Ele é uma luz que ilumina os gentios. Seu Evangelho eterno deve ser proclamado a toda nação e língua, Apocalipse 14.6. Como o sol, que ilumina todo homem que abrir seus olhos, e receber sua luz (Salmos 19.6), ao qual se compara a pregação do Evangelho. Veja Romanos 10.18. A revelação divina não deve agora ser confinada, como tinha sido, a um povo, mas deve ser difundida a todos os povos, Mateus 5.15.

(3) Por obra do seu Espírito e graça, Ele ilumina todos aqueles que são iluminados para a salvação, e aqueles que não são iluminados por Ele perecem nas trevas. Está escrito que a luz do conhecimento da glória de Deus está na face de Jesus Cristo, e é comparada com a luz que no início recebeu a ordem de brilhar nas trevas, e que ilumina todo homem que vem ao mundo. Qualquer que seja a luz que o homem tenha, ele estará em dívida com Cristo por ela, seja esta luz natural ou sobrenatural.

2. Cristo “estava no mundo”. v.10. Ele estava no mundo, como a Palavra essencial, antes da sua encarnação, sustentando todas as coisas. Mas isto se refere ao fato de que Ele estava no mundo quando assumiu sobre si nossa natureza, e habitou entre nós. Veja cap.16.28: “Vim ao mundo”. O Filho do Altíssimo estava aqui, neste mundo inferior; aquela luz neste mundo escuro; aquele santo, neste mundo pecador e corrompido. Ele tinha deixado um mundo de felicidade e glória, e estava aqui, neste mundo melancólico e miserável. Ele assumiu a missão de reconciliar o mundo com Deus, e por isto estava no mundo, para tratar deste assunto e para decidir esta questão, para satisfazer a justiça de Deus para o mundo, e revelar o favor de Deus para o mundo. Ele estava no mundo, mas não era do mundo, e fala com um ar de triunfo quando pode dizer: “Eu já não estou mais no mundo”, cap. 17.11. A maior honra que já foi dada a este mundo, que é uma parte tão inferior e sem valor do universo, é que o Filho de Deus esteve, certa vez, no mundo. E assim como isto deveria engajar nossos afetos às coisas do alto, onde Cristo está, também deveria reconciliar-nos com nossa habitação atual neste mundo, em que Cristo esteve certa vez. Ele esteve no mundo durante algum tempo, mas isto é mencionado aqui como algo já passado, e assim será dito a nosso respeito, dentro de pouco tempo: “Nós estivemos no mundo”. Oh! Que, quando não estivermos mais aqui, possamos estar onde Cristo está! Observe aqui:

(1) Que razão Cristo tinha para esperar a mais afetuosa e respeitosa acolhida possível neste mundo: “O mundo foi feito por ele”. Ele veio para salvar um mundo perdido porque era um mundo feito por Ele. Por que Ele não deveria se preocupar em restaurar a luz que tinha sido acesa por Ele mesmo, restaurar uma vida que Ele mesmo tinha infundido, e renovar a imagem que foi, originalmente, cunhada por Ele mesmo? O mundo foi feito por Ele, e, portanto, deve render-lhe homenagem.

(2) A fria recepção que Ele teve, apesar disto: “O mundo não o conheceu”. O grande Criador, Soberano e Redentor deste mundo estava nele, e poucos, ou nenhum, dos habitantes do mundo soube disto. “O boi conhece o seu possuidor”, mas o mundo mais embrutecido não o conheceu. Eles não o aceitaram, não lhe deram as boas-vindas, porque não o conheceram. E eles não o conheceram porque Ele não se deu a conhecer da maneira como eles esperavam – em glória e majestade externas. Seu reino não veio com alarde, porque deveria ser um reino de lutas e provações. Quando Ele vier como Juiz, o mundo o conhecerá.

3. Ele “veio para o que era seu” (v. 11). Não somente ao mundo, que era seu, mas ao povo de Israel, que era particularmente seu, acima de todos os povos. Deles, El e veio; entre eles, Ele viveu; e a eles, Ele foi enviado, em primeiro lugar. Os judeus eram, nesta época, um povo desprezível. A coroa tinha caído de suas cabeças, mas, em memória do antigo concerto, por mais que fossem maus, e por mais que fossem pobres, Cristo não se envergonhava de considerá-los como seus, suas próprias coisas, não suas próprias pessoas, como os verdadeiros crentes são chamados, cap. 13.1. Os judeus eram seus, assim como a casa de um homem, e as terras, e os bens são seus, e ele os usa e possui. Mas os crentes são seus, assim como a esposa e os filhos de um homem são seus e ele os ama e aprecia. Ele veio para os seus, para procurá-los e salvá-los, porque eram seus. Ele foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, pois as ovelhas eram suas. Observe:

(1) Que muitos o rejeitaram: “Os seus não o receberam”. Ele tinha razões para esperar que aqueles que eram seus viessem a dar-lhe uma boa acolhida, considerando como eram grandes as obrigações pelas quais estavam sujeitos a Ele, e como eram boas as oportunidades que tinham de conseguir o conhecimento dele. Eles tinham os oráculos de Deus, que lhes diziam, de antemão, onde e quando esperá-lo, e de que tribo e família Ele nasceria. Ele veio entre Eles, pessoalmente, apresentado com sinais e milagres, sendo Ele mesmo o maior deles, e por isto não está escrito, a respeito deles, como estava, a respeito do mundo (v. 10), que não o conheceram. Mas os seus, embora não pudessem deixar de conhecê-lo, ainda assim não o receberam. Não receberam sua doutrina, não o receberam como o Messias, mas se fortificaram contra Ele. Os principais dos sacerdotes, que eram, de uma maneira particular, os seus (pois os levitas eram a tribo de Deus), foram líderes deste desprezo que foi direcionado a Ele. Isto era muito injusto, porque eles eram seus, e por isto Ele poderia exigir seu respeito. E era muito grosseiro e ingrato, porque Ele veio a eles para procurá-los e salvá-los, e obter, assim, seu respeito. Observe que muitos que professam pertencer a Cristo, não o recebem, porque não desejam se afastar dos seus pecados, nem tê-lo reinando sobre si.

(2) Que ainda havia alguns que o reconheciam, e que eram fiéis a Ele. Embora os seus não o recebessem, havia aqueles que o receberam (v. 12): “Mas a todos quantos o receberam”. Embora Israel não estivesse reunido, ainda assim Cristo era glorioso. Embora o corpo daquela nação persistisse e perecesse na incredulidade, ainda assim houve muitos deles que foram transformados para submeter-se a Cristo, e muitos mais que não pertenciam a este grupo. Observe aqui:

[1] A descrição e a característica do verdadeiro cristão. Ela consiste em que ele receba a Cristo e que creia no seu nome. As últimas atitudes explicam as primeiras. Observe, em primeiro lugar, que ser verdadeiramente um cristão é crer no nome de Cristo, é concordar com a revelação do Evangelho, e estar de acordo com a proposta do Evangelho a respeito dele. Seu nome é Verbo de Deus; o Rei dos reis; o Senhor, Justiça Nossa; Jesus, o Salvador. Crer no seu nome consiste em reconhecer que Ele é o que estes grandes nomes evidenciam, e estar de acordo com isto, para que Ele possa ser tudo isto para nós. Em segundo lugar, crer no nome de Cristo é recebê-lo como um presente de Deus. Nós devemos receber sua doutrina como sendo verdadeira e boa; receber sua lei, como justa e santa; receber suas ofertas, como gentis e benéficas; e devemos receber a imagem da sua graça, e as impressões do seu amor, como o princípio governante dos nossos afetos e ações.

[2] A dignidade e os privilégios do verdadeiro cristão possuem duas partes:

Em primeiro lugar, o privilégio de adoção, que os conduz para junto dos filhos de Deus: “Deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”. Até aqui, a adoção pertencia somente aos judeus (“Israel é meu filho, meu primogênito”). Mas agora, pela fé em Cristo, os gentios são os filhos de Deus, Gálatas 3.26. Eles têm poder, autoridade. Pois nenhum homem toma o poder para si mesmo, exceto aquele que é autorizado pela carta de direitos do Evangelho. A eles, Ele concedeu um direito, a eles, Ele deu esta proeminência. Todos os santos possuem este poder. Observe:

1. É o privilégio indescritível de todos os bons cristãos, o fato de que se tornam filhos de Deus. Eles eram, por natureza, filhos da ira, filhos deste mundo. Se eles devem ser filhos de Deus, eles assim se tornam, assim são feitos. As pessoas não nascem cristãs, mas se tornam cristãs. Vejam que grande caridade é esta, 1 João 3.1. Deus os chama de seus filhos, eles o chamam de Pai, e têm direito a todos os privilégios dos filhos, os do seu caminho e os da sua casa.

2. O privilégio da adoção deve-se inteiramente a Jesus Cristo, Ele deu este poder àqueles que creram no seu nome. Deus é seu Pai, e também o nosso, e é por virtude da nossa adoção por Ele, e pela nossa união com Ele, que nos relacionamos com Deus como nosso Pai. Foi em Cristo que fornos predestinados à adoção. Dele, nós recebemos tanto o caráter quanto o Espírito de adoção, e Ele é o primogênito entre muitos irmãos. O Filho de Deus tornou-se um Filho do homem, para que os filhos e filhas dos homens pudessem se tornar os filhos e filhas do Deus Todo-Poderoso.

Em segundo lugar, o privilégio do novo nascimento (v. 13): “Os quais… nasceram”. Observe que todos os filhos de Deus nascem novamente. Todos os que são adotados, são nascidos novamente. Esta transformação real acompanha sempre a relativa. Sempre que Deus confere a dignidade de filhos, Ele cria a natureza e a disposição de filhos. Os homens não podem fazer isto quando adotam filhos. Aqui temos uma avaliação do modelo deste novo nascimento.

1. Negativamente: Ele não se propaga pela geração natural dos nossos pais. Ele não é de sangue, nem da vontade da carne, nem de semente corruptível, 1 Pedro 1.23. O homem é chamado de carne e sangue, porque ali está seu modelo, mas nós não nos tornamos os filhos de Deus da mesma maneira como nos tornamos os filhos dos nossos pais naturais. Observe que a graça não corre no sangue, como corre a corrupção. O homem corrompido gerou um filho à sua semelhança (Genesis 5.3), mas o homem santificado e renascido não gera um filho a esta semelhança. Os judeus vangloriavam-se muito da sua ascendência, e do sangue nobre que corria em suas veias: “Nós somos a semente de Abraão”, e por isto a eles pertencia a adoção, porque eles eram nascidos daquele sangue. Mas esta adoção do Novo Testamento não é encontrada em nenhum relacionamento natural.

(2) Ele não se produz pelo poder natural da nossa própria vontade. Assim como não é de sangue, nem da vontade da carne, também não é da vontade do varão, que opera sob uma impotência moral para determinar o que é bom, de modo que os princípios da vida divina não são plantados por nós. É a graça de Deus que faz com que desejemos ser seus. Nem podem as leis ou textos humanos prevalecer para santificar e regenerar uma alma. Se pudessem, o novo nascimento seria pela vontade do varão. Mas,

2. Positivamente: É de Deus. Este novo nascimento deve-se à Palavra de Deus, como meio (1 Pedro 1.23), e ao Espírito de Deus, como o grande e único autor. Os verdadeiros crentes são nascidos de Deus, 1 João 3.9; 5.1. E isto é necessário para sua adoção, pois nós não podemos esperar o amor de Deus, se não tivermos algo da sua semelhança, nem clamarmos pelos privilégios da adoção, se não estivermos sob o poder da regeneração.

3. “O Verbo se fez carne”, v. 14. Isto expressa a encarnação de Cristo mais claramente do que aquilo que foi dito antes. Pela sua divina presença, Ele sempre esteve no mundo, e pelos seus profetas, Ele veio para os seus. Mas vindo a plenitude dos tempos, Ele foi enviado de outra maneira, nascido de mulher (Gálatas 4.4). Deus manifestado na carne, de acordo com a fé e a esperança do santo Jó: “Ainda em minha carne verei a Deus”, Jó 19.26. Observe aqui:

(1) A natureza humana de Cristo, com a qual Ele se recobriu, e que expressava dois caminhos.

[1] “O Verbo se fez carne”. “Visto como os filhos”, que deviam tornar-se filhos de Deus, “participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas”, Hebreus 2.14. Os socinianos concordam que Cristo é, ao mesmo tempo, Deus e homem, mas dizem que Ele era homem, e foi feito Deus, como Moisés (Êxodo 7.1), diretamente o oposto ao que diz João aqui, Ele era Deus, mas Ele se fez carne.

Compare o versículo 1 com este. Isto sugere não apenas que Ele era verdadeiramente um homem, mas que Ele se sujeitou às desgraças e calamidades da natureza humana. Ele se fez carne, a parte mais simples do homem. A carne evidencia a fraqueza do homem, e Ele foi “crucificado por fraqueza”, 2 Coríntios 13.4. A carne significa um homem mortal e morrendo (SaImos 78.39), e Cristo foi mortificado na carne, 1 Pedro 3.18. Na verdade, a carne significa o homem corrompido pelo pecado (Genesis 6.3), e Cristo, embora fosse perfeitamente santo e inocente, ainda assim manifestou-se em semelhança da carne do pecado (Romanos 8.3), e foi feito pecado por nós, 2 Coríntios 5.21. Quando Adão pecou, Deus disse a ele: “És pó”, não somente porque tinha sido feito do pó da terra, mas porque, pelo pecado, ele tinha se afundado no pó. Sua queda, transformou-o em corpo, o fez terreno. Portanto, aquele que se fez maldição por nós, se fez carne, e condenou o pecado na carne, Romanos 8.3. Maravilhe-se com isto, que o Verbo eterno fosse feito carne, quando a carne tinha uma tão má reputação; que aquele que fez todas as coisas se fizesse carne, uma das coisas mais inferiores, e se submetesse àquilo de que Ele se encontrava mais distante. A voz que apresentou o Evangelho clamou: “Toda carne é erva” (Isaias 40.6), para tornar mais maravilhoso o amor do Redentor, que, para nos redimir e salvar, se fez carne, e murchou como erva. Mas o Verbo do Senhor, que se fez carne, permanece para sempre. Mesmo quando se fez carne, Ele não deixou de ser o Verbo de Deus.

[2] Ele “habitou entre nós”, aqui, neste mundo inferior. Tendo assumido a natureza de homem, Ele colocou-se no lugar e na condição de outros homens. O Verbo poderia ter-se feito carne, e habitado entre os anjos. Mas, tendo tomado um corpo do mesmo molde que nós, nele Ele veio, e habitou no mesmo mundo que nós. Ele habitou entre nós; nós, vermes da terra; nós, de quem Ele não precisava; nós, que éramos corruptos e depravados, e revoltados contra Deus. O Senhor Deus veio e habitou até entre os rebeldes, Salmos 68.18. Aquele que tinha habitado entre anjos, aqueles seres nobres e excelentes, veio e habitou entre nós, que somos uma raça de víboras, nós, pecadores, o que era pior para Ele do que a residência de Davi em Meseque e Quedar, ou a de Ezequiel entre escorpiões, ou a da igreja de Pérgamo, que habitava onde estava o trono de Satanás. Quando consideramos o mundo superior, o mundo dos espíritos, como parece inferior e desprezível esta carne, este corpo que nós levamos conosco, e este mundo no qual nossa sorte está lançada, e como é difícil que uma mente contemplativa se reconcilie com eles! Mas uma vez que o Verbo eterno se fez carne, vestiu-se com um corpo, como nós, e habitou neste mundo, como nós, isto colocou uma honra sobre ambos, e deve nos fazer desejar habitar na carne enquanto Deus tenha algum serviço para fazermos, pois Cristo habitou neste mundo inferior, ruim como ele é, até que tivesse terminado o que tinha que fazer aqui, cap. 17.4. Ele habitou entre os judeus, para que se cumprissem as Escrituras: “Habite nas tendas de Sem”, Gênesis 9.27. E veja Zacarias 2.10. Mesmo os judeus sendo cruéis com o Senhor Jesus, Ele continuou a habitar entre eles. Embora (como nos contam alguns dos autores antigos) Ele tivesse sido convidado a um tratamento melhor por Abgar, rei de Edessa, ainda assim Ele não se mudou para nenhuma outra nação. Ele habitou entre nós. Ele estava no mundo, não como um viajante que fica apenas por uma noite, mas Ele habitou entre nós, teve uma longa estada, a expressão original é notável, eskenosen en hemin – Ele residiu entre nós, como em um tabernáculo, o que sugere, em primeiro lugar, que Ele habitou aqui em circunstâncias muito humildes, como pastores que habitam em tendas. Ele não habitou entre nós como em um palácio, mas como em uma tenda, pois Ele não tinha onde reclinar a cabeça, e estava sempre se deslocando de um lugar para outro. Em segundo lugar, que sua situação aqui era uma situação militar. Soldados residem em tendas. Ele tinha, há muito tempo, proclamado a guerra com a semente da serpente, e agora Ele toma o campo, pessoalmente, ergue seu estandarte, e arma sua tenda, para prosseguir nesta guerra. Em terceiro lugar, que sua estada entre nós não seria perpétua. Ele habitou aqui como em uma tenda, não como em casa. Os patriarcas, residindo em tabernáculos, “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”, e procuravam uma pátria melhor, e assim também foi Cristo, dando-nos um exemplo, Hebreus 13.13,14. Em quarto lugar, que assim como antigamente Deus residiu no Tabernáculo de Moisés, na shekinah entre os querubins, assim também agora Ele habita na natureza humana de Cristo, que agora é a verdadeira shekinah, o símbolo da presença peculiar de Deus. E nós devemos nos dirigir a Deus por meio de Cristo, e dele receber os oráculos divinos.

(2) Os raios da sua glória divina que se lançavam através deste véu de carne: “Vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Assim como o sol, mesmo eclipsado ou nublado, ainda é a fonte de luz, também Cristo ainda era o brilho da glória do seu Pai, mesmo quando Ele residia entre nós, neste mundo inferior. E ainda que os judeus pensassem de modo desprezível sobre Ele, havia aqueles que viam através do véu. Observe:

[1] Quem eram as testemunhas desta glória: nós, seus discípulos e seguidores, que convivemos mais livremente e familiarmente com Ele. Nós, entre os quais Ele habitou. Outros homens revelam suas fraquezas àqueles com quem têm mais familiaridade, mas não foi assim com Cristo. Aqueles que tinham mais intimidade com Ele, viram principalmente sua glória. Como acontecia com sua doutrina, os discípulos conheciam seus mistérios, ao passo que outros a recebiam sob o véu das parábolas, assim também acontecia com sua pessoa, eles viam a glória da sua divindade, ao passo que os outros viam somente o véu da sua natureza humana. Ele se manifestou a eles, e não ao mundo. Estas testemunhas formavam um número adequado, eram doze, um júri completo de testemunhas, homens sinceros e íntegros, e distantes de qualquer tipo de plano ou intriga.

[2] Que evidência eles tiveram dela: “Vimos”. Eles não tiveram sua evidência por um relato, em segunda mão, mas foram, eles mesmos, testemunhas oculares das provas sobre as quais construíram seu testemunho de que Ele era o Filho do Deus vivo: “Vimos”. A palavra significa uma visão permanente, que lhes proporcionava uma oportunidade de fazer suas observações. Este mesmo apóstolo explica isto: “O que vos anunciamos da Palavra da vida é o que temos visto com nossos olhos, e o que temos contemplado”, 1 João 1.1.

[3] Que a glória era: “como a glória do Unigênito do Pai”. A glória do Verbo feito carne foi uma glória como convinha ao Unigênito Filho de Deus, e não poderia ser a glória de ninguém, além dele. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo é o Unigênito do Pai. Os crentes são os filhos de Deus pela graça especial da adoção e pela graça especial da regeneração. Eles são, de certa forma, de uma natureza semelhante (2 Pedro 1.4), e têm a imagem das suas perfeições. Mas Cristo é da mesma natureza, e é a imagem expressa da sua pessoa, e o Filho de Deus, por geração eterna. Os anjos são filhos de Deus, mas Ele nunca disse a nenhum deles: “Hoje te gerei”, Hebreus 1.5. Em segundo lugar, Ele foi declarado como sendo o Unigênito do Pai por aquilo que foi visto da sua glória, quando habitou entre nós. Embora Ele estivesse sob a forma de servo, no que diz respeito às circunstâncias externas, ainda assim, no que diz respeito às graças, sua forma era como aquela do quarto homem no forno de fogo ardente, “semelhante ao filho dos deuses”. Sua glória divina aparecia na santidade e na divindade da sua doutrina. Nos seus milagres, que despertavam em muitos este reconhecimento, de que ele era o Filho de Deus. Ela aparecia na pureza, bondade e caridade de todos os seus relacionamentos. A bondade de Deus é sua glória, e Ele viveu fazendo o bem. Ele falava e agia, em tudo, como uma Divindade encarnada. Talvez o evangelista tivesse uma consideração especial pela glória da sua transfiguração, da qual ele tinha sido uma testemunha ocular. Veja 2 Pedro 1.16-18. Deus, ao chamá-lo de seu Filho Amado, em quem Ele se comprazia, sugeria que Ele era o Unigênito do Pai, mas a evidência completa disto foi dada na sua ressurreição.

[4] Que vantagem tinham aqueles entre os quais Ele habitava. Ele habitou entre eles, “cheio de graça e de verdade”. No antigo Tabernáculo, onde Deus habitava, havia a lei, neste havia a graça; naquele havia tipos, neste havia a verdade. O Verbo encarnado estava, de todas as maneiras, qualificado para sua missão de Mediador, pois Ele estava “cheio de graça e de verdade”, as duas grandes coisas de que os homens caídos necessitam. E isto evidenciava que Ele era o Filho de Deus, tanto quanto o divino poder e a divina majestade que se apresentavam nele. Em primeiro lugar, Ele tinha a plenitude de graça e da verdade para si mesmo. Ele tinha o Espírito sem medida. Ele era cheio de graça, completamente aceitável ao seu Pai, e, portanto, qualificado para interceder por nós; e cheio de verdade, completamente informado das coisas que Ele deveria revelar, e, portanto, adequado para nos instruir. Ele tinha uma plenitude de conhecimento e uma plenitude de compaixão. Em segundo lugar, Ele tinha a plenitude de graça e verdade para nós. Ele recebeu, para que pudesse dai; e Deus se comprazia nele, para que pudesse comprazer-se conosco, nele. E esta era a verdade da tipologia utilizada pelo Senhor.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.