PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CÉREBRO DA MÃE NO CONTEXTO BIOPSICO E SOCIAL

Ao longo dos anos ocorreu uma alteração na importância dada à mãe e nas formas de exercício da função materna, que estão ligadas a transformações sócio – histórico­ – culturais e que afetaram a família.

o cérebro da mãe no contexro biopsico e moral2

A origem e o significado da palavra mãe nunca ficaram totalmente definidos, muitos filósofos apontam que “mãe” vem do antigo provençal maire, enquanto outros defendem que é de origem latina. Mãe também pode denominado como a pessoa que adota, cria e cuida de uma criança gerada por outrem. Encontra-se com frequência casos em que uma mãe desempenha o papel de mãe e de pai simultaneamente, outros casos em que o pai cumpre o papel de pai e de mãe. Em certos casos há crianças que procuram fazer o papel de mãe na vida de outras crianças. Uma outra denominação que pode ser considerada é a de genitora ou progenitora.

Um levantamento histórico sobre a maternidade nos permite perceber que houve uma mudança na relevância dada à mãe e nas formas de exercício da função materna que estão ligadas a transformações sócio-histórico-culturais que afetaram a família, além de contribuir para maior compreensão das vicissitudes atuais que a cercam e dos processos afetivos que envolvem o relacionamento entre seus membros.

Em períodos como a Antiguidade e a Idade Média predominava o poder paterno dentro da família em detrimento do materno, configurando um sistema familiar apoiado ideologicamente pela teologia cristã e pelo absolutismo político. Não existia o “sentimento de infância, sendo a família uma realidade moral e social mais do que sentimental, cujas relações baseiam-se em fatores como idade, virtuosidade, dote, classe social, honra da linhagem, preservação do nome e integridade do património. A família cumpria, assim, a função de transmissão da vida, dos bens, dos costumes e do nome, não havendo preocupação com os laços afetivos e nem com a educação formal das crianças.

Considerando o processo orgânico, tornar-se mãe pode transformar o encéfalo logo após o parto, isso porque ocorrem modificações dentro do cérebro da mulher. Segundo estudos recentemente publicados na revista Behavioral Neuroscience da American Psychological Association, crescem as áreas ligadas à motivação e ao comportamento. Um fato a ser considerado é como ocorre a relação de empatia entre a mãe e a criança. Essa capacidade se dá a princípio por fatores neurobiológicos dos neurônios do córtex, que por meio do potencial de ação (estímulos) provocam uma adaptação importante do cérebro materno, que é a redução da massa cinzenta de várias áreas do cérebro e o aumento da quantidade de conexões neuroglias.

O cérebro da mulher grávida muda. Literalmente, a massa cinzenta é reduzida em áreas relacionadas com a empatia. Essa diminuição nas conexões neurais da mãe favorece certas funções, tais como interpretar os estados mentais do filho ou até mesmo antecipar situações ameaçadoras do meio ambiente atuando como um mecanismo adaptativo para promover a sobrevivência da criança.

PESQUISA

Estudos do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA vem contribuindo por meio de uma equipe de investigadores, liderada pelo neuro­cientista Pilyoung Kim, que avalia de que modo as mudanças hormonais que ocorrem logo após o nascimento – incluindo o aumento dos níveis de ocitocina, estrogênio e prolactina  – podem  ajudar a tornar o cérebro das mulheres depois do parto, mais propenso à reformulação, como resposta ao fato de ter um bebê. A pesquisa é baseada em exames de ressonância magnética no cérebro das mães e revela que, mesmo depois do parto, entre duas semanas e até quatro meses depois do nascimento do bebê a massa cinzenta cresce pouco, porém significativamente. As evidências demonstram que o cérebro diminui de tamanho durante a gravidez, e que se remodela aos poucos após o parto.

No cérebro das mães, as áreas que apresentaram transformações são as estruturas do hipotálamo (associado à motivação e ao sentimento materno), a substância negra e as amigdalas cerebrais (ligadas à recompensa e ao processamento da emoção), o lobo parietal (integração sensorial) e o córtex pré-frontal (raciocínio e julgamento). A evidência científica aposta em uma conexão entre hormônios, mudanças físicas e alterações funcionais, provavelmente relacionados à “cascata” de hormônios que vêm do feto, que mudam o corpo e o cérebro da mãe. As mudanças no cérebro afetam áreas associadas com funções necessárias para o gerenciamento dos “desafios da maternidade” e, mesmo depois do nascimento, as alterações permanecem modificadas, remodelando-se ao longo do processo vital.

Essa mudança, após o parto, altera a conduta e aumenta a sua motivação, o raciocínio, as emoções. Esses aspectos podem promover um “aguçamento” do cérebro materno, preparando-o para o acolhimento e cuidado do bebê. Esse fenômeno acontece por meio da neuroplasticidade ou formação de novas conexões neuronais no cérebro da mãe. Diante dessa possibilidade biológica, a mãe pode se tornar mais disponível para as atividades maternais, como por exemplo: o alerta e a interpretação do choro do bebê, dentre outras situações.

Mesmo sem saber e sem perceber, o corpo feminino cria estruturas para encarar essa nova situação totalmente diferente. Toda aquela força que faz a mulher conseguir acordar de madrugada, tendo dormido muito pouco ou quase nada, ou a vontade de cuidar do bebê e tudo aquilo que todo mundo achava se tratar de instinto maternal pode ser um mecanismo ativado por um novo arranjo cerebral.

Pode relacionar o desenvolvimento emocional no cérebro da mãe com o conteúdo do conhecimento sobre a teoria do apego. Para a Neurociência, se deve ao fato de oferecer elementos conceituais básicos que permitem pensar os vínculos afetivos do sujeito humano ao longo do ciclo de vida. Os postulados de Bowby e Amsworth têm se mostrado passíveis dos ajustes demandados pela Psicologia contemporânea, que tem considerado o desenvolvimento como um fenômeno multideterminado que sofre a ação das variáveis, que constituem o contexto no qual o sujeito se encontra inserido. Na perspectiva sistêmica., a noção de contexto envolve não apenas sua natureza física, mas também os elementos simbólicos e sociais. Entre esses se destacam os vínculos primordiais estabelecidos pelo indivíduo. As pesquisas recentes em apego destacam que não apenas os elementos individuais, isto é, as características dos sujeitos envolvidos na relação, mas também os fatores contextuais influenciam na formação dos vínculos afetivos. Assim, a dinâmica do apego está sujeita à ação de fatores de natureza individual, relacional e contextual.

Isso se dá provavelmente devido à relação que o humano herdou dos mamíferos primitivos, estabelecendo­ se, então, uma característica biológica muito presente no cérebro da mãe na aquisição do vínculo afetivo.

O cérebro humano é trino, segundo o cientista Paul MacLean, que, apresentado em 1990, no seu livro The Triune Brain in Evolution: Role in Paleo cerebral Functions, discute o fato de que os humanos/primatas têm o cérebro dividido em três unidades funcionais diferentes. Cada uma    dessas unidades representa um extrato evolutivo do sistema nervoso dos vertebrados.

 BASES

O cérebro humano no processo embrionário é desenvolvido das bases mais primitivas para as bases mais superiores e refinadas na funcionalidade cognitivo. São eles:

1 – CÉREBRO REPTILIANO: O cérebro reptiliano ou cérebro basal ou ainda, como o chamou MacLean, “R-complex”, é formado apenas pela medula espinhal e pelas porções basais do prosencéfalo. Esse primeiro nível de organização cerebral é capaz apenas de promover reflexos simples, o que ocorre em répteis, por isso o nome. Conhecido como “cérebro instintivo”, tem como característica a sobrevivência, responsável pelas emoções primárias, como fome, sede, entre outras.

2 – CÉREBRO DOS MAMÍFEROS INFERIORES: O cérebro dos mamíferos inferiores ou cérebro emocional ou “paleommamalian Brain”, é o segundo nível funcional do sistema nervoso e, além dos componentes do cérebro reptiliano, conta com os núcleos da base do telencéfalo, responsáveis pela motricidade grosseira, pelo diencéfalo, constituído por tálamo, hipotálamo e epitálamo; pelo giro do cíngulo; e pelo hipocampo e para hipocampo. Esses últimos componentes são integrantes do sistema límbico, que é responsável por controlar o comportamento emocional dos indivíduos, daí o nome cérebro emocional. Esse nível de organização corresponde ao cérebro da maioria dos mamíferos.

3 – CÉREBRO RACIONAL: Conhecido também como neocórtex, é composto pelo córtex telencéfalo. Esse, por sua vez, é dividido em lobos, sendo esses:

FRONTAL: O mais derivado dos lobos cerebrais, (responsável pelas funções executivas;

PARIETAL: Responsável pelas sensações gerais;

TEMPORAL: Responsável pela audição e pelo olfato;

OCCIPITAL: Responsável pela visão;

INSULAR: Responsável pelo paladar e gustação.

O cérebro racional é o que diferencia o homem/primata dos demais animais. Segundo Paul MacLean, é apenas pela presença do neocórtex que o homem consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem capacidade de gerar invenções. O Cérebro Emocional é o responsável pela afetividade e pela aquisição dos vínculos. As emoções estão relacionadas ao circuito de Papez e à liberação de determinados hormônios e neurotransmissores estimulados por essa estrutura.

Quando o indivíduo se encontra diante de um acontecimento que, de alguma forma, o afeta, o impulso nervoso atinge inicialmente o tálamo e aí a mensagem se divide. Uma parte vai para o córtex cerebral, onde origina experiências subjetivas de medo, raiva, tristeza, alegria etc. A outra se dirige para o hipotálamo, o qual determina as alterações neurovegetativas periféricas (sintomas). Ou seja, as reações fisiológicas e a experiência emocional são simultâneas.

 EMOÇÕES

O comportamento materno está relacionado às estruturas cerebrais das emoções, sendo de extrema relevância destacar que as áreas envolvidas com a emoção se interligam intensamente e que nenhuma delas é exclusivamente responsável por esse ou aquele tipo de estado emocional. No entanto, algumas contribuem mais que outras para esse ou aquele determinado tipo de emoção no cérebro da mãe. Existem, ainda, duas condições bem caracterizadas que, de certa forma, estão inseridas no contexto da vida afetiva materna, posto que, dependendo da intensidade dos afetos, elas podem resultar desses e, às vezes, com eles se confundirem.

Ao longo dos séculos, filósofos, médicos e psicólogos estudaram os fenômenos da vida afetiva, questionando sua origem, seu papel sobre a vida psíquica, sua ação favorecedora ou prejudicial à adaptação, seus concomitantes fisiológicos e seu substrato neuroendócrino. As manifestações afetivas teriam como causa última, a capacidade de a matéria viva responder a estímulos. Existe uma teoria clássica e antagônica sobre a questão, defendida por Darwin e seus seguidores. Prega que as reações afetivas seriam padrões inatos destinados a orientar o comportamento, com a finalidade de adaptar o ser ao meio ambiente e, assim, assegurar-lhe a sobrevivência e a da sua espécie.

Com essa definição teórica diante dos achados de Darwin, um contexto importante para se definir é a importância do funcionamento neuroendócrino na produção de ocitocina, que é considerada o hormônio do amor.

A ocitocina é responsável por promover a criação de vínculos, a doação, a socialização. A produção desse hormônio acontece quando se está na presença de bons amigos, nos relacionamentos saudáveis, quando se comemoram realizações e conquistas positivas, em situação de confraternização e empatia. E no cérebro da mãe diante do encontro e no relacionamento com os filhos(as). Pode ser considerado o hormônio do amor, do prazer, das emoções.

Enfim, ocitocina é importante durante toda a vida, mas especialmente no parto e no pós-parto. Assim, lembre-se de nessas ocasiões falar palavras de carinho para a mãe recente, elogiar, dar um abraço sentido. Atitudes simples que podem ter um grande impacto. Um brinde à ocitocina, o hormônio do amor e aos vínculos afetivos!

E como fica a reprodução social da produção biológica, no processo de construção da mulher-mãe, são conceitos que se confundem com o processo histórico e cultural do contexto na qual a sociedade possa estar inserida.

A ideologia apresenta uma visão “deturpada” da própria maternidade, por meio de histórias romanceadas do “papel de mãe” que não se sustentam na realidade. Esse olhar é difundido pela ideologia patriarcal, que pode ser estimulada por: homens, mulheres, especialistas, educadores, que transmitem a noção de maternidade como algo tão somente natural. Essa noção pressupõe a igualdade de todas as mães, negando as condições socialmente determinadas num contexto de classes sociais, num contexto diversificado.

 CONDICIONAMENTO

As mulheres se apresentam condicionadas a esse papel desde a infância, mas não somente nela, todo seu desenvolvimento é norteado para esse condicionamento, mesmo que ela nunca chegue a ser mãe. Da infância, as meninas-mães lembram brincadeiras de bonecas, cuidados dos(as) irmãos (ãs) e cuidadoras de outras crianças, dependendo de suas condições sociais. Em comum, fica-lhes determinado o futuro papel a desempenhar.

A aprendizagem de se tomar mãe, no entanto, enquanto processo, é uma possibilidade explicativa do fato de as mulheres atribuírem ao nascimento de seus (suas) filhos(as)  uma causa mágica, como consequência de uma crença numa vontade eterna de ser mãe, seguida da necessidade do cumprimento de um dever para com a vida que extrapola sua própria existência.

Uma reflexão cuidadosa a ser evidenciada é a “mãe modelo” produzida em série! O amor materno, por sua vez, constitui-se numa das mais delicadas facetas no entendimento da ideologia em relação à mulher-mãe, pois converge para a dimensão santificada atribuída à maternidade. Ser mãe não é só gerar, mas também não é só criar.

Para uma possível reflexão: sem filhos, a mulher está em falta com sua natureza de mulher, uma vez que não cumpria sua função biológica. Com filhos, fica comprometida como exclusiva criadora, e sendo o amor materno considerado e sentido como um investimento a espera do outrem, mesmo para as mães que exercem atividades; as mais diferenciadas possíveis, a maternidade ainda se caracteriza como a atividade mais sublime de sua vida. Mas o alerta é não repetir o “modelo de mãe real/ e ou a mãe ideal, sendo que o “choque” entre ambas é inevitável.

 O HORMÔNIO RESPONSÁVEL PELA MOTIVAÇÃO, DESEJO, PRAZER E AFETOS

A neurobiologia do cérebro relacionada a motivação, ao desejo, ao prazer, aos afetos está relacionada à ocitocina, que é um hormônio produzido e estimulado pelo hipotálamo no cérebro e armazenado na neuro-hipófise, de onde é liberada sob a influência de certos estilos. Na mãe gravida, por exemplo, quando o bebê está pronto para nascer, com o pulmão (que é o último órgão a estar “pronto”) já amadurecido, sinais são enviados ao cérebro, que começa então a liberar a ocitocina, hormônio responsável pelas contrações uterinas que levam ao nascimento do bebê. Depois que o bebê nasce, a ocitocina promove outras contrações uterinas que conduzem o útero a voltar ao seu tamanho normal, processo que leva em torno de seis semanas. A ocitocina também auxilia na amamentação.

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OCITOCINA

Os níveis de ocitocina sobem com o toque, abraços, carinhos, massagens, tudo impulsiona a produção desse hormônio. Estudos evidenciam que a música acalma e relaxa o cérebro e a quantidade de ocitocina no sangue se eleva provocando menos estresse. Daí a dica para as mães: relaxamento e meditação.

 

MARTA RELVAS – é doutora e mestre em Psicanálise e Neurofisiologia, autora de livros e DVDs sobre Neurociência publicados pela Wak Editora.

OUTROS OLHARES

AS EXPERIÊNCIAS PESSOAIS DA DEFICIÊNCIA

Não se pode associar deficiência intelectual e doença mental. Na primeira, o indivíduo tem atraso no desenvolvimento, já a segunda engloba condições que causam alteração de humor e Comportamento e podem afetar o desempenho na sociedade.

As experiências pessoais da deficiência

O artigo que você lerá é fruto de muito estudo e vivência prática. Como todos já devem saber, passei a estudar temas terapêuticos quando, aos 16 anos, sofri uma anoxia por afogamento, “adquiri” uma dislexia e, ao ser desenganada por 25 especialistas, eu mesma fui procurar minha cura, tornando-me quem sou hoje e com todas as descobertas terapêuticas que fiz. Por outro lado, abordar outro tipo de deficiência, a física, até março de 2016 seria bastante difícil para mim, pois eu nem imaginava como é ter uma limitação física. Apesar de já ter sofrido graves acidentes não tive grandes sequelas e, nos casos em que tive sequelas, eu as contornei com muitos estudos/pesquisas e descobertas que sempre trouxe ao público. Mas, numa queda de escada, tive um metatarso quebrado. Enfrentei algumas intervenções erradas e, com isso, algo que poderia ser até simples de recuperar tornou-se uma longa e dolorosa espera pela cura.

Passei a ter que me locomover com muletas só dentro de casa e, quando raramente saía, necessitava utilizar cadeira de rodas ou carrinhos motorizados. Isso me fez conhecer o lado dos cadeirantes, de pessoas que têm limitações motoras/locomotoras e dependem de algum acessório (bengala, muletas, andadores, cadeiras de rodas etc.) para se deslocarem de um lado a outro. Nesse período, recebi um convite para palestrar na Assembleia Legislativa de São Paulo, num fórum que discutia os direitos das pessoas com deficiência. Então, uni minha vivência prática com uma rebuscada pesquisa que fiz especialmente para o evento. Agora, trago neste artigo. E atenção, os dados colhidos foram acessados no ano de 2016, com base entre 2010 e 2016.

Antes de abordar segurança específica na deficiência intelectual, mental e/ou física, analisemos o que é segurança: substantivo feminino. 1. ação ou efeito de tornar (-se) seguro; estabilidade, firmeza. 2. estado, qualidade ou condição de quem ou do que está livre de perigos, incertezas, assegurado de danos e riscos eventuais; situação em que nada há a temer.

Nessa linha de raciocínio, nenhum de nós tem, de fato, segurança. Menos ainda quem tem alguma deficiência (e seus cuidadores).

TIPOS DE SEGURANÇA

SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO (relacionada com proteção de um conjunto de informações, no sentido de preservar o valor que possuem para um indivíduo ou uma organização).

SEGURANÇA PÚBLICA (estado de normalidade que permite o usufruto de direitos e o cumprimento de deveres. É um processo sistêmico, pela necessidade da integração de um conjunto de conhecimentos e ferramentas estatais que devem interagir a mesma visão, compromissos e objetivos. Deve ser também otimizado, pois depende de decisões rápidas, medidas saneadoras e resultados imediatos).

SSEGURANÇA DO TRABALHO pode­ se entender como os conjuntos de medidas adotadas visando minimizar os acidentes de trabalho, doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade e a capacidade de trabalho do trabalhador.

É sobre segurança no trabalho que refletiremos um pouco, dando ênfase à área terapêutica na qual eu estou inserida. Portanto, abordaremos as principais falhas no tratamento de algumas deficiências e a problemática enfrentada por cuidadores e profissionais de saúde. Além de tratar desses dois tipos de deficiência, abordarei também um pouco sobre a deficiência motora, porque estou sentindo na pele as dificuldades que enfrentam os cadeirantes e pessoas com alguma dificuldade locomotora.

DIVERSAS DEFINIÇÕES

A questão da deficiência sempre esbarra em dois fatores:

Primeiro: mental não é o mesmo que intelectual.

Há diversas definições, inclusive de órgãos oficiais, que citam tanto a deficiência intelectual quanto a mental no mesmo nível com a seguinte descrição: “caracteriza-se por um funcionamento intelectual inferior à média (QI), associado a limitações adaptativas em, pelo menos, duas áreas de habilidades (comunicação, autocuidado, vida no lar, adaptação social, saúde e segurança, uso de recursos da comunidade, determinação, funções acadêmicas, lazer e trabalho), que ocorrem antes dos 18 anos de idade”.

Porém, há diferenças significativas, que precisam ser elucidadas:

DEFICIÊNCIA INTELECTUAL: o indivíduo tem atraso no seu desenvolvimento, dificuldades (distúrbios) de aprendizagem (dislexia, disgrafia, disortografia, discalculia, entre outros), dificuldade para realizar tarefas diárias e interagir com o meio em que vive. Existe um comprometimento cognitivo que prejudica suas habilidades adaptativas. Essa deficiência, dependendo de seu grau e comorbidades, pode ser tratada por um psicólogo, psicopedagogo e/ou fonoaudiólogo e, na maioria dos casos, por neurologista (acompanhamento neurológico).

DOENÇA MENTAL: engloba uma série de condições que causam alteração de humor e comportamento e podem afetar o desempenho do indivíduo na sociedade. Essas alterações acontecem na mente do indivíduo, alterando também sua percepção da realidade. Em resumo, é uma doença psiquiátrica, que deve ser tratada por um psiquiatra, na maioria dos casos, com uso de medicamentos específicos para cada situação. Pode haver também comprometimento da aprendizagem, mas esse não é o principal distúrbio. Então, a ênfase no tratamento se refere ao principal transtorno causador das alterações mentais /psicológicas.

Portanto, não se pode associar as duas deficiências como dados estatísticos.

Segundo, os casos de deficiência mental ou intelectual, provavelmente, devem ultrapassar esses dados publicados. Então, entenderemos apenas como base e não como realidade até porque esse Censo (2010), segundo diversas fontes especializadas em divulgação para deficientes, foi realizado por amostragem e não por número real.

PRINCIPAIS PROBLEMAS ENFRENTADOS POR DEFICIENTES INTELECTUAIS:

  • confusão entre mental e intelectual, inclusive no diagnóstico e tratamentos;
  • escassez de profissionais especializados para detecção e tratamento;
  • escassez de métodos e locais apropriados;
  • métodos inovadores como a Multiterapia esbarram em muita burocracia para serem implantados e isso atrapalha também a melhoria dos tratamentos;
  • dificuldade em se adaptar ao meio escolar, pode sofrer bullying e outros tipos de repressão ou ridicularização, inclusive por professores que nem sempre estão preparados para lidar com esses alunos;
  • dificuldade de formação e colocação profissional, o primeiro por questões de metodologia de ensino e o segundo por preconceitos de contratantes;
  • entre outras.

 

PRINCIPAIS PROBLEMAS ENFRENTADOS POR DEFICIENTES MENTAIS:

  • os mesmos problemas enfrentados pelas pessoas com deficiência intelectual e mais;
  • dependendo do distúrbio e grau apresentado, pode ter problemas com identificações policiais ou situações em que tenham que relatar fatos ou dados pessoais;
  • pode apresentar problemas de identificações de endereços e dados correndo o risco de se perder na rua, em eventos etc.;
  • pode passar por mal-educado ou até criminoso em caso de crises (agressividade) em público (limitrofia, autismo, bipolaridade etc.); entre outros.

Outra questão preocupante, tanto na deficiência intelectual quanto na mental, se desencadeia quando a família ou cuidadores discordam ou não entendem o método utilizado pelos profissionais que tratam o caso. Isso gera atraso no tratamento e, algumas vezes, violência inclusive com agressões a terapeutas (relato de antecipação de diagnóstico e explicação do “ganho secundário”).

CUIDADOS IMPORTANTES

Levando-se em conta as principais causas, entende-se que, ao evitá-las, podem-se diminuir os casos de deficiência intelectual.

Os fatores de risco e causas que podem levar à deficiência intelectual podem ocorrer, segundo meu entendimento, em fases: pré-natais, perinatais e pós-natais.

PRÉ-NATAIS: Entendendo-se pré-natais como fatores que ocorrem desde o momento da concepção do bebê até o início do trabalho de parto.

PERINATAIS: Fatores que ocorrem durante o nascimento e pode-se considerar até 30 dias após o nascimento.

PÓS-NATAIS: Subdividem-se em duas formas, a primeira como fatores que ocorrem do 30° dia de vida do bebê até o final da adolescência e a segunda, que vai do final da adolescência até a maturidade. Quanto à doença mental, pode ser classificada como leve, moderada, severa e profunda.

Como exemplos (e causas) de deficiência intelectual pode-se citar:

Na fase pré-natal as principais ocorrências são:

FATORES GENÉTICOS

  • Alterações cromossômicas (numéricas ou estruturais) provocam síndromes, das quais a mais conhecida é a síndrome de Down, mas também pode-se citar síndrome do X frágil e outras menos conhecidas, como síndrome de Angelman, síndrome Williams, entre outras.
  • Alterações gênicas (erros inatos do metabolismo): que provocam PKU (doença de mutação genética que tem como sintomas a hiperatividade e a oligofrenia, déficit cognitivo), entre outras.

Hábitos/vícios/doenças da mãe que influenciam o feto:

  • Desnutrição materna.
  •  Tabagismo, alcoolismo, consumo de drogas pesadas, efeitos colaterais de medicamentos teratogênicos (capazes de provocar danos nos embriões e fetos).
  • Doenças maternas crônicas ou gestacionais (como diabetes mellitus).
  • Doenças infecciosas na mãe (toxoplasmose, rubéola, DST etc.), na fase perinatal.
  • Anoxia perinatal ou hipóxia neonatal, que pode ser considerado como os primeiros trinta dias de vida (pode-se classificar como anoxia a ausência de oxigenação no cérebro e hipóxia como diminuição de oxigenação cerebral durante o nascimento).
  • Prematuridade e baixo peso: pequeno para idade gestacional (PIG). Em alguns casos, a prematuridade pode desencadear uma anoxia/hipóxia como principal fator. Em outros casos, apenas pela prematuridade já se tem um agravante.
  • Icterícia grave do recém-nascido (kernicterus).

 

Na fase pós-natal que é considerada entre o 30° dia de vida da criança até o final da adolescência:

  • Desnutrição, desidratação grave, ausência de estímulos diversos.
  • Doenças infecciosas como sarampo, meningite etc.
  • Intoxicações/ envenenamentos provocados por medicamentos, corantes, inseticidas/ pesticidas, produtos químicos como chumbo, mercúrio etc.
  • Acidentes: trânsito, afogamento, choque elétrico, asfixia, quedas etc.

Doença mental como já foi dito é doença psiquiátrica e precisa ser tratada pela Psiquiatria e suas classificações; assim como a maioria dos transtornos, pode ser considerada como:

LEVE: Quando o indivíduo consegue se desenvolver de forma quase normal, frequentar escolas, alcançar uma formação (profissão), se casar, manter uma família, enfim, tendo um bom tratamento, esse indivíduo pode ter uma boa qualidade de vida.

MODERADA: Esse indivíduo apresenta insuficiência no desenvolvimento tanto escolar quanto pessoal. Pode conseguir se socializar desde que tenha um tratamento adequado e pode, em alguns casos, trabalhar e se sustentar, desde que se mantenha num programa supervisionado de trabalho. Também consegue formar família, mas nem sempre consegue estruturá-la de acordo com a normalidade.

SEVERA: Esse indivíduo tem pouco desenvolvimento motor e de linguagem. Pode apresentar crises constantes, instabilidade emocional, geralmente não consegue frequentar uma escola convencional, podendo ser treinado para atividades que não exigem disciplinas escolares e, para conseguir trabalhar, necessita estar em um ambiente controlado e em constante supervisão.

PROFUNDA: Esse indivíduo apresenta profundo retardo mental que reflete em sua locomoção. É possível que adquira hábitos de higiene/cuidados pessoais por uma forma conhecida como “condicionamento operante” (esse método foi desenvolvido por Burthus Frederic Skinner e consiste em incentivar ou reprimir uma ação). Se a consequência é reforçadora, aumenta a probabilidade de repetição, se for punitiva, além de diminuir a probabilidade de sua ocorrência futura, gera outros efeitos colaterais. Esse tipo de comportamento que tem como consequência um estímulo afetando sua frequência é chamado “comportamento operante”. Lembrando que esse é um dos métodos de adestramento de animais, sendo o outro método o condiciona­ mento clássico desenvolvido por Pavlov. Como o artigo não é sobre adestramento de animais, não entrarei em detalhes, apenas cito para frisar que o “condicionamento operante” é utilizado com algumas variações para animais e para humanos com deficiência mental profunda.

A deficiência mental é considerada uma patologia orgânica neurológica e as causas dessa patologia parecem estar na gestação problemática ou dificuldades no parto. Esse é o consenso nas pesquisas científicas e de campo.

Na deficiência mental, as formas severa e profunda esbarram na falta de assistência adequada, erros de diagnóstico e tratamentos. Nesse caso, a insegurança está na ausência de métodos adequados de diagnóstico e cura ou controle.

As formas leve e moderada, além dos problemas relatados acima, podem enfrentar graves problemas em identificações e batidas policiais, já que suas reações em muitas ocasiões são confundidas com rebeldia ou ironia.

DADOS ESTATÍSTICOS:

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 10% da população em países em desenvolvimento são portadores de algum tipo de deficiência, sendo que metade desses é portadora de deficiência mental.

COMO IDENTIFICAR A DEFICIÊNCIA MENTAL:

Há alguns sintomas que podem ser verificados pelos próprios pais para que possam reconhecer uma deficiência mental em seus filhos e procurar ajuda profissional com rapidez. Alguns desses sintomas/características são:

ATRAZO NO DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOMOTOR:

  • o recém-nascido tem dificuldades ou ausência na sucção/deglutição, pode apresentar dificuldades em sugar o seio, engolir o leite materno ou, conseguindo engolir, pode vomitar imediatamente;
  • o bebê demora para firmar a cabeça ou não consegue firmá-la, sempre pendendo para os lados ou frente/trás;
  • o bebê tem dificuldade para sentar ou se manter sentado ao ser colocado nessa posição;
  • ao atingir entre 8 e 12 meses (isso varia em cada criança), tem dificuldade para andar, não consegue se firmar mesmo sendo apoia­ do. Antes disso pode ter dificuldade para engatinhar também;
  • dificuldade para desenvolver o ato de falar, pode apenas balbuciar palavras ou nem isso, expressando-se por “grunhidos”, choros e outros sinais de comunicação sem, no entanto, atingir a aquisição da fala;
  • dificuldade no aprendizado (dificuldade de compreensão de normas e ordens, dificuldade no aprendizado escolar).

DEFICIÊNCIA MOTORA

Considerada a terceira em nível de porcentagem, provavelmente não leva em conta todos os tipos e dificuldades. Os números acusam provavelmente as deficiências definitivas, desconsiderando as momentâneas, como pernas e pés quebrados. Caso fossem considerados todos esses casos, provavelmente as dificuldades motoras estariam em primeiro lugar.

Nessa questão enfrenta-se uma verdadeira batalha por um tratamento digno e, de fato, eficaz (relato de caso e complicações).

As calçadas não têm nível adequado, escadas e rampas em diversos estabelecimentos também não oferecem segurança. Muitos locais sequer dispõem de rampas, portas largas e outros requisitos para o livre trânsito de pessoas em cadeira de rodas e/ou portando muletas, andadores, bengalas. Transportes também não são adequados na maioria das vezes.

Na prática, ocorrem fatos como os que já relatei, ou seja, em teoria pode até funcionar, mas, na prática, ainda há grande insegurança e impedimento para o livre trânsito de quem tem alguma dificuldade motora, seja permanente ou temporária.

E o mais preocupante: não se reflete nem se discute sobre curas e sim sobre tratamentos, muitas vezes ineficazes. No caso de ossos quebrados, por exemplo, não se cogita que a alimentação, a reserva de vitaminas (no organismo do indivíduo acidentado), a exposição ao sol e diversos fatores são essenciais para a pronta recuperação. Hospitais não orientam como o paciente deve proceder com seu gesso, com muletas, com acessórios para conseguir se locomover. Tudo que oferecem são gessos e talas como paliativo.

É preciso orientar melhor a população. E preciso ter profissionais treinados para lidar melhor com situações que exigem imobilização de membros. E preciso mais humanização no tratamento dos acidentados e também dos portadores de limitações de locomoção permanentes, além, é obvio, dos portadores de deficiência intelectual ou mental.

Na verdade, só mesmo uma grande reforma em todo o sistema poderá oferecer tratamentos eficazes e mais humanização de forma geral a todos que necessitam de cuidados médicos.

 CAUSAS E FATORES DE RISCO DA DEFICIÊNCIA MENTAL

As causas e os fatores de risco que podem levar à deficiência mental são inúmeros e muitas vezes não se pode definir a causa da deficiência mental.

Os já classificados assemelham-se aos relatados acima como fator es desencadeantes da deficiência intelectual. Essa “semelhança” nas citações das causas provoca uma constatação: se as causas parecem ser as mesmas, como um indivíduo é atingido intelectualmente e outro mentalmente passa a ser uma questão pessoal (cada caso é um caso), ou seja, um mesmo acidente ou fator desencadeante pode ter uma “recepção” diferente em cada cérebro atingido, causando uma falha intelectual desde leve até profunda e chegando a uma deficiência mental também de leve a profunda. Em todos esses casos o “estímulo” pode ser o mesmo, mas a “reação” de cada cérebro atingido é que passa a ser diferenciada. Atenção: essa é uma constatação minha, não há nada publicado nessa linha de raciocínio até o momento.

 As experiências pessoais da deficiência.3

LEGISLAÇÃO

Decreto nº 5.296/ 20011 regulamenta as leis nº 10 0118/ 20 0 0 e nº 10.098/2000. A primeira dá prioridade de atendimento às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, e a segunda define normas e critérios para a promoção da acessibilidade delas. Lei nº 10.098/2000 estabelece normas e critérios para promover a acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. De acordo com ela, acessibilidade significa dar a essas pessoas condições para alcançarem e utilizarem com segurança e autonomia.

 As experiências pessoais da deficiência.2

ANNA LOU OLIVER – é psicopedagoga, psicoterapeuta. Especialista em Medicina Comportamental. Bacharel em Artes Cênicas e Artes Visuais. Detectora do Distúrbio da Dislexia Adquirida/ Acquired Dyslexia. Precursora da Multiterapia, desenvolvedora e introdutora da Brinquedoteca aliada à aprendizagem no Brasil e Europa e Criadora do Método Terapia do Equilíbrio Total/Universal. É autora de dez livros didáticos e como acadêmica tem diversos artigos publicados e aceitos pela comunidade científica internacional, especialmente na Europa.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL

A capacidade de ler os ambientes sociopolíticos, de aprender e praticar a cultura e de entender os ritos, mitos e heróis de uma empresa é essencial para crescer na carreira.

Inteligência organizacional

A inteligência humana é objeto de estudo há muitos séculos. Dois conceitos ficaram mais conhecidos: a inteligência cognitiva e, mais recentemente, a inteligência emocional. A cognitiva envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, aprender rápido e pensar de forma abstrata. A emocional, definida por Daniel Goleman, é a capacidade de controlar seus impulsos, canalizar suas emoções e motivar as pessoas. Sua fonte é o autoconhecimento. O que eu gostaria de alertar é: a moderna vida nas organizações está exigindo outra modalidade de inteligência, a organizacional. Trata-se da capacidade de ler e de entender os ambientes sociopolíticos, de aprender e pra- ticar a cultura, de entender os ritos, mitos e heróis de cada organização. O profissional que quer se integrar a uma corporação precisa desenvolver e praticar a sua inteligência organizacional, caso contrário o ambiente o rejeitará.

E como se desenvolve essa inteligência? O aprendizado costuma surgir com a observação das atitudes dos mais velhos e experientes, da curiosidade saudável, do controle da ansiedade – pensando antes de agir – e do estudo da história e da cultura de cada empresa.

A inteligência organizacional exige tanto inteligência cognitiva quanto emocional. Exige ainda vivência, não só conhecimento teórico. Para quem busca uma carreira com ciclos claros, objetivos bem definidos e passos evolutivos, inteligência organizacional é fundamental. O desenvolvimento dessa habilidade exige ainda humildade. A pretensão de achar que a compreensão de um novo ambiente é simples, ou que os ambientes são iguais ou parecidos é o começo de uma integração desastrada.

Gosto de um conceito que vem da cultura caipira paulista: “Se passar numa estrada e vir um jabuti sobre uma árvore, não mexa! Jabuti não trepa em árvore. Alguém o colocou ali”. Muitos jovens executivos, com pouca inteligência organizacional, ao depararem com um “jabuti” sobre a árvore –  que pode ser uma rotina esquisita, um procedimento obsoleto, um profissional colocado numa posição estranha –, em vez de perguntarem a razão aos mais experientes, correm e tiram o jabuti da árvore. Normalmente serão surpreendidos com uma resposta: demoramos tanto para colocar o jabuti na árvore! Agora que você o arrancou, é seu! E o jovem executivo vira gerente de um jabuti. Fique esperto. Desenvolva sua inteligência organizacional e sua carreira será muito mais rápida e profícua.

 

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor da Eaesp-FGV, diretor da Amrop Panelli Motta Cabrera e membro do Advisory Board da Amrop International.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 6-14

Alimento diário

O Testemunho de João Batista / A Encarnação de Cristo

 

O evangelista deseja apresentar João Batista dando um honroso testemunho a respeito de Jesus Cristo. Nestes versículos, antes de fazer isto:

I – Ele nos dá algumas informações sobre a testemunha que irá apresentar. Seu nome era João, que significa “gracioso”. Suas palavras eram austeras, mas ele não era menos gracioso por isto. Veja:

1. Aqui nós lemos a respeito dele, de uma forma geral, que era um homem enviado por Deus. O evangelista tinha dito, a respeito de Jesus Cristo, que Ele estava com Deus, e que Ele era Deus. Mas aqui, a respeito de João, ele diz que se tratava de um homem, um mero homem. Deus se agrada de falar conosco por meio de homens como nós mesmos. João era um grande homem, mas era um homem, filho de homem. Era enviado de Deus, um anjo de Deus, assim ele é chamado, Malaquias 3.1. Deus deu a ele tanto sua missão quanto sua mensagem, tanto suas credenciais quanto suas instruções. João não realizou nenhum milagre, nem lemos que tenha tido visões e revelações, mas a rigidez e a pureza da sua vida e doutrina, e a tendência direta de ambas para transformar o mundo e reavivar os interesses do reino de Deus entre os homens, eram indicações claras de que ele era enviado por Deus.

2. Aqui nós lemos quais eram suas funções (v.7): “Este veio para testemunho”, uma testemunha ocular, uma testemunha líder. Ele veio para testemunho. As instituições legais tinham sido, por muito tempo, um testemunho de Deus na igreja judaica. Por seu intermédio, a religião revelada era acompanhada. Nela, nós lemos sobre o Tabernáculo do testemunho, a Arca do testemunho, a Lei e o testemunho. Mas agora a revelação divina será dirigida a outro canal, agora o testemunho de Cristo é o testemunho de Deus, 1 Coríntios 1.6; 2.1. Deus realmente não deixou a si mesmo sem um testemunho entre os gentios (Atos 14.17), mas o Redentor não tinha testemunhas a seu favor entre eles. Havia um profundo silêncio a respeito dele, até que João Batista veio para testificar sobre sua bendita pessoa. Observe:

(1) O assunto do seu testemunho: “Para que testificasse da luz”. A luz é algo que testemunha por si mesma, e traz sua própria evidência consigo. Mas para aqueles que fecham seus olhos contra a luz, é necessário que haja aqueles que testifiquem dela. A luz de Cristo não precisa do testemunho do homem, mas as trevas do mundo, sim. João era como o vigia noturno que anda pela cidade, pro­ clamando a chegada da luz da manhã àqueles que têm os olhos fechados, e não desejam observá-la. Ou como aquele vigia que se colocava para dizer àqueles que lhe perguntavam o que houve de noite que “vem a manhã”, e, “se quereis perguntar, perguntai”, Isaías 21.11,12. Ele era o enviado de Deus para dizer ao mundo que o tão esperado Messias era chegado, aquele que seria uma luz para iluminar os gentios, e a glória do seu povo, Israel, e para proclamar que era chegada a dispensação que traria à luz a vida e a imortalidade.

(2) O desígnio do seu testemunho: “Para que todos cressem por ele”. Não nele, mas em Cristo, cujo caminho ele tinha sido enviado para preparar. Ele ensinou os homens a olharem através dele, e a passarem, por seu intermédio, a Cristo; através da doutrina do arrependimento do pecado, à doutrina da fé em Cristo. Ele preparou os homens para a recepção de Cristo e do seu Evangelho, despertando-os a uma visão e a uma percepção do pecado, e para que, com os olhos abertos, eles pudessem estar prontos para aceitar os raios de luz divina que, na pessoa e doutrina do Messias, agora estavam prontos para brilhar em seus rostos. Se eles apenas recebessem o testemunho dos homens, logo descobririam que o testemunho de Deus é maior, 1 João 5.9. Veja cap. 10.41. Observe que o objetivo era que todos os homens, por seu intermédio, cressem, sem excluir das gentis e benéficas influências do seu ministério a ninguém que não se excluísse, como faziam as multidões que rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmas, e desta maneira receberam inutilmente a graça de Deus.

3. Aqui somos avisados para não confundir com a luz aquele que somente veio para dar testemunho dela (v. 8): “Não era ele a luz”, que era esperada e prometida, mas somente se colocou para dar testemunho desta grande e soberana luz. Ele era uma estrela, como aquela que guiou os magos para que encontrassem a Cristo, a Estrela da Manhã, mas ele não era o Sol; não era o Esposo, mas um amigo do Esposo; não era o Príncipe, mas seu arauto. Havia aqueles que se acomodavam ao batismo de João, e não iam adiante, como alguns efésios, Atos 19.3. Para corrigir este erro, o evangelista, aqui, ao falar muito honrosamente a respeito de João Batista, ainda assim mostra que ele deveria dar lugar a Cristo. Ele era grande, como o profeta do Altíssimo, mas não era o Altíssimo. Observe que nós devemos tomar o mesmo cuidado para não supervalorizar os ministros, e também para não subvalorizá-los. Eles não são nossos senhores, nem têm domínio sobre nossa fé, mas são ministros pelos quais nós cremos, são administradores da casa do Senhor. Não devemos assumir uma fé cega em relação à sua conduta, pois eles não são a luz, mas devemos prestar atenção ao seu testemunho, e recebê-lo, pois eles são enviados para dar testemunho da luz. Devemos, então, estimá-los, não fazendo nada diferente disto. Se João fingisse ser aquela luz, ele não teria sido uma testemunha tão fiel daquela luz. Aqueles que usurpam a honra de Cristo perdem a honra de ser servos de Cristo. João era muito útil como uma testemunha da luz, embora não fosse a luz. Até mesmo aqueles que brilham com uma luz emprestada podem ser muito úteis para nós.

 

II – Antes de prosseguir com o testemunho de João, ele retorna para nos dar informações adicionais sobre este Jesus de quem o evangelista estava escrevendo. Tendo mostrado, no início do capítulo, as glórias da sua divindade, aqui ele vem mostrar as graças da sua encarnação, e seus favores ao homem como Mediador.

1. Cristo era a “luz verdadeira” (v.9). Não como se João Batista fosse uma falsa luz, mas, em comparação com Cristo, ele era uma luz muito pequena. Cristo é a grande luz, e merece ser chamado assim. Outras luzes são apenas figurativamente e equivocadamente assim chamadas. Cristo é a verdadeira luz. A fonte de todo conhecimento e de todo consolo deve, necessariamente, ser a verdadeira luz. Ele é a verdadeira luz, por cuja prova nós não somos remetidos às emanações da sua glória no mundo invisível (os raios com os quais Ele o ilumina), mas aos raios da sua luz que são lançados para baixo, e com os quais este nosso mundo escuro é iluminado. Mas como Cristo ilumina todo homem que vem ao mundo?

(1) Pelo seu poder de criação, Ele ilumina todo homem com a luz da razão. Aquela vida, que é a luz dos homens, origina-se nele. Todas as revelações e orientações da razão, todo o consolo que ela nos dá, e toda a beleza que coloca em nós vêm de Cristo.

(2) Pela divulgação do seu Evangelho a todas as nações, Ele verdadeira­ mente ilumina todos os homens. João Batista era uma luz, mas ele iluminava somente Jerusalém e a Judéia, e a região próxima ao Jordão, como uma candeia que ilumina somente uma sala. Porém, Cristo é a luz verdadeira, pois Ele é uma luz que ilumina os gentios. Seu Evangelho eterno deve ser proclamado a toda nação e língua, Apocalipse 14.6. Como o sol, que ilumina todo homem que abrir seus olhos, e receber sua luz (Salmos 19.6), ao qual se compara a pregação do Evangelho. Veja Romanos 10.18. A revelação divina não deve agora ser confinada, como tinha sido, a um povo, mas deve ser difundida a todos os povos, Mateus 5.15.

(3) Por obra do seu Espírito e graça, Ele ilumina todos aqueles que são iluminados para a salvação, e aqueles que não são iluminados por Ele perecem nas trevas. Está escrito que a luz do conhecimento da glória de Deus está na face de Jesus Cristo, e é comparada com a luz que no início recebeu a ordem de brilhar nas trevas, e que ilumina todo homem que vem ao mundo. Qualquer que seja a luz que o homem tenha, ele estará em dívida com Cristo por ela, seja esta luz natural ou sobrenatural.

2. Cristo “estava no mundo”. v.10. Ele estava no mundo, como a Palavra essencial, antes da sua encarnação, sustentando todas as coisas. Mas isto se refere ao fato de que Ele estava no mundo quando assumiu sobre si nossa natureza, e habitou entre nós. Veja cap.16.28: “Vim ao mundo”. O Filho do Altíssimo estava aqui, neste mundo inferior; aquela luz neste mundo escuro; aquele santo, neste mundo pecador e corrompido. Ele tinha deixado um mundo de felicidade e glória, e estava aqui, neste mundo melancólico e miserável. Ele assumiu a missão de reconciliar o mundo com Deus, e por isto estava no mundo, para tratar deste assunto e para decidir esta questão, para satisfazer a justiça de Deus para o mundo, e revelar o favor de Deus para o mundo. Ele estava no mundo, mas não era do mundo, e fala com um ar de triunfo quando pode dizer: “Eu já não estou mais no mundo”, cap. 17.11. A maior honra que já foi dada a este mundo, que é uma parte tão inferior e sem valor do universo, é que o Filho de Deus esteve, certa vez, no mundo. E assim como isto deveria engajar nossos afetos às coisas do alto, onde Cristo está, também deveria reconciliar-nos com nossa habitação atual neste mundo, em que Cristo esteve certa vez. Ele esteve no mundo durante algum tempo, mas isto é mencionado aqui como algo já passado, e assim será dito a nosso respeito, dentro de pouco tempo: “Nós estivemos no mundo”. Oh! Que, quando não estivermos mais aqui, possamos estar onde Cristo está! Observe aqui:

(1) Que razão Cristo tinha para esperar a mais afetuosa e respeitosa acolhida possível neste mundo: “O mundo foi feito por ele”. Ele veio para salvar um mundo perdido porque era um mundo feito por Ele. Por que Ele não deveria se preocupar em restaurar a luz que tinha sido acesa por Ele mesmo, restaurar uma vida que Ele mesmo tinha infundido, e renovar a imagem que foi, originalmente, cunhada por Ele mesmo? O mundo foi feito por Ele, e, portanto, deve render-lhe homenagem.

(2) A fria recepção que Ele teve, apesar disto: “O mundo não o conheceu”. O grande Criador, Soberano e Redentor deste mundo estava nele, e poucos, ou nenhum, dos habitantes do mundo soube disto. “O boi conhece o seu possuidor”, mas o mundo mais embrutecido não o conheceu. Eles não o aceitaram, não lhe deram as boas-vindas, porque não o conheceram. E eles não o conheceram porque Ele não se deu a conhecer da maneira como eles esperavam – em glória e majestade externas. Seu reino não veio com alarde, porque deveria ser um reino de lutas e provações. Quando Ele vier como Juiz, o mundo o conhecerá.

3. Ele “veio para o que era seu” (v. 11). Não somente ao mundo, que era seu, mas ao povo de Israel, que era particularmente seu, acima de todos os povos. Deles, El e veio; entre eles, Ele viveu; e a eles, Ele foi enviado, em primeiro lugar. Os judeus eram, nesta época, um povo desprezível. A coroa tinha caído de suas cabeças, mas, em memória do antigo concerto, por mais que fossem maus, e por mais que fossem pobres, Cristo não se envergonhava de considerá-los como seus, suas próprias coisas, não suas próprias pessoas, como os verdadeiros crentes são chamados, cap. 13.1. Os judeus eram seus, assim como a casa de um homem, e as terras, e os bens são seus, e ele os usa e possui. Mas os crentes são seus, assim como a esposa e os filhos de um homem são seus e ele os ama e aprecia. Ele veio para os seus, para procurá-los e salvá-los, porque eram seus. Ele foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, pois as ovelhas eram suas. Observe:

(1) Que muitos o rejeitaram: “Os seus não o receberam”. Ele tinha razões para esperar que aqueles que eram seus viessem a dar-lhe uma boa acolhida, considerando como eram grandes as obrigações pelas quais estavam sujeitos a Ele, e como eram boas as oportunidades que tinham de conseguir o conhecimento dele. Eles tinham os oráculos de Deus, que lhes diziam, de antemão, onde e quando esperá-lo, e de que tribo e família Ele nasceria. Ele veio entre Eles, pessoalmente, apresentado com sinais e milagres, sendo Ele mesmo o maior deles, e por isto não está escrito, a respeito deles, como estava, a respeito do mundo (v. 10), que não o conheceram. Mas os seus, embora não pudessem deixar de conhecê-lo, ainda assim não o receberam. Não receberam sua doutrina, não o receberam como o Messias, mas se fortificaram contra Ele. Os principais dos sacerdotes, que eram, de uma maneira particular, os seus (pois os levitas eram a tribo de Deus), foram líderes deste desprezo que foi direcionado a Ele. Isto era muito injusto, porque eles eram seus, e por isto Ele poderia exigir seu respeito. E era muito grosseiro e ingrato, porque Ele veio a eles para procurá-los e salvá-los, e obter, assim, seu respeito. Observe que muitos que professam pertencer a Cristo, não o recebem, porque não desejam se afastar dos seus pecados, nem tê-lo reinando sobre si.

(2) Que ainda havia alguns que o reconheciam, e que eram fiéis a Ele. Embora os seus não o recebessem, havia aqueles que o receberam (v. 12): “Mas a todos quantos o receberam”. Embora Israel não estivesse reunido, ainda assim Cristo era glorioso. Embora o corpo daquela nação persistisse e perecesse na incredulidade, ainda assim houve muitos deles que foram transformados para submeter-se a Cristo, e muitos mais que não pertenciam a este grupo. Observe aqui:

[1] A descrição e a característica do verdadeiro cristão. Ela consiste em que ele receba a Cristo e que creia no seu nome. As últimas atitudes explicam as primeiras. Observe, em primeiro lugar, que ser verdadeiramente um cristão é crer no nome de Cristo, é concordar com a revelação do Evangelho, e estar de acordo com a proposta do Evangelho a respeito dele. Seu nome é Verbo de Deus; o Rei dos reis; o Senhor, Justiça Nossa; Jesus, o Salvador. Crer no seu nome consiste em reconhecer que Ele é o que estes grandes nomes evidenciam, e estar de acordo com isto, para que Ele possa ser tudo isto para nós. Em segundo lugar, crer no nome de Cristo é recebê-lo como um presente de Deus. Nós devemos receber sua doutrina como sendo verdadeira e boa; receber sua lei, como justa e santa; receber suas ofertas, como gentis e benéficas; e devemos receber a imagem da sua graça, e as impressões do seu amor, como o princípio governante dos nossos afetos e ações.

[2] A dignidade e os privilégios do verdadeiro cristão possuem duas partes:

Em primeiro lugar, o privilégio de adoção, que os conduz para junto dos filhos de Deus: “Deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”. Até aqui, a adoção pertencia somente aos judeus (“Israel é meu filho, meu primogênito”). Mas agora, pela fé em Cristo, os gentios são os filhos de Deus, Gálatas 3.26. Eles têm poder, autoridade. Pois nenhum homem toma o poder para si mesmo, exceto aquele que é autorizado pela carta de direitos do Evangelho. A eles, Ele concedeu um direito, a eles, Ele deu esta proeminência. Todos os santos possuem este poder. Observe:

1. É o privilégio indescritível de todos os bons cristãos, o fato de que se tornam filhos de Deus. Eles eram, por natureza, filhos da ira, filhos deste mundo. Se eles devem ser filhos de Deus, eles assim se tornam, assim são feitos. As pessoas não nascem cristãs, mas se tornam cristãs. Vejam que grande caridade é esta, 1 João 3.1. Deus os chama de seus filhos, eles o chamam de Pai, e têm direito a todos os privilégios dos filhos, os do seu caminho e os da sua casa.

2. O privilégio da adoção deve-se inteiramente a Jesus Cristo, Ele deu este poder àqueles que creram no seu nome. Deus é seu Pai, e também o nosso, e é por virtude da nossa adoção por Ele, e pela nossa união com Ele, que nos relacionamos com Deus como nosso Pai. Foi em Cristo que fornos predestinados à adoção. Dele, nós recebemos tanto o caráter quanto o Espírito de adoção, e Ele é o primogênito entre muitos irmãos. O Filho de Deus tornou-se um Filho do homem, para que os filhos e filhas dos homens pudessem se tornar os filhos e filhas do Deus Todo-Poderoso.

Em segundo lugar, o privilégio do novo nascimento (v. 13): “Os quais… nasceram”. Observe que todos os filhos de Deus nascem novamente. Todos os que são adotados, são nascidos novamente. Esta transformação real acompanha sempre a relativa. Sempre que Deus confere a dignidade de filhos, Ele cria a natureza e a disposição de filhos. Os homens não podem fazer isto quando adotam filhos. Aqui temos uma avaliação do modelo deste novo nascimento.

1. Negativamente: Ele não se propaga pela geração natural dos nossos pais. Ele não é de sangue, nem da vontade da carne, nem de semente corruptível, 1 Pedro 1.23. O homem é chamado de carne e sangue, porque ali está seu modelo, mas nós não nos tornamos os filhos de Deus da mesma maneira como nos tornamos os filhos dos nossos pais naturais. Observe que a graça não corre no sangue, como corre a corrupção. O homem corrompido gerou um filho à sua semelhança (Genesis 5.3), mas o homem santificado e renascido não gera um filho a esta semelhança. Os judeus vangloriavam-se muito da sua ascendência, e do sangue nobre que corria em suas veias: “Nós somos a semente de Abraão”, e por isto a eles pertencia a adoção, porque eles eram nascidos daquele sangue. Mas esta adoção do Novo Testamento não é encontrada em nenhum relacionamento natural.

(2) Ele não se produz pelo poder natural da nossa própria vontade. Assim como não é de sangue, nem da vontade da carne, também não é da vontade do varão, que opera sob uma impotência moral para determinar o que é bom, de modo que os princípios da vida divina não são plantados por nós. É a graça de Deus que faz com que desejemos ser seus. Nem podem as leis ou textos humanos prevalecer para santificar e regenerar uma alma. Se pudessem, o novo nascimento seria pela vontade do varão. Mas,

2. Positivamente: É de Deus. Este novo nascimento deve-se à Palavra de Deus, como meio (1 Pedro 1.23), e ao Espírito de Deus, como o grande e único autor. Os verdadeiros crentes são nascidos de Deus, 1 João 3.9; 5.1. E isto é necessário para sua adoção, pois nós não podemos esperar o amor de Deus, se não tivermos algo da sua semelhança, nem clamarmos pelos privilégios da adoção, se não estivermos sob o poder da regeneração.

3. “O Verbo se fez carne”, v. 14. Isto expressa a encarnação de Cristo mais claramente do que aquilo que foi dito antes. Pela sua divina presença, Ele sempre esteve no mundo, e pelos seus profetas, Ele veio para os seus. Mas vindo a plenitude dos tempos, Ele foi enviado de outra maneira, nascido de mulher (Gálatas 4.4). Deus manifestado na carne, de acordo com a fé e a esperança do santo Jó: “Ainda em minha carne verei a Deus”, Jó 19.26. Observe aqui:

(1) A natureza humana de Cristo, com a qual Ele se recobriu, e que expressava dois caminhos.

[1] “O Verbo se fez carne”. “Visto como os filhos”, que deviam tornar-se filhos de Deus, “participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas”, Hebreus 2.14. Os socinianos concordam que Cristo é, ao mesmo tempo, Deus e homem, mas dizem que Ele era homem, e foi feito Deus, como Moisés (Êxodo 7.1), diretamente o oposto ao que diz João aqui, Ele era Deus, mas Ele se fez carne.

Compare o versículo 1 com este. Isto sugere não apenas que Ele era verdadeiramente um homem, mas que Ele se sujeitou às desgraças e calamidades da natureza humana. Ele se fez carne, a parte mais simples do homem. A carne evidencia a fraqueza do homem, e Ele foi “crucificado por fraqueza”, 2 Coríntios 13.4. A carne significa um homem mortal e morrendo (SaImos 78.39), e Cristo foi mortificado na carne, 1 Pedro 3.18. Na verdade, a carne significa o homem corrompido pelo pecado (Genesis 6.3), e Cristo, embora fosse perfeitamente santo e inocente, ainda assim manifestou-se em semelhança da carne do pecado (Romanos 8.3), e foi feito pecado por nós, 2 Coríntios 5.21. Quando Adão pecou, Deus disse a ele: “És pó”, não somente porque tinha sido feito do pó da terra, mas porque, pelo pecado, ele tinha se afundado no pó. Sua queda, transformou-o em corpo, o fez terreno. Portanto, aquele que se fez maldição por nós, se fez carne, e condenou o pecado na carne, Romanos 8.3. Maravilhe-se com isto, que o Verbo eterno fosse feito carne, quando a carne tinha uma tão má reputação; que aquele que fez todas as coisas se fizesse carne, uma das coisas mais inferiores, e se submetesse àquilo de que Ele se encontrava mais distante. A voz que apresentou o Evangelho clamou: “Toda carne é erva” (Isaias 40.6), para tornar mais maravilhoso o amor do Redentor, que, para nos redimir e salvar, se fez carne, e murchou como erva. Mas o Verbo do Senhor, que se fez carne, permanece para sempre. Mesmo quando se fez carne, Ele não deixou de ser o Verbo de Deus.

[2] Ele “habitou entre nós”, aqui, neste mundo inferior. Tendo assumido a natureza de homem, Ele colocou-se no lugar e na condição de outros homens. O Verbo poderia ter-se feito carne, e habitado entre os anjos. Mas, tendo tomado um corpo do mesmo molde que nós, nele Ele veio, e habitou no mesmo mundo que nós. Ele habitou entre nós; nós, vermes da terra; nós, de quem Ele não precisava; nós, que éramos corruptos e depravados, e revoltados contra Deus. O Senhor Deus veio e habitou até entre os rebeldes, Salmos 68.18. Aquele que tinha habitado entre anjos, aqueles seres nobres e excelentes, veio e habitou entre nós, que somos uma raça de víboras, nós, pecadores, o que era pior para Ele do que a residência de Davi em Meseque e Quedar, ou a de Ezequiel entre escorpiões, ou a da igreja de Pérgamo, que habitava onde estava o trono de Satanás. Quando consideramos o mundo superior, o mundo dos espíritos, como parece inferior e desprezível esta carne, este corpo que nós levamos conosco, e este mundo no qual nossa sorte está lançada, e como é difícil que uma mente contemplativa se reconcilie com eles! Mas uma vez que o Verbo eterno se fez carne, vestiu-se com um corpo, como nós, e habitou neste mundo, como nós, isto colocou uma honra sobre ambos, e deve nos fazer desejar habitar na carne enquanto Deus tenha algum serviço para fazermos, pois Cristo habitou neste mundo inferior, ruim como ele é, até que tivesse terminado o que tinha que fazer aqui, cap. 17.4. Ele habitou entre os judeus, para que se cumprissem as Escrituras: “Habite nas tendas de Sem”, Gênesis 9.27. E veja Zacarias 2.10. Mesmo os judeus sendo cruéis com o Senhor Jesus, Ele continuou a habitar entre eles. Embora (como nos contam alguns dos autores antigos) Ele tivesse sido convidado a um tratamento melhor por Abgar, rei de Edessa, ainda assim Ele não se mudou para nenhuma outra nação. Ele habitou entre nós. Ele estava no mundo, não como um viajante que fica apenas por uma noite, mas Ele habitou entre nós, teve uma longa estada, a expressão original é notável, eskenosen en hemin – Ele residiu entre nós, como em um tabernáculo, o que sugere, em primeiro lugar, que Ele habitou aqui em circunstâncias muito humildes, como pastores que habitam em tendas. Ele não habitou entre nós como em um palácio, mas como em uma tenda, pois Ele não tinha onde reclinar a cabeça, e estava sempre se deslocando de um lugar para outro. Em segundo lugar, que sua situação aqui era uma situação militar. Soldados residem em tendas. Ele tinha, há muito tempo, proclamado a guerra com a semente da serpente, e agora Ele toma o campo, pessoalmente, ergue seu estandarte, e arma sua tenda, para prosseguir nesta guerra. Em terceiro lugar, que sua estada entre nós não seria perpétua. Ele habitou aqui como em uma tenda, não como em casa. Os patriarcas, residindo em tabernáculos, “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”, e procuravam uma pátria melhor, e assim também foi Cristo, dando-nos um exemplo, Hebreus 13.13,14. Em quarto lugar, que assim como antigamente Deus residiu no Tabernáculo de Moisés, na shekinah entre os querubins, assim também agora Ele habita na natureza humana de Cristo, que agora é a verdadeira shekinah, o símbolo da presença peculiar de Deus. E nós devemos nos dirigir a Deus por meio de Cristo, e dele receber os oráculos divinos.

(2) Os raios da sua glória divina que se lançavam através deste véu de carne: “Vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Assim como o sol, mesmo eclipsado ou nublado, ainda é a fonte de luz, também Cristo ainda era o brilho da glória do seu Pai, mesmo quando Ele residia entre nós, neste mundo inferior. E ainda que os judeus pensassem de modo desprezível sobre Ele, havia aqueles que viam através do véu. Observe:

[1] Quem eram as testemunhas desta glória: nós, seus discípulos e seguidores, que convivemos mais livremente e familiarmente com Ele. Nós, entre os quais Ele habitou. Outros homens revelam suas fraquezas àqueles com quem têm mais familiaridade, mas não foi assim com Cristo. Aqueles que tinham mais intimidade com Ele, viram principalmente sua glória. Como acontecia com sua doutrina, os discípulos conheciam seus mistérios, ao passo que outros a recebiam sob o véu das parábolas, assim também acontecia com sua pessoa, eles viam a glória da sua divindade, ao passo que os outros viam somente o véu da sua natureza humana. Ele se manifestou a eles, e não ao mundo. Estas testemunhas formavam um número adequado, eram doze, um júri completo de testemunhas, homens sinceros e íntegros, e distantes de qualquer tipo de plano ou intriga.

[2] Que evidência eles tiveram dela: “Vimos”. Eles não tiveram sua evidência por um relato, em segunda mão, mas foram, eles mesmos, testemunhas oculares das provas sobre as quais construíram seu testemunho de que Ele era o Filho do Deus vivo: “Vimos”. A palavra significa uma visão permanente, que lhes proporcionava uma oportunidade de fazer suas observações. Este mesmo apóstolo explica isto: “O que vos anunciamos da Palavra da vida é o que temos visto com nossos olhos, e o que temos contemplado”, 1 João 1.1.

[3] Que a glória era: “como a glória do Unigênito do Pai”. A glória do Verbo feito carne foi uma glória como convinha ao Unigênito Filho de Deus, e não poderia ser a glória de ninguém, além dele. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo é o Unigênito do Pai. Os crentes são os filhos de Deus pela graça especial da adoção e pela graça especial da regeneração. Eles são, de certa forma, de uma natureza semelhante (2 Pedro 1.4), e têm a imagem das suas perfeições. Mas Cristo é da mesma natureza, e é a imagem expressa da sua pessoa, e o Filho de Deus, por geração eterna. Os anjos são filhos de Deus, mas Ele nunca disse a nenhum deles: “Hoje te gerei”, Hebreus 1.5. Em segundo lugar, Ele foi declarado como sendo o Unigênito do Pai por aquilo que foi visto da sua glória, quando habitou entre nós. Embora Ele estivesse sob a forma de servo, no que diz respeito às circunstâncias externas, ainda assim, no que diz respeito às graças, sua forma era como aquela do quarto homem no forno de fogo ardente, “semelhante ao filho dos deuses”. Sua glória divina aparecia na santidade e na divindade da sua doutrina. Nos seus milagres, que despertavam em muitos este reconhecimento, de que ele era o Filho de Deus. Ela aparecia na pureza, bondade e caridade de todos os seus relacionamentos. A bondade de Deus é sua glória, e Ele viveu fazendo o bem. Ele falava e agia, em tudo, como uma Divindade encarnada. Talvez o evangelista tivesse uma consideração especial pela glória da sua transfiguração, da qual ele tinha sido uma testemunha ocular. Veja 2 Pedro 1.16-18. Deus, ao chamá-lo de seu Filho Amado, em quem Ele se comprazia, sugeria que Ele era o Unigênito do Pai, mas a evidência completa disto foi dada na sua ressurreição.

[4] Que vantagem tinham aqueles entre os quais Ele habitava. Ele habitou entre eles, “cheio de graça e de verdade”. No antigo Tabernáculo, onde Deus habitava, havia a lei, neste havia a graça; naquele havia tipos, neste havia a verdade. O Verbo encarnado estava, de todas as maneiras, qualificado para sua missão de Mediador, pois Ele estava “cheio de graça e de verdade”, as duas grandes coisas de que os homens caídos necessitam. E isto evidenciava que Ele era o Filho de Deus, tanto quanto o divino poder e a divina majestade que se apresentavam nele. Em primeiro lugar, Ele tinha a plenitude de graça e da verdade para si mesmo. Ele tinha o Espírito sem medida. Ele era cheio de graça, completamente aceitável ao seu Pai, e, portanto, qualificado para interceder por nós; e cheio de verdade, completamente informado das coisas que Ele deveria revelar, e, portanto, adequado para nos instruir. Ele tinha uma plenitude de conhecimento e uma plenitude de compaixão. Em segundo lugar, Ele tinha a plenitude de graça e verdade para nós. Ele recebeu, para que pudesse dai; e Deus se comprazia nele, para que pudesse comprazer-se conosco, nele. E esta era a verdade da tipologia utilizada pelo Senhor.