ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 1-5

Alimento diário

A Divindade de Cristo

O evangelista aqui apresenta a grande verdade que ele deseja provai que Jesus Cristo é Deus, um com o Pai. Observe:

I – De quem ele fala- “o Verbo” (ou “a Palavra”) – hologos. Esta é uma expressão peculiar aos textos de João. Veja 1 João 1.1; 5.7; Apocalipse 19.13. Alguns pensam que em Atos 20.32; Hebreus 4.12 e Lucas 1.2 ·’a palavra” se refere a Cristo. A paráfrase em caldeu muito frequentemente chama o Messias de Memra a Palavra de Jeová, e fala de muitas coisas no Antigo Testamento, que seriam feitas pelo Senhor, como feitas por aquela Palavra do Senhor. Até mesmo os judeus vulgares aprendiam que a Palavra de Deus era como Deus. O evangelista, no final do seu discurso (v. 18), nos diz claramente por que chama a Cristo de “o Verbo” – porque Ele é o único Filho gerado, que está no seio do seu Pai, e que o declarou. O Verbo compõe-se de duas partes: logos endiathetos palavra concebida; e logos prophorikos palavra pronunciada. O logos ho eso e ho exo, ratio e oratio inteligência e expressão.

1. Existe a palavra concebida, isto é, pensada, que é o primeiro e único produto imediato e a impressão da alma (da qual todas as operações são realizadas pelo pensamento), e que está unida à alma. E assim, a segunda pessoa da Trindade é, adequadamente, chamada “o Verbo” (ou “a Palavra”), pois Ele é o primogênito do Pai, a eterna e essencial sabedoria que o Senhor possuía, assim como a alma gera pensamento, no princípio dos seus caminhos, Provérbios 8.22. Não há nada de que tenhamos mais certeza do que aquilo que pensamos, e ainda assim, nada que desconheçamos mais do que aquilo que pensamos. Quem pode explicar a geração do pensamento na alma? Certamente, então, as gerações e os nascimentos da mente eterna podem ser aceitos como sendo grandes mistérios da Divindade, cujo fundamento nós não podemos compreender, embora apreciemos sua profundeza.

2. Existe a palavra proferida, e esta é a fala, a principal e mais natural indicação da mente. E assim, Cristo é o Verbo, pois, por meio dele, Deus falou-nos nestes últimos dias (Hebreus 1.1), e nos instruiu para que o escutássemos, Mateus 17.5. Ele nos fez conhecida a mente de Deus, assim como a palavra ou o discurso de um homem dá a conhecer seus pensamentos até o ponto em que ele o desejar, e não além dele. Cristo é chama do “um santo que falava” (veja as observações sobre Daniel 8.13), aquele que falava de coisas ocultas e estranhas. Ele é a Palavra que fala da parte de Deus para nós, e que também fala a Deus a nosso favor. João Batista era a voz, mas Cristo era a Palavra. Sendo o Verbo, Ele é a Verdade, o Amém, a Testemunha fiel do pensamento de Deus.

 

II – O que João fala a respeito de Jesus é suficiente para provar, sem sombra de dúvida, que Ele é Deus. Ele declara:

1. Sua existência no princípio: “No princípio, era o Verbo”. Isto evidencia sua existência, não somente antes da sua encarnação, mas antes de todos os tempos. O princípio dos tempos, no qual todas as criaturas foram criadas e trazidas à existência, encontrou este Verbo eterno já existindo. O mundo passou a existir a partir de um instante inicial, na criação, mas o Verbo já existia. A eternidade é normalmente expressa como existindo “antes da fundação do mundo”. A eternidade de Deus é descrita assim (Salmos 90.2): “Antes que os montes nascessem”. Também em Provérbios 8.23. O Verbo existia antes que o mundo existisse. Aquele que existi a no princípio nunca teve início, e, portanto, era sempre achronos sem princípio de tempo, segundo Nono.

2. Sua coexistência com o Pai: “O Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Que, ao convidarmos alguém para vir a Cristo, esta pessoa não diga que a estamos afastando de Deus, pois Cristo está com Deus, e é Deus. Isto é repetido no v. 2: aquele em quem cremos, e que pregamos, estava no princípio com Deus, isto é, sempre esteve, desde a eternidade. No princípio, o mundo originou-se de Deus, pois foi criado por Ele, mas o Verbo estava com Deus, sempre com Ele. O Verbo estava com Deus:

(1) Em termos de essência e substância, pois o Verbo era Deus: uma pessoa ou substância distinta, pois estava com Deus, e, apesar disto, o mesmo em substância, pois era Deus, Hebreus 1.3.

(2) Em termos de complacência e felicidade. Havia uma glória e uma felicidade que Cristo tinha com Deus antes que o mundo existisse (cap. 17.5), o Filho infinitamente feliz desfrutando do seio do seu Pai, e, da mesma forma, das delícias do seu Pai, o Filho do seu amor, Provérbios 8.30.

(3) Em termos de conselho e desígnio. O mistério da redenção do homem por este Verbo encarnado esteve oculto em Deus antes de todos os mundos, Efésios 3.9. Aquele que se responsabilizou por nos levar até Deus (1 Pedro 3.18) estava, Ele mesmo, desde a eternidade, com Deus, o Pai. Assim, esta grande questão da reconciliação do homem com Deus foi decidida entre o Pai e o Filho desde a eternidade, e Eles estão de pleno acordo quanto a isto, Zacarias 6.13; Mateus 11.27. O Senhor Jesus estava ao lado de Deus, o Pai, como alguém que vive constantemente com Ele, tendo este serviço como seu objetivo maior, Provérbios 8.30. Ele estava com Deus, e por isto se diz que Ele saiu do Pai.

3. Sua interferência na criação do mundo, v. 3. Isto, aqui, está:

(1) Afirmado expressamente: “Todas as coisas foram feitas por Ele”. Ele estava com Deus, não somente de modo a estar familiarizado com os conselhos divinos, desde a eternidade, mas para estar ativo nas operações divinas, no princípio do tempo. “Então, eu estava com Ele”, Provérbios 8.30. Pela palavra do Senhor foram feitos os céus (Salmos 33.6), e Cristo era a Palavra, o Verbo. Por meio dele, não como um instrumento subordinado, mas como um agente coordenado, Deus fez o mundo (Hebreus 1.2), não como o trabalhador cria, com seu machado, mas como o corpo vê, com o olho.

(2) O contrário é negado: “Sem ele nada do que foi feito se fez”, desde o mais elevado anjo até o verme mais inferior. Deus, o Pai, não fez nada sem Ele na criação. Veja:

[1] Isto prova que Ele é Deus: “O que edificou todas as coisas é Deus”, Hebreus 3.4. O Deus de Israel frequentemente provava que era Deus com isto, como tendo criado todas as coisas (Isaias 40.12,28; 41.4; veja também Jeremias 10.11,12).

[2] Isto prova a excelência da religião cristã, o fato de que o autor e o fundador da religião é o mesmo que tinha sido o autor e fundador do mundo. Como deve ser, necessariamente, excelente esta constituição, que deriva sua instituição daquele que é a fonte de toda excelência’. Quando adoramos a Cristo, nós adoramos àquele a quem os patriarcas honraram como o Criador do mundo, e em quem todas as criaturas confiam.

[3] Isto mostra como Ele estava bem qualificado para a obra da nossa redenção e salvação. O socorro foi colocado sobre aquele que realmente é poderoso, pois foi colocado sobre aquele que fez todas as coisas, e o autor da nossa felicidade é o autor da nossa existência.

4. A vida e a luz estavam originalmente nele: “Nele, estava a vida”, v. 4. Isto prova ainda mais que Ele é Deus, e que está, de todas as maneiras, qualificado para sua missão, pois:

(1) Ele tem a vida em si. Ele não é somente o Deus verdadeiro, mas é o Deus vivo. Deus é vida. Ele jura por si mesmo, quando diz: “Assim como Eu vivo”.

(2) Todas as criaturas vivas têm sua vida nele. Não somente toda a matéria de sua criação foi feita por Ele, mas também toda a vida que está na criação é derivada dele, e sustentada por Ele. Foi a palavra de Deus que produziu as criaturas que se movimentam, que têm vida, Génesis 1.20; Atos 17.25. Ele é aquela Palavra pela qual o homem vive mais do que pelo pão, Mateus 4.4.

(3) As criaturas racionais têm sua luz oriunda dele. A vida que “era a luz dos homens” vem dele. A vida no homem é alguma coisa maior e mais nobre do que é em outras criaturas; é racional, e não meramente animal. Quando o homem se tornou alma vivente, sua vida era luz, suas capacidades distinguiam-no e o colocavam acima dos animais que perecem. “A alma [ou “espírito”, versão RA] do homem é a lâmpada do Senhor”, e é a Palavra eterna que acende esta lâmpada. A luz da razão, assim como a vida dos sentidos, deriva dele, e depende dele. Isto o prova adequado para empreender nossa salvação, pois a vida e a luz, a vida espiritual e eterna e a luz, são as duas grandes coisas de que o homem caído, que está tão subjugado pelo poder da morte e das trevas, precisa. De quem podemos esperar a luz da revelação divina, a não ser daquele que nos deu a luz da razão humana? E se, quando Deus nos deu a vida natural, esta vida estava no seu Filho, com que disposição nós devemos receber os registros do Evangelho, que mostram que Ele nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho!

5. Sua manifestação aos filhos dos homens. Alguém poderia objetar: “Se esta palavra eterna esteve, em geral, na criação do mundo, como é que Ele foi tão pouco observado e considerado?” A isto, Ele responde (v. 5): “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Observe:

(1) A revelação da Palavra eterna ao mundo caído, antes mesmo que Ele se manifestasse em carne: “A luz resplandece nas trevas”. A luz evidencia a si mesma, e se faz conhecida. Esta luz, de onde vem a luz dos homens, resplandeceu e resplandece.

[1] A Palavra eterna, sendo Deus, resplandece nas trevas da consciência natural. Embora os homens, pela queda, tenham se tornado trevas, ainda assim o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta. Veja Romanos 1.19,20. A luz da natureza é esta luz que resplandece nas trevas. Toda a humanidade tem um sentido inato de algo do poder do Verbo divino, tanto criando quanto ordenando. Se não fosse por isto, a terra seria um inferno, um lugar de escuridão completa. Bendito seja Deus, ainda não é assim.

[2] O Verbo eterno, como Mediador, resplandeceu nas trevas dos tipos e figuras do Antigo Testamento, e das profecias e promessas que haviam sobre o Messias, desde o princípio. Aquele que tinha ordenado que a luz deste mundo resplandecesse nas trevas foi, Ele mesmo, durante muito tempo, uma luz que resplandeceu nas trevas. Havia um véu sobre esta luz, 2 Coríntios 3.13.

(2) A incapacidade deste mundo degenerado para receber esta revelação: “As trevas não a compreenderam”. A maioria dos homens recebia a graça de Deus, nestas revelações, em vão.

[1] O mundo da humanidade não compreendia a luz natural que havia no seu entendimento, e tornou inútil sua imaginação a respeito do Deus eterno e do Verbo eterno, Romanos 1.21,28. As trevas do erro e do pecado superaram, e praticamente eclipsaram, esta luz. “Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso”, Jó 33.14.

[2] Os judeus, que tinham a luz do Antigo Testamento, também não compreenderam a Cristo nela. Assim como havia um véu sobre a face de Moisés, também aqui havia um véu sobre os corações das pessoas. Nas trevas dos tipos e sombras, brilhou a luz, mas eram tantas as trevas do seu entendimento, que eles não puderam vê-la. Por isto, era essencial que Cristo viesse, tanto para corrigir os erros do mundo gentio como para aprimorar as verdades da igreja judaica.

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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