PSICOLOGIA ANALÍTICA

UMA FILOSOFIA DA SAÚDE

A psicossomática não é uma terapêutica alternativa, mas um desenvolvimento da medicina Tradicional. Seguindo critérios científicos, procura restabelecer a unidade possível entre pensamento e matéria.

Uma filosofia da saúde

Psicossomática, um termo infeliz. O destino incerto da disciplina depende muito dessa designação excessivamente vaga e, em muitos sentidos, contraditória. Vaga porque se presta a interpretações equivocadas, até mesmo entre especialistas, que se esforçam para encontrar uma definição unitária e consensual. Contraditória porque separa aquilo que deveria unir, conservando os dois conceitos de “psiquê” e de “soma” desvinculados.

Outra confusão deriva do fato deque, a partir do início do século XX, os médicos começaram a definir como “psicossomáticos” os distúrbios físicos não passíveis de verificação orgânica e aparentemente causados por origens psicológicas. Não raro, o diagnóstico trazia algum desdém, a doença psicossomática era não só percebida como menos digna que as doenças “verdadeiras”, mas também frequentemente relegada à condição de doença imaginária. por fim, nos últimos tempos, o termo tem coincidido com uma atitude de oposição à medicina oficial e seu aparato tecnológico excessivo, com uma abertura generalizada às medicinas alternativas.

Então, no que consiste atualmente a psicossomática? Certamente é uma disciplina que conserva o seu objetivo originário, ou seja, a reintegração entre res cogitans e res extensa, entre pensamento e matéria, entre mente e corpo. Tal divisão, estabelecida por Descartes no século XVII, influenciou profundamente o pensamento ocidental, abrindo caminho à tendência mecanicista (ainda na base da medicina moderna), favorecendo o desenvolvimento tecnológico em níveis cada vez mais elevados de especialização.

Mas restabelecer a unidade não significa retomar aos tempos de Hipócrates e à sua teoria dos rumores. Em muito menos distanciar-se de tudo o que a medicina descobriu e demonstrou nesses anos, ainda que de uma perspectiva puramente orgânica.

“A medicina psicossomática não é um retorno ao passado, muito menos uma variante da medicina alternativa: pelo contrário, é uma evolução da medicina tradicional, a única possível”, explica Giovanni Fava, professor titular de psicologia clínica da Universidade de Bolonha e diretor da revista Psychotherapy and Psychossomatics, “Hoje se sabe que cada doença apresenta uma origem multifatorial e resulta da interação de inúmeros fatores.

O paradigma de referência é o modelo biopsicossocial de George Engel, segundo o qual a patologia é resultado de fatores biológicos, genéticos, endocrinológicos, imunológicos, psicológicos, sociais e relacionais. Assim, não tem mais sentido o conceito de “doença psicossomática”: agora sabemos que doenças originariamente consideradas como psicossomáticas não o são, e que outras tidas como não psicossomáticas, em alguns indivíduos de fato são. “Na verdade, todos os distúrbios devem ser considerados psicossomáticos, já que, uma doença é sempre acompanhada de sofrimento psicológico,” acrescenta Giancarlo Trombini, um docente de psicologia clínica da Universidade de Bolonha e primeiro titular de uma cátedra italiana de medicina psicossomática. Paradoxalmente, é o próprio estado da doença que restitui o sentido da unidade entre mente e corpo, já que não há doença em que não entrem em jogo – como causa, co- causa ou consequência –  fatores emocionais e psíquicos.

Mas, com tamanhas ambições, não se corre o risco de perpetuar a nebulosidade da disciplina? De fato, há o perigo, e a confusão acerca do assunto o demonstra. É por isso que os psicossomáticos italianos consideram positiva a decisão de promover a psicossomática a uma especialidade universitária nos Estados Unidos, onde foi introduzida como subdisciplina da psiquiatria em 2003, com a tarefa de enfrentar tudo o que diz respeito aos componentes psicológicos das doenças: de estilos de vida arriscados” a consequências emotivas de doenças como infarto, tumores ou aids.

“Trata-se de uma visão da psicossomática muito influenciada pela psiquiatria, que se afasta do modelo biopsicossocial adotado na Europa e na Itália, adverte Luigi Grassi, docente de psiquiatria na Universidade de Ferrara. Mas pode ter o mérito de normatizar a formação em psicossomática, reduzindo as ambiguidades e as más interpretações dessa palavra. “Se a especialidade for também introduzida na Itália, há o perigo de que a psicossomática seja identificada com a psiquiatria clínica, que é o setor que se ocupa da prevenção, do diagnóstico e do tratamento de doenças psiquiátricas em pacientes que se dirigem ao médico. “Deve-se fazer uma distinção”, ressalta Fava. “A psiquiatria clínica tem como âmbito de ação os departamentos de medicina e cirurgia e enfoca essencialmente a comorbidade entre doença médica e distúrbio psiquiátrico. Porém a psicossomática é multidisciplinar e tem como objetivo a integração dos conhecimentos.

ABORDAGEM GLOBAL

Em suma, a psicossomática hoje quer dizer pelo menos duas coisas. Antes de tudo, é uma filosofia, uma abordagem do doente em sentido global, que deveria ser regra de todo médico. ‘Mas há também uma conotação especializada, sublinha Fava. “O médico psicossomático adquire competências interdisciplinares específicas caracterizadas pela atenção aos fatores psicossociais. Isso inclui algumas disciplinas emergentes, por exemplo, a psiquiatria clínica, mas também a psicooncologia e a psiconeuroendocrinologia, que estão dando passos gigantescos na compreensão da relação entre emoções e doenças.”

Segundo os conhecimentos atuais, os caminhos que permitem a passagem entre emoção e mudanças físicas partem principalmente da região límbica que está conectada ao hipotálamo e à hipófise.  Os sistemas envolvidos, verdadeiros e autênticos canais entre mente e corpo, são quatro, muscular-esquelético, neurovegetativo, psiconeuroendócrino e imunológico.

“Hoje temos muitos instrumentos de pesquisa, que nos permitem mostrar o que efetivamente acontece no organismo”, explica Massimo Biondi, diretor do Departamento de Ciências Psiquiátricas e Medicina Psicológica da Universidade La Sapienza, de Roma. “Em suma, a psicossomática moderna se fundamenta em demonstrações e explicações partilhadas, relatadas na imprensa científica internacional. Não basta dizer ‘o stress provoca resfriado’ ou ‘quem é muito agressivo corre risco de infarto. É necessário provar isso, com resultados reproduzíveis, e expor as bases biológicas e química “

 NÃO APENAS HIPÓTESES

Na prática, a pesquisa em psicossomática, hoje, se move sobre os trilhos da pesquisa científica, não se limitando, mais a hipóteses interpretativas de matriz psicanalítica, que caracterizaram seu começo. As correspondências específicas entre conflito e doença, ou entre personalidade e doença, são atualmente teorias abandonadas. “Continuam válidos somente alguns conceitos, como a relação entre o comportamento de tipo A – hostil, irritável, competitivo –  e a doença coronária, cuja hipótese foi lançada pelo cardiologista Meyer Friedman e confirmada por várias pesquisas, embora também questionada por outras”, observa Marco Rigatelli, diretor da unidade operacional de psiquiatria do Policlínico de Modena. “Outro conceito antigo que sobrevive, apesar de formulado já há alguns anos, é o que a escola francesa de Pierre Marty chamou de “pensamento operatório” e a escola americana de Peter Sifneos, de “alexitimia” ao paciente que tende a somatizar, a comunicar um transtorno psicológico sob a forma de distúrbios somáticos, tem uma grave dificuldade de exprimir os próprios sentimentos, não sabe elaborar adequadamente as emoções.”

Diversos escudos recentes indicaram a presença de alexitimia em cerca de um terço dos pacientes afetados por doenças orgânicas crônicas. “Diante de uma experiência estressante, o alexitimico desenvolve uma reação somática em vez de emotiva por uma espécie de curto-circuito”, explica Constanzo Gala, psiquiatra da Universidade de Milão. “Na prática, é incapaz de elaborar as experiências emotivas em pensamento e as traduz em manifestações físicas”.

A somatização é um fenômeno bastante disseminado, calcula-se que, entre 30% e 50% dos casos de pessoas que procuram atendimento médico, a causa orgânica da doença não é identificada. Confrontando tais condições (que vão do cólon irritável à nevrose cardíaca, da fibromialgia à síndrome da fadiga crônica, muitas vezes o médico se limita ao exame físico, algum teste de laboratório e um diagnóstico de “distúrbio funcional’, para depois mandar o paciente para casa sem tomar qualquer providência.

Uma pesquisa recente em endocrinologia revelou a discrepância entre o que é percebido pelo médico e o que é percebido pelo doente, ressalta Giovanni Fava. “Frequentemente o doente ouve coisas do tipo ‘o senhor não tem nada’ ou ‘fique tranquilo, está tudo bem’, quando na verdade está mal. Normalmente essas pessoas acabam por recorrer à medicina alternativa.”

QUANDO A VIDA FAZ MAL

A medicina psicossomática gostaria de preencher a lacuna, fornecendo respostas até mesmo nessas situações. Um impulso importante à pesquisa vem dos estudos sobre stress e sobre a relação entre stress e doenças, com base nos quais se desenvolveu ampla documentação científica. Pesquisas mais recentes colocaram em evidência o papel de eventos precoces da vida na geração de suscetibilidade a doenças específicas, a separação prematura da mãe, por exemplo, ativa o sistema hipotálamo-supra-renal e aumenta a secreção de prolactina, tornando o organismo mais vulnerável, inclusive em épocas muito tardias. Os abusos sexuais são frequentemente associados a dores crônicas e a síndrome do cólon irritável ao passo que uma história de maus-tratos predispõe a diversos comportamentos de risco, além de outras doenças,

Outros estudos demonstraram que eventos muito estressantes (morte de um parente, mudança de trabalho ou de casa) influenciam o sistema neuroendócrino e imunológico de várias maneiras, contribuindo para desencadear doenças endócrinas, cardiovasculares, respiratórias, gastrintestinais, imunológicas, de pele e tumorais. Além dos eventos singulares, analisou-se também o papel de condições estressantes crônicas (por exemplo, insatisfação profissional ou indisposições de natureza afetiva).

A concomitância de distúrbios físicos e psicológicos é objeto de uma vasta área de pesquisa: no caso das doenças médicas crônicas (tais como doenças vasculares, tumores, aids), um em cada quatro pacientes apresenta simultaneamente um distúrbio psiquiátrico, geralmente de natureza depressiva, que piora a qualidade de vida e às vezes reduz a sobrevida do paciente. Por outro lado, pode ainda comprometer sua disponibilidade para seguir com as terapias, induzindo ao suicídio por deliberada omissão terapêutica: o diabético que para de tomar insulina, o doente com insuficiência renal que interrompe a hemodiálise, o infartado que retoma a um trabalho demasiadamente estressante.

“Em geral se pensa que a depressão é consequência óbvia de doenças particularmente graves, observa Rigatelli. ”Pelo contrário, em três de cada quatro pacientes não há depressão, ou seja, é frequente, mas não inevitável. Por isso, é importante estudar os fatores que favorecem a depressão, assim como aprender a reconhecê-la e tratá-la a tempo”. A propósito, uma das associações mais estudadas é entre depressão e infarto cardíaco. Um número considerável de pesquisas confirmam que a queda do humor aumenta a possibilidade de adoecer e também de morrer por problemas cardiovasculares, tanto que hoje a depressão é considerada um fator de risco independente para as coronariopatias.

A associação entre depressão e tumor é outro campo bastante estudado na psicopatologia. “Antigamente se pensava até que houvesse uma personalidade propensa ao tumor’, recorda Luigi Grassi. “Dizia-se que quem é passivo, desmoralizado, desistente apresentava mais risco de câncer. Hoje essa ideia mudou bastante. O que piora o prognóstico não é a personalidade, mas um distúrbio que pode ser curado de forma eficaz.

A depressão, responde bem a psicoterapias interpessoais e de grupo. Por sua vez, a psicoterapia cognitivo-comportamental é mais indicada no caso de ansiedade antecipatória e dor, distúrbios também frequentes em caso tumoral. Além disso, está provada a eficácia das intervenções psicoeducacionais, por meio das quais se ensinam aos doentes os elementos essenciais para gerir o stress ligado à doença.

Dessa forma, abre-se uma nova era para a psicossomática. Porém como resistir à setorialização cada vez mais exacerbada da medicina, que sem dúvida se move em direção oposta. “Estamos bastante empenhados na área de formação, por meio da qual procuramos ensinar os princípios da psicossomática e as técnicas de comunicação a todos os funcionários da saúde”, explica Grassi. “Mas muitos doentes ainda refutam a figura do psicólogo ou do psiquiatra, associando-a a doenças mentais mais graves: assim não é fácil fazer com que os transtornos emocionais venham à tona.” Trombini destaca a importância de equipes multidisciplinares’: Não se pode esperar que uma só pessoa seja capaz de curar qualquer distúrbio em todos os níveis, haja vista a quantidade de conhecimentos necessários. Mais realista e útil é pensar em desenvolver grupos de trabalho cujos membros tenham, tanto sensibilidade à psicossomática quanto competências específicas. É uma abordagem que parece trazer resultados positivos, sobretudo quando se trata de crianças e quando se torna necessária uma intervenção preventiva na família”. 

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AS PSICOSSOMÁTICAS

Quando se fala das relações entre o psiquismo e o organismo, é essencial delimitar-se que existem a psicossomática da medicina, a da psicologia e a da psicanálise. Embora possa haver traços, distantes, de parentesco entre as três, elas constituem recortes radicalmente diferentes, modos incompatíveis entre si de vislumbrar e pensar as relações entre os processos psíquicos e o organismo.

A psicossomática médica é o receptáculo dos restos incompreendidos da medicina. Segundo os manuais de diagnóstico psiquiátrico, tem um “componente psicossomático” a doença que não comporta uma explicação científica reconhecida. Podem ter uma “vertente” psíquica os sintomas não justificados por evidências orgânicas ou exames laboratoriais. O emaranhado celular, como sede causal das doenças, não está jamais excluído. Esse raciocínio pressupõe que, com o avanço da pesquisa, reduz-se a participação do psiquismo – como estrutura abstrata e destacada da anatomia – na gênese das doenças.

Assim, configura-se o equívoco que apaga a distinção entre causa e mecanismo. Pois para o médico, um aumento da frequência cardíaca é causado pela produção de adrenalina. Esta, na verdade, não passa do mecanismo que leva à taquicardia. A verdadeira causa estará na esfera psíquica: um drama existencial, uma dificuldade, uma situação de medo. Portanto, o uso de medicações no tratamento de sintomas ou quadros clínicos diagnosticados pelo psiquiatra se restringe a uma intervenção, no mais das vetes prediria, nos mecanismos bioquímicos. Se interferimos nos processos celulares, nosso tratamento se limita a um controle do quadro clínico. As causas, e portanto, a cura, ficam num segundo plano.

A psicologia insere-se no mesmo terreno epistemológico que a medicina. Ambas são herdeiras da cisão entre corpo e mente estabelecida por Descartes. Mas, a verdadeira divisão está entre corpo e organismo. O primeiro, entendido como conjunto de representações, unidade constituída por uma associação entre símbolos e imagens construída na primeira infância e imutável ao longo da vida. O segundo refere-se ao objeto da anatomia, à conectude dos órgãos, à intimidade descrita pela medicina.

As ciências da natureza desvendam o como, mas desejamos saber o porquê. A medicina criará sempre novos recursos para neutralizar ou reverter os distúrbios do organismo. Mas para o sujeito que sofre restará sempre a busca dos significados, dos sentidos que escapam, de uma outra cura.

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PSICOSSOMATICA TEM 50 ANOS NO BRASIL

Há pelo menos meio século, médicos e profissionais da saúde em geral trabalham com a psicossomática no país. Os estudos começaram em São Paulo e depois ganharam alcance nacional. Em setembro, a ABMP (Associação Brasileira de Medicina Psicossomática) comemorou 40 anos de fundação, com 20 regionais estaduais que oferecem cursos de formação em todo o país.

Na psicossomática, é famosa a expressão que diz que o profissional de saúde “não olha só o exame, mas o paciente nem olha a doença, mas o doente”. Mas os profissionais fazem questão de ressaltar a psicossomática não é uma disciplina das faculdades de medicina, muito menos uma especialidade médica, como a pediatria., a oftalmologia ou a cardiologia.

“Não é, nunca foi e jamais será”, afirma o médico, professor de psiquiatria e conselheiro do CFM (Conselho Federal de Medicina) Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior.  A frase de efeito, aparentemente dura, é uma defesa da psicossomática. “Deve estar presente em todas as especialidades, porque é uma forma de vero paciente e a saúde com enfoques holísticos que não separam a mente do corpo”‘, explica.

O professor compara a psicossomática à ética. “Independentemente da especialidade, o médico deve “ser ético”, diz ele. “Superamos o dualismo cartesiano, que separava corpo e mente. Penso que a tendência da medicina é ser psicossomática e social.”‘

Para Maria Rosa Spinelli, presidente da ABMP-SP (Regional do Estado de São Paulo da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática), é crucial que a psicossomática não seja enquadrada. “Não é possível falar de uma especialidade em psicossomática. É uma abordagem que todo profissional da saúde deve ter”, diz Spinelli, que é psicóloga. “O que temos são cursos de formação para profissionais interessados. Eles são especialistas em suas áreas e aprofundam uma abordagem global dos pacientes.”

Segundo a presidente e o conselheiro, a abordagem psicossomática, e as principais faculdades de medicina do país oferecem em seus currículos tópicos específicos.  A psiquiatria é a especialidade psicossomática por excelência, mas a ginecologia e obstetrícia, a oncologia, a neurologia e a gastroenterologia também têm avançado nessa abordagem.

Entre os filiados à associação de psicossomática, entre professores e alunos dos cursos de formação, há médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, farmacêuticos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, professores de educação física; bioquímicos e até físicos, assistentes sociais e administradores.

De acordo com Spineli, mais da metade dos associados têm mestrado ou doutorado em suas áreas de atuação, e a medicina psicossomática obedece aos padrões científicos de pesquisa e de procedimento definidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo CFM.

A própria OMS, segundo a psicóloga, tem um entendimento bastante psicossomático para saúde. A antiga definição de “ausência de doenças” foi substituída pelo conceito que, em linhas gerais, pode ser traduzido como o equilíbrio físico, mental, espiritual e social.

OUTROS OLHARES

VOCÊ JÁ É O SEU ROSTO

Com o avanço da tecnologia de reconhecimento facial, as pessoas estão fazendo cada vez mais coisas mostrando apenas a face – como comprar, viajar e até mesmo votar.

Você já é o seu rosto

Em 1993, um cartoon do ilustrador Peter Steiner, publicado na revista New Yorker, ficou famoso ao retratar com precisão o ambiente de anonimato possibilitado pela internet. Na ilustração. Um cachorro sentado diante de um computador diz a outro cão, “Na internet ninguém sabe que você é um cachorro”. A frase se tornou emblemática das relações nos primeiros anos da vida digital. Vinte cinco anos depois, ainda é difícil saber com segurança quando alguém é realmente quem diz ser online. Mesmo assim, a cada ano, a frase do personagem de Steiner perde o sentido, graças ao avanço de tecnologias que passaram a fazer parte de nosso cotidiano sem muito alarde. Hoje, nossos celulares já sabem quem somos, reconhecendo rostos e impressões digitais. Agora é possível fazer pagamentos com uma selfie – até aeroportos já identificam passageiros em embarques internacionais apenas pelo rosto.

O mercado de reconhecimento biométrico está em franca ascensão e deverá alcançar 30 bilhões de dólares em 2021, segundo estimativas da empresa de pesquisa ABJ Research.  Dados da consultoria de tecnologia Tractica apontam que só com reconhecimento facial as empresas esperam faturar 882 milhões de dólares em 2024. “Novas gerações de consumidores valorizam a funcionalidade das coisas. Se a biometria facial for fácil de usar e deixar a tecnologia mais amigável, tem tudo para ser adotada”, afirma Luiz Arruda, diretor da Mindset, braço de consultoria do grupo britânico WGSN, a maior ferramenta de tendências do mundo. Gigantes do mercado de tecnologia começam a trabalhar em aplicações de reconhecimento em seus aparelhos e softwares. A Microsoft oferece autenticação com fotos no sistema operacional Windows10. A Amazon aplica o reconhecimento de voz à assistente pessoal Alexa. Startups correm para apresentar inovação nesse mercado, como a russa NTechLab e as chinesas Megvil e SenseTime –  a startup de inteligência artificial mais valiosa do mundo, estimada em 3 bilhões de dólares. Desde o lançamento do celular iPhone, X da Apple, em setembro, com a tecnologia do Face ID, o reconhecimento de rostos está cada vez mais presente em nossa vida. E, consequentemente, a capacidade de as empresas identificarem quem somos.

Por aqui, startups começam a aplica esse recurso para solucionar problemas bem comuns. A Acesso, companhia especializada em armazenar dados de pessoa para reduzir a burocracia com documentos, está montando uma base cadastral privada de brasileiros. Líder desse mercado no país, a empresa oferece a Acessobio, ferramenta de identificação facial que fornece uma base de dados para que outras empresas possam checar a identificação de um cliente, com o objetivo de evitar fraudes e roubo de identidade. Mais de um terço da população economicamente ativa do Brasil já está no banco de dados da Acesso, que consegue cadastrar entre 1 milhão e 2milhões de pessoas por mês. A meta é que, nos próximos três anos, toda população economicamente ativa do país esteja na base de dados, com nome documentos e, claro, o rosto.

Entre os usos da biometria facial da Acesso estão a verificação de identidade para compras em sites de comércio eletrônico ou para uso de cartão de crédito e até mesmo a substituição de cartão nas compras em lojas físicas. Toda pessoa que solicita crédito ou compra num dos clientes parceiros da Acesso gera um novo cadastro na base biométrica, que alia à foto documentos como RG e CPF. Quando uma identidade precisa ser checada, uma foto da pessoa é enviada à Acesso, que fornece um score analisando a semelhança entre a foto tirada e seu registro. As imagens dos clientes não ficam em posse das empresas parceiras – é a própria Acesso que as mantém e é responsável pela segurança. O uso é autorizado pelo “dono do rosto” toda vez que uma nova empresa solicita acesso ao cadastro, seguindo normas como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), que entrou em vigor na Europa em maio.

A Acesso diz fornecer tecnologia para 70% do mercado de fintechs (startups de finanças), incluindo a companhia de cartões de crédito Nubank, além de varejistas como Riachuelo e Via Varejo e operadoras de telefonia. “Nossa inspiração é o sistema público de identificação digital da Estônia, onde tudo, até mesmo o voto, é feito pela internet com base numa identidade online segura”, diz Diego Martins, fundador da Acesso. “Nossa ambição é construir essa identidade digital do brasileiro para que empresas possam reduzir a burocracia, evitar fraudes e aumentar as vendas.” Segundo um levantamento da Acesso, fraudes e falsidade ideológica elevam o custo para o consumidor em serviços financeiros – parte do spread bancário (a diferença entre o custo com que os bancos captam recursos no mercado e os emprestam aos clientes) decorre dos custos, com fraudes por falsidade ideológica. Outro setor que pode se beneficiar da tecnologia de reconhecimento facial é o de serviços médicos, que enfrenta problemas para detectar casos de uso indevido de carteirinhas de plano de saúde.

Em alguns segmentos, o uso de tecnologias biométricas para resolver problemas de identificação se encontra em estágio avançado. Na área de meios de pagamento, a empresa de cartões de crédito Mastercard lançou em 2016, em parceria com bancos, uma solução biométrica que foi expandida durante o ano passado e já está no Brasil e em mais de 40 países. Segundo Renato Ottoni, diretor de segurança da Mastercard no Brasil, o processo rápido de verificação de identidade permite aumentar a conversão e a segurança das transações. “Os usuários preferem usar biometria porque é mais fácil do que usar senhas enviadas por SMS e porque agiliza o processo”, diz Ottoni. “Quanto mais complicado, menor a conversão de uma compra.” Na esteira do reconhecimento facial, outras empresas começam a investir em mecanismos de segurança para verificar se o rosto capturado é real. A startup canadense Ooblex criou um sistema que detecta em tempo real falsificações em vídeo. estivemos presentes numa demonstração feita pela empresa em Toronto: o sistema reconhecia o momento em que o rosto de uma pessoa era transformado automaticamente no alaranjado presidente americano Donald Trump. A criação dessa máscara digital foi feita com apenas 8 horas de programação. “Imagine o que hackers não poderiam fazer com mais tempo? Poderiam se passar por outra pessoa numa conversa por vídeo conferência, por exemplo, diz Steven Gans, presidente da Ooblex. A companhia vende o sistema para bancos canadenses, autenticando transações e também conversas remotas entre gerentes e clientes. A ideia é oferecer o serviço também para empresas de mídia, para assegurar a identidade de entrevistados e de transmissões ao vivo na TV. “Como estamos no começo do desenvolvimento da tecnologia de reconhecimento facial, é preciso ter meios de dissipar dúvidas e autenticar a veracidade das imagens”, afirma Gans.

Enquanto a Acesso utiliza uma tecnologia de reconhecimento de terceiros, aprimorando-a internamente para garantir prova de vida”(por exemplo, para evitar que o reconhecimento facial não seja burlado por uma fotografia), há startups trabalhando diretamente para desenvolver a tecnologia de reconhecimento por aqui. A Full Face, empresa acelerada pelo Cubo, espaço de fomento tecnológico do banco Itaú, consegue avaliar 1.024 pontos de uma face e criar uma espécie de “CPF facial” com 6.000 dígitos, armazenado em nuvem. Isso garante a criação de um banco de dados mais rápido e seguro, na medida em que não é possível fazer a engenharia reversa do dado, ou seja, não é possível recriar um rosto a partir do CPF atribuído a uma pessoa. “É muito difícil identificar pessoas no universo digital. Com nosso algoritmo, tentamos garantir mais segurança em controle de acesso e redução de fraudes financeiras, diz Danny Kabiljo, fundador da Full Face. Segundo ele, a tecnologia é capaz de distinguir irmãos gêmeos, algo que nem o iPhone X faz bem. A empresa espera faturar 3,5 milhões de reais em 2018.

Entre os clientes da Full Face está a companhia aérea Gol, que implantou a tecnologia em seu aplicativo para que passageiros possam realizar o check-in utilizando reconhecimento facial – a Gol é a primeira empresa de aviação a fazer isso no mundo. “Sempre nos perguntamos como acelerar o embarque dos passageiros. Encontramos na biometria facial uma solução para problemas como lembrar o código localizador ou achar aquele e-mail com as informações de check-in”, afirma Maurício Parise, diretor de marketing da Gol. Desde que a solução foi adotada, há um ano, mais de 1 milhão de check-ins foram realizados por reconhecimento facial.

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GESTÃO E CARREIRA

SEXISMO NA MENTORIA

Temendo fofocas, homens evitam ficar a sós com as colegas.

Sexismo na mentoria

A cultuada “mentoria” – receber conselhos e dicas profissionais de colegas mais experientes – pode abrir várias portas na carreira, já que nos ajuda a evoluir profissionalmente. Porém, enfrenta um obstáculo: o chamado “sexismo”. O alerta é de Kim Elsesser, psicóloga e professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles, autora de Sex and The Office (“Sexo e o escritório”), no qual aborda a dificuldade de mulheres arranjarem mentores masculinos, que as orientem e ajudem na carreira. Como geralmente as reuniões com mentores ocorrem fora do expediente, em locais informais, reunir um homem e uma mulher nessa circunstância pode gerar fofocas e mal-estar dentro da empresa e até entre seus familiares. E, já que as corporações ainda são lideradas em sua maioria por homens, as mulheres acabam prejudicadas na busca de uma mentoria, ficando em grande desvantagem.

No longo prazo, os homens acabam conhecendo muito melhor seus colegas masculinos (e as mulheres, suas colegas), demonstrando maior preferência por eles no momento de promoções. Curiosamente, apesar do suposto machismo, a pesquisa conduzida pela psicóloga constatou que homens se sentem mais desconfortáveis em se reunir a sós com mulheres, por medo de passar impressões erradas ou serem acusados de assédio sexual. Para superar esse problema, Kim Elsesser sugere que as empresas estabeleçam formalmente os programas de mentoria entre homens e mulheres, deixando explícitos quais são seus objetivos e reduzindo o risco de surgirem fofocas internas.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 1: 1-5

Alimento diário

A Divindade de Cristo

O evangelista aqui apresenta a grande verdade que ele deseja provai que Jesus Cristo é Deus, um com o Pai. Observe:

I – De quem ele fala- “o Verbo” (ou “a Palavra”) – hologos. Esta é uma expressão peculiar aos textos de João. Veja 1 João 1.1; 5.7; Apocalipse 19.13. Alguns pensam que em Atos 20.32; Hebreus 4.12 e Lucas 1.2 ·’a palavra” se refere a Cristo. A paráfrase em caldeu muito frequentemente chama o Messias de Memra a Palavra de Jeová, e fala de muitas coisas no Antigo Testamento, que seriam feitas pelo Senhor, como feitas por aquela Palavra do Senhor. Até mesmo os judeus vulgares aprendiam que a Palavra de Deus era como Deus. O evangelista, no final do seu discurso (v. 18), nos diz claramente por que chama a Cristo de “o Verbo” – porque Ele é o único Filho gerado, que está no seio do seu Pai, e que o declarou. O Verbo compõe-se de duas partes: logos endiathetos palavra concebida; e logos prophorikos palavra pronunciada. O logos ho eso e ho exo, ratio e oratio inteligência e expressão.

1. Existe a palavra concebida, isto é, pensada, que é o primeiro e único produto imediato e a impressão da alma (da qual todas as operações são realizadas pelo pensamento), e que está unida à alma. E assim, a segunda pessoa da Trindade é, adequadamente, chamada “o Verbo” (ou “a Palavra”), pois Ele é o primogênito do Pai, a eterna e essencial sabedoria que o Senhor possuía, assim como a alma gera pensamento, no princípio dos seus caminhos, Provérbios 8.22. Não há nada de que tenhamos mais certeza do que aquilo que pensamos, e ainda assim, nada que desconheçamos mais do que aquilo que pensamos. Quem pode explicar a geração do pensamento na alma? Certamente, então, as gerações e os nascimentos da mente eterna podem ser aceitos como sendo grandes mistérios da Divindade, cujo fundamento nós não podemos compreender, embora apreciemos sua profundeza.

2. Existe a palavra proferida, e esta é a fala, a principal e mais natural indicação da mente. E assim, Cristo é o Verbo, pois, por meio dele, Deus falou-nos nestes últimos dias (Hebreus 1.1), e nos instruiu para que o escutássemos, Mateus 17.5. Ele nos fez conhecida a mente de Deus, assim como a palavra ou o discurso de um homem dá a conhecer seus pensamentos até o ponto em que ele o desejar, e não além dele. Cristo é chama do “um santo que falava” (veja as observações sobre Daniel 8.13), aquele que falava de coisas ocultas e estranhas. Ele é a Palavra que fala da parte de Deus para nós, e que também fala a Deus a nosso favor. João Batista era a voz, mas Cristo era a Palavra. Sendo o Verbo, Ele é a Verdade, o Amém, a Testemunha fiel do pensamento de Deus.

 

II – O que João fala a respeito de Jesus é suficiente para provar, sem sombra de dúvida, que Ele é Deus. Ele declara:

1. Sua existência no princípio: “No princípio, era o Verbo”. Isto evidencia sua existência, não somente antes da sua encarnação, mas antes de todos os tempos. O princípio dos tempos, no qual todas as criaturas foram criadas e trazidas à existência, encontrou este Verbo eterno já existindo. O mundo passou a existir a partir de um instante inicial, na criação, mas o Verbo já existia. A eternidade é normalmente expressa como existindo “antes da fundação do mundo”. A eternidade de Deus é descrita assim (Salmos 90.2): “Antes que os montes nascessem”. Também em Provérbios 8.23. O Verbo existia antes que o mundo existisse. Aquele que existi a no princípio nunca teve início, e, portanto, era sempre achronos sem princípio de tempo, segundo Nono.

2. Sua coexistência com o Pai: “O Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Que, ao convidarmos alguém para vir a Cristo, esta pessoa não diga que a estamos afastando de Deus, pois Cristo está com Deus, e é Deus. Isto é repetido no v. 2: aquele em quem cremos, e que pregamos, estava no princípio com Deus, isto é, sempre esteve, desde a eternidade. No princípio, o mundo originou-se de Deus, pois foi criado por Ele, mas o Verbo estava com Deus, sempre com Ele. O Verbo estava com Deus:

(1) Em termos de essência e substância, pois o Verbo era Deus: uma pessoa ou substância distinta, pois estava com Deus, e, apesar disto, o mesmo em substância, pois era Deus, Hebreus 1.3.

(2) Em termos de complacência e felicidade. Havia uma glória e uma felicidade que Cristo tinha com Deus antes que o mundo existisse (cap. 17.5), o Filho infinitamente feliz desfrutando do seio do seu Pai, e, da mesma forma, das delícias do seu Pai, o Filho do seu amor, Provérbios 8.30.

(3) Em termos de conselho e desígnio. O mistério da redenção do homem por este Verbo encarnado esteve oculto em Deus antes de todos os mundos, Efésios 3.9. Aquele que se responsabilizou por nos levar até Deus (1 Pedro 3.18) estava, Ele mesmo, desde a eternidade, com Deus, o Pai. Assim, esta grande questão da reconciliação do homem com Deus foi decidida entre o Pai e o Filho desde a eternidade, e Eles estão de pleno acordo quanto a isto, Zacarias 6.13; Mateus 11.27. O Senhor Jesus estava ao lado de Deus, o Pai, como alguém que vive constantemente com Ele, tendo este serviço como seu objetivo maior, Provérbios 8.30. Ele estava com Deus, e por isto se diz que Ele saiu do Pai.

3. Sua interferência na criação do mundo, v. 3. Isto, aqui, está:

(1) Afirmado expressamente: “Todas as coisas foram feitas por Ele”. Ele estava com Deus, não somente de modo a estar familiarizado com os conselhos divinos, desde a eternidade, mas para estar ativo nas operações divinas, no princípio do tempo. “Então, eu estava com Ele”, Provérbios 8.30. Pela palavra do Senhor foram feitos os céus (Salmos 33.6), e Cristo era a Palavra, o Verbo. Por meio dele, não como um instrumento subordinado, mas como um agente coordenado, Deus fez o mundo (Hebreus 1.2), não como o trabalhador cria, com seu machado, mas como o corpo vê, com o olho.

(2) O contrário é negado: “Sem ele nada do que foi feito se fez”, desde o mais elevado anjo até o verme mais inferior. Deus, o Pai, não fez nada sem Ele na criação. Veja:

[1] Isto prova que Ele é Deus: “O que edificou todas as coisas é Deus”, Hebreus 3.4. O Deus de Israel frequentemente provava que era Deus com isto, como tendo criado todas as coisas (Isaias 40.12,28; 41.4; veja também Jeremias 10.11,12).

[2] Isto prova a excelência da religião cristã, o fato de que o autor e o fundador da religião é o mesmo que tinha sido o autor e fundador do mundo. Como deve ser, necessariamente, excelente esta constituição, que deriva sua instituição daquele que é a fonte de toda excelência’. Quando adoramos a Cristo, nós adoramos àquele a quem os patriarcas honraram como o Criador do mundo, e em quem todas as criaturas confiam.

[3] Isto mostra como Ele estava bem qualificado para a obra da nossa redenção e salvação. O socorro foi colocado sobre aquele que realmente é poderoso, pois foi colocado sobre aquele que fez todas as coisas, e o autor da nossa felicidade é o autor da nossa existência.

4. A vida e a luz estavam originalmente nele: “Nele, estava a vida”, v. 4. Isto prova ainda mais que Ele é Deus, e que está, de todas as maneiras, qualificado para sua missão, pois:

(1) Ele tem a vida em si. Ele não é somente o Deus verdadeiro, mas é o Deus vivo. Deus é vida. Ele jura por si mesmo, quando diz: “Assim como Eu vivo”.

(2) Todas as criaturas vivas têm sua vida nele. Não somente toda a matéria de sua criação foi feita por Ele, mas também toda a vida que está na criação é derivada dele, e sustentada por Ele. Foi a palavra de Deus que produziu as criaturas que se movimentam, que têm vida, Génesis 1.20; Atos 17.25. Ele é aquela Palavra pela qual o homem vive mais do que pelo pão, Mateus 4.4.

(3) As criaturas racionais têm sua luz oriunda dele. A vida que “era a luz dos homens” vem dele. A vida no homem é alguma coisa maior e mais nobre do que é em outras criaturas; é racional, e não meramente animal. Quando o homem se tornou alma vivente, sua vida era luz, suas capacidades distinguiam-no e o colocavam acima dos animais que perecem. “A alma [ou “espírito”, versão RA] do homem é a lâmpada do Senhor”, e é a Palavra eterna que acende esta lâmpada. A luz da razão, assim como a vida dos sentidos, deriva dele, e depende dele. Isto o prova adequado para empreender nossa salvação, pois a vida e a luz, a vida espiritual e eterna e a luz, são as duas grandes coisas de que o homem caído, que está tão subjugado pelo poder da morte e das trevas, precisa. De quem podemos esperar a luz da revelação divina, a não ser daquele que nos deu a luz da razão humana? E se, quando Deus nos deu a vida natural, esta vida estava no seu Filho, com que disposição nós devemos receber os registros do Evangelho, que mostram que Ele nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho!

5. Sua manifestação aos filhos dos homens. Alguém poderia objetar: “Se esta palavra eterna esteve, em geral, na criação do mundo, como é que Ele foi tão pouco observado e considerado?” A isto, Ele responde (v. 5): “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Observe:

(1) A revelação da Palavra eterna ao mundo caído, antes mesmo que Ele se manifestasse em carne: “A luz resplandece nas trevas”. A luz evidencia a si mesma, e se faz conhecida. Esta luz, de onde vem a luz dos homens, resplandeceu e resplandece.

[1] A Palavra eterna, sendo Deus, resplandece nas trevas da consciência natural. Embora os homens, pela queda, tenham se tornado trevas, ainda assim o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta. Veja Romanos 1.19,20. A luz da natureza é esta luz que resplandece nas trevas. Toda a humanidade tem um sentido inato de algo do poder do Verbo divino, tanto criando quanto ordenando. Se não fosse por isto, a terra seria um inferno, um lugar de escuridão completa. Bendito seja Deus, ainda não é assim.

[2] O Verbo eterno, como Mediador, resplandeceu nas trevas dos tipos e figuras do Antigo Testamento, e das profecias e promessas que haviam sobre o Messias, desde o princípio. Aquele que tinha ordenado que a luz deste mundo resplandecesse nas trevas foi, Ele mesmo, durante muito tempo, uma luz que resplandeceu nas trevas. Havia um véu sobre esta luz, 2 Coríntios 3.13.

(2) A incapacidade deste mundo degenerado para receber esta revelação: “As trevas não a compreenderam”. A maioria dos homens recebia a graça de Deus, nestas revelações, em vão.

[1] O mundo da humanidade não compreendia a luz natural que havia no seu entendimento, e tornou inútil sua imaginação a respeito do Deus eterno e do Verbo eterno, Romanos 1.21,28. As trevas do erro e do pecado superaram, e praticamente eclipsaram, esta luz. “Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso”, Jó 33.14.

[2] Os judeus, que tinham a luz do Antigo Testamento, também não compreenderam a Cristo nela. Assim como havia um véu sobre a face de Moisés, também aqui havia um véu sobre os corações das pessoas. Nas trevas dos tipos e sombras, brilhou a luz, mas eram tantas as trevas do seu entendimento, que eles não puderam vê-la. Por isto, era essencial que Cristo viesse, tanto para corrigir os erros do mundo gentio como para aprimorar as verdades da igreja judaica.