PSICOLOGIA ANALÍTICA

PREOCUPAÇÃO COM DINHEIRO PODE CAUSAR DOR FÍSICA

Estudo recente relaciona a economia instável à sintomas somáticos e à maior sensibilidade ao desconforto.

Preocupação com dinheiro pode causar dor física

Poucas coisas causam tanta ansiedade quanto não saber quando chega o próximo pagamento. Ou ter a convicção de que o montante a ser recebido não será suficiente para quitar todas as contas. Além das dificuldades práticas, a insegurança econômica traz consigo um amplo espectro de efeitos negativos, incluindo sentimentos de baixa autoestima e prejuízo do funcionamento cognitivo. Cientistas descobriram ainda que o estresse financeiro pode causar dor física. É o que mostra um artigo publicado este ano no periódico científico Psychological Science.

A pesquisadora Eileen Chou, doutora em ciências e professora de políticas públicas na Universidade da Virgínia, e seus colaboradores começaram o estudo pela análise de um conjunto de dados de 33.720 famílias americanas. Os cientistas constataram que aquelas com maiores níveis de desemprego eram mais propensas a comprar analgésicos isentos de prescrição. Utilizando comparação de dados e revendo experimentos já realizados nessa área, a equipe descobriu que o simples fato de pensar sobre insegurança financeira bastava para aumentar a sensação dolorosa. Por exemplo, as pessoas relatavam sentir quase o dobro de dor física após se lembrar de um período financeiramente instável em suas vidas, em comparação aos momentos em que rememoraram algum período de segurança econômica.

Em outro experimento, foi pedido a estudantes universitários que mantivessem as mãos num balde de gelo o máximo que pudessem, até que a sensação se tornasse dolorosa. Os voluntários mais ansiosos, que ouviam informações com o objetivo de despertar neles sentimentos de ansiedade em relação ao futuro profissional, removiam as mãos do balde de gelo mais rápido (mostrando menos tolerância à dor) do que aqueles que não eram. Os pesquisadores descobriram também que a insegurança econômica reduzia o senso de autocontrole das pessoas, o que, por sua vez, aumentava a sensação dolorosa.

Chou e seus colegas sugerem que, por causa dessa relação entre insegurança financeira e diminuição da tolerância à dor, a recessão pode ter sido um fator de promoção da epidemia da prescrição de analgésicos nos Estados Unidos. No Brasil, não há dados que mostrem a correlação recente entre venda de analgésicos e crise financeira. Mas a ideia é bastante plausível, principalmente se considerarmos que o estresse em geral é bastante conhecido como responsável pelo aumento das sensações de dor. Mais pesquisas são necessárias para separar a ansiedade financeira de outras fontes de pressão. “A hipótese de que o estresse financeiro causa dor tem lógica, embora seja útil ver outras evidências rigorosas num ambiente do mundo real”, diz a economista Heather Schofield, professora da Universidade da Pensilvânia, que não participou do estudo.

AFETO AJUDA A ALIVIAR OS INFORTÚNIOS FINANCEIROS

Além de contribuir para o aumento da sensibilidade à dor física, o estresse financeiro pode influir também nos estados emocionais, exacerbando a sensação de angústia. Estudos comprovaram que ganhar menos dinheiro intensifica a tristeza que normalmente resulta de situações difíceis que enfrentamos na vida, como divórcio, problemas de saúde e solidão. Mas as dificuldades financeiras não significam que a pessoa esteja fadada a sofrer. Um estudo americano de 2014 constatou que o apoio social pode ajudar a proteger tanto contra a dor psicológica quanto contra a física associada ao estresse financeiro. Nesse sentido, o afeto pode funcionar como fator de proteção.

Em relação à dor física, a eficácia do toque carinhoso para diminuir a intensidade do desconforto já havia sido comprovada há alguns anos, por cientistas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Levando em conta o fato já conhecido de que sinais elétricos percorrem fibras neurais especializadas para informar o cérebro de que nossa pele está sendo tocada, os pesquisadores usaram uma técnica conhecida como microneurografia. Eles “seguiram” esses impulsos no braço de voluntários e observaram que, quanto maior sua frequência – proporcional à intensidade do afago -, maior a sensação de prazer relatada pelos participantes. Essas fibras especializadas, uma vez estimuladas, são capazes de atenuar sinais dolorosos originados em outras partes do corpo, relataram os autores do artigo publicado na revista Nature Neuroscience.

OUTROS OLHARES

COMO NOSSOS AVÓS

Quem são e o que pensam os jovens adeptos do “namoro de corte”, em que o primeiro beijo é dado depois do casamento.

Como nossos avós

Aos 22 anos, a professora Samila Souza Rodrigues namora há dois e está de casamento marcado para janeiro de 2018. Subir ao altar com o noivo, Roney Reis de Andrade, 23anos, significará mais do que a celebração de uma nova vida. É quando vai acontecer o primeiro beijo do casal. Isso mesmo, primeiro beijo. Para além de movimentos como “Eu Escolhi Esperar”, em que casais decidem ter relações sexuais apenas depois de se casarem, e na contramão das reivindicações dos jovens por mais liberdade quando o assunto é sexo, há pessoas que decidem começar um relacionamento e namorar nos moldes de antigamente sem beijo, sem contato físico, sempre com alguém por perto. É o chamado “namoro de corte”. “Quem vê de fora pensa que é loucura, mas não, é uma decisão bem consciente. Claro que tenho desejo, mas quero fazer tudo dentro da aliança do casamento, no tempo certo'”, afirma Roney.

REDUÇÃO DE “DANOS”

A ideia de “namoro de corte” está totalmente atrelada à religião. Entre os casais que aderem à prática, pelo menos uma das duas pessoas faz parte de alguma igreja em que se discute sobre a importância de se relacionar mais intimamente só depois de firmado o compromisso do matrimônio. Pode parecer pouca gente, mas há um grande número de comunidades on-line dedicadas a tratar apenas desse assunto. Os defensores explicam o que é, discutem o que vale e o que não vale dentro da “corte” e trocam experiências. O consultor de marketing Rodrigo Santos Rodrigues de Andrade, 25 anos, é dono de um dos grupos nas redes sociais que tratam do assunto, ele próprio adepto dessa modalidade de namoro. “Antes de saber o que era, já tinha decidido que era o que eu queria. Como não tem contato físico, é livre de depravações”, diz Rodrigo. “Comecei a conversar com minha atual namorada em fevereiro sobre a possibilidade de nos relacionarmos. Tiramos um período para oração, para ter certeza se era o que queríamos e, em abril, oficializamos nossa ‘corte’.  Segundo os casais, não há garantia do sucesso do relacionamento, ainda que os riscos sejam menores. No site Eu Escolhi Esperar, que integra um movimento nacional, há depoimentos como o da advogada e cristã Kamila Carvalho Borges, “A corte também não é uma garantia que o romance dará certo, mas que se não acontecer da maneira esperada, os ‘danos’ serão menores, e em alguns casos, Inexistentes”, afirma ela, que é casada com o cantor e compositor Lincoln Borges, membro da Missão Cristo Vive, de Vitória (ES), “Não significa reprimir desejos. Apenas esperar o momento certo. Posso dizer isso pela minha vida e por tudo que tenho desfrutado que está sendo uma experiência preciosa”, afirma Roney.

 

INSPIRAÇÃO NA ESCRITURAS

A maioria dos jovens pratica o namoro de corte por motivação religiosa, citando os versículos bíblicos de I Tessalonicenses 4:3-4

“A vontade de Deus é que vocês sejam santificados: abstenham-se da imoralidade sexual”.

“Cada um saiba controlar o seu próprio corpo de maneira santa e honrosa”.

GESTÃO E CARREIRA

AS LIÇÕES DA DAMA DE OURO

O que a brilhante trajetória de Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos, nos ensina sobre superação e sucesso na vida pessoal, na carreira e na esfera empresarial.

Maria Bueno

O tênis me levou a lugares inimagináveis. Por exemplo, ao convívio com Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos e, por quatro vezes, em 1959, 1960, 1964 e 1966, também melhor do mundo. Com Maria Esther, que nos deixou no dia 8 de junho, aprendi lições que pareciam pertencer ao universo do esporte. Eram, na realidade, lições de vida, de carreira e de sucesso empresarial.

Quando Maria Esther e eu nos conhecemos, em meados dos anos 70, ela ainda jogava alguns torneios, mas estava encerrando a carreira. Eu tinha 16 anos e havia me tornado o melhor tenista do clube que representava. Lá, porém, não tinha mais espaço para crescer. Meu pai sabia da tradição da Sociedade Harmonia de Tênis, clube fundado há quase 90 anos em São Paulo por amantes do esporte pelo qual eu, adolescente, me apaixonei. Éramos de uma família de classe média baixa, muito longe do poder aquisitivo necessário para ter um título, mas de alguma maneira ele conseguiu que eu fosse admitido como sócio- atleta. Foi o melhor presente que recebi dele.

No Harmonia, dei de cara com os melhores tenistas do Brasil. E com Maria Esther. Diferentemente dela, eu não tinha um talento natural, mas ganhava no esforço. Naquele momento, o que tínhamos em comum era a paixão pelo tênis e uma imensa vontade de treinar. Vendo minha vontade de melhorar, ela decidiu treinar comigo. Começou assim nossa amizade de 43 anos, dentro e fora das quadras. Uma amizade que fortaleceu minha formação e ajudou a moldar minha visão do mundo empresarial. No fim do dia, alta performance é alta performance, seja na quadra, seja na empresa. Compartilho algumas das lições que aprendi com a Rainha porque acredito nas afinidades entre esses dois mundos — o dos negócios e o dos esportes de alto rendimento, no qual brilhou Maria Esther.

1. TALENTO SOZINHO NÃO LEVA NINGUÉM MUITO LONGE.

Maria Esther era uma tenista maravilhosamente talentosa, mas não se acomodava nesse status privilegiado: trabalhava duro para maximizar o dom que era só dela. Treinava todos os dias, muitas horas por dia, com chuva ou sol. Vejo muitos jovens executivos e esportistas cujo talento é desperdiçado porque não estão dispostos a pagar o preço de cultivá-lo. Maria Esther me ensinou que talento sem trabalho árduo não leva a lugar nenhum.

2. SOMOS RESPONSÁVEIS POR NOSSO APRENDIZADO.

Em sua obsessão por treinar, Maria Esther saiu de casa cedo, aos 14 anos, e mudou-se para a Europa somente com a passagem de ida. Sabia que, se ficasse no Brasil, não teria oportunidades. Foi sozinha, sem pai, sem mãe e sem staff — coisa que outras atletas de sua geração, de outras nacionalidades, já tinham. Certa vez, o técnico australiano Harry Hopman se ofereceu para treiná-la. Durou uma semana: Maria Esther entendeu rapidamente que lhe bastavam seu foco e sua genialidade. Enquanto todo mundo apregoa a necessidade de coaches, mentores e afins, ela me mostrou que não vale a pena entregar nossa educação e nossa carreira aos outros. Cabe a cada um assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.

3. “DESCULPABILITY” É PARA OS FRACOS.

Adoro a palavra “desculpability”, título do livro de um amigo, João Cordeiro. João escreve sobre nossa tendência a encontrar desculpas para justificar todas as nossas fraquezas. Maria Esther não conhecia a desculpability. Enquanto jogava tênis, passou por 22 cirurgias para corrigir lesões nos braços, ombros, ligamentos. Nunca pensou em desistir. Era o preço a ser pago, e ela pagava. Li em um site da Inglaterra que a tenista “ignorou o destino que lhe foi prescrito e assumiu o comando de sua carreira vitoriosa”.

4. A OBSESSÃO PELA VITÓRIA FAZ BEM.

Quando jogava nos Grand Slams, Maria Esther competia em três categorias: simples, duplas e duplas mistas. Chegou a jogar 120 games num único dia, com raquete de madeira, muito mais pesada do que as de hoje, e acertando uma bola que se movimentava mais lentamente. Não chegou a levar o título nas três num único torneio. “Uma vez, em Wimbledon, ganhei simples, ganhei dupla feminina, fui para a final de dupla mista, mas meu parceiro fez dupla falta no match point”, disse-me em certa ocasião. Quando perguntei a ela se preferiria ter jogado em uma só categoria, como os atletas de hoje, me respondeu: “Eu jogaria tudo de novo”. Em tempo: quando foi a melhor do mundo, os jogadores não recebiam os prêmios milionários de hoje. Depois de uma vitória em Wimbledon, o prêmio foi um voucher para comprar um traje esportivo na loja do torneio. Seu objetivo era a vitória, o troféu, entrar para a história.

5. SEMPRE É POSSÍVEL INOVAR.

Maria Esther foi uma jogadora inovadora em pelo menos dois aspectos. Primeiro, na tática. Enquanto todas as outras jogavam no fundo da quadra (e até hoje é assim: poucas vêm para a rede, preferindo mandar pauladas da linha de fundo), ela aprendeu a jogar na rede. Seus voleios ficaram famosos e inspiraram as jogadoras Billie Jean King e Martina Navratilova. Segundo, ao levar a moda para as quadras. Seus vestidos mais elegantes foram desenhados pelo estilista Ted Tinling, abrindo caminho para os trajes fashion de estrelas como Serena Williams e Maria Sharapova.

6. BOA COMUNICAÇÃO É COISA SÉRIA.

Com outros atletas, Maria Esther tinha uma comunicação fácil, fluida, baseada em frases curtas e ideias fortes. Quando me via meio estático em quadra, totalmente concentrado, ela dizia: “Happy feet, parceirinho (ela me chamava assim), happy feet!” “Pés felizes” era a senha para que eu me movimentasse mais, e a frase marcou minha trajetória como empresário, instigando-me a ficar atento, focado em situações de tensão. Da mesma forma, quando eu jogava uma sequência de bolas curtas, fáceis de rebater, ela me repreendia: “Bola chata, parceirinho!” — exigindo que eu a desafiasse com bolas longas, que a colocassem para trás. “Bola chata” ficou para mim como uma maneira eficaz de lidar com a concorrência.

7. VALORES NÃO SÃO NEGOCIÁVEIS.

Para Maria Esther, a lealdade à família e aos amigos vinha em primeiro lugar. Em 2012, quando seu irmão, Pedro Bueno, adoeceu com Alzheimer, ela era contratada pela Federação Internacional de Tênis para dar clínicas e palestras pelo mundo. Maria Esther cancelou tudo para acompanhar o tratamento dele e ficou a seu lado até o fim. Em 2014, quando se celebravam os 50 anos de sua vitória em Wimbledon e no US Open, propus a ela que lhe prestássemos uma homenagem em minha casa. Discreta, ela relutou, mas acabou cedendo à ideia, com uma condição: “Parceirinho, eu convido”. De fato, convidou oito amigos, todos homens, tenistas com quem dividia quadras havia décadas. Descartou minha sugestão de chamar imprensa e celebridades, fazendo valer seu conhecido “ego zero” — bem diferente de tantos executivos e empresários hoje.

A morte de Maria Esther foi uma perda pessoal. Convivi com ela, aprendi com ela, me emociono quando entro no Harmonia e penso que ela não virá. Como Peter Drucker, com quem também tive a honra de conviver, era uma pessoa iluminada. Como Drucker, poderia ter tido uma vida glamourosa, mas optou por uma rotina pacata, focada no trabalho duro e na busca pela vitória e pela excelência. Naquele jantar em 2014, combinamos que cada um dos amigos faria um pequeno relato de como Maria Esther tinha influenciado sua vida. Ela ouviu tudo, levemente surpresa, e ao final disse: “Nossa, eu não tinha ideia do que tinha feito por vocês. Para mim, eu estava apenas jogando tênis”.

 

JOSÉ SALIBI NETO – é consultor e coautor do livro Gestão do Amanhã (Editora Gente).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 1-16 – PARTE I

Alimento diário

A Cura no Tanque de Betesda

Essa cura milagrosa não é registrada por nenhum outro dos evangelistas, que se restringem principalmente aos milagres realizados na Galileia, mas João relata aqueles realizados em Jerusalém. Com relação a isso. observe:

I – A época em que essa cura foi realizada: foi em “uma festa dos judeus”, isto é, a da Páscoa, pois era a festa mais celebrada. Cristo, embora residindo na Galileia, subiu a Jerusalém para a festa, v 1.

1. Porque esta era uma ordenança de Deus, a qual. como um súdito, Ele cumpriria, pois fora imposta sob a lei. Embora, como Filho, Ele pudesse ter pleiteado uma isenção. Desse modo, o Senhor Jesus nos ensinaria a participar das reuniões religiosas, dos cultos ao Senhor, Hebreus 10.25. 2. Porque esta era uma oportunidade de fazer o bem, pois:

(1 ) Havia grande s multidões reunidas em Jerusalém naquele momento. Era um encontro geral, ao menos de t odos os pensadores sérios de todas as partes do país, além de prosélitos de outras nações. E a Sabedoria deve clamar nos lugares de grande afluência de pessoas, Provérbios 1.21.

(2) Seria de se esperar que elas estivessem em um bom estado de espírito, pois tinham vindo para juntas adorar a Deus e passar o tempo em práticas religiosas. Sendo assim, uma mente propensa à devoção, e isolando-se com vistas aos exercícios de piedade, permanece muito aberta às futuras descobertas da luz e amor divinos, e para ela Cristo será agradável.

II – O lugar onde essa cura foi realizada: no tanque de Betesda, que tinha em si uma milagrosa virtude de cura, e que aqui é detalhadamente descrita, vv. 2-4.

1. Onde ele estava situado: “Em Jerusalém … próximo à Porta das Ovelhas”. Poderia muito bem ser traduzido como o estábulo das ovelhas, onde o rebanho era mantido, ou a Porta do Gado, sobre a qual lemos em Neemias 3.1, através da qual os rebanhos eram trazidos, como o mercado das ovelhas, onde estas eram vendidas. Alguns acham que este se situava próximo ao Templo, e, se é assim, este foi um espetáculo melancólico, porém produtivo, para aqueles que subiram ao Templo para orar.

2. Como ele era chamado: era um “tanque” (um reservatório ou banho), “chamado em hebreu Betesda” casa de misericórdia. Porque nele aconteciam muitas das misericórdias de Deus para com os doentes e enfermos. Em um mundo de tanta miséria como este nosso, é bom que existam alguns Betesdas casas de misericórdia (remédios contra esses males), para que o cenário não seja totalmente de melancolia. O lugar era um abrigo para pobres, segundo o Dr. Hammond. O Dr. Lightfoot acredita que esse era o viveiro superior (Isaias 7.3), o viveiro velho, Isaías 22.11, que tinha sido usado para a lavagem de contaminações cerimoniais, cujos alpendres foram construídos a fim de que as pessoas se vestissem e se despissem dentro deles, e que mais tarde se tornara um local de curas.

3. Como ele foi adaptado: havia cinco alpendres, claustros, varandas ou calçadas cobertas, onde jaziam os doentes. Desse modo, a caridade dos homens cooperava com a misericórdia de Deus para o alívio dos enfermos. A natureza fornece os remédios, mas os homens devem fornecer os hospitais.

4. Como ele era frequentado por doentes e paralíticos (v. 3): “Nestes jazia grande multidão de enfermos”. Quantas são as angústias dos aflitos neste mundo! Como são repletos de queixas todos os lugares, e quantas multidões de pessoas estão incapacitadas! Pode nos fazer bem visitar os hospitais algumas vezes, para que possamos nos valer da oportunidade, a partir das adversidades dos outros, de agradecer a Deus pelo nosso bem-estar. O evangelista especifica três tipos de pessoas enfermas que jazem aqui: cegos, coxos e paralíticos ou de pouca força, em uma parte em particular, como o homem com a mão mirrada, ou completamente paralíticos. Esses são mencionados porque, sendo menos capazes de se locomoverem para dentro da água, permaneciam por mais tempo esperando nos alpendres. Aqueles que estavam enfermos ou acometidos dessas doenças corporais esforçavam-se para vir de longe e tinha paciência para esperar muito tempo por uma cura. Qualquer um de nós teria feito o mesmo, e assim nós devemos fazer. Mas, Oh! Se os homens fossem tão sábios com suas almas, e tão ansiosos para ter suas doenças espirituais cura das! Somos todos, por natureza, impotentes nas coisas espirituais, cegos, coxos e paralíticos, mas uma provisão eficaz é feita para nossa cura, se simplesmente seguirmos as ordens que recebemos do Senhor.

5. Que virtude tinha este tanque para curar essas pessoas incapazes (v. 4). “Um anjo descia”, e “agitava a água”, e “o primeiro que ali descia… sarava de qualquer enfermidade que tivesse”. Que essa estranha virtude no tanque era natural, ou, mais exatamente, artificial, e que era o efeito da lavagem dos sacrifícios que impregnava a água com alguma virtude curativa, mesmo para as pessoas cegas, e que o anjo era apenas um mensageiro, uma pessoa comum, enviada para revolver a água, é completamente infundado. No Templo, havia um recinto exclusivo para a lavagem dos sacrifícios. Os comentaristas concordam, geralmente, que a virtude que esse tanque tinha era sobrenatural. É verdade que nenhum dos autores judeus, que não são econômicos ao relatar as glórias de Jerusalém, faz qualquer menção a este tanque de cura, e talvez a razão do silêncio a seu respeito se deva ao fato de que as curas ali realizadas eram interpretadas como um presságio de que a chegada do Messias estava próxima. E, por essa razão, aqueles que negaram que Ele estava para chegar, habilmente ocultavam tal presságio de sua vinda. Portanto, isso é tudo o que temos a esse respeito. Observe:

(1) A preparação do remédio por um anjo, que descia ao tanque e agitava a água. Anjos são servos de Deus, e amigos da humanidade. E talvez sejam mais efetivos na eliminação de doenças (como os anjos maus em infligi-las) do que temos ciência. Rafael, o suposto nome de um anjo, significa medicina Dei remédio de Deus, ou, mais exatamente, médico. Veja a que funções inferiores os santos anjos se submetem para o bem dos homens. Se fizermos a vontade de Deus, como fazem os anjos, devemos considerar que somente o pecado está abaixo de nós. A agitação da água era o sinal dado da descida do anjo, como a marcha pelas copas das amoreiras fora para Davi, e então eles deviam se apressar. As águas do santuário são então curativas quando postas em movimento. Os ministros de­ vem despertar o dom que há em si mesmos. Quando eles são indiferentes e tediosos em seus ministérios, as águas se acalmam, e não são capazes de curar. O anjo descia, para agitar a água, não diariamente, talvez não frequentemente, mas em um certo tempo. Alguns acreditam que o anjo descia por ocasião das três festas solenes, para abrilhantar aquelas cerimônias. Ou, de vez em quando, como a Sabedoria Infinita considerava adequado. Deus é independente ao conceder seus favores.

(2) A ação do remédio: fosse quem fosse o primeiro que ali entrasse, era curado. Eis aqui:

[1] A milagrosa amplitude da virtude quanto às doenças curadas. Qualquer que fosse a doença, essa água a curava. Banhos naturais e artificiais são tão prejudiciais em alguns casos quanto proveitosos em outros, mas este era um remédio para todas as enfermidades, até mesmo para aquelas que eram incuráveis. O poder dos milagres tem sucesso onde o da natureza sucumbe.

[2] Uma milagrosa limitação da virtude quanto às pessoas curadas: aquele que entrasse primeiro tinha a recompensa, isto é, aquele ou aqueles que entrassem imediatamente eram curados, não aqueles que demoravam e entravam depois. Isso nos ensina a observar e a aproveitar nossas oportunidades, e a estarmos atentos, para que não deixemos escapar um momento que pode nunca mais voltar. O anjo agitava as águas, mas os doentes tinham que entrar por sua própria conta. Deus introduziu virtude nas Escrituras e nas ordenanças, pois Ele deseja nos curar, mas, se não fizermos o uso devido destas, não seremos curados, por nossa própria culpa.

E esta é toda descrição que temos desse milagre permanente. É indeterminado quando ele começou e quando cessou. Alguns presumem que ele começou quando Eliasibe, o sumo sacerdote, iniciou a construção do muro em volta de Jerusalém, e o santificou com uma oração, e que Deus afirmou sua aceitação ao conceder essa virtude ao tanque adjacente. Alguns pensam que ele começou naqueles dias, por ocasião do nascimento de Cristo. Enquanto outros entendem que este início ocorreu em seu batismo. O Dr. Lightfoot, ao encontrar em Josefo, Antiq., liv. 15, cap. 7, menção de um grande terremoto no sétimo ano de Herodes, trinta anos antes do nascimento de Cristo, supôs, visto que ali costumavam acontecer terremotos durante a descida dos anjos, que esta foi a ocasião em que o primeiro anjo desceu para agitar essa água. Alguns pensam que cessou com esse milagre, outros, com a morte de Cristo. Contudo, é certo que teve um significado piedoso. Em primeiro lugar, era um símbolo da boa vontade de Deus para com aquelas pessoas, e um indício de que, embora eles estivessem há muito sem profetas e milagres, ainda assim Deus não os havia rejeitado. Embora eles fossem agora pessoas oprimidas e desprezadas, e muitas estivessem prontas para dizer: “O que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram?”, Deus, através disso, os fez saber que Ele ainda tinha um benefício para a cidade das solenidades deles. Nós podemos, através disso, aproveitar a ocasião para reconhecer com gratidão o poder e a bondade de Deus nas águas minerais, que tanto contribuem para a saúde da humanidade, pois Deus fez as fontes das águas, Apocalipse 14.7. Em segundo lugar, era uma figura do Messias, que é a fonte acessível, e destinava-se a aumentar as expectativas das pessoas sobre aquele que é o Sol da Justiça, que surge com a cura sob suas asas. Essas águas haviam sido usadas antigamente para purificar agora para curar, para significar tanto a purificação quanto a virtude curativa do sangue de Cristo, aquele banho incomparável, que cura todas as nossas doenças. As águas de Siloé, que enchiam esse tanque, representavam o reino de Davi e de Cristo, o Filho de Davi (Isaias 8.6). De maneira adequada, então, eles têm agora essa virtude soberana introduzida em si mesmos. A lavagem da regeneração é para nós como o tanque de Betesda, curando nossas doenças espirituais, não em certas épocas, mas sempre. Quem quiser, venha.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ESTREITA RELAÇÃO ENTRE ORGASMO E CONSCIÊNCIA

Para psicólogo, o prazer sexual pode funcionar como um breve “descanso” para o cérebro, atenuando momentaneamente as preocupações, o julgamento e o autocontrole.

A estreita relação entre o orgasmo e a consciência

Apesar do grande interesse das pessoas por assuntos que envolvem a sexualidade, do ponto de vista neurológico o orgasmo foi por muito tempo um processo misterioso. Hoje, porém, já se sabe que faz parte do êxtase a redução do nível de consciência, alterações da percepção corporal e diminuição da sensação de dor, graças a técnicas de imageamento cerebral, que há pouco mais de uma década passaram a ser usadas para estudar mecanismos do prazer sexual. O curioso é que, no âmbito do cérebro, efeitos muito similares podem ser causados tanto por experiências religiosas quanto pelas puramente mundanas, como o orgasmo. Nos dois casos, podem ocorrer simultaneamente a experiências difíceis de ser descritas com palavras, como perda do sentido de identidade e dos limites corporais.

“Uma das descobertas recentes mais interessantes nessa área é que, embora o lobo frontal esquerdo esteja ligado ao prazer, essas manifestações são processadas em ambos os lados do cérebro”, observa a pesquisadora da Escola de Ciências Biológicas, Biomédicas e Molecular da Universidade New England, Gemma O’Brien, formada em neurofarmacologia e fisiologia. Em um dos estudos que se baseiam em técnicas de observação do cérebro em funcionamento, o hemisfério direito parece ser o mais ativo durante o sexo. Nos exames de neuroimagem, essa área se torna tão iluminada durante o orgasmo que em um estudo, quando a maior parte do cérebro permaneceu escura, o córtex pré-frontal direito parecia uma ilha brilhante. Embora cada vez mais se fale de integração entre os dois lados cerebrais, novas pesquisas sugerem que o direito é hiperativo em pessoas com comportamento sexual exagerado em razão de algum dano neurológico, em que aparecem sintomas específicos. Por exemplo, o paciente toca o próprio corpo e se masturba em público sem sentir vergonha e faz propostas de conteúdo sexual a qualquer um que lhe pareça remotamente atraente.

O mais surpreendente nisso é que o prazer não está classicamente associado ao hemisfério direito – e sim ao esquerdo, mais ativado quando recordamos situações agradáveis, experimentamos sentimentos amorosos e em momentos em que temos pensamentos de grandiosidade {como nos casos da mania). O hemisfério esquerdo é particularmente menos ativado em ocasiões de introspecção e infelicidade.

O doutor em psicologia Roy Baumeister, professor da Universidade Estadual da Flórida, que tem pesquisado os processos de autoconsciência, considera que o orgasmo – assim como os estados mentais proporcionados pela meditação profunda – ofereça uma espécie de breve alívio para a constante vigilância em que nos mantemos na maior parte do tempo, preocupados conosco, com as expectativas alheias e com nossas necessidades. Nesse sentido, o orgasmo funcionaria como um “freio” em áreas do cérebro responsáveis pelo julgamento, pela comparação, pelo planejamento e pela necessidade de autocontrole.

OUTROS OLHARES

DELÍRIOS DA PAIXÃO

Como reconhecer a paixão doentia quando a convicção delirante da relação amorosa parece tão real. O comportamento de fixação amorosa é perigoso e precisa de cuidados.

Delírios da paixão

O psiquiatra francês De Clèrambault descreveu o problema como uma síndrome de emoções doentias que passa pelos estágios de esperança, despeito e rancor. A fase de rancor seria a mais importante delas. Após sofrer diversos sinais de rejeição, a pessoa busca se vingar do objeto de seu amor, podendo transferir suas retaliações para terceiros.

Pessoas que alimentam esse tipo de fantasia são reservadas, socialmente inexpressivas; solitárias, muitas são privadas de contato sexual por anos, a maioria ocupa cargos subalternos, e, em muitos casos, são pouco atraentes. Esse perfil pode resultar numa personalidade hipersensível, em desconfiança acentuada ou assumida superioridade em relação aos outros.

Por outro lado, os objetos de amor delirante (na realidade ou em fantasia), são sempre superiores em inteligência, posição social, aparência física, autoridade ou uma combinação dessas qualidades. Quase sempre o amor doentio pode ser visto como um meio de proteger o sujeito que o sente contra um profundo e doloroso estado de solidão.

Embora atos físicos ou sexuais sejam incomuns, essas pessoas podem trazer grandes conturbações às suas vítimas. O inconveniente varia de chamadas telefônicas no meio da noite a declarações de amor em ambientes públicos. A pessoa pode desejar ter relações sexuais com o objeto de seu amor delirante. Os homens tendem mais à perseguição do que as mulheres.

Há casos em que o amor fantasioso se desenvolve a partir de um único e específico incidente – o que já é suficiente para que a pessoa se convença do amor que sente por seu objeto. Alimenta-se a crença de que ele iniciou o caso de amor a partir de olhares, mensagens cifradas, mensagens de jornal, de televisão ou até mesmo telepáticas.

A pessoa pode até rejeitar o objeto do seu amor, porém, o aceita e se apaixona por ele de maneira obsessiva. A despeito de vigorosas negações da outra pessoa, a fantasia de estar sendo amado persiste por anos, havendo necessidade de hospitalizações ou de ações legais que impeçam a perseguição da vítima pelo paciente.

O paciente crê no intenso amor que a outra pessoa tem por ele, ao mesmo tempo em que preserva certo senso de inocência ao considerar que o objeto de seu amor jamais será feliz sem a sua companhia.

Quem sofre com esse amor geralmente racionaliza a conduta da pessoa que elege: interpreta as rejeições que sofre como afirmações secretas de amor, testes de fidelidade ou tentativas de despistar outras pessoas de seu “romance”. Pensa m que são amados por um bom tempo, quando então renunciam a esse amor para reiniciar suas fantasias com outra pessoa.

Existe um potencial para comportamento violento e vingativo, com taxas de comportamento agressivo chegando a 57% em amostras de homens que foram diagnosticados com esse tipo de problema. A pesar de haver poucos estudos sobre o tema, alguns pesquisadores sugerem que a sua frequência não deva ser considerada tão baixa quanto se acredita.

As causas podem variar. Déficits no funcionamento da visão espacial ou lesões no sistema límbico,  particularmente nos lobos temporais, em combinação com experiências amorosas ambivalentes e de isolamento afetivo. poderiam contribuir com as interpretações delirantes. E a falta de flexibilidade cognitiva faria com que esses delírios persistissem.

O sistema límbico medeia a interpretação do ambiente ao acrescentar uma resposta afetiva aos estímulos externos. Assim, interpretações inadequadas do meio poderiam ser causadas por anormalidades límbicas. O conteúdo específico do delírio, entretanto, seria determinado pela cultura e pelas experiências pessoais de cada paciente.

O desenvolvimento dos delírios pode originar-se de percepção ou interpretação anormais do meio, mas a manutenção de uma crença delirante, em face de informações distorcidas, tem sido atribuída a um funcionamento deficiente do sistema frontal. O lobo pré-frontal desempenha um importante papel nos testes de realidade.

Um fator que pode contribuir para a manutenção dos delírios é a rigidez cognitiva, surgida de disfunção frontal sub- cortical, a que pode resultar numa dificuldade em alterar determinado sistema de crenças. Disfunções nessas mesmas áreas têm sido associadas a outros tipos de delírios.  Também ficou constatado que pessoas que sofriam com esse problema tinham um comprometimento maior do hemisfério cerebral direito.

A integridade dessas funções é crítica para o reconhecimento das interpretações delirantes, que ocorrem, com maior probabilidade, em pacientes privados de relacionamentos íntimos, porém, altamente motivados a tais experiências. Esse desejo por relacionamento pode ser contrabalançado por temores de rejeição e de intimidade.

O amor patológico é perigoso e necessita de tratamento psicológico e muitas vezes medicamentoso. Fique alerta.

 

ROBERTA MEDEIROS – é jornalista científica.

E-mail robertaneurociencias@gmail.com

GESTÃO E CARREIRA

TRANSFORMAÇÃO PARA O ANO TODO

O fenômeno do “como seria se…” não é exclusivo nas promessas habituais que representam um novo ciclo, mas permanece firme por toda a vida.

Transformação para o ano todo

Quem não inicia um ano com a cabeça cheia de reflexões sobre o ano que fica para trás e ansioso sobre o que está por vir? É uma mistura de sensações positivas e negativas que varia de indivíduo para indivíduo, mas normalmente inclui alívio, satisfação, alegria, esperança, medo, ansiedade, frustração, entre muitas outras. Por isso, independentemente do estado atual, nos primeiros meses do ano é preciso diminuir e reorganizar a mente para vivenciar tudo de maravilhoso que a vida pode oferecer.

É comum nesse período desenharmos planos e projetos para os próximos meses, agregando diversas promessas e já sonhando com os resultados. Conseguimos até visualizar como será quando aquele objetivo for alcançado, sentir a felicidade de quando finalmente cumprirmos com tais promessas e até ouvir todas as palavras de incentivo e conforto como se fossem trilha sonora de nossas vidas. Mas qual o verdadeiro saldo dos resultados dessas promessas depois dos primeiros meses do ano?

Todos os sonhos tomam conta dos nossos pensamentos, mas muitas vezes ficamos presos no “como seria se…” e deixamos todos os objetivos guardados em uma gaveta esperando o momento certo de serem realizados. Desse modo, não vivemos a vida em plenitude, já que permitimos que as desculpas e os medos falem mais alto, limitando-nos a achar alternativas para transformar em realidade tudo aquilo que desejamos.

Quantas pessoas brilhantes, corajosas, determinadas e comprometidas vivem dessa forma? Elas simplesmente deixam de lado os seus próprios objetivos devido às interferências que surgem no meio do caminho e nem tentam ir além por medo de errar, de não serem aceitas ou de simplesmente não dar certo.

A sensação é de que há um grande abismo entre onde se está e o lugar que se quer chegar. Parece que sempre há mais problemas do que soluções e que surgirão mais obstáculos do que caminhos livres. Daí, então, deixamos o medo e outras sensações limitantes tomarem as rédeas da nossa vida, fazendo-nos acreditar que essa é uma opção mais segura, calma e tranquila de viver. É assim que deixamos para trás nossas ideias, objetivos, sonhos de criança e essência, tudo para viver com medo do nosso futuro, mas não nos damos conta de que esse mesmo futuro que tememos já está sendo criado, porém, por outras mãos: as mãos do medo.

Para alcançar as metas, sejam pessoais ou profissionais, e deixar de lado tudo aquilo que nos aborrece e não nos serve mais, precisamos desmascarar as falsas seguranças que os hábitos nos propiciam, e sobre as quais constantemente construímos a vida. Para realizar uma mudança, precisamos morrer metaforicamente para o que já não faz sentido no momento. É como a metamorfose da lagarta. Para se transformar em borboleta, ela desaparece e “morre” para aquela identidade que não terá mais propósito dali em diante.

Antes de promover uma transformação, é necessário fazer uma verdadeira autoavaliação, considerando alguns aspectos que vão guiar as nossas ações e decisões durante o ano.

Estar consciente de onde se encontra no momento e para onde se deseja ir é uma delas. Autoavaliação e identificação das próprias competências, qualidades, experiências e potencialidades são importantes, assim como os pontos fracos a serem melhorados. É importante refletir ainda sobre as motivações e os valores mais importantes da sua vida. Analise a situação de partida e a possível evolução e desenhe detalhadamente como irá chegar ao estado desejado e o que precisa ser feito para isso. Ou seja, tenha claro quais serão as suas estratégias, o plano de ação, a execução e a forma de verificar se os resultados estão de acordo com cada etapa desenhada. Ter um prazo para a finalização do processo é importante para que o compromisso já assumido, e ele deve ser real, ou seja, possível de ser alcançado.

É fundamental, ainda, treinar a auto­disciplina, pois é dessa forma que evitamos que o medo nos domine e que comecemos a nos autossabotar. Treinar a flexibilidade é outro exercício essencial para que possamos compreender as mudanças no caminho e manter a resiliência necessária para alcançar aquilo que tanto desejamos.

Nada é mais desafiador do que viver de acordo com nossos sonhos, assim como nada é tão emocionante que criar objetivos no pensamento, antecipando-se ao futuro. Nessa busca pelo sucesso e do que o faz feliz, recorde-se sempre de que há momentos na vida em que nós também precisamos “morrer” para o velho e viver o que escolhemos. Somos capazes de decidir sobre pontos limitantes para transformar tudo o que o usamos sonhar em realidade.

Comece hoje mesmo! Não precisa esperar outro ano iniciar para colocar os planos e objetivos em prática. Afinal, a vida tem que ser vivida todos os dias e não apenas nos primeiros meses de um novo ano. Colher os melhores resultados sempre é uma tarefa constante e prazerosa.

E lembre-se: sonhos e metas nunca deixarão de existir, pois eles são combustível para a vida. Portanto, tenha em mente que a busca pela realização é constante e periódica, por isso não atrase nem deixe para trás aquilo que pode realizar hoje.

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua publicação mais recente. www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 43-54

Alimento diário

A Cura do Filho do Nobre

Nestes versículos, temos:

I – A ida de Cristo para a Galileia, v. 43. Embora Ele fosse bem-vindo entre os samaritanos tanto quanto seria em qualquer lugar, e fosse bem-sucedido, ainda assim, após dois dias, Ele os deixou, não tanto porque eles fossem samaritanos, e o Senhor não confirmaria os preconceitos daqueles que lhe disseram: “És samaritano” (cap. 8.48), mas porque Ele tinha que pregar a outras cidades, Lucas 4.43. Ele foi para a Galileia, pois lá Ele passaria a maior parte do seu tempo. E agora, veja aqui:

1. Para onde Cristo foi: para a Galileia, para a região da Galileia, mas não para Nazaré, que era, a rigor, sua própria província. Ele viajou entre as aldeias, mas recusou-se a ir a Nazaré, a cidade mais importante, por um motivo apresentado aqui, testificado pelo próprio Jesus, que conhecia o temperamento de seus compatriotas, os corações de todos os homens, e as experiências de todos os profetas, e que é este: “Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria”. Observe que:

(1) Os profetas de­ vem ser honrados, porque Deus colocou uma honra sobre eles, e nós somos beneficiados por eles.

(2) A honra devida aos profetas do Senhor lhes foi muitas vezes negada, e eles foram tratados com desprezo.

(3) Esta honra devida lhes é mais frequentemente negada em sua própria pátria. Veja Lucas 4.24; Mateus 13.57. Não que isso seja universalmente verdadeiro (toda regra tem suas exceções), mas é válido na maioria dos casos. Quando José começou a profetizar, foi muito odiado por seus irmãos; Davi foi desprezado por seu irmão (1 Samuel 17.28); Jeremias foi caluniado pelos homens de Anatote (Jeremias 11.21 ); Paulo, por seus conterrâneos judeus; e os parentes de Cristo falavam dele com muito desprezo, cap. 7.5. O orgulho e a inveja dos homens fazem com que eles rejeitem a orientação daqueles que já foram seus colegas de escola e companheiros de brincadeiras. O apetite por novidade, e por aquilo que é irreal e de alto preço, e parece lhes cair do céu, fazem os depreciar aquelas pessoas e coisas a que estão há muito tempo habituados e das quais conhecem a origem.

(4) É um grande desânimo para um ministro caminhar entre pessoas que não dão valor a ele ou às suas obras. Cristo não foi a Nazaré porque sabia o pouco respeito com que o tratariam ali.

(5) É justo que Deus negue seu Evangelho àqueles que desprezam seus ministros. Aqueles que ridicularizam os mensageiros de Deus, perdem o benefício da mensagem. Mateus 21.35,41.

2. A hospitalidade que Ele encontrou entre os galileus na região (v. 45): “Os galileus o receberam”, deram-lhe boas-vindas e com alegria ouviram sua doutrina. Cristo e seu Evangelho não foram enviados em vão. Se eles não são honrados por alguns, outros os honrarão. E havia um motivo para que esses galileus estivessem tão dispostos a receber a Cristo: “Porque viram todas as coisas que fizera em Jerusalém no dia da festa”, v. 45. Observe:

(1) Eles subiram à Jerusalém no dia da festa, a Festa da Páscoa judaica. Os galileus habitavam muito longe de Jerusalém, e seu caminho para lá passava pela região dos samaritanos, que era problemática para um judeu atravessar, pior do que o antigo vale do Baca. Mesmo assim, em obediência ao mandamento de Deus, eles subiram para a festa, e lá conheceram Cristo. Observe que aqueles que são diligentes e constantes quando se trata de participar de cultos públicos, a qual­ quer hora recebem mais benefícios espirituais do que esperam.

(2) Eles viram os milagres que Cristo havia realizado em Jerusalém, e isto tornava tanto o Senhor quanto sua doutrina muito atraentes para a fé e afeição deles. Os milagres foram realizados em benefício daqueles que viviam em Jerusalém. Toda via, os galileus que acidentalmente lá estavam beneficiaram-se mais dos milagres do que aqueles para quem eles foram especialmente planejados. Dessa maneira, a palavra pregada a uma mistura de gente talvez possa instruir ouvintes ocasionais mais do que ao público frequente.

3. A cidade para a qual Ele foi. Ele escolheu ir para Caná da Galileia, “onde da água fizera vinho” (v. 46). Ele foi para lá a fim de ver se havia alguns bons frutos remanescentes daquele milagre, e, se houvesse, para confirmar a fé do povo dali, e regar aquilo que Ele havia plantado. O evangelista menciona este milagre aqui para nos ensinar a manter na memória as obras de Cristo que presenciamos.

 

II – A cura do filho do régulo, que estava doente com uma febre. Esta história não é relatada por nenhum outro evangelista. Ela está inclusa na citação de Mateus 4.23.

Observe:

1. Quem eram o requerente e o paciente: o requerente era um nobre; o paciente era seu filho: “Havia ali um oficial do rei”. Regulus (assim é em latim), um pequeno rei. Assim chamado, ou pela grandeza de suas propriedades, ou pela extensão de seu poder, ou pelos direitos pertencentes à sua casa. Alguns entendem isso como indicando seu cargo honorífico – ele era um cortesão em algum escritório próximo ao rei. Outros, como denotando sua facção – ele era um herodiano, um monarquista, um homem com privilégios, alguém que apoiava os interesses dos Herodes, pai e filho. Talvez fosse “Cuza, procurador de Herodes” (Lucas 8.3), ou “Manaém, que fora criado com Herodes”, Atos 13.1. Havia santos na casa de César. O pai era um nobre, e, apesar disso, o filho estava doente, pois a nobreza e os títulos de honra não dão às pessoas e familiares segurança contra as investidas da doença e da morte. Cafarnaum, onde morava esse nobre, estava a quinze milhas de Caná, onde Cristo estava agora, mas este sofrimento em sua família o levou a ir tão longe, em busca do Senhor Jesus Cristo.

2. Como o requerente fez seu pedido ao médico. Ouvindo que “Jesus vinha da” Judéia para a Galileia, e considerando que Ele não vinha em direção a Cafarnaum, mas desviara-se em direção ao outro lado da região, ele mesmo “foi ter com ele e rogou-lhe que descesse e curas­ se o seu filho”, v. 47. Veja aqui:

(1) Quão compassivo era seu amor por seu filho: assim que ele ficou doente, ele não poupou esforços para ajudá-lo.

(2) Seu grande respeito por nosso Senhor Jesus, a ponto de ele mesmo ir buscá-lo, quando poderia ter enviado um servo, e de ter-lhe rogado, quando, como um homem de autoridade, pensariam alguns, ele poderia ter ordenado a presença dele. Os maiores homens, quando vão a Deus, devem se tornar como pedintes, e suplicar como indigentes. Quanto à missão que o trouxera, podemos observar uma mistura em sua fé.

[1] Havia sinceridade nela. Ele realmente acreditava que Cristo podia curar seu filho, embora sua doença fosse grave. É provável que houvesse médicos cuidando dele, e talvez o tivessem abandonado, mas ele acreditava que Cristo podia curá-lo, mesmo quando a situação parecia deplorável.

[2] Todavia, havia fragilidade em sua fé. Ele acreditava que Cristo podia curar seu filho, mas, como pode parecer, ele pensava que não podia curá-lo à distância, e por isso rogou que Ele descesse e o curasse, aguardando, como fez Naamã, que Ele fosse e colocasse sua mão sobre o paciente, como se não pudesse curá-lo senão por contato físico. Dessa maneira, nós nos inclinamos a limitar o Santo de Israel, e a restringi-lo aos nossos padrões. O centurião, um gentio, um soldado, fora tão forte em sua fé a ponto de dizer: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”, Mateus 8.8. Este nobre, um judeu, suplicou que Cristo descesse, embora, para tanto, fosse necessário um longo dia de viagem. Ele perderia a esperança de uma cura, a menos que o Senhor descesse. Talvez aquele homem, sem perceber, pensasse que tivesse que ensinar a Cristo como trabalhar. Somos incentivados a orar, mas não nos é permitido ordenar: “Senhor, cura-me por tua bondade, mas que o Senhor o faça com uma palavra ou com um toque. Seja feita, em tudo, tua vontade”.

3. A branda repreensão que ele recebeu (v. 48): Jesus lhe disse: “Eu vejo como é. ‘Se não virdes sinais e milagres, não crereis’, como fizeram os samaritanos, embora eles não vissem sinais ou milagres, e por essa razão Eu devo realizar milagres entre vós”. Embora ele fosse um nobre, e estivesse agora aflito por seu filho, e tivesse demonstrado grande respeito por Cristo ao vir de tão longe até Ele, ainda assim, Cristo o repreende. A distinção dos homens no mundo não os isentará das repreensões da palavra ou da providência, pois Cristo não “repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos; mas julgará com justiça”, Isaías 11.3,4. Observe que Cristo mostra os pecados e fraquezas daquele homem para prepará-lo para o perdão, e então concede-lhe o pedido. Aqueles a quem Cristo pretende honrar com sua generosidade, Ele primeiro humilha com seus olhares de repreensão. O Consolador deve primeiro convencer. Herodes esperava ver algum milagre (Lucas 23.8), e este cortesão tinha a mesma mentalidade, bem como o povo em geral. Agora, vejamos o que é censurado:

(1) Que, considerando que haviam escutado, através de relato confiável e incontestável, acerca dos milagres que Jesus havia realizado em outros lugares, eles não acreditariam, a menos que os vissem com seus próprios olhos, Lucas 4.23. Eles devem ser favorecidos, e devem ser bajulados, ou não serão convencidos. Sua região deve ser agraciada, e sua curiosidade, satisfeita, com sinais e milagres, ou então, embora a doutrina de Cristo esteja suficientemente provada pelos milagres realizados em outro lugar, eles não crerão. Como Tomé, eles não se renderão a qualquer método de convencimento que não seja o que eles determinarem.

(2) Que, considerando que eles tinham visto diversos milagres, cuja evidência não conseguiam negar, mas que provavam de maneira competente que Cristo era um mestre vindo de Deus, e que deveriam agora solicitar a Ele uma orientação sobre sua doutrina, a qual por sua superioridade natural os teria levado, suavemente, a acreditar em um aperfeiçoamento espiritual, ao invés disso, eles não se aprofundariam na fé, e seriam como aqueles que eram guiados por sinais e milagres. O poder espiritual da Palavra não os comovia, nem os atraía, mas somente o poder concreto dos milagres. Os milagres são, para os incrédulos, uma necessidade tão grande quanto a profecia o é para os fiéis, 1 Coríntios 14.22. Aqueles que prezam apenas os milagres, e desprezam a profecia, juntam-se aos infiéis.

4. Sua irritante persistência em sua petição (v. 49): “Senhor, desce, antes que meu filho morra”. Nesta réplica dele, temos:

(1) Algo que era louvável: ele aceitou a repreensão pacientemente; ele conversou respeitosamente com Cristo. Embora ele fosse um daqueles que se trajavam ricamente, ainda assim ele tolerou a repreensão. Não é privilégio da nobreza estar acima das repreensões da Palavra de Cristo. É, porém, um sinal de bom temperamento e caráter nos homens, especialmente nos homens importantes, quando eles conseguem ouvir a respeito de suas culpas e não se enfurecem. E, como ele não tomou a repreensão como uma afronta, da mesma forma não a considerou como uma recusa, mas persistiu ainda mais em seu pedido, e continuou se esforçando até que fosse bem-sucedido. Talvez ele tenha argumentado desta maneira: “Se Cristo cura minha alma, com certeza ele curará meu filho. Se Ele cura minha incredulidade, Ele curará a febre de meu filho”. Est e é o modo que Cristo adota, primeiro para operar em nós, e depois para operar por nós, e haverá esperança se observarmos o Senhor agindo desta forma.

(2) Algo que era censurável, e que era sua fraqueza, pois:

[1] Ele parece não levar em conta a repreensão que Cristo lhe faz, nada diz a respeito dela, seja como uma confissão ou desculpa, pois ele está tão tomado pela preocupação com seu filho, que não consegue prestar atenção em mais nada. Observe que a tristeza do mundo é uma grande predisposição contrária aos benefícios que recebemos pela Palavra de Cristo. A preocupação e o cuidado exasperado são espinhos que sufocam a boa semente. Veja Êxodo 6.9.

[2] Ele ainda descobriu a fraqueza de sua fé no poder de Cristo. Em primeiro lugar, Ele teve a necessidade de fazer Cristo descer pensando que, de outra maneira, o Senhor não poderia conceder qualquer benefício ao seu filho. E difícil nos convencermos de que a distância e o tempo não são obstáculos para o entendimento e o poder de nosso Senhor Jesus. Mas assim é, Ele vê muito longe, pois sua palavra, a palavra de seu poder, corre velozmente. Em segundo lugar, Ele acreditava que Cristo podia curar uma criança doente, mas não que Ele pudesse ressuscitar uma criança morta, e por isso pede: “Senhor, desce, antes que meu filho morra”, como se então fosse muito tarde, apesar de Cristo ter, sobre a morte, o mesmo poder que tem sobre as doenças do corpo. Ele se esqueceu de que Elias e Eliseu haviam ressuscitado crianças mortas, e o poder de Cristo é inferior ao deles? Observe a pressa que ele tem: “Desce, antes que meu filho morra”, como se houvesse perigo de Cristo se atrasar. Aquele que crê não se apressa, mas se dirige a Cristo, dizendo: “Senhor, aconteça aquilo que te agradar mais, quando te agradar mais, e como te agradar mais”.

5. A resposta tranquilizadora que Cristo deu, por fim, ao pedido deste oficial (v. 50): “Vai, o teu filho vive”. Cristo nos dá aqui um exemplo:

(1) Do seu poder. Ele mostra que não apenas podia curar com tanta facilidade, mas podia curar sem o transtorno de uma visita. Aqui nada é dito, nada é feito, nada é mandado fazer, e mesmo assim a cura é realizada: “Teu filho vive”. Os raios de cura do Sol da Justiça distribuem influências benignas de um extremo do céu ao outro, e nada se furta ao seu calor. Embora Cristo esteja agora no céu, e sua igreja na terra, Ele pode controlar tudo lá de cima. Este nobre desejava que Cristo descesse e curasse seu filho. Cristo curará seu filho, e não descerá. E, dessa forma, a cura é operada mais cedo, o engano do nobre é corrigido, e sua fé é confirmada, de modo que as coisas foram realizadas da melhor maneira possível, ou seja, da maneira de Cristo. Quando o Senhor nega o que pedimos, Ele dá o que nos é muito mais benéfico. Pedimos por conforto, Ele dá paciência. Observe que seu poder foi exercido através da sua palavra. Ao dizer: “Teu filho vive”, o Senhor mostrou que tem vida em si mesmo, e poder para ressuscitar a quem desejar. Quando Cristo diz: “Tua alma vive”, sua palavra faz com que a alma se torne realmente viva.

(2) De sua misericórdia. Ele notou que o nobre estava sofrendo por seu filho, e seu amor natural se manifestava na sentença: ”Antes que meu filho”, meu querido filho, morra. E então Cristo pôs fim à crítica, e assegurou a ele a recuperação de seu filho, pois Ele sabe como um pai se compadece de seus filhos.

6. A crença do nobre na palavra de Cristo: ele creu e foi-se. Embora Cristo não fizesse a vontade do nobre, a ponto de descer com ele, ele fica satisfeito com o método que Cristo adotou, e considera que conseguiu o que queria. Com que rapidez e facilidade aquilo que está faltando em nossa fé é aperfeiçoado pela palavra e poder de Cristo. Ele não vê nenhum sinal ou milagre, e mesmo assim acredita que o milagre foi realizado.

(1) Cristo disse: “Teu filho vive”, e o homem acreditou nele. Não apenas acreditou na onisciência de Cristo, de modo que ele tinha certeza de que seu filho havia sido curado, mas na onipotência de Cristo, e que a cura fora efetuada pela sua palavra. O pai havia deixado seu filho à beira da morte. Ainda assim, quando Cristo disse: “Ele vive”, como o pai de todos aqueles que creem, ele, “em esperança, creu contra a esperança”, e “não duvidou por incredulidade”.

(2) Cristo disse: “Vai”, e como uma evidência da sinceridade da sua fé, ele se foi sem mais perturbar a Cristo ou a si mesmo. Ele não pressionou a Cristo para que descesse, não disse: “Mesmo que ele se recupere, ainda assim uma visita será bem-vinda”, não, ele não mais parece ansioso, mas, como Ana, ele segue seu caminho, e seu semblante já não era triste. Como alguém completamente satisfeito, ele não teve pressa em ir para casa, não correu para casa naquela noite, mas retornou vagarosamente, como alguém que estava com seu espírito perfeitamente tranquilo.

7. A confirmação adicional de sua fé, ao trocar ideias com seus servos em seu retorno para casa.

(1) Seus servos encontraram-se com ele trazendo a boa notícia da recuperação do filho, v. 51. Eles, provavelmente, encontraram-no não muito longe de sua própria casa, e, sabendo quais eram as preocupações de seu senhor desejavam tranquilizá-lo o mais rápido possível. Os servos de Davi estavam relutantes em contar a ele que seu filho havia morrido. Cristo disse: “Teu filho vive”, e nesse momento, os servos dizem o mesmo. Boas notícias receberão aqueles que esperam na Palavra de Deus.

(2) Ele “perguntou-lhes… a que hora se achara melhor” (v. 52). Não como se duvidasse da influência da palavra de Cristo sobre a cura do filho, mas ele estava desejoso de ter sua fé confirmada, para que pudesse ser capaz de convencer a qualquer um a quem ele mencionasse o milagre, pois este era um detalhe essencial. Observe que:

[1] É útil nos abastecermos com todas as provas e evidências que possam existir, que corroboram para fortalecer nossa fé na palavra de Cristo, a fim de que ela possa desenvolver-se até atingir a completa certeza. “Mostra-me um sinal para bem”.

[2] A comparação diligente das obras de Cristo com sua palavra será de grande utilidade para confirmarmos nossa fé. Este foi o rumo tomado pelo nobre: ele perguntou aos servos a que hora aquele que estava enfermo começou a melhorar, e eles lhe disseram: “Ontem, às sete horas [alguns entendem que seria a sétima hora, e, portanto, à uma da tarde. Outros pensam que este evangelista se refere às sete horas da noite], a febre o deixou”. Ele não apenas começou a melhorar, mas ficou perfeitamente bem, de repente. Dessa maneira, “entendeu, pois, o pai que era aquela hora a mesma em que Jesus lhe disse: O teu filho vive”. Assim como a Palavra de Deus, bem estudada, nos ajudará a entender suas providências, também a providência de Deus, bem guardada, nos ajudará a entender sua Palavra, pois Deus está a cada dia cumprindo as Escrituras. Duas coisas ajudaram a confirmar a fé deste oficial. Em primeiro lugar, que a recuperação do filho foi imediata, e não gradual. Eles apontam uma hora com precisão: “Ontem”, não por volta, mas às sete horas, “a febre o deixou”. Ela não se reduziu ou começou a ceder, mas ela deixou o enfermo em um instante. A palavra de Cristo não opera como medicamento, que precisa de tempo para atuar e produzir efeito, e talvez cure somente pela espera. Não, com Cristo é: Ele fala e as coisas se realizam. Ele falou, e a cura começou a ser feita. Em segundo lugar, que foi exatamente na mesma hora em que Cristo lhe falou: “Era aquela hora a mesma”. Os sincronismos e as coincidências dos acontecimentos acrescentam muito à beleza e à harmonia da Providência. Perceba a hora, e o fato em si será mais extraordinário, pois cada coisa é bela em seu tempo. Observe a hora exata para a qual foi prometida a libertação de Israel (Êxodo 12.41); a hora exata em que se orou pela libertação de Pedro, Atos 12.12. Nas obras dos homens, a distância física é a razão do prolongamento do tempo e da demora no trabalho, mas não é dessa forma nas obras de Cristo. O perdão, e a paz, e o consolo, e a cura espiritual, que Ele afirma no céu, são, se Ele desejar, realizados e operados na mesma hora nas almas dos crentes, e, quando esses dois fatos forem comparados no grande dia, Cristo será glorificado nos seus santos, e admirado na vida de todos os que creem.

8. O efeito e consequência favoráveis deste fato. Levar a cura para a família trouxe a ela a salvação.

(1) O próprio nobre creu. Ele havia crido antes na palavra de Cristo, com respeito a esta situação em particular, mas agora ele cria em Cristo, como o Messias prometido, e se tornou um de seus discípulos. Deste modo, a experiência pessoal do poder e eficácia de uma palavra de Cristo pode ser um meio muito apropriado para apresentar e estabelecer a completa autoridade do controle de Cristo na alma. Cristo possui muitas maneiras de conquistar o coração, e através da concessão de uma graça temporal pode abrir o caminho para coisas melhores.

(2) “Toda a sua casa” creu da mesma forma.

[1] Por causa do benefício que todos obtiveram do milagre, que preservava o florescimento e as esperanças da família. Isso comoveu a todos, e tornou Cristo benquisto entre eles, e o recomendava aos seus melhores pensamentos.

[2] Por causa da influência que o pai da família tinha sobre todos eles. O pai de uma família não pode conceder a fé àqueles pelos quais é responsável, nem forçá-los a crer, mas pode ser fundamental para afastar predisposições externas que obstruam o efeito das evidências, e então mais da metade do trabalho estará feito. Abraão era famoso por isso (Genesis 18.19), e também Josué, Josué 24.15. Este era um nobre, e provavelmente tivesse “muita gente ao seu serviço”, mas quando ele vai à escola de Cristo, leva consigo todos eles. Que mudança abençoada houve nesta casa, ocasionada pela doença da criança! Isto deveria fazer com que nos resignássemos com as tribulações, pois nós não sabemos as boas coisas que podem resultar delas. É provável que a conversão deste nobre e da sua família em Cafarnaum possa ter favorecido a volta do Senhor Jesus Cristo, que, mais tarde, a estabeleceria como seu quartel-general na Galileia. Quando homens de posições elevadas aceitam o Evangelho, eles podem se tornar importantes instrumentos para levá-lo para os lugares onde vivem.

9. Aqui está o comentário do evangelista sobre esta cura (v. 54). ‘Jesus fez este segundo milagre”, referindo-se ao de João 2.11, onde a transformação de água em vinho é dita ser o primeiro, que foi logo após seu primeiro retorno da Judéia, e este, logo após o segundo. Na Judéia, Ele havia realizado muitos milagres, cap. 3.2; 4.45. Eles tiveram a primeira demonstração, mas sendo compelido a sair dali, Ele realizou milagres na Galileia. Em um ou outro lugar, Cristo será bem recebido. As pessoas podem, se desejarem, impedir a entrada do sol em suas próprias casas, mas não podem impedi-lo de adentrar o mundo. Este é apontado como o segundo milagre:

1. Para nos lembrar do primeiro, realizado no mesmo lugar alguns meses antes. Misericórdias recentes devem reavivar as lembranças de misericórdias anteriores, assim como misericórdias anteriores devem fortalecer nossas esperanças de futuras misericórdias. Cristo mantém o registro de seus favores, quer nós o mantenhamos ou não.

2. Para que saibamos que esta cura ocorreu antes das muitas curas que os outros evangelistas mencionam como tendo sido realizadas na Galileia, Mateus 4.23; Marcos 1.34; Lucas 4.40. Provavelmente, sendo o paciente o filho de uma pessoa de alto nível, a cura foi mais comentada e levou a Cristo multidões de pacientes. Quando este nobre recorreu a Cristo, multidões o seguiram. Que abundância de bem podem os homens importantes realizar, se forem homens bons!

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOPATIA, CONDUTOPATIA E OUTROS SINÔNIMOS

Independentemente da nomenclatura que se dê, são indivíduos, muitas vezes, bastante perigosos à sociedade, principalmente quando investidos de poder.

Psicopatia, condutopatia e outros sinônimos

Recordemos a lei pétrea: natura non facit saltus (a natureza não dá saltos). A noite se transforma em dia por meio da aurora, o fruto amadurece aos poucos, assim como entre a doença mental e a normalidade mental há a zona habitada por indivíduos que não são loucos nem normais.

Desde a mais remota Antiguidade esses seres despertaram a curiosidade das pessoas. Alguns eram tidos como bruxos, homens ruins, que faziam pacto com o diabo- lembrando que loucura era possessão demoníaca (mentecapto: mente captada pelo diabo; epiléptico: epi, acima, lepsis, abater; epilepsia, o diabo abate por cima).

Depois que se descobriu que loucura não era possessão demoníaca, esses semiloucos passaram a ser estudados em pormenor e receberam diferentes nomes. O primeiro que os descreveu foi Philippe Pinel, em 1801, cunhando a expressão mania sem delírio. Depois veio Henry Pritchard, em 1835, com a sua moral insanity (loucura moral). A seguir, surgiram outros nomes para caracterizar esses fronteiriços, com destaque para Júlio de Mattos, loucura lúcida, em 1888. E também registrem-se estoutros: anestesiados do senso moral (Gilbert Ballet), semiloucos (Trelat), desequilíbrios insaciáveis (Bonhomme), ainda no século XIX. Na virada para o século XX, aparece pela primeira vez na história a palavra personalidade psicopática, cunhada por Emil Kraepelin, em seu Tratado de Psiquiatria, 5ª edição. Mas o vocábulo somente tomaria grande impulso e divulgação a partir de 1923, com Kurt Schneider, no livro Personalidades Psicopáticas (os famosos psicopatas), perdurando praticamente até hoje. Porém, vieram vários outros sinônimos: sociopatas, antissociais, portadores de transtorno de personalidade, personalidades dissociais etc.

Para nós, em vez desses termos históricos e atuais, o mais adequado é condutopatia (1985), pois a patheia (moléstia, deformidade, infortúnio) está no comportamento, na conduta que se revela anormal.

Em outras palavras, como concebemos, condutopatas são indivíduos que não têm deficiência de inteligência, não alucinam, não deliram (como na loucura), mas apresentam conduta alterada por comprometimento da afetividade (que está voltada para si mesmos, lhes conferindo caráter egoísta), da intenção-volição (que faz com que seus atos sejam desequilibrados) e da crítica (a qual, inexistente, não lhes confere os freios morais e éticos necessários para coibir a ação). Condutopatas, psicopatas, sociopatas, portadores de transtorno de personalidade, fronteiriços, dê-se o nome que se queira dar, muitas vezes são bastante perigosos à sociedade, principalmente quando investidos de poder. Conhecem-se chefes de quadrilha, políticos, líderes que muito bem se encaixam nessa zona entre o normal e o patológico e são de extrema periculosidade.

E mesmo aqueles solitários, que agem sozinhos. apresentam grande temibilidade social. São como os morcegos: têm asas, voam e não são pássaros; têm pelos e não são animais pilíferos. Assustam os humanos e surpreendem quando dão rasante perto de suas cabeças.

 

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito  da Academia de Medicina de São Paulo.

OUTROS OLHARES

UM JEITO DE VIVER PARA ALÉM DAS COTAS

Carolina Ignarra fundou uma empresa que já ajudou 5.000 brasileiros com deficiência a encontrar emprego.

Um jeito de viver além das cotas

Em 2001, aos 22 anos, a paulistana Carolina Ignarra, então recém­ formada em educação física, sofreu um acidente que mudaria para sempre sua percepção de vida e de carreira. Ela trabalhava com ginástica laboral em empresas e, em paralelo, dava aula de natação. Certo dia, voltando de moto de uma festa, colidiu com um carro. Quatro dias depois, acordou em uma cama de hospital sem o movimento das pernas. Sua primeira reação foi de desespero. “Pensei que ficaria encostada para sempre recebendo algum auxílio do governo e fazendo tricô, que eu não poderia mais trabalhar”, diz Carolina. Ela conta que se surpreendeu quando, apenas três meses depois, a empresa em que atuava a chamou de volta ao trabalho, inicialmente para programar os exercícios laborais que seriam executados por outros professores. Em pouco tempo, ela já estava de volta aos escritórios, em cadeira de rodas, comandando diretamente as sessões de ginástica.

Sua carreira tomou outro rumo por causa da Lei de Cotas para Deficientes, que reserva vagas em empresas a portadores de necessidades especiais. Sancionada em 1991, a lei pegou mesmo treze anos depois, em 2004. Nessa época, Carolina, que sempre causava excelente impressão no contato com os funcionários de inúmeras empresas, começou a receber propostas de emprego, muitas vezes para funções totalmente dissociadas de seu perfil e de sua especialidade, com o objetivo de preenchimento da cota. “Eu ficava ofendida e não aceitava. Cheguei a formar uma ideia errada sobre a Lei de Cotas. Só sabia que eu não queria pegar um emprego por um critério que nada tinha a ver com a minha profissão”, diz Carolina.

Como as sondagens se tornaram mais frequentes, ela considerou a possibilidade de montar um treinamento que, em paralelo à ginástica, mostrasse como as empresas poderiam ter ambientes melhores para os funcionários com deficiência. Era uma “palestrinha” que virou uma palestra, depois workshop, e então se tornou um produto de consultoria empresarial contínua. Foi aí que Carolina descobriu o que era “vender picolé na praia”: “Entendi uma coisa que hoje para mim é simples. A Lei de Cotas obriga as empresas a contratar, mas não ensina a ninguém como fazer isso”. A bancária Juliana Ramalho, amiga de Carolina desde a adolescência, abraçou a ideia e fez o investimento inicial. Assim nasceu, em 2008, a Talento Incluir, empresa de recursos humanos que, nos últimos dez anos, já integrou 5.000 pessoas com deficiência ao mercado de trabalho no país. O último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou que 24% da população, ou cerca de 45 milhões de pessoas, tem algum grau de deficiência física. Para a inclusão nas cotas, o número cai de acordo com critérios específicos, uma vez que o benefício é reservado àqueles com índices mais elevados de impedimento. O desafio que Carolina tinha pela frente era fornecer a clientes cada vez maiores que chegavam – grandes bancos, telefônicas, entre outros – profissionais que as organizações valorizassem muito além do simples cumprimento de uma norma. “É a lei que muitas vezes faz a empresa se mexer e nos procurar. Nós entramos para inverter isso, dialogando sobre as vantagens de times mais diversos e sobre o poder de transformação na vida de pessoas com deficiência. A partir daí, cumprir a lei torna-se uma consequência”, explica Carolina.

A consultoria prestada pela Talento Incluir tem em tomo de vinte ações, prontas para ser executadas. O cerne, porém, consiste em identificar postos que possam ser adaptados a pessoas com deficiência e, depois, intermediar a relação entre candidatos e empregadores. O pioneirismo no setor acabou transformando Carolina em referência para outras pessoas que necessitam de uma cadeira de rodas para se locomover. Depois de superar o risco que a deficiência poderia representar para um dos seus grandes sonhos, o de ser mãe, ela escreveu, com Flávia Cintra e Tatiana Rolim, o livro Maria de Rodas Delícias e Desafios na Maternidade de Mulheres Cadeirantes (Scortecci Editora, 2012).

Carolina é casada com um ex-colega da academia de natação e tem uma filha, Clara, de 12 anos. Antes, publicou também Inclusão Conceitos, Histórias e Talentos das Pessoas com Deficiência (Editora Qualitymark, 2010), escrito a quatro mãos com Tabata Contri. O livro compartilha histórias de sucesso no mercado de trabalho e tenta difundir um modelo empresarial focado no desenvolvimento de competências para as pessoas com deficiência.

Carolina considera que está em uma cruzada contra o “paternalismo” que envolve a causa dos deficientes. São seus lemas apenas fazer uso dos benefícios especiais concedidos a uma pessoa com deficiência quando ela realmente precisar deles (“Por que alguém deve pegar um cartão de transporte gratuito se tem um emprego bem pago?”, questiona Carolina) e adotar uma atitude positiva perante a vida e a deficiência. “No momento em que um pai pede ao filho que não olhe nem comente ao ver um cadeirante, o que acontece? Prevalece a ideia de que não se pode falar sobre deficiência. Tratar a deficiência como um constrangimento retira a liberdade que o outro tem de conversar e entender. Se restrinjo o direito a conversar, fica difícil acreditar que conseguirei ser respeitada”, diz Carolina. Ela conclui: “As pessoas com deficiência devem ser protagonistas sempre. Meu trabalho me dá sentido para viver minha própria deficiência”.

GESTÃO E CARREIRA

CARTA FORA DO BARALHO

Uma equipe competente é essencial para que uma empresa alcance bons resultados. No entanto, é comum existir algum colaborador com baixa produtividade. Especialistas mostram como o líder pode identificar e corrigir esse contratempo.

Carta fora do baralho

Em algum momento da vida todos nós podemos ter períodos de baixa produtividade profissional seja por algum problema pessoal, por desalinhamento com a cultura organizacional da empresa, clareza quanto às expectativas, metas e atividades ou mesmo por baixa confiança nos líderes e/ou colegas de trabalho. Claro que na maioria das vezes trata-se de motivos situacionais, mas que levam as empresas a conviverem diariamente com os desafios da produtividade e da construção de ambientes saudáveis.

A diretora da Misina e Grecco –  consultoria e assessoria em recursos humanos e gestão empresarial-, Marta Misina, diz que, ao contrário do que se possa imaginar, há sim nos diversos níveis da organização a figura do profissional que pode ser definido, em seus mais diversos graus, como improdutivo.  “Em maior ou menor quantidade e nos mais variados segmentos, seja indústria, comércio, prestação de serviços, terceiro setor, etc., lá estão eles”.

Alguns desses colaboradores, contudo, podem estender e até extrapolar essa fase de improdutividade, gerando uma bola de neve que não só provoca um clima ruim na empresa, mas acaba prejudicando todo o seu desenvolvimento no mercado.

IDENTIFIQUE

Segundo a coach especialista em desenvolvimento humano, Adriana Schneider, quanto mais madura a gestão da organização, mais facilmente os colaboradores improdutivos serão identificados. “Quando existem processos de avaliação consistentes e indicadores de desempenho claros, o acompanhamento será processual. Além disso, cabe ao líder manter-se próximo a seus colaboradores, conhecer seus desafios, pontos de desenvolvimento e necessidades não atendidas para melhorar a sua performance, afirma.

Mas, geralmente, o primeiro sinal de que há um ou mais funcionários improdutivos na equipe está nos resultados, que chegam fora do prazo ou de maneira insatisfatória. “A partir daí, cabe ao gestor ficar mais atento e identificar em quem realmente está o problema”, diz o especialista em administração do tempo e produtividade e CEO da TriadPS – multinacional especializada em programas de consultoria na área de produtividade, colaboração e administração do tempo -, Christian Barbosa.

Via de regra os primeiros sintomas, ou indícios também são percebidos pelos colegas de trabalho próximos ao funcionário improdutivo. “E se for o caso de a organização possuir muitos níveis em sua estrutura, ou ainda, uma liderança ausente, levará ainda mais tempo para chegar à chefia do referido colaborador”, completa Marta Mesina.

Adriana Schneider pede, no entanto, para sempre lembrar: um funcionário não é improdutivo, ele está improdutivo. Várias questões criam um contexto que podem gerar apatia, excesso de criticidade, insegurança, covardia ou procrastinação. Uma pessoa que não expõe suas ideias, que não cumpre com suas metas, atrasa prazos, horários e entrega com qualidade abaixo do combinado está vivenciando uma fase de baixa produtividade.

CARACTERÍSTICAS

De acordo com Marta, os produtivos entregam mais, com qualidade e dentro do prazo. São aptos em fazer mais com menos. Oferecem-se para os desafios e via de regra chamam para si a responsabilidade do fazer mesmo quando não dominam a atividade. Gostam de aprender e, de preferência, fazendo de bom grado.

Caracterizam-se também pela curiosidade, criatividade e cooperação com os colegas. Já os não tão produtivos dificilmente se apresentam para fazer algo, principalmente se entenderem que “eu não ganho para fazer isso”. Têm dificuldade com o tempo designado para as tarefas e quase sempre acumulam uma expressiva quantidade de horas extras no mês. São pouco colaborativos com o grupo e podem ter um alto absenteísmo. Podem também sentir dificuldade na linha de comunicação com a chefia e com a equipe onde estão inseridos.

Porém, a principal questão é ter a pessoa certa no lugar certo, na opinião de Adriana Schneider. “Muitas vezes, um funcionário mal avaliado poderá apresentar mudança de comportamento visível mediante troca de atividade, transferência de área ou repactuação de metas, pois se reconectam ao propósito do seu fazer profissional”, afirma.

Profissionais que enxergam significado no que fazem e que se sentem emocionalmente conectados com a empresa e com seus colegas, na opinião da coach, são mais felizes, buscam maior autodesenvolvimento e, consequentemente, são mais produtivos. Sem contar que, aqueles que investem tempo e energia em desenvolvimento contínuo são mais confiantes para expor suas ideias e percepções. O oposto dessas características pode apontar para profissionais que estão em fase de baixa energia produtiva.

Christian Barbosa pondera que os funcionários improdutivos costumam inventar muitas desculpas e entregar pouco. Eles vivem se justificando, reclamando de obstáculos e postergando tarefas, enquanto os produtivos sempre dão um jeito de contornaras problemas e fazer as coisas acontecerem. “É importante salientar que a improdutividade nem sempre está relacionada à preguiça ou à indisposição. Muitos funcionários têm medo de errar e são obcecados por fazer tudo da melhor maneira possível, desenvolvendo um comportamento perfeccionista. Isso faz com que ele gaste mais tempo em uma tarefa e tenha sua produtividade prejudicada, reflete.

Outro indício de improdutividade é o excesso de horas extras. É claro que alguns funcionários são ordenados a cumprir um volume de tarefas muito grande e que multas vezes não cabe no expediente, mas em algumas situações eles não conseguem realizar suas atividades no horário por serem improdutivos; e precisam ficar na empresa por mais tempo. Se isso acontece com frequência, é importante que o gestor fique atento.

Existe uma linha tênue entre a falta de tempo e a improdutividade e identificar essa diferença nem sempre é fácil. “Recomendo que o gestor faça uma análise básica de quanto tempo levaria para realizar determinado trabalho, acrescente mais 30% ao tempo e avalie se o profissional está dentro dessa linha. Se não estiver, é hora de chama-lo para uma conversa, recomenda o especialista em administração de tempo.

MOTIVOS

As pessoas possuem crenças, valores e princípios que orientam suas vidas; quando alguns deles não estão sendo contemplados, a tendência é que reaja de uma maneira negativa.

No entanto, muitas podem ser as causas da improdutividade. Alguns funcionários já têm esse perfil e apresentam dificuldade de se organizar, não possuem senso de urgência e prioridade, têm o hábito de procrastinar (adiar tarefas) ou são lentos na execução. Outros, no entanto, tornam-se improdutivos com o passar do tempo. “O cansaço, por exemplo, é um dos fatores que geram improdutividade. Funcionários desmotivados com o trabalho também podem ter problema, pois o esgotamento nos torna improdutivos”. Ajuíza o CEO da TriadPS.

Alguns líderes ainda especulam se eles sempre foram assim ou se isso pode acontecer depois de um determinado tempo, até por comodismo na empresa. A diretora da Mesina e Grecco, diz que podem acontecer essas duas variáveis, dentro dos possíveis grupos de causa que levam à improdutividade.

Em sua opinião, é comum o funcionário entrar animado na empresa e por diversas questões, como expectativas não atendidas, ambiente que não condiz com seus valores e liderança centralizadora, ir aos poucos se desmotivando, chegando assim no patamar da improdutividade. “Há os casos em que a improdutividade também pode ser uma característica do indivíduo, independentemente    do que fizer ou aonde for, seu grau de improdutividade estará presente. É assim na empresa, em casa e em outros ambientes sociais dos quais participa”, opina.

Por isso, uma pessoa que tenha um histórico ruim de avaliações precisa de ajuda. Provavelmente está conduzindo sua carreira por medo da escassez ou para atender a demandas sociais. “Ele deve se questionar sobre seu real propósito e até mesmo fazer uma transição de carreira”, complementa Adriana.

CORRIJA O PROBLEMA

É preciso que a liderança conheça seu colaborador para estimulá-lo da maneira certa, provocando uma vontade de superação, aprendizado e participação ativa para o sucesso da empresa. Mas para reverter a situação de improdutividade é preciso muito feedback e vontade de reconstruir a relação. Ser claro sobre os fatos que aconteceram e sobre o que é esperado em termos de atitude, competência e desafios a serem superados.

Identificados os profissionais e as respectivas causas dessa baixa performance ou improdutividade, a reversão dessa situação é uma das mais importantes lições de casa para as lideranças e também para a área de recursos humanos. “Um dos primeiros passos, com metodologia própria é identificar as possíveis causas responsáveis pela improdutividade individual, ou ainda, a coletiva. Agrupadas as possíveis causas por sua natureza, urgência e importância, criam-se ações dentro de um cronograma físico-financeiro, que neutralizem e tragam solução para esse efeito indesejado. Esse diagnóstico, seguido de ações estruturadas, tem uma expressiva efetividade. Em alguns casos. a solução poderá ser a dispensa dos improdutivos que o são por opção”, mostra Marta.

Christian Barbosa acredita que é possível tornar qualquer pessoa mais produtiva. Para isso, basta identificar o problema e investir em técnicas que ajudem a estimular o desenvolvimento pessoal e profissional.

Para ele, ao identificar um funcionário improdutivo, o primeiro passo é chamá-lo para conversar e estimular a melhora. Por meio dessa conversa, o gestor conseguirá entender quais pontos estão atrapalhando o funcionário e, a partir daí, instruí-lo para que seu desempenho melhore. “Nesse momento, é importante transmitir confiança, delegar as tarefas e deixar bem claro o que se espera do funcionário a partir daquele ponto.

Quando o problema atingir mais de um funcionário, promover um treinamento ou curso de produtividade na empresa é uma alternativa interessante. “Isso mostrará aos colaboradores como é possível tornar todas as tarefas viáveis e, consequentemente, resultará em uma melhora na execução diária, ajuíza.

Muitos gestores se apressam em desligar o profissional assim que percebem seu comportamento improdutivo. Mas o especialista recomenda que, antes disso, haja uma, duas ou três conversas. Chama isso de regra tríade da admissão e da demissão: quando a pessoa tem muitos problemas, dê três feedbacks. Caso isso não resolva, aí, sim é hora de demitir. Essa é uma ação importante para não prejudicar os demais, pois, ao manter um funcionário quo não apresenta resultados eficientes, você favorece aquele que não é produtivo e desanima os bons profissionais.

BOM SABER!

Para facilitar o entendimento podemos nominar três grandes grupos de funcionários que podem encontrar-se temporariamente improdutivos ou não. São eles:

AQUELES QUE SÃO IMPRODUTIVOS DE FORMA DELIBERADA: Passam boa parte do tempo quase nada produzindo e encostados nos demais membros da equipe. Têm características próprias: reclamam de tudo e de todos. Tem um alto absenteísmo, não são proativos, pouco colaborativos, acham que sempre estão sendo passados para trás, que são explorados e ainda podem ser os famosos “puxa-sacos. Em sua grande maioria têm muito tempo de casa.

IMPRODUTIVOS SITUACIONAIS: São aqueles profissionais que estão em fase de adequação a uma nova posição, ou seja, em desenvolvimento, por estarem, temporariamente, aquém do que o cargo exige, mas que têm potencial para chegar lá. Com treinamento e mentoria, chegam lá.

IMPRODUTIVOS ESTRUTURAIS: Desmotivados por falta de oportunidade, reconhecimento, estarem à frente de posição subdimensionada, com liderança nova, sentem-se injustiçados. Uma revitalização, uma transferência de área, uma conversa sincera e madura ajudam essa transição.

 Fonte: MARTA MASINA, diretora da Mesina e Grecco.

Carta fora do baralho.2

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE III

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

 

IV – O bom impacto que esta visita que Cristo fez aos samaritanos lhes causou, e o fruto que agora era colhido entre eles, vv. 39-42. Veja a impressão causada neles:

1. Pelo testemunho da mulher a respeito de Cristo. Embora fosse um testemunho individual, e proferido por alguém que tinha uma reputação ruim, e que se limitou a isto: “Ele me disse tudo quanto tenho feito”, mesmo assim, ele causou uma boa influência sobre muitos. Seria de se pensar que, ao Jesus contar à mulher sobre os pecados ocultos dela, os samaritanos ficariam temerosos de virem a Ele, com receio de que Ele lhes falasse sobre os pecados que tinham cometido. Mas eles preferiram se arriscar a isso do que a não conhecerem alguém que tinham motivos para pensar que era um profeta. E eles foram levados a duas coisas:

(1) A acreditar na palavra de Cristo (v. 39): “Muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher”. Eles acreditaram tanto nele, que o tomaram por profeta, e desejavam conhecer o pensamento de Deus através dele. Isto é interpretado, de maneira favorável, como crer nele. E observe:

[1] Quem eram os que creram: “muitos dos samaritanos”, que não eram da casa de Israel. A fé deles era não apenas uma exacerbação da descrença dos judeus, de quem se esperava algo melhor, mas uma garantia da fé dos gentios, que receberiam com prazer aquilo que os judeus rejeitaram.

[2] O que os incentivou a crer: “pela palavra da mulher”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Deus, às vezes, se compraz em utilizar instrumentos muito vulneráveis e improváveis para dar início e levar adiante uma boa obra. Uma pequena camareira encaminhou um grande príncipe a Eliseu, 2 Reis 5.2. Em segundo lugar, que questão importante uma pequena fagulha desperta. Nosso Salvador, ao instruir uma pobre mulher, difundiu esclarecimento para toda uma cidade. Que os ministros não sejam negligentes em sua pregação, ou desanimados nela, pelo fato de seus ouvintes serem poucos e pobres, pois, ao fazer o bem a eles, o bem pode ser transmitido a uma maior quantidade de pessoas, e àqueles que são mais importantes. Se eles ensinarem cada um ao seu próximo, e a cada um de seus irmãos, um grande número poderá aprender uns com os outros. Filipe pregou o Evangelho para um único aristocrata em sua carruagem na estrada, e ele não apenas o aceitou, como o levou para sua região e o propagou ali. Em terceiro lugar, veja como é bom falar de Cristo e das coisas de Deus a partir de nossa própria experiência. Esta mulher podia falar pouco a respeito de Cristo, mas o que ela dizia, dizia com sentimento: “Disse-me tudo quanto tenho feito”. Aqueles que podem dizer o que Deus tem feito por suas almas, são mais propensos a fazer o bem, Salmos 66.16.

(2) Eles foram levados a convidá-lo para ficar entre eles (v. 40): “Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles”. Baseados no relato da mulher, eles creram que Ele fosse um profeta, e foram ter com Ele. E, quando o viram, e a miséria de sua aparência e a manifesta pobreza de seu aspecto externo, não diminuíram sua apreciação por Ele e as expectativas relativas a Ele, mas ainda o respeitavam como profeta. Observe que há esperança para aqueles que superam os preconceitos vulgares que os homens têm contra o verdadeiro valor das pessoas que estão em uma condição social inferior. Benditos são aqueles que não se escandalizam em Cristo à primeira vista. Eles estavam tão distantes de se escandalizarem nele, que rogaram para que Ele permanecesse com eles:

[1] Para que pudessem testificar sobre o respeito que tinham por Ele, e tratá-lo com o respeito e a gentileza que lhe eram devidos, por causa da sua retidão de caráter. Os profetas e ministros de Deus são bem-vindos para todos aqueles que abraçam o Evangelho com sinceridade, como Lídia, Atos 16.15.

[2] Para que pudessem receber ensinamentos dele. Aqueles que são instruídos a respeito de Deus mostram-se verdadeiramente desejosos de aprender mais e de conhecer melhor a Cristo. Muitos se juntariam a alguém que lhes contasse seu futuro, mas esses se juntaram a alguém que lhes contaria seus erros, lhes falaria de seus pecados e obrigações. O historiador parece colocar ênfase sobre o fato de eles serem samaritanos, como em Lucas 10.33; 17.16. Os samaritanos não tinham a mesma fama dos judeus quanto à religião. Mesmo assim, os judeus que viram os milagres de Cristo o afastaram de si mesmos, enquanto os samaritanos, que não viram seus milagres, nem compartilharam seus favores, quiseram ficar na presença do Senhor. A prova do sucesso do Evangelho nem sempre está de acordo com as probabilidades, e aquilo que se vivencia nem sempre está de acordo com o que se espera. Os samaritanos eram ensinados pela tradição de sua região a serem precavidos ao conversarem com os judeus. Havia samaritanos que se recusavam a permitir que Cristo atravessasse sua cidade (Lucas 9.53), porém estes rogaram que Jesus permanecesse com eles. Observe que muito será acrescentado à exaltação de nosso amor por Cristo e pela sua Palavra, se ela vencer os preconceitos da cultura e da tradição, lançando uma forte luz sobre as reprovações dos homens. E agora nos é dito que Cristo concordou com o pedido que estes samaritanos lhe fizeram.

Em primeiro lugar, Ele permaneceu ali. Embora fosse uma cidade de samaritanos, e quase adjacente ao templo deles, ainda assim, quando foi convidado, Jesus ficou ali. Embora Ele estivesse em viagem, e tivesse que ir mais longe, quando teve a oportunidade de fazer o bem, Ele ficou ali. Não é o simples atraso que favorecerá nosso julgamento. Apesar disso, Ele ficou ali por apenas dois dias, pois Ele tinha outros lugares para visitar e outras obras a realizar, e dos poucos dias da permanência de nosso Salvador sobre a terra, aqueles dois dias era o que cabia àquela cidade.

Em segundo lugar, somos informados sobre a impressão que foi causada neles pelas próprias palavras de Cristo, e pela sua conversa pessoal com eles (vv. 41,42). O que Ele disse e fez ali, não é relatado, se Ele curou seus doentes ou não. Mas é sugerido, pelos efeitos, que Ele disse e fez aquilo que os convenceu de que Ele era o Cristo. E as obras de um ministro são melhor descritas pelos seus bons frutos. Ouvir a respeito de Jesus causou um bom impacto, mas agora seus olhos o viam, e o efeito foi:

1. Que o número deles cresceu (v. 41): “Muitos mais creram nele”. Muitos que não foram persuadidos a irem até Ele fora da cidade, foram mesmo assim levados, quando Ele se aproximou deles, a crer nele. Observe que é um consolo ver um grande número de crentes, e, às vezes, o zelo e presteza de alguns pode ser um meio de incitar muitos, e encorajá-los a uma santa emulação, Romanos 11.14.

2. Que a fé deles aumentou. Aqueles que haviam sido influenciados pelo relato da mulher, agora viam motivo para dizer: ”Já não é pelo que disseste que nós cremos”, v. 42. Há três coisas nas quais a fé deles cresceu:

(1) Em sua essência, ou naquilo em que eles realmente acreditavam. A partir do testemunho da mulher, eles creram que Ele era um profeta, ou algum extraordinário mensageiro do céu, mas agora que haviam conversado com Ele, eles acreditam que Ele é o Cristo, o Ungido, exatamente aquele que foi prometido aos patriarcas e por eles espera­ do, e que, sendo o Cristo, Ele é o Salvador do mundo, pois a obra para a qual Ele fora consagrado era a de salvar seu povo dos pecados que praticavam. Eles creram que Ele era o Salvador, não apenas dos judeus, mas do mundo, em que eles tinham a esperança de que os incluísse, embora fossem samaritanos, pois fora prometido que Ele seria a “salvação até à extremidade da terra”, Isaías 49.6.

(2) Na certeza. A fé deles agora cresceu até chegar a uma certeza absoluta: “Sabemos que este é verdadeiramente o Cristo”. Não um pretenso Cristo, mas o autêntico. Não um salvador típico, como muitos sob o Antigo Testamento, mas o verdadeiro. É por tamanha certeza das verdades divinas como esta que devemos nos esforçar. Não devemos pensar apenas: ”Achamos que é provável e desejamos crer que Jesus possa ser o Cristo”, mas: “Sabemos que este é verdadeiramente o Cristo”.

(3) Com base nisto, que era uma espécie de sensação e experiência espiritual: ”Agora não é pelo que disseste que nós cremos, porque nós mesmos o temos ouvido”. Antes eles haviam crido por causa da afirmação da mulher, e esta fora uma boa atitude, fora um bom passo, mas agora eles encontram um fundamento adicional e mais firme para sua fé: ”Agora nós cremos, porque nós mesmos o temos ouvido, e temos ouvido verdades tão esplêndidas e divinas, acompanhadas de tamanha autoridade e manifestação, que estamos completamente convencidos e seguros de que este é o Cristo”. Isto é semelhante ao que a rainha de Sabá disse de Salomão (1 Reis 10.6,7): “Eis que me não disseram metade”. Os samaritanos que acreditaram por causa da afirmação da mulher ganhavam agora uma luz maior, pois a qualquer que tiver será dado. Aquele que sobre o pouco é fiel, sobre muito será colocado. Neste caso, nós podemos ver como a fé vem através do ouvir.

[1] A fé nasce através da escuta dos relatos dos homens. Estes samaritanos, em consideração ao que fora dito pela mulher, creram a ponto de vir e ver, de chegar e experimentar: Dessa maneira, os ensinamentos de pais e pregadores, e o testemunho da igreja e dos nossos vizinhos experientes, recomendam a doutrina de Cristo ao nosso conhecimento, e nos inclinam a considerá-la como altamente verossímil. Porém:

[2] Nossa fé atinge seu pleno desenvolvimento, intensidade e maturidade ao ouvirmos o testemunho do próprio Cristo. E isso vai mais adiante, e recomenda sua doutrina à nossa aceitação, e nos compele a crer nela como indubitavelmente certa. Nós somos induzidos a examinar as Escrituras pela afirmação daqueles que nos disseram que nelas encontraram a vida eterna. Porém, quando nós mesmos também a encontramos nelas, experimentamos o poder da Palavra, que é esclarecedor, convincente, regenerador, santificador e consolador. E então cremos, já não pelas afirmações de outras pessoas, mas porque nós mesmos examinamos as Escrituras Sagradas, e assim nossa fé se sustenta não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus, 1 Coríntios 2.5; 1 João 5.9,10.

Desta maneira, a semente do evangelho foi plantada em Samaria. Que efeito houve disto posteriormente, não se torna visível, mas encontramos que, quatro ou cinco anos depois, quando Filipe pregou o evangelho em Samaria, ele encontrou tantos vestígios abençoados desta boa obra agora realizada, que as “multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia”, Atos 8.5,6,8. Porém, como alguns foram flexíveis para o bem, assim foram outros para o mal, os quais Simão, o mago, encantou com suas magias mágicas, vv. 9,10.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A GRANDEZA DAS PEQUENAS COISAS

Capazes tanto de construir quanto de destruir, os detalhes nos oferecem sinais que revelam a realidade e a natureza das coisas.

A grandeza das pequenas coisas

Passeando pela internet, deparei-me com um post de uma amiga sobre um texto cuja chamada me foi inspiradora:

“O declínio do afeto começa no desprezo pelas pequenas coisas”, dizia. Pronto. Fui fisgada. O propósito da frase havia sido cumprido, de forma que cliquei no link e li o pequeno texto que falava da importância da atenção aos detalhes nos relacionamentos afetivos, do quanto negligenciamos um simples elogio e do quanto isso pode, ao longo dos anos, consolidar­ se num erro fatal. Pus-me a pensar sobre minhas experiências pessoais, meus dois casamentos, minhas bodas de prata que se aproximam e concluí que nada poderia ser mais verdadeiro. Mas tendo sido uma pessoa de Letras, às vezes cismo com palavras. E com expressões e frases e períodos completos. Dessa vez foram as “coisas pequenas”. Pincei a expressão do referido texto e pus-me a observá-la com olhos analíticos. O que seriam as “tais pequenas coisas”‘? O texto as descrevia como cuidados, detalhes cuja ausência promove a corrosão dos relacionamentos.

Pus-me a refletir que, às vezes, a corrosão pode se dar pela presença. A presença de pequenas coisas, de pequenos detalhes que ferem, que magoam e que, por serem pequenos, passam despercebidos, embora não sem deixar um rastro de erosão sob um solo aparentemente sadio. Quando se percebe, muitas vezes é tarde demais, o solo cede, desmorona e leva consigo o relacionamento de anos. Tudo culpa dos pequenos detalhes.

Quando decidimos compartilhar uma grande conquista, por exemplo, a reação do ouvinte costuma alçá-lo a uma das duas categorias: confiável ou não confiável. Mas não se trata do que é dito explicitamente. Aqui os pequenos detalhes costumam ser mais reveladores: o olhar invejoso, o timbre de voz, o sorriso verdadeiro. Detalhes que denunciam o quanto se trata de alguém que, genuinamente é capaz de torcer pelo nosso sucesso.

É também na atenção aos detalhes que se encontra a autenticidade das coisas, nesse mundo do politicamente correto, repetido exausta e enjoativamente nas redes sociais. A construção de um discurso socialmente desejável nunca foi tão simples, sobretudo considerando “verdades” cujas bases se encontram em mentiras várias vezes repelidas. Por meio de mãos habilidosas, personagens são construídos – e consumidos – por uma sociedade crédula que, desatenta aos detalhes, ignora as pequenas coisas que revelam o verdadeiro self por detrás das personas.

Mas os detalhes não mentem e revelam o que a simples retórica procura ocultar. Basta observá-los. É aí que se encontra a sabedoria dos detalhes. Ou melhor, das pessoas que vão além do óbvio, da imagem e que não se contentam com máscaras. Nesse sentido, o detalhe salva, protegendo-nos do logro da retórica.

Mas há também o detalhe do cuidado. De uma mesa bem-posta, de um pacote bem-feito, de um vasinho de violetas no centro da toalha xadrez. Há tanto sendo dito por detrás desses detalhes! Lamento a existência de uma legião de surdos que jamais o acessarão. Ou, pior do que isso, que enxerguem ostentação onde existe carinho, “frescura” onde há cuidado.

O detalhe demanda tempo, tanto para sua promoção quanto para sua simples contemplação. Talvez daí se justifique a legião de insensíveis a ele, criaturas miseráveis que veem a vida passar como um videoclipe, alheias ao fato de que, muitas vezes, é nos detalhes que se faz o belo. E que na beleza podemos atingir a transcendência, que é a grandeza de todas as coisas.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia peia USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pela VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

SOBRE A FELICIDADE E A “BARRIGA DE TANQUINHO”.

Não. Definitivamente, querer não é poder. Resta saber então o que fazer para conseguirmos atingir nossos objetivos.

Sobre a felicidade e a barriga de tanquinho

Pode perguntar. Pelo menos na cultura ocidental, onze em cada dez pessoas gostariam de ter barriga de tanquinho. Brincadeiras à parte, é bem verdade que, se pudéssemos determinar nossa aparência física de maneira tão simples quanto criamos hoje um avatar no videogame, a grande maioria de nós exibiria corpos esbeltos, musculatura definida e, sim, muito provavelmente uma bela barriga de tanquinho!

Se essa é uma preferência de boa parte das pobres criaturas submetidas, sim, aos padrões de beleza ocidentais, ditadura da magreza, culto ao corpo e blá- blá- blá, por que não nos deparamos com uma legião de beldades no metrô, nas ruas, no trabalho etc.? Resposta: Em primeiro lugar porque, ao contrário do que diz a sabedoria popular, querer NÃO é poder!

Quero tocar piano desde os 7 anos de idade e – adivinhe só – isso nunca fez com que eu fosse capaz de tocar uma nota sequer. “por que você não deseja de verdade!” – diriam as mentes simplistas.

Quero, sim! O desejo é meu e somente eu conheço a sua intensidade (embora meus alunos, amigos e familiares também devam ter passado a conhecê-la a partir da milésima vez que me ouviram suspirar dizendo: “Puxa, eu queria TANTO tocar piano!”).

Compreendamos então o que acontece. Meu desejo de tocar piano é grande, é intenso e verdadeiro. Só não é maior do que minha paixão pelo meu trabalho. Isso significa que embora deseje tocar piano, não estou determinada a dispor do meu tempo para aprendê-lo. Isso porque, considerando que o tempo é uma questão de prioridade, seria preciso que eu abrisse mão de coisas relativas ao meu trabalho (leituras, preparação de aulas, cursos, consultorias, escrever artigos etc.) para ceder espaço não apenas às aulas de música, mas ao necessário estudo que deve acompanhar qualquer pessoa que espera aprender a tocar um instrumento. É exatamente isso que acontece com relação à famigerada barriga de tanquinho. A maioria quer, mas definitivamente não está disposta a passar horas na academia em nome desse desejo.

Acho interessante, no entanto, que não é preciso ser especialista em fisiologia do exercício para saber que musculatura só se adquire puxando ferro. Os conhecimentos científicos sobre o tema tornaram-se tão populares que até mesmo os que querem “trapacear” tomando anabolizantes sabem que devem fazer a sua parte, literalmente suando a camisa. Para desenvolvimento da musculatura não existem atalhos. É treino e ponto. Anseio pelo dia em que as pessoas saibam que, em se tratando de felicidade, acontece o mesmo.

Quando em meus cursos peço aos alunos um conselho acerca do que deveria fazer para, finalmente, aprender a tocar piano, eles (estranhando a obviedade da pergunta) prontamente respondem: “Faça aulas de piano, ué!”.

Ainda que não se deem conta, em termos neurofisiológicos, eles estão me dizendo que eu devo, por meio do treino (aula), criar uma rede neural (que hoje eu não tenho) que me capacite a tocar piano.

Eles não entendem aonde pretendo chegar com o cansativo exemplo do piano até que lhes digo: Por que em relação à felicidade seria diferente? Se eu quero ser feliz devo treinar meu cérebro para isso. Sair por aí perguntando às pessoas o que devo fazer para aprender a tocar piano é tão patético quanto dizer: “Como eu faço para ser mais otimista?” “Mais grato?” “Aprender a perdoar/”e é claro: “Como eu faço para ser feliz?”.

A resposta a todas essas perguntas é uma só: treino.

É por isso que eu digo que, assim como acontece em relação à barriga de tanquinho, nem todos “merecem” a felicidade. Porque, dentre todos que a desejam, existem aqueles que trabalham diariamente por ela. A esses poucos é que os prêmios estão destinados.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA, e professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

GESTÃO E CARREIRA

DIVERGENTE: PENSANDO FORA DA CAIXA

Valorização do foco e desempenho em atividades que requerem pensamento analítico levam ao controle meta cognitivo do pensamento.

Divergente - pensando fora da caixa

Estamos vivendo tempos de foco executivo na tarefa, com uma valorização de tudo que possa aumentar nosso desempenho no trabalho ou no estudo. O resgate da prática milenar da meditação do tipo mindfullness atinge níveis de popularidade tão grande que já circulam brincadeiras, corno as contidas no jogo de palavras da expressão “macmindfullness”. Essa ironia sobre uma versão pop da meditação mindfullness revela uma crítica ao entendimento superficial da população, induzido pelo enfoque banalizador da mídia, sobre os conceitos fundamentais dessa rica vertente, e não à meditação em si. De fato, existem muitos benefícios na prática desse tipo de meditação, e diversos estudos de Neurociências mostraram que o cérebro se adapta ao treinamento da capacidade de focar a atenção, e gentilmente afastar pensamentos intrusos. Se treinarmos um determinado circuito cerebral, as conexões se fortalecem, e a cada prática melhoramos o desempenho naquelas funções. Fazendo uma analogia com o sistema muscular, da mesma forma que aumentamos o número de fibras musculares, ou sua espessura, ao malhar, fortalecemos os circuitos do cérebro, ao malhar nosso pensamento. Voltar ao foco e prestar atenção de forma concentrada, sem deixar pensamentos nos distraírem, são fundamentais se estamos em uma aula, reunião de trabalho ou muitas outras atividades de nosso cotidiano.

Com esse destaque todo para o foco atencional, a visão contemporânea sobre deixar o pensamento “livre” varia, desde uma noção mais branda de constituir uma perda de tempo até versões que associam essa forma de pensar com a ruminação. Ruminar se refere aos pensamentos obsessivos, ansiosos e de preocupação, quando pensamentos negativos invadem a mente e são processados e reprocessados, levando a um aumento da tristeza e ansiedade. No entanto, se acumulam evidências de que o processo de ruminação é bem diferente do pensamento espontâneo. O pensamento livre de amarras, que vaga entre lembranças do passado e imagens do futuro, na língua inglesa é chamado de mindwandering, expressão que pode ser entendida como “deixar a mente vagar ou divagação, sonhar acordado, ou fantasiar”. Fazemos isso uma boa parte do tempo em que estamos acordados. Se não houver demanda de foco em tarefas, quando estamos sem fazer nada, a maior parte do tempo ficamos “viajando” em nossas mentes, em mundos virtuais de nossa imaginação.

Teria a seleção natural, a grande arquiteta do design cerebral, construído um sistema que requer um controle meta cognitivo o tempo todo para prestar atenção consciente no “aqui e agora”? A metacognição, ou a capacidade de pensar sobre o pensamento, é a faculdade que permite que se percebam os pensamentos, e que se direcionem esses pensamentos para alguma direção voluntária e conscientemente escolhida, como voltar ao foco da respiração consciente, em uma versão da meditação mindfullness.

Novos estudos estão começando a indicar que existem benefícios, pelo menos em certos contextos, no pensamento espontâneo e livre. Os pesquisadores dessa abordagem têm apontado que existe uma tradição de enfatizar o pensamento analítico e uso de tarefas padronizadas clássicas que medem o desempenho acadêmico. Existem evidências de que ficar no mundo da lua prejudica a aprendizagem em sala de aula, ou no entendimento de textos complexos, e certamente é importante ter a capacidade de focar a atenção quando necessário. No entanto, se nosso olhar se dirige para o pensamento divergente e resolução criativa de problemas, o cenário muda e surgem aspectos positivos do pensamento espontâneo. Pesquisas têm mostrado que a fantasia e a imaginação são mais frequentes em pessoas criativas como artistas e escritores, e que o sonhar acordado está relacionado a aumento da criatividade, em especial no período de incubação de novas ideias.

Um estudo recente no Chile apontou que estudantes que relatavam mais episódios de sonho acordado tiveram maiores escores nas medidas de criatividade, pensamento divergente e solução inovativa de problemas. Medidas de metacognição, através do auto relato, mostraram impacto negativo dessa capacidade na criatividade. Existem limitações nessa metodologia, mas esses resultados sugerem que em certos contextos as habilidades meta cognitivas de monitorar, planejar e regular os pensamentos inibem os processos divergentes e criadores.

Estamos começando a entender a diversidade de processos mentais que estão envolvidos com o pensamento e atenção, e a visão mais global que emerge desses estudos aponta para que se integrem várias formas de processamento, em termos de vantagens e desvantagens, para determinadas pessoas, contextos e demandas particulares, antes de estabelecer simples dicotomias ou antagonismos. A mente é rica e a natureza tem sabedoria em suas construções, não devemos simplesmente ceder à tentação de descartar como defeitos processos que levaram milhares de gerações para serem esculpidos. Manter o foco, e prestar atenção consciente, traz vantagens em determinadas situações e desvantagens em outras, da mesma forma que sonhar e imaginar livremente. Afinal, o que seria da humanidade sem os sonhadores? Sonhar é preciso, mas os filtros e testes das funções executivas são também necessários para que os sonhos se realizem.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE II

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

 

III – A conversa de Cristo com seus discípulos enquanto a mulher estava ausente, vv. 31-38.

Veja como nosso Senhor Jesus foi habilidoso em compensar o tempo, em poupar cada minuto, e em preencher as lacunas dele. Enquanto os discípulos iam à cidade, sua conversa com a mulher foi edificante e apropriada à situação dela. Quando ela foi à cidade, seu diálogo com eles não foi menos edificante e adequado ao caso deles. Seria bom se pudéssemos juntar dessa maneira os fragmentos do tempo, para que nenhum deles se per­ desse. Duas coisas são perceptíveis nesta conversa:

1. Como Cristo expressa o prazer que Ele próprio teve em sua atividade. Seu trabalho era procurar e salvar aqueles que estavam perdidos, procurar fazer o bem. Neste momento, nós o encontramos totalmente absorvido. Pois:

(1)  Ele deixou de lado sua comida e bebida por seu trabalho. Ao sentar-se junto à fonte, Ele estava cansado e precisava de refrigério, mas esta oportunidade de salvar almas o fez esquecer de sua fadiga e fome. E Ele considerava tão pouco sua comida, que:

[1] Seus discípulos foram obrigados a chamá-lo para comê-la: Eles “lhe rogaram”, eles o pressionaram, dizendo: “Rabi, come”. O fato de os discípulos o chamarem era um exemplo do amor que sentiam por Ele, para que Ele não ficasse fraco e doente por falta de algum sustento. Mas era um exemplo maior do amor de Jesus pelas pessoas o fato de ele precisar ser chamado. Através disso, aprendemos a ter uma santa indiferença até mesmo pelos indispensáveis sustentos da vida, em comparação com as coisas espirituais.

[2] Ele se importava tão pouco, que os discípulos pensaram que alguém lhe havia trazido comida na ausência deles (v. 33): “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Ele tinha tão pouco apetite por sua refeição, que eles estavam a ponto de pensar que já tivesse jantado. Aqueles que fazem da religião seu trabalho, quando precisam cuidar de qualquer dos assuntos referentes a ela, dão a estes a preferência antes mesmo da comida. Esta atitude é a mesma do servo de Abraão, que não comeu até que tivesse cumprido sua missão (Genesis 24.33), e de Samuel, que não se sentou até que Davi fosse ungido, 1 Samuel 16.11.

(2)  Ele fez de seu trabalho, sua comida e bebida. A obra que Ele tinha a fazer entre os samaritanos, a possibilidade que Ele agora tinha de fazer o bem a muitos, isto era comida e bebida para Ele. Era o mais notável prazer e satisfação imaginável. Nunca alguém faminto, ou um epicurista, esperou por um banquete opulento com tanto desejo, nem se alimentou de suas iguarias com tanto prazer, como nosso Senhor Jesus aguardou e aproveitou uma oportunidade de fazer o bem às pessoas. Com referência a isso, Ele diz:

[1] Que era uma comida que eles não conheciam. Eles não imaginavam que Ele tivesse qualquer plano ou perspectiva de estabelecer seu Evangelho entre os samaritanos. Este era um benefício e uma misericórdia que eles jamais haviam considerado. Observe que Cristo, através de seu evangelho e Espírito, faz mais bem às almas dos homens do que seus próprios discípulos percebem ou esperam. Também pode ser dito, a respeito dos bons cristãos, que vivem pela fé, que eles têm uma comida para comer da qual os outros não sabem, a felicidade na qual uma pessoa de fora não pode interferir. Neste momento, essa palavra fez com que perguntassem: “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Nem mesmo seus próprios discípulos estavam aptos a compreendê-lo quando, a partir de um costume material e corporal, Ele usava comparações.

[2] Que o motivo pelo qual seu trabalho era sua comida e bebida era por ser o trabalho de seu Pai, a vontade de seu Pai: ”A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou”, v. 34. Observe que, em primeiro lugar, a salvação dos pecadores é a vontade de Deus, e o esclarecimento deles para isso é uma obra do próprio Senhor. Veja 1 Timóteo 2.4. Há um remanescente escolhido cuja salvação é, de maneira especial, sua vontade. Em segundo lugar, Cristo foi enviado ao mundo com a missão de conduzir as pessoas a Deus, para conhecê-lo e serem felizes junto a Ele. Em terceiro lugar, Ele fez dessa obra seu trabalho e deleite. Quando seu corpo precisava de comida, sua mente estava tão ocupada com isso, que Ele esquecia de ambos, a fome e a sede, tanto a comida como a bebida. Nada era mais gratificante para o Senhor Jesus do que fazer o bem. Quando foi chamado para comer, Ele foi fazer o bem, pois esta atitude era sempre sua comida. Em quarto lugar, Ele não só estava, em qualquer ocasião, pronto para fazer seu trabalho, como estava disposto e interessado em realizá-lo e em completá-lo em todos os seus aspectos. Ele determinou-se a nunca abandoná-lo ou renunciar a ele, até que pudesse dizer: “Está consumado”. Muitos se empenham em realizá-los no início, porém não os levam até o fim, mas nosso Senhor Jesus estava concentrado em concluir seu trabalho. Nosso Mestre deixou-nos aqui um exemplo para que possamos aprender a fazer a vontade de Deus, o Pai, como Ele mesmo fez.

1. Com diligência e tenaz aplicação, como aqueles que disso fazem um trabalho.

2. Com deleite e prazer em fazê-lo, como se fosse da nossa natureza.

3.Com constância e perseverança, não apenas concentrando-nos em fazer, mas visando concluir nosso trabalho.

2. Veja aqui como Cristo, havendo expressado o prazer que tinha em seu trabalho, estimula seus discípulos a serem diligentes em seu trabalho. Eles trabalhavam com Ele, e por isso deveriam ser trabalhadores como Ele, e fazerem de seu trabalho sua comida, assim como Ele fazia. O trabalho que eles tinham para fazer consistia em pregar o Evangelho e estabelecer o reino do Messias. Neste momento, Ele compara este trabalho ao trabalho da ceifa, o ajuntar dos frutos da terra, e esta semelhança Ele preserva durante todo este sermão, vv. 35-38. Observe que o tempo do Evangelho é tempo de colheita, e o trabalho do Evangelho, trabalho de colheita. A ceifa é marcada com antecedência, é aguardada e esperada. Assim acontece com o Evangelho. O tempo da colheita é um tempo atarefado, todas as mãos devem estar no trabalho, cada um deve trabalhar para si, para que possa colher as graças e os confortos do Evangelho. Os ministros devem trabalhar para Deus, colher almas para Ele. O tempo da ceifa é uma oportunidade, um período curto e limitado, que não continua para sempre, e o trabalho da colheita é um trabalho que deve ser executado nesse tempo, ou nunca mais poderá ser feito. Dessa maneira, o tempo de desfrutar o Evangelho é uma época especial, que deve ser aproveitada para seus propósitos, pois uma vez passada, não pode ser trazida de volta. Os discípulos deveriam se unir em uma colheita de almas para Cristo. Agora, Ele sugere aqui três coisas a eles para animá-los a serem diligentes:

(1) Que era um trabalho necessário, e a ocasião para isso muito, urgente e premente (v. 35): “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Aqui está:

[1]  Uma palavra dos discípulos de Cristo referente à colheita de grãos. Há ainda quatro meses, e depois será a colheita, o que pode ser entendido, ou de forma geral: “Vós dizeis, para o encorajamento do semeador na época do plantio, que ainda faltam quatro meses para a colheita”. Para nós, são cerca de quatro meses entre o plantio da cevada e sua colheita, e provavelmente ocorria o mesmo com eles quanto a outros grãos. Ou particularmente: ”Agora, nesta época, vós calculais que serão quatro meses até a próxima colheita, conforme o curso normal da providência”. A colheita dos judeus começava na Páscoa judaica, próximo à Páscoa cristã, muito mais cedo no ano do que a nossa, motivo pelo qual parece que esta jornada de Cristo, da Judéia até à Galileia, ocorreu no inverno, por volta do final de novembro, pois o Senhor viajava em qualquer época para fazer o bem. Deus não nos prometeu apenas uma colheita a cada ano, mas definiu os períodos de colheita, de forma que sabemos quando esperar por ela, e assim podemos tomar as medidas mais adequadas.

[2] Uma palavra de Cristo quanto a ceifa do Evangelho. Seu coração estava tão voltado para os frutos de seu Evangelho quanto os corações dos outros estavam voltados para os frutos da terra, e para isso Ele conduziria os pensamentos de seus discípulos: “Levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Em primeiro lugar, aqui, neste lugar, onde eles agora estavam, havia trabalho de colheita para Ele fazer. Eles pediram que Ele comesse, v. 31. “Comer!”, diz Ele, “Eu tenho outra coisa a fazer, que é mais necessária. Vede as multidões de samaritanos que estão vindo da cidade, por sobre os campos, que estão prontas para aceitar o Evangelho”. Provavelmente, havia muitos mais à vista, agora. A prontidão das pessoas para ouvirem a palavra é um incrível incentivo para que os ministros preguem com diligência e energia. Em segundo lugar, em outros lugares, por toda a região, havia trabalho de colheita para todos eles realizarem. “Considere as regiões, pense no estado, no país, e descobrirá que há multidões tão prontas para aceitar o Evangelho como um campo de trigo totalmente maduro está pronto para ser ceifado”. Os campos estavam agora brancos para a ceifa:

1. Pelas leis de Deus reveladas nas profecias do Antigo Testamento. Agora era a hora em que as pessoas deveriam se congregar a Cristo (Genesis 49.10), quando deveria ocorrer uma grande adesão à igreja e suas fronteiras deveriam ser ampliadas, e, por isso, era a época de eles se ocuparem. É de grande alento para nos engajarmos em qualquer trabalho para Deus, entendermos pelos sinais dos tempos que este é o tempo apropriado para esse trabalho, pois, então, ele prosperará.

2. Pela disposição dos homens. João Batista preparou para o Senhor um povo bem disposto, Lucas 1.17. Desde que ele começou a pregar o reino de Deus, “todo homem emprega força para entrar nele”, Lucas 16.16. Este, portanto, era um tempo para os pregadores do Evangelho se dedicarem ao seu trabalho com a máxima vitalidade, de lançarem sua foice, quando a seara estava madura, Apocalipse 14.15. Ê necessário trabalhar na hora certa, para que este período não seja perdido. Se o trigo que está maduro não for colhido, ele cairá em terra e será perdido, e as aves o comerão. Se as almas que estiverem sob condenação, e possuírem alguma boa inclinação, não forem ajudadas agora, seus princípios de esperança resultarão em nada, e elas serão uma presa para os impostores. Também é fácil trabalhar agora. Quando os corações das pessoas estão prontos, o trabalho é realizado rapidamente, 2 Crônicas 29.36. Só é possível, entretanto, estimular os ministros a aceitarem as dores na pregação da palavra quando eles notam que as pessoas têm prazer em ouvi-la.

(2) Que era um trabalho produtivo e vantajoso, através do qual eles mesmos se tornariam vencedores (v. 36): “O que ceifa recebe galardão, e assim recebereis vós”. Cristo garantiu que pagará bem àqueles a quem Ele em­ pregar em sua obra, pois Ele nunca fará como Joaquim, que usou os serviços de seu próximo sem paga (Jeremias 22.13), ou como aqueles que, pela fraude, diminuíram o salário, particularmente, dos que ceifaram seus trigais, Tiago 5.4. Os ceifeiros de Cristo, embora clamem dia e noite, nunca terão motivos para clamar contra Ele, nem para dizer que serviram a um Senhor rude. Aquele que ceifa, não só deve receber, como de fato recebe recompensas. Existe uma recompensa no serviço a Cristo, e o trabalho traz, em si, sua própria recompensa.

[1] Os ceifeiros de Cristo produzem frutos: eles ajuntam frutos para a vida eterna. Isto é, eles salvarão tanto a si mesmos como àqueles que os ouvem, 1 Timóteo 4.16. Se o ceifeiro fiel salva sua própria alma, isso já é um fruto abundante para sua conta, é fruto ajuntado para a vida eterna. E se, acima e além disso, ele também for útil na salvação das almas de outros, mais fruto é ajuntado. Almas congregadas para Cristo são frutos, bons frutos, os frutos que Ele procura (Romanos 1.13). Estes frutos são ajuntados para Cristo (Cantares 8.11,12), são acumulados para a vida eterna. O consolo dos ministros fiéis consiste em que o trabalho deles tenha uma inclinação para a salvação eterna de almas preciosas.

[2] Eles se regozijam: “Para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem”. O ministro que é o feliz instrumento do início de um bom trabalho é aquele que semeia, como João Batista. Aquele que é empregado para continuá-lo e aperfeiçoá-lo é o que ceifa, e ambos se regozijarão juntos. Observe que, em primeiro lugar, embora toda a glória do sucesso do Evangelho pertença a Deus, ainda assim os ministros fiéis podem, eles mesmos, encontrar consolo em pregá-lo. Os ceifeiros compartilham a alegria da colheita, embora os frutos pertençam ao mestre, 1 Tessalonicenses 2.19. Em segundo lugar, aqueles ministros que têm diferentes talentos e são usados de diferentes maneiras devem estar tão longe de invejarem uns aos outros, que devem, pelo contrário, se regozijar no sucesso e utilidade uns dos outros. Embora todos os ministros de Cristo não sejam úteis da mesma forma, nem da mesma forma bem-sucedidos, ainda assim, se eles receberem do Senhor a graça de serem fiéis, eles todos finalmente entrarão juntos no gozo do seu Senhor.

(3) Que era um trabalho fácil, e um trabalho que já chega às suas mãos parcialmente realizado por aqueles que trabalharam antes deles: “Um é o que semeia, e outro, o que ceifa”, vv. 37,38. Isto, às vezes, denota um julgamento doloroso sobre aquele que semeia, Miquéias 6.15; Deuteronômio 28.30: “Tu semearás, mas não segarás”. Como Deuteronômio 6.11: “Casas cheias de todo bem, que tu não encheste”. Assim é aqui. Moisés, e os profetas, e João Batista haviam preparado o caminho para o Evangelho, haviam plantado a boa semente, das quais os ministros do Novo Testamento de fato apenas colheram os frutos. “Eu vos envio a ceifar onde, comparativamente, não trabalhastes”, Isaías 40.3-5.

[1] Isto indica duas coisas em relação ao ministério do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, que ele estava muito abaixo do ministério do Novo Testamento. Moisés e os profetas plantaram, mas não se poderia dizer que ceifaram, pois eles viram pouco do fruto de seu trabalho. Seus escritos trouxeram mais frutos, e fizeram muito mais bem do que eles poderiam ter feito pessoalmente, pois os frutos de seus ensinos, que estão contidos em seus escritos, têm sido úteis durante séculos, sendo uma bênção a incontáveis gerações. Em segundo lugar, que ele foi muito útil ao ministério de Novo Testamento, e abriu o caminho para este. Os escritos dos profetas, que eram lidos nas sinagogas todo sábado, aumentavam as esperanças das pessoas quanto ao Messias, e, dessa maneira, preparavam-nas para realizarem uma bela recepção a Ele. Não fosse pela semente plantada pelos profetas, esta samaritana não poderia ter dito: “Sabemos que o Messias vem”. Os escritos do Antigo Testamento são, em alguns aspectos, mais úteis a nós do que podiam ser para aqueles para quem foram inicialmente escritos, por serem mais bem entendidos através do seu cumprimento. Veja 1 Pedro 1.12; Hebreus 4.2; Romanos 16.25,26.

[2] Isto também indica duas coisas relativas ao ministério dos apóstolos de Cristo. Em primeiro lugar, que era um ministério frutífero: eles eram ceifeiros que segavam em uma volumosa colheita de almas para Jesus Cristo, e em sete anos fizeram mais para o estabelecimento do reino de Deus entre os homens do que os profetas do Antigo Testamento haviam feito em duas vezes esse número de gerações. Em segundo lugar, que era muito facilitado, especialmente entre os judeus, para quem eles foram inicialmente enviados, pelos manuscritos dos profetas. Os profetas semearam em lágrimas, clamando: “Nós trabalhamos em vão”. Os apóstolos segavam com alegria, dizendo: “Graças a Deus, que sempre nos faz triunfar”. Observe que muitos bons frutos podem ser colhidos dos trabalhos dos ministros que estão mortos e partiram pelas pessoas que sobrevivem a eles e pelos ministros que os sucedem. João Batista e aqueles que o ajudaram, haviam trabalhado, e os discípulos de Cristo entraram nos trabalhos deles, construíram sobre suas fundações, e colheram os frutos do que eles semearam. Veja o motivo que temos para louvar a Deus por aqueles que foram antes de nós, por suas pregações e seus manuscritos, pelo que eles fizeram e sofreram em seus dias, pois nós entramos em seus trabalhos. Sua dedicação e ajuda tornaram nosso trabalho mais fácil. E os antigos e novos trabalhadores, aqueles que chegaram à vinha na terceira hora e aqueles que vieram na undécima hora, se encontrarão no dia do pagamento. Eles estarão tão distantes de invejarem um ao outro pela glória de seus respectivos serviços, que, tanto aqueles que semearam quanto aqueles que segaram se regozijarão juntos, e o grande Senhor da colheita terá toda a glória.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

UM CHOQUE NA MEMÓRIA

Técnica americana, que consiste na implantação de eletrodos no cérebro de pacientes com déficit de memória, consegue recuperar até 15% da capacidade de lembrar.

Um choque na memória

“Usas um vestido/ Que é uma lembrança/ Para o meu coração. / Usou-o outrora / Alguém que me ficou / Lembrada sem vista. / Tudo na vida/ Se faz por recordações. / Ama-se por memória”

O poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos mais conhecidos do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), remete ao conceito universal de que a memória é o que nós somos. Sem que tenhamos a possibilidade de recordar, a existência se esvazia por completo. A vida se sustenta com base nas ideias do presente, nas referências do passado e na forma como processamos e armazenamos as nossas experiências. Por isso, ninguém quer perder a memória, todos querem melhorá-la. Pois um novo e ousado procedimento médico foi capaz de impulsionar o mecanismo que forma e preserva as lembranças, um feito inédito na medicina. Eletrodos implantados em uma área específica do cérebro recuperaram 15% da memória de pacientes. A taxa equivale ao que se perde em dois anos e meio com a degeneração provocada pela doença de Alzheimer. Ou ao que se esvai naturalmente em dezoito anos de vida de uma pessoa saudável. Traduzindo: quem tem 56 anos hoje pode, em tese, voltar a ter a mesma memória que tinha aos 38 anos. Disse Youssef Ezzyat, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, autor principal da técnica: “O método abre um caminho de possibilidades para auxiliar as pessoas com problemas de memória”. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho tem sido considerado por especialistas do mundo todo como um dos feitos mais promissores ocorridos na neurologia nas últimas décadas, desde a disseminação dos aparelhos de ressonância magnética que revelam o cérebro em atividade.

A dinâmica do método fascina. Dezenas de eletrodos minúsculos, de 2,3 milímetros cada um, foram implantadas no córtex lateral de 25 pacientes. O córtex lateral é a região do cérebro associada ao processamento de informações. A cirurgia para a implantação dos eletrodos dura, em média, três horas. Em seguida, os participantes foram orientados a memorizar uma lista com doze palavras aleatórias, como “bala”, “doce” e “carro”. Cada vocábulo foi exibido em uma tela durante dois segundos. Pediu-se a todos os pacientes, então, que fizessem contas matemáticas simples, tarefa cujo único objetivo era distraí-los da anterior.

Na sequência, tinham de dizer aos pesquisadores de quais palavras conseguiam se lembrar. Durante todo o procedimento, a atividade cerebral dos pacientes era registrada pelos eletrodos. Com isso, os cientistas conseguiram definir dois padrões de ondas cerebrais: um para os momentos em que a memória funcionava bem, e o outro para quando ia mal. A partir daí, os eletrodos foram programados para liberar pequenos choques elétricos no cérebro do paciente (que não sente nada) sempre que sua onda cerebral não funcionasse bem. Resultado: as lembranças melhoraram em 15%.

O procedimento ainda é experimental e deverá ser realizado em um número maior de pessoas para que se verifiquem sua real segurança e eficácia. É um processo que deve demorar ainda mais uma década para ser concluído. ”Mas já podemos dizer que se trata de um feito inédito para os estudos de melhora da memória”, diz o neurologista Renato Anghinah, da Universidade de São Paulo. Aqui, um parêntese importante. Todos os pacientes que se submeteram ao estudo tinham epilepsia, doença que costuma provocar deficiências de memória. No entanto, os efeitos da técnica dos eletrodos, teoricamente, poderiam ser igualmente positivos também em pessoas saudáveis.

O uso de descargas elétricas para melhorar a saúde do cérebro é coisa antiga. O médico grego Claudio Galeno (129-216) encostava peixes-elétricos no crânio dos pacientes para tratar dores de cabeça crônicas. Com seu método, Galeno intuiu o que só seria confirmado no século XVIII: que o organismo pode ser estimulado por impulsos elétricos – o princípio de ação dos eletrodos. Esses dispositivos são usados desde a década de 90 para tratar doenças neurológicas, como Parkinson e epilepsia. Atualmente são estudados para o tratamento de pacientes com depressão refratária a medicações. Implantados no cérebro, ficam ligados a uma bateria externa que libera choques em áreas que variam conforme a natureza da doença. O conceito por trás da técnica é que as pequenas descargas elétricas são capazes de interromper atividades cerebrais desreguladas, permitindo, assim, a predominância de atividades cerebrais em regiões com processamento normal. Cientistas já arriscam imaginar os próximos passos. Diz o neurocirurgião Arthur Cukiert: “No futuro, poderemos avançar a ponto de conseguir os mesmos efeitos com uma tecnologia não invasiva, que aja de fora do cérebro”.

A memória é uma das funções mais complexas do cérebro. Isso porque ela está associada a dezenas de áreas do órgão, sendo o hipocampo uma das principais. Em conjunto com o córtex, ele garante que o organismo colete, conecte e crie as lembranças a partir de experiências. É, portanto, o primeiro passo para a formação da memória. Quem quer que rememore o seu primeiro beijo possivelmente se lembrará das palpitações causadas pela ansiedade, do ambiente em que se encontrava, do perfume e das características físicas do parceiro. O fato de a experiência envolver tantos sentidos ajuda a fazer com que, mesmo alguns bons anos depois, a lembrança continue ali, armazenada. Os atores essenciais nesse processo são as conexões elétricas transmitidas pelos neurônios – as chamadas sinapses, que codificam e armazenam a memória.

Mais recentemente, a medicina identificou que o mecanismo da memória é ainda mais intrincado do que se imaginava. Ele está associado também aos hábitos de vida. Hoje, sabe-se que 30% dos casos de perda de memória grave podem ser evitados com comportamentos saudáveis. Há seis meses, a Academia Americana de Neurologia passou a recomendar exercícios físicos para prevenir a perda de memória – como 150 minutos semanais de caminhada, por exemplo.

A atividade física estimula o funcionamento do hipocampo. Já a privação de sono tende a provocar lapsos de memória – uma noite mal dormida é capaz de afetar temporariamente a comunicação entre os neurônios. Ainda há controvérsia entre especialistas sobrea eficácia de atividades que pregam técnicas de memorização para retardar a perda das lembranças, como o jogo de xadrez ou sistemas de aprendizagem como o Kumon. Mas um novo estudo, publicado na revista da Sociedade Americana de Geriatria, descobriu que esses hábitos podem, sim, ajudar a memória, só que em uma situação mais específica, quando ela já está afetada por um transtorno cognitivo leve – o estágio entre o envelhecimento cerebral normal e a demência. Dificilmente, no entanto, essas atividades poderiam contribuir para reverter a perda natural de lembranças. O problema está, mais uma vez, na complexidade da formação da memória. “Não há um exercício suficientemente completo para abranger todas as variações da memória. É possível melhorá-la pontualmente”, diz Paulo Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal de Medicina, em São Paulo.

Esquecer é algo natural. Todo aquele que tiver uma vida longa em algum momento se queixará de ter ficado com “uma palavra na ponta da língua”. A chave de casa some, a carteira não está no lugar e o nome das pessoas desaparece repentinamente. A falta de memória saudável é um sintoma secundário de outros problemas. Antes de tudo, pode ser desatenção. Se um indivíduo não se importar com o lugar onde deixou o casaco, seu cérebro também não vai se preocupar em arquivar essa informação. Os lapsos podem ter a ver ainda com ansiedade, depressão, stress e abuso de álcool. Aos 60 anos, por causa do desgaste natural dos neurônios, mais da metade dos adultos apresenta dificuldades de memória que afetam o seu dia a dia em algum grau. Mas isso não é necessariamente sinal de problemas graves, como a doença de Alzheimer.

O mecanismo das lembranças é um tema debatido desde a Antiguidade. Sócrates, conforme relata Platão em Fedro, lamentou a popularização da escrita porque, segundo ele, a substituição do conhecimento acumulado no cérebro pela palavra desenhada tornaria a mente preguiçosa e prejudicaria a memória. “Essa descoberta provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiadas na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações”, disse. Bem mais adiante, o escritor português José Saramago retorquiu ao filósofo grego em seu livro de crônicas A Bagagem do Viajante, publicado originalmente em 1973: “Se passo as minhas lembranças ao papel, é mais para que não se percam (em mim) minutos de ouro, horas que resplandecem como sóis no céu tumultuoso e imenso que é a memória. Coisas que são também, com o mais, a minha vida”. Sócrates se preocupava com a influência do papel sobre a memória, mas nunca imaginaria o poder dos eletrodos sobre ela. Se pudesse fazê-lo, talvez levantasse outras questões: os implantes cerebrais poderão resultar em classes diferentes de cidadãos, os de memória aprimorada e os “normais?” E se, em algum momento, eles influenciarem pensamentos e comportamentos? Por outro lado: podemos estar subjugando a importância do esquecimento?

Na ficção, a memória tem sido instrumento de roteiros extraordinários. Um exemplo é o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, do diretor Michel Gondry. Lançado em 2004, o longa conta a história de Clementine, a personagem vivida por Kate Winslet que se submete a um procedimento experimental para apagar da memória o ex­ namorado Joel, interpretado por Jim Carrey. Desconsolado, Joel decide fazer o mesmo. Mas, quando suas lembranças começam a se esvanecer, ele percebe que ainda ama Clementine – e tenta desesperadamente inverter o processo. A vida se faz por memórias, e, sem elas, sobra o vazio. A possibilidade de estendê-las por mais tempo é a possibilidade de prolongar o bom da vida.

 Um choque na memória.2 A DÁDIVA DO ESQUECIMENTO

Na mitologia grega, Mnemosine e Letes, os rios da memória e do esquecimento, corriam pelas planícies do Hades, a terra dos mortos, e a alma que lá chegava, conforme bebesse das águas de um ou de outro, teria o conhecimento ou a completa ignorância do que vivera sobre a terra. Outras versões do mito colocam o Letes à saída do Hades, pois a alma que retomava ao plano terreno tinha de apagar lembranças de vidas anteriores. No século XIV, Dante adaptou esses mitos da Antiguidade ao pensamento cristão em sua Divina Comédia: saindo do Purgatório, as almas que se encaminhavam para o Paraíso bebiam do Letes para esquecer os pecados, e de um rio chamado Euno é para lembrar-se do bem que haviam feito. Essas narrativas já contemplavam uma intuição fundamental sobre o funcionamento de nossa mente: esquecimento e memória são faculdades complementares. Precisamos de ambas.

A vida seria perfeitamente infernal se nossa memória fosse irretocável. Imagine lembrar-se exatamente de tudo o que foi dito pelo apresentador de um programa dominical que você viu em um dia de 1995, ou da cor das meias que você calçou naquela ocasião. Uma pessoa que lembrasse de tais insignificâncias teria dificuldade para discernir que eventos merecem ser qualificados de memoráveis. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em 2007 demonstrou que a capacidade do cérebro de suprimir memórias irrelevantes facilita lembrar o que realmente importa. Há razões evolutivas para que seja assim: na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. Importa mais lembrar que certo cachorro é bravo do que recordar seu nome ou a forma de sua tigela de ração.

A ciência ainda não desvendou os mecanismos do esquecimento, mas já sabe que esquecer é tão vital quanto lembrar. Pesquisas recentes sugerem que certas pessoas com incapacidade de esquecer eventos traumáticos têm maior risco de desenvolver depressão e transtorno de stress pós-traumático. Como apontou o filósofo e psicólogo americano William James, pioneiro em estudos sobre a memória: “Se nos lembrássemos de tudo, seriamos, na maioria das vezes, tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”.

Admirador de William James, o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) talvez tenha sido o escritor de ficção que melhor compreendeu a importância do esquecimento. O francês Marcel Proust explorou os delicados processos involuntários que despertam a memória dos tempos perdidos – mas Borges aventurou-se em terreno mais perigoso: especulou como seria uma memória absoluta, no conto Funes, o Memorioso. Espécie de versão extrema da americana Jill Price – que consegue lembrar o dia exato em que determinado episódio de programa televisivo foi ao ar nos anos 80 -, lrineo Funes não consegue se esquecer de nada. Tem facilidade para línguas, mas é incapaz de pensamento consistente. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes, nada havia além de detalhes, quase imediatos”, ensina Borges.

Em um conto posterior, O Aleph, Borges imagina um objeto impossível: o Aleph é um ponto único do espaço – localizado em um porão de Buenos Aires – em que é possível ver a totalidade do mundo em um só relance. Depois da experiência sobrenatural de olhar para o aleph, o personagem-narrador teme nunca mais vir a ter uma surpresa na vida, pois todas as pessoas com que cruza na rua já foram vistas antes. Depois de algumas noites de insônia, porém, o esquecimento faz seu trabalho. Borges tinha uma memória literária prodigiosa, conhecendo muitos textos e poemas de cor. Mas compreendia que o esquecimento é uma dádiva.

 Um choque na memória.3

Um choque na memória.4

Um choque na memória.5

 

Um choque na memória.6

Um choque na memória.7

 

 

 

 

 

 

OUTROS OLHARES

UM SENTIDO PARA A EXISTÊNCIA

Quando chega o envelhecimento, recorremos à ciência na tentativa de reparar os estragos da idade. Nossas antigas lutas por um lugar de importância no mundo cedem lugar ao mistério que é a própria vida.

Um sentido para a existência

Um olhar para quem está terminando sua vida lentamente faz-nos imaginar uma luta para domesticar a morte até que o medo dela permita-nos chegar ao lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

André Gorz, filósofo francês, fica recluso em companhia de sua esposa Dorine, prisioneira de uma doença degenerativa que a tortura sem piedade. Depois que a Medicina varreu toda a esperança de um senso de controle da vida para lhes aliviar o sofrimento, o casal toma a decisão de eternizar a paixão com a própria morte. O amor arrebata as mãos de André e fá-las escrever sua última carta à amada Dorine. Um ano depois de escrevê-la, ele lacra-a e coloca-a na porta da sua residência. Para evitar interferências na decisão do casal, André fecha bem toda a casa e o casal comete suicídio. A carta encontrada, escrita por André, é o livro Carta à D.

Começa assim: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Ao tempo em que descreve as mudanças físicas, deixa claro o quanto o amor não depende desse tipo de apreciação. Afinal, o encontro de almas que se fundem faz com que um não possa viver sem o outro. No amor, a alma habita um só corpo. Diante da ameaça inevitável da perda da mulher, André sonhava com a silhueta de um homem em uma estrada vazia e em uma paisagem deserta que andava atrás de um carro fúnebre. Esse homem era ele e era Dorine que o carro levava. Não queria ir à sua cremação, não queria receber a urna com as suas cinzas; ouvia um canto que dizia “o mundo está vazio, não quero mais viver”, aí ele despertava. Nossos sonhos trazem mensagens relacionadas com os nossos sentimentos mais autênticos. Por meio deles, podemos experimentar a vida e a morte de uma forma mágica e até brincar com isso. Esse sonho fez André perceber que a escolha estava entre viver sem vida ou deixar a paixão ressoar no espírito que encontra unidade ao se dissolver no outro até existir uma única alma para esses dois corpos.

André pergunta por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras. Isso nos faz refletir sobre o que é trazer o outro para nossa vida. Não é preencher uma solidão ou atender alguma expectativa de completude, pois o amor é a própria incompletude. Esse fascínio não encontra expressão e abre mão de qualquer padrão imposto por alguma cultura. É uma bricolagem de tudo que é indizível.

A natureza propõe ao que é vivo um destino a cumprir e nele a preparação para a morte. No entanto, tendemos a querer contrariar essa natureza e encontrar formas de permanecer no teatro da vida de qualquer maneira, apegados ao medo do desconhecido. Buscamos, talvez, a fantasia de uma vida sem conflito e eternamente idêntica. Isso seria uma morte em vida. O sofrimento gerado por nossos erros é o modo como temos de evoluir até compreendermos o significado do sofrimento e mudar de nível dentro da evolução humana.

O pensamento mítico que expressa nossos temores, fantasias e expectativas do homem sobre a morte faz-nos entender que é mais evoluído vivermos a vida da melhor forma que conseguirmos do que gastarmos tempo e energia para lutar contra a morte. Somos livres para escolher ter consciência de nós mesmos e sem liberdade para escolhermos o destino.

O homem moderno apega-se à ilusão de uma ideia de felicidade que consiste em conseguir realizar todos os seus desejos. Essas expectativas nunca serão atendidas, pois existe outra ordem que rege nossas vidas. Quando essa consciência aparece, encontramo-nos com as mãos vazias e sofremos a metamorfose kafkiana, sentindo-nos como um grande inseto inútil e inapropriado para a vida, ou então nos transformamos em Dom Quixote e saímos por aí transformando a paisagem calma dos moinhos de vento em batalhas terríveis.

O mistério do que acontece quando o corpo morre a ciência não consegue responder. Mas o pensamento mítico, que conduz o imaginário do homem, precisa da ideia de que algo sobrevive além do físico. Então, é mais saudável adotarmos a ideia de que tudo vai continuar sem precisar buscar provas e muito menos acreditar. Basta saber que a verdade psíquica é a que prevalece, pois algo nos leva a sentir que a vida se comporta como se fosse continuar.

O envelhecimento do humano, em sua relação com o outro, precisa encontrar um sentido para sua existência. Alguns trilham um caminho permeado de uma paisagem cheia de saudade de um mundo que passou; outros buscam a aquisição de uma sabedoria em olhar com outra visão e sentir que nos aproximamos do lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

Um sentido para a existência.2

 

 

GESTÃO E CARREIRA

QUEM MANDA AQUI?

Os recursos humanos, dentro de qualquer perfil de instituição, são o que há de mais importante, mesmo nos ambientes altamente tecnológicos, onde a presença humana é quase totalmente dispensável.

Quem manda aqui

É fato que sem a interação do colaborador com o mercado, usuários, equipamentos, ou até mesmo os sistemas operacionais, a instituição irá parar de gerar recursos, de ter retorno e zerar sua produtividade. Deixando assim de existir.

Na época em que o projeto Apolo estava no auge, final dos anos 60, corria uma piada que os russos haviam conseguido criar um equipamento tão sofisticado que eram necessários apenas dois elementos para sua operação: um homem e um cão. O homem tinha como obrigação alimentar o cão, e o cão ali estava para não deixar o homem tocar em nenhum comando da máquina. Mesmo se tratando de uma antiga anedota, o pensamento de se evoluir para uma estrutura funcional perfeita, sem a necessidade de interação humana, sempre foi o sonho dourado dos mais apaixonados capitalistas – visando o lucro – e dos socialistas/comunistas – visando a liberdade do homem para tarefas mais filosóficas.

Ocorre que o homem não deseja se libertar de suas atribuições. Isso o faz se sentir produtivo e um elemento capaz de contribuir para a sociedade gerando seu próprio sustento a cada dia. Não existem funções sem especialistas, mas algumas funções deixaram de existir durante a evolução industrial, permitindo uma migração de especializações.

O antigo alfaiate de bairro pode ter se transformado em um atendente numa loja de roupas. O homem que amolava facas com sua roda gritante pelas ruas da cidade pode ter se tornado um carpinteiro ou, quem sabe, cursado uma graduação e hoje é um profissional liberal.

Assim, a transformação das funções foi gerando outra grande novidade nas empresas: as equipes de trabalho. Vários são os perfis de equipes que podem ter objetivos claros e serem diferentes, principalmente por tipo de atividade e expectativa de resultados. Certo é que cada equipe tem seu líder. Seja ele certificado ou não. A liderança nas equipes de trabalho pode ser exercida pelo líder instituído ou pelo elemento de maior capacidade de gerenciamento emocional. Aqui, as habilidades comunicacionais sempre levam vantagem sobre a técnica operacional. O líder não é quem manda, é quem coordena. Não é o profissional mais habilidoso e sim o que melhor interage com os outros indivíduos de seu grupo de trabalho.

Encontramos o perfil multidisciplinar em que os elementos possuem formações diferentes e isso pode gerar conflito se não houver uma boa condução dos processos. Nesses casos, a liderança natural ou supervisão externa é altamente aconselhável.

O sábio educador paulista Celso Antunes contou, certa vez, que um professor faltou na escola, e uma das funcionárias foi ao hospital que funcionava em frente à dita escola. Adentrou a sala dos médicos solicitando que um deles pudesse cobrir a falta do docente. Ela foi prontamente atendida e um dos profissionais foi à sala de aula e explicou sobre saúde no tempo destinado ao ensino de matemática. O problema aqui é que, se fosse o contrário, se uma enfermeira adentrasse a sala dos professores solicitando a ajuda de algum docente para conduzir uma cirurgia, cobrindo a falta do cirurgião, com certeza não seria atendida, pois, afinal, nenhum deles estaria capacitado para tal ato complexo e não arriscaria a vida de outrem apenas pela oportunidade de demonstrar saberes além de sua formação. Ocorre que lecionar também é um ato complexo e necessita de preparo e organização. No entanto, parece simples para os leigos no tema.

Dessa forma, as especializações devem ser respeitadas, assim como os limites de cada formação. O comando não é imposto, é conquistado pela capacidade de gerenciar conflitos e ofertar possibilidades de crescimento aos elementos que formam a equipe. Capacidade de ser solidário, assumir responsabilidades, saber unir as habilidades e criar sinergia é o papel do líder.

Ainda teremos um ambiente perfeito onde os diferentes saberes possam fazer suas trocas ampliando a produtividade com estratégias comportamentais assertivas e as lideranças sempre surjam de forma natural com apoio de todos da equipe. Enquanto isso não ocorre, é necessário elencar talentos que ajudem na boa relação com o grupo.

Também é de bom tom lembrar que, embora uma pessoa possa ser líder dela mesma, só existe equipe de trabalho a partir de dois elementos unidos em prol de um objetivo comum. E, somente dessa forma, um pode exercer liderança sobre o outro. Da mesma forma, a liderança pode ser alternada em diferentes momentos do processo produtivo.

Para que isso fique claro, basta lembrar que o capitão do navio cede o comando para um prático fazer as manobras até atracar a embarcação no cais. A mais alta patente de um navio abre mão da liderança diante de um profissional especializado em uma determinada função que, muitas vezes, nem fala o mesmo idioma.

O trio que mantém uma empresa em funcionamento deve ser facilmente identificável em um corpo funcional: boa comunicação entre os elementos com clarificação de conteúdo sempre que possível, objetivos claros e aceitos pelos membros da equipe e uma liderança capaz de orientar os passos de todos os processos.

 

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.iseq. Psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções: Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional: Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE I

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

Temos aqui o restante da história sobre o que aconteceu quando Cristo estava em Samaria, após a longa conversa que tivera com a mulher.

I – A interrupção de sua conversa pela chegada dos discípulos. É provável que muito mais tenha sido falado do que o que é relatado. Mas somente quando a conversa chegou a um ponto crítico, quando Cristo havia se declarado à mulher como sendo o verdadeiro Messias, os discípulos chegaram. “Oh filhas de Jerusalém… não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira”.

1. Eles maravilharam-se de que Cristo conversasse com essa mulher, maravilharam-se de que ele falasse tão seriamente (visto que talvez eles observassem à distância) com uma mulher, uma mulher desconhecida, a sós (Ele costumava ser mais reservado), especialmente com uma samaritana, que não fazia parte das ovelhas perdidas da casa de Israel. Eles pensavam que seu Mestre devia ser tão desconfiado dos samaritanos quanto os outros judeus, o suficiente para que não pregasse o Evangelho a eles. Eles maravilharam-se de que Ele se rebaixasse a falar com uma mulher tão insignificante, esquecendo quão desprezíveis eles próprios eram quando Cristo os chamou inicialmente para se juntarem a Ele.

2. Ainda assim, eles aceitaram aquilo tacitamente. Eles sabiam que era por alguma boa razão, e por algum bom propósito, dos quais Ele não estava obrigado a lhes prestar contas. E, por isso, nenhum lhe disse: “Que perguntas?” Ou: “Por que falas com ela?” Assim, quando dificuldades peculiares ocorrerem com a Palavra e a providência de Deus, é bom nos satisfazermos com o fato de que, em geral, tudo está bem no que Jesus Cristo diz e faz. Talvez houvesse algo inadequado no fato de eles se maravilharem de que Cristo falasse com a mulher. Isto era como os fariseus se escandalizando com o fato de Ele comer com publicanos e pecadores. Mas, o que quer que eles pensassem, eles nada disseram. “Se imaginaste o mal, põe a mão na boca”, para impedir que esse pensamento mau se torne uma palavra do mal, Provérbios 30.32; Salmos 34.1-3.

II – A informação que, com alegria, a mulher deu aos seus vizinhos sobre a extraordinária pessoa que ela havia encontrado, vv. 28,29. Observe aqui:

1. Como ela se esqueceu de sua missão junto à fonte, v. 28. Pelo fato de os discípulos terem chegado e interrompido a conversa, e talvez por ela ter notado que eles não estavam contentes com aquilo, ela foi embora. Ela se retirou, em uma atitude de cortesia e civilidade a Cristo, para que Ele tivesse tempo para comer seu jantar. Ela se alegrou pela conversa que teve com Ele, mas não foi rude. Cada coisa é bela em seu momento. Ela supôs que Jesus, ao terminar seu jantar, continuaria em sua jornada, e por isso apressou-se em contar a seus vizinhos para que eles fossem encontrá-lo prontamente. ”A luz ainda está convosco por um pouco de tempo”. Veja como ela aproveitou o tempo. Quando um bom trabalho estava completo, ela se dedica a outro. Quando as oportunidades de se realizar o bem cessam, ou são interrompidas, devemos procurar oportunidades de fazer o bem. Quando acabamos de ouvir a palavra, é então o momento de falar sobre ela. Foi dada atenção ao fato de ela ter deixado seu cântaro.

(1) Ela partiu por gentileza a Cristo, para que Ele tivesse água para beber. Ele transformou água em vinho para outros, mas não para si próprio. Compare isto com a cortesia de Rebeca para com o servo de Abraão (Genesis 24.18), e veja essa promessa, Mateus 10.42.

(2) Ela o deixou para que pudesse chegar mais rapidamente à cidade, para levar aos seus habitantes essas boas notícias. Aqueles cujo trabalho é anunciar o nome de Cristo não devem se sobrecarregar ou se enrredar com qualquer coisa que os retarde ou impeça de fazer isso. Quando os discípulos foram feitos pescadores de homens, eles renunciaram a tudo.

(3) Ela deixou seu cântaro, como alguém indiferente a ele, estando totalmente concentrada em coisas mais importantes. Observe que aqueles que são trazidos ao conhecimento de Cristo, mostrarão isso através de um completo desprezo por este mundo e pelas coisas dele. E aqueles que são novatos nas coisas de Deus devem ser desculpados, se, no princípio, estiverem tão ocupados com o novo mundo para o qual são levados, que as coisas deste mundo pareçam ser, por algum tempo, negligenciadas. Em um de seus sermões a respeito deste versículo, o Sr. Hildersharn, a partir deste exemplo, justifica amplamente aqueles que abandonam seus negócios terrenos durante os dias da semana para ouvir sermões.

2. Como ela tratou sua missão na cidade, uma vez que seu coração estava voltado para esta. Ela foi à cidade e disse “àqueles homens”, provavelmente os membros do conselho da cidade, os homens com autoridade, a quem, possivelmente, encontrou reunidos tratando de algum assunto público. Ou a cada homem que encontrava nas ruas. Ela proclamava nos principais locais de ajuntamento: “Vinde e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito; porventura, não é este o Cristo?” Observe:

(1)  Como ela foi solícita em fazer com que seus amigos e vizinhos conhecessem a Cristo. Ao encontrar aquele tesouro, ela convocou seus amigos e vizinhos (como Lucas 15.9), não apenas para se regozijarem com ela, mas para compartilharem com ela, sabendo que havia o suficiente para enriquecer a si mesma e a todos que quisessem compartilhar com ela. Observe que aqueles que estiveram com Jesus, e encontraram nele consolo, devem fazer tudo que puderem para levar outros a Ele. Já recebemos o privilégio de conhecer o Senhor? Devemos honrá-lo, fazendo com que Ele se torne conhecido por outros. Não podemos dar a nós mesmos uma honra maior. Esta mulher se torna um apóstolo. Aquela que partira como um exemplar de impureza, volta como uma professora da verdade evangélica, diz Aretius. Cristo dissera a ela que chamasse seu marido, e ela pensou que esta fosse uma autorização suficiente para convocar a todos. Ela foi à cidade, à cidade em que habitava, entre seus parentes e conhecidos. Embora cada homem seja meu próximo, a quem eu tenha a oportunidade de fazer o bem, ainda assim eu tenho maior oportunidade, e por isso estou sob maior obrigação, de fazer o bem aos que moram próximos a mim. Que a árvore seja útil no local onde estiver.

(2)  Corno ela foi franca e honesta ao avisá-los sobre esse estrangeiro com quem havia se encontrado.

[1] Ela conta abertamente a eles o que a induzira a admirá-lo: Ele “me disse tudo quanto tenho feito”. Nada mais é relatado do que aquilo que Ele disse a ela a respeito de seus maridos. Mas não é improvável que Ele lhe tenha falado sobre outros de seus pecados. Ou, ao contar aquilo sobre o que ela sabia que Ele não poderia, por meios normais, ter tornado conhecimento, Ele a convencera de que poderia ter dito tudo aquilo que ela já havia feito. Então, uma vez que Ele tem uma sabedoria divina, esta deve ser a onisciência. Ele disse a ela aquilo que ninguém sabia, exceto Deus e a própria consciência dela. Duas coisas a influenciaram. Em primeiro lugar, a extensão do conhecimento dele. Nós mesmos não conseguimos dizer todas as coisas que já fizemos (muitas coisas passam despercebidas, e mais se passam e são esquecidas), mas Jesus Cristo conhece todos os pensamentos, palavras e atos de todos os filhos dos homens. Veja Hebreus 4.13. Ele disse: “Eu sei as tuas obras”. Em segundo lugar, o poder da sua palavra. O fato de ele ter contado os pecados secretos dela com poder e energia tão inexplicáveis causou nela uma grande impressão de que, tendo sido descoberto um pecado, ela se lembra de todos, e se sente julgada por todos. Ela não diz: “Vinde e vede um homem que me disse coisas estranhas referentes à adoração religiosa e às suas leis, que decidiram a controvérsia entre este monte e Jerusalém, um homem que chama a si mesmo de Messias”. Mas sim: “Vinde e vede um homem que contou-me meus pecados”. Ela se concentra na parte da conversa de Cristo que, seria de se pensar, ela teria mais medo de repetir. Mas as demonstrações reais do poder da Palavra e do Espírito de Cristo estão entre todas as mais persuasivas e convincentes. E o conhecimento de Cristo, ao qual somos levados pela condenação do pecado e pela humilhação, é absolutamente saudável e nos traz a salvação.

[2] Ela os convida a sair e ver aquele sobre quem ela expressava uma opinião tão favorável. Não apenas: “Vinde e observai-o” (ela não os convida a vê-lo como a um espetáculo), mas: “Vinde e conversai com Ele. Vinde e ouvi sua sabedoria, como eu fiz, e então pensareis como eu”. Ela não se responsabilizaria por lidar com os argumentos que a haviam convencido, de maneira a convencer a outros. Aqueles que veem a evidência da verdade não são capazes de fazer com que outros a vejam. Mas: “Vinde e falai com Ele, e encontrareis um poder muito grande em sua palavra, um poder que de longe supera todas as outras evidências”. Observe que aqueles que pouco podem fazer para o convencimento e conversão de outros, podem e devem apresentá-los aos métodos da graça que eles próprios perceberão que são eficazes. Jesus estava, agora, junto ao extremo da cidade. “Vinde vê-lo agora”. Quando as oportunidades de receber o conhecimento de Deus são trazidas à nossa porta, não temos nenhuma justificativa para negligenciá-las. Será que não devemos ir além do limiar para ver aquele cujo dia os profetas e reis desejaram ver?

[3] Ela decide recorrer a eles, e aos sentimentos deles, quanto ao julgamento. “Não é este o Cristo?” Ela não fala de forma categórica: “Ele é o Messias”, por mais nítido que ela tivesse isso em sua mente. Entretanto, ela muito prudentemente menciona o Messias, de quem, de outra forma, eles não teriam pensado, e depois os consulta sobre isso. Ela não imporá sua fé a eles, mas somente a exporá. Através de apelos tão íntegros, porém fortes como estes, a capacidade de julgamento e as consciências dos homens são, às vezes, dominadas antes que eles o percebam.

(3) O sucesso que ela obteve nessa convocação: “Saíram, pois, da cidade e foram ter com ele”, v. 30. Embora possa parecer muito improvável que uma mulher de importância tão insignificante, e de caráter tão ruim, tivesse a honra da primeira descoberta do Messias entre os samaritanos, ainda assim agradava a Deus influenciar os corações a prestarem atenção ao relato dela, e a não menosprezá-lo como uma história sem importância. Houve uma ocasião em que os leprosos foram os primeiros a trazer a Samaria as notícias de uma notável salvação, 2 Reis 7.3ss. Eles foram se encontrar com o Senhor Jesus. Não tentaram trazê-lo a si mesmos dentro da cidade, mas em sinal de seu respeito por Ele, e da sinceridade de seu desejo de vê-lo, eles foram até Ele. Aqueles que desejam conhecer a Cristo devem se encontrar com Ele onde quer que Ele esteja.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMO ENFRENTAR A SÍNDROME DE BURNOUT?

Doença se caracteriza por um sofrimento que se origina no total esgotamento físico e psicológico. causado por vários fatores. Pode levar. como consequência, a um quadro depressivo ou a outro problema ainda mais grave.

Como enfrentar a síndrome de burnout

O nome dessa síndrome foi dado por um psicanalista naturalizado norte-americano chamado Herbert Freudenberger. Ele sentiu na pele um verdadeiro esgotamento profissional nos anos 1970. Deu o nome a esse esgotamento do trabalho de burnout. Pode-se traduzir livremente para o português como burn out = fogo que vai se apagando aos poucos. É possível definir, também, como o velho e simples esgotamento.

O sentimento e as sensações são de ter “queimado o pavio”. Mas isso não quer dizer que essa síndrome se caracterize, apenas, por se esgotar no trabalho, que é um aspecto muito comum em quem sofre de esgotamento por trabalhar horas a fio – essa não é a única causa. Existem outros vilões, como o desgaste frente à falta de dinheiro – muito comum em nossos dias de crise no Brasil. Bem como diante do fato de um parente estar muito doente ou desempregado. Qualquer sofrimento mental que nos acometa pode ser a causa, até mesmo o desgaste físico por falta de sono e cansaço acumulado. Daí o nome esgotamento.

O que vem acontecendo nos últimos anos com o tempo das pessoas? A maioria fica quase 24 horas “plugada” na internet, no WhatsApp etc. O ser humano não foi programado para ficar atento tanto tempo. Necessita de momentos de silêncio, de recuperação, sono e paz para corpo e mente. E o mundo está, definitivamente, na era do ligado em tudo! Acontece algo do outro lado do planeta e todos ficam sabendo imediatamente. Quem descansa? Nem as crianças “O ser humano precisa de tempo de recuperação e descanso, sim. E se não tiver o merecido de canso, à mente e ao corpo, o preço a pagar é muito caro.

Francis Bacon disse: ”A natureza foi feita para ser obedecida…”.

Se as pessoas apenas se limitarem a seguir a corrida dos ratos, ou seja, sair correndo atrás do dinheiro, do querer só bater metas, ganhar mais, ter aquela promoção, corre-se o risco de esquecer um valioso bem: a saúde. Em termos de moeda final, o prejuízo de adotar a corrida dos ratos é terrível. Além do mais, a vida é muito curta para que se corra tanto com o objetivo de alcançar o “tal cume” daquilo que se planejou –  e, com isso, nem se admira a jornada.

As pessoas precisam aprender que, se não seguirem a própria natureza, elas irão trazer o descanso à força em forma de dor de cabeça, doenças autoimunes, alergias etc. A natureza humana é que está no comando. E a pessoa cai de cama, fica sem vontade de nada e pode chegar a um quadro depressivo ou a uma doença mais grave também.

Admirar a jornada enquanto caminha é muito importante. Se se opta por subir uma montanha para chegar ao topo e ver lá de cima o pôr do sol, será que não é possível apreciar a subida? Parar vez ou outra, tomar um lanchinho, tirar umas fotos, fazer uma brincadeira, simplesmente recuperar o fôlego e respirar fundo são fundamentais.

Todos podem e devem apreciar a jornada. Aquela velha história que um dia se aprende um slogan comum – o no pain no gain, ou, em português, que “sem dor (trabalho), sem ganho” – é coisa do passado. É possível aprender a ganhar dinheiro e a ser mais feliz. Basta trabalhar com engajamento e prazer, basta ficar mais focado na jornada e em algo que dê mais prazer e com que se tenha mais habilidades para trabalhar.

É fundamental pensar nisso o mais rápido possível. Em uma vida com mais bem-estar. Trabalhar em alguma coisa que possa unir prazer à habilidade e que também possa trazer um significado para a vida. Isso, sim, proporciona bem­ estar, mesmo que o trabalho seja duro. Aqui, a melhor dica para não ser surpreendido pela síndrome de burnout: “O menos que faz mais”.

Como enfrentar a síndrome de burnout.7

VILÃO

O grande vilão dos últimos tempos tem sido algo que passa em branco para a maioria das pessoas e a que todos estão sujeitos: o não se desligar, ficar preso na internet, no WhatsApp e em outros devices que a mantêm “plugadas” além da conta. Isso mesmo: ficar tempo demais só mexendo com tecnologias, com a carinha na tela do computador ou no celular tem desgastado a mente humana. Um hábito cada vez mais comum em nossas rotinas.

Quantas horas as pessoas gastam por dia em frente ao computador vendo e-mails? E no celular lendo e mandando mensagens? Dá para contar? Ninguém sequer imagina, mas parece que é tempo suficiente para respirar fundo, dar uma volta, bater um papo com um amigo, almoçar fora…

Não é aconselhável adotar uma conduta na qual o mais importante é correr atrás de um monte de coisas boas. Quantidade afeta a qualidade. O que é necessário fazer, caso se queira ter uma vida mais feliz, é menos no lugar de mais. Isso parece mais fácil de falar do que de fazer. Mas é possível. Não se trata de levar essa situação aos extremos. Basta inserir as mudanças aos poucos. Pequenas mudanças podem afetar a vida como um todo.

É imprescindível lembrar que felicidade é contagiante e tem um efeito dominó. Então, por exemplo, voltando do trabalho, nada irá acontecer se a pessoa desligar seu celular por duas ou três horas, enquanto está passando um tempo com seu parceiro(a) e filhos. A menos que o profissional seja um motorista de ambulância ou esteja de plantão. Nesses casos é preciso ficar de sobreaviso. Todos devem experimentar desligar o telefone por duas horas ou mais, para se dedicar a interagir com pessoas queridas. A menos que seja uma emergência ou uma ligação que esteja esperando. Mas, via de regra, nada irá acontecer se o telefone for desligado por um tempo. Muito pelo contrário, a pessoa ficará muito mais feliz e essas horinhas poderão ser uma fonte de prazer, felicidade e uma forma de recuperação. Porque estar ao celular mandando mensagens e brincando com o filho ao mesmo tempo não é se recuperar. É, ao contrário disso, se estressar. Além disso, a pessoa deixará de curtir a jornada de estar com o filho, as funções do toque, do carinho e do aconchego – e elas são muito importantes para a alegria.

Em um estudo desenvolvido em Harvard por 75 anos, o dr. Robert Waldinger, um dos pesquisadores da universidade, acompanhou homens ao longo de suas vidas. O que ele constatou? Que o fator previsor de boa saúde e longevidade, que estava relacionado à felicidade, nada tinha a ver com sucesso ou ter muito dinheiro. Mas, sim, com manter bons relacionamentos. Os homens que tiveram bons relacionamentos, se casaram e puderam ter suas companheiras ao longo da vida, bem como amigos sinceros, foram os mais longevos. A pergunta que surge é a seguinte: Quando foi a última vez que você esteve realmente com as pessoas que você ama?

A terceira tarefa que é fundamental fazer é simplificar a vida. O mesmo acontece com o trabalho: é preciso simplificar. Reduzir as multitarefas. Quem nunca mandou e-mail enquanto fazia outro trabalho que requer concentração? A maioria das pessoas faz isso várias vezes e nem percebe.

Como enfrentar a síndrome de burnout.4

COMPROVAÇÃO

De acordo com a pesquisa The Impact of Distractions on IQ – O Impacto da Distração no QI -, feita, em Londres, por um grupo de psiquiatras coordenados por Glen Wilson (2005), pessoas que verificam seus e-mails enquanto fazem outros trabalhos, que requerem concentração, perdem o equivalente a 10 pontos no teste de QI. É muito! Só para ter uma noção do quanto é isso, digamos que a pessoa não tenha dormido a noite toda e que tenha ficado meio tonta, sem concentração – esse efeito é equivalente a menos 10 pontos no QI. Se a pessoa fumar maconha ou haxixe, perderá 4 pontos de QI. Todos pagam um preço muito alto por querer fazer mais em menos tempo no trabalho também.

Vemos que a pessoa que sofre um esgotamento, o burnout, tem uma dedicação exagerada ao trabalho ou atividade profissional que está exercendo. Pode ser estudar para um concurso, vestibular, trabalhar noite e dia sem parar e até mesmo cuidar de um parente enfermo. É um desgaste imenso. O desejo de ser o melhor e demonstrar sempre alto grau de desempenho também levam ao quadro de esgotamento.

Muita gente mede sua própria autoestima pelo tanto que produz. Muito natural. O que não é natural é dar a vida pelo trabalho – seja ajudando pessoas ou fazendo seu serviço profissional. A moeda final será sempre a mesma: desgaste pessoal, desânimo e, depois, depressão.

Assim, aquilo que em um primeiro momento parece maravilhoso e engana, como se fosse gerar prazer ao fim da jornada, pelo contrário, acaba trazendo desgaste emocional e físico – e tudo acaba pior no final. Muitos ficam com compulsão pelo trabalho ou por ajudar pessoas e se esquecem de que seu próprio cuidado é sua melhor poupança e benefício imediato. O importante é curtir a jornada. Não só trabalhar, mas ter descanso, tempo de recuperação, aproveitar enquanto se faz alguma coisa e, ainda, seguir seu propósito de vida.

Todos podem, sim, trabalhar muito. Mas é preciso realizar essas atividades durante o melhor tempo. Seguindo a regra 80/20 – Regra Pareto -, que ensina que se pode usar essa proporção para trabalhar as atividades principais nas melhores horas do dia, guardando tempo para brincar com as crianças, sair com seu amor, ir ao cinema, descansar e se divertir também. Assim, uma pessoa que trabalha muito pode fazer suas atividades principais em sua melhor hora do dia ou da noite (os da manhã, da tarde ou noite – conforme sua preferência). E ainda vai sobrar tempo para fazer muitas outras coisas.

Entretanto, infelizmente, observa-se que essa patologia tem atingido pessoas de várias áreas com mais facilidade, como as de saúde, segurança pública, os bancários, quem trabalha em educação, cartorários, profissionais de tecnologia da informação, administração, comunicação, direito e até mesmo as que exercem trabalhos voluntários.

Então, quem apresentar os seguintes sintomas deve ter cuidado: fortes dores de cabeça; tonturas e treinares; muita falta de ar; oscilações de humor; distúrbios do sono; dificuldade de concentração; problemas digestivos; desânimo. Quem apresentar todos os sintomas citados, e principalmente o último, que envolve a falta de vontade de se levantar, significa que chegou ao fundo do poço. É a hora de pedir ajuda.

Como enfrentar a síndrome de burnout2

O QUE FAZER

O primeiro passo é procurar um médico porque, a essa altura, a pessoa, provavelmente, precisará de remédios que a ajudem a ter mais serotonina. Outra boa opção é buscar a yoga e a meditação. Essas são duas boas alternativas para iniciar a recuperação – e bem depressa – de um quadro de esgotamento.

Estudos norte-americanos desenvolvidos por muitas universidades e de pesquisadores renomados, como a dra. Barbara Fredrickson (especialmente os que ela divide em seu livro Amor 2.0), mostram que a meditação pode ajudar – e muito – o cérebro a produzir mais ocitocina e a ter mais racionalidade e paz. De acordo com a autora, quando se medita) respira-se fundo. Essa respiração profunda e mais prolonga da faz com que a pessoa abrace o próprio coração com os pulmões, em um ato de aconchego que faz o coração emitir uma mensagem (bem rápida, aliás), via nervo vago, para o cérebro, avisando que se está bem. Nesse momento, o cérebro produz a ocitocina, hormônio do amor, que reduz a noradrenalina e o cortisol e deixa a pessoa mais calma.

Quanto mais se exercita a meditação, de acordo com estudos de neuroimagem, mais o lobo pré-frontal esquerdo é ativado e mais a pessoa fica calma, focada e racional. Quando se está ansioso ou deprimido, o lado oposto do cérebro fica muito ativado, o lobo pré-frontal direito. Ou seja, quem quiser ficar bem melhor e rápido precisa começar a meditar. Ou fazer yoga, pois, por intermédio dessa técnica, sempre surge aquele momento das respirações e, no final, a hora da meditação. O melhor ainda é praticar os dois procedimentos. E, além disso, dar mais tempo para bons relacionamentos e descanso.

Como enfrentar a síndrome de burnout.6

NOVA VISÃO

Portanto, é perfeitamente possível se recuperar da síndrome de burnout com uma nova visão da própria pessoa. Dando mais tempo para a recuperação do estresse do dia a dia. E arranjando, também, tempo para a diversão. É importante ter em mente que a vida é muito curta para esperar pela aposentadoria. Ou para bater aquela meta, pagar aquele carrão, que sempre foi um sonho de consumo. Quanto mais cedo começar a mudar as escolhas, melhor para a saúde. Mas é preciso mudar de forma gradativa, em pequenos passos. Mesmo assim, é preciso que seja logo, agora.

Aprender como meditar ou ir a uma academia de yoga pode ser um bom começo. Importante, também, é planejar melhor o dia, deixando as tarefas difíceis para a melhor hora. É bom não esquecer, também, de encontrar com os amigos, frequentar o cinema, enfim, sair e se divertir. Não se deve esperar adoecer para dar mais valor à vida.

É aconselhável diminuir o mais rápido possível o ritmo das atividades profissionais e, acima de tudo, a pessoa deve procurar ao máximo trabalhar com o que gosta. Se não for viável, deve arrumar um hobby. Encontrar amigos ajuda muito a conseguir um tempo bom de recuperação. Do contrário, a vida vai mostrar logo que a pessoa não comanda sua própria natureza.

Todos podem ter mais qualidade de vida, trabalhar mais felizes, usufruir de tempo de diversão e de recuperação se, apenas, simplificarem a vida com o lema “menos faz mais”.

Como enfrentar a síndrome de burnout3 REGRA PARETO

A Regra Pareto, ou Regra 80/20, foi criada pelo economista italiano Vilfredo Pareto, em 1906. A teoria surgiu quando ele percebeu que 20% dos italianos detinham 80% das terras da nação. A conclusão socioeconômica revelou depois a mesma proporção da distribuição de riquezas em inúmeros países. Por isso, a relação passou a ser aplicada em outras áreas. Em resumo, a lei defende que 80% das consequências advêm de 20% das causas.

Como enfrentar a síndrome de burnout.5

DOENÇAS AUTOIMUNES

As DA, como são conhecidas as doenças autoimunes, são um grupo de mais de 100 patologias que se correlacionam e envolvem qualquer sistema do organismo. Podem ser doenças que alcançam simultaneamente ou sequencialmente órgãos, ou que atingem especificamente alguns desses sistemas. A consequência leva o sistema imunológico a se desorientar, atacando o próprio corpo e os órgãos que deveria justamente proteger.  Acometem três vezes mais mulheres do em que homens e, normalmente, são difíceis de serem diagnosticadas por apresentarem sintomas variados

 FREUDENBERGER, REFERÊNCIA E PIONEIRISMO EM BURNOUT

O psicólogo Herbert J. Freudenberger (1925-1999), embora tenha nascido na Alemanha, naturalizou- se norte-americano, se radicando em Nova York. Desenvolveu ampla atividade profissional na prática clínica e se destacou, também, como autor de publicações que contribuíram sobremaneira para o entendimento e para o tratamento do estresse, especialmente no que se refere a síndrome de burnout, e na abordagem terapêutica do abuso de substâncias. Freudenberger foi um dos pioneiros na função de descrever os sintomas do esgotamento profissional, o que caracterizou seus estudos por uma detalhada definição do burnout. Sua primeira publicação a respeito do assunto data de 1980, livro que se tornou uma referência especial para a pesquisa e compreensão desse fenômeno. Por seus importantes serviços prestados na área, foi reconhecido com o prêmio American Psychological Foundation Gold Meda/ Awar for Life Achievement, na prática da Psicologia, em 1999.

 

SOFIA BAUER – é psiquiatra, possui título de especialista em Psiquiatria pela ABP, especialização em Psicologia Positiva com Tal Ben-Shahar (NY).  Entre os livros lançados estão Manual de Hipnoterapia e Cartilha do Otimismo (Wak Editora).

OUTROS OLHARES

NARCISISMO, SOLIDÃO E RELACIONAMENTOS NO MUNDO DIGITAL

A era virtual traz benefícios, porém, sendo o progresso apenas uma maneira de ver o mundo, mudaram os meios, mas mantiveram-se as satisfações que sempre acompanharam os homens.

Narcisismo, solidão e relacionamentos no mundo digital

A era virtual – a era das imagens e fantasias ancoradas em telas de olhar a si mesmo -, desde sua disseminação, possibilitou e estreitou ainda mais as relações entre pessoas de toda e qualquer parte do mundo, permitindo-as se relacionarem entre si. Porém, sendo o progresso apenas uma maneira de ver o mundo e não uma verdade absoluta do homem, uma vez que se mudaram os meios e se mantiveram as satisfações que sempre acompanharam os seres humanos. Essa nova ferramenta também trouxe consigo novas configurações nos padrões de relacionamentos e no posicionamento frente às produções oriundas do contato com o outro, tudo é mais prático, menos o contato com o afeto e o corporal. Aproxima-se em virtual e perde-se na dimensão viva do corpo e seu calor. Estaria a era virtual ofertando novo vício para a fuga do mundo externo, desse mal-estar, apontado por Freud, em 1930, como o mais difícil de lidar, que é estar com outras pessoas?

Certos encontros são fugas. Encontros em redes sociais são, por algumas vezes, fugas dos encontros do mundo externo. Ali deslocam-se tresloucados de amigos, de grupos, tiram, incrementam, bloqueiam, acrescentam, brigam, alimentam-se de curtidas e tudo mais. Mas quando aparece algo mais real, poucos são os que saem das telas de olharem a si mesmos para irem ao encontro da vida. Quais relacionamentos estamos promovendo no uso desse novo objeto?

O “apressamento de gente improvisada” (Freud, 1930) tem sido destaque. Em épocas anteriores, o prazo de retorno era mais longo, via exemplo de cartas. Sabe-se por Freud, em 1917, que um bisturi que não corta tampouco pode ser usado para curar. O excesso a mais dela é que são as mazelas. Estaríamos vivendo no mal-estar da solidão? No excesso não há sujeito, permanece o vazio, já que o desejo não ganha espaço. Desse fato é possível extrair solidão na multidão. Mas quais relacionamentos podem ir a esse avesso?

DA EPÍSTOLA Á ERA VIRTUAL

Com o avanço tecnológico, as relações humanas passaram por diversas transformações na forma como se davam, o que inclui a forma que se comunicavam. O papel possibilitou que cartas fossem enviadas de qualquer lugar para qualquer lugar, ligando assim pessoas do mundo inteiro, permitindo uma comunicação contínua sem a necessidade de se empreender uma grande viagem todas as vezes que se desejasse conversar com outra pessoa. Freud, em o Mal-estar na Civilização, escreve que esses aparatos tecnológicos, cada época com os seus objetos de horizonte, afastam e depois ajeitam-se para aproximarem o que outrora afastaram. Cartas eram enviadas aos que, de navio, atravessavam oceanos, aos que, nos tanques e aviões, iam para as guerras. Também aproximavam aqueles que eram por excelência separados, pessoas que não se conheciam podiam se conhecer.

As tecnologias foram se deslocando, a comunicação ganhando novas roupagens e assim segue. Logo o telégrafo e posteriormente o telefone encurtaram o tempo de espera da resposta do outro, a escrita deu espaço à invocante voz. Bastava um telefonema e tudo era dito, resolvido ou complicado. Pelo telefone, era possível perceber a hesitação do outro lado da linha, a respiração ofegante após um convite… E o mundo se tornava em sensações, um pouco menor e um pouco mais rápido.

Com o aumento das relações e com o estreitamento das distâncias logo surgiu a necessidade de criar algo mais rápido, mais acessível e que fosse possível agregar um número maior de relações ao mesmo tempo, para relacionar-se mais com mais e mais gente. Isso se tornou possível pelo advento da internet, acessível a todos. Acompanhando os processos da globalização deu início a uma nova maneira de ver, conceber e se relacionar no mundo. A escrita e a voz se aliaram à imagem e agora fotos eram compartilhadas.

A era virtual, desde sua disseminação, seguiu possibilitando e estreitando, imaginariamente ainda mais, as relações entre pessoas de toda e qualquer parte do mundo, ao passo que o encontro real se afasta. Agora, podemos não somente escutar do outro lado da linha, pois temos as interações via vídeos, imagens em tempo real, e-mails, compras on-line, é possível até mesmo encontrar um par perfeito para a vida toda na internet, ou não. Há aplicativos que simulam beijos em tempos reais e outras coisas aí. Ainda que nós saibamos o cheiro, o perfume, o odor singular da presença, este não é transmitido, mas sabe-se lá até quando.

As redes sociais são agora o novo “tchã” do momento. Em qualquer lugar que vá é possível observar diversas pessoas interagindo com seu telefone, seu tablet ou smartphone, em meio à massa, que “é preguiçosa e pouco inteligente” (Freud, 1927). Sozinhos em grupos, solidão em multidão. A infinidade dos meios de comunicação atuais possibilita ao sujeito uma “privacidade inversa”, um controle na palma da mão da realidade que o mesmo molda, ou passa a ignorá-la, transmutando­ a em twits, likes e emoticons.

AS REALIDADES VIRTUAIS

Não é mais algo de outro mundo dizer que se apaixonou por alguém que mora no extremo sul do Paquistão, ou que seu melhor amigo é uma interface de interação com inteligência artificial. Cada vez mais essas e outras muitas variações entre homem e máquina vêm deixando as telas e páginas da ficção para se tornar parte ativa da realidade. Os amigos imaginários das crianças ganharam corpos e vidas compartilhadas. Não se trata de delírio, se trata de novas possibilidades. Afinal, “torna-se um louco alguém que, na maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real seu delírio” (Freud, 1930).

As realidades virtuais estão aí e não adianta tentar ignorá-las, pois as mesmas já estão intrinsecamente ligadas à ideia de progresso humano, e é, nesse contexto, que temos um novo posicionamento dos sujeitos frente ao que é real, ou seja, aquilo que atravessa e limita o homem em sua existência e tudo que é oriundo desta. De fato, como nos alerta Ferenczi, em carta a Freud:

“É preciso substituirmos de tempos em tempos nossa relação epistolar por uma relação pessoal) senão perderemos facilmente o contato com a realidade e deixaremos de corresponder com uma pessoa realmente vivente para correspondermos com alguém que nós arranjamos em nossa imaginação, segundo o nosso bom prazer” (Ferenczi), 1911, carta a Freud).

O real confronta e imprime ao ser Homem um princípio de movimentação regido por uma busca incessante de prazeres e satisfações, negando o fim inevitável e qualquer outro fazer que cause um desprazer ou frustração. É nesse contexto de “tudo quero”) “de poder” que as ferramentas ofertadas on-line irão proporcionar um caminho “fácil” amortecido ao real e mais fácil de fugir do punitivo) sendo assim mais virtual e permissivo, recriando a percepção da interação com os objetos sexuais pari-passu que com as relações com o outro. Quantas e quantas pessoas são capazes de ficar horas ou até mesmo dias navegando na internet, interagindo com diversas pessoas on-line, e quando têm de se posicionar frente a um outro, real, não conseguem dizer uma só palavra. O que acontece? Como fica o sujeito nessas novas configurações?

É impossível negar os benefícios trazidos pelas redes sociais, mas os prejuízos para os laços sociais, e para o modo como se posiciona cada sujeito diante dessa realidade virtual que atinge o real, também são inegáveis.

O NARCISISMO NAS REDES

O mito de Narciso foi utilizado por Freud para ilustrar as diferentes moções pulsionais que co­existem no sujeito, que o impele à movimentação em busca de uma satisfação e, consequentemente, à obtenção de prazer através das relações deste com os objetos que elege. Nessas movimentações empreendidas pelo sujeito, em busca de sua satisfação, o outro, que também é incluído como alvo pulsional, é peça fundamental no desenrolar dessa busca.

É nessa etapa do desenvolvi­ mento do indivíduo que se constitui uma imagem ideal, um ideal a ser alcançado, um ideal do eu que, a todo momento, irá ser referência no modo como se posiciona o sujeito, frente ao que é real, frente ao olhar do outro, o modo como este irá empreender sua busca para atingir ou se tornar esse ideal. É sob o olhar crítico do outro que o sujeito se localiza em seu posicionamento frente à falta, e organiza seu modo de coexistir no meio social.

Dessa maneira, hoje, inerente às relações humanas, a internet não é somente um meio de comunicação e de encurtamento de distâncias, mas, sim, um local com um amontoado de simbolismos e significantes pré-fabricados, que se tornou próprio aos seus usuários. Um lugar em que os sujeitos ocupam e utilizam como “veículo transicional” para realizar as projeções desses ideais, construindo e vivenciando na imaginação e, virtualmente, uma imagem idealizada de si para se mostrar ao outro como um ser sem falhas, faltas ou defeitos.

Na busca desenfreada para viver esse ideal, cada usuário constrói um perfil, um avatar, um novo eu para, assim, de um modo “ideal”, tecer novos laços sociais que melhor os adaptem e os distanciem do desamparo que, assim como a condição de Eros para a vida, nos é tão inerente. E é na busca de distanciar-se do desamparo que é ter de haver consigo mesmo que, cada vez mais, inúmeros usuários utilizam-se da internet como o Santo Graal de nossa época.

O mundo virtual convida todos de maneira a dizer: Venha! Aqui você pode desfrutar como quiser, quando quiser e com quem desejar sem perder nada por isso. Venha e goze. E nessa máxima narcísica, o sujeito se vê em uma gama enorme de possibilidades e não leva em conta que o mesmo perde muito vivendo nessa busca utópica de ser feliz para sempre.

A busca dessa utopia, com a utilização da internet e, consequentemente, das redes sociais para isso, diz de uma das saídas, uma das várias, que o ser humano empreende para se posicionar frente ao desemparo e à castração real da existência de cada um e do crivo do olhar do outro, vestindo-se de ideais que melhor o defenda dessa visão que o castra e o limita e que, desse modo, o aproxime mais da plenitude.

Ceccarelli nos dá a prova de que o homem se utiliza da formação dos laços sociais para se haver com esse desamparo quando diz: “Frente à angústia buscamos alento nas construções imaginárias simbólicas: os laços sociais que o mundo externo nos oferece fazem parte dessas construções. Nessa perspectiva, os laços sociais que construímos para lidar com desamparo psíquico variam segundo a cultura e o contexto histórico” (Ceccarelli, 2009).

E, de acordo com esse contexto, não seria a internet a nova droga do atual momento histórico? Com seus discursos preparados e significantes pré-fabricados, que aderem ao sujeito de maneira perfeita, como “queijo e goiabada”, proporciona um relacionar-se sem causa, sem causa aparente, é claro, pois por um viés psíquico essa relação virtual proporciona ao eu uma satisfação, ao passo que o coloca em um movimento de repetir-se em busca dessa realização de uma relação utópica.

GOZAR SEM PROBLEMAS

Realmente, digitando, o mundo virtual é, sem sombra de dúvidas, um prato cheio para gozar sem problemas. O que a maioria não leva em conta, ao adentrar nesse “país das maravilhas”, é que as fantasias vividas lá influenciam também em seu mundo real, refletem diretamente em um mundo onde ser bloqueado ou receber milhares de curtidas culminam em dores reais. Aquele que se vê fora, ou é posto para fora dessa realidade virtual, se não houver um simbolismo próprio, um meio de lidar com esse corte, poderá adoecer e até mesmo morrer em nome dessa fantasia de gozar plenamente a toda hora.

De certo, não há como negar que o mundo onde Freud erigiu a Psicanálise difere-se em aparatos tecnológicos da nossa era atual para suportar o mal-estar inerente à existência humana. Muda-se o Orkut, mas não se muda essa busca pelo prazer, mesmo que para isso um novo eu virtual seja necessário. Isso não dá para bloquear ou fingir que essa notificação não está lá, em vez de o sujeito se esbarrar com isso.

Não existe receita para lidar com isso, e longe de dizer que a internet é só isso, é necessário contornar esses excessos perigosos que podem se tornar destrutivos ao sujeito. Um assunto atual, real e virtual, não impossível para a Psicanálise, desde que exista sua matéria-prima, independentemente em qual contexto se encontre, do primitivo ao internauta. Onde houver seres humanos a escuta chegará.

NARCISO PASSOU DE LENDA A SÍMBOLO DA VAIDADE NA PSICOLOGIA

Personagem da mitologia grega, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liriope, Narciso representa um forte símbolo da vaidade, sendo um dos personagens mitológicos mais citados nas áreas de Psicologia, Filosofia, letras de música, artes plásticas e literatura. Ele era muito belo e teria uma vida longa, mas não deveria admirar sua beleza. Despertava a atenção de homens e mulheres, mas era arrogante e, ao invés de se apaixonar por outras pessoas, se apaixonou pela própria imagem, ao se ver refletido em um lago. Por ser menosprezada por Narciso, a ninfa Eco lançou um feitiço sobre ele, que definhou até morrer no leito do rio. Com sua morte, o belo jovem foi transformado em flor. Na Psicologia, o narcisismo é o nome dado a um conceito elaborado por Sigmund Freud, que define o amor exagerado de um indivíduo por si próprio e, principalmente, por sua imagem. O nome do transtorno de personalidade está ligado ao mito de Narciso, uma vez que recupera sua essência egoísta de sobrevalorização de si. Nos estudos da Psicologia, a pessoa narcisista se preocupa excessivamente com si mesma e com sua imagem. Essa vaidade descontrolada pode provocar outros problemas no indivíduo, que, geralmente, necessita ser admirado e não admite que sua presença passe despercebida em determinado grupo.

  

EDUARDO LUCAS ANDRADE – é psicólogo, psicanalista, membro do Fatias de Analise e diretor do Psicanálise em Cena, palestrante em temáticas educacionais, sociais, clínica e em saúde mental. Escritor membro da Academia Bom-Despachense de Letras (ABDL). Autor dos livros AMORnheci Pensando em Nós: Psicanálise e Educação: Contribuições da Psicanálise à Pedagogia; Arte e Psicanálise: o Ninho. psicanaliseemcena@hotma.cilom

ALEXANDRE APARECIDO DOS SANTOS – é psicólogo com clínica em Bom Despacho (MG) e Nova Serrana (MG). Membro do Fatias de Análise: Psicanálise e Diálogo. Palestrante em temáticas educacionais, sociais, empresariais, clínica e em saúde mental. alexandrepsico8@gmail.com

GESTÃO E CARREIRA

OLÁ! ESTOU AQUI PARA AJUDAR

Cada vez mais humanizados, os chatbots são mensagens automáticas que auxiliam o atendimento das empresas pela internet e oferecem métricas para melhorar os serviços.

Olá, estou aqu para ajudar

Já faz um tempo que a televisão tradicional entendeu o conceito de “second skin, quando o público já não se contenta mais em apenas acompanhar o que passa na telinha, mas quer comentar, saber o que os outros pensam sobre o assunto e, de alguma maneira, fazer parte daquilo. Antes, os 140 caracteres do twitter e algumas hashtags bastavam para fazer esse papel, que acabava sendo orgânico. Enquanto o tapete vermelho do Oscar, por exemplo, desfilava artistas em suas câmeras a internet falava sobre os modelos de roupas mais bonitos ou polêmicos, entre outras coisas. Depois. veio Facebook, Instagram e assim segue.

Premiações como essa são transmitidas, hoje pela TNT Brasil. Por isso, o chatbot surgiu como uma das soluções para atrair ainda mais público às ações importantes do canal. “Começamos a usar o bot em fevereiro de 2017, durante o Oscar. Tivemos uma ideia bacana de interação diretamente com os nossos seguidores – ajudar as pessoas a opinarem sobre os filmes que elas não tinham assistido por meio de uma série de interações, além de comentar o prêmio junto com elas – e pedimos ajuda a uma agência para criar o mecanismo. O resultado foi muito bom e nós acabamos sendo citados como case de sucesso em eventos do Messenger”‘, conta a Community manager da empresa, Marina Ferreira.

Em época de modelos de economia criativa e futurista, estar um passo à frente torna-se primordial para o sucesso das empresas. “A participação das pessoas em ações mais complexas do bot, como quízes e jogos, está sendo bem representativa em relação ao número de participantes e envolvimento. Observando as palavras mais utilizadas na interação, foi possível analisar profundamente o que as pessoas esperam da nossa empresa na internet, que tipo de informações elas desejam receber, quais são as suas principais dúvidas e sobre o que elas querem conversar. Com isso em mãos, estamos lapidando cada vez mais o bot para deixá-lo ainda mais útil para o nosso público, completa Marina.

Enquanto a TNT é case no uso da ferramenta, a Zenvia é uma das empresas que ajudam no desenvolvimento da função. A diretora de Marketing e Desenvolvimento Organizacional, Gabriela Vargas, conta que os dois principais pilares para o processo de criação foram o consumidor e um modelo de negócio fundamentado em escala, ou seja, que dê certa autonomia ao cliente para criar, operar e gerir suas conversas. “É uma forma de automatizar e personalizar o atendimento e, assim, resolver mais demandas e problemas em menor tempo. Com a melhor experiência para o consumidor, as marcas também podem aumentar a relevância no mercado e fidelizar clientes, afirma.

Segundo ela, tiveram um cliente que conseguiu dobrar, já no segundo mês, a geração de leads por Facebook – tendo, inclusive, que parar de investir em mídias pagas para dar conta da demanda crescente. “Outro conseguiu alcançar, no primeiro mês de ação, uma efetividade de mais de 40% na confirmação de entrega, o que reduz muito os custos de logística, evitando que os caminhões se desloquem para realizar entregas não efetivadas. Só neste ano, mais de 3,5 milhões de conversas iniciaram em nossa plataforma”, completa.

 QUE BICHO É ESSE?

Você já percebeu que o chatbot pode auxiliar bastante a empresa. Mas, afinal, do que se trata? De uma maneira objetiva, é uma série de mensagens, respostas e interações programadas para o atendimento, principalmente via Messenger do Facebook. “Chatbots são robôs capazes de se comunicar com humanos através de mensagens de texto. Eles são essenciais para quem quer melhorar o atendimento aos seus clientes e otimizar processos internos, propiciando ganho de escala e aumento na rentabilidade”, completa o diretor de operações da Nama, Lúcio de Oliveira. A empresa é pioneira no desenvolvimento de Inteligência Artificial aplicada aos negócios no Brasil.

Oliveira ressalta ainda que, independentemente do canal, o serviço tem capacidade de automatizar em até 90% o processo, reduzindo de 70% a 90% as despesas do setor, que acaba deslocando funcionários humanos para tarefas mais analíticas, complexas e menos operacionais. A necessidade surge de um consumidor moderno que é impaciente e impulsivo. Quando alguém chama uma empresa no Messenger, ela quer a resposta imediatamente. Uma espera maior pode levar o cliente a outra marca, sem pensar duas vezes. “Quando falamos de atendimento comum, a grande reclamação dos consumidores é o excesso de tempo de duração de uma ligação, a quantidade de transferências entre áreas e a dificuldade de efetivar a solução do cliente, explica Gabriela.

Mesmo o e-mail comum fica ultrapassado com a tecnologia, que faz toda as validações necessárias em um processo comum, como nome, CPF e motivo do contato, em poucos segundos.

Segundo pesquisa da Zenvia, os consumidores já consideram como principais meios de contatos os chats e a conversa por voz em tempo real. “Ele é mais moderno, mais direto e está exatamente onde o nosso público está.  Além disso, é uma escolha da própria pessoa receber ou não o nosso conteúdo e também é muito fácil parar de receber. A autonomia que as pessoas têm na utilização do bots faz parte da comunicação moderna”, ressalta Marina.

A HDI Seguros foi a primeira seguradora a investir na ferramenta pelo Facebook, além de implementar a assistente virtual Sofia no site oficial da empresa, com a mesma tecnologia de inteligência artificial do robô Watson, da IBM. Isso quer dizer que ela processa não apenas informações objetivas, mas também subjetivas em busca da resposta mais humanizada possível. Além de agilizar os processos, o diretor de marketing Paulo Moraes percebeu uma maior interação e facilidade em resolver questões da rotina.

Se o feedback foi positivo? “Foi positivo, sim. O usuário que escolhe esse meio de comunicação quer rapidez nas respostas, e o chatbot permite isso. A Sofia, que já está há mais tempo em produção, tem uma quantidade de interações maior, por volta de seis mil atendimentos mensais. Com a entrada da inteligência Artificial, nossa expectativa é que esse número dobre nos primeiros meses após a implantação. Já o chatbot do Messenger teve uma evolução significativa desde que lançamos. Hoje, são mais de 1.600 interações (no primeiro mês foram apenas 130)”, conta.

A Nama tem também empregado processos como o Deep Learning, que compreende até gírias e erros de português. “Além da Nama, tem muita gente boa espalhada pelo País rompendo barreiras. Em São Paulo, a Pluvion está usando machine learning para antever a possibilidade de enchentes.

Elos montaram uma rede de estações de medição de chuva que entrega informação em tempo real e de forma hiperlocalizada”, ressalta Lúcio. Ele ainda completa que o Poupinha – chatbot do poupa tempo – é o melhor exemplo aplicado em serviços públicos, já tendo completado 100 milhões de mensagens trocadas com os cidadãos e agendado 2.5 milhões de ações desde seu lançamento, em dezembro de 2016.

DICAS DE USABILIDADE

O chatbot não precisa ter iniciativa apenas de um dos lados do computador. Tanto é possível a empresa puxar assunto com o consumidor quanto o cliente iniciar a conversa.

Qualquer que seja o procedimento, é necessário sempre haver muita transparência na comunicação, começando por deixar o público ciente de quais são as reais questões que aquele bot pode resolver para ele. “A interação é positiva, mas ainda existe uma seleção de assuntos para se tratar ou não com chatbots. Responder à pesquisa de satisfação, comunicar um serviço e analisar cadastros são ações que as pessoas se sentem à vontade em realizar por meio de chatbots, lembra Gabriela, destacando ainda um erro comum: apesar de a inteligência artificial ser  uma grande aliada nessa ferramenta, ela não é essencial ao funcionamento, pois cada modelo de negócio exige um tipo diferente de interação.

Com os objetivos da função bem claros, é possível encontrar a tecnologia e o tom de voz certos para aplicação do processo. Não se esqueça também de fazer alguns testes antes de colocar o serviço à disposição do público final. “Alguns erros que a empresa pode cometer são linguagem muito robótica, que afasia as pessoas, e excesso de mensagens – ninguém quer ser importunado por um robô várias vezes por dia. É preciso saber exatamente quais são os objetivos da marca no bot e tentar manter sempre uma conversa boa, como a de amigos, finaliza Marina.

Olá, estou aqu para ajudar2 

IMPLANTAÇÃO

  • Identifique a necessidade do seu negócio e o objetivo do chatbot (atendimento pós-venda, SAC, agendamento de serviços, comunicação interna da empresa, entre outros).

 

  •  Faça um bom planejamento com expectativas e metas.

 

  • Identifique o público que quer atingir.

 

  • Crie uma personalidade para o chatbot que gere algum tipo de vínculo emocional (tom de voz empático).

 

  • Conecte-se a uma empresa que possa desenvolver a tecnologia com a melhor opção para o seu negócio.

 

  • Crie um fluxo de conversa que conclua o atendimento, sem gerar novos problemas a resolver ou deixar a interação em aberto.

 

  • Entenda as necessidades do seu público para melhorar o engajamento.

 

  • Não tente abraçar o mundo inteiro de uma vez. Identifique uma necessidade de comunicação da empresa e invista profundamente nela, de maneira humanizada.

 

  • Faça questão de garantir a segurança dos dados do cliente, promovendo a conversa em ambiente onde ele esteja logado com senha e mantendo as informações criptografadas.

Olá, estou aqu para ajudar3 

BETA

O Coletivo Nossas lançou recentemente o chatbot Beta – diminutivo de Betânia. Aliados às causas femininas, os assinantes da ferramenta recebem via inbox uma série de notícias relacionadas ao ativismo, podendo inclusive votar projetos e enviar e-mails direto para a Câmara. Na campanha mais recente, o robô estimulou o envio de mensagens a favor dos projetos de lei de Marielle Franco, que estavam sendo votados, e o resultado foi positivo: cinco dos sete foram aprovados.

OUTRASFERRAMENTAS

Além do chatbot, ferramentas como site, blog, aplicativos ou página no YouTube são complementares ao serviço. Em um momento em que o público busca o máximo de informação disseminada possível, não ficar preso a um único formato é essencial para atingir o maior engajamento. Há ainda softwares de apoio à gestão. Por exemplo, um chatbot de rastreamento de entrega, quando integrado a um software de logística, torna a conversa mais capaz de resolver um problema e assim por diante.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE IV

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

(2) ”A salvação vem dos judeus”. Portanto, eles sabem o que adoram, e em que e sobre que bases se apoiam em sua adoração. Não que todos os judeus fossem salvos, nem que não fosse possível que muitos dos gentios e dos samaritanos pudessem ser salvos, pois, em toda nação, aquele que teme a Deus e age com justiça é aceito por Ele. Mas:

[1] O autor da salvação eterna vem dos judeus, surge entre eles (Romanos 9.5), e é enviado primeiro para abençoá-los.

[2] Os meios da salvação eterna são oferecidos a eles. A palavra da salvação (Atos 13.26) havia sido enviada aos judeus. Foi confiada a eles, e outras nações a receberam através deles. Esta era uma diretriz confiável para eles em suas devoções, e eles a seguiam. Consequentemente, eles sabiam a quem adoravam. A eles, foram confiadas as Palavras de Deus (Romanos 3.2), e o serviço a Deus (Romanos 9.4). Portanto, sendo os judeus tão privilegiados e superiores, competir com eles era uma arrogância dos samaritanos.

Em segundo lugar, Ele descreve a única adoração evangélica que Deus aceitava e com a qual estaria muito satisfeito. Havendo mostrado que o lugar de adoração não tem importância, Ele consegue mostrar o que é necessário e essencial – que adoremos a Deus “em espírito e em verdade”, vv. 23,24. A ênfase não deve ser colocada sobre o lugar onde adoramos a Deus, mas sobre o estado de espírito em que o adoramos. Observe que o modo mais eficaz de diminuirmos as divergências nas questões menores da religião é sermos mais zelosos no tocante às maiores. Acredito que aqueles que diariamente fazem da adoração em espírito o centro de suas preocupações, não devem entrar em divergências nas quais se discute se o Senhor deve ser adorado aqui ou acolá. Cristo havia preferido, de forma justa, a adoração dos judeus à dos samaritanos. Porém, ainda assim Ele aqui sugere a imperfeição dela. A adoração era cerimonial, Hebreus 9.1,10. Os adoradores geralmente não eram espirituais, e desconheciam a parte interior da adoração divina. Note que é possível que sejamos melhores do que nossos vizinhos, e mesmo assim não sejamos tão bons quanto deveríamos ser. Cabe a nós sermos corretos, não somente quanto ao propósito da nossa adoração, mas na maneira de conduzi-la, e é quanto a isso que Cristo nos instrui aqui. Observe:

A. A grande e gloriosa revolução que deveria introduzir essa mudança: ”A hora vem, e agora é” – o dia que estava marcado, referente àquilo que estava determinado desde os dias da Antiguidade, quando deveria vir e o quanto deveria durar. O tempo de sua aparição foi fixado em uma hora. As deliberações divinas são assim exatas e pontuais. O tempo que o Senhor estaria na terra tinha uma duração limitada a uma hora. Observe como está próxima a oportunidade da graça divina, e como ela é urgente, 2 Coríntios 6.2. Essa hora vem, e está vindo na plenitude de sua força, esplendor, e perfeição, ela está agora no embrião e na infância. O dia perfeito está chegando e raiando.

B. A bendita mudança em si. Nos tempos do Evangelho, os verdadeiros adoradores deverão adorar “o Pai em espírito e em verdade”. Como criaturas, adoramos o Pai de tudo e de todos. Como cristãos, devemos adorar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. E a mudança será:

(a) Na natureza da adoração. Os cristãos adorarão a Deus, não nas práticas cerimoniais da instituição mosaica, mas nas práticas espirituais, consistindo menos no exercício corporal, e mais naquele que é reavivado e revigorado pela força e pela energia divinas. A maneira de adorar que Cristo instituiu é racional e intelectual, e um aprimoramento daqueles ritos exteriores e cerimônias com os quais a adoração do Antigo Testamento era tanto obscurecida quanto obstruída. Esta é chamada a verdadeira adoração, ao contrário daquela que era típica. Os serviços válidos eram símbolos da verdadeira adoração, Hebreus 9.3,24. Quanto àqueles que se rebelaram em relação ao cristianismo, e voltaram ao judaísmo, é dito que começaram pelo Espírito e acabaram pela carne, Gálatas 3.3. Tal era a diferença entre as instituições do Antigo e do Novo Testamento.

(b) No temperamento e na disposição dos adoradores. Portanto, os verdadeiros adoradores são bons cristãos, diferenciados dos hipócritas. Todos devem, e irão adorar a Deus em espírito e em verdade. Isso é dito como sendo (v. 23) sua natureza, e (v. 24) seu dever. Observe que é requerido de todos os que adoram a Deus que o façam em espírito e em verdade. Nós devemos adorar a Deus:

[a] “Em espírito”, Filipenses 3.3. Devemos confiar no Espírito de Deus quando precisarmos de força e ajuda, colocando nossas almas sob suas influências e processos. Devemos devotar e empregar nosso próprio espírito a serviço de Deus (Romanos 1.9). Devemos adorá-lo com firmeza de pensamento e uma chama de amor, com tudo aquilo que está dentro de nós. O espírito dos salvos é investido de uma nova natureza em oposição à carne, que é a natureza corrompida. E, desse modo, adorar a Deus com nosso espírito é adorá-lo com nossas graças, Hebreus 12.28.

[b] “Em verdade”, isto é, em sinceridade. Deus requer não apenas nosso íntimo em nossa adoração, mas “a verdade no íntimo”, Salmos 51.6. Nós devemos considerar mais o poder do que a forma, devemos visar a glória de Deus, e não a possibilidade de sermos notados pelos homens. Devemos nos chegar “com verdadeiro coração”, Hebreus 10.22.

Em terceiro lugar, Ele declara as razões porque Deus deve ser adorado dessa maneira:

A. Porque nos tempos do Evangelho, eles, e somente eles, são considerados os verdadeiros adoradores. O Evangelho estabelece um modo espiritual de adoração, de forma que aqueles que professam o Evangelho não são verdadeiros em sua profissão, não correspondem à luz e às leis do Evangelho, se não adorarem a Deus em espírito e em verdade.

B. “Porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. Isso indica:

(a) Que tais adoradores são muito raros e difíceis de ser encontrados, Jeremias 30.21. A porta da adoração espiritual é estreita.

(b) Que tal adoração é necessária, e é aquela que o Deus do céu exige. Quando Deus vem em busca de seus adoradores, a pergunta não é: “Quem adora em Jerusalém?” Mas: “Quem adorava em espírito?” Esse será o critério.

(c) Que Deus fica muito satisfeito e aceita bondosamente tal adoração e tais adoradores. “Eu o desejei”, Salmos 132.13,14; Cantares 2.14.

(d) Que houve e haverá, até o fim, um remanescente daqueles adoradores. Sua procura por tais adoradores implica em torná-los assim. Deus está reunindo para si, em todas as épocas, uma geração de adoradores espirituais.

C. Porque “Deus é Espírito”. Cristo veio para nos trazer a bênção de conhecer a Deus (cap. 1.18), e esta foi a declaração que o Senhor Jesus expressou em relação a Deus, o Pai. Ele o declarou para essa pobre mulher samaritana, porque, geralmente, os mais pobres estão interessados em conhecer a Deus, e com esse desígnio, poderia corrigir os erros dela relativos à adoração religiosa. Nada contribuirá mais, para a verdadeira adoração, do que o conhecimento apropriado de Deus. Observe que:

(a) Deus é Espírito, porque Ele é uma mente infinita e eterna, um ser inteligente, incorpóreo, imaterial, invisível e incorruptível. É mais fácil dizer o que Deus não é do que o que Ele é. “Um espírito não tem carne nem ossos”, mas quem conhece o modo de ser de um espírito’? Se Deus não fosse Espírito, Ele não poderia ser perfeito, nem infinito, nem eterno, nem independente, nem o Pai dos espíritos.

(b) A espiritualidade da natureza divina é uma boa razão para a espiritualidade da adoração divina. Se não adoramos em espírito a Deus, que é Espírito, nós não damos a Ele a glória devida ao seu nome, e, portanto, não realizamos o ato da adoração, nem podemos esperar obter seu favor e aceitação, e assim nos afastamos da finalidade da adoração, Mateus 15.8,9.

4. O último tópico da conversa de Jesus com essa mulher é relativo ao Messias, vv. 25,26. Observe aqui:

(1) A fé da mulher; através da qual ela esperava o Messias: “Eu sei que o Messias vem” e “quando ele vier, nos anunciará tudo”. Ela não tinha nada a objetar contra o que Cristo havia dito. Seu discurso foi, pelo que ela sabia, o que seria apropriado ao Messias então esperado. Apenas dele ela aceitaria isso, e, por enquanto, ela acha melhor deixar sua crença temporariamente pendente. Muitos não dão valor ao que têm em suas mãos porque pensam que têm algo melhor em vista (Provérbios 17.16), e se iludem com a promessa de que no futuro aprenderão aquilo que negligenciam agora. Observe aqui:

[1] A quem ela espera: “Eu sei que o Messias vem”. Os judeus e os samaritanos, embora vivessem em extremo desacordo, concordavam na esperança do Messias e de seu reino. Os samaritanos aceitavam os manuscritos de Moisés, e não desconheciam os profetas, nem as esperanças da nação judaica. Aqueles que menos sabiam, sabiam que o Messias estava para vir. Tão geral e inconteste era a expectativa por Ele, e nesse momento mais elevada do que nunca (pois o cetro havia partido de Judá, as semanas de Daniel estavam perto de terminar), que ela conclui não somente: Ele virá, mas “Ele vem, Ele está próximo”: “O Messias (que se chama o Cristo)”. O evangelista, embora conserve a palavra hebraica Messias (que a mulher utilizou) em respeito ao idioma sagrado, e à igreja judaica, que a usava livremente, escrevendo para o benefício dos gentios, toma o cuidado de representá-la através de uma palavra grega com o mesmo significado. Esta palavra designa o Cristo-Ungido, dando um exemplo da regra dos apóstolos de que tudo o que é falado em um idioma desconhecido ou menos comum deve ser interpretado, 1 Coríntios 14.27,28.

[2] O que ela espera dele: “Ele nos anunciará tudo”, nos falará sobre todas as coisas relativas ao serviço de Deus que é necessário que saibamos, nos dirá aquilo que compensará nossos defeitos, retificará nossos erros, e porá um fim às nossas disputas. Ele nos falará sobre o pensamento de Deus de forma clara e completa, e não ocultará nada”. E isso implica em um reconhecimento, em primeiro lugar, da deficiência e da imperfeição da revelação que eles agora tinham da vontade divina, e do domínio que eles tinham da adoração divina. Isso não podia levá-los à perfeição, e, portanto, eles esperavam algum grande avanço e aprimoramento em questões de religião, um tempo de reforma. Em segundo lugar, da capacidade do Messias para realizar essa mudança: “‘Ele nos anunciará tudo’ que queremos sabei; e sobre as quais nós discutimos de forma exasperada na escuridão. Ele introduzirá a paz ao nos conduzir para a verdade, e ao dispersar as névoas do erro”. Parece que esse era o consolo das pessoas boas naqueles tempos obscuros em que a luz iria surgir. Se eles se achassem perdidos, e em um beco sem saída, era para eles uma satisfação dizer: “Quando o Messias vier, ele nos anunciará tudo”. Como pode ser para nós agora com referência à sua segunda vinda: Agora, vemos por espelho, mas então veremos “face a face”.

(2) O favor de nosso Senhor Jesus em se fazer conhecido dela: “Eu o sou, eu que falo contigo”, v. 26. Cristo jamais se fez conhecido tão expressamente a qualquer outro como Ele se fez aqui a esta pobre samaritana, e ao homem cego (cap. 9.37). Não, não a João Batista, quando ele lhe enviou mensageiros (Mateus 11.4,5). Não, não aos judeus, quando eles o desafiaram a dizer-lhes se Ele era o Cristo, cap. 10.24. Mas:

[1] Cristo, deste modo, colocaria uma honra sobre os que eram pobres e desprezados, Tiago 2.6

[2] Esta mulher, pelo que sabemos, jamais tinha tido qualquer oportunidade de ver os milagres de Cristo, os quais eram então o método ordinário de convicção. Note que, para aqueles que não têm a vantagem da forma externa do conhecimento e da graça, Deus têm meios secretos de suprir a necessidade deles. Devemos, portanto, julgar caridosamente a respeito de tal coisa. Deus pode fazer com que a luz da graça brilhe no coração mesmo onde Ele não fez a luz do evangelho brilhar na face.

[3] Esta mulher foi preparada para receber tal revelação melhor do que os outros foram. Ela estava cheia da expectativa do Messias, e pronta para receber instrução da parte dele. Cristo se manifestará àqueles que, com um coração honesto e humilde, desejarem conhecê-lo pessoalmente: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Jesus Cristo estava próximo a ela, embora ela não conhecesse quem Ele era, Gênesis 28.16. Muitos estão lamentando a ausência de Cristo, e desejando por sua presença, quando, ao mesmo tempo, Ele está falando a eles. Em segundo lugar, como Cristo se faz conhecido de nós, falando a nós: “Eu que falo contigo”, tão estreitamente, de maneira tão convincente, com tal segurança, com tal autoridade, “Eu o sou”.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TRANSTORNO ALIMENTAR (TA): EM TEMPO DE TRATAR

Problemas alimentares na infância são preocupação mundial e passaram a ser mais pesquisados e publicados entre pediatras e psicanalistas.

Em tempo de tratar

Bulimia e anorexia nervosa, transtornos alimentares e transtornos da alimentação são nomes que circulam na mídia com frequência no século XXI. Nunca é demais advertir sobre a seriedade com a qual merecem ser encarados. O comer “desordenado” na infância era descrito no Brasil pela tradução de Feeding Disorders, em nosso idioma transtornos da alimentação, nomes bastante semelhantes. Na versão corrente do DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, editado no Brasil em 2014, os transtornos da alimentação (TdA) (infância) passaram a ser descritos como parte dos transtornos alimentares (TA) – anteriormente nomenclatura exclusiva para adultos. Antes disso os TA em crianças eram considerados um tipo não especificado de transtorno, em separado ao dos adultos. Para melhor compreensão, seguiremos utilizando aqui a nomenclatura anterior que os diferencia.

O que hoje se conhece por transtornos alimentares corresponde a um grupo de diagnósticos de transtornos mentais ligados ao comportamento, sobretudo o comportamento alimentar, podendo incluir prática excessiva de atividade física e outras variantes do comportamento de controle obsessivo do peso, como a presença ou não de práticas purgativas, variando em cada diagnóstico/subtipo. Na atualidade são fortemente ligados às questões com a própria imagem, preocupação excessiva com o peso, geralmente acompanhado de um saber decidido a esse respeito – muitas vezes por comportamentos aprendidos na internet, ou pela adesão ao polêmico e perigosíssimo slogan “anorexia como estilo de vida” – espécie de roleta russa à qual jovens aderem radicalmente, diferente da chamada anorexia santa como forma de jejum e ascese na Igreja Católica no século XIII, e da anorexia histérica, o clássico texto do final do século XIX, de Charles Lasegue, quem localizou na França, os quadros alimentares, como de origem psíquica. Simultaneamente surgiu a descrição de Willian Gull, na Inglaterra da Anorexia Nervosa, mais voltada para aspectos clínicos. Nessas épocas o quadro não incluía a questão com a imagem do corpo, nem a paciente tinha qualquer saber sobre o mal-estar que começava com dor epigástrica e dificuldade de comer, atraindo o olhar familiar. O quadro evoluía para a recusa do alimento, com forte impacto negativo na dinâmica familiar, ricamente descrito por Lasegue em conselhos válidos até nossos dias, apesar das diferenças do quadro a cada época.

O que se costuma referir e replicar no main stream da literatura psiquiátrica é que a bulimia teria sido descrita somente em 1979 por Russell, como variante da Anorexia Nervosa. No entanto, há registros médicos do quadro bem mais antigos, inclusive em documentos médicos, e abundantes referências nas pesquisas de Brusset e Couvreur (2003).

Diferentes dos mais conhecidos na grande mídia, exclusivos aos adultos, anorexia nervosa, bulimia e o comer compulsivo, os TdA podem ocorrer em bebês, crianças pequenas ou em idade pré-escolar por desencadeantes diversos exceto quando associados a transtornos do desenvolvimento ou condições clínicas específicas; suas causas são descritas nas ciências médicas no entrecruzamento de fatores médicos, de desenvolvimento e comportamentais. Apresentam-se sob a forma da seletividade, pica, ruminação, e outras variantes – ingestão persistente de substâncias não nutritivas que não são alimentos durante ao menos um mês – podem levar a perigosas consequências médicas para o bebê ou a criança, inclusive falha no crescimento ou desnutrição.

As descrições vão sofrendo variações a cada edição dos manuais estatísticos e diagnósticos, mas a problemática nos toca para além disso: se trata-se de um aumento de fato, já apontamos a dificuldade em aferir, mas é certo que há uma procura maior por tratamento, e é bem possível que haja sim um aumento em curso, e que irá se complexificar enquanto perdurarem as dificuldades com a obesidade em nossa cultura, dentre outros fatores. Não podemos esperar extinguir. A pulsão de morte, já advertiu Freud, é constitutiva do ser humano. Segundo estudos, são profundamente relacionados os problemas da obesidade dos pais e seus padrões e ambiente alimentar e o surgimento de TA nos filhos. Estudos já apontaram também a correlação da anorexia com tempos de excesso, relacionando-se muito mais ao abastado do que ao que falta, e com a excessiva preocupação em emagrecer dos pais ou à restrição de certos alimentos.

A introdução nos situa no tema do ponto de vista médico, no entanto vale a reflexão em termos mais gerais, visando ampliar o olhar para o fenômeno que nos preocupa, incluindo outros aspectos.

Ainda que a descrição do quadro entre “moças jovens”, meninas, exista desde que se tornou entidade mórbida no fim do século XIX, com breves referências no texto freudiano, somente em meados do século passado foi alvo crescente de pesquisas e publicações de pediatras e psicanalistas, como Hilde Bruch (1904-1984), nos anos 60 descreveu o transtorno da imagem corporal, período em que se voltou especialmente para o quadro na infância. Em nossos dias, na infância, os TA têm como grande referência Bryan Lask, Professor inglês, falecido há um ano. Em seu último livro, recém-publicado, encontra-se debate sobre o aumento da incidência em crianças, afirmando -o.

Descritos nos manuais diagnósticos e estatísticos, passam por mudanças na apresentação do quadro com o andar da carruagem da história e mudanças na sociedade. Especula-se que em países ocidentais apresentem-se em idade mais precoce com aspectos dos TA em adultos, como temor de engordar (lipofobia) e excessiva preocupação com a imagem. Podem relacionar-se ao aumento de peso da população em geral – no Brasil, confirmado no último censo IBGE, reflexos do ambiente familiar – fatores como pais obesos fazendo dietas, discurso alarmante da saúde sobre riscos da obesidade, refletem nas crianças, bem como da mídia: o padrão de beleza e a identificação a todo custo com as medidas impossíveis da Barbie, da estética “cadáver” e outros personagens do mundo perfeito e brilhante que se quer vender, sobretudo no que importamos da cultura norte americana, como a clínica revela. Também a faixa etária da menarca vem diminuindo. Ainda que com diferenças não tão gritantes na média, TA sempre acompanharam as questões adolescentes emergentes nessa fase.

No entanto, afirmar sobre incidência e real aumento é sempre polêmico e muito difícil de ser aferido: a complexidade diagnóstica dos TA e seus subtipos dificulta pesquisas na área; abandono e mortalidade elevados impactam resultados gerando estudos inconclusivos; as pesquisas são válidas apenas no contexto cultural em que foram realizadas e sempre contêm vieses; a maioria dos estudos é com pacientes inseridos em serviços, e o diagnóstico muda ao longo do tratamento, com variações de massa corporal e a evolução clínica. Não há estudo epidemiológico sobre transtornos alimentares nem da alimentação no Brasil. Sendo nova tal especialidade médica, antes disso não seriam assim identificados, embora comportamentos constassem em registros históricos na Antiguidade, após adventos na sociedade e nas ciências médicas, agora bem descritos, passariam a ser notificados, podendo parecer mais frequentes, havendo que levar-se em conta também o significativo aumento populacional. A impressão do aumento se deve a anteriormente serem subdiagnosticados, subnotificados? Observamos sim crescimento da demanda de tratamento, mas não há comprovação científica sobre aumento real da incidência em crianças.

Ressalvas feitas, algo se pode afirmar baseado em estudos científicos: TA são historicamente mais ligados à cultura ocidental. Porém, ante a globalização, vêm sendo descritos em praticamente todo o mundo. Pesquisas antropológicas verificam aumento da incidência em contextos de rápida mudança cultural nas regiões “em desenvolvimento”. Na tese de doutorado “Histórias de vida com transtornos alimentares: gênero, corporalidade e a constituição de si” (Unicamp, 2011), Silva defende que:”(…) ao serem inseridas no mercado de produção mundial, diferentes regiões do mundo sofrem modificação decisiva no sentido do desenvolvimento de uma cultura de consumo e do individualismo competitivo, descrita sob as rubricas de “modernização” ou “ocidentalização” Apontam na mesma direção a famosa pesquisa de Becker (2002), que testemunha o aparecimento de quadros alimentares com a chegada da televisão nas Ilhas Fiji, e estudos no sul da Austrália, que afirmam aumento de comportamentos purgativos.

As perspectivas sociológica e psicanalítica relacionam esse fenômeno à incessante demanda da cultura do consumo “24 horas” do capitalismo na era globalizada, na qual o Ideal do corpo magro como padrão de beleza, veiculado associado a status, sucesso, controle, triunfo, contribuindo para a insatisfação com a imagem corporal, segundo metanálise de Groesz et ai (2002). As teses do sociólogo Zigmunt Bauman vão na mesma direção, nas obras Sociedade de Consumo e Modernidade Líquida; nesta, analisa que recaem sobre os ombros do indivíduo responsabilidades que até então pertenciam ao Estado, ou aos regimes monárquicos e feudais, resultando no aumento da angústia existencial, traduzida em comportamentos compulsivos a objetos de consumo, inclusive o alimento. Quais as consequências subjetivas da economia neoliberal nesse processo? E o declínio da função paterna, mudanças nas estruturas familiares e sociais, dentre outras revoluções cada vez mais rápidas que estamos vivendo? O sujeito contemporâneo sofre desse “desamparo” – o que coincide com o aspecto emocional descrito na psicologia das anorexias e bulimias: sujeitos desorienta dos pelos laços sociais em liquidação são desamparados e padecem das descompensações do controle, acossados pela demanda frenética de consumir e descartar, inclusive alimentos. O Outro da sociedade de consumo é a grande mãe que empurra a comida.

O termo anorexia mental foi resgatado por Lacan por colocar acento no aspecto psíquico e não no aspecto orgânico do termo médico “nervosa” – aliás, ressurgido fortemente em tempos atuais regidos pelo DSM e a Psiquiatria Neurobiológica. Lacan dizia que a anorexia mental caracterizava-se por um “voraz apetite de amor”, e nesta não deixa de comer, mas “come o nada”; frase de impacto que suscitou debates teóricos, importando destacar seu ponto de verdade: por mais que recuse o alimento no seu jogo para inverter a relação de poder e controle, o sujeito anoréxico relaciona-se excessivamente com esse objeto, dele alimentando-se em sua sofrida obsessão diuturna, isto é, relaciona-se com o mesmo excesso que comanda sua recusa. Anorexia e bulimia, TA e obesidade: dois lados da mesma moeda, que possuem em sua raiz um voraz apetite, tal qual nas adicções.

 TA, OBESIDADE E ADICÇÃO

Ao contrário do que muitos pensam, a obesidade não faz parte desse grupo de diagnósticos psiquiátricos. Seus parentes próximos, os transtornos da compulsão alimentar, sim, quando acompanhados de práticas compensatórias com determinada frequência e marcados por aspectos psicológicos próprios. Escutamos em tom pesaroso, cotidianamente, na clínica: “Tarde demais. Queria com isso controlar tudo, mas passei a ver que era controlada. Fui perdendo autonomia e muitas outras coisas”. Discurso corrente na problemática da adicção ao álcool e outras drogas, cujo funcionamento psíquico se assemelha aos TA, especialmente à bulimia. Na literatura científica médica há uma linha de pesquisa que considera TA como “comportamento aditivo”. Essa classificação diferencia-se do que até então se conhecia por adicção. Os addictive behaviouri descritos por Goodman em 1990, passaram a ser um grupo de comportamentos com características e psicodinâmica específicas, nos quais a noção de adicção extrapola a ideia de droga enquanto substância e entende como aspecto principal a “relação aditiva” com diversos objetos investidos do caráter “droga” para determinados sujeitos, inclusive a comida, seja ela excessivamente presente – na bulimia – também excessiva, mas ambivalentemente negada, na anorexia. Paradoxalmente, quem recusa o alimento o mantém no comando de sua vida, habitando seu pensamento 24 horas por dia – inclusive como principal motivo de abandono do tratamento, o que é encontrado em estudo qualitativo como “uma escravidão ao vício”.

DESFAZER O MAL-ENTENDIDO

A nomenclatura médica internacional ilumina a diferença entre Eating Disorders – em adolescentes e adultos; e Feeding Disorders – transtornos da alimentação em crianças; diferença que se esclarece na língua inglesa: a declinação passiva do verbo feeding coloca a dependência da criança em seu ato de “ser alimentado” pelo (o) outro. Assim implica “a relação” e supõe, em oposição, adolescentes e adultos “autônomos” em sua alimentação (Eating); enquanto o ato alimentar do bebê/ criança inclui o adulto que lhe apresenta o mundo e é responsável por alimentar a criança, passiva ainda neste ato (Feeding). A diferença não se restringe a preciosismos de linguagem, mas sim a algo que se perde na tradução ao português do Brasil e indica um ponto fundamental dessa clínica e que ambos os transtornos mantêm, em suas descrições ao longo das épocas: o componente da “relação” do sujeito, em constituição, com o outro do qual está se diferenciando, jogo no qual o alimento participará, in evitavelmente. Não somente em Lacan o ato da recusa alimentar guarda relação com protestos da criança à figura da alteridade encarnada nos pais, mais especificamente na mãe – nutriz por excelência desde os registros arcaicos, filo e ontogeneticamente, a mãe constitui um (O) outro associado ao alimento. O que se passa nas anorexias e bulimias enquanto rechaço desse Outro, encarnado na mãe, é um mecanismo inconsciente, segundo a Psicanálise, para manter consigo o controle. Em Lacan, encontramos o rechaço à comida como “moeda de troca”, numa greve de fome que tenta “inverter a relação de potência com o Outro.

As contribuições de Lacan ajudam a transcender o mal-entendido, a posição equivocada que estava no front da explicação das anorexias e bulimias e que culpabilizava diretamente os pais, especialmente as mães: o que era atribuído de modo reducionista à mãe, de “carne e osso”, deve-se a ela encarnar, via de regra, para a criança tudo o que se diferencia da criança, isto é, o mundo; a matriz de sua alteridade, daquilo que ao mesmo tempo ele terá de se diferenciar, e lhe custa, como as perdas da separação, a castração, à qual muitas vezes se resiste, rechaça. Neste rechaço, se dá o terreno psíquico para anorexia, principalmente. Já em Freud estavam descritos mecanismos pelos quais o bebê inconsciente, e muito precocemente, aceita, acusando recebimento ou recusando os indícios que esse mundo lhe apresenta de castração, isto é, de ruptura e separação entre ele e o outro – e a mãe, de quem nasce e precisa se diferenciar, encarna esse lugar. Lacan grafou com maiúscula o termo “Outro” para distinguir do outro (semelhante), dando relevo a tudo o que compreende essa instância que antecede o sujeito, desde onde ele é “falado/(in)desejado” desde antes de seu nascimento; fonte da linguagem, de influências culturais e socialismo sujeito. Mais cedo ou mais tarde este se encontra com sinais de que ele não supre totalmente o desejo deste Outro materno – encarnado na mãe -, não o completa e responderá a isso de modos distintos. Se o sujeito vai consentindo com tais operações de separação do Outro, resultará uma falta, de um lado, e um objeto, de outro (chamado objeto a). Em tomo destes se organizarão as pulsões, o circuito de satisfação. Dessa defasagem, dessa falta constitutiva resulta o sujeito do inconsciente, como ser de linguagem, resultando em diferentes estruturas psíquicas, por assim dizer.

No complexo Inter jogo com o Outro e seu consentimento ou recusa da separação do Outro materno se colocam as tentativas de recuperação e perda, o que nos permite compreender melhor a dimensão da questão com o controle, central nessa clínica. Como o sujeito, no adolescer(S), tem dificuldades e “inseguranças” em consentir com efetivar essa separação, pode resistir a tornar-se adulto e vir a fazer-se presa dos circuitos libidinais mais antigos de sua história: orais e anais, especialmente implicados nos fenômenos alimentares, os métodos de esvaziamento do corpo, tentando murchar um Outro muito cheio, do qual são ambivalentes em separar-se; vacilando em consentir com a perda apegam-se ao corpo da infância, e conflitos maiores se deslocam para o alimento e o problema de sua imagem, em que sempre encontrarão defeitos, e a ilusão de que a magreza os apagaria, resolvendo tais angústias.

A nós, profissionais da clínica, cabe cuidar dos equívocos e seus efeitos muitas vezes danosos, legados dessa confusão, e sempre que possível zelar por não replicá-la, não perpetuá-la.

DESAFIOS

Mas, afinal, o que isso tem a ver com os transtornos da alimentação ou alimentares? Todos os pontos aqui tocados guardam relação com essa forma muito particular de padecimento que se encontra na clínica, e que tem se feito notar fora dela, também nos outdoors ou passarelas, pela semelhança das formas apresentadas na anorexia na cultura atual sob o Império das imagens; o que é vez por outra denunciado, flagrado ou (in)confesso, nos segredos da bulimia, já que essa variante não fica evidente no corpo.

Estima-se que a bulimia seja sub­ diagnosticada em torno de apenas 30% de sua real incidência, e somente pequena parte busque tratamento. Dentre outras razões, devido ao temor por restaurar o peso ou ver-se sem os métodos imaginados como eficazes de emagrecimento e causadores de consequências mortíferas inimagináveis para tais sujeitos. Na bulimia a negação dos riscos à saúde é ratificada pela captura da imagem do corpo “com peso normal”. Assim, a grande maioria das pessoas com bulimia pode não ser identificada como tal mantendo seu padecimento e comportamentos de risco – dentre outros, parada cardíaca – em segredo. Essas demandas não se apresentam diretamente, mas se enredam silenciosamente por meio de outros comportamentos e queixas. Escutá-los, saber acolhê-los sem julgar, tratá-los e/ou encaminhá-los são fundamentais. As dificuldades no relacionamento interpessoal de tais pacientes fazem com que o investimento dos profissionais na aliança terapêutica deva ser constante; condição sine qua non para adesão a tratamento farmacológico, tendendo a reduzir o abandono do tratamento clínico como um todo.

O tratamento segundo Guidelines da American Psychiatry Association (2006) preconiza em primeiro lugar ativar a motivação para tratar, destacando a aliança terapêutica, a restauração do peso saudável (crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes), bem como padrões alimentares mais adequados, reduzindo restrição e controle de compulsões e purgações; cuidando das complicações físicas e psiquiátricas, psicossociais.

O padrão-ouro, na criança e adolescência com TA seria o mesmo, acrescido da exigência total dos pais ou responsável pela criança, especialmente o responsável na hora das refeições, figura fundamental neste caso

As demais abordagens enfim, a angústia, o padecimento subjetivo invariavelmente presente na fonte desses quadros, e tão esquecidos muitas vezes pelos atoleiros das questões no território do corpo, e das complicações clínicas secundárias às psíquicas, e que silenciosamente gritam por ajuda em uma demanda muda, no corpo sequestrado, evidente na alienação na imagem, e no deslocamento das questões psíquicas para o físico, elemento típico do funcionamento anoréxico­

-bulímico. Cabe a nós profissionais da clínica psi escutar com sabedoria para acompanhar, deixando-nos guiar por tais sujeitos em seus dolorosos processos. Frente aos impasses e desafios para tratar transtornos alimenta res, recomendamos acolhimento e disponibilidade para o “manejo clínico” ou, como quer a Psicanálise, “manejo da transferência”. Há que acompanhá-los desprovidos de qualquer furor curandi, como já recomendavam Freud e Lasegue, para que seja possível colocar a aposta no sujeito e a interrogação ética como parceiras constantes, como fizeram esses dois grandes clínicos.

Em tempo de tratar4

FAZER DIETA AUMENTA O RISCO DE TA

Obesidade não é um dos TA, mas constitui fator de risco para desenvolvê-los. Nutrição é um dos principais fatores provocadores de mudanças epigenéticas, e dieta afeta a atividade cerebral, aumentando cerca de 18 vezes o risco de TA. E vale lembrar que nossa cultura atual dá lugar a uma obsessão com o corpo, produzindo uma relação com sua imagem cada vez mais assujeitada à tirania da comparação aos ideais impossíveis dos photoshops. Não somente quem tem obesidade ou sobrepeso faz dieta, ou se utiliza de métodos compensatórios para perda de peso. Triste e perigosa realidade que tem início com a ideia de que se pode controlar seu uso. Porém, encontramos no relato dos que cruzaram a fronteira diagnóstica e que tarde demais vieram a dar-se conta de que essa lógica havia adquirido vida própria, e como um mestre autoritário passado a comandar sua existência.

Em tempo de tratar2 

PREJUÍZO PSICOSSOCIAL

Os transtornos alimentares são os transtornos mentais de maior morbidade e mortalidade, inclusive por suicídio. São considerados os mais graves dentre os transtornos psiquiátricos. Produzem importante prejuízo psicossocial e uma série de complicações clínicas: odontológicas, dermatológicas, gástricas, distúrbios endocrinológicos e cardiopatias. Devido a incidência de suicídios e depressão, estimada em vinte veze mais alta entre jovens com transtorno alimentares, estes foram considerados como doenças mentais prioritárias pela Organização Mundial da Saúde.

Em tempo de tratar3

PARA UM BOM TRATAMENTO

Há consenso na literatura científica em afirmar que quanto mais cedo chegar ao tratamento melhor efetividade: segundo Schmidt (2015), enquanto 60% a 80% dos adolescentes com anorexia nervosa se recuperam em abordagem que inclui a família, apenas 20% a 30% dos adultos que tiveram a forma mais duradoura da doença se restabelecem. mesmo com o melhor dos tratamentos. Diante da enorme dificuldade em aceitar tratamento, são levados por terceiros e tendem a abandoná-lo facilmente. Nossa revisão de literatura encontrou: taxa de abandono de 40% a 60% nos adultos. Entre filhos de pais separados e em pacientes que apresentam comportamento purgativo há mais abandono do tratamento, também guardando relação inversa com escolaridade. Adolescentes e crianças têm melhor adesão, poisos pais obrigatoriamente participam. Seidinger- Leibovitz (2016)

 

FLÁVIA MACHADO SEIDINGER LEIBOVITZ – é psicóloga clínica em São Paulo e Campinas. Possui especialização em Psicanálise (Escuela dela Orientación Lacaniana /Núcleo de lnvestigacion de Anorexias y Bulimias – Argentina), mestre em Ciências Médicas/Saúde Mental (Unicamp). Membro do Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade(CLIN-a), do Grupo Interdisciplinar de Assistência e Estudos em Transtornos Alimentares (GETA-Unicamp) e da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan). flaviamsleibovitz@gmail.com

OUTROS OLHARES

MÃES E FILHOS ATRÁS DAS GRADES

População carcerária feminina explode no Brasil e leva a aumento do número de mães presas, principalmente grávidas e lactantes. Habeas corpus coletivo do STF à detentas com filhos até 12 anos ainda não é cumprido.

Mães e filhos atrás das grades

Durante uma visita do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ao presídio feminino do Distrito Federal, uma detenta se desesperou: “Me tirem daqui com essa criança”. O apelo escancara a situação vivida por mães e seus filhos em penitenciárias brasileiras. Alijadas de cuidados básicos de saúde e de condições mínimas para exercer a maternidade, algumas chegam a ser algemadas no parto. O impacto dessa situação recai sobre as mulheres e subordina crianças recém-nascidas a condições lamentáveis. Com a explosão da população carcerária feminina – foi registrado um aumento de 700% em 16 anos, chegando a 45 mil em 2016 – o número de presas que são mães também aumentou. A estimativa é que 74% delas tenham pelo menos um filho, sem idade especificada. Pensando nisso, e principalmente na situação precária de gestantes e mães de recém-nascidos detidas, o STF decidiu, em fevereiro, conceder habeas corpus coletivo a todas as mulheres presas provisoriamente que estejam grávidas ou tenham crianças de até 12 anos.

Porém, a falta de um banco de dados adequado, a alta burocracia e a resistência de juízes têm dificultado o cumprimento da medida, que deveria ter sido aplicada integralmente até abril.

Uma das razões que explicam a demora no cumprimento da decisão do STF, segundo o juiz criminal e de execuções criminais Luiz Augusto Barrichello Neto, está justamente na falta de um levantamento de quantas mulheres são mães. “Quando a mulher é presa, nem sempre temos a informação de que ela tem filhos, ou, se tem, se são menores de12 anos”, afirma. “Logo após a decisão do STF, cada presídio precisou fazer um levantamento para colher essas informações e então encaminhar a relação para os juízes analisarem os casos novamente. “Depois disso, é preciso de uma nova análise para que o caso se adeque à decisão do STF – só vale para presas provisórias que não tenham cometidos crimes com violência ou ameaça à pessoa, como homicídio. Porém, no momento da análise, o entrave para a execução da medida se dá, principalmente, por questões morais dos próprios juízes.

Presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Fábio Tofic Sirnantob afirma que dos casos acompanhados pela entidade, metade das mulheres ainda não foram soltas. “A decisão do STF é cartesiana, não há o que não entender, mesmo assim, seu cumprimento tem sido parcial”, diz. “Há um parecer em que o habeas corpus foi negado porque, quando a mulher foi presa, estava no bar, e concluiu-se que não estava preocupada com a criança. Falariam isso de um pai? Não. Mas da mãe, sim.”

BRASILEIRINHOS

A posição do STF foi tomada levando em consideração a falta de estrutura para garantir o bem-estar da relação entre mães e crianças, chamadas pelo ministro Ricardo Lewandowski de “brasileirinhos”. “Temos mais de 2.000 pequenos brasileirinhos que estão atrás das grades com suas mães, sofrendo indevidamente, contra o que dispõe a Constituição, as agruras do cárcere”, disse, durante a votação. Para ter mais precisão sobre esse cenário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou o cadastro Nacional de Presas Grávidas e Lactantes. Desde janeiro, tem vistoriado presídios brasileiros para levantar quem são e como vivem as mulheres nessas condições. A juíza auxiliar da presidência do CNJ, Andremara dos Santos, que realiza o trabalho, salienta a necessidade de criar uma padronização para os serviços de assistência. Nas vistorias, os quadros são os mais diversos. Em um presídio de São Paulo, havia 14 bebês sem registro de nascimento. No Distrito Federal, quatro bebês não tinham tomado as vacinas necessárias após o parto. Segundo Santos, a função do levantamento é, também, a de combater a violência contra a mulher. O estudo “Nascer nas Prisões”, da Fundação Oswaldo Cruz, mostra que essa violência é real e recorrente: mais de um terço das presas grávidas usa algemas na internação para o parto. Negar acesso à saúde também é um tipo de violência: 55% tiveram menos consultas de pré-natal do que o recomendado, 32% não foram testadas para sífilis e 4,6% das crianças nasceram com sífilis congênita.

ESTERILIZADA À FORÇA

O mesmo poder público incapaz de garantir o direito à vida de crianças filhas de mães presas se mostra ainda mais perverso ao esterilizar mulheres compulsoriamente. Mesmo a prática sendo vetada pela Constituição, uma mulher de 36 anos foi submetida a uma laqueadura depois de dar à luz, em fevereiro, sem nem saber que iria passar pelo procedimento. Moradora de rua da cidade de Mococa (SP), ela está presa desde novembro passado, acusada de tráfico de drogas. O pedido de esterilização partiu do promotor Frederico Barruffini, para quem a cirurgia seria “eficaz para salvaguardar a sua vida”, e foi aceito pelo juiz Djalma Moreira Gomes Junior. O argumento do promotor não tem amparo legal, já que a laqueadura só pode ocorrer se a decisão partir da própria pessoa. No âmbito da saúde, caso a preocupação fosse a vida da mulher, ela deveria ser encaminhada a um tratamento de dependência química, não passar por uma mutilação.

Mães e filhos atrás das grades.2

GESTÃO E CARREIRA

PENSANDO DIFERENTE

Além de incentivar a pluralidade de gênero, raça e cor entre os funcionários, algumas empresas começam a descobrir as vantagens de promover a multiplicidade de pontos de vista e experiências.

Pensando diferente

Promover a diversidade é meta da maioria das empresas que estão sintonizadas com as aspirações da sociedade atual. Muitas já adotam políticas para estimular a pluralidade de gênero, raça, cor e orientação sexual. Mais recentemente, outro tipo de diversidade começou a ganhar visibilidade e ser tema de estudos acadêmicos em nível global: a de pensamento, ou, como vem sendo chamada, diversidade cognitiva.

Em artigo publicado pela escola de negócios Insead em março, os executivos Paul Evans e Bruno Lanvin apontam que, para tarefas que exigem criatividade, equipes diferentes se saem melhor do que aquelas compostas de individuas semelhantes, desde que os membros compartilhem suas habilidades. A variedade de pontos de vista, experiências, conhecimentos, cultura e perspectiva pode enriquecer – e muito – a maneira como as organizações trabalham. Parece simples, mas implantar essa filosofia passa por um árduo caminho. “A responsabilidade pelo desenvolvimento dessa diversidade depende de sistemas educacional e líderes ousados que entendam que não é fácil conseguir que pessoas diferentes trabalhem ou vivam juntas, muito menos colaborem inovem em conjunto”, dizem Evan e Lanvin, também responsáveis pelo Índice de Competitividade Global de Talentos. Segundo eles, as nações que perceberam a importância de incentivar a diversidade lideram o ranking ICGT. No topo está a Suíça, país especialmente sensível à multiplicidade cognitiva.

Existem dois fatores que contribuem para que a pluralidade de pensamentos seja particularmente fácil de ser ignorada pelas empresas, de acordo com Alison Reynolds, professora na Ashridge Business School, do Reino Unido, e David Lewis, diretor do Senior Executive Program na London Business School. O primeiro é que ela é menos visível do que as outras formas – de gênero ou de raça, por exemplo. O segundo é que as organizações criam barreiras culturais que restringem características distintas. “Os empregados gravitam em torno daqueles que pensam e se expressam de maneira semelhante. Como resultado, as corporações têm equipes iguais”, a firmam os especialistas.

A homogeneidade tem impactos: reduz a oportunidade de fortalecer a organização com a contribuição de indivíduos que pensam de maneira oposta e não representa a população ele funcionários, diminuindo a amplitude das iniciativas. “Se você procurar, a diferença cognitiva está por toda parte. Mas os humanos gostam de se encaixar, então, eles são cautelosos em colocar o pescoço para fora”, afirmam Reynolds e Lewis em seu artigo. “Quando temos uma cultura forte e homogênea (por exemplo, uma cultura de engenharia, uma cultura operacional ou uma cultura relacional), sufocamos as variações de pensamento por meio da pressão para se conformar. E podemos até não estar conscientes de que isso está acontecendo.” Para a heterogeneidade aflorar, os líderes têm de melhorar o senso de segurança psicológica de sua equipe.

COMANDO E CONTROLE

No Brasil, os passos no sentido da diversidade cognitiva andam praticamente no mesmo ritmo que a média mundial – tímidos. Para Rafael Souto, presidente da consultoria Produtive, o ambiente corporativo ainda apresenta muita dificuldade em lidar com o pensamento divergente. “Como espécie, não somos muito afeitos aos diferentes, queremos eliminá-los”, afirma o consultor. Boa parte dos gestores inclui o tema em seu discurso de liderança, mas, na prática, funciona a política do comando e controle.

Um jargão que mostra como não há diversidade cognitiva nas instituições é o termo “alinhamento”, muito utilizado no mundo corporativo. Isso nada mais é do que a orientação para os funcionários pensarem do mesmo jeito. “Lidar com as diversas formas de conteúdo é harmonizar”, afirma Souto. “Mas as empresas suportam pouco a divergência, pois, para o senso comum, ela é um problema.” O consultor cita um exemplo recorrente: um profissional que traça sua estratégia de carreira.

“Quando o objetivo traçado pelo indivíduo é diferente do planejado por seu chefe, e ele ousa discordar, a promoção não acontece e ele é colocado na geladeira.”

Nesse cenário, há companhias que tentam pôr em prática a variedade cognitiva e, dela, criar novas estruturas de trabalho. Um exemplo é o Grupo Boticário. Lá, em todos os processos de recursos humanos – admissão, promoção, reconhecimento -, é observada a pluralidade de pensamento. Em cada nível de gestão existem comportamentos a ser observados, como “valorizar dimensões diferentes”, “compor times complementares”, “receber feedbacks e incorporar ideias novas” e “transformar a forma de atuar”. “Valorizamos e alavancamos com base na diferença. É parte de nossa cultura”, diz Graziella D’Enfeldt, diretora de recursos humanos.

Para o Grupo Boticário, cultivar as diferenças em seu ambiente soa óbvio. “Como vamos entender o consumidor se não temos em nosso microcosmo uma representação da sociedade?”, diz Graziella. A diversidade de pensamento também é buscada no programa de trainees. Atualmente, a turma tem 25 jovens, vindos de 17 faculdades. O trabalho de seleção é proativo: o R.H contrata empresas de pesquisas especializadas em entender o mercado jovem e seus hábitos de consumo e busca perfis como: quem faz as melhores festas, quem formula as melhores perguntas ou quem alcança as melhores notas. “É oneroso, mas muito mais preciso”, afirma a executiva de RH. “De uma triagem de 14.000 inscritos, passamos para 60 e temos um número recorde de jovens aceitos como trainee.”

Na outra ponta da cadeia hierárquica, o presidente do grupo, Artur Grynbaum, é um dos que mais procuram exercitar a diversidade cognitiva. Ele tem quatro vice-presidentes bem “diferentes um do outro”. Diz que manter quatro réplicas de si mesmo não acrescentaria em nada, e seus assessores diretos enriquecem e valorizam a gestão.

DEBATE DE IDEIAS

Em urna instituição onde se cultiva a diversidade de ideias, a criatividade e a organização são melhores. Essa é opinião do consultor de diversidade Ricardo Sales. Ele dá o exemplo de uma reunião: se os funcionários sabem que vão debater com pessoas que pensam diferente deles, vão se preparar melhor.

O filósofo e economista Joel Pinheiro da Fonseca cita o próprio exemplo para mostrar como é importante permitir a entrada do diferente nas corporações. “Eu venho da filosofia”, diz. “Se as empresas aceitassem só o perfil-padrão, perderiam muita coisa.” Para a neurocientista Carla Tieppo, a pluralidade permite que tudo que está no ambiente seja aproveitado. “As organizações utilizam melhor seus recursos. Ela é um ativo de uma corporação”, afirma.

Apesar das vantagens, não é fácil adotar a multiplicidade de pensamentos – principalmente se as companhias continuarem empregando por estereótipo. “Não há tanta diferença de olhares sobre o mundo, experiência e background quando as empresas contratam majoritariamente o mesmo perfil: homens brancos de classe média alta”, diz Ricardo Sales. Ou seja, para vicejar com toda a força, a diversidade também precisa brotar de cenários e condições totalmente diferentes.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE III

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

[5] Cristo responde a essa crítica, e comprova que a água viva que Ele tinha para dar era muito melhor do que a do poço de Jacó, vv. 13,14. Embora ela falasse perversamente, Cristo não a rejeitou, mas a instruiu e a encorajou. Ele mostrou-lhe:

Em primeiro lugar, que a água do poço de Jacó produzia somente um bem-estar e um suprimento passageiros: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”. Ela não é melhor do que qualquer outra água. Ela saciará a sede momentânea, mas a sede voltará, e em algumas horas o homem terá a mesma necessidade e desejo de água que sempre teve. Isso sugere:

1. As debilidades dos nossos corpos nesta condição atual. Eles ainda estão necessitados, e têm sempre um desejo ardente. A vida é uma chama, uma lamparina que, sem um suprimento contínuo de combustível e azeite, logo se apagará. O calor natural consome a si mesmo.

2. As imperfeições de todos os nossos confortos neste mundo. Eles não são duradouros, nem nossa satisfação neles, permanente. Sejam quais forem as águas de conforto das quais bebamos, teremos sede novamente. A comida e a bebida de ontem não servirão para a vida de hoje.

Em segundo lugar, que as águas vivas que Ele daria produziriam uma satisfação e bênção duradouras, v. 14. As dádivas de Cristo parecem mais valiosas quando são comparadas com as coisas deste mundo, pois parecerá não haver comparação entre elas. Quem quer que compartilhe do Espírito da graça, e dos confortos do Evangelho eterno:

A. Nunca terá sede, nunca terá a necessidade de algo mais para satisfazer abundantemente os desejos de sua alma. A pessoa poderá estar desejosa, mas não estará padecendo. Esta pessoa poderá ter uma sede que é igual a um desejo, e não almejará nada mais do que a presença e a graça de Deus. Ela desejará ter mais e mais de Deus. Porém, ela não terá uma sede que possa se parecer com o desespero.

B. Consequentemente, nunca terá sede porque essa água que Cristo proporciona “se fará nele uma fonte de água”. Nunca poderá ter sede ao extremo aquele que tem em si mesmo uma fonte de suprimento e satisfação.

(a) Esta fonte estará sempre pronta a jorrar, pois ela estará nele. O princípio da graça plantado nele é a fonte de seu conforto. Veja cap. 7.38. Um homem bom está satisfeito em si mesmo, pois Cristo habita em seu coração. A unção permanece nele. Ele não precisa se esgueirar pelo mundo em busca de conforto. A obra e o testemunho do Espírito no seu coração lhe fornecem um sólido alicerce de esperança, e uma fonte de alegria transbordante.

(b) Esta fonte será infalível, pois estará dentro dele. Aquele que tem na mão apenas um balde de água não terá sede enquanto esta durar, mas ele logo estará vazio. Somente os crentes têm dentro de si uma fonte de água transbordante, sempre fluindo. Os princípios e os sentimentos que o santo Evangelho de Cristo cria nas almas daqueles que são colocados sob seu poder são essa fonte de água.

[a] Ela está jorrando, sempre em movimento, o que evidencia as fortes e vigorosas ações da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossas almas, como água parada, elas não correspondem ao propósito da nossa aceitação. Se em nosso coração houver um bom tesouro, então nós deveremos produzir coisas boas.

[b] Ela está saltando para a vida eterna, o que indica, em primeiro lugar, os objetivos das ações generosas. Uma alma santificada tem sua atenção voltada para o céu, pretende isso, planeja isso, faz tudo por isso, não aceitará nada menos que isso. A vida espiritual salta em direção à sua própria perfeição na vida eterna. Em segundo lugar, a constância dessas ações. Continuará saltando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar; o galardão deles, a vida eterna enfim. A água viva nasce do céu, e, portanto, eleva-se em direção ao céu. Veja Eclesiastes 1.7. E sendo assim, não é essa água melhor do que a do poço de Jacó?

[6] A mulher (alguns pensam que é difícil dizer se por brincadeira ou a sério) pede que Jesus lhe dê um pouco dessa água (v. 15): “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede”. Em primeiro lugar, alguns acham que ela fala com zombaria e ridiculariza o que Cristo tinha dito como sendo mera bobagem. E, por zombaria, não por desejo, desafia-o a lhe dar um pouco dessa água: “Uma invenção rara. Isso me poupará muito trabalho se eu nunca mais tiver que voltar aqui para tirar água”. Mas, em segundo lugar; outros acham que esse foi um desejo bem-intencionado, embora ilógico e ignorante. Ela compreendeu que o Senhor se referia a algo muito bom e proveitoso, e então disse amém, talvez ao acaso. “Seja o que for, que venha. Quem me mostrará algum bem? Facilitar; ou poupar trabalho, é um bem valioso para os pobres trabalhadores. Note:

1. Mesmo aqueles que são fracos e ignorantes podem, ainda assim, ter algumas débeis e hesitantes aspirações em relação a Cristo e suas dádivas, alguns bons desejos de graça e glória.

2. Os corações carnais, em seus melhores desejos, não enxergam nada além de suas finalidades carnais. “Dá-me”, diz ela, não para que eu possa ter a vida eterna (que Cristo propôs), mas “para que não mais tenha sede e não venha aqui tirá-la”.

3. O próximo tópico da conversa com essa mulher é com relação a seu marido, vv. 16-18. Não foi para deixar de lado a conversa sobre a água da vida que Cristo começou a falar nesse assunto, como muitos que fazem qualquer comentário inoportuno durante uma conversa para que possam abandonar um assunto sério. Mas Ele o fez com um propósito benevolente. O Senhor percebeu que aquilo que Ele havia dito com relação à sua graça e à vida eterna causara pouco impacto sobre ela, porque ela não tinha sido convencida do pecado. Por isso, renunciando à conversa sobre a água viva, Ele empenha-se em despertar a consciência dela, para abrir a ferida da culpa, e então ela entenderia mais facilmente a cura que é ministrada pela graça. E este é o método de lidar com as almas. Elas devem, primeiro, estar cansadas e sobrecarregadas pelo fardo do pecado, e então devem ser levadas a Cristo para descansar. Primeiro se sentem atormentadas até o coração, e então são curadas. Este é o caminho da cura espiritual, e se não procedermos nessa ordem, estaremos começando pelo lado errado.

Observe:

(1) A maneira discreta e decente como Cristo introduz essa conversa (v. 16): “Vai, chama o teu marido e vem cá”. Neste momento:

[1] A ordem que Cristo deu a ela tinha uma intenção muito boa: “Chama teu marido, para que ele possa lhe ensinar, e ajudar-lhe a entender essas coisas que você ignora”. As mulheres que querem aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14.35), que devem “coabitar com elas com entendimento”, 1 Pedro 3.7. “Chama teu marido, para que ele possa aprender contigo, para que então ambos possam juntos ser os herdeiros da graça da vida. Chama teu marido, para que ele possa ser testemunha do que se passa entre nós”. Desse modo, Cristo nos ensina a buscar coisas honestas à vista de todos os homens, e ter como objetivo aquilo que for de boa reputação.

[2] Como isso tinha uma boa intenção, tinha também um bom propósito, pois Ele aproveitaria a ocasião para trazer o pecado dela à lembrança. É preciso habilidade e prudência ao repreender. Deve-se planejar, como a mulher de Tecoa, 2 Samuel 14.20.

(2) Com que persistência a mulher busca evitar a condenação, e mesmo assim sem perceber se condena, e, antes que esteja ciente, reconhece seu erro. Ela disse: “Não tenho marido”. Sua declaração sugeria apenas que ela não se importava mais que se falasse de seu marido, nem que esse assunto fosse mencionado. Ela não faria seu marido ir até lá para que a verdade sobre o assunto não viesse à tona para sua vergonha em conversas adicionais: “Por favor, fale de qualquer outra coisa, pois eu não tenho marido”. Seria de se pensar que ela fosse uma serva ou uma viúva, apesar de que, embora não tivesse marido, ela não fosse nem uma coisa nem outra. O pensamento carnal é muito engenhoso e cuidadoso ao esconder o pecado, na tentativa de se afastar e se livrar das condenações.

(3) Com que rigor nosso Senhor Jesus faz a consciência dela entender a condenação. É provável que Ele tenha dito mais do que aquilo que está registrado aqui, porque ela percebeu que o Senhor lhe falara tudo o que ela já tinha feito (v. 29). Mas aquilo que está registrado aqui é relativo aos maridos daquela mulher. Aqui está:

[1] Uma narrativa surpreendente de uma conversa sobre o passado dela: “Tiveste cinco maridos”. Sem dúvida, não era por sua aflição (o sepultamento de tantos maridos), mas por seu pecado, que Cristo pretendia repreendê-la. Ou ela poderia ter fugido para se casar (como diz a lei), fugido de seus maridos e se casado com outros. Ou sua conduta irresponsável, ímpia e desleal os havia levado a se divorciar dela. Ou ainda, por meios indiretos, ela havia contrariado a lei, e se divorciado deles. Aqueles que não levam a sério práticas escandalosas como essas, e fingem que a culpa se extingue assim que a conversa se encerra, devem se lembrar de que todas as coisas estão registradas diante de Cristo.

[2] Uma severa repreensão à sua condição de vida atual: “O que agora tens não é teu marido”. Ou ela nunca havia se casado com ele de modo algum, ou ele tinha alguma outra esposa, ou, o que é mais provável, seu ex-marido ou maridos estavam vivos, de forma que, em resumo, ela vivia em adultério. Observe ainda a suavidade com que Cristo lhe fala sobre isso. Ele não a chama de prostituta, mas lhe diz: “O que agora tens não é teu marido”, e então deixa para sua própria consciência dizer o resto. Note que as repreensões são geralmente mais proveitosas quando são menos ofensivas.

[3] Ainda assim, o Senhor Jesus traz uma interpretação melhor do que aquela que ela poderia trazer. A colocação do Senhor elimina as evasivas e os subterfúgios: “Disseste bem: Não tenho marido”. E outra vez: “Isso disseste com verdade”. O que ela pretendeu que fosse a negação de um fato (que ela não considerou como marido a nenhum homem com quem no caso da lei de Moisés, mas a vontade de Deus é que os homens orem em todo lugar, 1 Timóteo 2.8; Malaquias 1.11. Nosso bom senso nos instrui a considerar a decência e a conveniência dos lugares onde adoramos, mas nossa religião não tem preferência por um lugar em relação ao outro, com respeito à santidade e aceitação por parte de Deus. Aqueles que preferem algum local de adoração somente por causa da casa ou construção na qual a adoração está sendo realizada (mesmo que seja tão magnífica e solenemente consagrada como era o templo de Salomão) se esquecem de que hoje o local onde se adora a Deus já não faz mais diferença. Não há mais uma diferença entre Jerusalém, que tinha sido tão conhecida pela sua santidade, e o monte de Samaria, que havia sido tão mal-afamado pela sua impiedade.

[2] Ele coloca ênfase sobre outras coisas, na questão da adoração religiosa. Ao dar tão pouca importância ao local de adoração, Ele não pretendia diminuir nossa preocupação sobre a questão em si, sobre a qual Ele então aproveita a oportunidade para discorrer mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, quanto ao estado de divergência daquela época, Ele decidiu contra a adoração dos samaritanos, e em favor da dos judeus, v 22. Ele diz aqui:

1. Que os samaritanos certamente estavam errados, não simplesmente porque adoravam nesse monte, embora a preferência por Jerusalém já estivesse em vigor, o que era pecaminoso, mas porque eles estavam errados quanto ao objeto de sua adoração. Se a adoração em si fosse como deveria ser, sua separação de Jerusalém poderia ter sido aceita, pois os melhores reinos tinham seus lugares altos: “Mas vós adorais o que não sabeis”, ou, “aquele que não conheceis”. Os judeus adoravam o Deus de Israel, o verdadeiro Deus (Esdras 4.2; 2 Reis 17.32), mas estavam mergulhados em completa ignorância. Eles o adoravam como o Deus daquela terra (2 Reis 17.27,33), como uma divindade local, como os deuses das nações. Porém, o Senhor Deus deveria ser servido como o único Deus, como o Senhor universal. Observe que a ignorância está muito longe de ser a mãe da devoção, sendo, antes, sua assassina. Aqueles que adoram a Deus na ignorância oferecem animais cegos para sacrifício, e este é o sacrifício de tolos.

2. Que os judeus certamente estavam corretos. Pois:

(1) ‘”Nós adoramos o que sabemos’. Nós caminhamos em terreno seguro em nossa adoração, pois nosso povo é discipulado e educado no conhecimento de Deus, conforme Ele se revelou nas Escrituras”. Note que aqueles que, através das Escrituras, obtiveram um certo conhecimento sobre Deus (embora não um conhecimento perfeito), podem adorá-lo tranquilamente e de maneira aceitável, porque eles sabem o que adoram. Cristo, em outra passagem, condena as distorções da adoração dos judeus (Mateus 15.9), e mesmo assim defende a adoração em si. A adoração pode ser verdadeira mesmo onde ela não é genuína e íntegra. Observe que nosso Senhor Jesus estava feliz em se incluir entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos”. Embora Ele fosse o Filho (logo, estão livres os filhos), mesmo assim Ele aprendeu a obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores entre os homens não pensem que a adoração a Deus seja algo inferior para eles, pois o próprio Filho de Deus não agiu deste modo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

LADOS DE METADES INTEIRAS

O amor pressupõe um eu dividido em partes que se opõem. Essa é a lição de O Visconde Partido ao Meio, uma fábula de Ítalo Calvino que explora o fantástico.

Lados de metades inteiras

Amar o outro faz-nos perceber nossa incompletude. Ao notarmos em nós mesmos dois lados como inimigos irreconciliáveis, sentimos a luta entre eles e também a dor de se ferirem para unirem-se em um todo chamado indivíduo. É dessa forma que obtemos o verdadeiro ato de amar a si e ao outro. Assim nos ensina o livro O Visconde Partido ao Meio de Ítalo Calvino.

O visconde Medardo, no intuito de agradar alguns duques, vai à guerra e é atingido por um tiro de canhão que o divide ao meio. Retorna à sua cidade terra metade do visconde que se revela muito cruel. Quando os habitantes da cidade já estavam desanimados e amargurados, eis que aparece a outra metade como um visconde absolutamente bom. Até que os habitantes percebem que maldades e virtudes igualavam-se na desumanidade, pois pessoas cheias de boas intenções podem ser chatas e terríveis. Por amor a Pamela, essas duas bandas do visconde entram num duelo e se ferem mortalmente. Para salvá-las, o dr. Trelawney costura uma metade na outra e faz das duas partes um único visconde. Nas palavras do autor, “o homem mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo, precisou do amor para tornar-se inteiro”.

Sentir-se pela metade é bem próprio da juventude quando se permite deixar a força natural do desenvolvimento empurrá-la em direção à totalidade, um lugar a que nunca se chega. Em nosso amadurecimento, o sentir-se incompleto deverá continuar para que nos faça sentir que ainda há vida a ser vivida.

Vivemos lidando com a ideia do aceitável e do não aceitável em nossa convivência com aqueles que nos arrodeiam e com os que podem nos dar ou não amor. Escondemos na sombra o comportamento ou ideia que nos pareça fazer perder esse amor e exibimos o que achamos que irá impressionar o outro na ilusão de ser amado. Chega o momento em que nos sentimos divididos e percebemos que parte de nós é desejo e outra parte é renúncia.

Muitas são as feridas que experimentamos em nome da boa educação dos nossos pais e são essas feridas primais que nos atrapalham em fazer parte dessa unidade universal que chamamos natureza. Algumas fazem-nos perder parte de si e, como se estivéssemos atados a um fio invisível, guiamo-nos por ele nessa busca do que possa nos completar. Ao encontrarmos o que estava perdido, unimo-nos pela paixão para depois sentirmos tão opostas as nossas idealizações que precisamos sofrer para nos darmos conta do quanto o ideal é inimigo do real.

Metade de nós revela virtude, outra metade mostra maldade, mas, para além dessas metades, existimos. Precisamos sair dessa ignorância de nos sentirmos inteiros. Inteiros por pensarmos que somos só virtuosos ou então apenas destrutivos até que os sintomas apareçam para denunciar a inconsciência dessa unilateralidade.

Ensina a Psicologia de C. G. Jung que todas as vezes em que o homem se encontra em um de seus extremos, sua outra parte o avisa em sonhos. Um homem vivendo sua unilateralidade como o bem absoluto ou o mal absoluto é alguém que prejudica os demais e a si próprio com a sua incompletude. Quando conseguimos alertá-lo desses lados opostos e irreconciliáveis, precisamos de um ego forte para suportar a tensão até que transcenda para uma terceira condição completamente nova. Essa terceira condição é diferente de cada uma das duas outras originais, mas também contém, de algum modo, aquelas mesmas partes opostas entre si.

Quando metade de nós mesmos não consegue amar, e essa condição pertence a outra metade à qual não conseguimos estar unidos, o objeto do nosso amor poderá nos fazer sentir confusão já que não estamos inteiros nesse ato. Uma metade luta com a outra, e apenas quando se ferem é que se torna possível, mediante tratamento, transcender esses opostos incompatíveis para tornarem-se unos e dignos dessa união. Descobrimos que nossa parte perdida estava projetada nos outros e era tracionada pela angústia da incompletude. Dessa forma, o papel do analista é costurar e unir o que antes existia separadamente.

Sofremos com o drama de nos sentirmos inacabados. Sempre estamos por nos completar com alguma busca que muitas vezes aparece na forma de objetos ou atitudes irracionais, diagnosticados como angústias existenciais. É o sofrimento da alma do homem sempre a buscar se completar com afazeres e atividades lúdicas, ou mesmo vícios, expressões imaginais do que o completa.

Por outro lado, aqueles que se sentem completos talvez não sintam mais a necessidade de viver para buscar o que lhes falta. A nossa parte boa e a parte mesquinha nunca conseguem fazer ao outro algo virtuoso, porém a luta entre esses dois lados é a esperança da inteireza. Somente o homem consciente de sua incompletude e em busca de se harmonizar com a natureza que o acolhe, e que ele chama de Deus, é que poderá tornar-se um indivíduo.

Para aqueles que enxergaram a disputa de Hillary Clinton e Donald Trump como o discurso de um lado bom e civilizado contra um lado mau e primitivo, eu convido-os a refletirem sobre o que existe de certeza no que vai ser e o quanto em nós mesmos aparecem esses dois lados disfarçados em sintomas ou modos de vida inapropriados à evolução do ser.

 Lados de metades inteiras2

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br www.ijba.com.br

OUTROS OLHARES

VINGANÇA E PORNOGRAFIA ON-LINE

Os modelos de expressão da sexualidade sofreram alterações significativas ao longo das últimas décadas, principalmente no que se refere ao conceito de “explícito”.

Vingança e pornografia on-line

Tempos atrás seria impensável termos revistas, websites, filmes, livros e debates acalorados sobre sexo e suas vertentes. Essa é uma conquista de muitos anos de lutas, dores e de diversas causas, desde a igualdade entre homens e mulheres até a libertação sexual. Porém, como todas as mudanças, essa também está inserida, no século XXI, no campo da tecnologia e, como esperado, algumas características negativas surgiram.

Um tema que passou a ter maior visibilidade na ciberpsicologia, que relaciona a sexualidade negativamente ao uso de aparelhos eletrônicos, é o chamado revenge porn, que pode ser compreendido como o ato de utilizar fotos íntimas como um recurso para realizar chantagens ou punições, com o conhecimento ou não do outro. Um exemplo comum é um relacionamento entre jovens em que, após a ruptura, o parceiro ou parceira ameaça divulgar fotos eróticas do outro na internet caso a relação de fato seja finalizada. Esse tipo de comportamento está atrelado a diversos danos emocionais a quem sofre essa retaliação, desde sintomatologia condizente com transtorno depressivo maior até casos de suicídio. Dessa forma, de maneira diretiva, comento alguns tópicos que podem ajudar no cuidado para que esse tipo de experiência não ocorra com você, leitor(a), ou com pacientes que narram essa demanda.

O primeiro ponto: verifique seus pensamentos de permissão. Comumente os pacientes   mencionam que enviar fotos íntimas para o(a) parceiro (a) não irá gerar consequências, o que é um engano em vários casos. Na verdade, existem diversos tipos de problemáticas relacionadas a esse comportamento, como o risco de invasão de hackers que possam utilizar essas fotos para fins negativos, assaltos (permitir ao infrator ter acesso ao banco de dados do celular), enviar de forma incorreta fotos para grupos de WhatsApp (casos de vídeos e fotos que caem em grupos da família desse aplicativo não são raros) e,  por fim, o revenge porn. Os pensamentos de ponderação plausíveis seriam: “isso também pode acontecer comigo”, “não é seguro enviar fotos, mesmo em aplicativos em que as fotos são dissolvidas após alguns segundos” (ex.: Snap), “a intimidade do casal pode ser preservada de outras formas” e “enviar fotos eróticas não é necessariamente prova de amor”. Esse último é um relato constante em consultório, principalmente pelas mulheres. Em vários momentos ouço que é prova de amor enviar esse tipo de fotos para o parceiro. Outras mencionam que se sentiam pressionadas a isso. Por fim, já me foi narrado um evento em que a paciente necessitou enviar fotos íntimas para o parceiro, quando este estava viajando, para que ele não a traísse.

Segundo tópico é a objetificação: ainda existe uma cultura (doentia) predominante de que as mulheres são vistas como objeto e o envio de fotos permite que diversos parceiros (as) as utilizem como troféus, mostrando-as para terceiros (esses relatos costumam ser feitos por pacientes do sexo masculino). Combatendo esse ponto, perspectivas do campo da Psicologia demonstram que enviar fotos íntimas pode estar relacionado a diversos problemas psicológicos, dentre eles prejuízos significativos na autoestima, dificuldades sexuais, transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade. Um tópico secundário à objetificação é o julgamento: a mulher comumente é relatada como a culpada. Em relação a esse terceiro aspecto, é verificado que, infelizmente, ainda existe um abismo para que esse tipo de avaliação machista seja modificado, porém, em diversos veículos de comunicação e nos relatos de pacientes em consultório, existe uma sincronia nessa informação: a mulher foi quem errou em enviar as fotos, o homem não.

Aspectos legais: um site intitulado endrevengeporn.org tem como proposta gerar campanhas para a criminalização do revenge porn, que é considerado um tipo de abuso sexual.

No campo da legislação ainda existem lacunas sobre a punição de quem tem esse tipo de conduta, as leis banindo essa prática ainda estão sendo discutidas, e os fatores que contribuem são diversos, desde a dificuldade de compreender o assunto como a minimização dos danos do revenge porn. Apesar de ser um tema ainda emergente, mas que, como dito, já entrou no campo da discussão da Psicologia, é inegável verificar os inúmeros impactos que ele traz à vítima. A principal estratégia, até então, é a prevenção. As atuais configurações nos relacionamentos, a ascensão da cibercultura e a liberação da sexualidade são realidades, porém toda essa alteração social deve e pode ser vivenciada com poucos riscos à integridade emocional dos envolvidos. Como psicoterapeuta, meu posicionamento é de não estimular o envio de fotos íntimas, mesmo que estejamos suscetíveis a isso.

 

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo- comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com