PSICOLOGIA ANALÍTICA

PREOCUPAÇÃO COM DINHEIRO PODE CAUSAR DOR FÍSICA

Estudo recente relaciona a economia instável à sintomas somáticos e à maior sensibilidade ao desconforto.

Preocupação com dinheiro pode causar dor física

Poucas coisas causam tanta ansiedade quanto não saber quando chega o próximo pagamento. Ou ter a convicção de que o montante a ser recebido não será suficiente para quitar todas as contas. Além das dificuldades práticas, a insegurança econômica traz consigo um amplo espectro de efeitos negativos, incluindo sentimentos de baixa autoestima e prejuízo do funcionamento cognitivo. Cientistas descobriram ainda que o estresse financeiro pode causar dor física. É o que mostra um artigo publicado este ano no periódico científico Psychological Science.

A pesquisadora Eileen Chou, doutora em ciências e professora de políticas públicas na Universidade da Virgínia, e seus colaboradores começaram o estudo pela análise de um conjunto de dados de 33.720 famílias americanas. Os cientistas constataram que aquelas com maiores níveis de desemprego eram mais propensas a comprar analgésicos isentos de prescrição. Utilizando comparação de dados e revendo experimentos já realizados nessa área, a equipe descobriu que o simples fato de pensar sobre insegurança financeira bastava para aumentar a sensação dolorosa. Por exemplo, as pessoas relatavam sentir quase o dobro de dor física após se lembrar de um período financeiramente instável em suas vidas, em comparação aos momentos em que rememoraram algum período de segurança econômica.

Em outro experimento, foi pedido a estudantes universitários que mantivessem as mãos num balde de gelo o máximo que pudessem, até que a sensação se tornasse dolorosa. Os voluntários mais ansiosos, que ouviam informações com o objetivo de despertar neles sentimentos de ansiedade em relação ao futuro profissional, removiam as mãos do balde de gelo mais rápido (mostrando menos tolerância à dor) do que aqueles que não eram. Os pesquisadores descobriram também que a insegurança econômica reduzia o senso de autocontrole das pessoas, o que, por sua vez, aumentava a sensação dolorosa.

Chou e seus colegas sugerem que, por causa dessa relação entre insegurança financeira e diminuição da tolerância à dor, a recessão pode ter sido um fator de promoção da epidemia da prescrição de analgésicos nos Estados Unidos. No Brasil, não há dados que mostrem a correlação recente entre venda de analgésicos e crise financeira. Mas a ideia é bastante plausível, principalmente se considerarmos que o estresse em geral é bastante conhecido como responsável pelo aumento das sensações de dor. Mais pesquisas são necessárias para separar a ansiedade financeira de outras fontes de pressão. “A hipótese de que o estresse financeiro causa dor tem lógica, embora seja útil ver outras evidências rigorosas num ambiente do mundo real”, diz a economista Heather Schofield, professora da Universidade da Pensilvânia, que não participou do estudo.

AFETO AJUDA A ALIVIAR OS INFORTÚNIOS FINANCEIROS

Além de contribuir para o aumento da sensibilidade à dor física, o estresse financeiro pode influir também nos estados emocionais, exacerbando a sensação de angústia. Estudos comprovaram que ganhar menos dinheiro intensifica a tristeza que normalmente resulta de situações difíceis que enfrentamos na vida, como divórcio, problemas de saúde e solidão. Mas as dificuldades financeiras não significam que a pessoa esteja fadada a sofrer. Um estudo americano de 2014 constatou que o apoio social pode ajudar a proteger tanto contra a dor psicológica quanto contra a física associada ao estresse financeiro. Nesse sentido, o afeto pode funcionar como fator de proteção.

Em relação à dor física, a eficácia do toque carinhoso para diminuir a intensidade do desconforto já havia sido comprovada há alguns anos, por cientistas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Levando em conta o fato já conhecido de que sinais elétricos percorrem fibras neurais especializadas para informar o cérebro de que nossa pele está sendo tocada, os pesquisadores usaram uma técnica conhecida como microneurografia. Eles “seguiram” esses impulsos no braço de voluntários e observaram que, quanto maior sua frequência – proporcional à intensidade do afago -, maior a sensação de prazer relatada pelos participantes. Essas fibras especializadas, uma vez estimuladas, são capazes de atenuar sinais dolorosos originados em outras partes do corpo, relataram os autores do artigo publicado na revista Nature Neuroscience.

OUTROS OLHARES

COMO NOSSOS AVÓS

Quem são e o que pensam os jovens adeptos do “namoro de corte”, em que o primeiro beijo é dado depois do casamento.

Como nossos avós

Aos 22 anos, a professora Samila Souza Rodrigues namora há dois e está de casamento marcado para janeiro de 2018. Subir ao altar com o noivo, Roney Reis de Andrade, 23anos, significará mais do que a celebração de uma nova vida. É quando vai acontecer o primeiro beijo do casal. Isso mesmo, primeiro beijo. Para além de movimentos como “Eu Escolhi Esperar”, em que casais decidem ter relações sexuais apenas depois de se casarem, e na contramão das reivindicações dos jovens por mais liberdade quando o assunto é sexo, há pessoas que decidem começar um relacionamento e namorar nos moldes de antigamente sem beijo, sem contato físico, sempre com alguém por perto. É o chamado “namoro de corte”. “Quem vê de fora pensa que é loucura, mas não, é uma decisão bem consciente. Claro que tenho desejo, mas quero fazer tudo dentro da aliança do casamento, no tempo certo'”, afirma Roney.

REDUÇÃO DE “DANOS”

A ideia de “namoro de corte” está totalmente atrelada à religião. Entre os casais que aderem à prática, pelo menos uma das duas pessoas faz parte de alguma igreja em que se discute sobre a importância de se relacionar mais intimamente só depois de firmado o compromisso do matrimônio. Pode parecer pouca gente, mas há um grande número de comunidades on-line dedicadas a tratar apenas desse assunto. Os defensores explicam o que é, discutem o que vale e o que não vale dentro da “corte” e trocam experiências. O consultor de marketing Rodrigo Santos Rodrigues de Andrade, 25 anos, é dono de um dos grupos nas redes sociais que tratam do assunto, ele próprio adepto dessa modalidade de namoro. “Antes de saber o que era, já tinha decidido que era o que eu queria. Como não tem contato físico, é livre de depravações”, diz Rodrigo. “Comecei a conversar com minha atual namorada em fevereiro sobre a possibilidade de nos relacionarmos. Tiramos um período para oração, para ter certeza se era o que queríamos e, em abril, oficializamos nossa ‘corte’.  Segundo os casais, não há garantia do sucesso do relacionamento, ainda que os riscos sejam menores. No site Eu Escolhi Esperar, que integra um movimento nacional, há depoimentos como o da advogada e cristã Kamila Carvalho Borges, “A corte também não é uma garantia que o romance dará certo, mas que se não acontecer da maneira esperada, os ‘danos’ serão menores, e em alguns casos, Inexistentes”, afirma ela, que é casada com o cantor e compositor Lincoln Borges, membro da Missão Cristo Vive, de Vitória (ES), “Não significa reprimir desejos. Apenas esperar o momento certo. Posso dizer isso pela minha vida e por tudo que tenho desfrutado que está sendo uma experiência preciosa”, afirma Roney.

 

INSPIRAÇÃO NA ESCRITURAS

A maioria dos jovens pratica o namoro de corte por motivação religiosa, citando os versículos bíblicos de I Tessalonicenses 4:3-4

“A vontade de Deus é que vocês sejam santificados: abstenham-se da imoralidade sexual”.

“Cada um saiba controlar o seu próprio corpo de maneira santa e honrosa”.

GESTÃO E CARREIRA

AS LIÇÕES DA DAMA DE OURO

O que a brilhante trajetória de Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos, nos ensina sobre superação e sucesso na vida pessoal, na carreira e na esfera empresarial.

Maria Bueno

O tênis me levou a lugares inimagináveis. Por exemplo, ao convívio com Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos e, por quatro vezes, em 1959, 1960, 1964 e 1966, também melhor do mundo. Com Maria Esther, que nos deixou no dia 8 de junho, aprendi lições que pareciam pertencer ao universo do esporte. Eram, na realidade, lições de vida, de carreira e de sucesso empresarial.

Quando Maria Esther e eu nos conhecemos, em meados dos anos 70, ela ainda jogava alguns torneios, mas estava encerrando a carreira. Eu tinha 16 anos e havia me tornado o melhor tenista do clube que representava. Lá, porém, não tinha mais espaço para crescer. Meu pai sabia da tradição da Sociedade Harmonia de Tênis, clube fundado há quase 90 anos em São Paulo por amantes do esporte pelo qual eu, adolescente, me apaixonei. Éramos de uma família de classe média baixa, muito longe do poder aquisitivo necessário para ter um título, mas de alguma maneira ele conseguiu que eu fosse admitido como sócio- atleta. Foi o melhor presente que recebi dele.

No Harmonia, dei de cara com os melhores tenistas do Brasil. E com Maria Esther. Diferentemente dela, eu não tinha um talento natural, mas ganhava no esforço. Naquele momento, o que tínhamos em comum era a paixão pelo tênis e uma imensa vontade de treinar. Vendo minha vontade de melhorar, ela decidiu treinar comigo. Começou assim nossa amizade de 43 anos, dentro e fora das quadras. Uma amizade que fortaleceu minha formação e ajudou a moldar minha visão do mundo empresarial. No fim do dia, alta performance é alta performance, seja na quadra, seja na empresa. Compartilho algumas das lições que aprendi com a Rainha porque acredito nas afinidades entre esses dois mundos — o dos negócios e o dos esportes de alto rendimento, no qual brilhou Maria Esther.

1. TALENTO SOZINHO NÃO LEVA NINGUÉM MUITO LONGE.

Maria Esther era uma tenista maravilhosamente talentosa, mas não se acomodava nesse status privilegiado: trabalhava duro para maximizar o dom que era só dela. Treinava todos os dias, muitas horas por dia, com chuva ou sol. Vejo muitos jovens executivos e esportistas cujo talento é desperdiçado porque não estão dispostos a pagar o preço de cultivá-lo. Maria Esther me ensinou que talento sem trabalho árduo não leva a lugar nenhum.

2. SOMOS RESPONSÁVEIS POR NOSSO APRENDIZADO.

Em sua obsessão por treinar, Maria Esther saiu de casa cedo, aos 14 anos, e mudou-se para a Europa somente com a passagem de ida. Sabia que, se ficasse no Brasil, não teria oportunidades. Foi sozinha, sem pai, sem mãe e sem staff — coisa que outras atletas de sua geração, de outras nacionalidades, já tinham. Certa vez, o técnico australiano Harry Hopman se ofereceu para treiná-la. Durou uma semana: Maria Esther entendeu rapidamente que lhe bastavam seu foco e sua genialidade. Enquanto todo mundo apregoa a necessidade de coaches, mentores e afins, ela me mostrou que não vale a pena entregar nossa educação e nossa carreira aos outros. Cabe a cada um assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.

3. “DESCULPABILITY” É PARA OS FRACOS.

Adoro a palavra “desculpability”, título do livro de um amigo, João Cordeiro. João escreve sobre nossa tendência a encontrar desculpas para justificar todas as nossas fraquezas. Maria Esther não conhecia a desculpability. Enquanto jogava tênis, passou por 22 cirurgias para corrigir lesões nos braços, ombros, ligamentos. Nunca pensou em desistir. Era o preço a ser pago, e ela pagava. Li em um site da Inglaterra que a tenista “ignorou o destino que lhe foi prescrito e assumiu o comando de sua carreira vitoriosa”.

4. A OBSESSÃO PELA VITÓRIA FAZ BEM.

Quando jogava nos Grand Slams, Maria Esther competia em três categorias: simples, duplas e duplas mistas. Chegou a jogar 120 games num único dia, com raquete de madeira, muito mais pesada do que as de hoje, e acertando uma bola que se movimentava mais lentamente. Não chegou a levar o título nas três num único torneio. “Uma vez, em Wimbledon, ganhei simples, ganhei dupla feminina, fui para a final de dupla mista, mas meu parceiro fez dupla falta no match point”, disse-me em certa ocasião. Quando perguntei a ela se preferiria ter jogado em uma só categoria, como os atletas de hoje, me respondeu: “Eu jogaria tudo de novo”. Em tempo: quando foi a melhor do mundo, os jogadores não recebiam os prêmios milionários de hoje. Depois de uma vitória em Wimbledon, o prêmio foi um voucher para comprar um traje esportivo na loja do torneio. Seu objetivo era a vitória, o troféu, entrar para a história.

5. SEMPRE É POSSÍVEL INOVAR.

Maria Esther foi uma jogadora inovadora em pelo menos dois aspectos. Primeiro, na tática. Enquanto todas as outras jogavam no fundo da quadra (e até hoje é assim: poucas vêm para a rede, preferindo mandar pauladas da linha de fundo), ela aprendeu a jogar na rede. Seus voleios ficaram famosos e inspiraram as jogadoras Billie Jean King e Martina Navratilova. Segundo, ao levar a moda para as quadras. Seus vestidos mais elegantes foram desenhados pelo estilista Ted Tinling, abrindo caminho para os trajes fashion de estrelas como Serena Williams e Maria Sharapova.

6. BOA COMUNICAÇÃO É COISA SÉRIA.

Com outros atletas, Maria Esther tinha uma comunicação fácil, fluida, baseada em frases curtas e ideias fortes. Quando me via meio estático em quadra, totalmente concentrado, ela dizia: “Happy feet, parceirinho (ela me chamava assim), happy feet!” “Pés felizes” era a senha para que eu me movimentasse mais, e a frase marcou minha trajetória como empresário, instigando-me a ficar atento, focado em situações de tensão. Da mesma forma, quando eu jogava uma sequência de bolas curtas, fáceis de rebater, ela me repreendia: “Bola chata, parceirinho!” — exigindo que eu a desafiasse com bolas longas, que a colocassem para trás. “Bola chata” ficou para mim como uma maneira eficaz de lidar com a concorrência.

7. VALORES NÃO SÃO NEGOCIÁVEIS.

Para Maria Esther, a lealdade à família e aos amigos vinha em primeiro lugar. Em 2012, quando seu irmão, Pedro Bueno, adoeceu com Alzheimer, ela era contratada pela Federação Internacional de Tênis para dar clínicas e palestras pelo mundo. Maria Esther cancelou tudo para acompanhar o tratamento dele e ficou a seu lado até o fim. Em 2014, quando se celebravam os 50 anos de sua vitória em Wimbledon e no US Open, propus a ela que lhe prestássemos uma homenagem em minha casa. Discreta, ela relutou, mas acabou cedendo à ideia, com uma condição: “Parceirinho, eu convido”. De fato, convidou oito amigos, todos homens, tenistas com quem dividia quadras havia décadas. Descartou minha sugestão de chamar imprensa e celebridades, fazendo valer seu conhecido “ego zero” — bem diferente de tantos executivos e empresários hoje.

A morte de Maria Esther foi uma perda pessoal. Convivi com ela, aprendi com ela, me emociono quando entro no Harmonia e penso que ela não virá. Como Peter Drucker, com quem também tive a honra de conviver, era uma pessoa iluminada. Como Drucker, poderia ter tido uma vida glamourosa, mas optou por uma rotina pacata, focada no trabalho duro e na busca pela vitória e pela excelência. Naquele jantar em 2014, combinamos que cada um dos amigos faria um pequeno relato de como Maria Esther tinha influenciado sua vida. Ela ouviu tudo, levemente surpresa, e ao final disse: “Nossa, eu não tinha ideia do que tinha feito por vocês. Para mim, eu estava apenas jogando tênis”.

 

JOSÉ SALIBI NETO – é consultor e coautor do livro Gestão do Amanhã (Editora Gente).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 1-16 – PARTE I

Alimento diário

A Cura no Tanque de Betesda

Essa cura milagrosa não é registrada por nenhum outro dos evangelistas, que se restringem principalmente aos milagres realizados na Galileia, mas João relata aqueles realizados em Jerusalém. Com relação a isso. observe:

I – A época em que essa cura foi realizada: foi em “uma festa dos judeus”, isto é, a da Páscoa, pois era a festa mais celebrada. Cristo, embora residindo na Galileia, subiu a Jerusalém para a festa, v 1.

1. Porque esta era uma ordenança de Deus, a qual. como um súdito, Ele cumpriria, pois fora imposta sob a lei. Embora, como Filho, Ele pudesse ter pleiteado uma isenção. Desse modo, o Senhor Jesus nos ensinaria a participar das reuniões religiosas, dos cultos ao Senhor, Hebreus 10.25. 2. Porque esta era uma oportunidade de fazer o bem, pois:

(1 ) Havia grande s multidões reunidas em Jerusalém naquele momento. Era um encontro geral, ao menos de t odos os pensadores sérios de todas as partes do país, além de prosélitos de outras nações. E a Sabedoria deve clamar nos lugares de grande afluência de pessoas, Provérbios 1.21.

(2) Seria de se esperar que elas estivessem em um bom estado de espírito, pois tinham vindo para juntas adorar a Deus e passar o tempo em práticas religiosas. Sendo assim, uma mente propensa à devoção, e isolando-se com vistas aos exercícios de piedade, permanece muito aberta às futuras descobertas da luz e amor divinos, e para ela Cristo será agradável.

II – O lugar onde essa cura foi realizada: no tanque de Betesda, que tinha em si uma milagrosa virtude de cura, e que aqui é detalhadamente descrita, vv. 2-4.

1. Onde ele estava situado: “Em Jerusalém … próximo à Porta das Ovelhas”. Poderia muito bem ser traduzido como o estábulo das ovelhas, onde o rebanho era mantido, ou a Porta do Gado, sobre a qual lemos em Neemias 3.1, através da qual os rebanhos eram trazidos, como o mercado das ovelhas, onde estas eram vendidas. Alguns acham que este se situava próximo ao Templo, e, se é assim, este foi um espetáculo melancólico, porém produtivo, para aqueles que subiram ao Templo para orar.

2. Como ele era chamado: era um “tanque” (um reservatório ou banho), “chamado em hebreu Betesda” casa de misericórdia. Porque nele aconteciam muitas das misericórdias de Deus para com os doentes e enfermos. Em um mundo de tanta miséria como este nosso, é bom que existam alguns Betesdas casas de misericórdia (remédios contra esses males), para que o cenário não seja totalmente de melancolia. O lugar era um abrigo para pobres, segundo o Dr. Hammond. O Dr. Lightfoot acredita que esse era o viveiro superior (Isaias 7.3), o viveiro velho, Isaías 22.11, que tinha sido usado para a lavagem de contaminações cerimoniais, cujos alpendres foram construídos a fim de que as pessoas se vestissem e se despissem dentro deles, e que mais tarde se tornara um local de curas.

3. Como ele foi adaptado: havia cinco alpendres, claustros, varandas ou calçadas cobertas, onde jaziam os doentes. Desse modo, a caridade dos homens cooperava com a misericórdia de Deus para o alívio dos enfermos. A natureza fornece os remédios, mas os homens devem fornecer os hospitais.

4. Como ele era frequentado por doentes e paralíticos (v. 3): “Nestes jazia grande multidão de enfermos”. Quantas são as angústias dos aflitos neste mundo! Como são repletos de queixas todos os lugares, e quantas multidões de pessoas estão incapacitadas! Pode nos fazer bem visitar os hospitais algumas vezes, para que possamos nos valer da oportunidade, a partir das adversidades dos outros, de agradecer a Deus pelo nosso bem-estar. O evangelista especifica três tipos de pessoas enfermas que jazem aqui: cegos, coxos e paralíticos ou de pouca força, em uma parte em particular, como o homem com a mão mirrada, ou completamente paralíticos. Esses são mencionados porque, sendo menos capazes de se locomoverem para dentro da água, permaneciam por mais tempo esperando nos alpendres. Aqueles que estavam enfermos ou acometidos dessas doenças corporais esforçavam-se para vir de longe e tinha paciência para esperar muito tempo por uma cura. Qualquer um de nós teria feito o mesmo, e assim nós devemos fazer. Mas, Oh! Se os homens fossem tão sábios com suas almas, e tão ansiosos para ter suas doenças espirituais cura das! Somos todos, por natureza, impotentes nas coisas espirituais, cegos, coxos e paralíticos, mas uma provisão eficaz é feita para nossa cura, se simplesmente seguirmos as ordens que recebemos do Senhor.

5. Que virtude tinha este tanque para curar essas pessoas incapazes (v. 4). “Um anjo descia”, e “agitava a água”, e “o primeiro que ali descia… sarava de qualquer enfermidade que tivesse”. Que essa estranha virtude no tanque era natural, ou, mais exatamente, artificial, e que era o efeito da lavagem dos sacrifícios que impregnava a água com alguma virtude curativa, mesmo para as pessoas cegas, e que o anjo era apenas um mensageiro, uma pessoa comum, enviada para revolver a água, é completamente infundado. No Templo, havia um recinto exclusivo para a lavagem dos sacrifícios. Os comentaristas concordam, geralmente, que a virtude que esse tanque tinha era sobrenatural. É verdade que nenhum dos autores judeus, que não são econômicos ao relatar as glórias de Jerusalém, faz qualquer menção a este tanque de cura, e talvez a razão do silêncio a seu respeito se deva ao fato de que as curas ali realizadas eram interpretadas como um presságio de que a chegada do Messias estava próxima. E, por essa razão, aqueles que negaram que Ele estava para chegar, habilmente ocultavam tal presságio de sua vinda. Portanto, isso é tudo o que temos a esse respeito. Observe:

(1) A preparação do remédio por um anjo, que descia ao tanque e agitava a água. Anjos são servos de Deus, e amigos da humanidade. E talvez sejam mais efetivos na eliminação de doenças (como os anjos maus em infligi-las) do que temos ciência. Rafael, o suposto nome de um anjo, significa medicina Dei remédio de Deus, ou, mais exatamente, médico. Veja a que funções inferiores os santos anjos se submetem para o bem dos homens. Se fizermos a vontade de Deus, como fazem os anjos, devemos considerar que somente o pecado está abaixo de nós. A agitação da água era o sinal dado da descida do anjo, como a marcha pelas copas das amoreiras fora para Davi, e então eles deviam se apressar. As águas do santuário são então curativas quando postas em movimento. Os ministros de­ vem despertar o dom que há em si mesmos. Quando eles são indiferentes e tediosos em seus ministérios, as águas se acalmam, e não são capazes de curar. O anjo descia, para agitar a água, não diariamente, talvez não frequentemente, mas em um certo tempo. Alguns acreditam que o anjo descia por ocasião das três festas solenes, para abrilhantar aquelas cerimônias. Ou, de vez em quando, como a Sabedoria Infinita considerava adequado. Deus é independente ao conceder seus favores.

(2) A ação do remédio: fosse quem fosse o primeiro que ali entrasse, era curado. Eis aqui:

[1] A milagrosa amplitude da virtude quanto às doenças curadas. Qualquer que fosse a doença, essa água a curava. Banhos naturais e artificiais são tão prejudiciais em alguns casos quanto proveitosos em outros, mas este era um remédio para todas as enfermidades, até mesmo para aquelas que eram incuráveis. O poder dos milagres tem sucesso onde o da natureza sucumbe.

[2] Uma milagrosa limitação da virtude quanto às pessoas curadas: aquele que entrasse primeiro tinha a recompensa, isto é, aquele ou aqueles que entrassem imediatamente eram curados, não aqueles que demoravam e entravam depois. Isso nos ensina a observar e a aproveitar nossas oportunidades, e a estarmos atentos, para que não deixemos escapar um momento que pode nunca mais voltar. O anjo agitava as águas, mas os doentes tinham que entrar por sua própria conta. Deus introduziu virtude nas Escrituras e nas ordenanças, pois Ele deseja nos curar, mas, se não fizermos o uso devido destas, não seremos curados, por nossa própria culpa.

E esta é toda descrição que temos desse milagre permanente. É indeterminado quando ele começou e quando cessou. Alguns presumem que ele começou quando Eliasibe, o sumo sacerdote, iniciou a construção do muro em volta de Jerusalém, e o santificou com uma oração, e que Deus afirmou sua aceitação ao conceder essa virtude ao tanque adjacente. Alguns pensam que ele começou naqueles dias, por ocasião do nascimento de Cristo. Enquanto outros entendem que este início ocorreu em seu batismo. O Dr. Lightfoot, ao encontrar em Josefo, Antiq., liv. 15, cap. 7, menção de um grande terremoto no sétimo ano de Herodes, trinta anos antes do nascimento de Cristo, supôs, visto que ali costumavam acontecer terremotos durante a descida dos anjos, que esta foi a ocasião em que o primeiro anjo desceu para agitar essa água. Alguns pensam que cessou com esse milagre, outros, com a morte de Cristo. Contudo, é certo que teve um significado piedoso. Em primeiro lugar, era um símbolo da boa vontade de Deus para com aquelas pessoas, e um indício de que, embora eles estivessem há muito sem profetas e milagres, ainda assim Deus não os havia rejeitado. Embora eles fossem agora pessoas oprimidas e desprezadas, e muitas estivessem prontas para dizer: “O que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram?”, Deus, através disso, os fez saber que Ele ainda tinha um benefício para a cidade das solenidades deles. Nós podemos, através disso, aproveitar a ocasião para reconhecer com gratidão o poder e a bondade de Deus nas águas minerais, que tanto contribuem para a saúde da humanidade, pois Deus fez as fontes das águas, Apocalipse 14.7. Em segundo lugar, era uma figura do Messias, que é a fonte acessível, e destinava-se a aumentar as expectativas das pessoas sobre aquele que é o Sol da Justiça, que surge com a cura sob suas asas. Essas águas haviam sido usadas antigamente para purificar agora para curar, para significar tanto a purificação quanto a virtude curativa do sangue de Cristo, aquele banho incomparável, que cura todas as nossas doenças. As águas de Siloé, que enchiam esse tanque, representavam o reino de Davi e de Cristo, o Filho de Davi (Isaias 8.6). De maneira adequada, então, eles têm agora essa virtude soberana introduzida em si mesmos. A lavagem da regeneração é para nós como o tanque de Betesda, curando nossas doenças espirituais, não em certas épocas, mas sempre. Quem quiser, venha.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ESTREITA RELAÇÃO ENTRE ORGASMO E CONSCIÊNCIA

Para psicólogo, o prazer sexual pode funcionar como um breve “descanso” para o cérebro, atenuando momentaneamente as preocupações, o julgamento e o autocontrole.

A estreita relação entre o orgasmo e a consciência

Apesar do grande interesse das pessoas por assuntos que envolvem a sexualidade, do ponto de vista neurológico o orgasmo foi por muito tempo um processo misterioso. Hoje, porém, já se sabe que faz parte do êxtase a redução do nível de consciência, alterações da percepção corporal e diminuição da sensação de dor, graças a técnicas de imageamento cerebral, que há pouco mais de uma década passaram a ser usadas para estudar mecanismos do prazer sexual. O curioso é que, no âmbito do cérebro, efeitos muito similares podem ser causados tanto por experiências religiosas quanto pelas puramente mundanas, como o orgasmo. Nos dois casos, podem ocorrer simultaneamente a experiências difíceis de ser descritas com palavras, como perda do sentido de identidade e dos limites corporais.

“Uma das descobertas recentes mais interessantes nessa área é que, embora o lobo frontal esquerdo esteja ligado ao prazer, essas manifestações são processadas em ambos os lados do cérebro”, observa a pesquisadora da Escola de Ciências Biológicas, Biomédicas e Molecular da Universidade New England, Gemma O’Brien, formada em neurofarmacologia e fisiologia. Em um dos estudos que se baseiam em técnicas de observação do cérebro em funcionamento, o hemisfério direito parece ser o mais ativo durante o sexo. Nos exames de neuroimagem, essa área se torna tão iluminada durante o orgasmo que em um estudo, quando a maior parte do cérebro permaneceu escura, o córtex pré-frontal direito parecia uma ilha brilhante. Embora cada vez mais se fale de integração entre os dois lados cerebrais, novas pesquisas sugerem que o direito é hiperativo em pessoas com comportamento sexual exagerado em razão de algum dano neurológico, em que aparecem sintomas específicos. Por exemplo, o paciente toca o próprio corpo e se masturba em público sem sentir vergonha e faz propostas de conteúdo sexual a qualquer um que lhe pareça remotamente atraente.

O mais surpreendente nisso é que o prazer não está classicamente associado ao hemisfério direito – e sim ao esquerdo, mais ativado quando recordamos situações agradáveis, experimentamos sentimentos amorosos e em momentos em que temos pensamentos de grandiosidade {como nos casos da mania). O hemisfério esquerdo é particularmente menos ativado em ocasiões de introspecção e infelicidade.

O doutor em psicologia Roy Baumeister, professor da Universidade Estadual da Flórida, que tem pesquisado os processos de autoconsciência, considera que o orgasmo – assim como os estados mentais proporcionados pela meditação profunda – ofereça uma espécie de breve alívio para a constante vigilância em que nos mantemos na maior parte do tempo, preocupados conosco, com as expectativas alheias e com nossas necessidades. Nesse sentido, o orgasmo funcionaria como um “freio” em áreas do cérebro responsáveis pelo julgamento, pela comparação, pelo planejamento e pela necessidade de autocontrole.

OUTROS OLHARES

DELÍRIOS DA PAIXÃO

Como reconhecer a paixão doentia quando a convicção delirante da relação amorosa parece tão real. O comportamento de fixação amorosa é perigoso e precisa de cuidados.

Delírios da paixão

O psiquiatra francês De Clèrambault descreveu o problema como uma síndrome de emoções doentias que passa pelos estágios de esperança, despeito e rancor. A fase de rancor seria a mais importante delas. Após sofrer diversos sinais de rejeição, a pessoa busca se vingar do objeto de seu amor, podendo transferir suas retaliações para terceiros.

Pessoas que alimentam esse tipo de fantasia são reservadas, socialmente inexpressivas; solitárias, muitas são privadas de contato sexual por anos, a maioria ocupa cargos subalternos, e, em muitos casos, são pouco atraentes. Esse perfil pode resultar numa personalidade hipersensível, em desconfiança acentuada ou assumida superioridade em relação aos outros.

Por outro lado, os objetos de amor delirante (na realidade ou em fantasia), são sempre superiores em inteligência, posição social, aparência física, autoridade ou uma combinação dessas qualidades. Quase sempre o amor doentio pode ser visto como um meio de proteger o sujeito que o sente contra um profundo e doloroso estado de solidão.

Embora atos físicos ou sexuais sejam incomuns, essas pessoas podem trazer grandes conturbações às suas vítimas. O inconveniente varia de chamadas telefônicas no meio da noite a declarações de amor em ambientes públicos. A pessoa pode desejar ter relações sexuais com o objeto de seu amor delirante. Os homens tendem mais à perseguição do que as mulheres.

Há casos em que o amor fantasioso se desenvolve a partir de um único e específico incidente – o que já é suficiente para que a pessoa se convença do amor que sente por seu objeto. Alimenta-se a crença de que ele iniciou o caso de amor a partir de olhares, mensagens cifradas, mensagens de jornal, de televisão ou até mesmo telepáticas.

A pessoa pode até rejeitar o objeto do seu amor, porém, o aceita e se apaixona por ele de maneira obsessiva. A despeito de vigorosas negações da outra pessoa, a fantasia de estar sendo amado persiste por anos, havendo necessidade de hospitalizações ou de ações legais que impeçam a perseguição da vítima pelo paciente.

O paciente crê no intenso amor que a outra pessoa tem por ele, ao mesmo tempo em que preserva certo senso de inocência ao considerar que o objeto de seu amor jamais será feliz sem a sua companhia.

Quem sofre com esse amor geralmente racionaliza a conduta da pessoa que elege: interpreta as rejeições que sofre como afirmações secretas de amor, testes de fidelidade ou tentativas de despistar outras pessoas de seu “romance”. Pensa m que são amados por um bom tempo, quando então renunciam a esse amor para reiniciar suas fantasias com outra pessoa.

Existe um potencial para comportamento violento e vingativo, com taxas de comportamento agressivo chegando a 57% em amostras de homens que foram diagnosticados com esse tipo de problema. A pesar de haver poucos estudos sobre o tema, alguns pesquisadores sugerem que a sua frequência não deva ser considerada tão baixa quanto se acredita.

As causas podem variar. Déficits no funcionamento da visão espacial ou lesões no sistema límbico,  particularmente nos lobos temporais, em combinação com experiências amorosas ambivalentes e de isolamento afetivo. poderiam contribuir com as interpretações delirantes. E a falta de flexibilidade cognitiva faria com que esses delírios persistissem.

O sistema límbico medeia a interpretação do ambiente ao acrescentar uma resposta afetiva aos estímulos externos. Assim, interpretações inadequadas do meio poderiam ser causadas por anormalidades límbicas. O conteúdo específico do delírio, entretanto, seria determinado pela cultura e pelas experiências pessoais de cada paciente.

O desenvolvimento dos delírios pode originar-se de percepção ou interpretação anormais do meio, mas a manutenção de uma crença delirante, em face de informações distorcidas, tem sido atribuída a um funcionamento deficiente do sistema frontal. O lobo pré-frontal desempenha um importante papel nos testes de realidade.

Um fator que pode contribuir para a manutenção dos delírios é a rigidez cognitiva, surgida de disfunção frontal sub- cortical, a que pode resultar numa dificuldade em alterar determinado sistema de crenças. Disfunções nessas mesmas áreas têm sido associadas a outros tipos de delírios.  Também ficou constatado que pessoas que sofriam com esse problema tinham um comprometimento maior do hemisfério cerebral direito.

A integridade dessas funções é crítica para o reconhecimento das interpretações delirantes, que ocorrem, com maior probabilidade, em pacientes privados de relacionamentos íntimos, porém, altamente motivados a tais experiências. Esse desejo por relacionamento pode ser contrabalançado por temores de rejeição e de intimidade.

O amor patológico é perigoso e necessita de tratamento psicológico e muitas vezes medicamentoso. Fique alerta.

 

ROBERTA MEDEIROS – é jornalista científica.

E-mail robertaneurociencias@gmail.com

GESTÃO E CARREIRA

TRANSFORMAÇÃO PARA O ANO TODO

O fenômeno do “como seria se…” não é exclusivo nas promessas habituais que representam um novo ciclo, mas permanece firme por toda a vida.

Transformação para o ano todo

Quem não inicia um ano com a cabeça cheia de reflexões sobre o ano que fica para trás e ansioso sobre o que está por vir? É uma mistura de sensações positivas e negativas que varia de indivíduo para indivíduo, mas normalmente inclui alívio, satisfação, alegria, esperança, medo, ansiedade, frustração, entre muitas outras. Por isso, independentemente do estado atual, nos primeiros meses do ano é preciso diminuir e reorganizar a mente para vivenciar tudo de maravilhoso que a vida pode oferecer.

É comum nesse período desenharmos planos e projetos para os próximos meses, agregando diversas promessas e já sonhando com os resultados. Conseguimos até visualizar como será quando aquele objetivo for alcançado, sentir a felicidade de quando finalmente cumprirmos com tais promessas e até ouvir todas as palavras de incentivo e conforto como se fossem trilha sonora de nossas vidas. Mas qual o verdadeiro saldo dos resultados dessas promessas depois dos primeiros meses do ano?

Todos os sonhos tomam conta dos nossos pensamentos, mas muitas vezes ficamos presos no “como seria se…” e deixamos todos os objetivos guardados em uma gaveta esperando o momento certo de serem realizados. Desse modo, não vivemos a vida em plenitude, já que permitimos que as desculpas e os medos falem mais alto, limitando-nos a achar alternativas para transformar em realidade tudo aquilo que desejamos.

Quantas pessoas brilhantes, corajosas, determinadas e comprometidas vivem dessa forma? Elas simplesmente deixam de lado os seus próprios objetivos devido às interferências que surgem no meio do caminho e nem tentam ir além por medo de errar, de não serem aceitas ou de simplesmente não dar certo.

A sensação é de que há um grande abismo entre onde se está e o lugar que se quer chegar. Parece que sempre há mais problemas do que soluções e que surgirão mais obstáculos do que caminhos livres. Daí, então, deixamos o medo e outras sensações limitantes tomarem as rédeas da nossa vida, fazendo-nos acreditar que essa é uma opção mais segura, calma e tranquila de viver. É assim que deixamos para trás nossas ideias, objetivos, sonhos de criança e essência, tudo para viver com medo do nosso futuro, mas não nos damos conta de que esse mesmo futuro que tememos já está sendo criado, porém, por outras mãos: as mãos do medo.

Para alcançar as metas, sejam pessoais ou profissionais, e deixar de lado tudo aquilo que nos aborrece e não nos serve mais, precisamos desmascarar as falsas seguranças que os hábitos nos propiciam, e sobre as quais constantemente construímos a vida. Para realizar uma mudança, precisamos morrer metaforicamente para o que já não faz sentido no momento. É como a metamorfose da lagarta. Para se transformar em borboleta, ela desaparece e “morre” para aquela identidade que não terá mais propósito dali em diante.

Antes de promover uma transformação, é necessário fazer uma verdadeira autoavaliação, considerando alguns aspectos que vão guiar as nossas ações e decisões durante o ano.

Estar consciente de onde se encontra no momento e para onde se deseja ir é uma delas. Autoavaliação e identificação das próprias competências, qualidades, experiências e potencialidades são importantes, assim como os pontos fracos a serem melhorados. É importante refletir ainda sobre as motivações e os valores mais importantes da sua vida. Analise a situação de partida e a possível evolução e desenhe detalhadamente como irá chegar ao estado desejado e o que precisa ser feito para isso. Ou seja, tenha claro quais serão as suas estratégias, o plano de ação, a execução e a forma de verificar se os resultados estão de acordo com cada etapa desenhada. Ter um prazo para a finalização do processo é importante para que o compromisso já assumido, e ele deve ser real, ou seja, possível de ser alcançado.

É fundamental, ainda, treinar a auto­disciplina, pois é dessa forma que evitamos que o medo nos domine e que comecemos a nos autossabotar. Treinar a flexibilidade é outro exercício essencial para que possamos compreender as mudanças no caminho e manter a resiliência necessária para alcançar aquilo que tanto desejamos.

Nada é mais desafiador do que viver de acordo com nossos sonhos, assim como nada é tão emocionante que criar objetivos no pensamento, antecipando-se ao futuro. Nessa busca pelo sucesso e do que o faz feliz, recorde-se sempre de que há momentos na vida em que nós também precisamos “morrer” para o velho e viver o que escolhemos. Somos capazes de decidir sobre pontos limitantes para transformar tudo o que o usamos sonhar em realidade.

Comece hoje mesmo! Não precisa esperar outro ano iniciar para colocar os planos e objetivos em prática. Afinal, a vida tem que ser vivida todos os dias e não apenas nos primeiros meses de um novo ano. Colher os melhores resultados sempre é uma tarefa constante e prazerosa.

E lembre-se: sonhos e metas nunca deixarão de existir, pois eles são combustível para a vida. Portanto, tenha em mente que a busca pela realização é constante e periódica, por isso não atrase nem deixe para trás aquilo que pode realizar hoje.

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua publicação mais recente. www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 43-54

Alimento diário

A Cura do Filho do Nobre

Nestes versículos, temos:

I – A ida de Cristo para a Galileia, v. 43. Embora Ele fosse bem-vindo entre os samaritanos tanto quanto seria em qualquer lugar, e fosse bem-sucedido, ainda assim, após dois dias, Ele os deixou, não tanto porque eles fossem samaritanos, e o Senhor não confirmaria os preconceitos daqueles que lhe disseram: “És samaritano” (cap. 8.48), mas porque Ele tinha que pregar a outras cidades, Lucas 4.43. Ele foi para a Galileia, pois lá Ele passaria a maior parte do seu tempo. E agora, veja aqui:

1. Para onde Cristo foi: para a Galileia, para a região da Galileia, mas não para Nazaré, que era, a rigor, sua própria província. Ele viajou entre as aldeias, mas recusou-se a ir a Nazaré, a cidade mais importante, por um motivo apresentado aqui, testificado pelo próprio Jesus, que conhecia o temperamento de seus compatriotas, os corações de todos os homens, e as experiências de todos os profetas, e que é este: “Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria”. Observe que:

(1) Os profetas de­ vem ser honrados, porque Deus colocou uma honra sobre eles, e nós somos beneficiados por eles.

(2) A honra devida aos profetas do Senhor lhes foi muitas vezes negada, e eles foram tratados com desprezo.

(3) Esta honra devida lhes é mais frequentemente negada em sua própria pátria. Veja Lucas 4.24; Mateus 13.57. Não que isso seja universalmente verdadeiro (toda regra tem suas exceções), mas é válido na maioria dos casos. Quando José começou a profetizar, foi muito odiado por seus irmãos; Davi foi desprezado por seu irmão (1 Samuel 17.28); Jeremias foi caluniado pelos homens de Anatote (Jeremias 11.21 ); Paulo, por seus conterrâneos judeus; e os parentes de Cristo falavam dele com muito desprezo, cap. 7.5. O orgulho e a inveja dos homens fazem com que eles rejeitem a orientação daqueles que já foram seus colegas de escola e companheiros de brincadeiras. O apetite por novidade, e por aquilo que é irreal e de alto preço, e parece lhes cair do céu, fazem os depreciar aquelas pessoas e coisas a que estão há muito tempo habituados e das quais conhecem a origem.

(4) É um grande desânimo para um ministro caminhar entre pessoas que não dão valor a ele ou às suas obras. Cristo não foi a Nazaré porque sabia o pouco respeito com que o tratariam ali.

(5) É justo que Deus negue seu Evangelho àqueles que desprezam seus ministros. Aqueles que ridicularizam os mensageiros de Deus, perdem o benefício da mensagem. Mateus 21.35,41.

2. A hospitalidade que Ele encontrou entre os galileus na região (v. 45): “Os galileus o receberam”, deram-lhe boas-vindas e com alegria ouviram sua doutrina. Cristo e seu Evangelho não foram enviados em vão. Se eles não são honrados por alguns, outros os honrarão. E havia um motivo para que esses galileus estivessem tão dispostos a receber a Cristo: “Porque viram todas as coisas que fizera em Jerusalém no dia da festa”, v. 45. Observe:

(1) Eles subiram à Jerusalém no dia da festa, a Festa da Páscoa judaica. Os galileus habitavam muito longe de Jerusalém, e seu caminho para lá passava pela região dos samaritanos, que era problemática para um judeu atravessar, pior do que o antigo vale do Baca. Mesmo assim, em obediência ao mandamento de Deus, eles subiram para a festa, e lá conheceram Cristo. Observe que aqueles que são diligentes e constantes quando se trata de participar de cultos públicos, a qual­ quer hora recebem mais benefícios espirituais do que esperam.

(2) Eles viram os milagres que Cristo havia realizado em Jerusalém, e isto tornava tanto o Senhor quanto sua doutrina muito atraentes para a fé e afeição deles. Os milagres foram realizados em benefício daqueles que viviam em Jerusalém. Toda via, os galileus que acidentalmente lá estavam beneficiaram-se mais dos milagres do que aqueles para quem eles foram especialmente planejados. Dessa maneira, a palavra pregada a uma mistura de gente talvez possa instruir ouvintes ocasionais mais do que ao público frequente.

3. A cidade para a qual Ele foi. Ele escolheu ir para Caná da Galileia, “onde da água fizera vinho” (v. 46). Ele foi para lá a fim de ver se havia alguns bons frutos remanescentes daquele milagre, e, se houvesse, para confirmar a fé do povo dali, e regar aquilo que Ele havia plantado. O evangelista menciona este milagre aqui para nos ensinar a manter na memória as obras de Cristo que presenciamos.

 

II – A cura do filho do régulo, que estava doente com uma febre. Esta história não é relatada por nenhum outro evangelista. Ela está inclusa na citação de Mateus 4.23.

Observe:

1. Quem eram o requerente e o paciente: o requerente era um nobre; o paciente era seu filho: “Havia ali um oficial do rei”. Regulus (assim é em latim), um pequeno rei. Assim chamado, ou pela grandeza de suas propriedades, ou pela extensão de seu poder, ou pelos direitos pertencentes à sua casa. Alguns entendem isso como indicando seu cargo honorífico – ele era um cortesão em algum escritório próximo ao rei. Outros, como denotando sua facção – ele era um herodiano, um monarquista, um homem com privilégios, alguém que apoiava os interesses dos Herodes, pai e filho. Talvez fosse “Cuza, procurador de Herodes” (Lucas 8.3), ou “Manaém, que fora criado com Herodes”, Atos 13.1. Havia santos na casa de César. O pai era um nobre, e, apesar disso, o filho estava doente, pois a nobreza e os títulos de honra não dão às pessoas e familiares segurança contra as investidas da doença e da morte. Cafarnaum, onde morava esse nobre, estava a quinze milhas de Caná, onde Cristo estava agora, mas este sofrimento em sua família o levou a ir tão longe, em busca do Senhor Jesus Cristo.

2. Como o requerente fez seu pedido ao médico. Ouvindo que “Jesus vinha da” Judéia para a Galileia, e considerando que Ele não vinha em direção a Cafarnaum, mas desviara-se em direção ao outro lado da região, ele mesmo “foi ter com ele e rogou-lhe que descesse e curas­ se o seu filho”, v. 47. Veja aqui:

(1) Quão compassivo era seu amor por seu filho: assim que ele ficou doente, ele não poupou esforços para ajudá-lo.

(2) Seu grande respeito por nosso Senhor Jesus, a ponto de ele mesmo ir buscá-lo, quando poderia ter enviado um servo, e de ter-lhe rogado, quando, como um homem de autoridade, pensariam alguns, ele poderia ter ordenado a presença dele. Os maiores homens, quando vão a Deus, devem se tornar como pedintes, e suplicar como indigentes. Quanto à missão que o trouxera, podemos observar uma mistura em sua fé.

[1] Havia sinceridade nela. Ele realmente acreditava que Cristo podia curar seu filho, embora sua doença fosse grave. É provável que houvesse médicos cuidando dele, e talvez o tivessem abandonado, mas ele acreditava que Cristo podia curá-lo, mesmo quando a situação parecia deplorável.

[2] Todavia, havia fragilidade em sua fé. Ele acreditava que Cristo podia curar seu filho, mas, como pode parecer, ele pensava que não podia curá-lo à distância, e por isso rogou que Ele descesse e o curasse, aguardando, como fez Naamã, que Ele fosse e colocasse sua mão sobre o paciente, como se não pudesse curá-lo senão por contato físico. Dessa maneira, nós nos inclinamos a limitar o Santo de Israel, e a restringi-lo aos nossos padrões. O centurião, um gentio, um soldado, fora tão forte em sua fé a ponto de dizer: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”, Mateus 8.8. Este nobre, um judeu, suplicou que Cristo descesse, embora, para tanto, fosse necessário um longo dia de viagem. Ele perderia a esperança de uma cura, a menos que o Senhor descesse. Talvez aquele homem, sem perceber, pensasse que tivesse que ensinar a Cristo como trabalhar. Somos incentivados a orar, mas não nos é permitido ordenar: “Senhor, cura-me por tua bondade, mas que o Senhor o faça com uma palavra ou com um toque. Seja feita, em tudo, tua vontade”.

3. A branda repreensão que ele recebeu (v. 48): Jesus lhe disse: “Eu vejo como é. ‘Se não virdes sinais e milagres, não crereis’, como fizeram os samaritanos, embora eles não vissem sinais ou milagres, e por essa razão Eu devo realizar milagres entre vós”. Embora ele fosse um nobre, e estivesse agora aflito por seu filho, e tivesse demonstrado grande respeito por Cristo ao vir de tão longe até Ele, ainda assim, Cristo o repreende. A distinção dos homens no mundo não os isentará das repreensões da palavra ou da providência, pois Cristo não “repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos; mas julgará com justiça”, Isaías 11.3,4. Observe que Cristo mostra os pecados e fraquezas daquele homem para prepará-lo para o perdão, e então concede-lhe o pedido. Aqueles a quem Cristo pretende honrar com sua generosidade, Ele primeiro humilha com seus olhares de repreensão. O Consolador deve primeiro convencer. Herodes esperava ver algum milagre (Lucas 23.8), e este cortesão tinha a mesma mentalidade, bem como o povo em geral. Agora, vejamos o que é censurado:

(1) Que, considerando que haviam escutado, através de relato confiável e incontestável, acerca dos milagres que Jesus havia realizado em outros lugares, eles não acreditariam, a menos que os vissem com seus próprios olhos, Lucas 4.23. Eles devem ser favorecidos, e devem ser bajulados, ou não serão convencidos. Sua região deve ser agraciada, e sua curiosidade, satisfeita, com sinais e milagres, ou então, embora a doutrina de Cristo esteja suficientemente provada pelos milagres realizados em outro lugar, eles não crerão. Como Tomé, eles não se renderão a qualquer método de convencimento que não seja o que eles determinarem.

(2) Que, considerando que eles tinham visto diversos milagres, cuja evidência não conseguiam negar, mas que provavam de maneira competente que Cristo era um mestre vindo de Deus, e que deveriam agora solicitar a Ele uma orientação sobre sua doutrina, a qual por sua superioridade natural os teria levado, suavemente, a acreditar em um aperfeiçoamento espiritual, ao invés disso, eles não se aprofundariam na fé, e seriam como aqueles que eram guiados por sinais e milagres. O poder espiritual da Palavra não os comovia, nem os atraía, mas somente o poder concreto dos milagres. Os milagres são, para os incrédulos, uma necessidade tão grande quanto a profecia o é para os fiéis, 1 Coríntios 14.22. Aqueles que prezam apenas os milagres, e desprezam a profecia, juntam-se aos infiéis.

4. Sua irritante persistência em sua petição (v. 49): “Senhor, desce, antes que meu filho morra”. Nesta réplica dele, temos:

(1) Algo que era louvável: ele aceitou a repreensão pacientemente; ele conversou respeitosamente com Cristo. Embora ele fosse um daqueles que se trajavam ricamente, ainda assim ele tolerou a repreensão. Não é privilégio da nobreza estar acima das repreensões da Palavra de Cristo. É, porém, um sinal de bom temperamento e caráter nos homens, especialmente nos homens importantes, quando eles conseguem ouvir a respeito de suas culpas e não se enfurecem. E, como ele não tomou a repreensão como uma afronta, da mesma forma não a considerou como uma recusa, mas persistiu ainda mais em seu pedido, e continuou se esforçando até que fosse bem-sucedido. Talvez ele tenha argumentado desta maneira: “Se Cristo cura minha alma, com certeza ele curará meu filho. Se Ele cura minha incredulidade, Ele curará a febre de meu filho”. Est e é o modo que Cristo adota, primeiro para operar em nós, e depois para operar por nós, e haverá esperança se observarmos o Senhor agindo desta forma.

(2) Algo que era censurável, e que era sua fraqueza, pois:

[1] Ele parece não levar em conta a repreensão que Cristo lhe faz, nada diz a respeito dela, seja como uma confissão ou desculpa, pois ele está tão tomado pela preocupação com seu filho, que não consegue prestar atenção em mais nada. Observe que a tristeza do mundo é uma grande predisposição contrária aos benefícios que recebemos pela Palavra de Cristo. A preocupação e o cuidado exasperado são espinhos que sufocam a boa semente. Veja Êxodo 6.9.

[2] Ele ainda descobriu a fraqueza de sua fé no poder de Cristo. Em primeiro lugar, Ele teve a necessidade de fazer Cristo descer pensando que, de outra maneira, o Senhor não poderia conceder qualquer benefício ao seu filho. E difícil nos convencermos de que a distância e o tempo não são obstáculos para o entendimento e o poder de nosso Senhor Jesus. Mas assim é, Ele vê muito longe, pois sua palavra, a palavra de seu poder, corre velozmente. Em segundo lugar, Ele acreditava que Cristo podia curar uma criança doente, mas não que Ele pudesse ressuscitar uma criança morta, e por isso pede: “Senhor, desce, antes que meu filho morra”, como se então fosse muito tarde, apesar de Cristo ter, sobre a morte, o mesmo poder que tem sobre as doenças do corpo. Ele se esqueceu de que Elias e Eliseu haviam ressuscitado crianças mortas, e o poder de Cristo é inferior ao deles? Observe a pressa que ele tem: “Desce, antes que meu filho morra”, como se houvesse perigo de Cristo se atrasar. Aquele que crê não se apressa, mas se dirige a Cristo, dizendo: “Senhor, aconteça aquilo que te agradar mais, quando te agradar mais, e como te agradar mais”.

5. A resposta tranquilizadora que Cristo deu, por fim, ao pedido deste oficial (v. 50): “Vai, o teu filho vive”. Cristo nos dá aqui um exemplo:

(1) Do seu poder. Ele mostra que não apenas podia curar com tanta facilidade, mas podia curar sem o transtorno de uma visita. Aqui nada é dito, nada é feito, nada é mandado fazer, e mesmo assim a cura é realizada: “Teu filho vive”. Os raios de cura do Sol da Justiça distribuem influências benignas de um extremo do céu ao outro, e nada se furta ao seu calor. Embora Cristo esteja agora no céu, e sua igreja na terra, Ele pode controlar tudo lá de cima. Este nobre desejava que Cristo descesse e curasse seu filho. Cristo curará seu filho, e não descerá. E, dessa forma, a cura é operada mais cedo, o engano do nobre é corrigido, e sua fé é confirmada, de modo que as coisas foram realizadas da melhor maneira possível, ou seja, da maneira de Cristo. Quando o Senhor nega o que pedimos, Ele dá o que nos é muito mais benéfico. Pedimos por conforto, Ele dá paciência. Observe que seu poder foi exercido através da sua palavra. Ao dizer: “Teu filho vive”, o Senhor mostrou que tem vida em si mesmo, e poder para ressuscitar a quem desejar. Quando Cristo diz: “Tua alma vive”, sua palavra faz com que a alma se torne realmente viva.

(2) De sua misericórdia. Ele notou que o nobre estava sofrendo por seu filho, e seu amor natural se manifestava na sentença: ”Antes que meu filho”, meu querido filho, morra. E então Cristo pôs fim à crítica, e assegurou a ele a recuperação de seu filho, pois Ele sabe como um pai se compadece de seus filhos.

6. A crença do nobre na palavra de Cristo: ele creu e foi-se. Embora Cristo não fizesse a vontade do nobre, a ponto de descer com ele, ele fica satisfeito com o método que Cristo adotou, e considera que conseguiu o que queria. Com que rapidez e facilidade aquilo que está faltando em nossa fé é aperfeiçoado pela palavra e poder de Cristo. Ele não vê nenhum sinal ou milagre, e mesmo assim acredita que o milagre foi realizado.

(1) Cristo disse: “Teu filho vive”, e o homem acreditou nele. Não apenas acreditou na onisciência de Cristo, de modo que ele tinha certeza de que seu filho havia sido curado, mas na onipotência de Cristo, e que a cura fora efetuada pela sua palavra. O pai havia deixado seu filho à beira da morte. Ainda assim, quando Cristo disse: “Ele vive”, como o pai de todos aqueles que creem, ele, “em esperança, creu contra a esperança”, e “não duvidou por incredulidade”.

(2) Cristo disse: “Vai”, e como uma evidência da sinceridade da sua fé, ele se foi sem mais perturbar a Cristo ou a si mesmo. Ele não pressionou a Cristo para que descesse, não disse: “Mesmo que ele se recupere, ainda assim uma visita será bem-vinda”, não, ele não mais parece ansioso, mas, como Ana, ele segue seu caminho, e seu semblante já não era triste. Como alguém completamente satisfeito, ele não teve pressa em ir para casa, não correu para casa naquela noite, mas retornou vagarosamente, como alguém que estava com seu espírito perfeitamente tranquilo.

7. A confirmação adicional de sua fé, ao trocar ideias com seus servos em seu retorno para casa.

(1) Seus servos encontraram-se com ele trazendo a boa notícia da recuperação do filho, v. 51. Eles, provavelmente, encontraram-no não muito longe de sua própria casa, e, sabendo quais eram as preocupações de seu senhor desejavam tranquilizá-lo o mais rápido possível. Os servos de Davi estavam relutantes em contar a ele que seu filho havia morrido. Cristo disse: “Teu filho vive”, e nesse momento, os servos dizem o mesmo. Boas notícias receberão aqueles que esperam na Palavra de Deus.

(2) Ele “perguntou-lhes… a que hora se achara melhor” (v. 52). Não como se duvidasse da influência da palavra de Cristo sobre a cura do filho, mas ele estava desejoso de ter sua fé confirmada, para que pudesse ser capaz de convencer a qualquer um a quem ele mencionasse o milagre, pois este era um detalhe essencial. Observe que:

[1] É útil nos abastecermos com todas as provas e evidências que possam existir, que corroboram para fortalecer nossa fé na palavra de Cristo, a fim de que ela possa desenvolver-se até atingir a completa certeza. “Mostra-me um sinal para bem”.

[2] A comparação diligente das obras de Cristo com sua palavra será de grande utilidade para confirmarmos nossa fé. Este foi o rumo tomado pelo nobre: ele perguntou aos servos a que hora aquele que estava enfermo começou a melhorar, e eles lhe disseram: “Ontem, às sete horas [alguns entendem que seria a sétima hora, e, portanto, à uma da tarde. Outros pensam que este evangelista se refere às sete horas da noite], a febre o deixou”. Ele não apenas começou a melhorar, mas ficou perfeitamente bem, de repente. Dessa maneira, “entendeu, pois, o pai que era aquela hora a mesma em que Jesus lhe disse: O teu filho vive”. Assim como a Palavra de Deus, bem estudada, nos ajudará a entender suas providências, também a providência de Deus, bem guardada, nos ajudará a entender sua Palavra, pois Deus está a cada dia cumprindo as Escrituras. Duas coisas ajudaram a confirmar a fé deste oficial. Em primeiro lugar, que a recuperação do filho foi imediata, e não gradual. Eles apontam uma hora com precisão: “Ontem”, não por volta, mas às sete horas, “a febre o deixou”. Ela não se reduziu ou começou a ceder, mas ela deixou o enfermo em um instante. A palavra de Cristo não opera como medicamento, que precisa de tempo para atuar e produzir efeito, e talvez cure somente pela espera. Não, com Cristo é: Ele fala e as coisas se realizam. Ele falou, e a cura começou a ser feita. Em segundo lugar, que foi exatamente na mesma hora em que Cristo lhe falou: “Era aquela hora a mesma”. Os sincronismos e as coincidências dos acontecimentos acrescentam muito à beleza e à harmonia da Providência. Perceba a hora, e o fato em si será mais extraordinário, pois cada coisa é bela em seu tempo. Observe a hora exata para a qual foi prometida a libertação de Israel (Êxodo 12.41); a hora exata em que se orou pela libertação de Pedro, Atos 12.12. Nas obras dos homens, a distância física é a razão do prolongamento do tempo e da demora no trabalho, mas não é dessa forma nas obras de Cristo. O perdão, e a paz, e o consolo, e a cura espiritual, que Ele afirma no céu, são, se Ele desejar, realizados e operados na mesma hora nas almas dos crentes, e, quando esses dois fatos forem comparados no grande dia, Cristo será glorificado nos seus santos, e admirado na vida de todos os que creem.

8. O efeito e consequência favoráveis deste fato. Levar a cura para a família trouxe a ela a salvação.

(1) O próprio nobre creu. Ele havia crido antes na palavra de Cristo, com respeito a esta situação em particular, mas agora ele cria em Cristo, como o Messias prometido, e se tornou um de seus discípulos. Deste modo, a experiência pessoal do poder e eficácia de uma palavra de Cristo pode ser um meio muito apropriado para apresentar e estabelecer a completa autoridade do controle de Cristo na alma. Cristo possui muitas maneiras de conquistar o coração, e através da concessão de uma graça temporal pode abrir o caminho para coisas melhores.

(2) “Toda a sua casa” creu da mesma forma.

[1] Por causa do benefício que todos obtiveram do milagre, que preservava o florescimento e as esperanças da família. Isso comoveu a todos, e tornou Cristo benquisto entre eles, e o recomendava aos seus melhores pensamentos.

[2] Por causa da influência que o pai da família tinha sobre todos eles. O pai de uma família não pode conceder a fé àqueles pelos quais é responsável, nem forçá-los a crer, mas pode ser fundamental para afastar predisposições externas que obstruam o efeito das evidências, e então mais da metade do trabalho estará feito. Abraão era famoso por isso (Genesis 18.19), e também Josué, Josué 24.15. Este era um nobre, e provavelmente tivesse “muita gente ao seu serviço”, mas quando ele vai à escola de Cristo, leva consigo todos eles. Que mudança abençoada houve nesta casa, ocasionada pela doença da criança! Isto deveria fazer com que nos resignássemos com as tribulações, pois nós não sabemos as boas coisas que podem resultar delas. É provável que a conversão deste nobre e da sua família em Cafarnaum possa ter favorecido a volta do Senhor Jesus Cristo, que, mais tarde, a estabeleceria como seu quartel-general na Galileia. Quando homens de posições elevadas aceitam o Evangelho, eles podem se tornar importantes instrumentos para levá-lo para os lugares onde vivem.

9. Aqui está o comentário do evangelista sobre esta cura (v. 54). ‘Jesus fez este segundo milagre”, referindo-se ao de João 2.11, onde a transformação de água em vinho é dita ser o primeiro, que foi logo após seu primeiro retorno da Judéia, e este, logo após o segundo. Na Judéia, Ele havia realizado muitos milagres, cap. 3.2; 4.45. Eles tiveram a primeira demonstração, mas sendo compelido a sair dali, Ele realizou milagres na Galileia. Em um ou outro lugar, Cristo será bem recebido. As pessoas podem, se desejarem, impedir a entrada do sol em suas próprias casas, mas não podem impedi-lo de adentrar o mundo. Este é apontado como o segundo milagre:

1. Para nos lembrar do primeiro, realizado no mesmo lugar alguns meses antes. Misericórdias recentes devem reavivar as lembranças de misericórdias anteriores, assim como misericórdias anteriores devem fortalecer nossas esperanças de futuras misericórdias. Cristo mantém o registro de seus favores, quer nós o mantenhamos ou não.

2. Para que saibamos que esta cura ocorreu antes das muitas curas que os outros evangelistas mencionam como tendo sido realizadas na Galileia, Mateus 4.23; Marcos 1.34; Lucas 4.40. Provavelmente, sendo o paciente o filho de uma pessoa de alto nível, a cura foi mais comentada e levou a Cristo multidões de pacientes. Quando este nobre recorreu a Cristo, multidões o seguiram. Que abundância de bem podem os homens importantes realizar, se forem homens bons!

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOPATIA, CONDUTOPATIA E OUTROS SINÔNIMOS

Independentemente da nomenclatura que se dê, são indivíduos, muitas vezes, bastante perigosos à sociedade, principalmente quando investidos de poder.

Psicopatia, condutopatia e outros sinônimos

Recordemos a lei pétrea: natura non facit saltus (a natureza não dá saltos). A noite se transforma em dia por meio da aurora, o fruto amadurece aos poucos, assim como entre a doença mental e a normalidade mental há a zona habitada por indivíduos que não são loucos nem normais.

Desde a mais remota Antiguidade esses seres despertaram a curiosidade das pessoas. Alguns eram tidos como bruxos, homens ruins, que faziam pacto com o diabo- lembrando que loucura era possessão demoníaca (mentecapto: mente captada pelo diabo; epiléptico: epi, acima, lepsis, abater; epilepsia, o diabo abate por cima).

Depois que se descobriu que loucura não era possessão demoníaca, esses semiloucos passaram a ser estudados em pormenor e receberam diferentes nomes. O primeiro que os descreveu foi Philippe Pinel, em 1801, cunhando a expressão mania sem delírio. Depois veio Henry Pritchard, em 1835, com a sua moral insanity (loucura moral). A seguir, surgiram outros nomes para caracterizar esses fronteiriços, com destaque para Júlio de Mattos, loucura lúcida, em 1888. E também registrem-se estoutros: anestesiados do senso moral (Gilbert Ballet), semiloucos (Trelat), desequilíbrios insaciáveis (Bonhomme), ainda no século XIX. Na virada para o século XX, aparece pela primeira vez na história a palavra personalidade psicopática, cunhada por Emil Kraepelin, em seu Tratado de Psiquiatria, 5ª edição. Mas o vocábulo somente tomaria grande impulso e divulgação a partir de 1923, com Kurt Schneider, no livro Personalidades Psicopáticas (os famosos psicopatas), perdurando praticamente até hoje. Porém, vieram vários outros sinônimos: sociopatas, antissociais, portadores de transtorno de personalidade, personalidades dissociais etc.

Para nós, em vez desses termos históricos e atuais, o mais adequado é condutopatia (1985), pois a patheia (moléstia, deformidade, infortúnio) está no comportamento, na conduta que se revela anormal.

Em outras palavras, como concebemos, condutopatas são indivíduos que não têm deficiência de inteligência, não alucinam, não deliram (como na loucura), mas apresentam conduta alterada por comprometimento da afetividade (que está voltada para si mesmos, lhes conferindo caráter egoísta), da intenção-volição (que faz com que seus atos sejam desequilibrados) e da crítica (a qual, inexistente, não lhes confere os freios morais e éticos necessários para coibir a ação). Condutopatas, psicopatas, sociopatas, portadores de transtorno de personalidade, fronteiriços, dê-se o nome que se queira dar, muitas vezes são bastante perigosos à sociedade, principalmente quando investidos de poder. Conhecem-se chefes de quadrilha, políticos, líderes que muito bem se encaixam nessa zona entre o normal e o patológico e são de extrema periculosidade.

E mesmo aqueles solitários, que agem sozinhos. apresentam grande temibilidade social. São como os morcegos: têm asas, voam e não são pássaros; têm pelos e não são animais pilíferos. Assustam os humanos e surpreendem quando dão rasante perto de suas cabeças.

 

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito  da Academia de Medicina de São Paulo.

OUTROS OLHARES

UM JEITO DE VIVER PARA ALÉM DAS COTAS

Carolina Ignarra fundou uma empresa que já ajudou 5.000 brasileiros com deficiência a encontrar emprego.

Um jeito de viver além das cotas

Em 2001, aos 22 anos, a paulistana Carolina Ignarra, então recém­ formada em educação física, sofreu um acidente que mudaria para sempre sua percepção de vida e de carreira. Ela trabalhava com ginástica laboral em empresas e, em paralelo, dava aula de natação. Certo dia, voltando de moto de uma festa, colidiu com um carro. Quatro dias depois, acordou em uma cama de hospital sem o movimento das pernas. Sua primeira reação foi de desespero. “Pensei que ficaria encostada para sempre recebendo algum auxílio do governo e fazendo tricô, que eu não poderia mais trabalhar”, diz Carolina. Ela conta que se surpreendeu quando, apenas três meses depois, a empresa em que atuava a chamou de volta ao trabalho, inicialmente para programar os exercícios laborais que seriam executados por outros professores. Em pouco tempo, ela já estava de volta aos escritórios, em cadeira de rodas, comandando diretamente as sessões de ginástica.

Sua carreira tomou outro rumo por causa da Lei de Cotas para Deficientes, que reserva vagas em empresas a portadores de necessidades especiais. Sancionada em 1991, a lei pegou mesmo treze anos depois, em 2004. Nessa época, Carolina, que sempre causava excelente impressão no contato com os funcionários de inúmeras empresas, começou a receber propostas de emprego, muitas vezes para funções totalmente dissociadas de seu perfil e de sua especialidade, com o objetivo de preenchimento da cota. “Eu ficava ofendida e não aceitava. Cheguei a formar uma ideia errada sobre a Lei de Cotas. Só sabia que eu não queria pegar um emprego por um critério que nada tinha a ver com a minha profissão”, diz Carolina.

Como as sondagens se tornaram mais frequentes, ela considerou a possibilidade de montar um treinamento que, em paralelo à ginástica, mostrasse como as empresas poderiam ter ambientes melhores para os funcionários com deficiência. Era uma “palestrinha” que virou uma palestra, depois workshop, e então se tornou um produto de consultoria empresarial contínua. Foi aí que Carolina descobriu o que era “vender picolé na praia”: “Entendi uma coisa que hoje para mim é simples. A Lei de Cotas obriga as empresas a contratar, mas não ensina a ninguém como fazer isso”. A bancária Juliana Ramalho, amiga de Carolina desde a adolescência, abraçou a ideia e fez o investimento inicial. Assim nasceu, em 2008, a Talento Incluir, empresa de recursos humanos que, nos últimos dez anos, já integrou 5.000 pessoas com deficiência ao mercado de trabalho no país. O último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou que 24% da população, ou cerca de 45 milhões de pessoas, tem algum grau de deficiência física. Para a inclusão nas cotas, o número cai de acordo com critérios específicos, uma vez que o benefício é reservado àqueles com índices mais elevados de impedimento. O desafio que Carolina tinha pela frente era fornecer a clientes cada vez maiores que chegavam – grandes bancos, telefônicas, entre outros – profissionais que as organizações valorizassem muito além do simples cumprimento de uma norma. “É a lei que muitas vezes faz a empresa se mexer e nos procurar. Nós entramos para inverter isso, dialogando sobre as vantagens de times mais diversos e sobre o poder de transformação na vida de pessoas com deficiência. A partir daí, cumprir a lei torna-se uma consequência”, explica Carolina.

A consultoria prestada pela Talento Incluir tem em tomo de vinte ações, prontas para ser executadas. O cerne, porém, consiste em identificar postos que possam ser adaptados a pessoas com deficiência e, depois, intermediar a relação entre candidatos e empregadores. O pioneirismo no setor acabou transformando Carolina em referência para outras pessoas que necessitam de uma cadeira de rodas para se locomover. Depois de superar o risco que a deficiência poderia representar para um dos seus grandes sonhos, o de ser mãe, ela escreveu, com Flávia Cintra e Tatiana Rolim, o livro Maria de Rodas Delícias e Desafios na Maternidade de Mulheres Cadeirantes (Scortecci Editora, 2012).

Carolina é casada com um ex-colega da academia de natação e tem uma filha, Clara, de 12 anos. Antes, publicou também Inclusão Conceitos, Histórias e Talentos das Pessoas com Deficiência (Editora Qualitymark, 2010), escrito a quatro mãos com Tabata Contri. O livro compartilha histórias de sucesso no mercado de trabalho e tenta difundir um modelo empresarial focado no desenvolvimento de competências para as pessoas com deficiência.

Carolina considera que está em uma cruzada contra o “paternalismo” que envolve a causa dos deficientes. São seus lemas apenas fazer uso dos benefícios especiais concedidos a uma pessoa com deficiência quando ela realmente precisar deles (“Por que alguém deve pegar um cartão de transporte gratuito se tem um emprego bem pago?”, questiona Carolina) e adotar uma atitude positiva perante a vida e a deficiência. “No momento em que um pai pede ao filho que não olhe nem comente ao ver um cadeirante, o que acontece? Prevalece a ideia de que não se pode falar sobre deficiência. Tratar a deficiência como um constrangimento retira a liberdade que o outro tem de conversar e entender. Se restrinjo o direito a conversar, fica difícil acreditar que conseguirei ser respeitada”, diz Carolina. Ela conclui: “As pessoas com deficiência devem ser protagonistas sempre. Meu trabalho me dá sentido para viver minha própria deficiência”.

GESTÃO E CARREIRA

CARTA FORA DO BARALHO

Uma equipe competente é essencial para que uma empresa alcance bons resultados. No entanto, é comum existir algum colaborador com baixa produtividade. Especialistas mostram como o líder pode identificar e corrigir esse contratempo.

Carta fora do baralho

Em algum momento da vida todos nós podemos ter períodos de baixa produtividade profissional seja por algum problema pessoal, por desalinhamento com a cultura organizacional da empresa, clareza quanto às expectativas, metas e atividades ou mesmo por baixa confiança nos líderes e/ou colegas de trabalho. Claro que na maioria das vezes trata-se de motivos situacionais, mas que levam as empresas a conviverem diariamente com os desafios da produtividade e da construção de ambientes saudáveis.

A diretora da Misina e Grecco –  consultoria e assessoria em recursos humanos e gestão empresarial-, Marta Misina, diz que, ao contrário do que se possa imaginar, há sim nos diversos níveis da organização a figura do profissional que pode ser definido, em seus mais diversos graus, como improdutivo.  “Em maior ou menor quantidade e nos mais variados segmentos, seja indústria, comércio, prestação de serviços, terceiro setor, etc., lá estão eles”.

Alguns desses colaboradores, contudo, podem estender e até extrapolar essa fase de improdutividade, gerando uma bola de neve que não só provoca um clima ruim na empresa, mas acaba prejudicando todo o seu desenvolvimento no mercado.

IDENTIFIQUE

Segundo a coach especialista em desenvolvimento humano, Adriana Schneider, quanto mais madura a gestão da organização, mais facilmente os colaboradores improdutivos serão identificados. “Quando existem processos de avaliação consistentes e indicadores de desempenho claros, o acompanhamento será processual. Além disso, cabe ao líder manter-se próximo a seus colaboradores, conhecer seus desafios, pontos de desenvolvimento e necessidades não atendidas para melhorar a sua performance, afirma.

Mas, geralmente, o primeiro sinal de que há um ou mais funcionários improdutivos na equipe está nos resultados, que chegam fora do prazo ou de maneira insatisfatória. “A partir daí, cabe ao gestor ficar mais atento e identificar em quem realmente está o problema”, diz o especialista em administração do tempo e produtividade e CEO da TriadPS – multinacional especializada em programas de consultoria na área de produtividade, colaboração e administração do tempo -, Christian Barbosa.

Via de regra os primeiros sintomas, ou indícios também são percebidos pelos colegas de trabalho próximos ao funcionário improdutivo. “E se for o caso de a organização possuir muitos níveis em sua estrutura, ou ainda, uma liderança ausente, levará ainda mais tempo para chegar à chefia do referido colaborador”, completa Marta Mesina.

Adriana Schneider pede, no entanto, para sempre lembrar: um funcionário não é improdutivo, ele está improdutivo. Várias questões criam um contexto que podem gerar apatia, excesso de criticidade, insegurança, covardia ou procrastinação. Uma pessoa que não expõe suas ideias, que não cumpre com suas metas, atrasa prazos, horários e entrega com qualidade abaixo do combinado está vivenciando uma fase de baixa produtividade.

CARACTERÍSTICAS

De acordo com Marta, os produtivos entregam mais, com qualidade e dentro do prazo. São aptos em fazer mais com menos. Oferecem-se para os desafios e via de regra chamam para si a responsabilidade do fazer mesmo quando não dominam a atividade. Gostam de aprender e, de preferência, fazendo de bom grado.

Caracterizam-se também pela curiosidade, criatividade e cooperação com os colegas. Já os não tão produtivos dificilmente se apresentam para fazer algo, principalmente se entenderem que “eu não ganho para fazer isso”. Têm dificuldade com o tempo designado para as tarefas e quase sempre acumulam uma expressiva quantidade de horas extras no mês. São pouco colaborativos com o grupo e podem ter um alto absenteísmo. Podem também sentir dificuldade na linha de comunicação com a chefia e com a equipe onde estão inseridos.

Porém, a principal questão é ter a pessoa certa no lugar certo, na opinião de Adriana Schneider. “Muitas vezes, um funcionário mal avaliado poderá apresentar mudança de comportamento visível mediante troca de atividade, transferência de área ou repactuação de metas, pois se reconectam ao propósito do seu fazer profissional”, afirma.

Profissionais que enxergam significado no que fazem e que se sentem emocionalmente conectados com a empresa e com seus colegas, na opinião da coach, são mais felizes, buscam maior autodesenvolvimento e, consequentemente, são mais produtivos. Sem contar que, aqueles que investem tempo e energia em desenvolvimento contínuo são mais confiantes para expor suas ideias e percepções. O oposto dessas características pode apontar para profissionais que estão em fase de baixa energia produtiva.

Christian Barbosa pondera que os funcionários improdutivos costumam inventar muitas desculpas e entregar pouco. Eles vivem se justificando, reclamando de obstáculos e postergando tarefas, enquanto os produtivos sempre dão um jeito de contornaras problemas e fazer as coisas acontecerem. “É importante salientar que a improdutividade nem sempre está relacionada à preguiça ou à indisposição. Muitos funcionários têm medo de errar e são obcecados por fazer tudo da melhor maneira possível, desenvolvendo um comportamento perfeccionista. Isso faz com que ele gaste mais tempo em uma tarefa e tenha sua produtividade prejudicada, reflete.

Outro indício de improdutividade é o excesso de horas extras. É claro que alguns funcionários são ordenados a cumprir um volume de tarefas muito grande e que multas vezes não cabe no expediente, mas em algumas situações eles não conseguem realizar suas atividades no horário por serem improdutivos; e precisam ficar na empresa por mais tempo. Se isso acontece com frequência, é importante que o gestor fique atento.

Existe uma linha tênue entre a falta de tempo e a improdutividade e identificar essa diferença nem sempre é fácil. “Recomendo que o gestor faça uma análise básica de quanto tempo levaria para realizar determinado trabalho, acrescente mais 30% ao tempo e avalie se o profissional está dentro dessa linha. Se não estiver, é hora de chama-lo para uma conversa, recomenda o especialista em administração de tempo.

MOTIVOS

As pessoas possuem crenças, valores e princípios que orientam suas vidas; quando alguns deles não estão sendo contemplados, a tendência é que reaja de uma maneira negativa.

No entanto, muitas podem ser as causas da improdutividade. Alguns funcionários já têm esse perfil e apresentam dificuldade de se organizar, não possuem senso de urgência e prioridade, têm o hábito de procrastinar (adiar tarefas) ou são lentos na execução. Outros, no entanto, tornam-se improdutivos com o passar do tempo. “O cansaço, por exemplo, é um dos fatores que geram improdutividade. Funcionários desmotivados com o trabalho também podem ter problema, pois o esgotamento nos torna improdutivos”. Ajuíza o CEO da TriadPS.

Alguns líderes ainda especulam se eles sempre foram assim ou se isso pode acontecer depois de um determinado tempo, até por comodismo na empresa. A diretora da Mesina e Grecco, diz que podem acontecer essas duas variáveis, dentro dos possíveis grupos de causa que levam à improdutividade.

Em sua opinião, é comum o funcionário entrar animado na empresa e por diversas questões, como expectativas não atendidas, ambiente que não condiz com seus valores e liderança centralizadora, ir aos poucos se desmotivando, chegando assim no patamar da improdutividade. “Há os casos em que a improdutividade também pode ser uma característica do indivíduo, independentemente    do que fizer ou aonde for, seu grau de improdutividade estará presente. É assim na empresa, em casa e em outros ambientes sociais dos quais participa”, opina.

Por isso, uma pessoa que tenha um histórico ruim de avaliações precisa de ajuda. Provavelmente está conduzindo sua carreira por medo da escassez ou para atender a demandas sociais. “Ele deve se questionar sobre seu real propósito e até mesmo fazer uma transição de carreira”, complementa Adriana.

CORRIJA O PROBLEMA

É preciso que a liderança conheça seu colaborador para estimulá-lo da maneira certa, provocando uma vontade de superação, aprendizado e participação ativa para o sucesso da empresa. Mas para reverter a situação de improdutividade é preciso muito feedback e vontade de reconstruir a relação. Ser claro sobre os fatos que aconteceram e sobre o que é esperado em termos de atitude, competência e desafios a serem superados.

Identificados os profissionais e as respectivas causas dessa baixa performance ou improdutividade, a reversão dessa situação é uma das mais importantes lições de casa para as lideranças e também para a área de recursos humanos. “Um dos primeiros passos, com metodologia própria é identificar as possíveis causas responsáveis pela improdutividade individual, ou ainda, a coletiva. Agrupadas as possíveis causas por sua natureza, urgência e importância, criam-se ações dentro de um cronograma físico-financeiro, que neutralizem e tragam solução para esse efeito indesejado. Esse diagnóstico, seguido de ações estruturadas, tem uma expressiva efetividade. Em alguns casos. a solução poderá ser a dispensa dos improdutivos que o são por opção”, mostra Marta.

Christian Barbosa acredita que é possível tornar qualquer pessoa mais produtiva. Para isso, basta identificar o problema e investir em técnicas que ajudem a estimular o desenvolvimento pessoal e profissional.

Para ele, ao identificar um funcionário improdutivo, o primeiro passo é chamá-lo para conversar e estimular a melhora. Por meio dessa conversa, o gestor conseguirá entender quais pontos estão atrapalhando o funcionário e, a partir daí, instruí-lo para que seu desempenho melhore. “Nesse momento, é importante transmitir confiança, delegar as tarefas e deixar bem claro o que se espera do funcionário a partir daquele ponto.

Quando o problema atingir mais de um funcionário, promover um treinamento ou curso de produtividade na empresa é uma alternativa interessante. “Isso mostrará aos colaboradores como é possível tornar todas as tarefas viáveis e, consequentemente, resultará em uma melhora na execução diária, ajuíza.

Muitos gestores se apressam em desligar o profissional assim que percebem seu comportamento improdutivo. Mas o especialista recomenda que, antes disso, haja uma, duas ou três conversas. Chama isso de regra tríade da admissão e da demissão: quando a pessoa tem muitos problemas, dê três feedbacks. Caso isso não resolva, aí, sim é hora de demitir. Essa é uma ação importante para não prejudicar os demais, pois, ao manter um funcionário quo não apresenta resultados eficientes, você favorece aquele que não é produtivo e desanima os bons profissionais.

BOM SABER!

Para facilitar o entendimento podemos nominar três grandes grupos de funcionários que podem encontrar-se temporariamente improdutivos ou não. São eles:

AQUELES QUE SÃO IMPRODUTIVOS DE FORMA DELIBERADA: Passam boa parte do tempo quase nada produzindo e encostados nos demais membros da equipe. Têm características próprias: reclamam de tudo e de todos. Tem um alto absenteísmo, não são proativos, pouco colaborativos, acham que sempre estão sendo passados para trás, que são explorados e ainda podem ser os famosos “puxa-sacos. Em sua grande maioria têm muito tempo de casa.

IMPRODUTIVOS SITUACIONAIS: São aqueles profissionais que estão em fase de adequação a uma nova posição, ou seja, em desenvolvimento, por estarem, temporariamente, aquém do que o cargo exige, mas que têm potencial para chegar lá. Com treinamento e mentoria, chegam lá.

IMPRODUTIVOS ESTRUTURAIS: Desmotivados por falta de oportunidade, reconhecimento, estarem à frente de posição subdimensionada, com liderança nova, sentem-se injustiçados. Uma revitalização, uma transferência de área, uma conversa sincera e madura ajudam essa transição.

 Fonte: MARTA MASINA, diretora da Mesina e Grecco.

Carta fora do baralho.2

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE III

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

 

IV – O bom impacto que esta visita que Cristo fez aos samaritanos lhes causou, e o fruto que agora era colhido entre eles, vv. 39-42. Veja a impressão causada neles:

1. Pelo testemunho da mulher a respeito de Cristo. Embora fosse um testemunho individual, e proferido por alguém que tinha uma reputação ruim, e que se limitou a isto: “Ele me disse tudo quanto tenho feito”, mesmo assim, ele causou uma boa influência sobre muitos. Seria de se pensar que, ao Jesus contar à mulher sobre os pecados ocultos dela, os samaritanos ficariam temerosos de virem a Ele, com receio de que Ele lhes falasse sobre os pecados que tinham cometido. Mas eles preferiram se arriscar a isso do que a não conhecerem alguém que tinham motivos para pensar que era um profeta. E eles foram levados a duas coisas:

(1) A acreditar na palavra de Cristo (v. 39): “Muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher”. Eles acreditaram tanto nele, que o tomaram por profeta, e desejavam conhecer o pensamento de Deus através dele. Isto é interpretado, de maneira favorável, como crer nele. E observe:

[1] Quem eram os que creram: “muitos dos samaritanos”, que não eram da casa de Israel. A fé deles era não apenas uma exacerbação da descrença dos judeus, de quem se esperava algo melhor, mas uma garantia da fé dos gentios, que receberiam com prazer aquilo que os judeus rejeitaram.

[2] O que os incentivou a crer: “pela palavra da mulher”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Deus, às vezes, se compraz em utilizar instrumentos muito vulneráveis e improváveis para dar início e levar adiante uma boa obra. Uma pequena camareira encaminhou um grande príncipe a Eliseu, 2 Reis 5.2. Em segundo lugar, que questão importante uma pequena fagulha desperta. Nosso Salvador, ao instruir uma pobre mulher, difundiu esclarecimento para toda uma cidade. Que os ministros não sejam negligentes em sua pregação, ou desanimados nela, pelo fato de seus ouvintes serem poucos e pobres, pois, ao fazer o bem a eles, o bem pode ser transmitido a uma maior quantidade de pessoas, e àqueles que são mais importantes. Se eles ensinarem cada um ao seu próximo, e a cada um de seus irmãos, um grande número poderá aprender uns com os outros. Filipe pregou o Evangelho para um único aristocrata em sua carruagem na estrada, e ele não apenas o aceitou, como o levou para sua região e o propagou ali. Em terceiro lugar, veja como é bom falar de Cristo e das coisas de Deus a partir de nossa própria experiência. Esta mulher podia falar pouco a respeito de Cristo, mas o que ela dizia, dizia com sentimento: “Disse-me tudo quanto tenho feito”. Aqueles que podem dizer o que Deus tem feito por suas almas, são mais propensos a fazer o bem, Salmos 66.16.

(2) Eles foram levados a convidá-lo para ficar entre eles (v. 40): “Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles”. Baseados no relato da mulher, eles creram que Ele fosse um profeta, e foram ter com Ele. E, quando o viram, e a miséria de sua aparência e a manifesta pobreza de seu aspecto externo, não diminuíram sua apreciação por Ele e as expectativas relativas a Ele, mas ainda o respeitavam como profeta. Observe que há esperança para aqueles que superam os preconceitos vulgares que os homens têm contra o verdadeiro valor das pessoas que estão em uma condição social inferior. Benditos são aqueles que não se escandalizam em Cristo à primeira vista. Eles estavam tão distantes de se escandalizarem nele, que rogaram para que Ele permanecesse com eles:

[1] Para que pudessem testificar sobre o respeito que tinham por Ele, e tratá-lo com o respeito e a gentileza que lhe eram devidos, por causa da sua retidão de caráter. Os profetas e ministros de Deus são bem-vindos para todos aqueles que abraçam o Evangelho com sinceridade, como Lídia, Atos 16.15.

[2] Para que pudessem receber ensinamentos dele. Aqueles que são instruídos a respeito de Deus mostram-se verdadeiramente desejosos de aprender mais e de conhecer melhor a Cristo. Muitos se juntariam a alguém que lhes contasse seu futuro, mas esses se juntaram a alguém que lhes contaria seus erros, lhes falaria de seus pecados e obrigações. O historiador parece colocar ênfase sobre o fato de eles serem samaritanos, como em Lucas 10.33; 17.16. Os samaritanos não tinham a mesma fama dos judeus quanto à religião. Mesmo assim, os judeus que viram os milagres de Cristo o afastaram de si mesmos, enquanto os samaritanos, que não viram seus milagres, nem compartilharam seus favores, quiseram ficar na presença do Senhor. A prova do sucesso do Evangelho nem sempre está de acordo com as probabilidades, e aquilo que se vivencia nem sempre está de acordo com o que se espera. Os samaritanos eram ensinados pela tradição de sua região a serem precavidos ao conversarem com os judeus. Havia samaritanos que se recusavam a permitir que Cristo atravessasse sua cidade (Lucas 9.53), porém estes rogaram que Jesus permanecesse com eles. Observe que muito será acrescentado à exaltação de nosso amor por Cristo e pela sua Palavra, se ela vencer os preconceitos da cultura e da tradição, lançando uma forte luz sobre as reprovações dos homens. E agora nos é dito que Cristo concordou com o pedido que estes samaritanos lhe fizeram.

Em primeiro lugar, Ele permaneceu ali. Embora fosse uma cidade de samaritanos, e quase adjacente ao templo deles, ainda assim, quando foi convidado, Jesus ficou ali. Embora Ele estivesse em viagem, e tivesse que ir mais longe, quando teve a oportunidade de fazer o bem, Ele ficou ali. Não é o simples atraso que favorecerá nosso julgamento. Apesar disso, Ele ficou ali por apenas dois dias, pois Ele tinha outros lugares para visitar e outras obras a realizar, e dos poucos dias da permanência de nosso Salvador sobre a terra, aqueles dois dias era o que cabia àquela cidade.

Em segundo lugar, somos informados sobre a impressão que foi causada neles pelas próprias palavras de Cristo, e pela sua conversa pessoal com eles (vv. 41,42). O que Ele disse e fez ali, não é relatado, se Ele curou seus doentes ou não. Mas é sugerido, pelos efeitos, que Ele disse e fez aquilo que os convenceu de que Ele era o Cristo. E as obras de um ministro são melhor descritas pelos seus bons frutos. Ouvir a respeito de Jesus causou um bom impacto, mas agora seus olhos o viam, e o efeito foi:

1. Que o número deles cresceu (v. 41): “Muitos mais creram nele”. Muitos que não foram persuadidos a irem até Ele fora da cidade, foram mesmo assim levados, quando Ele se aproximou deles, a crer nele. Observe que é um consolo ver um grande número de crentes, e, às vezes, o zelo e presteza de alguns pode ser um meio de incitar muitos, e encorajá-los a uma santa emulação, Romanos 11.14.

2. Que a fé deles aumentou. Aqueles que haviam sido influenciados pelo relato da mulher, agora viam motivo para dizer: ”Já não é pelo que disseste que nós cremos”, v. 42. Há três coisas nas quais a fé deles cresceu:

(1) Em sua essência, ou naquilo em que eles realmente acreditavam. A partir do testemunho da mulher, eles creram que Ele era um profeta, ou algum extraordinário mensageiro do céu, mas agora que haviam conversado com Ele, eles acreditam que Ele é o Cristo, o Ungido, exatamente aquele que foi prometido aos patriarcas e por eles espera­ do, e que, sendo o Cristo, Ele é o Salvador do mundo, pois a obra para a qual Ele fora consagrado era a de salvar seu povo dos pecados que praticavam. Eles creram que Ele era o Salvador, não apenas dos judeus, mas do mundo, em que eles tinham a esperança de que os incluísse, embora fossem samaritanos, pois fora prometido que Ele seria a “salvação até à extremidade da terra”, Isaías 49.6.

(2) Na certeza. A fé deles agora cresceu até chegar a uma certeza absoluta: “Sabemos que este é verdadeiramente o Cristo”. Não um pretenso Cristo, mas o autêntico. Não um salvador típico, como muitos sob o Antigo Testamento, mas o verdadeiro. É por tamanha certeza das verdades divinas como esta que devemos nos esforçar. Não devemos pensar apenas: ”Achamos que é provável e desejamos crer que Jesus possa ser o Cristo”, mas: “Sabemos que este é verdadeiramente o Cristo”.

(3) Com base nisto, que era uma espécie de sensação e experiência espiritual: ”Agora não é pelo que disseste que nós cremos, porque nós mesmos o temos ouvido”. Antes eles haviam crido por causa da afirmação da mulher, e esta fora uma boa atitude, fora um bom passo, mas agora eles encontram um fundamento adicional e mais firme para sua fé: ”Agora nós cremos, porque nós mesmos o temos ouvido, e temos ouvido verdades tão esplêndidas e divinas, acompanhadas de tamanha autoridade e manifestação, que estamos completamente convencidos e seguros de que este é o Cristo”. Isto é semelhante ao que a rainha de Sabá disse de Salomão (1 Reis 10.6,7): “Eis que me não disseram metade”. Os samaritanos que acreditaram por causa da afirmação da mulher ganhavam agora uma luz maior, pois a qualquer que tiver será dado. Aquele que sobre o pouco é fiel, sobre muito será colocado. Neste caso, nós podemos ver como a fé vem através do ouvir.

[1] A fé nasce através da escuta dos relatos dos homens. Estes samaritanos, em consideração ao que fora dito pela mulher, creram a ponto de vir e ver, de chegar e experimentar: Dessa maneira, os ensinamentos de pais e pregadores, e o testemunho da igreja e dos nossos vizinhos experientes, recomendam a doutrina de Cristo ao nosso conhecimento, e nos inclinam a considerá-la como altamente verossímil. Porém:

[2] Nossa fé atinge seu pleno desenvolvimento, intensidade e maturidade ao ouvirmos o testemunho do próprio Cristo. E isso vai mais adiante, e recomenda sua doutrina à nossa aceitação, e nos compele a crer nela como indubitavelmente certa. Nós somos induzidos a examinar as Escrituras pela afirmação daqueles que nos disseram que nelas encontraram a vida eterna. Porém, quando nós mesmos também a encontramos nelas, experimentamos o poder da Palavra, que é esclarecedor, convincente, regenerador, santificador e consolador. E então cremos, já não pelas afirmações de outras pessoas, mas porque nós mesmos examinamos as Escrituras Sagradas, e assim nossa fé se sustenta não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus, 1 Coríntios 2.5; 1 João 5.9,10.

Desta maneira, a semente do evangelho foi plantada em Samaria. Que efeito houve disto posteriormente, não se torna visível, mas encontramos que, quatro ou cinco anos depois, quando Filipe pregou o evangelho em Samaria, ele encontrou tantos vestígios abençoados desta boa obra agora realizada, que as “multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia”, Atos 8.5,6,8. Porém, como alguns foram flexíveis para o bem, assim foram outros para o mal, os quais Simão, o mago, encantou com suas magias mágicas, vv. 9,10.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A GRANDEZA DAS PEQUENAS COISAS

Capazes tanto de construir quanto de destruir, os detalhes nos oferecem sinais que revelam a realidade e a natureza das coisas.

A grandeza das pequenas coisas

Passeando pela internet, deparei-me com um post de uma amiga sobre um texto cuja chamada me foi inspiradora:

“O declínio do afeto começa no desprezo pelas pequenas coisas”, dizia. Pronto. Fui fisgada. O propósito da frase havia sido cumprido, de forma que cliquei no link e li o pequeno texto que falava da importância da atenção aos detalhes nos relacionamentos afetivos, do quanto negligenciamos um simples elogio e do quanto isso pode, ao longo dos anos, consolidar­ se num erro fatal. Pus-me a pensar sobre minhas experiências pessoais, meus dois casamentos, minhas bodas de prata que se aproximam e concluí que nada poderia ser mais verdadeiro. Mas tendo sido uma pessoa de Letras, às vezes cismo com palavras. E com expressões e frases e períodos completos. Dessa vez foram as “coisas pequenas”. Pincei a expressão do referido texto e pus-me a observá-la com olhos analíticos. O que seriam as “tais pequenas coisas”‘? O texto as descrevia como cuidados, detalhes cuja ausência promove a corrosão dos relacionamentos.

Pus-me a refletir que, às vezes, a corrosão pode se dar pela presença. A presença de pequenas coisas, de pequenos detalhes que ferem, que magoam e que, por serem pequenos, passam despercebidos, embora não sem deixar um rastro de erosão sob um solo aparentemente sadio. Quando se percebe, muitas vezes é tarde demais, o solo cede, desmorona e leva consigo o relacionamento de anos. Tudo culpa dos pequenos detalhes.

Quando decidimos compartilhar uma grande conquista, por exemplo, a reação do ouvinte costuma alçá-lo a uma das duas categorias: confiável ou não confiável. Mas não se trata do que é dito explicitamente. Aqui os pequenos detalhes costumam ser mais reveladores: o olhar invejoso, o timbre de voz, o sorriso verdadeiro. Detalhes que denunciam o quanto se trata de alguém que, genuinamente é capaz de torcer pelo nosso sucesso.

É também na atenção aos detalhes que se encontra a autenticidade das coisas, nesse mundo do politicamente correto, repetido exausta e enjoativamente nas redes sociais. A construção de um discurso socialmente desejável nunca foi tão simples, sobretudo considerando “verdades” cujas bases se encontram em mentiras várias vezes repelidas. Por meio de mãos habilidosas, personagens são construídos – e consumidos – por uma sociedade crédula que, desatenta aos detalhes, ignora as pequenas coisas que revelam o verdadeiro self por detrás das personas.

Mas os detalhes não mentem e revelam o que a simples retórica procura ocultar. Basta observá-los. É aí que se encontra a sabedoria dos detalhes. Ou melhor, das pessoas que vão além do óbvio, da imagem e que não se contentam com máscaras. Nesse sentido, o detalhe salva, protegendo-nos do logro da retórica.

Mas há também o detalhe do cuidado. De uma mesa bem-posta, de um pacote bem-feito, de um vasinho de violetas no centro da toalha xadrez. Há tanto sendo dito por detrás desses detalhes! Lamento a existência de uma legião de surdos que jamais o acessarão. Ou, pior do que isso, que enxerguem ostentação onde existe carinho, “frescura” onde há cuidado.

O detalhe demanda tempo, tanto para sua promoção quanto para sua simples contemplação. Talvez daí se justifique a legião de insensíveis a ele, criaturas miseráveis que veem a vida passar como um videoclipe, alheias ao fato de que, muitas vezes, é nos detalhes que se faz o belo. E que na beleza podemos atingir a transcendência, que é a grandeza de todas as coisas.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia peia USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pela VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

SOBRE A FELICIDADE E A “BARRIGA DE TANQUINHO”.

Não. Definitivamente, querer não é poder. Resta saber então o que fazer para conseguirmos atingir nossos objetivos.

Sobre a felicidade e a barriga de tanquinho

Pode perguntar. Pelo menos na cultura ocidental, onze em cada dez pessoas gostariam de ter barriga de tanquinho. Brincadeiras à parte, é bem verdade que, se pudéssemos determinar nossa aparência física de maneira tão simples quanto criamos hoje um avatar no videogame, a grande maioria de nós exibiria corpos esbeltos, musculatura definida e, sim, muito provavelmente uma bela barriga de tanquinho!

Se essa é uma preferência de boa parte das pobres criaturas submetidas, sim, aos padrões de beleza ocidentais, ditadura da magreza, culto ao corpo e blá- blá- blá, por que não nos deparamos com uma legião de beldades no metrô, nas ruas, no trabalho etc.? Resposta: Em primeiro lugar porque, ao contrário do que diz a sabedoria popular, querer NÃO é poder!

Quero tocar piano desde os 7 anos de idade e – adivinhe só – isso nunca fez com que eu fosse capaz de tocar uma nota sequer. “por que você não deseja de verdade!” – diriam as mentes simplistas.

Quero, sim! O desejo é meu e somente eu conheço a sua intensidade (embora meus alunos, amigos e familiares também devam ter passado a conhecê-la a partir da milésima vez que me ouviram suspirar dizendo: “Puxa, eu queria TANTO tocar piano!”).

Compreendamos então o que acontece. Meu desejo de tocar piano é grande, é intenso e verdadeiro. Só não é maior do que minha paixão pelo meu trabalho. Isso significa que embora deseje tocar piano, não estou determinada a dispor do meu tempo para aprendê-lo. Isso porque, considerando que o tempo é uma questão de prioridade, seria preciso que eu abrisse mão de coisas relativas ao meu trabalho (leituras, preparação de aulas, cursos, consultorias, escrever artigos etc.) para ceder espaço não apenas às aulas de música, mas ao necessário estudo que deve acompanhar qualquer pessoa que espera aprender a tocar um instrumento. É exatamente isso que acontece com relação à famigerada barriga de tanquinho. A maioria quer, mas definitivamente não está disposta a passar horas na academia em nome desse desejo.

Acho interessante, no entanto, que não é preciso ser especialista em fisiologia do exercício para saber que musculatura só se adquire puxando ferro. Os conhecimentos científicos sobre o tema tornaram-se tão populares que até mesmo os que querem “trapacear” tomando anabolizantes sabem que devem fazer a sua parte, literalmente suando a camisa. Para desenvolvimento da musculatura não existem atalhos. É treino e ponto. Anseio pelo dia em que as pessoas saibam que, em se tratando de felicidade, acontece o mesmo.

Quando em meus cursos peço aos alunos um conselho acerca do que deveria fazer para, finalmente, aprender a tocar piano, eles (estranhando a obviedade da pergunta) prontamente respondem: “Faça aulas de piano, ué!”.

Ainda que não se deem conta, em termos neurofisiológicos, eles estão me dizendo que eu devo, por meio do treino (aula), criar uma rede neural (que hoje eu não tenho) que me capacite a tocar piano.

Eles não entendem aonde pretendo chegar com o cansativo exemplo do piano até que lhes digo: Por que em relação à felicidade seria diferente? Se eu quero ser feliz devo treinar meu cérebro para isso. Sair por aí perguntando às pessoas o que devo fazer para aprender a tocar piano é tão patético quanto dizer: “Como eu faço para ser mais otimista?” “Mais grato?” “Aprender a perdoar/”e é claro: “Como eu faço para ser feliz?”.

A resposta a todas essas perguntas é uma só: treino.

É por isso que eu digo que, assim como acontece em relação à barriga de tanquinho, nem todos “merecem” a felicidade. Porque, dentre todos que a desejam, existem aqueles que trabalham diariamente por ela. A esses poucos é que os prêmios estão destinados.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA, e professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

GESTÃO E CARREIRA

DIVERGENTE: PENSANDO FORA DA CAIXA

Valorização do foco e desempenho em atividades que requerem pensamento analítico levam ao controle meta cognitivo do pensamento.

Divergente - pensando fora da caixa

Estamos vivendo tempos de foco executivo na tarefa, com uma valorização de tudo que possa aumentar nosso desempenho no trabalho ou no estudo. O resgate da prática milenar da meditação do tipo mindfullness atinge níveis de popularidade tão grande que já circulam brincadeiras, corno as contidas no jogo de palavras da expressão “macmindfullness”. Essa ironia sobre uma versão pop da meditação mindfullness revela uma crítica ao entendimento superficial da população, induzido pelo enfoque banalizador da mídia, sobre os conceitos fundamentais dessa rica vertente, e não à meditação em si. De fato, existem muitos benefícios na prática desse tipo de meditação, e diversos estudos de Neurociências mostraram que o cérebro se adapta ao treinamento da capacidade de focar a atenção, e gentilmente afastar pensamentos intrusos. Se treinarmos um determinado circuito cerebral, as conexões se fortalecem, e a cada prática melhoramos o desempenho naquelas funções. Fazendo uma analogia com o sistema muscular, da mesma forma que aumentamos o número de fibras musculares, ou sua espessura, ao malhar, fortalecemos os circuitos do cérebro, ao malhar nosso pensamento. Voltar ao foco e prestar atenção de forma concentrada, sem deixar pensamentos nos distraírem, são fundamentais se estamos em uma aula, reunião de trabalho ou muitas outras atividades de nosso cotidiano.

Com esse destaque todo para o foco atencional, a visão contemporânea sobre deixar o pensamento “livre” varia, desde uma noção mais branda de constituir uma perda de tempo até versões que associam essa forma de pensar com a ruminação. Ruminar se refere aos pensamentos obsessivos, ansiosos e de preocupação, quando pensamentos negativos invadem a mente e são processados e reprocessados, levando a um aumento da tristeza e ansiedade. No entanto, se acumulam evidências de que o processo de ruminação é bem diferente do pensamento espontâneo. O pensamento livre de amarras, que vaga entre lembranças do passado e imagens do futuro, na língua inglesa é chamado de mindwandering, expressão que pode ser entendida como “deixar a mente vagar ou divagação, sonhar acordado, ou fantasiar”. Fazemos isso uma boa parte do tempo em que estamos acordados. Se não houver demanda de foco em tarefas, quando estamos sem fazer nada, a maior parte do tempo ficamos “viajando” em nossas mentes, em mundos virtuais de nossa imaginação.

Teria a seleção natural, a grande arquiteta do design cerebral, construído um sistema que requer um controle meta cognitivo o tempo todo para prestar atenção consciente no “aqui e agora”? A metacognição, ou a capacidade de pensar sobre o pensamento, é a faculdade que permite que se percebam os pensamentos, e que se direcionem esses pensamentos para alguma direção voluntária e conscientemente escolhida, como voltar ao foco da respiração consciente, em uma versão da meditação mindfullness.

Novos estudos estão começando a indicar que existem benefícios, pelo menos em certos contextos, no pensamento espontâneo e livre. Os pesquisadores dessa abordagem têm apontado que existe uma tradição de enfatizar o pensamento analítico e uso de tarefas padronizadas clássicas que medem o desempenho acadêmico. Existem evidências de que ficar no mundo da lua prejudica a aprendizagem em sala de aula, ou no entendimento de textos complexos, e certamente é importante ter a capacidade de focar a atenção quando necessário. No entanto, se nosso olhar se dirige para o pensamento divergente e resolução criativa de problemas, o cenário muda e surgem aspectos positivos do pensamento espontâneo. Pesquisas têm mostrado que a fantasia e a imaginação são mais frequentes em pessoas criativas como artistas e escritores, e que o sonhar acordado está relacionado a aumento da criatividade, em especial no período de incubação de novas ideias.

Um estudo recente no Chile apontou que estudantes que relatavam mais episódios de sonho acordado tiveram maiores escores nas medidas de criatividade, pensamento divergente e solução inovativa de problemas. Medidas de metacognição, através do auto relato, mostraram impacto negativo dessa capacidade na criatividade. Existem limitações nessa metodologia, mas esses resultados sugerem que em certos contextos as habilidades meta cognitivas de monitorar, planejar e regular os pensamentos inibem os processos divergentes e criadores.

Estamos começando a entender a diversidade de processos mentais que estão envolvidos com o pensamento e atenção, e a visão mais global que emerge desses estudos aponta para que se integrem várias formas de processamento, em termos de vantagens e desvantagens, para determinadas pessoas, contextos e demandas particulares, antes de estabelecer simples dicotomias ou antagonismos. A mente é rica e a natureza tem sabedoria em suas construções, não devemos simplesmente ceder à tentação de descartar como defeitos processos que levaram milhares de gerações para serem esculpidos. Manter o foco, e prestar atenção consciente, traz vantagens em determinadas situações e desvantagens em outras, da mesma forma que sonhar e imaginar livremente. Afinal, o que seria da humanidade sem os sonhadores? Sonhar é preciso, mas os filtros e testes das funções executivas são também necessários para que os sonhos se realizem.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE II

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

 

III – A conversa de Cristo com seus discípulos enquanto a mulher estava ausente, vv. 31-38.

Veja como nosso Senhor Jesus foi habilidoso em compensar o tempo, em poupar cada minuto, e em preencher as lacunas dele. Enquanto os discípulos iam à cidade, sua conversa com a mulher foi edificante e apropriada à situação dela. Quando ela foi à cidade, seu diálogo com eles não foi menos edificante e adequado ao caso deles. Seria bom se pudéssemos juntar dessa maneira os fragmentos do tempo, para que nenhum deles se per­ desse. Duas coisas são perceptíveis nesta conversa:

1. Como Cristo expressa o prazer que Ele próprio teve em sua atividade. Seu trabalho era procurar e salvar aqueles que estavam perdidos, procurar fazer o bem. Neste momento, nós o encontramos totalmente absorvido. Pois:

(1)  Ele deixou de lado sua comida e bebida por seu trabalho. Ao sentar-se junto à fonte, Ele estava cansado e precisava de refrigério, mas esta oportunidade de salvar almas o fez esquecer de sua fadiga e fome. E Ele considerava tão pouco sua comida, que:

[1] Seus discípulos foram obrigados a chamá-lo para comê-la: Eles “lhe rogaram”, eles o pressionaram, dizendo: “Rabi, come”. O fato de os discípulos o chamarem era um exemplo do amor que sentiam por Ele, para que Ele não ficasse fraco e doente por falta de algum sustento. Mas era um exemplo maior do amor de Jesus pelas pessoas o fato de ele precisar ser chamado. Através disso, aprendemos a ter uma santa indiferença até mesmo pelos indispensáveis sustentos da vida, em comparação com as coisas espirituais.

[2] Ele se importava tão pouco, que os discípulos pensaram que alguém lhe havia trazido comida na ausência deles (v. 33): “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Ele tinha tão pouco apetite por sua refeição, que eles estavam a ponto de pensar que já tivesse jantado. Aqueles que fazem da religião seu trabalho, quando precisam cuidar de qualquer dos assuntos referentes a ela, dão a estes a preferência antes mesmo da comida. Esta atitude é a mesma do servo de Abraão, que não comeu até que tivesse cumprido sua missão (Genesis 24.33), e de Samuel, que não se sentou até que Davi fosse ungido, 1 Samuel 16.11.

(2)  Ele fez de seu trabalho, sua comida e bebida. A obra que Ele tinha a fazer entre os samaritanos, a possibilidade que Ele agora tinha de fazer o bem a muitos, isto era comida e bebida para Ele. Era o mais notável prazer e satisfação imaginável. Nunca alguém faminto, ou um epicurista, esperou por um banquete opulento com tanto desejo, nem se alimentou de suas iguarias com tanto prazer, como nosso Senhor Jesus aguardou e aproveitou uma oportunidade de fazer o bem às pessoas. Com referência a isso, Ele diz:

[1] Que era uma comida que eles não conheciam. Eles não imaginavam que Ele tivesse qualquer plano ou perspectiva de estabelecer seu Evangelho entre os samaritanos. Este era um benefício e uma misericórdia que eles jamais haviam considerado. Observe que Cristo, através de seu evangelho e Espírito, faz mais bem às almas dos homens do que seus próprios discípulos percebem ou esperam. Também pode ser dito, a respeito dos bons cristãos, que vivem pela fé, que eles têm uma comida para comer da qual os outros não sabem, a felicidade na qual uma pessoa de fora não pode interferir. Neste momento, essa palavra fez com que perguntassem: “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?” Nem mesmo seus próprios discípulos estavam aptos a compreendê-lo quando, a partir de um costume material e corporal, Ele usava comparações.

[2] Que o motivo pelo qual seu trabalho era sua comida e bebida era por ser o trabalho de seu Pai, a vontade de seu Pai: ”A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou”, v. 34. Observe que, em primeiro lugar, a salvação dos pecadores é a vontade de Deus, e o esclarecimento deles para isso é uma obra do próprio Senhor. Veja 1 Timóteo 2.4. Há um remanescente escolhido cuja salvação é, de maneira especial, sua vontade. Em segundo lugar, Cristo foi enviado ao mundo com a missão de conduzir as pessoas a Deus, para conhecê-lo e serem felizes junto a Ele. Em terceiro lugar, Ele fez dessa obra seu trabalho e deleite. Quando seu corpo precisava de comida, sua mente estava tão ocupada com isso, que Ele esquecia de ambos, a fome e a sede, tanto a comida como a bebida. Nada era mais gratificante para o Senhor Jesus do que fazer o bem. Quando foi chamado para comer, Ele foi fazer o bem, pois esta atitude era sempre sua comida. Em quarto lugar, Ele não só estava, em qualquer ocasião, pronto para fazer seu trabalho, como estava disposto e interessado em realizá-lo e em completá-lo em todos os seus aspectos. Ele determinou-se a nunca abandoná-lo ou renunciar a ele, até que pudesse dizer: “Está consumado”. Muitos se empenham em realizá-los no início, porém não os levam até o fim, mas nosso Senhor Jesus estava concentrado em concluir seu trabalho. Nosso Mestre deixou-nos aqui um exemplo para que possamos aprender a fazer a vontade de Deus, o Pai, como Ele mesmo fez.

1. Com diligência e tenaz aplicação, como aqueles que disso fazem um trabalho.

2. Com deleite e prazer em fazê-lo, como se fosse da nossa natureza.

3.Com constância e perseverança, não apenas concentrando-nos em fazer, mas visando concluir nosso trabalho.

2. Veja aqui como Cristo, havendo expressado o prazer que tinha em seu trabalho, estimula seus discípulos a serem diligentes em seu trabalho. Eles trabalhavam com Ele, e por isso deveriam ser trabalhadores como Ele, e fazerem de seu trabalho sua comida, assim como Ele fazia. O trabalho que eles tinham para fazer consistia em pregar o Evangelho e estabelecer o reino do Messias. Neste momento, Ele compara este trabalho ao trabalho da ceifa, o ajuntar dos frutos da terra, e esta semelhança Ele preserva durante todo este sermão, vv. 35-38. Observe que o tempo do Evangelho é tempo de colheita, e o trabalho do Evangelho, trabalho de colheita. A ceifa é marcada com antecedência, é aguardada e esperada. Assim acontece com o Evangelho. O tempo da colheita é um tempo atarefado, todas as mãos devem estar no trabalho, cada um deve trabalhar para si, para que possa colher as graças e os confortos do Evangelho. Os ministros devem trabalhar para Deus, colher almas para Ele. O tempo da ceifa é uma oportunidade, um período curto e limitado, que não continua para sempre, e o trabalho da colheita é um trabalho que deve ser executado nesse tempo, ou nunca mais poderá ser feito. Dessa maneira, o tempo de desfrutar o Evangelho é uma época especial, que deve ser aproveitada para seus propósitos, pois uma vez passada, não pode ser trazida de volta. Os discípulos deveriam se unir em uma colheita de almas para Cristo. Agora, Ele sugere aqui três coisas a eles para animá-los a serem diligentes:

(1) Que era um trabalho necessário, e a ocasião para isso muito, urgente e premente (v. 35): “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Aqui está:

[1]  Uma palavra dos discípulos de Cristo referente à colheita de grãos. Há ainda quatro meses, e depois será a colheita, o que pode ser entendido, ou de forma geral: “Vós dizeis, para o encorajamento do semeador na época do plantio, que ainda faltam quatro meses para a colheita”. Para nós, são cerca de quatro meses entre o plantio da cevada e sua colheita, e provavelmente ocorria o mesmo com eles quanto a outros grãos. Ou particularmente: ”Agora, nesta época, vós calculais que serão quatro meses até a próxima colheita, conforme o curso normal da providência”. A colheita dos judeus começava na Páscoa judaica, próximo à Páscoa cristã, muito mais cedo no ano do que a nossa, motivo pelo qual parece que esta jornada de Cristo, da Judéia até à Galileia, ocorreu no inverno, por volta do final de novembro, pois o Senhor viajava em qualquer época para fazer o bem. Deus não nos prometeu apenas uma colheita a cada ano, mas definiu os períodos de colheita, de forma que sabemos quando esperar por ela, e assim podemos tomar as medidas mais adequadas.

[2] Uma palavra de Cristo quanto a ceifa do Evangelho. Seu coração estava tão voltado para os frutos de seu Evangelho quanto os corações dos outros estavam voltados para os frutos da terra, e para isso Ele conduziria os pensamentos de seus discípulos: “Levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Em primeiro lugar, aqui, neste lugar, onde eles agora estavam, havia trabalho de colheita para Ele fazer. Eles pediram que Ele comesse, v. 31. “Comer!”, diz Ele, “Eu tenho outra coisa a fazer, que é mais necessária. Vede as multidões de samaritanos que estão vindo da cidade, por sobre os campos, que estão prontas para aceitar o Evangelho”. Provavelmente, havia muitos mais à vista, agora. A prontidão das pessoas para ouvirem a palavra é um incrível incentivo para que os ministros preguem com diligência e energia. Em segundo lugar, em outros lugares, por toda a região, havia trabalho de colheita para todos eles realizarem. “Considere as regiões, pense no estado, no país, e descobrirá que há multidões tão prontas para aceitar o Evangelho como um campo de trigo totalmente maduro está pronto para ser ceifado”. Os campos estavam agora brancos para a ceifa:

1. Pelas leis de Deus reveladas nas profecias do Antigo Testamento. Agora era a hora em que as pessoas deveriam se congregar a Cristo (Genesis 49.10), quando deveria ocorrer uma grande adesão à igreja e suas fronteiras deveriam ser ampliadas, e, por isso, era a época de eles se ocuparem. É de grande alento para nos engajarmos em qualquer trabalho para Deus, entendermos pelos sinais dos tempos que este é o tempo apropriado para esse trabalho, pois, então, ele prosperará.

2. Pela disposição dos homens. João Batista preparou para o Senhor um povo bem disposto, Lucas 1.17. Desde que ele começou a pregar o reino de Deus, “todo homem emprega força para entrar nele”, Lucas 16.16. Este, portanto, era um tempo para os pregadores do Evangelho se dedicarem ao seu trabalho com a máxima vitalidade, de lançarem sua foice, quando a seara estava madura, Apocalipse 14.15. Ê necessário trabalhar na hora certa, para que este período não seja perdido. Se o trigo que está maduro não for colhido, ele cairá em terra e será perdido, e as aves o comerão. Se as almas que estiverem sob condenação, e possuírem alguma boa inclinação, não forem ajudadas agora, seus princípios de esperança resultarão em nada, e elas serão uma presa para os impostores. Também é fácil trabalhar agora. Quando os corações das pessoas estão prontos, o trabalho é realizado rapidamente, 2 Crônicas 29.36. Só é possível, entretanto, estimular os ministros a aceitarem as dores na pregação da palavra quando eles notam que as pessoas têm prazer em ouvi-la.

(2) Que era um trabalho produtivo e vantajoso, através do qual eles mesmos se tornariam vencedores (v. 36): “O que ceifa recebe galardão, e assim recebereis vós”. Cristo garantiu que pagará bem àqueles a quem Ele em­ pregar em sua obra, pois Ele nunca fará como Joaquim, que usou os serviços de seu próximo sem paga (Jeremias 22.13), ou como aqueles que, pela fraude, diminuíram o salário, particularmente, dos que ceifaram seus trigais, Tiago 5.4. Os ceifeiros de Cristo, embora clamem dia e noite, nunca terão motivos para clamar contra Ele, nem para dizer que serviram a um Senhor rude. Aquele que ceifa, não só deve receber, como de fato recebe recompensas. Existe uma recompensa no serviço a Cristo, e o trabalho traz, em si, sua própria recompensa.

[1] Os ceifeiros de Cristo produzem frutos: eles ajuntam frutos para a vida eterna. Isto é, eles salvarão tanto a si mesmos como àqueles que os ouvem, 1 Timóteo 4.16. Se o ceifeiro fiel salva sua própria alma, isso já é um fruto abundante para sua conta, é fruto ajuntado para a vida eterna. E se, acima e além disso, ele também for útil na salvação das almas de outros, mais fruto é ajuntado. Almas congregadas para Cristo são frutos, bons frutos, os frutos que Ele procura (Romanos 1.13). Estes frutos são ajuntados para Cristo (Cantares 8.11,12), são acumulados para a vida eterna. O consolo dos ministros fiéis consiste em que o trabalho deles tenha uma inclinação para a salvação eterna de almas preciosas.

[2] Eles se regozijam: “Para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem”. O ministro que é o feliz instrumento do início de um bom trabalho é aquele que semeia, como João Batista. Aquele que é empregado para continuá-lo e aperfeiçoá-lo é o que ceifa, e ambos se regozijarão juntos. Observe que, em primeiro lugar, embora toda a glória do sucesso do Evangelho pertença a Deus, ainda assim os ministros fiéis podem, eles mesmos, encontrar consolo em pregá-lo. Os ceifeiros compartilham a alegria da colheita, embora os frutos pertençam ao mestre, 1 Tessalonicenses 2.19. Em segundo lugar, aqueles ministros que têm diferentes talentos e são usados de diferentes maneiras devem estar tão longe de invejarem uns aos outros, que devem, pelo contrário, se regozijar no sucesso e utilidade uns dos outros. Embora todos os ministros de Cristo não sejam úteis da mesma forma, nem da mesma forma bem-sucedidos, ainda assim, se eles receberem do Senhor a graça de serem fiéis, eles todos finalmente entrarão juntos no gozo do seu Senhor.

(3) Que era um trabalho fácil, e um trabalho que já chega às suas mãos parcialmente realizado por aqueles que trabalharam antes deles: “Um é o que semeia, e outro, o que ceifa”, vv. 37,38. Isto, às vezes, denota um julgamento doloroso sobre aquele que semeia, Miquéias 6.15; Deuteronômio 28.30: “Tu semearás, mas não segarás”. Como Deuteronômio 6.11: “Casas cheias de todo bem, que tu não encheste”. Assim é aqui. Moisés, e os profetas, e João Batista haviam preparado o caminho para o Evangelho, haviam plantado a boa semente, das quais os ministros do Novo Testamento de fato apenas colheram os frutos. “Eu vos envio a ceifar onde, comparativamente, não trabalhastes”, Isaías 40.3-5.

[1] Isto indica duas coisas em relação ao ministério do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, que ele estava muito abaixo do ministério do Novo Testamento. Moisés e os profetas plantaram, mas não se poderia dizer que ceifaram, pois eles viram pouco do fruto de seu trabalho. Seus escritos trouxeram mais frutos, e fizeram muito mais bem do que eles poderiam ter feito pessoalmente, pois os frutos de seus ensinos, que estão contidos em seus escritos, têm sido úteis durante séculos, sendo uma bênção a incontáveis gerações. Em segundo lugar, que ele foi muito útil ao ministério de Novo Testamento, e abriu o caminho para este. Os escritos dos profetas, que eram lidos nas sinagogas todo sábado, aumentavam as esperanças das pessoas quanto ao Messias, e, dessa maneira, preparavam-nas para realizarem uma bela recepção a Ele. Não fosse pela semente plantada pelos profetas, esta samaritana não poderia ter dito: “Sabemos que o Messias vem”. Os escritos do Antigo Testamento são, em alguns aspectos, mais úteis a nós do que podiam ser para aqueles para quem foram inicialmente escritos, por serem mais bem entendidos através do seu cumprimento. Veja 1 Pedro 1.12; Hebreus 4.2; Romanos 16.25,26.

[2] Isto também indica duas coisas relativas ao ministério dos apóstolos de Cristo. Em primeiro lugar, que era um ministério frutífero: eles eram ceifeiros que segavam em uma volumosa colheita de almas para Jesus Cristo, e em sete anos fizeram mais para o estabelecimento do reino de Deus entre os homens do que os profetas do Antigo Testamento haviam feito em duas vezes esse número de gerações. Em segundo lugar, que era muito facilitado, especialmente entre os judeus, para quem eles foram inicialmente enviados, pelos manuscritos dos profetas. Os profetas semearam em lágrimas, clamando: “Nós trabalhamos em vão”. Os apóstolos segavam com alegria, dizendo: “Graças a Deus, que sempre nos faz triunfar”. Observe que muitos bons frutos podem ser colhidos dos trabalhos dos ministros que estão mortos e partiram pelas pessoas que sobrevivem a eles e pelos ministros que os sucedem. João Batista e aqueles que o ajudaram, haviam trabalhado, e os discípulos de Cristo entraram nos trabalhos deles, construíram sobre suas fundações, e colheram os frutos do que eles semearam. Veja o motivo que temos para louvar a Deus por aqueles que foram antes de nós, por suas pregações e seus manuscritos, pelo que eles fizeram e sofreram em seus dias, pois nós entramos em seus trabalhos. Sua dedicação e ajuda tornaram nosso trabalho mais fácil. E os antigos e novos trabalhadores, aqueles que chegaram à vinha na terceira hora e aqueles que vieram na undécima hora, se encontrarão no dia do pagamento. Eles estarão tão distantes de invejarem um ao outro pela glória de seus respectivos serviços, que, tanto aqueles que semearam quanto aqueles que segaram se regozijarão juntos, e o grande Senhor da colheita terá toda a glória.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

UM CHOQUE NA MEMÓRIA

Técnica americana, que consiste na implantação de eletrodos no cérebro de pacientes com déficit de memória, consegue recuperar até 15% da capacidade de lembrar.

Um choque na memória

“Usas um vestido/ Que é uma lembrança/ Para o meu coração. / Usou-o outrora / Alguém que me ficou / Lembrada sem vista. / Tudo na vida/ Se faz por recordações. / Ama-se por memória”

O poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos mais conhecidos do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), remete ao conceito universal de que a memória é o que nós somos. Sem que tenhamos a possibilidade de recordar, a existência se esvazia por completo. A vida se sustenta com base nas ideias do presente, nas referências do passado e na forma como processamos e armazenamos as nossas experiências. Por isso, ninguém quer perder a memória, todos querem melhorá-la. Pois um novo e ousado procedimento médico foi capaz de impulsionar o mecanismo que forma e preserva as lembranças, um feito inédito na medicina. Eletrodos implantados em uma área específica do cérebro recuperaram 15% da memória de pacientes. A taxa equivale ao que se perde em dois anos e meio com a degeneração provocada pela doença de Alzheimer. Ou ao que se esvai naturalmente em dezoito anos de vida de uma pessoa saudável. Traduzindo: quem tem 56 anos hoje pode, em tese, voltar a ter a mesma memória que tinha aos 38 anos. Disse Youssef Ezzyat, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, autor principal da técnica: “O método abre um caminho de possibilidades para auxiliar as pessoas com problemas de memória”. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho tem sido considerado por especialistas do mundo todo como um dos feitos mais promissores ocorridos na neurologia nas últimas décadas, desde a disseminação dos aparelhos de ressonância magnética que revelam o cérebro em atividade.

A dinâmica do método fascina. Dezenas de eletrodos minúsculos, de 2,3 milímetros cada um, foram implantadas no córtex lateral de 25 pacientes. O córtex lateral é a região do cérebro associada ao processamento de informações. A cirurgia para a implantação dos eletrodos dura, em média, três horas. Em seguida, os participantes foram orientados a memorizar uma lista com doze palavras aleatórias, como “bala”, “doce” e “carro”. Cada vocábulo foi exibido em uma tela durante dois segundos. Pediu-se a todos os pacientes, então, que fizessem contas matemáticas simples, tarefa cujo único objetivo era distraí-los da anterior.

Na sequência, tinham de dizer aos pesquisadores de quais palavras conseguiam se lembrar. Durante todo o procedimento, a atividade cerebral dos pacientes era registrada pelos eletrodos. Com isso, os cientistas conseguiram definir dois padrões de ondas cerebrais: um para os momentos em que a memória funcionava bem, e o outro para quando ia mal. A partir daí, os eletrodos foram programados para liberar pequenos choques elétricos no cérebro do paciente (que não sente nada) sempre que sua onda cerebral não funcionasse bem. Resultado: as lembranças melhoraram em 15%.

O procedimento ainda é experimental e deverá ser realizado em um número maior de pessoas para que se verifiquem sua real segurança e eficácia. É um processo que deve demorar ainda mais uma década para ser concluído. ”Mas já podemos dizer que se trata de um feito inédito para os estudos de melhora da memória”, diz o neurologista Renato Anghinah, da Universidade de São Paulo. Aqui, um parêntese importante. Todos os pacientes que se submeteram ao estudo tinham epilepsia, doença que costuma provocar deficiências de memória. No entanto, os efeitos da técnica dos eletrodos, teoricamente, poderiam ser igualmente positivos também em pessoas saudáveis.

O uso de descargas elétricas para melhorar a saúde do cérebro é coisa antiga. O médico grego Claudio Galeno (129-216) encostava peixes-elétricos no crânio dos pacientes para tratar dores de cabeça crônicas. Com seu método, Galeno intuiu o que só seria confirmado no século XVIII: que o organismo pode ser estimulado por impulsos elétricos – o princípio de ação dos eletrodos. Esses dispositivos são usados desde a década de 90 para tratar doenças neurológicas, como Parkinson e epilepsia. Atualmente são estudados para o tratamento de pacientes com depressão refratária a medicações. Implantados no cérebro, ficam ligados a uma bateria externa que libera choques em áreas que variam conforme a natureza da doença. O conceito por trás da técnica é que as pequenas descargas elétricas são capazes de interromper atividades cerebrais desreguladas, permitindo, assim, a predominância de atividades cerebrais em regiões com processamento normal. Cientistas já arriscam imaginar os próximos passos. Diz o neurocirurgião Arthur Cukiert: “No futuro, poderemos avançar a ponto de conseguir os mesmos efeitos com uma tecnologia não invasiva, que aja de fora do cérebro”.

A memória é uma das funções mais complexas do cérebro. Isso porque ela está associada a dezenas de áreas do órgão, sendo o hipocampo uma das principais. Em conjunto com o córtex, ele garante que o organismo colete, conecte e crie as lembranças a partir de experiências. É, portanto, o primeiro passo para a formação da memória. Quem quer que rememore o seu primeiro beijo possivelmente se lembrará das palpitações causadas pela ansiedade, do ambiente em que se encontrava, do perfume e das características físicas do parceiro. O fato de a experiência envolver tantos sentidos ajuda a fazer com que, mesmo alguns bons anos depois, a lembrança continue ali, armazenada. Os atores essenciais nesse processo são as conexões elétricas transmitidas pelos neurônios – as chamadas sinapses, que codificam e armazenam a memória.

Mais recentemente, a medicina identificou que o mecanismo da memória é ainda mais intrincado do que se imaginava. Ele está associado também aos hábitos de vida. Hoje, sabe-se que 30% dos casos de perda de memória grave podem ser evitados com comportamentos saudáveis. Há seis meses, a Academia Americana de Neurologia passou a recomendar exercícios físicos para prevenir a perda de memória – como 150 minutos semanais de caminhada, por exemplo.

A atividade física estimula o funcionamento do hipocampo. Já a privação de sono tende a provocar lapsos de memória – uma noite mal dormida é capaz de afetar temporariamente a comunicação entre os neurônios. Ainda há controvérsia entre especialistas sobrea eficácia de atividades que pregam técnicas de memorização para retardar a perda das lembranças, como o jogo de xadrez ou sistemas de aprendizagem como o Kumon. Mas um novo estudo, publicado na revista da Sociedade Americana de Geriatria, descobriu que esses hábitos podem, sim, ajudar a memória, só que em uma situação mais específica, quando ela já está afetada por um transtorno cognitivo leve – o estágio entre o envelhecimento cerebral normal e a demência. Dificilmente, no entanto, essas atividades poderiam contribuir para reverter a perda natural de lembranças. O problema está, mais uma vez, na complexidade da formação da memória. “Não há um exercício suficientemente completo para abranger todas as variações da memória. É possível melhorá-la pontualmente”, diz Paulo Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal de Medicina, em São Paulo.

Esquecer é algo natural. Todo aquele que tiver uma vida longa em algum momento se queixará de ter ficado com “uma palavra na ponta da língua”. A chave de casa some, a carteira não está no lugar e o nome das pessoas desaparece repentinamente. A falta de memória saudável é um sintoma secundário de outros problemas. Antes de tudo, pode ser desatenção. Se um indivíduo não se importar com o lugar onde deixou o casaco, seu cérebro também não vai se preocupar em arquivar essa informação. Os lapsos podem ter a ver ainda com ansiedade, depressão, stress e abuso de álcool. Aos 60 anos, por causa do desgaste natural dos neurônios, mais da metade dos adultos apresenta dificuldades de memória que afetam o seu dia a dia em algum grau. Mas isso não é necessariamente sinal de problemas graves, como a doença de Alzheimer.

O mecanismo das lembranças é um tema debatido desde a Antiguidade. Sócrates, conforme relata Platão em Fedro, lamentou a popularização da escrita porque, segundo ele, a substituição do conhecimento acumulado no cérebro pela palavra desenhada tornaria a mente preguiçosa e prejudicaria a memória. “Essa descoberta provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiadas na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações”, disse. Bem mais adiante, o escritor português José Saramago retorquiu ao filósofo grego em seu livro de crônicas A Bagagem do Viajante, publicado originalmente em 1973: “Se passo as minhas lembranças ao papel, é mais para que não se percam (em mim) minutos de ouro, horas que resplandecem como sóis no céu tumultuoso e imenso que é a memória. Coisas que são também, com o mais, a minha vida”. Sócrates se preocupava com a influência do papel sobre a memória, mas nunca imaginaria o poder dos eletrodos sobre ela. Se pudesse fazê-lo, talvez levantasse outras questões: os implantes cerebrais poderão resultar em classes diferentes de cidadãos, os de memória aprimorada e os “normais?” E se, em algum momento, eles influenciarem pensamentos e comportamentos? Por outro lado: podemos estar subjugando a importância do esquecimento?

Na ficção, a memória tem sido instrumento de roteiros extraordinários. Um exemplo é o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, do diretor Michel Gondry. Lançado em 2004, o longa conta a história de Clementine, a personagem vivida por Kate Winslet que se submete a um procedimento experimental para apagar da memória o ex­ namorado Joel, interpretado por Jim Carrey. Desconsolado, Joel decide fazer o mesmo. Mas, quando suas lembranças começam a se esvanecer, ele percebe que ainda ama Clementine – e tenta desesperadamente inverter o processo. A vida se faz por memórias, e, sem elas, sobra o vazio. A possibilidade de estendê-las por mais tempo é a possibilidade de prolongar o bom da vida.

 Um choque na memória.2 A DÁDIVA DO ESQUECIMENTO

Na mitologia grega, Mnemosine e Letes, os rios da memória e do esquecimento, corriam pelas planícies do Hades, a terra dos mortos, e a alma que lá chegava, conforme bebesse das águas de um ou de outro, teria o conhecimento ou a completa ignorância do que vivera sobre a terra. Outras versões do mito colocam o Letes à saída do Hades, pois a alma que retomava ao plano terreno tinha de apagar lembranças de vidas anteriores. No século XIV, Dante adaptou esses mitos da Antiguidade ao pensamento cristão em sua Divina Comédia: saindo do Purgatório, as almas que se encaminhavam para o Paraíso bebiam do Letes para esquecer os pecados, e de um rio chamado Euno é para lembrar-se do bem que haviam feito. Essas narrativas já contemplavam uma intuição fundamental sobre o funcionamento de nossa mente: esquecimento e memória são faculdades complementares. Precisamos de ambas.

A vida seria perfeitamente infernal se nossa memória fosse irretocável. Imagine lembrar-se exatamente de tudo o que foi dito pelo apresentador de um programa dominical que você viu em um dia de 1995, ou da cor das meias que você calçou naquela ocasião. Uma pessoa que lembrasse de tais insignificâncias teria dificuldade para discernir que eventos merecem ser qualificados de memoráveis. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em 2007 demonstrou que a capacidade do cérebro de suprimir memórias irrelevantes facilita lembrar o que realmente importa. Há razões evolutivas para que seja assim: na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. Importa mais lembrar que certo cachorro é bravo do que recordar seu nome ou a forma de sua tigela de ração.

A ciência ainda não desvendou os mecanismos do esquecimento, mas já sabe que esquecer é tão vital quanto lembrar. Pesquisas recentes sugerem que certas pessoas com incapacidade de esquecer eventos traumáticos têm maior risco de desenvolver depressão e transtorno de stress pós-traumático. Como apontou o filósofo e psicólogo americano William James, pioneiro em estudos sobre a memória: “Se nos lembrássemos de tudo, seriamos, na maioria das vezes, tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”.

Admirador de William James, o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) talvez tenha sido o escritor de ficção que melhor compreendeu a importância do esquecimento. O francês Marcel Proust explorou os delicados processos involuntários que despertam a memória dos tempos perdidos – mas Borges aventurou-se em terreno mais perigoso: especulou como seria uma memória absoluta, no conto Funes, o Memorioso. Espécie de versão extrema da americana Jill Price – que consegue lembrar o dia exato em que determinado episódio de programa televisivo foi ao ar nos anos 80 -, lrineo Funes não consegue se esquecer de nada. Tem facilidade para línguas, mas é incapaz de pensamento consistente. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes, nada havia além de detalhes, quase imediatos”, ensina Borges.

Em um conto posterior, O Aleph, Borges imagina um objeto impossível: o Aleph é um ponto único do espaço – localizado em um porão de Buenos Aires – em que é possível ver a totalidade do mundo em um só relance. Depois da experiência sobrenatural de olhar para o aleph, o personagem-narrador teme nunca mais vir a ter uma surpresa na vida, pois todas as pessoas com que cruza na rua já foram vistas antes. Depois de algumas noites de insônia, porém, o esquecimento faz seu trabalho. Borges tinha uma memória literária prodigiosa, conhecendo muitos textos e poemas de cor. Mas compreendia que o esquecimento é uma dádiva.

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OUTROS OLHARES

UM SENTIDO PARA A EXISTÊNCIA

Quando chega o envelhecimento, recorremos à ciência na tentativa de reparar os estragos da idade. Nossas antigas lutas por um lugar de importância no mundo cedem lugar ao mistério que é a própria vida.

Um sentido para a existência

Um olhar para quem está terminando sua vida lentamente faz-nos imaginar uma luta para domesticar a morte até que o medo dela permita-nos chegar ao lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

André Gorz, filósofo francês, fica recluso em companhia de sua esposa Dorine, prisioneira de uma doença degenerativa que a tortura sem piedade. Depois que a Medicina varreu toda a esperança de um senso de controle da vida para lhes aliviar o sofrimento, o casal toma a decisão de eternizar a paixão com a própria morte. O amor arrebata as mãos de André e fá-las escrever sua última carta à amada Dorine. Um ano depois de escrevê-la, ele lacra-a e coloca-a na porta da sua residência. Para evitar interferências na decisão do casal, André fecha bem toda a casa e o casal comete suicídio. A carta encontrada, escrita por André, é o livro Carta à D.

Começa assim: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Ao tempo em que descreve as mudanças físicas, deixa claro o quanto o amor não depende desse tipo de apreciação. Afinal, o encontro de almas que se fundem faz com que um não possa viver sem o outro. No amor, a alma habita um só corpo. Diante da ameaça inevitável da perda da mulher, André sonhava com a silhueta de um homem em uma estrada vazia e em uma paisagem deserta que andava atrás de um carro fúnebre. Esse homem era ele e era Dorine que o carro levava. Não queria ir à sua cremação, não queria receber a urna com as suas cinzas; ouvia um canto que dizia “o mundo está vazio, não quero mais viver”, aí ele despertava. Nossos sonhos trazem mensagens relacionadas com os nossos sentimentos mais autênticos. Por meio deles, podemos experimentar a vida e a morte de uma forma mágica e até brincar com isso. Esse sonho fez André perceber que a escolha estava entre viver sem vida ou deixar a paixão ressoar no espírito que encontra unidade ao se dissolver no outro até existir uma única alma para esses dois corpos.

André pergunta por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras. Isso nos faz refletir sobre o que é trazer o outro para nossa vida. Não é preencher uma solidão ou atender alguma expectativa de completude, pois o amor é a própria incompletude. Esse fascínio não encontra expressão e abre mão de qualquer padrão imposto por alguma cultura. É uma bricolagem de tudo que é indizível.

A natureza propõe ao que é vivo um destino a cumprir e nele a preparação para a morte. No entanto, tendemos a querer contrariar essa natureza e encontrar formas de permanecer no teatro da vida de qualquer maneira, apegados ao medo do desconhecido. Buscamos, talvez, a fantasia de uma vida sem conflito e eternamente idêntica. Isso seria uma morte em vida. O sofrimento gerado por nossos erros é o modo como temos de evoluir até compreendermos o significado do sofrimento e mudar de nível dentro da evolução humana.

O pensamento mítico que expressa nossos temores, fantasias e expectativas do homem sobre a morte faz-nos entender que é mais evoluído vivermos a vida da melhor forma que conseguirmos do que gastarmos tempo e energia para lutar contra a morte. Somos livres para escolher ter consciência de nós mesmos e sem liberdade para escolhermos o destino.

O homem moderno apega-se à ilusão de uma ideia de felicidade que consiste em conseguir realizar todos os seus desejos. Essas expectativas nunca serão atendidas, pois existe outra ordem que rege nossas vidas. Quando essa consciência aparece, encontramo-nos com as mãos vazias e sofremos a metamorfose kafkiana, sentindo-nos como um grande inseto inútil e inapropriado para a vida, ou então nos transformamos em Dom Quixote e saímos por aí transformando a paisagem calma dos moinhos de vento em batalhas terríveis.

O mistério do que acontece quando o corpo morre a ciência não consegue responder. Mas o pensamento mítico, que conduz o imaginário do homem, precisa da ideia de que algo sobrevive além do físico. Então, é mais saudável adotarmos a ideia de que tudo vai continuar sem precisar buscar provas e muito menos acreditar. Basta saber que a verdade psíquica é a que prevalece, pois algo nos leva a sentir que a vida se comporta como se fosse continuar.

O envelhecimento do humano, em sua relação com o outro, precisa encontrar um sentido para sua existência. Alguns trilham um caminho permeado de uma paisagem cheia de saudade de um mundo que passou; outros buscam a aquisição de uma sabedoria em olhar com outra visão e sentir que nos aproximamos do lugar intemporal de onde emergimos ao nascer.

Um sentido para a existência.2

 

 

GESTÃO E CARREIRA

QUEM MANDA AQUI?

Os recursos humanos, dentro de qualquer perfil de instituição, são o que há de mais importante, mesmo nos ambientes altamente tecnológicos, onde a presença humana é quase totalmente dispensável.

Quem manda aqui

É fato que sem a interação do colaborador com o mercado, usuários, equipamentos, ou até mesmo os sistemas operacionais, a instituição irá parar de gerar recursos, de ter retorno e zerar sua produtividade. Deixando assim de existir.

Na época em que o projeto Apolo estava no auge, final dos anos 60, corria uma piada que os russos haviam conseguido criar um equipamento tão sofisticado que eram necessários apenas dois elementos para sua operação: um homem e um cão. O homem tinha como obrigação alimentar o cão, e o cão ali estava para não deixar o homem tocar em nenhum comando da máquina. Mesmo se tratando de uma antiga anedota, o pensamento de se evoluir para uma estrutura funcional perfeita, sem a necessidade de interação humana, sempre foi o sonho dourado dos mais apaixonados capitalistas – visando o lucro – e dos socialistas/comunistas – visando a liberdade do homem para tarefas mais filosóficas.

Ocorre que o homem não deseja se libertar de suas atribuições. Isso o faz se sentir produtivo e um elemento capaz de contribuir para a sociedade gerando seu próprio sustento a cada dia. Não existem funções sem especialistas, mas algumas funções deixaram de existir durante a evolução industrial, permitindo uma migração de especializações.

O antigo alfaiate de bairro pode ter se transformado em um atendente numa loja de roupas. O homem que amolava facas com sua roda gritante pelas ruas da cidade pode ter se tornado um carpinteiro ou, quem sabe, cursado uma graduação e hoje é um profissional liberal.

Assim, a transformação das funções foi gerando outra grande novidade nas empresas: as equipes de trabalho. Vários são os perfis de equipes que podem ter objetivos claros e serem diferentes, principalmente por tipo de atividade e expectativa de resultados. Certo é que cada equipe tem seu líder. Seja ele certificado ou não. A liderança nas equipes de trabalho pode ser exercida pelo líder instituído ou pelo elemento de maior capacidade de gerenciamento emocional. Aqui, as habilidades comunicacionais sempre levam vantagem sobre a técnica operacional. O líder não é quem manda, é quem coordena. Não é o profissional mais habilidoso e sim o que melhor interage com os outros indivíduos de seu grupo de trabalho.

Encontramos o perfil multidisciplinar em que os elementos possuem formações diferentes e isso pode gerar conflito se não houver uma boa condução dos processos. Nesses casos, a liderança natural ou supervisão externa é altamente aconselhável.

O sábio educador paulista Celso Antunes contou, certa vez, que um professor faltou na escola, e uma das funcionárias foi ao hospital que funcionava em frente à dita escola. Adentrou a sala dos médicos solicitando que um deles pudesse cobrir a falta do docente. Ela foi prontamente atendida e um dos profissionais foi à sala de aula e explicou sobre saúde no tempo destinado ao ensino de matemática. O problema aqui é que, se fosse o contrário, se uma enfermeira adentrasse a sala dos professores solicitando a ajuda de algum docente para conduzir uma cirurgia, cobrindo a falta do cirurgião, com certeza não seria atendida, pois, afinal, nenhum deles estaria capacitado para tal ato complexo e não arriscaria a vida de outrem apenas pela oportunidade de demonstrar saberes além de sua formação. Ocorre que lecionar também é um ato complexo e necessita de preparo e organização. No entanto, parece simples para os leigos no tema.

Dessa forma, as especializações devem ser respeitadas, assim como os limites de cada formação. O comando não é imposto, é conquistado pela capacidade de gerenciar conflitos e ofertar possibilidades de crescimento aos elementos que formam a equipe. Capacidade de ser solidário, assumir responsabilidades, saber unir as habilidades e criar sinergia é o papel do líder.

Ainda teremos um ambiente perfeito onde os diferentes saberes possam fazer suas trocas ampliando a produtividade com estratégias comportamentais assertivas e as lideranças sempre surjam de forma natural com apoio de todos da equipe. Enquanto isso não ocorre, é necessário elencar talentos que ajudem na boa relação com o grupo.

Também é de bom tom lembrar que, embora uma pessoa possa ser líder dela mesma, só existe equipe de trabalho a partir de dois elementos unidos em prol de um objetivo comum. E, somente dessa forma, um pode exercer liderança sobre o outro. Da mesma forma, a liderança pode ser alternada em diferentes momentos do processo produtivo.

Para que isso fique claro, basta lembrar que o capitão do navio cede o comando para um prático fazer as manobras até atracar a embarcação no cais. A mais alta patente de um navio abre mão da liderança diante de um profissional especializado em uma determinada função que, muitas vezes, nem fala o mesmo idioma.

O trio que mantém uma empresa em funcionamento deve ser facilmente identificável em um corpo funcional: boa comunicação entre os elementos com clarificação de conteúdo sempre que possível, objetivos claros e aceitos pelos membros da equipe e uma liderança capaz de orientar os passos de todos os processos.

 

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.iseq. Psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções: Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional: Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 27-42 – PARTE I

Alimento diário

Cristo Junto à Fonte de Samaria

Temos aqui o restante da história sobre o que aconteceu quando Cristo estava em Samaria, após a longa conversa que tivera com a mulher.

I – A interrupção de sua conversa pela chegada dos discípulos. É provável que muito mais tenha sido falado do que o que é relatado. Mas somente quando a conversa chegou a um ponto crítico, quando Cristo havia se declarado à mulher como sendo o verdadeiro Messias, os discípulos chegaram. “Oh filhas de Jerusalém… não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira”.

1. Eles maravilharam-se de que Cristo conversasse com essa mulher, maravilharam-se de que ele falasse tão seriamente (visto que talvez eles observassem à distância) com uma mulher, uma mulher desconhecida, a sós (Ele costumava ser mais reservado), especialmente com uma samaritana, que não fazia parte das ovelhas perdidas da casa de Israel. Eles pensavam que seu Mestre devia ser tão desconfiado dos samaritanos quanto os outros judeus, o suficiente para que não pregasse o Evangelho a eles. Eles maravilharam-se de que Ele se rebaixasse a falar com uma mulher tão insignificante, esquecendo quão desprezíveis eles próprios eram quando Cristo os chamou inicialmente para se juntarem a Ele.

2. Ainda assim, eles aceitaram aquilo tacitamente. Eles sabiam que era por alguma boa razão, e por algum bom propósito, dos quais Ele não estava obrigado a lhes prestar contas. E, por isso, nenhum lhe disse: “Que perguntas?” Ou: “Por que falas com ela?” Assim, quando dificuldades peculiares ocorrerem com a Palavra e a providência de Deus, é bom nos satisfazermos com o fato de que, em geral, tudo está bem no que Jesus Cristo diz e faz. Talvez houvesse algo inadequado no fato de eles se maravilharem de que Cristo falasse com a mulher. Isto era como os fariseus se escandalizando com o fato de Ele comer com publicanos e pecadores. Mas, o que quer que eles pensassem, eles nada disseram. “Se imaginaste o mal, põe a mão na boca”, para impedir que esse pensamento mau se torne uma palavra do mal, Provérbios 30.32; Salmos 34.1-3.

II – A informação que, com alegria, a mulher deu aos seus vizinhos sobre a extraordinária pessoa que ela havia encontrado, vv. 28,29. Observe aqui:

1. Como ela se esqueceu de sua missão junto à fonte, v. 28. Pelo fato de os discípulos terem chegado e interrompido a conversa, e talvez por ela ter notado que eles não estavam contentes com aquilo, ela foi embora. Ela se retirou, em uma atitude de cortesia e civilidade a Cristo, para que Ele tivesse tempo para comer seu jantar. Ela se alegrou pela conversa que teve com Ele, mas não foi rude. Cada coisa é bela em seu momento. Ela supôs que Jesus, ao terminar seu jantar, continuaria em sua jornada, e por isso apressou-se em contar a seus vizinhos para que eles fossem encontrá-lo prontamente. ”A luz ainda está convosco por um pouco de tempo”. Veja como ela aproveitou o tempo. Quando um bom trabalho estava completo, ela se dedica a outro. Quando as oportunidades de se realizar o bem cessam, ou são interrompidas, devemos procurar oportunidades de fazer o bem. Quando acabamos de ouvir a palavra, é então o momento de falar sobre ela. Foi dada atenção ao fato de ela ter deixado seu cântaro.

(1) Ela partiu por gentileza a Cristo, para que Ele tivesse água para beber. Ele transformou água em vinho para outros, mas não para si próprio. Compare isto com a cortesia de Rebeca para com o servo de Abraão (Genesis 24.18), e veja essa promessa, Mateus 10.42.

(2) Ela o deixou para que pudesse chegar mais rapidamente à cidade, para levar aos seus habitantes essas boas notícias. Aqueles cujo trabalho é anunciar o nome de Cristo não devem se sobrecarregar ou se enrredar com qualquer coisa que os retarde ou impeça de fazer isso. Quando os discípulos foram feitos pescadores de homens, eles renunciaram a tudo.

(3) Ela deixou seu cântaro, como alguém indiferente a ele, estando totalmente concentrada em coisas mais importantes. Observe que aqueles que são trazidos ao conhecimento de Cristo, mostrarão isso através de um completo desprezo por este mundo e pelas coisas dele. E aqueles que são novatos nas coisas de Deus devem ser desculpados, se, no princípio, estiverem tão ocupados com o novo mundo para o qual são levados, que as coisas deste mundo pareçam ser, por algum tempo, negligenciadas. Em um de seus sermões a respeito deste versículo, o Sr. Hildersharn, a partir deste exemplo, justifica amplamente aqueles que abandonam seus negócios terrenos durante os dias da semana para ouvir sermões.

2. Como ela tratou sua missão na cidade, uma vez que seu coração estava voltado para esta. Ela foi à cidade e disse “àqueles homens”, provavelmente os membros do conselho da cidade, os homens com autoridade, a quem, possivelmente, encontrou reunidos tratando de algum assunto público. Ou a cada homem que encontrava nas ruas. Ela proclamava nos principais locais de ajuntamento: “Vinde e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito; porventura, não é este o Cristo?” Observe:

(1)  Como ela foi solícita em fazer com que seus amigos e vizinhos conhecessem a Cristo. Ao encontrar aquele tesouro, ela convocou seus amigos e vizinhos (como Lucas 15.9), não apenas para se regozijarem com ela, mas para compartilharem com ela, sabendo que havia o suficiente para enriquecer a si mesma e a todos que quisessem compartilhar com ela. Observe que aqueles que estiveram com Jesus, e encontraram nele consolo, devem fazer tudo que puderem para levar outros a Ele. Já recebemos o privilégio de conhecer o Senhor? Devemos honrá-lo, fazendo com que Ele se torne conhecido por outros. Não podemos dar a nós mesmos uma honra maior. Esta mulher se torna um apóstolo. Aquela que partira como um exemplar de impureza, volta como uma professora da verdade evangélica, diz Aretius. Cristo dissera a ela que chamasse seu marido, e ela pensou que esta fosse uma autorização suficiente para convocar a todos. Ela foi à cidade, à cidade em que habitava, entre seus parentes e conhecidos. Embora cada homem seja meu próximo, a quem eu tenha a oportunidade de fazer o bem, ainda assim eu tenho maior oportunidade, e por isso estou sob maior obrigação, de fazer o bem aos que moram próximos a mim. Que a árvore seja útil no local onde estiver.

(2)  Corno ela foi franca e honesta ao avisá-los sobre esse estrangeiro com quem havia se encontrado.

[1] Ela conta abertamente a eles o que a induzira a admirá-lo: Ele “me disse tudo quanto tenho feito”. Nada mais é relatado do que aquilo que Ele disse a ela a respeito de seus maridos. Mas não é improvável que Ele lhe tenha falado sobre outros de seus pecados. Ou, ao contar aquilo sobre o que ela sabia que Ele não poderia, por meios normais, ter tornado conhecimento, Ele a convencera de que poderia ter dito tudo aquilo que ela já havia feito. Então, uma vez que Ele tem uma sabedoria divina, esta deve ser a onisciência. Ele disse a ela aquilo que ninguém sabia, exceto Deus e a própria consciência dela. Duas coisas a influenciaram. Em primeiro lugar, a extensão do conhecimento dele. Nós mesmos não conseguimos dizer todas as coisas que já fizemos (muitas coisas passam despercebidas, e mais se passam e são esquecidas), mas Jesus Cristo conhece todos os pensamentos, palavras e atos de todos os filhos dos homens. Veja Hebreus 4.13. Ele disse: “Eu sei as tuas obras”. Em segundo lugar, o poder da sua palavra. O fato de ele ter contado os pecados secretos dela com poder e energia tão inexplicáveis causou nela uma grande impressão de que, tendo sido descoberto um pecado, ela se lembra de todos, e se sente julgada por todos. Ela não diz: “Vinde e vede um homem que me disse coisas estranhas referentes à adoração religiosa e às suas leis, que decidiram a controvérsia entre este monte e Jerusalém, um homem que chama a si mesmo de Messias”. Mas sim: “Vinde e vede um homem que contou-me meus pecados”. Ela se concentra na parte da conversa de Cristo que, seria de se pensar, ela teria mais medo de repetir. Mas as demonstrações reais do poder da Palavra e do Espírito de Cristo estão entre todas as mais persuasivas e convincentes. E o conhecimento de Cristo, ao qual somos levados pela condenação do pecado e pela humilhação, é absolutamente saudável e nos traz a salvação.

[2] Ela os convida a sair e ver aquele sobre quem ela expressava uma opinião tão favorável. Não apenas: “Vinde e observai-o” (ela não os convida a vê-lo como a um espetáculo), mas: “Vinde e conversai com Ele. Vinde e ouvi sua sabedoria, como eu fiz, e então pensareis como eu”. Ela não se responsabilizaria por lidar com os argumentos que a haviam convencido, de maneira a convencer a outros. Aqueles que veem a evidência da verdade não são capazes de fazer com que outros a vejam. Mas: “Vinde e falai com Ele, e encontrareis um poder muito grande em sua palavra, um poder que de longe supera todas as outras evidências”. Observe que aqueles que pouco podem fazer para o convencimento e conversão de outros, podem e devem apresentá-los aos métodos da graça que eles próprios perceberão que são eficazes. Jesus estava, agora, junto ao extremo da cidade. “Vinde vê-lo agora”. Quando as oportunidades de receber o conhecimento de Deus são trazidas à nossa porta, não temos nenhuma justificativa para negligenciá-las. Será que não devemos ir além do limiar para ver aquele cujo dia os profetas e reis desejaram ver?

[3] Ela decide recorrer a eles, e aos sentimentos deles, quanto ao julgamento. “Não é este o Cristo?” Ela não fala de forma categórica: “Ele é o Messias”, por mais nítido que ela tivesse isso em sua mente. Entretanto, ela muito prudentemente menciona o Messias, de quem, de outra forma, eles não teriam pensado, e depois os consulta sobre isso. Ela não imporá sua fé a eles, mas somente a exporá. Através de apelos tão íntegros, porém fortes como estes, a capacidade de julgamento e as consciências dos homens são, às vezes, dominadas antes que eles o percebam.

(3) O sucesso que ela obteve nessa convocação: “Saíram, pois, da cidade e foram ter com ele”, v. 30. Embora possa parecer muito improvável que uma mulher de importância tão insignificante, e de caráter tão ruim, tivesse a honra da primeira descoberta do Messias entre os samaritanos, ainda assim agradava a Deus influenciar os corações a prestarem atenção ao relato dela, e a não menosprezá-lo como uma história sem importância. Houve uma ocasião em que os leprosos foram os primeiros a trazer a Samaria as notícias de uma notável salvação, 2 Reis 7.3ss. Eles foram se encontrar com o Senhor Jesus. Não tentaram trazê-lo a si mesmos dentro da cidade, mas em sinal de seu respeito por Ele, e da sinceridade de seu desejo de vê-lo, eles foram até Ele. Aqueles que desejam conhecer a Cristo devem se encontrar com Ele onde quer que Ele esteja.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMO ENFRENTAR A SÍNDROME DE BURNOUT?

Doença se caracteriza por um sofrimento que se origina no total esgotamento físico e psicológico. causado por vários fatores. Pode levar. como consequência, a um quadro depressivo ou a outro problema ainda mais grave.

Como enfrentar a síndrome de burnout

O nome dessa síndrome foi dado por um psicanalista naturalizado norte-americano chamado Herbert Freudenberger. Ele sentiu na pele um verdadeiro esgotamento profissional nos anos 1970. Deu o nome a esse esgotamento do trabalho de burnout. Pode-se traduzir livremente para o português como burn out = fogo que vai se apagando aos poucos. É possível definir, também, como o velho e simples esgotamento.

O sentimento e as sensações são de ter “queimado o pavio”. Mas isso não quer dizer que essa síndrome se caracterize, apenas, por se esgotar no trabalho, que é um aspecto muito comum em quem sofre de esgotamento por trabalhar horas a fio – essa não é a única causa. Existem outros vilões, como o desgaste frente à falta de dinheiro – muito comum em nossos dias de crise no Brasil. Bem como diante do fato de um parente estar muito doente ou desempregado. Qualquer sofrimento mental que nos acometa pode ser a causa, até mesmo o desgaste físico por falta de sono e cansaço acumulado. Daí o nome esgotamento.

O que vem acontecendo nos últimos anos com o tempo das pessoas? A maioria fica quase 24 horas “plugada” na internet, no WhatsApp etc. O ser humano não foi programado para ficar atento tanto tempo. Necessita de momentos de silêncio, de recuperação, sono e paz para corpo e mente. E o mundo está, definitivamente, na era do ligado em tudo! Acontece algo do outro lado do planeta e todos ficam sabendo imediatamente. Quem descansa? Nem as crianças “O ser humano precisa de tempo de recuperação e descanso, sim. E se não tiver o merecido de canso, à mente e ao corpo, o preço a pagar é muito caro.

Francis Bacon disse: ”A natureza foi feita para ser obedecida…”.

Se as pessoas apenas se limitarem a seguir a corrida dos ratos, ou seja, sair correndo atrás do dinheiro, do querer só bater metas, ganhar mais, ter aquela promoção, corre-se o risco de esquecer um valioso bem: a saúde. Em termos de moeda final, o prejuízo de adotar a corrida dos ratos é terrível. Além do mais, a vida é muito curta para que se corra tanto com o objetivo de alcançar o “tal cume” daquilo que se planejou –  e, com isso, nem se admira a jornada.

As pessoas precisam aprender que, se não seguirem a própria natureza, elas irão trazer o descanso à força em forma de dor de cabeça, doenças autoimunes, alergias etc. A natureza humana é que está no comando. E a pessoa cai de cama, fica sem vontade de nada e pode chegar a um quadro depressivo ou a uma doença mais grave também.

Admirar a jornada enquanto caminha é muito importante. Se se opta por subir uma montanha para chegar ao topo e ver lá de cima o pôr do sol, será que não é possível apreciar a subida? Parar vez ou outra, tomar um lanchinho, tirar umas fotos, fazer uma brincadeira, simplesmente recuperar o fôlego e respirar fundo são fundamentais.

Todos podem e devem apreciar a jornada. Aquela velha história que um dia se aprende um slogan comum – o no pain no gain, ou, em português, que “sem dor (trabalho), sem ganho” – é coisa do passado. É possível aprender a ganhar dinheiro e a ser mais feliz. Basta trabalhar com engajamento e prazer, basta ficar mais focado na jornada e em algo que dê mais prazer e com que se tenha mais habilidades para trabalhar.

É fundamental pensar nisso o mais rápido possível. Em uma vida com mais bem-estar. Trabalhar em alguma coisa que possa unir prazer à habilidade e que também possa trazer um significado para a vida. Isso, sim, proporciona bem­ estar, mesmo que o trabalho seja duro. Aqui, a melhor dica para não ser surpreendido pela síndrome de burnout: “O menos que faz mais”.

Como enfrentar a síndrome de burnout.7

VILÃO

O grande vilão dos últimos tempos tem sido algo que passa em branco para a maioria das pessoas e a que todos estão sujeitos: o não se desligar, ficar preso na internet, no WhatsApp e em outros devices que a mantêm “plugadas” além da conta. Isso mesmo: ficar tempo demais só mexendo com tecnologias, com a carinha na tela do computador ou no celular tem desgastado a mente humana. Um hábito cada vez mais comum em nossas rotinas.

Quantas horas as pessoas gastam por dia em frente ao computador vendo e-mails? E no celular lendo e mandando mensagens? Dá para contar? Ninguém sequer imagina, mas parece que é tempo suficiente para respirar fundo, dar uma volta, bater um papo com um amigo, almoçar fora…

Não é aconselhável adotar uma conduta na qual o mais importante é correr atrás de um monte de coisas boas. Quantidade afeta a qualidade. O que é necessário fazer, caso se queira ter uma vida mais feliz, é menos no lugar de mais. Isso parece mais fácil de falar do que de fazer. Mas é possível. Não se trata de levar essa situação aos extremos. Basta inserir as mudanças aos poucos. Pequenas mudanças podem afetar a vida como um todo.

É imprescindível lembrar que felicidade é contagiante e tem um efeito dominó. Então, por exemplo, voltando do trabalho, nada irá acontecer se a pessoa desligar seu celular por duas ou três horas, enquanto está passando um tempo com seu parceiro(a) e filhos. A menos que o profissional seja um motorista de ambulância ou esteja de plantão. Nesses casos é preciso ficar de sobreaviso. Todos devem experimentar desligar o telefone por duas horas ou mais, para se dedicar a interagir com pessoas queridas. A menos que seja uma emergência ou uma ligação que esteja esperando. Mas, via de regra, nada irá acontecer se o telefone for desligado por um tempo. Muito pelo contrário, a pessoa ficará muito mais feliz e essas horinhas poderão ser uma fonte de prazer, felicidade e uma forma de recuperação. Porque estar ao celular mandando mensagens e brincando com o filho ao mesmo tempo não é se recuperar. É, ao contrário disso, se estressar. Além disso, a pessoa deixará de curtir a jornada de estar com o filho, as funções do toque, do carinho e do aconchego – e elas são muito importantes para a alegria.

Em um estudo desenvolvido em Harvard por 75 anos, o dr. Robert Waldinger, um dos pesquisadores da universidade, acompanhou homens ao longo de suas vidas. O que ele constatou? Que o fator previsor de boa saúde e longevidade, que estava relacionado à felicidade, nada tinha a ver com sucesso ou ter muito dinheiro. Mas, sim, com manter bons relacionamentos. Os homens que tiveram bons relacionamentos, se casaram e puderam ter suas companheiras ao longo da vida, bem como amigos sinceros, foram os mais longevos. A pergunta que surge é a seguinte: Quando foi a última vez que você esteve realmente com as pessoas que você ama?

A terceira tarefa que é fundamental fazer é simplificar a vida. O mesmo acontece com o trabalho: é preciso simplificar. Reduzir as multitarefas. Quem nunca mandou e-mail enquanto fazia outro trabalho que requer concentração? A maioria das pessoas faz isso várias vezes e nem percebe.

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COMPROVAÇÃO

De acordo com a pesquisa The Impact of Distractions on IQ – O Impacto da Distração no QI -, feita, em Londres, por um grupo de psiquiatras coordenados por Glen Wilson (2005), pessoas que verificam seus e-mails enquanto fazem outros trabalhos, que requerem concentração, perdem o equivalente a 10 pontos no teste de QI. É muito! Só para ter uma noção do quanto é isso, digamos que a pessoa não tenha dormido a noite toda e que tenha ficado meio tonta, sem concentração – esse efeito é equivalente a menos 10 pontos no QI. Se a pessoa fumar maconha ou haxixe, perderá 4 pontos de QI. Todos pagam um preço muito alto por querer fazer mais em menos tempo no trabalho também.

Vemos que a pessoa que sofre um esgotamento, o burnout, tem uma dedicação exagerada ao trabalho ou atividade profissional que está exercendo. Pode ser estudar para um concurso, vestibular, trabalhar noite e dia sem parar e até mesmo cuidar de um parente enfermo. É um desgaste imenso. O desejo de ser o melhor e demonstrar sempre alto grau de desempenho também levam ao quadro de esgotamento.

Muita gente mede sua própria autoestima pelo tanto que produz. Muito natural. O que não é natural é dar a vida pelo trabalho – seja ajudando pessoas ou fazendo seu serviço profissional. A moeda final será sempre a mesma: desgaste pessoal, desânimo e, depois, depressão.

Assim, aquilo que em um primeiro momento parece maravilhoso e engana, como se fosse gerar prazer ao fim da jornada, pelo contrário, acaba trazendo desgaste emocional e físico – e tudo acaba pior no final. Muitos ficam com compulsão pelo trabalho ou por ajudar pessoas e se esquecem de que seu próprio cuidado é sua melhor poupança e benefício imediato. O importante é curtir a jornada. Não só trabalhar, mas ter descanso, tempo de recuperação, aproveitar enquanto se faz alguma coisa e, ainda, seguir seu propósito de vida.

Todos podem, sim, trabalhar muito. Mas é preciso realizar essas atividades durante o melhor tempo. Seguindo a regra 80/20 – Regra Pareto -, que ensina que se pode usar essa proporção para trabalhar as atividades principais nas melhores horas do dia, guardando tempo para brincar com as crianças, sair com seu amor, ir ao cinema, descansar e se divertir também. Assim, uma pessoa que trabalha muito pode fazer suas atividades principais em sua melhor hora do dia ou da noite (os da manhã, da tarde ou noite – conforme sua preferência). E ainda vai sobrar tempo para fazer muitas outras coisas.

Entretanto, infelizmente, observa-se que essa patologia tem atingido pessoas de várias áreas com mais facilidade, como as de saúde, segurança pública, os bancários, quem trabalha em educação, cartorários, profissionais de tecnologia da informação, administração, comunicação, direito e até mesmo as que exercem trabalhos voluntários.

Então, quem apresentar os seguintes sintomas deve ter cuidado: fortes dores de cabeça; tonturas e treinares; muita falta de ar; oscilações de humor; distúrbios do sono; dificuldade de concentração; problemas digestivos; desânimo. Quem apresentar todos os sintomas citados, e principalmente o último, que envolve a falta de vontade de se levantar, significa que chegou ao fundo do poço. É a hora de pedir ajuda.

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O QUE FAZER

O primeiro passo é procurar um médico porque, a essa altura, a pessoa, provavelmente, precisará de remédios que a ajudem a ter mais serotonina. Outra boa opção é buscar a yoga e a meditação. Essas são duas boas alternativas para iniciar a recuperação – e bem depressa – de um quadro de esgotamento.

Estudos norte-americanos desenvolvidos por muitas universidades e de pesquisadores renomados, como a dra. Barbara Fredrickson (especialmente os que ela divide em seu livro Amor 2.0), mostram que a meditação pode ajudar – e muito – o cérebro a produzir mais ocitocina e a ter mais racionalidade e paz. De acordo com a autora, quando se medita) respira-se fundo. Essa respiração profunda e mais prolonga da faz com que a pessoa abrace o próprio coração com os pulmões, em um ato de aconchego que faz o coração emitir uma mensagem (bem rápida, aliás), via nervo vago, para o cérebro, avisando que se está bem. Nesse momento, o cérebro produz a ocitocina, hormônio do amor, que reduz a noradrenalina e o cortisol e deixa a pessoa mais calma.

Quanto mais se exercita a meditação, de acordo com estudos de neuroimagem, mais o lobo pré-frontal esquerdo é ativado e mais a pessoa fica calma, focada e racional. Quando se está ansioso ou deprimido, o lado oposto do cérebro fica muito ativado, o lobo pré-frontal direito. Ou seja, quem quiser ficar bem melhor e rápido precisa começar a meditar. Ou fazer yoga, pois, por intermédio dessa técnica, sempre surge aquele momento das respirações e, no final, a hora da meditação. O melhor ainda é praticar os dois procedimentos. E, além disso, dar mais tempo para bons relacionamentos e descanso.

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NOVA VISÃO

Portanto, é perfeitamente possível se recuperar da síndrome de burnout com uma nova visão da própria pessoa. Dando mais tempo para a recuperação do estresse do dia a dia. E arranjando, também, tempo para a diversão. É importante ter em mente que a vida é muito curta para esperar pela aposentadoria. Ou para bater aquela meta, pagar aquele carrão, que sempre foi um sonho de consumo. Quanto mais cedo começar a mudar as escolhas, melhor para a saúde. Mas é preciso mudar de forma gradativa, em pequenos passos. Mesmo assim, é preciso que seja logo, agora.

Aprender como meditar ou ir a uma academia de yoga pode ser um bom começo. Importante, também, é planejar melhor o dia, deixando as tarefas difíceis para a melhor hora. É bom não esquecer, também, de encontrar com os amigos, frequentar o cinema, enfim, sair e se divertir. Não se deve esperar adoecer para dar mais valor à vida.

É aconselhável diminuir o mais rápido possível o ritmo das atividades profissionais e, acima de tudo, a pessoa deve procurar ao máximo trabalhar com o que gosta. Se não for viável, deve arrumar um hobby. Encontrar amigos ajuda muito a conseguir um tempo bom de recuperação. Do contrário, a vida vai mostrar logo que a pessoa não comanda sua própria natureza.

Todos podem ter mais qualidade de vida, trabalhar mais felizes, usufruir de tempo de diversão e de recuperação se, apenas, simplificarem a vida com o lema “menos faz mais”.

Como enfrentar a síndrome de burnout3 REGRA PARETO

A Regra Pareto, ou Regra 80/20, foi criada pelo economista italiano Vilfredo Pareto, em 1906. A teoria surgiu quando ele percebeu que 20% dos italianos detinham 80% das terras da nação. A conclusão socioeconômica revelou depois a mesma proporção da distribuição de riquezas em inúmeros países. Por isso, a relação passou a ser aplicada em outras áreas. Em resumo, a lei defende que 80% das consequências advêm de 20% das causas.

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DOENÇAS AUTOIMUNES

As DA, como são conhecidas as doenças autoimunes, são um grupo de mais de 100 patologias que se correlacionam e envolvem qualquer sistema do organismo. Podem ser doenças que alcançam simultaneamente ou sequencialmente órgãos, ou que atingem especificamente alguns desses sistemas. A consequência leva o sistema imunológico a se desorientar, atacando o próprio corpo e os órgãos que deveria justamente proteger.  Acometem três vezes mais mulheres do em que homens e, normalmente, são difíceis de serem diagnosticadas por apresentarem sintomas variados

 FREUDENBERGER, REFERÊNCIA E PIONEIRISMO EM BURNOUT

O psicólogo Herbert J. Freudenberger (1925-1999), embora tenha nascido na Alemanha, naturalizou- se norte-americano, se radicando em Nova York. Desenvolveu ampla atividade profissional na prática clínica e se destacou, também, como autor de publicações que contribuíram sobremaneira para o entendimento e para o tratamento do estresse, especialmente no que se refere a síndrome de burnout, e na abordagem terapêutica do abuso de substâncias. Freudenberger foi um dos pioneiros na função de descrever os sintomas do esgotamento profissional, o que caracterizou seus estudos por uma detalhada definição do burnout. Sua primeira publicação a respeito do assunto data de 1980, livro que se tornou uma referência especial para a pesquisa e compreensão desse fenômeno. Por seus importantes serviços prestados na área, foi reconhecido com o prêmio American Psychological Foundation Gold Meda/ Awar for Life Achievement, na prática da Psicologia, em 1999.

 

SOFIA BAUER – é psiquiatra, possui título de especialista em Psiquiatria pela ABP, especialização em Psicologia Positiva com Tal Ben-Shahar (NY).  Entre os livros lançados estão Manual de Hipnoterapia e Cartilha do Otimismo (Wak Editora).

OUTROS OLHARES

NARCISISMO, SOLIDÃO E RELACIONAMENTOS NO MUNDO DIGITAL

A era virtual traz benefícios, porém, sendo o progresso apenas uma maneira de ver o mundo, mudaram os meios, mas mantiveram-se as satisfações que sempre acompanharam os homens.

Narcisismo, solidão e relacionamentos no mundo digital

A era virtual – a era das imagens e fantasias ancoradas em telas de olhar a si mesmo -, desde sua disseminação, possibilitou e estreitou ainda mais as relações entre pessoas de toda e qualquer parte do mundo, permitindo-as se relacionarem entre si. Porém, sendo o progresso apenas uma maneira de ver o mundo e não uma verdade absoluta do homem, uma vez que se mudaram os meios e se mantiveram as satisfações que sempre acompanharam os seres humanos. Essa nova ferramenta também trouxe consigo novas configurações nos padrões de relacionamentos e no posicionamento frente às produções oriundas do contato com o outro, tudo é mais prático, menos o contato com o afeto e o corporal. Aproxima-se em virtual e perde-se na dimensão viva do corpo e seu calor. Estaria a era virtual ofertando novo vício para a fuga do mundo externo, desse mal-estar, apontado por Freud, em 1930, como o mais difícil de lidar, que é estar com outras pessoas?

Certos encontros são fugas. Encontros em redes sociais são, por algumas vezes, fugas dos encontros do mundo externo. Ali deslocam-se tresloucados de amigos, de grupos, tiram, incrementam, bloqueiam, acrescentam, brigam, alimentam-se de curtidas e tudo mais. Mas quando aparece algo mais real, poucos são os que saem das telas de olharem a si mesmos para irem ao encontro da vida. Quais relacionamentos estamos promovendo no uso desse novo objeto?

O “apressamento de gente improvisada” (Freud, 1930) tem sido destaque. Em épocas anteriores, o prazo de retorno era mais longo, via exemplo de cartas. Sabe-se por Freud, em 1917, que um bisturi que não corta tampouco pode ser usado para curar. O excesso a mais dela é que são as mazelas. Estaríamos vivendo no mal-estar da solidão? No excesso não há sujeito, permanece o vazio, já que o desejo não ganha espaço. Desse fato é possível extrair solidão na multidão. Mas quais relacionamentos podem ir a esse avesso?

DA EPÍSTOLA Á ERA VIRTUAL

Com o avanço tecnológico, as relações humanas passaram por diversas transformações na forma como se davam, o que inclui a forma que se comunicavam. O papel possibilitou que cartas fossem enviadas de qualquer lugar para qualquer lugar, ligando assim pessoas do mundo inteiro, permitindo uma comunicação contínua sem a necessidade de se empreender uma grande viagem todas as vezes que se desejasse conversar com outra pessoa. Freud, em o Mal-estar na Civilização, escreve que esses aparatos tecnológicos, cada época com os seus objetos de horizonte, afastam e depois ajeitam-se para aproximarem o que outrora afastaram. Cartas eram enviadas aos que, de navio, atravessavam oceanos, aos que, nos tanques e aviões, iam para as guerras. Também aproximavam aqueles que eram por excelência separados, pessoas que não se conheciam podiam se conhecer.

As tecnologias foram se deslocando, a comunicação ganhando novas roupagens e assim segue. Logo o telégrafo e posteriormente o telefone encurtaram o tempo de espera da resposta do outro, a escrita deu espaço à invocante voz. Bastava um telefonema e tudo era dito, resolvido ou complicado. Pelo telefone, era possível perceber a hesitação do outro lado da linha, a respiração ofegante após um convite… E o mundo se tornava em sensações, um pouco menor e um pouco mais rápido.

Com o aumento das relações e com o estreitamento das distâncias logo surgiu a necessidade de criar algo mais rápido, mais acessível e que fosse possível agregar um número maior de relações ao mesmo tempo, para relacionar-se mais com mais e mais gente. Isso se tornou possível pelo advento da internet, acessível a todos. Acompanhando os processos da globalização deu início a uma nova maneira de ver, conceber e se relacionar no mundo. A escrita e a voz se aliaram à imagem e agora fotos eram compartilhadas.

A era virtual, desde sua disseminação, seguiu possibilitando e estreitando, imaginariamente ainda mais, as relações entre pessoas de toda e qualquer parte do mundo, ao passo que o encontro real se afasta. Agora, podemos não somente escutar do outro lado da linha, pois temos as interações via vídeos, imagens em tempo real, e-mails, compras on-line, é possível até mesmo encontrar um par perfeito para a vida toda na internet, ou não. Há aplicativos que simulam beijos em tempos reais e outras coisas aí. Ainda que nós saibamos o cheiro, o perfume, o odor singular da presença, este não é transmitido, mas sabe-se lá até quando.

As redes sociais são agora o novo “tchã” do momento. Em qualquer lugar que vá é possível observar diversas pessoas interagindo com seu telefone, seu tablet ou smartphone, em meio à massa, que “é preguiçosa e pouco inteligente” (Freud, 1927). Sozinhos em grupos, solidão em multidão. A infinidade dos meios de comunicação atuais possibilita ao sujeito uma “privacidade inversa”, um controle na palma da mão da realidade que o mesmo molda, ou passa a ignorá-la, transmutando­ a em twits, likes e emoticons.

AS REALIDADES VIRTUAIS

Não é mais algo de outro mundo dizer que se apaixonou por alguém que mora no extremo sul do Paquistão, ou que seu melhor amigo é uma interface de interação com inteligência artificial. Cada vez mais essas e outras muitas variações entre homem e máquina vêm deixando as telas e páginas da ficção para se tornar parte ativa da realidade. Os amigos imaginários das crianças ganharam corpos e vidas compartilhadas. Não se trata de delírio, se trata de novas possibilidades. Afinal, “torna-se um louco alguém que, na maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real seu delírio” (Freud, 1930).

As realidades virtuais estão aí e não adianta tentar ignorá-las, pois as mesmas já estão intrinsecamente ligadas à ideia de progresso humano, e é, nesse contexto, que temos um novo posicionamento dos sujeitos frente ao que é real, ou seja, aquilo que atravessa e limita o homem em sua existência e tudo que é oriundo desta. De fato, como nos alerta Ferenczi, em carta a Freud:

“É preciso substituirmos de tempos em tempos nossa relação epistolar por uma relação pessoal) senão perderemos facilmente o contato com a realidade e deixaremos de corresponder com uma pessoa realmente vivente para correspondermos com alguém que nós arranjamos em nossa imaginação, segundo o nosso bom prazer” (Ferenczi), 1911, carta a Freud).

O real confronta e imprime ao ser Homem um princípio de movimentação regido por uma busca incessante de prazeres e satisfações, negando o fim inevitável e qualquer outro fazer que cause um desprazer ou frustração. É nesse contexto de “tudo quero”) “de poder” que as ferramentas ofertadas on-line irão proporcionar um caminho “fácil” amortecido ao real e mais fácil de fugir do punitivo) sendo assim mais virtual e permissivo, recriando a percepção da interação com os objetos sexuais pari-passu que com as relações com o outro. Quantas e quantas pessoas são capazes de ficar horas ou até mesmo dias navegando na internet, interagindo com diversas pessoas on-line, e quando têm de se posicionar frente a um outro, real, não conseguem dizer uma só palavra. O que acontece? Como fica o sujeito nessas novas configurações?

É impossível negar os benefícios trazidos pelas redes sociais, mas os prejuízos para os laços sociais, e para o modo como se posiciona cada sujeito diante dessa realidade virtual que atinge o real, também são inegáveis.

O NARCISISMO NAS REDES

O mito de Narciso foi utilizado por Freud para ilustrar as diferentes moções pulsionais que co­existem no sujeito, que o impele à movimentação em busca de uma satisfação e, consequentemente, à obtenção de prazer através das relações deste com os objetos que elege. Nessas movimentações empreendidas pelo sujeito, em busca de sua satisfação, o outro, que também é incluído como alvo pulsional, é peça fundamental no desenrolar dessa busca.

É nessa etapa do desenvolvi­ mento do indivíduo que se constitui uma imagem ideal, um ideal a ser alcançado, um ideal do eu que, a todo momento, irá ser referência no modo como se posiciona o sujeito, frente ao que é real, frente ao olhar do outro, o modo como este irá empreender sua busca para atingir ou se tornar esse ideal. É sob o olhar crítico do outro que o sujeito se localiza em seu posicionamento frente à falta, e organiza seu modo de coexistir no meio social.

Dessa maneira, hoje, inerente às relações humanas, a internet não é somente um meio de comunicação e de encurtamento de distâncias, mas, sim, um local com um amontoado de simbolismos e significantes pré-fabricados, que se tornou próprio aos seus usuários. Um lugar em que os sujeitos ocupam e utilizam como “veículo transicional” para realizar as projeções desses ideais, construindo e vivenciando na imaginação e, virtualmente, uma imagem idealizada de si para se mostrar ao outro como um ser sem falhas, faltas ou defeitos.

Na busca desenfreada para viver esse ideal, cada usuário constrói um perfil, um avatar, um novo eu para, assim, de um modo “ideal”, tecer novos laços sociais que melhor os adaptem e os distanciem do desamparo que, assim como a condição de Eros para a vida, nos é tão inerente. E é na busca de distanciar-se do desamparo que é ter de haver consigo mesmo que, cada vez mais, inúmeros usuários utilizam-se da internet como o Santo Graal de nossa época.

O mundo virtual convida todos de maneira a dizer: Venha! Aqui você pode desfrutar como quiser, quando quiser e com quem desejar sem perder nada por isso. Venha e goze. E nessa máxima narcísica, o sujeito se vê em uma gama enorme de possibilidades e não leva em conta que o mesmo perde muito vivendo nessa busca utópica de ser feliz para sempre.

A busca dessa utopia, com a utilização da internet e, consequentemente, das redes sociais para isso, diz de uma das saídas, uma das várias, que o ser humano empreende para se posicionar frente ao desemparo e à castração real da existência de cada um e do crivo do olhar do outro, vestindo-se de ideais que melhor o defenda dessa visão que o castra e o limita e que, desse modo, o aproxime mais da plenitude.

Ceccarelli nos dá a prova de que o homem se utiliza da formação dos laços sociais para se haver com esse desamparo quando diz: “Frente à angústia buscamos alento nas construções imaginárias simbólicas: os laços sociais que o mundo externo nos oferece fazem parte dessas construções. Nessa perspectiva, os laços sociais que construímos para lidar com desamparo psíquico variam segundo a cultura e o contexto histórico” (Ceccarelli, 2009).

E, de acordo com esse contexto, não seria a internet a nova droga do atual momento histórico? Com seus discursos preparados e significantes pré-fabricados, que aderem ao sujeito de maneira perfeita, como “queijo e goiabada”, proporciona um relacionar-se sem causa, sem causa aparente, é claro, pois por um viés psíquico essa relação virtual proporciona ao eu uma satisfação, ao passo que o coloca em um movimento de repetir-se em busca dessa realização de uma relação utópica.

GOZAR SEM PROBLEMAS

Realmente, digitando, o mundo virtual é, sem sombra de dúvidas, um prato cheio para gozar sem problemas. O que a maioria não leva em conta, ao adentrar nesse “país das maravilhas”, é que as fantasias vividas lá influenciam também em seu mundo real, refletem diretamente em um mundo onde ser bloqueado ou receber milhares de curtidas culminam em dores reais. Aquele que se vê fora, ou é posto para fora dessa realidade virtual, se não houver um simbolismo próprio, um meio de lidar com esse corte, poderá adoecer e até mesmo morrer em nome dessa fantasia de gozar plenamente a toda hora.

De certo, não há como negar que o mundo onde Freud erigiu a Psicanálise difere-se em aparatos tecnológicos da nossa era atual para suportar o mal-estar inerente à existência humana. Muda-se o Orkut, mas não se muda essa busca pelo prazer, mesmo que para isso um novo eu virtual seja necessário. Isso não dá para bloquear ou fingir que essa notificação não está lá, em vez de o sujeito se esbarrar com isso.

Não existe receita para lidar com isso, e longe de dizer que a internet é só isso, é necessário contornar esses excessos perigosos que podem se tornar destrutivos ao sujeito. Um assunto atual, real e virtual, não impossível para a Psicanálise, desde que exista sua matéria-prima, independentemente em qual contexto se encontre, do primitivo ao internauta. Onde houver seres humanos a escuta chegará.

NARCISO PASSOU DE LENDA A SÍMBOLO DA VAIDADE NA PSICOLOGIA

Personagem da mitologia grega, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liriope, Narciso representa um forte símbolo da vaidade, sendo um dos personagens mitológicos mais citados nas áreas de Psicologia, Filosofia, letras de música, artes plásticas e literatura. Ele era muito belo e teria uma vida longa, mas não deveria admirar sua beleza. Despertava a atenção de homens e mulheres, mas era arrogante e, ao invés de se apaixonar por outras pessoas, se apaixonou pela própria imagem, ao se ver refletido em um lago. Por ser menosprezada por Narciso, a ninfa Eco lançou um feitiço sobre ele, que definhou até morrer no leito do rio. Com sua morte, o belo jovem foi transformado em flor. Na Psicologia, o narcisismo é o nome dado a um conceito elaborado por Sigmund Freud, que define o amor exagerado de um indivíduo por si próprio e, principalmente, por sua imagem. O nome do transtorno de personalidade está ligado ao mito de Narciso, uma vez que recupera sua essência egoísta de sobrevalorização de si. Nos estudos da Psicologia, a pessoa narcisista se preocupa excessivamente com si mesma e com sua imagem. Essa vaidade descontrolada pode provocar outros problemas no indivíduo, que, geralmente, necessita ser admirado e não admite que sua presença passe despercebida em determinado grupo.

  

EDUARDO LUCAS ANDRADE – é psicólogo, psicanalista, membro do Fatias de Analise e diretor do Psicanálise em Cena, palestrante em temáticas educacionais, sociais, clínica e em saúde mental. Escritor membro da Academia Bom-Despachense de Letras (ABDL). Autor dos livros AMORnheci Pensando em Nós: Psicanálise e Educação: Contribuições da Psicanálise à Pedagogia; Arte e Psicanálise: o Ninho. psicanaliseemcena@hotma.cilom

ALEXANDRE APARECIDO DOS SANTOS – é psicólogo com clínica em Bom Despacho (MG) e Nova Serrana (MG). Membro do Fatias de Análise: Psicanálise e Diálogo. Palestrante em temáticas educacionais, sociais, empresariais, clínica e em saúde mental. alexandrepsico8@gmail.com

GESTÃO E CARREIRA

OLÁ! ESTOU AQUI PARA AJUDAR

Cada vez mais humanizados, os chatbots são mensagens automáticas que auxiliam o atendimento das empresas pela internet e oferecem métricas para melhorar os serviços.

Olá, estou aqu para ajudar

Já faz um tempo que a televisão tradicional entendeu o conceito de “second skin, quando o público já não se contenta mais em apenas acompanhar o que passa na telinha, mas quer comentar, saber o que os outros pensam sobre o assunto e, de alguma maneira, fazer parte daquilo. Antes, os 140 caracteres do twitter e algumas hashtags bastavam para fazer esse papel, que acabava sendo orgânico. Enquanto o tapete vermelho do Oscar, por exemplo, desfilava artistas em suas câmeras a internet falava sobre os modelos de roupas mais bonitos ou polêmicos, entre outras coisas. Depois. veio Facebook, Instagram e assim segue.

Premiações como essa são transmitidas, hoje pela TNT Brasil. Por isso, o chatbot surgiu como uma das soluções para atrair ainda mais público às ações importantes do canal. “Começamos a usar o bot em fevereiro de 2017, durante o Oscar. Tivemos uma ideia bacana de interação diretamente com os nossos seguidores – ajudar as pessoas a opinarem sobre os filmes que elas não tinham assistido por meio de uma série de interações, além de comentar o prêmio junto com elas – e pedimos ajuda a uma agência para criar o mecanismo. O resultado foi muito bom e nós acabamos sendo citados como case de sucesso em eventos do Messenger”‘, conta a Community manager da empresa, Marina Ferreira.

Em época de modelos de economia criativa e futurista, estar um passo à frente torna-se primordial para o sucesso das empresas. “A participação das pessoas em ações mais complexas do bot, como quízes e jogos, está sendo bem representativa em relação ao número de participantes e envolvimento. Observando as palavras mais utilizadas na interação, foi possível analisar profundamente o que as pessoas esperam da nossa empresa na internet, que tipo de informações elas desejam receber, quais são as suas principais dúvidas e sobre o que elas querem conversar. Com isso em mãos, estamos lapidando cada vez mais o bot para deixá-lo ainda mais útil para o nosso público, completa Marina.

Enquanto a TNT é case no uso da ferramenta, a Zenvia é uma das empresas que ajudam no desenvolvimento da função. A diretora de Marketing e Desenvolvimento Organizacional, Gabriela Vargas, conta que os dois principais pilares para o processo de criação foram o consumidor e um modelo de negócio fundamentado em escala, ou seja, que dê certa autonomia ao cliente para criar, operar e gerir suas conversas. “É uma forma de automatizar e personalizar o atendimento e, assim, resolver mais demandas e problemas em menor tempo. Com a melhor experiência para o consumidor, as marcas também podem aumentar a relevância no mercado e fidelizar clientes, afirma.

Segundo ela, tiveram um cliente que conseguiu dobrar, já no segundo mês, a geração de leads por Facebook – tendo, inclusive, que parar de investir em mídias pagas para dar conta da demanda crescente. “Outro conseguiu alcançar, no primeiro mês de ação, uma efetividade de mais de 40% na confirmação de entrega, o que reduz muito os custos de logística, evitando que os caminhões se desloquem para realizar entregas não efetivadas. Só neste ano, mais de 3,5 milhões de conversas iniciaram em nossa plataforma”, completa.

 QUE BICHO É ESSE?

Você já percebeu que o chatbot pode auxiliar bastante a empresa. Mas, afinal, do que se trata? De uma maneira objetiva, é uma série de mensagens, respostas e interações programadas para o atendimento, principalmente via Messenger do Facebook. “Chatbots são robôs capazes de se comunicar com humanos através de mensagens de texto. Eles são essenciais para quem quer melhorar o atendimento aos seus clientes e otimizar processos internos, propiciando ganho de escala e aumento na rentabilidade”, completa o diretor de operações da Nama, Lúcio de Oliveira. A empresa é pioneira no desenvolvimento de Inteligência Artificial aplicada aos negócios no Brasil.

Oliveira ressalta ainda que, independentemente do canal, o serviço tem capacidade de automatizar em até 90% o processo, reduzindo de 70% a 90% as despesas do setor, que acaba deslocando funcionários humanos para tarefas mais analíticas, complexas e menos operacionais. A necessidade surge de um consumidor moderno que é impaciente e impulsivo. Quando alguém chama uma empresa no Messenger, ela quer a resposta imediatamente. Uma espera maior pode levar o cliente a outra marca, sem pensar duas vezes. “Quando falamos de atendimento comum, a grande reclamação dos consumidores é o excesso de tempo de duração de uma ligação, a quantidade de transferências entre áreas e a dificuldade de efetivar a solução do cliente, explica Gabriela.

Mesmo o e-mail comum fica ultrapassado com a tecnologia, que faz toda as validações necessárias em um processo comum, como nome, CPF e motivo do contato, em poucos segundos.

Segundo pesquisa da Zenvia, os consumidores já consideram como principais meios de contatos os chats e a conversa por voz em tempo real. “Ele é mais moderno, mais direto e está exatamente onde o nosso público está.  Além disso, é uma escolha da própria pessoa receber ou não o nosso conteúdo e também é muito fácil parar de receber. A autonomia que as pessoas têm na utilização do bots faz parte da comunicação moderna”, ressalta Marina.

A HDI Seguros foi a primeira seguradora a investir na ferramenta pelo Facebook, além de implementar a assistente virtual Sofia no site oficial da empresa, com a mesma tecnologia de inteligência artificial do robô Watson, da IBM. Isso quer dizer que ela processa não apenas informações objetivas, mas também subjetivas em busca da resposta mais humanizada possível. Além de agilizar os processos, o diretor de marketing Paulo Moraes percebeu uma maior interação e facilidade em resolver questões da rotina.

Se o feedback foi positivo? “Foi positivo, sim. O usuário que escolhe esse meio de comunicação quer rapidez nas respostas, e o chatbot permite isso. A Sofia, que já está há mais tempo em produção, tem uma quantidade de interações maior, por volta de seis mil atendimentos mensais. Com a entrada da inteligência Artificial, nossa expectativa é que esse número dobre nos primeiros meses após a implantação. Já o chatbot do Messenger teve uma evolução significativa desde que lançamos. Hoje, são mais de 1.600 interações (no primeiro mês foram apenas 130)”, conta.

A Nama tem também empregado processos como o Deep Learning, que compreende até gírias e erros de português. “Além da Nama, tem muita gente boa espalhada pelo País rompendo barreiras. Em São Paulo, a Pluvion está usando machine learning para antever a possibilidade de enchentes.

Elos montaram uma rede de estações de medição de chuva que entrega informação em tempo real e de forma hiperlocalizada”, ressalta Lúcio. Ele ainda completa que o Poupinha – chatbot do poupa tempo – é o melhor exemplo aplicado em serviços públicos, já tendo completado 100 milhões de mensagens trocadas com os cidadãos e agendado 2.5 milhões de ações desde seu lançamento, em dezembro de 2016.

DICAS DE USABILIDADE

O chatbot não precisa ter iniciativa apenas de um dos lados do computador. Tanto é possível a empresa puxar assunto com o consumidor quanto o cliente iniciar a conversa.

Qualquer que seja o procedimento, é necessário sempre haver muita transparência na comunicação, começando por deixar o público ciente de quais são as reais questões que aquele bot pode resolver para ele. “A interação é positiva, mas ainda existe uma seleção de assuntos para se tratar ou não com chatbots. Responder à pesquisa de satisfação, comunicar um serviço e analisar cadastros são ações que as pessoas se sentem à vontade em realizar por meio de chatbots, lembra Gabriela, destacando ainda um erro comum: apesar de a inteligência artificial ser  uma grande aliada nessa ferramenta, ela não é essencial ao funcionamento, pois cada modelo de negócio exige um tipo diferente de interação.

Com os objetivos da função bem claros, é possível encontrar a tecnologia e o tom de voz certos para aplicação do processo. Não se esqueça também de fazer alguns testes antes de colocar o serviço à disposição do público final. “Alguns erros que a empresa pode cometer são linguagem muito robótica, que afasia as pessoas, e excesso de mensagens – ninguém quer ser importunado por um robô várias vezes por dia. É preciso saber exatamente quais são os objetivos da marca no bot e tentar manter sempre uma conversa boa, como a de amigos, finaliza Marina.

Olá, estou aqu para ajudar2 

IMPLANTAÇÃO

  • Identifique a necessidade do seu negócio e o objetivo do chatbot (atendimento pós-venda, SAC, agendamento de serviços, comunicação interna da empresa, entre outros).

 

  •  Faça um bom planejamento com expectativas e metas.

 

  • Identifique o público que quer atingir.

 

  • Crie uma personalidade para o chatbot que gere algum tipo de vínculo emocional (tom de voz empático).

 

  • Conecte-se a uma empresa que possa desenvolver a tecnologia com a melhor opção para o seu negócio.

 

  • Crie um fluxo de conversa que conclua o atendimento, sem gerar novos problemas a resolver ou deixar a interação em aberto.

 

  • Entenda as necessidades do seu público para melhorar o engajamento.

 

  • Não tente abraçar o mundo inteiro de uma vez. Identifique uma necessidade de comunicação da empresa e invista profundamente nela, de maneira humanizada.

 

  • Faça questão de garantir a segurança dos dados do cliente, promovendo a conversa em ambiente onde ele esteja logado com senha e mantendo as informações criptografadas.

Olá, estou aqu para ajudar3 

BETA

O Coletivo Nossas lançou recentemente o chatbot Beta – diminutivo de Betânia. Aliados às causas femininas, os assinantes da ferramenta recebem via inbox uma série de notícias relacionadas ao ativismo, podendo inclusive votar projetos e enviar e-mails direto para a Câmara. Na campanha mais recente, o robô estimulou o envio de mensagens a favor dos projetos de lei de Marielle Franco, que estavam sendo votados, e o resultado foi positivo: cinco dos sete foram aprovados.

OUTRASFERRAMENTAS

Além do chatbot, ferramentas como site, blog, aplicativos ou página no YouTube são complementares ao serviço. Em um momento em que o público busca o máximo de informação disseminada possível, não ficar preso a um único formato é essencial para atingir o maior engajamento. Há ainda softwares de apoio à gestão. Por exemplo, um chatbot de rastreamento de entrega, quando integrado a um software de logística, torna a conversa mais capaz de resolver um problema e assim por diante.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE IV

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

(2) ”A salvação vem dos judeus”. Portanto, eles sabem o que adoram, e em que e sobre que bases se apoiam em sua adoração. Não que todos os judeus fossem salvos, nem que não fosse possível que muitos dos gentios e dos samaritanos pudessem ser salvos, pois, em toda nação, aquele que teme a Deus e age com justiça é aceito por Ele. Mas:

[1] O autor da salvação eterna vem dos judeus, surge entre eles (Romanos 9.5), e é enviado primeiro para abençoá-los.

[2] Os meios da salvação eterna são oferecidos a eles. A palavra da salvação (Atos 13.26) havia sido enviada aos judeus. Foi confiada a eles, e outras nações a receberam através deles. Esta era uma diretriz confiável para eles em suas devoções, e eles a seguiam. Consequentemente, eles sabiam a quem adoravam. A eles, foram confiadas as Palavras de Deus (Romanos 3.2), e o serviço a Deus (Romanos 9.4). Portanto, sendo os judeus tão privilegiados e superiores, competir com eles era uma arrogância dos samaritanos.

Em segundo lugar, Ele descreve a única adoração evangélica que Deus aceitava e com a qual estaria muito satisfeito. Havendo mostrado que o lugar de adoração não tem importância, Ele consegue mostrar o que é necessário e essencial – que adoremos a Deus “em espírito e em verdade”, vv. 23,24. A ênfase não deve ser colocada sobre o lugar onde adoramos a Deus, mas sobre o estado de espírito em que o adoramos. Observe que o modo mais eficaz de diminuirmos as divergências nas questões menores da religião é sermos mais zelosos no tocante às maiores. Acredito que aqueles que diariamente fazem da adoração em espírito o centro de suas preocupações, não devem entrar em divergências nas quais se discute se o Senhor deve ser adorado aqui ou acolá. Cristo havia preferido, de forma justa, a adoração dos judeus à dos samaritanos. Porém, ainda assim Ele aqui sugere a imperfeição dela. A adoração era cerimonial, Hebreus 9.1,10. Os adoradores geralmente não eram espirituais, e desconheciam a parte interior da adoração divina. Note que é possível que sejamos melhores do que nossos vizinhos, e mesmo assim não sejamos tão bons quanto deveríamos ser. Cabe a nós sermos corretos, não somente quanto ao propósito da nossa adoração, mas na maneira de conduzi-la, e é quanto a isso que Cristo nos instrui aqui. Observe:

A. A grande e gloriosa revolução que deveria introduzir essa mudança: ”A hora vem, e agora é” – o dia que estava marcado, referente àquilo que estava determinado desde os dias da Antiguidade, quando deveria vir e o quanto deveria durar. O tempo de sua aparição foi fixado em uma hora. As deliberações divinas são assim exatas e pontuais. O tempo que o Senhor estaria na terra tinha uma duração limitada a uma hora. Observe como está próxima a oportunidade da graça divina, e como ela é urgente, 2 Coríntios 6.2. Essa hora vem, e está vindo na plenitude de sua força, esplendor, e perfeição, ela está agora no embrião e na infância. O dia perfeito está chegando e raiando.

B. A bendita mudança em si. Nos tempos do Evangelho, os verdadeiros adoradores deverão adorar “o Pai em espírito e em verdade”. Como criaturas, adoramos o Pai de tudo e de todos. Como cristãos, devemos adorar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. E a mudança será:

(a) Na natureza da adoração. Os cristãos adorarão a Deus, não nas práticas cerimoniais da instituição mosaica, mas nas práticas espirituais, consistindo menos no exercício corporal, e mais naquele que é reavivado e revigorado pela força e pela energia divinas. A maneira de adorar que Cristo instituiu é racional e intelectual, e um aprimoramento daqueles ritos exteriores e cerimônias com os quais a adoração do Antigo Testamento era tanto obscurecida quanto obstruída. Esta é chamada a verdadeira adoração, ao contrário daquela que era típica. Os serviços válidos eram símbolos da verdadeira adoração, Hebreus 9.3,24. Quanto àqueles que se rebelaram em relação ao cristianismo, e voltaram ao judaísmo, é dito que começaram pelo Espírito e acabaram pela carne, Gálatas 3.3. Tal era a diferença entre as instituições do Antigo e do Novo Testamento.

(b) No temperamento e na disposição dos adoradores. Portanto, os verdadeiros adoradores são bons cristãos, diferenciados dos hipócritas. Todos devem, e irão adorar a Deus em espírito e em verdade. Isso é dito como sendo (v. 23) sua natureza, e (v. 24) seu dever. Observe que é requerido de todos os que adoram a Deus que o façam em espírito e em verdade. Nós devemos adorar a Deus:

[a] “Em espírito”, Filipenses 3.3. Devemos confiar no Espírito de Deus quando precisarmos de força e ajuda, colocando nossas almas sob suas influências e processos. Devemos devotar e empregar nosso próprio espírito a serviço de Deus (Romanos 1.9). Devemos adorá-lo com firmeza de pensamento e uma chama de amor, com tudo aquilo que está dentro de nós. O espírito dos salvos é investido de uma nova natureza em oposição à carne, que é a natureza corrompida. E, desse modo, adorar a Deus com nosso espírito é adorá-lo com nossas graças, Hebreus 12.28.

[b] “Em verdade”, isto é, em sinceridade. Deus requer não apenas nosso íntimo em nossa adoração, mas “a verdade no íntimo”, Salmos 51.6. Nós devemos considerar mais o poder do que a forma, devemos visar a glória de Deus, e não a possibilidade de sermos notados pelos homens. Devemos nos chegar “com verdadeiro coração”, Hebreus 10.22.

Em terceiro lugar, Ele declara as razões porque Deus deve ser adorado dessa maneira:

A. Porque nos tempos do Evangelho, eles, e somente eles, são considerados os verdadeiros adoradores. O Evangelho estabelece um modo espiritual de adoração, de forma que aqueles que professam o Evangelho não são verdadeiros em sua profissão, não correspondem à luz e às leis do Evangelho, se não adorarem a Deus em espírito e em verdade.

B. “Porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. Isso indica:

(a) Que tais adoradores são muito raros e difíceis de ser encontrados, Jeremias 30.21. A porta da adoração espiritual é estreita.

(b) Que tal adoração é necessária, e é aquela que o Deus do céu exige. Quando Deus vem em busca de seus adoradores, a pergunta não é: “Quem adora em Jerusalém?” Mas: “Quem adorava em espírito?” Esse será o critério.

(c) Que Deus fica muito satisfeito e aceita bondosamente tal adoração e tais adoradores. “Eu o desejei”, Salmos 132.13,14; Cantares 2.14.

(d) Que houve e haverá, até o fim, um remanescente daqueles adoradores. Sua procura por tais adoradores implica em torná-los assim. Deus está reunindo para si, em todas as épocas, uma geração de adoradores espirituais.

C. Porque “Deus é Espírito”. Cristo veio para nos trazer a bênção de conhecer a Deus (cap. 1.18), e esta foi a declaração que o Senhor Jesus expressou em relação a Deus, o Pai. Ele o declarou para essa pobre mulher samaritana, porque, geralmente, os mais pobres estão interessados em conhecer a Deus, e com esse desígnio, poderia corrigir os erros dela relativos à adoração religiosa. Nada contribuirá mais, para a verdadeira adoração, do que o conhecimento apropriado de Deus. Observe que:

(a) Deus é Espírito, porque Ele é uma mente infinita e eterna, um ser inteligente, incorpóreo, imaterial, invisível e incorruptível. É mais fácil dizer o que Deus não é do que o que Ele é. “Um espírito não tem carne nem ossos”, mas quem conhece o modo de ser de um espírito’? Se Deus não fosse Espírito, Ele não poderia ser perfeito, nem infinito, nem eterno, nem independente, nem o Pai dos espíritos.

(b) A espiritualidade da natureza divina é uma boa razão para a espiritualidade da adoração divina. Se não adoramos em espírito a Deus, que é Espírito, nós não damos a Ele a glória devida ao seu nome, e, portanto, não realizamos o ato da adoração, nem podemos esperar obter seu favor e aceitação, e assim nos afastamos da finalidade da adoração, Mateus 15.8,9.

4. O último tópico da conversa de Jesus com essa mulher é relativo ao Messias, vv. 25,26. Observe aqui:

(1) A fé da mulher; através da qual ela esperava o Messias: “Eu sei que o Messias vem” e “quando ele vier, nos anunciará tudo”. Ela não tinha nada a objetar contra o que Cristo havia dito. Seu discurso foi, pelo que ela sabia, o que seria apropriado ao Messias então esperado. Apenas dele ela aceitaria isso, e, por enquanto, ela acha melhor deixar sua crença temporariamente pendente. Muitos não dão valor ao que têm em suas mãos porque pensam que têm algo melhor em vista (Provérbios 17.16), e se iludem com a promessa de que no futuro aprenderão aquilo que negligenciam agora. Observe aqui:

[1] A quem ela espera: “Eu sei que o Messias vem”. Os judeus e os samaritanos, embora vivessem em extremo desacordo, concordavam na esperança do Messias e de seu reino. Os samaritanos aceitavam os manuscritos de Moisés, e não desconheciam os profetas, nem as esperanças da nação judaica. Aqueles que menos sabiam, sabiam que o Messias estava para vir. Tão geral e inconteste era a expectativa por Ele, e nesse momento mais elevada do que nunca (pois o cetro havia partido de Judá, as semanas de Daniel estavam perto de terminar), que ela conclui não somente: Ele virá, mas “Ele vem, Ele está próximo”: “O Messias (que se chama o Cristo)”. O evangelista, embora conserve a palavra hebraica Messias (que a mulher utilizou) em respeito ao idioma sagrado, e à igreja judaica, que a usava livremente, escrevendo para o benefício dos gentios, toma o cuidado de representá-la através de uma palavra grega com o mesmo significado. Esta palavra designa o Cristo-Ungido, dando um exemplo da regra dos apóstolos de que tudo o que é falado em um idioma desconhecido ou menos comum deve ser interpretado, 1 Coríntios 14.27,28.

[2] O que ela espera dele: “Ele nos anunciará tudo”, nos falará sobre todas as coisas relativas ao serviço de Deus que é necessário que saibamos, nos dirá aquilo que compensará nossos defeitos, retificará nossos erros, e porá um fim às nossas disputas. Ele nos falará sobre o pensamento de Deus de forma clara e completa, e não ocultará nada”. E isso implica em um reconhecimento, em primeiro lugar, da deficiência e da imperfeição da revelação que eles agora tinham da vontade divina, e do domínio que eles tinham da adoração divina. Isso não podia levá-los à perfeição, e, portanto, eles esperavam algum grande avanço e aprimoramento em questões de religião, um tempo de reforma. Em segundo lugar, da capacidade do Messias para realizar essa mudança: “‘Ele nos anunciará tudo’ que queremos sabei; e sobre as quais nós discutimos de forma exasperada na escuridão. Ele introduzirá a paz ao nos conduzir para a verdade, e ao dispersar as névoas do erro”. Parece que esse era o consolo das pessoas boas naqueles tempos obscuros em que a luz iria surgir. Se eles se achassem perdidos, e em um beco sem saída, era para eles uma satisfação dizer: “Quando o Messias vier, ele nos anunciará tudo”. Como pode ser para nós agora com referência à sua segunda vinda: Agora, vemos por espelho, mas então veremos “face a face”.

(2) O favor de nosso Senhor Jesus em se fazer conhecido dela: “Eu o sou, eu que falo contigo”, v. 26. Cristo jamais se fez conhecido tão expressamente a qualquer outro como Ele se fez aqui a esta pobre samaritana, e ao homem cego (cap. 9.37). Não, não a João Batista, quando ele lhe enviou mensageiros (Mateus 11.4,5). Não, não aos judeus, quando eles o desafiaram a dizer-lhes se Ele era o Cristo, cap. 10.24. Mas:

[1] Cristo, deste modo, colocaria uma honra sobre os que eram pobres e desprezados, Tiago 2.6

[2] Esta mulher, pelo que sabemos, jamais tinha tido qualquer oportunidade de ver os milagres de Cristo, os quais eram então o método ordinário de convicção. Note que, para aqueles que não têm a vantagem da forma externa do conhecimento e da graça, Deus têm meios secretos de suprir a necessidade deles. Devemos, portanto, julgar caridosamente a respeito de tal coisa. Deus pode fazer com que a luz da graça brilhe no coração mesmo onde Ele não fez a luz do evangelho brilhar na face.

[3] Esta mulher foi preparada para receber tal revelação melhor do que os outros foram. Ela estava cheia da expectativa do Messias, e pronta para receber instrução da parte dele. Cristo se manifestará àqueles que, com um coração honesto e humilde, desejarem conhecê-lo pessoalmente: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Jesus Cristo estava próximo a ela, embora ela não conhecesse quem Ele era, Gênesis 28.16. Muitos estão lamentando a ausência de Cristo, e desejando por sua presença, quando, ao mesmo tempo, Ele está falando a eles. Em segundo lugar, como Cristo se faz conhecido de nós, falando a nós: “Eu que falo contigo”, tão estreitamente, de maneira tão convincente, com tal segurança, com tal autoridade, “Eu o sou”.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TRANSTORNO ALIMENTAR (TA): EM TEMPO DE TRATAR

Problemas alimentares na infância são preocupação mundial e passaram a ser mais pesquisados e publicados entre pediatras e psicanalistas.

Em tempo de tratar

Bulimia e anorexia nervosa, transtornos alimentares e transtornos da alimentação são nomes que circulam na mídia com frequência no século XXI. Nunca é demais advertir sobre a seriedade com a qual merecem ser encarados. O comer “desordenado” na infância era descrito no Brasil pela tradução de Feeding Disorders, em nosso idioma transtornos da alimentação, nomes bastante semelhantes. Na versão corrente do DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, editado no Brasil em 2014, os transtornos da alimentação (TdA) (infância) passaram a ser descritos como parte dos transtornos alimentares (TA) – anteriormente nomenclatura exclusiva para adultos. Antes disso os TA em crianças eram considerados um tipo não especificado de transtorno, em separado ao dos adultos. Para melhor compreensão, seguiremos utilizando aqui a nomenclatura anterior que os diferencia.

O que hoje se conhece por transtornos alimentares corresponde a um grupo de diagnósticos de transtornos mentais ligados ao comportamento, sobretudo o comportamento alimentar, podendo incluir prática excessiva de atividade física e outras variantes do comportamento de controle obsessivo do peso, como a presença ou não de práticas purgativas, variando em cada diagnóstico/subtipo. Na atualidade são fortemente ligados às questões com a própria imagem, preocupação excessiva com o peso, geralmente acompanhado de um saber decidido a esse respeito – muitas vezes por comportamentos aprendidos na internet, ou pela adesão ao polêmico e perigosíssimo slogan “anorexia como estilo de vida” – espécie de roleta russa à qual jovens aderem radicalmente, diferente da chamada anorexia santa como forma de jejum e ascese na Igreja Católica no século XIII, e da anorexia histérica, o clássico texto do final do século XIX, de Charles Lasegue, quem localizou na França, os quadros alimentares, como de origem psíquica. Simultaneamente surgiu a descrição de Willian Gull, na Inglaterra da Anorexia Nervosa, mais voltada para aspectos clínicos. Nessas épocas o quadro não incluía a questão com a imagem do corpo, nem a paciente tinha qualquer saber sobre o mal-estar que começava com dor epigástrica e dificuldade de comer, atraindo o olhar familiar. O quadro evoluía para a recusa do alimento, com forte impacto negativo na dinâmica familiar, ricamente descrito por Lasegue em conselhos válidos até nossos dias, apesar das diferenças do quadro a cada época.

O que se costuma referir e replicar no main stream da literatura psiquiátrica é que a bulimia teria sido descrita somente em 1979 por Russell, como variante da Anorexia Nervosa. No entanto, há registros médicos do quadro bem mais antigos, inclusive em documentos médicos, e abundantes referências nas pesquisas de Brusset e Couvreur (2003).

Diferentes dos mais conhecidos na grande mídia, exclusivos aos adultos, anorexia nervosa, bulimia e o comer compulsivo, os TdA podem ocorrer em bebês, crianças pequenas ou em idade pré-escolar por desencadeantes diversos exceto quando associados a transtornos do desenvolvimento ou condições clínicas específicas; suas causas são descritas nas ciências médicas no entrecruzamento de fatores médicos, de desenvolvimento e comportamentais. Apresentam-se sob a forma da seletividade, pica, ruminação, e outras variantes – ingestão persistente de substâncias não nutritivas que não são alimentos durante ao menos um mês – podem levar a perigosas consequências médicas para o bebê ou a criança, inclusive falha no crescimento ou desnutrição.

As descrições vão sofrendo variações a cada edição dos manuais estatísticos e diagnósticos, mas a problemática nos toca para além disso: se trata-se de um aumento de fato, já apontamos a dificuldade em aferir, mas é certo que há uma procura maior por tratamento, e é bem possível que haja sim um aumento em curso, e que irá se complexificar enquanto perdurarem as dificuldades com a obesidade em nossa cultura, dentre outros fatores. Não podemos esperar extinguir. A pulsão de morte, já advertiu Freud, é constitutiva do ser humano. Segundo estudos, são profundamente relacionados os problemas da obesidade dos pais e seus padrões e ambiente alimentar e o surgimento de TA nos filhos. Estudos já apontaram também a correlação da anorexia com tempos de excesso, relacionando-se muito mais ao abastado do que ao que falta, e com a excessiva preocupação em emagrecer dos pais ou à restrição de certos alimentos.

A introdução nos situa no tema do ponto de vista médico, no entanto vale a reflexão em termos mais gerais, visando ampliar o olhar para o fenômeno que nos preocupa, incluindo outros aspectos.

Ainda que a descrição do quadro entre “moças jovens”, meninas, exista desde que se tornou entidade mórbida no fim do século XIX, com breves referências no texto freudiano, somente em meados do século passado foi alvo crescente de pesquisas e publicações de pediatras e psicanalistas, como Hilde Bruch (1904-1984), nos anos 60 descreveu o transtorno da imagem corporal, período em que se voltou especialmente para o quadro na infância. Em nossos dias, na infância, os TA têm como grande referência Bryan Lask, Professor inglês, falecido há um ano. Em seu último livro, recém-publicado, encontra-se debate sobre o aumento da incidência em crianças, afirmando -o.

Descritos nos manuais diagnósticos e estatísticos, passam por mudanças na apresentação do quadro com o andar da carruagem da história e mudanças na sociedade. Especula-se que em países ocidentais apresentem-se em idade mais precoce com aspectos dos TA em adultos, como temor de engordar (lipofobia) e excessiva preocupação com a imagem. Podem relacionar-se ao aumento de peso da população em geral – no Brasil, confirmado no último censo IBGE, reflexos do ambiente familiar – fatores como pais obesos fazendo dietas, discurso alarmante da saúde sobre riscos da obesidade, refletem nas crianças, bem como da mídia: o padrão de beleza e a identificação a todo custo com as medidas impossíveis da Barbie, da estética “cadáver” e outros personagens do mundo perfeito e brilhante que se quer vender, sobretudo no que importamos da cultura norte americana, como a clínica revela. Também a faixa etária da menarca vem diminuindo. Ainda que com diferenças não tão gritantes na média, TA sempre acompanharam as questões adolescentes emergentes nessa fase.

No entanto, afirmar sobre incidência e real aumento é sempre polêmico e muito difícil de ser aferido: a complexidade diagnóstica dos TA e seus subtipos dificulta pesquisas na área; abandono e mortalidade elevados impactam resultados gerando estudos inconclusivos; as pesquisas são válidas apenas no contexto cultural em que foram realizadas e sempre contêm vieses; a maioria dos estudos é com pacientes inseridos em serviços, e o diagnóstico muda ao longo do tratamento, com variações de massa corporal e a evolução clínica. Não há estudo epidemiológico sobre transtornos alimentares nem da alimentação no Brasil. Sendo nova tal especialidade médica, antes disso não seriam assim identificados, embora comportamentos constassem em registros históricos na Antiguidade, após adventos na sociedade e nas ciências médicas, agora bem descritos, passariam a ser notificados, podendo parecer mais frequentes, havendo que levar-se em conta também o significativo aumento populacional. A impressão do aumento se deve a anteriormente serem subdiagnosticados, subnotificados? Observamos sim crescimento da demanda de tratamento, mas não há comprovação científica sobre aumento real da incidência em crianças.

Ressalvas feitas, algo se pode afirmar baseado em estudos científicos: TA são historicamente mais ligados à cultura ocidental. Porém, ante a globalização, vêm sendo descritos em praticamente todo o mundo. Pesquisas antropológicas verificam aumento da incidência em contextos de rápida mudança cultural nas regiões “em desenvolvimento”. Na tese de doutorado “Histórias de vida com transtornos alimentares: gênero, corporalidade e a constituição de si” (Unicamp, 2011), Silva defende que:”(…) ao serem inseridas no mercado de produção mundial, diferentes regiões do mundo sofrem modificação decisiva no sentido do desenvolvimento de uma cultura de consumo e do individualismo competitivo, descrita sob as rubricas de “modernização” ou “ocidentalização” Apontam na mesma direção a famosa pesquisa de Becker (2002), que testemunha o aparecimento de quadros alimentares com a chegada da televisão nas Ilhas Fiji, e estudos no sul da Austrália, que afirmam aumento de comportamentos purgativos.

As perspectivas sociológica e psicanalítica relacionam esse fenômeno à incessante demanda da cultura do consumo “24 horas” do capitalismo na era globalizada, na qual o Ideal do corpo magro como padrão de beleza, veiculado associado a status, sucesso, controle, triunfo, contribuindo para a insatisfação com a imagem corporal, segundo metanálise de Groesz et ai (2002). As teses do sociólogo Zigmunt Bauman vão na mesma direção, nas obras Sociedade de Consumo e Modernidade Líquida; nesta, analisa que recaem sobre os ombros do indivíduo responsabilidades que até então pertenciam ao Estado, ou aos regimes monárquicos e feudais, resultando no aumento da angústia existencial, traduzida em comportamentos compulsivos a objetos de consumo, inclusive o alimento. Quais as consequências subjetivas da economia neoliberal nesse processo? E o declínio da função paterna, mudanças nas estruturas familiares e sociais, dentre outras revoluções cada vez mais rápidas que estamos vivendo? O sujeito contemporâneo sofre desse “desamparo” – o que coincide com o aspecto emocional descrito na psicologia das anorexias e bulimias: sujeitos desorienta dos pelos laços sociais em liquidação são desamparados e padecem das descompensações do controle, acossados pela demanda frenética de consumir e descartar, inclusive alimentos. O Outro da sociedade de consumo é a grande mãe que empurra a comida.

O termo anorexia mental foi resgatado por Lacan por colocar acento no aspecto psíquico e não no aspecto orgânico do termo médico “nervosa” – aliás, ressurgido fortemente em tempos atuais regidos pelo DSM e a Psiquiatria Neurobiológica. Lacan dizia que a anorexia mental caracterizava-se por um “voraz apetite de amor”, e nesta não deixa de comer, mas “come o nada”; frase de impacto que suscitou debates teóricos, importando destacar seu ponto de verdade: por mais que recuse o alimento no seu jogo para inverter a relação de poder e controle, o sujeito anoréxico relaciona-se excessivamente com esse objeto, dele alimentando-se em sua sofrida obsessão diuturna, isto é, relaciona-se com o mesmo excesso que comanda sua recusa. Anorexia e bulimia, TA e obesidade: dois lados da mesma moeda, que possuem em sua raiz um voraz apetite, tal qual nas adicções.

 TA, OBESIDADE E ADICÇÃO

Ao contrário do que muitos pensam, a obesidade não faz parte desse grupo de diagnósticos psiquiátricos. Seus parentes próximos, os transtornos da compulsão alimentar, sim, quando acompanhados de práticas compensatórias com determinada frequência e marcados por aspectos psicológicos próprios. Escutamos em tom pesaroso, cotidianamente, na clínica: “Tarde demais. Queria com isso controlar tudo, mas passei a ver que era controlada. Fui perdendo autonomia e muitas outras coisas”. Discurso corrente na problemática da adicção ao álcool e outras drogas, cujo funcionamento psíquico se assemelha aos TA, especialmente à bulimia. Na literatura científica médica há uma linha de pesquisa que considera TA como “comportamento aditivo”. Essa classificação diferencia-se do que até então se conhecia por adicção. Os addictive behaviouri descritos por Goodman em 1990, passaram a ser um grupo de comportamentos com características e psicodinâmica específicas, nos quais a noção de adicção extrapola a ideia de droga enquanto substância e entende como aspecto principal a “relação aditiva” com diversos objetos investidos do caráter “droga” para determinados sujeitos, inclusive a comida, seja ela excessivamente presente – na bulimia – também excessiva, mas ambivalentemente negada, na anorexia. Paradoxalmente, quem recusa o alimento o mantém no comando de sua vida, habitando seu pensamento 24 horas por dia – inclusive como principal motivo de abandono do tratamento, o que é encontrado em estudo qualitativo como “uma escravidão ao vício”.

DESFAZER O MAL-ENTENDIDO

A nomenclatura médica internacional ilumina a diferença entre Eating Disorders – em adolescentes e adultos; e Feeding Disorders – transtornos da alimentação em crianças; diferença que se esclarece na língua inglesa: a declinação passiva do verbo feeding coloca a dependência da criança em seu ato de “ser alimentado” pelo (o) outro. Assim implica “a relação” e supõe, em oposição, adolescentes e adultos “autônomos” em sua alimentação (Eating); enquanto o ato alimentar do bebê/ criança inclui o adulto que lhe apresenta o mundo e é responsável por alimentar a criança, passiva ainda neste ato (Feeding). A diferença não se restringe a preciosismos de linguagem, mas sim a algo que se perde na tradução ao português do Brasil e indica um ponto fundamental dessa clínica e que ambos os transtornos mantêm, em suas descrições ao longo das épocas: o componente da “relação” do sujeito, em constituição, com o outro do qual está se diferenciando, jogo no qual o alimento participará, in evitavelmente. Não somente em Lacan o ato da recusa alimentar guarda relação com protestos da criança à figura da alteridade encarnada nos pais, mais especificamente na mãe – nutriz por excelência desde os registros arcaicos, filo e ontogeneticamente, a mãe constitui um (O) outro associado ao alimento. O que se passa nas anorexias e bulimias enquanto rechaço desse Outro, encarnado na mãe, é um mecanismo inconsciente, segundo a Psicanálise, para manter consigo o controle. Em Lacan, encontramos o rechaço à comida como “moeda de troca”, numa greve de fome que tenta “inverter a relação de potência com o Outro.

As contribuições de Lacan ajudam a transcender o mal-entendido, a posição equivocada que estava no front da explicação das anorexias e bulimias e que culpabilizava diretamente os pais, especialmente as mães: o que era atribuído de modo reducionista à mãe, de “carne e osso”, deve-se a ela encarnar, via de regra, para a criança tudo o que se diferencia da criança, isto é, o mundo; a matriz de sua alteridade, daquilo que ao mesmo tempo ele terá de se diferenciar, e lhe custa, como as perdas da separação, a castração, à qual muitas vezes se resiste, rechaça. Neste rechaço, se dá o terreno psíquico para anorexia, principalmente. Já em Freud estavam descritos mecanismos pelos quais o bebê inconsciente, e muito precocemente, aceita, acusando recebimento ou recusando os indícios que esse mundo lhe apresenta de castração, isto é, de ruptura e separação entre ele e o outro – e a mãe, de quem nasce e precisa se diferenciar, encarna esse lugar. Lacan grafou com maiúscula o termo “Outro” para distinguir do outro (semelhante), dando relevo a tudo o que compreende essa instância que antecede o sujeito, desde onde ele é “falado/(in)desejado” desde antes de seu nascimento; fonte da linguagem, de influências culturais e socialismo sujeito. Mais cedo ou mais tarde este se encontra com sinais de que ele não supre totalmente o desejo deste Outro materno – encarnado na mãe -, não o completa e responderá a isso de modos distintos. Se o sujeito vai consentindo com tais operações de separação do Outro, resultará uma falta, de um lado, e um objeto, de outro (chamado objeto a). Em tomo destes se organizarão as pulsões, o circuito de satisfação. Dessa defasagem, dessa falta constitutiva resulta o sujeito do inconsciente, como ser de linguagem, resultando em diferentes estruturas psíquicas, por assim dizer.

No complexo Inter jogo com o Outro e seu consentimento ou recusa da separação do Outro materno se colocam as tentativas de recuperação e perda, o que nos permite compreender melhor a dimensão da questão com o controle, central nessa clínica. Como o sujeito, no adolescer(S), tem dificuldades e “inseguranças” em consentir com efetivar essa separação, pode resistir a tornar-se adulto e vir a fazer-se presa dos circuitos libidinais mais antigos de sua história: orais e anais, especialmente implicados nos fenômenos alimentares, os métodos de esvaziamento do corpo, tentando murchar um Outro muito cheio, do qual são ambivalentes em separar-se; vacilando em consentir com a perda apegam-se ao corpo da infância, e conflitos maiores se deslocam para o alimento e o problema de sua imagem, em que sempre encontrarão defeitos, e a ilusão de que a magreza os apagaria, resolvendo tais angústias.

A nós, profissionais da clínica, cabe cuidar dos equívocos e seus efeitos muitas vezes danosos, legados dessa confusão, e sempre que possível zelar por não replicá-la, não perpetuá-la.

DESAFIOS

Mas, afinal, o que isso tem a ver com os transtornos da alimentação ou alimentares? Todos os pontos aqui tocados guardam relação com essa forma muito particular de padecimento que se encontra na clínica, e que tem se feito notar fora dela, também nos outdoors ou passarelas, pela semelhança das formas apresentadas na anorexia na cultura atual sob o Império das imagens; o que é vez por outra denunciado, flagrado ou (in)confesso, nos segredos da bulimia, já que essa variante não fica evidente no corpo.

Estima-se que a bulimia seja sub­ diagnosticada em torno de apenas 30% de sua real incidência, e somente pequena parte busque tratamento. Dentre outras razões, devido ao temor por restaurar o peso ou ver-se sem os métodos imaginados como eficazes de emagrecimento e causadores de consequências mortíferas inimagináveis para tais sujeitos. Na bulimia a negação dos riscos à saúde é ratificada pela captura da imagem do corpo “com peso normal”. Assim, a grande maioria das pessoas com bulimia pode não ser identificada como tal mantendo seu padecimento e comportamentos de risco – dentre outros, parada cardíaca – em segredo. Essas demandas não se apresentam diretamente, mas se enredam silenciosamente por meio de outros comportamentos e queixas. Escutá-los, saber acolhê-los sem julgar, tratá-los e/ou encaminhá-los são fundamentais. As dificuldades no relacionamento interpessoal de tais pacientes fazem com que o investimento dos profissionais na aliança terapêutica deva ser constante; condição sine qua non para adesão a tratamento farmacológico, tendendo a reduzir o abandono do tratamento clínico como um todo.

O tratamento segundo Guidelines da American Psychiatry Association (2006) preconiza em primeiro lugar ativar a motivação para tratar, destacando a aliança terapêutica, a restauração do peso saudável (crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes), bem como padrões alimentares mais adequados, reduzindo restrição e controle de compulsões e purgações; cuidando das complicações físicas e psiquiátricas, psicossociais.

O padrão-ouro, na criança e adolescência com TA seria o mesmo, acrescido da exigência total dos pais ou responsável pela criança, especialmente o responsável na hora das refeições, figura fundamental neste caso

As demais abordagens enfim, a angústia, o padecimento subjetivo invariavelmente presente na fonte desses quadros, e tão esquecidos muitas vezes pelos atoleiros das questões no território do corpo, e das complicações clínicas secundárias às psíquicas, e que silenciosamente gritam por ajuda em uma demanda muda, no corpo sequestrado, evidente na alienação na imagem, e no deslocamento das questões psíquicas para o físico, elemento típico do funcionamento anoréxico­

-bulímico. Cabe a nós profissionais da clínica psi escutar com sabedoria para acompanhar, deixando-nos guiar por tais sujeitos em seus dolorosos processos. Frente aos impasses e desafios para tratar transtornos alimenta res, recomendamos acolhimento e disponibilidade para o “manejo clínico” ou, como quer a Psicanálise, “manejo da transferência”. Há que acompanhá-los desprovidos de qualquer furor curandi, como já recomendavam Freud e Lasegue, para que seja possível colocar a aposta no sujeito e a interrogação ética como parceiras constantes, como fizeram esses dois grandes clínicos.

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FAZER DIETA AUMENTA O RISCO DE TA

Obesidade não é um dos TA, mas constitui fator de risco para desenvolvê-los. Nutrição é um dos principais fatores provocadores de mudanças epigenéticas, e dieta afeta a atividade cerebral, aumentando cerca de 18 vezes o risco de TA. E vale lembrar que nossa cultura atual dá lugar a uma obsessão com o corpo, produzindo uma relação com sua imagem cada vez mais assujeitada à tirania da comparação aos ideais impossíveis dos photoshops. Não somente quem tem obesidade ou sobrepeso faz dieta, ou se utiliza de métodos compensatórios para perda de peso. Triste e perigosa realidade que tem início com a ideia de que se pode controlar seu uso. Porém, encontramos no relato dos que cruzaram a fronteira diagnóstica e que tarde demais vieram a dar-se conta de que essa lógica havia adquirido vida própria, e como um mestre autoritário passado a comandar sua existência.

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PREJUÍZO PSICOSSOCIAL

Os transtornos alimentares são os transtornos mentais de maior morbidade e mortalidade, inclusive por suicídio. São considerados os mais graves dentre os transtornos psiquiátricos. Produzem importante prejuízo psicossocial e uma série de complicações clínicas: odontológicas, dermatológicas, gástricas, distúrbios endocrinológicos e cardiopatias. Devido a incidência de suicídios e depressão, estimada em vinte veze mais alta entre jovens com transtorno alimentares, estes foram considerados como doenças mentais prioritárias pela Organização Mundial da Saúde.

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PARA UM BOM TRATAMENTO

Há consenso na literatura científica em afirmar que quanto mais cedo chegar ao tratamento melhor efetividade: segundo Schmidt (2015), enquanto 60% a 80% dos adolescentes com anorexia nervosa se recuperam em abordagem que inclui a família, apenas 20% a 30% dos adultos que tiveram a forma mais duradoura da doença se restabelecem. mesmo com o melhor dos tratamentos. Diante da enorme dificuldade em aceitar tratamento, são levados por terceiros e tendem a abandoná-lo facilmente. Nossa revisão de literatura encontrou: taxa de abandono de 40% a 60% nos adultos. Entre filhos de pais separados e em pacientes que apresentam comportamento purgativo há mais abandono do tratamento, também guardando relação inversa com escolaridade. Adolescentes e crianças têm melhor adesão, poisos pais obrigatoriamente participam. Seidinger- Leibovitz (2016)

 

FLÁVIA MACHADO SEIDINGER LEIBOVITZ – é psicóloga clínica em São Paulo e Campinas. Possui especialização em Psicanálise (Escuela dela Orientación Lacaniana /Núcleo de lnvestigacion de Anorexias y Bulimias – Argentina), mestre em Ciências Médicas/Saúde Mental (Unicamp). Membro do Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade(CLIN-a), do Grupo Interdisciplinar de Assistência e Estudos em Transtornos Alimentares (GETA-Unicamp) e da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan). flaviamsleibovitz@gmail.com

OUTROS OLHARES

MÃES E FILHOS ATRÁS DAS GRADES

População carcerária feminina explode no Brasil e leva a aumento do número de mães presas, principalmente grávidas e lactantes. Habeas corpus coletivo do STF à detentas com filhos até 12 anos ainda não é cumprido.

Mães e filhos atrás das grades

Durante uma visita do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ao presídio feminino do Distrito Federal, uma detenta se desesperou: “Me tirem daqui com essa criança”. O apelo escancara a situação vivida por mães e seus filhos em penitenciárias brasileiras. Alijadas de cuidados básicos de saúde e de condições mínimas para exercer a maternidade, algumas chegam a ser algemadas no parto. O impacto dessa situação recai sobre as mulheres e subordina crianças recém-nascidas a condições lamentáveis. Com a explosão da população carcerária feminina – foi registrado um aumento de 700% em 16 anos, chegando a 45 mil em 2016 – o número de presas que são mães também aumentou. A estimativa é que 74% delas tenham pelo menos um filho, sem idade especificada. Pensando nisso, e principalmente na situação precária de gestantes e mães de recém-nascidos detidas, o STF decidiu, em fevereiro, conceder habeas corpus coletivo a todas as mulheres presas provisoriamente que estejam grávidas ou tenham crianças de até 12 anos.

Porém, a falta de um banco de dados adequado, a alta burocracia e a resistência de juízes têm dificultado o cumprimento da medida, que deveria ter sido aplicada integralmente até abril.

Uma das razões que explicam a demora no cumprimento da decisão do STF, segundo o juiz criminal e de execuções criminais Luiz Augusto Barrichello Neto, está justamente na falta de um levantamento de quantas mulheres são mães. “Quando a mulher é presa, nem sempre temos a informação de que ela tem filhos, ou, se tem, se são menores de12 anos”, afirma. “Logo após a decisão do STF, cada presídio precisou fazer um levantamento para colher essas informações e então encaminhar a relação para os juízes analisarem os casos novamente. “Depois disso, é preciso de uma nova análise para que o caso se adeque à decisão do STF – só vale para presas provisórias que não tenham cometidos crimes com violência ou ameaça à pessoa, como homicídio. Porém, no momento da análise, o entrave para a execução da medida se dá, principalmente, por questões morais dos próprios juízes.

Presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Fábio Tofic Sirnantob afirma que dos casos acompanhados pela entidade, metade das mulheres ainda não foram soltas. “A decisão do STF é cartesiana, não há o que não entender, mesmo assim, seu cumprimento tem sido parcial”, diz. “Há um parecer em que o habeas corpus foi negado porque, quando a mulher foi presa, estava no bar, e concluiu-se que não estava preocupada com a criança. Falariam isso de um pai? Não. Mas da mãe, sim.”

BRASILEIRINHOS

A posição do STF foi tomada levando em consideração a falta de estrutura para garantir o bem-estar da relação entre mães e crianças, chamadas pelo ministro Ricardo Lewandowski de “brasileirinhos”. “Temos mais de 2.000 pequenos brasileirinhos que estão atrás das grades com suas mães, sofrendo indevidamente, contra o que dispõe a Constituição, as agruras do cárcere”, disse, durante a votação. Para ter mais precisão sobre esse cenário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou o cadastro Nacional de Presas Grávidas e Lactantes. Desde janeiro, tem vistoriado presídios brasileiros para levantar quem são e como vivem as mulheres nessas condições. A juíza auxiliar da presidência do CNJ, Andremara dos Santos, que realiza o trabalho, salienta a necessidade de criar uma padronização para os serviços de assistência. Nas vistorias, os quadros são os mais diversos. Em um presídio de São Paulo, havia 14 bebês sem registro de nascimento. No Distrito Federal, quatro bebês não tinham tomado as vacinas necessárias após o parto. Segundo Santos, a função do levantamento é, também, a de combater a violência contra a mulher. O estudo “Nascer nas Prisões”, da Fundação Oswaldo Cruz, mostra que essa violência é real e recorrente: mais de um terço das presas grávidas usa algemas na internação para o parto. Negar acesso à saúde também é um tipo de violência: 55% tiveram menos consultas de pré-natal do que o recomendado, 32% não foram testadas para sífilis e 4,6% das crianças nasceram com sífilis congênita.

ESTERILIZADA À FORÇA

O mesmo poder público incapaz de garantir o direito à vida de crianças filhas de mães presas se mostra ainda mais perverso ao esterilizar mulheres compulsoriamente. Mesmo a prática sendo vetada pela Constituição, uma mulher de 36 anos foi submetida a uma laqueadura depois de dar à luz, em fevereiro, sem nem saber que iria passar pelo procedimento. Moradora de rua da cidade de Mococa (SP), ela está presa desde novembro passado, acusada de tráfico de drogas. O pedido de esterilização partiu do promotor Frederico Barruffini, para quem a cirurgia seria “eficaz para salvaguardar a sua vida”, e foi aceito pelo juiz Djalma Moreira Gomes Junior. O argumento do promotor não tem amparo legal, já que a laqueadura só pode ocorrer se a decisão partir da própria pessoa. No âmbito da saúde, caso a preocupação fosse a vida da mulher, ela deveria ser encaminhada a um tratamento de dependência química, não passar por uma mutilação.

Mães e filhos atrás das grades.2

GESTÃO E CARREIRA

PENSANDO DIFERENTE

Além de incentivar a pluralidade de gênero, raça e cor entre os funcionários, algumas empresas começam a descobrir as vantagens de promover a multiplicidade de pontos de vista e experiências.

Pensando diferente

Promover a diversidade é meta da maioria das empresas que estão sintonizadas com as aspirações da sociedade atual. Muitas já adotam políticas para estimular a pluralidade de gênero, raça, cor e orientação sexual. Mais recentemente, outro tipo de diversidade começou a ganhar visibilidade e ser tema de estudos acadêmicos em nível global: a de pensamento, ou, como vem sendo chamada, diversidade cognitiva.

Em artigo publicado pela escola de negócios Insead em março, os executivos Paul Evans e Bruno Lanvin apontam que, para tarefas que exigem criatividade, equipes diferentes se saem melhor do que aquelas compostas de individuas semelhantes, desde que os membros compartilhem suas habilidades. A variedade de pontos de vista, experiências, conhecimentos, cultura e perspectiva pode enriquecer – e muito – a maneira como as organizações trabalham. Parece simples, mas implantar essa filosofia passa por um árduo caminho. “A responsabilidade pelo desenvolvimento dessa diversidade depende de sistemas educacional e líderes ousados que entendam que não é fácil conseguir que pessoas diferentes trabalhem ou vivam juntas, muito menos colaborem inovem em conjunto”, dizem Evan e Lanvin, também responsáveis pelo Índice de Competitividade Global de Talentos. Segundo eles, as nações que perceberam a importância de incentivar a diversidade lideram o ranking ICGT. No topo está a Suíça, país especialmente sensível à multiplicidade cognitiva.

Existem dois fatores que contribuem para que a pluralidade de pensamentos seja particularmente fácil de ser ignorada pelas empresas, de acordo com Alison Reynolds, professora na Ashridge Business School, do Reino Unido, e David Lewis, diretor do Senior Executive Program na London Business School. O primeiro é que ela é menos visível do que as outras formas – de gênero ou de raça, por exemplo. O segundo é que as organizações criam barreiras culturais que restringem características distintas. “Os empregados gravitam em torno daqueles que pensam e se expressam de maneira semelhante. Como resultado, as corporações têm equipes iguais”, a firmam os especialistas.

A homogeneidade tem impactos: reduz a oportunidade de fortalecer a organização com a contribuição de indivíduos que pensam de maneira oposta e não representa a população ele funcionários, diminuindo a amplitude das iniciativas. “Se você procurar, a diferença cognitiva está por toda parte. Mas os humanos gostam de se encaixar, então, eles são cautelosos em colocar o pescoço para fora”, afirmam Reynolds e Lewis em seu artigo. “Quando temos uma cultura forte e homogênea (por exemplo, uma cultura de engenharia, uma cultura operacional ou uma cultura relacional), sufocamos as variações de pensamento por meio da pressão para se conformar. E podemos até não estar conscientes de que isso está acontecendo.” Para a heterogeneidade aflorar, os líderes têm de melhorar o senso de segurança psicológica de sua equipe.

COMANDO E CONTROLE

No Brasil, os passos no sentido da diversidade cognitiva andam praticamente no mesmo ritmo que a média mundial – tímidos. Para Rafael Souto, presidente da consultoria Produtive, o ambiente corporativo ainda apresenta muita dificuldade em lidar com o pensamento divergente. “Como espécie, não somos muito afeitos aos diferentes, queremos eliminá-los”, afirma o consultor. Boa parte dos gestores inclui o tema em seu discurso de liderança, mas, na prática, funciona a política do comando e controle.

Um jargão que mostra como não há diversidade cognitiva nas instituições é o termo “alinhamento”, muito utilizado no mundo corporativo. Isso nada mais é do que a orientação para os funcionários pensarem do mesmo jeito. “Lidar com as diversas formas de conteúdo é harmonizar”, afirma Souto. “Mas as empresas suportam pouco a divergência, pois, para o senso comum, ela é um problema.” O consultor cita um exemplo recorrente: um profissional que traça sua estratégia de carreira.

“Quando o objetivo traçado pelo indivíduo é diferente do planejado por seu chefe, e ele ousa discordar, a promoção não acontece e ele é colocado na geladeira.”

Nesse cenário, há companhias que tentam pôr em prática a variedade cognitiva e, dela, criar novas estruturas de trabalho. Um exemplo é o Grupo Boticário. Lá, em todos os processos de recursos humanos – admissão, promoção, reconhecimento -, é observada a pluralidade de pensamento. Em cada nível de gestão existem comportamentos a ser observados, como “valorizar dimensões diferentes”, “compor times complementares”, “receber feedbacks e incorporar ideias novas” e “transformar a forma de atuar”. “Valorizamos e alavancamos com base na diferença. É parte de nossa cultura”, diz Graziella D’Enfeldt, diretora de recursos humanos.

Para o Grupo Boticário, cultivar as diferenças em seu ambiente soa óbvio. “Como vamos entender o consumidor se não temos em nosso microcosmo uma representação da sociedade?”, diz Graziella. A diversidade de pensamento também é buscada no programa de trainees. Atualmente, a turma tem 25 jovens, vindos de 17 faculdades. O trabalho de seleção é proativo: o R.H contrata empresas de pesquisas especializadas em entender o mercado jovem e seus hábitos de consumo e busca perfis como: quem faz as melhores festas, quem formula as melhores perguntas ou quem alcança as melhores notas. “É oneroso, mas muito mais preciso”, afirma a executiva de RH. “De uma triagem de 14.000 inscritos, passamos para 60 e temos um número recorde de jovens aceitos como trainee.”

Na outra ponta da cadeia hierárquica, o presidente do grupo, Artur Grynbaum, é um dos que mais procuram exercitar a diversidade cognitiva. Ele tem quatro vice-presidentes bem “diferentes um do outro”. Diz que manter quatro réplicas de si mesmo não acrescentaria em nada, e seus assessores diretos enriquecem e valorizam a gestão.

DEBATE DE IDEIAS

Em urna instituição onde se cultiva a diversidade de ideias, a criatividade e a organização são melhores. Essa é opinião do consultor de diversidade Ricardo Sales. Ele dá o exemplo de uma reunião: se os funcionários sabem que vão debater com pessoas que pensam diferente deles, vão se preparar melhor.

O filósofo e economista Joel Pinheiro da Fonseca cita o próprio exemplo para mostrar como é importante permitir a entrada do diferente nas corporações. “Eu venho da filosofia”, diz. “Se as empresas aceitassem só o perfil-padrão, perderiam muita coisa.” Para a neurocientista Carla Tieppo, a pluralidade permite que tudo que está no ambiente seja aproveitado. “As organizações utilizam melhor seus recursos. Ela é um ativo de uma corporação”, afirma.

Apesar das vantagens, não é fácil adotar a multiplicidade de pensamentos – principalmente se as companhias continuarem empregando por estereótipo. “Não há tanta diferença de olhares sobre o mundo, experiência e background quando as empresas contratam majoritariamente o mesmo perfil: homens brancos de classe média alta”, diz Ricardo Sales. Ou seja, para vicejar com toda a força, a diversidade também precisa brotar de cenários e condições totalmente diferentes.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE III

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

[5] Cristo responde a essa crítica, e comprova que a água viva que Ele tinha para dar era muito melhor do que a do poço de Jacó, vv. 13,14. Embora ela falasse perversamente, Cristo não a rejeitou, mas a instruiu e a encorajou. Ele mostrou-lhe:

Em primeiro lugar, que a água do poço de Jacó produzia somente um bem-estar e um suprimento passageiros: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”. Ela não é melhor do que qualquer outra água. Ela saciará a sede momentânea, mas a sede voltará, e em algumas horas o homem terá a mesma necessidade e desejo de água que sempre teve. Isso sugere:

1. As debilidades dos nossos corpos nesta condição atual. Eles ainda estão necessitados, e têm sempre um desejo ardente. A vida é uma chama, uma lamparina que, sem um suprimento contínuo de combustível e azeite, logo se apagará. O calor natural consome a si mesmo.

2. As imperfeições de todos os nossos confortos neste mundo. Eles não são duradouros, nem nossa satisfação neles, permanente. Sejam quais forem as águas de conforto das quais bebamos, teremos sede novamente. A comida e a bebida de ontem não servirão para a vida de hoje.

Em segundo lugar, que as águas vivas que Ele daria produziriam uma satisfação e bênção duradouras, v. 14. As dádivas de Cristo parecem mais valiosas quando são comparadas com as coisas deste mundo, pois parecerá não haver comparação entre elas. Quem quer que compartilhe do Espírito da graça, e dos confortos do Evangelho eterno:

A. Nunca terá sede, nunca terá a necessidade de algo mais para satisfazer abundantemente os desejos de sua alma. A pessoa poderá estar desejosa, mas não estará padecendo. Esta pessoa poderá ter uma sede que é igual a um desejo, e não almejará nada mais do que a presença e a graça de Deus. Ela desejará ter mais e mais de Deus. Porém, ela não terá uma sede que possa se parecer com o desespero.

B. Consequentemente, nunca terá sede porque essa água que Cristo proporciona “se fará nele uma fonte de água”. Nunca poderá ter sede ao extremo aquele que tem em si mesmo uma fonte de suprimento e satisfação.

(a) Esta fonte estará sempre pronta a jorrar, pois ela estará nele. O princípio da graça plantado nele é a fonte de seu conforto. Veja cap. 7.38. Um homem bom está satisfeito em si mesmo, pois Cristo habita em seu coração. A unção permanece nele. Ele não precisa se esgueirar pelo mundo em busca de conforto. A obra e o testemunho do Espírito no seu coração lhe fornecem um sólido alicerce de esperança, e uma fonte de alegria transbordante.

(b) Esta fonte será infalível, pois estará dentro dele. Aquele que tem na mão apenas um balde de água não terá sede enquanto esta durar, mas ele logo estará vazio. Somente os crentes têm dentro de si uma fonte de água transbordante, sempre fluindo. Os princípios e os sentimentos que o santo Evangelho de Cristo cria nas almas daqueles que são colocados sob seu poder são essa fonte de água.

[a] Ela está jorrando, sempre em movimento, o que evidencia as fortes e vigorosas ações da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossas almas, como água parada, elas não correspondem ao propósito da nossa aceitação. Se em nosso coração houver um bom tesouro, então nós deveremos produzir coisas boas.

[b] Ela está saltando para a vida eterna, o que indica, em primeiro lugar, os objetivos das ações generosas. Uma alma santificada tem sua atenção voltada para o céu, pretende isso, planeja isso, faz tudo por isso, não aceitará nada menos que isso. A vida espiritual salta em direção à sua própria perfeição na vida eterna. Em segundo lugar, a constância dessas ações. Continuará saltando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar; o galardão deles, a vida eterna enfim. A água viva nasce do céu, e, portanto, eleva-se em direção ao céu. Veja Eclesiastes 1.7. E sendo assim, não é essa água melhor do que a do poço de Jacó?

[6] A mulher (alguns pensam que é difícil dizer se por brincadeira ou a sério) pede que Jesus lhe dê um pouco dessa água (v. 15): “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede”. Em primeiro lugar, alguns acham que ela fala com zombaria e ridiculariza o que Cristo tinha dito como sendo mera bobagem. E, por zombaria, não por desejo, desafia-o a lhe dar um pouco dessa água: “Uma invenção rara. Isso me poupará muito trabalho se eu nunca mais tiver que voltar aqui para tirar água”. Mas, em segundo lugar; outros acham que esse foi um desejo bem-intencionado, embora ilógico e ignorante. Ela compreendeu que o Senhor se referia a algo muito bom e proveitoso, e então disse amém, talvez ao acaso. “Seja o que for, que venha. Quem me mostrará algum bem? Facilitar; ou poupar trabalho, é um bem valioso para os pobres trabalhadores. Note:

1. Mesmo aqueles que são fracos e ignorantes podem, ainda assim, ter algumas débeis e hesitantes aspirações em relação a Cristo e suas dádivas, alguns bons desejos de graça e glória.

2. Os corações carnais, em seus melhores desejos, não enxergam nada além de suas finalidades carnais. “Dá-me”, diz ela, não para que eu possa ter a vida eterna (que Cristo propôs), mas “para que não mais tenha sede e não venha aqui tirá-la”.

3. O próximo tópico da conversa com essa mulher é com relação a seu marido, vv. 16-18. Não foi para deixar de lado a conversa sobre a água da vida que Cristo começou a falar nesse assunto, como muitos que fazem qualquer comentário inoportuno durante uma conversa para que possam abandonar um assunto sério. Mas Ele o fez com um propósito benevolente. O Senhor percebeu que aquilo que Ele havia dito com relação à sua graça e à vida eterna causara pouco impacto sobre ela, porque ela não tinha sido convencida do pecado. Por isso, renunciando à conversa sobre a água viva, Ele empenha-se em despertar a consciência dela, para abrir a ferida da culpa, e então ela entenderia mais facilmente a cura que é ministrada pela graça. E este é o método de lidar com as almas. Elas devem, primeiro, estar cansadas e sobrecarregadas pelo fardo do pecado, e então devem ser levadas a Cristo para descansar. Primeiro se sentem atormentadas até o coração, e então são curadas. Este é o caminho da cura espiritual, e se não procedermos nessa ordem, estaremos começando pelo lado errado.

Observe:

(1) A maneira discreta e decente como Cristo introduz essa conversa (v. 16): “Vai, chama o teu marido e vem cá”. Neste momento:

[1] A ordem que Cristo deu a ela tinha uma intenção muito boa: “Chama teu marido, para que ele possa lhe ensinar, e ajudar-lhe a entender essas coisas que você ignora”. As mulheres que querem aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14.35), que devem “coabitar com elas com entendimento”, 1 Pedro 3.7. “Chama teu marido, para que ele possa aprender contigo, para que então ambos possam juntos ser os herdeiros da graça da vida. Chama teu marido, para que ele possa ser testemunha do que se passa entre nós”. Desse modo, Cristo nos ensina a buscar coisas honestas à vista de todos os homens, e ter como objetivo aquilo que for de boa reputação.

[2] Como isso tinha uma boa intenção, tinha também um bom propósito, pois Ele aproveitaria a ocasião para trazer o pecado dela à lembrança. É preciso habilidade e prudência ao repreender. Deve-se planejar, como a mulher de Tecoa, 2 Samuel 14.20.

(2) Com que persistência a mulher busca evitar a condenação, e mesmo assim sem perceber se condena, e, antes que esteja ciente, reconhece seu erro. Ela disse: “Não tenho marido”. Sua declaração sugeria apenas que ela não se importava mais que se falasse de seu marido, nem que esse assunto fosse mencionado. Ela não faria seu marido ir até lá para que a verdade sobre o assunto não viesse à tona para sua vergonha em conversas adicionais: “Por favor, fale de qualquer outra coisa, pois eu não tenho marido”. Seria de se pensar que ela fosse uma serva ou uma viúva, apesar de que, embora não tivesse marido, ela não fosse nem uma coisa nem outra. O pensamento carnal é muito engenhoso e cuidadoso ao esconder o pecado, na tentativa de se afastar e se livrar das condenações.

(3) Com que rigor nosso Senhor Jesus faz a consciência dela entender a condenação. É provável que Ele tenha dito mais do que aquilo que está registrado aqui, porque ela percebeu que o Senhor lhe falara tudo o que ela já tinha feito (v. 29). Mas aquilo que está registrado aqui é relativo aos maridos daquela mulher. Aqui está:

[1] Uma narrativa surpreendente de uma conversa sobre o passado dela: “Tiveste cinco maridos”. Sem dúvida, não era por sua aflição (o sepultamento de tantos maridos), mas por seu pecado, que Cristo pretendia repreendê-la. Ou ela poderia ter fugido para se casar (como diz a lei), fugido de seus maridos e se casado com outros. Ou sua conduta irresponsável, ímpia e desleal os havia levado a se divorciar dela. Ou ainda, por meios indiretos, ela havia contrariado a lei, e se divorciado deles. Aqueles que não levam a sério práticas escandalosas como essas, e fingem que a culpa se extingue assim que a conversa se encerra, devem se lembrar de que todas as coisas estão registradas diante de Cristo.

[2] Uma severa repreensão à sua condição de vida atual: “O que agora tens não é teu marido”. Ou ela nunca havia se casado com ele de modo algum, ou ele tinha alguma outra esposa, ou, o que é mais provável, seu ex-marido ou maridos estavam vivos, de forma que, em resumo, ela vivia em adultério. Observe ainda a suavidade com que Cristo lhe fala sobre isso. Ele não a chama de prostituta, mas lhe diz: “O que agora tens não é teu marido”, e então deixa para sua própria consciência dizer o resto. Note que as repreensões são geralmente mais proveitosas quando são menos ofensivas.

[3] Ainda assim, o Senhor Jesus traz uma interpretação melhor do que aquela que ela poderia trazer. A colocação do Senhor elimina as evasivas e os subterfúgios: “Disseste bem: Não tenho marido”. E outra vez: “Isso disseste com verdade”. O que ela pretendeu que fosse a negação de um fato (que ela não considerou como marido a nenhum homem com quem no caso da lei de Moisés, mas a vontade de Deus é que os homens orem em todo lugar, 1 Timóteo 2.8; Malaquias 1.11. Nosso bom senso nos instrui a considerar a decência e a conveniência dos lugares onde adoramos, mas nossa religião não tem preferência por um lugar em relação ao outro, com respeito à santidade e aceitação por parte de Deus. Aqueles que preferem algum local de adoração somente por causa da casa ou construção na qual a adoração está sendo realizada (mesmo que seja tão magnífica e solenemente consagrada como era o templo de Salomão) se esquecem de que hoje o local onde se adora a Deus já não faz mais diferença. Não há mais uma diferença entre Jerusalém, que tinha sido tão conhecida pela sua santidade, e o monte de Samaria, que havia sido tão mal-afamado pela sua impiedade.

[2] Ele coloca ênfase sobre outras coisas, na questão da adoração religiosa. Ao dar tão pouca importância ao local de adoração, Ele não pretendia diminuir nossa preocupação sobre a questão em si, sobre a qual Ele então aproveita a oportunidade para discorrer mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, quanto ao estado de divergência daquela época, Ele decidiu contra a adoração dos samaritanos, e em favor da dos judeus, v 22. Ele diz aqui:

1. Que os samaritanos certamente estavam errados, não simplesmente porque adoravam nesse monte, embora a preferência por Jerusalém já estivesse em vigor, o que era pecaminoso, mas porque eles estavam errados quanto ao objeto de sua adoração. Se a adoração em si fosse como deveria ser, sua separação de Jerusalém poderia ter sido aceita, pois os melhores reinos tinham seus lugares altos: “Mas vós adorais o que não sabeis”, ou, “aquele que não conheceis”. Os judeus adoravam o Deus de Israel, o verdadeiro Deus (Esdras 4.2; 2 Reis 17.32), mas estavam mergulhados em completa ignorância. Eles o adoravam como o Deus daquela terra (2 Reis 17.27,33), como uma divindade local, como os deuses das nações. Porém, o Senhor Deus deveria ser servido como o único Deus, como o Senhor universal. Observe que a ignorância está muito longe de ser a mãe da devoção, sendo, antes, sua assassina. Aqueles que adoram a Deus na ignorância oferecem animais cegos para sacrifício, e este é o sacrifício de tolos.

2. Que os judeus certamente estavam corretos. Pois:

(1) ‘”Nós adoramos o que sabemos’. Nós caminhamos em terreno seguro em nossa adoração, pois nosso povo é discipulado e educado no conhecimento de Deus, conforme Ele se revelou nas Escrituras”. Note que aqueles que, através das Escrituras, obtiveram um certo conhecimento sobre Deus (embora não um conhecimento perfeito), podem adorá-lo tranquilamente e de maneira aceitável, porque eles sabem o que adoram. Cristo, em outra passagem, condena as distorções da adoração dos judeus (Mateus 15.9), e mesmo assim defende a adoração em si. A adoração pode ser verdadeira mesmo onde ela não é genuína e íntegra. Observe que nosso Senhor Jesus estava feliz em se incluir entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos”. Embora Ele fosse o Filho (logo, estão livres os filhos), mesmo assim Ele aprendeu a obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores entre os homens não pensem que a adoração a Deus seja algo inferior para eles, pois o próprio Filho de Deus não agiu deste modo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

LADOS DE METADES INTEIRAS

O amor pressupõe um eu dividido em partes que se opõem. Essa é a lição de O Visconde Partido ao Meio, uma fábula de Ítalo Calvino que explora o fantástico.

Lados de metades inteiras

Amar o outro faz-nos perceber nossa incompletude. Ao notarmos em nós mesmos dois lados como inimigos irreconciliáveis, sentimos a luta entre eles e também a dor de se ferirem para unirem-se em um todo chamado indivíduo. É dessa forma que obtemos o verdadeiro ato de amar a si e ao outro. Assim nos ensina o livro O Visconde Partido ao Meio de Ítalo Calvino.

O visconde Medardo, no intuito de agradar alguns duques, vai à guerra e é atingido por um tiro de canhão que o divide ao meio. Retorna à sua cidade terra metade do visconde que se revela muito cruel. Quando os habitantes da cidade já estavam desanimados e amargurados, eis que aparece a outra metade como um visconde absolutamente bom. Até que os habitantes percebem que maldades e virtudes igualavam-se na desumanidade, pois pessoas cheias de boas intenções podem ser chatas e terríveis. Por amor a Pamela, essas duas bandas do visconde entram num duelo e se ferem mortalmente. Para salvá-las, o dr. Trelawney costura uma metade na outra e faz das duas partes um único visconde. Nas palavras do autor, “o homem mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo, precisou do amor para tornar-se inteiro”.

Sentir-se pela metade é bem próprio da juventude quando se permite deixar a força natural do desenvolvimento empurrá-la em direção à totalidade, um lugar a que nunca se chega. Em nosso amadurecimento, o sentir-se incompleto deverá continuar para que nos faça sentir que ainda há vida a ser vivida.

Vivemos lidando com a ideia do aceitável e do não aceitável em nossa convivência com aqueles que nos arrodeiam e com os que podem nos dar ou não amor. Escondemos na sombra o comportamento ou ideia que nos pareça fazer perder esse amor e exibimos o que achamos que irá impressionar o outro na ilusão de ser amado. Chega o momento em que nos sentimos divididos e percebemos que parte de nós é desejo e outra parte é renúncia.

Muitas são as feridas que experimentamos em nome da boa educação dos nossos pais e são essas feridas primais que nos atrapalham em fazer parte dessa unidade universal que chamamos natureza. Algumas fazem-nos perder parte de si e, como se estivéssemos atados a um fio invisível, guiamo-nos por ele nessa busca do que possa nos completar. Ao encontrarmos o que estava perdido, unimo-nos pela paixão para depois sentirmos tão opostas as nossas idealizações que precisamos sofrer para nos darmos conta do quanto o ideal é inimigo do real.

Metade de nós revela virtude, outra metade mostra maldade, mas, para além dessas metades, existimos. Precisamos sair dessa ignorância de nos sentirmos inteiros. Inteiros por pensarmos que somos só virtuosos ou então apenas destrutivos até que os sintomas apareçam para denunciar a inconsciência dessa unilateralidade.

Ensina a Psicologia de C. G. Jung que todas as vezes em que o homem se encontra em um de seus extremos, sua outra parte o avisa em sonhos. Um homem vivendo sua unilateralidade como o bem absoluto ou o mal absoluto é alguém que prejudica os demais e a si próprio com a sua incompletude. Quando conseguimos alertá-lo desses lados opostos e irreconciliáveis, precisamos de um ego forte para suportar a tensão até que transcenda para uma terceira condição completamente nova. Essa terceira condição é diferente de cada uma das duas outras originais, mas também contém, de algum modo, aquelas mesmas partes opostas entre si.

Quando metade de nós mesmos não consegue amar, e essa condição pertence a outra metade à qual não conseguimos estar unidos, o objeto do nosso amor poderá nos fazer sentir confusão já que não estamos inteiros nesse ato. Uma metade luta com a outra, e apenas quando se ferem é que se torna possível, mediante tratamento, transcender esses opostos incompatíveis para tornarem-se unos e dignos dessa união. Descobrimos que nossa parte perdida estava projetada nos outros e era tracionada pela angústia da incompletude. Dessa forma, o papel do analista é costurar e unir o que antes existia separadamente.

Sofremos com o drama de nos sentirmos inacabados. Sempre estamos por nos completar com alguma busca que muitas vezes aparece na forma de objetos ou atitudes irracionais, diagnosticados como angústias existenciais. É o sofrimento da alma do homem sempre a buscar se completar com afazeres e atividades lúdicas, ou mesmo vícios, expressões imaginais do que o completa.

Por outro lado, aqueles que se sentem completos talvez não sintam mais a necessidade de viver para buscar o que lhes falta. A nossa parte boa e a parte mesquinha nunca conseguem fazer ao outro algo virtuoso, porém a luta entre esses dois lados é a esperança da inteireza. Somente o homem consciente de sua incompletude e em busca de se harmonizar com a natureza que o acolhe, e que ele chama de Deus, é que poderá tornar-se um indivíduo.

Para aqueles que enxergaram a disputa de Hillary Clinton e Donald Trump como o discurso de um lado bom e civilizado contra um lado mau e primitivo, eu convido-os a refletirem sobre o que existe de certeza no que vai ser e o quanto em nós mesmos aparecem esses dois lados disfarçados em sintomas ou modos de vida inapropriados à evolução do ser.

 Lados de metades inteiras2

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br www.ijba.com.br

OUTROS OLHARES

VINGANÇA E PORNOGRAFIA ON-LINE

Os modelos de expressão da sexualidade sofreram alterações significativas ao longo das últimas décadas, principalmente no que se refere ao conceito de “explícito”.

Vingança e pornografia on-line

Tempos atrás seria impensável termos revistas, websites, filmes, livros e debates acalorados sobre sexo e suas vertentes. Essa é uma conquista de muitos anos de lutas, dores e de diversas causas, desde a igualdade entre homens e mulheres até a libertação sexual. Porém, como todas as mudanças, essa também está inserida, no século XXI, no campo da tecnologia e, como esperado, algumas características negativas surgiram.

Um tema que passou a ter maior visibilidade na ciberpsicologia, que relaciona a sexualidade negativamente ao uso de aparelhos eletrônicos, é o chamado revenge porn, que pode ser compreendido como o ato de utilizar fotos íntimas como um recurso para realizar chantagens ou punições, com o conhecimento ou não do outro. Um exemplo comum é um relacionamento entre jovens em que, após a ruptura, o parceiro ou parceira ameaça divulgar fotos eróticas do outro na internet caso a relação de fato seja finalizada. Esse tipo de comportamento está atrelado a diversos danos emocionais a quem sofre essa retaliação, desde sintomatologia condizente com transtorno depressivo maior até casos de suicídio. Dessa forma, de maneira diretiva, comento alguns tópicos que podem ajudar no cuidado para que esse tipo de experiência não ocorra com você, leitor(a), ou com pacientes que narram essa demanda.

O primeiro ponto: verifique seus pensamentos de permissão. Comumente os pacientes   mencionam que enviar fotos íntimas para o(a) parceiro (a) não irá gerar consequências, o que é um engano em vários casos. Na verdade, existem diversos tipos de problemáticas relacionadas a esse comportamento, como o risco de invasão de hackers que possam utilizar essas fotos para fins negativos, assaltos (permitir ao infrator ter acesso ao banco de dados do celular), enviar de forma incorreta fotos para grupos de WhatsApp (casos de vídeos e fotos que caem em grupos da família desse aplicativo não são raros) e,  por fim, o revenge porn. Os pensamentos de ponderação plausíveis seriam: “isso também pode acontecer comigo”, “não é seguro enviar fotos, mesmo em aplicativos em que as fotos são dissolvidas após alguns segundos” (ex.: Snap), “a intimidade do casal pode ser preservada de outras formas” e “enviar fotos eróticas não é necessariamente prova de amor”. Esse último é um relato constante em consultório, principalmente pelas mulheres. Em vários momentos ouço que é prova de amor enviar esse tipo de fotos para o parceiro. Outras mencionam que se sentiam pressionadas a isso. Por fim, já me foi narrado um evento em que a paciente necessitou enviar fotos íntimas para o parceiro, quando este estava viajando, para que ele não a traísse.

Segundo tópico é a objetificação: ainda existe uma cultura (doentia) predominante de que as mulheres são vistas como objeto e o envio de fotos permite que diversos parceiros (as) as utilizem como troféus, mostrando-as para terceiros (esses relatos costumam ser feitos por pacientes do sexo masculino). Combatendo esse ponto, perspectivas do campo da Psicologia demonstram que enviar fotos íntimas pode estar relacionado a diversos problemas psicológicos, dentre eles prejuízos significativos na autoestima, dificuldades sexuais, transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade. Um tópico secundário à objetificação é o julgamento: a mulher comumente é relatada como a culpada. Em relação a esse terceiro aspecto, é verificado que, infelizmente, ainda existe um abismo para que esse tipo de avaliação machista seja modificado, porém, em diversos veículos de comunicação e nos relatos de pacientes em consultório, existe uma sincronia nessa informação: a mulher foi quem errou em enviar as fotos, o homem não.

Aspectos legais: um site intitulado endrevengeporn.org tem como proposta gerar campanhas para a criminalização do revenge porn, que é considerado um tipo de abuso sexual.

No campo da legislação ainda existem lacunas sobre a punição de quem tem esse tipo de conduta, as leis banindo essa prática ainda estão sendo discutidas, e os fatores que contribuem são diversos, desde a dificuldade de compreender o assunto como a minimização dos danos do revenge porn. Apesar de ser um tema ainda emergente, mas que, como dito, já entrou no campo da discussão da Psicologia, é inegável verificar os inúmeros impactos que ele traz à vítima. A principal estratégia, até então, é a prevenção. As atuais configurações nos relacionamentos, a ascensão da cibercultura e a liberação da sexualidade são realidades, porém toda essa alteração social deve e pode ser vivenciada com poucos riscos à integridade emocional dos envolvidos. Como psicoterapeuta, meu posicionamento é de não estimular o envio de fotos íntimas, mesmo que estejamos suscetíveis a isso.

 

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo- comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com                           

GESTÃO E CARREIRA

FOCO NAS TAREFAS

Rotular-se um (a) “desorganizado(a)” não ajuda. O indivíduo deve ser realista ao avaliar suas possibilidades e o grau de dificuldade de seus afazeres.

Foco nas tarefas

Atualmente, em nossa sociedade, são inúmeras as pressões e demandas nos mais diferentes contextos: escola, família, trabalho etc. A troca de informações e o acesso a elas acontecem de modo cada vez mais dinâmico. Diante dessa configuração, tem-se um mercado de trabalho cada vez mais exigente e restrito. Dos profissionais, espera-se competência, precisão, eficiência; estas relacionadas à otimização do trabalho. Mas há uma progressão na qualidade e complexidade de tarefas requisitadas. Como cumpri-las, então, em prazos cada vez menores? Em alguns contextos e situações é inevitável falar de prioridades, mas como elegê-las, quando tudo parece importante e imprescindível de ser realizado?

A eleição de ordens de prioridade facilita a administração do tempo, questão relevante àqueles profissionais que desempenham ou que pretendem assumir papel de líder ou gestor e têm de lidar com grupos de pessoas. Para administrar a agenda, inicialmente, é importante adquirir o máximo de informações e esclarecimentos acerca das especificidades das tarefas, quais os pré-requisitos necessários à sua realização, até mesmo para distinguir entre elementos que são mais prioritários. Fazendo uma analogia ao contexto da saúde, algumas atividades que assumem o caráter de “emergência” têm prioridade número1. Outras se enquadram no nível2 da escala de prioridades de execução caráter “urgente”. Há ainda, um outro rol de tarefas que são parte da rotina diária, as quais, portanto, precisam ser executadas regularmente.

Vale lembrar que, no ambiente de trabalho, modos diferentes na condução de múltiplas tarefas, principalmente sob adversidades, favorecem o aprimoramento de habilidades que envolvam tomada de decisão, rapidez e agilidade, autocontrole, divisão e delegação de tarefas, mesmo sob condições de pressão, estresse e ansiedade. Características importantes diante de um mundo cada vez mais competitivo que enfatiza estas habilidades.

Sob uma outra ótica, há situações em que o “excesso” de tarefas não é o principal entrave à conclusão de algumas atividades. Porém, um furor muito presente seria o adiamento dessas tarefas para contextos mais favoráveis, com pouca pressão ou menor frequência de compromissos concorrentes. Mesmo sob condições mais favoráveis, não há garantias de cumprimento rápido e de qualidade de algumas tarefas. Em contextos escolares e acadêmicos, por exemplo, essa questão se torna mais visível. Observa-se um constante adiamento de algumas tarefas ou mesmo interrupções.

 PARA AMANHÃ

Pesquisas clínicas em análise do comportamento investigam a interferência da procrastinação ou adiamento de tarefas sobre a tomada de decisões e resolução de problemas em diversas áreas e aspectos da vida da pessoa, tais como trabalho, casamento, amor e família. O adiamento é ocasião para sentimentos de desmotivação, ansiedade e angústia. Gera regras e suposições, por vezes incompatíveis, de que a tarefa possa ser mais difícil do que realmente é.

Algumas variáveis relacionam-se ao adiamento; por exemplo, quanto mais prazerosa a atividade, maior a chance de conclusão e não adiamento. Entretanto, nem sempre estaremos lidando com tarefas agradáveis a serem cumpridas.

Nesse sentido, o adiamento é reforçado na medida em que o indivíduo investe em outras atividades concorrentes mais prazerosas e imediatas, por exemplo, assistir televisão, dormir, brincar etc. (elementos dispersares), protelando no engajamento das atividades necessárias. Em outras palavras o indivíduo tende a ficar sob controle das consequências em curto prazo.

Como forma de esquivar-se da execução da tarefa, o tempo é, muitas vezes, “superdimensionado” pela pessoa que supõe a viabilidade de concretização em tempo hábil, adiando o início da tarefa. No adiamento, sentimentos como alívio, liberdade e prazer podem estar presentes; após adiamento, angústia, inquietação, sensação de falta de tempo para completar a tarefa adiada e outras novas que vão surgindo concomitantemente.

Na execução da tarefa adiada, pode haver mais sentimento de alívio que de prazer, além de desconforto pelo tempo “insuficiente” e prejuízo na qualidade do trabalho. Após a conclusão: sensação de que poderia ter feito melhor, se houvesse mais tempo. Algumas variáveis que contribuem para o adiamento: medo de fracassar, baixa tolerância à frustração, dificuldade em lidar com tarefas desagradáveis. O que a tarefa demanda ou exige em termos de outros elementos ou comportamentos para se chegar à resposta ou resultado finais? Quais os níveis de dificuldade?

Em atividades escolares, por exemplo, às vezes o mais difícil é começar. Ao iniciar uma tarefa há o contato com as facilidades, mas também com as dificuldades, o que aumenta a probabilidade de interrupção.

Embora difícil, exercitar o “começar” uma tarefa também pode aumentar a probabilidade de manutenção do foco nesta atividade. Nesse caso, a função seria entrar em contato com o assunto, e com sentimentos de interesse, motivação e prazer pela execução de tarefa, o que possibilita o envolvimento com esta, e aumenta o engajamento em outras ações necessárias ao seu cumprimento, tais como, pesquisa, organização das ideias e construção do texto.

Mesmo parecendo comuns, algumas estratégias auxiliam na execução de tarefas como organização, agendamento, estabelecimento de metas a curto, médio e longo prazo e o enfrentamento, propriamente dito, da tarefa, que significa fazer ou, pelo menos, começar a fazer, para despertar concepções mais realistas em torno desta, como facilidades e dificuldades, e tomada de atitudes necessárias a este empreendimento.

Logo, a atribuição a características pessoais (p.ex. “sou desorganizado”, “desleixado”, “sem vontade”, “não consigo me concentrar”) como causa da procrastinação ou adiamento, não ajuda na mudança de comportamentos. Faz-se necessária uma análise mais cuidadosa e específica acerca das interações do indivíduo com seus ambientes ­ físico e social, que auxiliem na compreensão de elementos que dificultam a atenção e o foco em suas atividades, assim como na promoção de hábitos mais saudáveis ao indivíduo.

 

ALINE CARDOSO ROCHA – é psicóloga do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, psicóloga clínica e especialista em Psicologia Hospitalar. E-mail: alinecrocha@yahoo.com.br.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE II

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

II – Sua conversa com urna mulher samaritana é aqui detalhadamente registrada, enquanto sua discussão com os doutores, e sua conversa com Moisés e Elias no monte, estão sepultadas no silêncio. Essa conversa pode ser reduzida a quatro tópicos:

1. A discussão a respeito da água, vv. 7-15.

(1) São informadas as circunstâncias que deram origem a essa conversa.

[1] Então veio uma mulher de Samaria para tirar água. Isso demonstra sua pobreza, ela não tinha nenhum criado para tirar a água, e ela mesma deveria fazer seu esforço. Veja aqui, em primeiro lugar, corno Deus reconhece e aprova a diligência humilde e honesta em nosso trabalho. Cristo tornou-se conhecido dos pastores quando estes estavam cuidando de seu rebanho. Em segundo lugar, como a Providência viabiliza propósitos gloriosos através de acontecimentos que para nós parecem fortuitos e acidentais. O encontro dessa mulher com o Senhor Jesus Cristo no poço pode nos fazer lembrar das histórias de Rebeca, de Raquel, e da filha de Jetro, que encontraram homens de Deus, bons maridos, nenhum pior do que Isaque, Jacó e Moisés, quando vieram ao poço em busca de água. Em terceiro lugar, como a graça preventiva de Deus, algumas vezes, leva as pessoas inesperadamente aos caminhos da conversão e da salvação. Muitas vezes, Ele é achado por aqueles que não o buscam.

[2] “Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida”. Daqui, podemos tirar uma lição, em primeiro lugar, de justiça e honestidade. Cristo comprava e pagava pela comida que comia, como Paulo, 2 Tessalonicenses 3.8. Em segundo lugar, da nossa dependência diária da Providência: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã”. Cristo não foi à cidade para comer, mas enviou seus discípulos para buscarem seu alimento. Não porque Ele receava comer em uma cidade samaritana, mas:

1. Porque Ele tinha uma boa obra a realizar junto àquela fonte, que devia ser feita enquanto eles estavam cuidando das provisões. É sábio preencher nossos minutos de inatividade com aquilo que é bom, para que os fragmentos de tempo possam ser aproveitados. Pedro, enquanto o jantar estava sendo preparado, teve um arrebatamento, Atos 10.10.

2. Porque era mais privativo e afastado, mais barato e simples, que sua refeição lhe fosse trazida do que ir à cidade para comer. Talvez sua bolsa tivesse pouco dinheiro, e Ele nos ensinou a economizar, gastar de acordo com o que temos, e não além disso. Pelo menos, Ele nos ensinou a não nos influenciarmos pelas coisas grandes. Cristo podia comer seu jantar tanto junto à uma fonte como na melhor hospedaria da cidade. Devemos nos comportar de acordo com nossas circunstâncias. Sendo assim, isso proporcionou a Cristo uma oportunidade de conversar com essa mulher samaritana sobre assuntos espirituais, e Ele a aproveitou. Ele frequentemente pregava para multidões que se aglomeravam diante dele para receber ensinamentos. Mas, apesar disso, aqui o Senhor Jesus se digna a ensinar uma única pessoa, uma mulher, uma mulher pobre, uma estranha, uma samaritana, para ensinar seus ministros a fazer o mesmo, como aqueles que sabem que obra gloriosa é ajudar a salvar alguém da morte, ainda que seja apenas uma alma.

(2) Observemos as particularidades desta discussão.

[1] Jesus começa com um humilde pedido por um pouco de água: “Dá-me de beber”. Aquele que por nossa causa se fez pobre, aqui se torna um pedinte, para que aqueles que estão em dificuldades, e não conseguem trabalhar, não tenham vergonha de pedir. Cristo pediu, não apenas porque Ele precisava, e necessitava da ajuda dela para alcançá-la, mas porque se valeria disso para facilitar uma conversa com a mulher, e nos ensinar a estar dispostos a agradecer pelo pouco, quando isso acontecer. Cristo continua pedindo através de seus pobres, e um copo de água fresca, como esta aqui, dado a estes em seu nome, não ficará sem sua recompensa.

[2] Embora a mulher não tenha recusado o pedido, ela discutiu com Jesus porque Ele não se comportou de acordo com o temperamento de sua própria nação (v. 9): “Como?” Observe, em primeiro lugar, que havia uma hostilidade mortal entre os judeus e os samaritanos: “Os judeus não se comunicam com os samaritanos”. Os samaritanos eram os adversários de Judá (Esdras 4.1), e prejudiciais a eles em qualquer situação. Os judeus eram extremamente mal-intencionados contra os samaritanos, “olhavam para eles como se eles não tivessem nenhuma participação na ressurreição, excomungavam-nos e amaldiçoavam-nos pelo nome santo de Deus, pela gloriosa Escritura das tábuas da lei, e pela imprecação do alto e do baixo Sinédrio, com a seguinte lei: Que nenhum israelita coma qualquer coisa que seja de um samaritano, pois é como se ele comesse carne de porco”. Observe que as disputas por causa de religião são geralmente as mais implacáveis. Os homens foram feitos para ter relacionamentos uns com os outros, mas, se devido ao fato de um orar em um templo, e outro em outro, eles negarem os deveres da humanidade, caridade e civilidade geral, serão intragáveis, anormais, insolentes e críticos, e isso a pretexto de zelo pela religião. Estes mostram claramente que, por mais que sua religião possa ser verdadeira, eles não são verdadeiramente religiosos, mas, a pretexto de lutar pela religião, subvertem o objetivo dela. Em segundo lugar, como a mulher estava pronta para reclamar sobre a arrogância e a natureza doentia da nação judaica: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim”. Através das vestes ou do dialeto, ou de ambos, ela sabia que Jesus era um judeu, e acha estranho que Ele não cometesse os mesmos excessos de revolta contra os samaritanos que os outros judeus. Observe que homens comedidos de todos os lados, como Josué e seus companheiros (Zacarias 3.8), são homens dignos de se admirar. Essa mulher deseja saber duas coisas:

1. Por que Ele havia pedido essa gentileza, pois o orgulho dos judeus faria com que suportassem qualquer sofrimento para não ficarem em débito com um samaritano. Era parte da humilhação de Cristo que Ele nascesse na nação judaica, que agora estava não apenas em uma condição difícil, sujeita aos romanos, mas com uma reputação ruim entre as nações. Com que desdém Pilatos perguntou: “Porventura, sou eu judeu?” Dessa forma, ele se tornou alguém não apenas sem reputação, mas de má reputação. Porém, nisso, o Senhor nos deu um exemplo importante de que devemos nadar contra a corrente das imoralidades triviais. Nós devemos, como nosso Mestre, mostrar bondade e amabilidade, ainda que seja muito típico do caráter da nossa região, ou do temperamento do nosso povo, sermos rabugentos e mal-humorados. Essa mulher esperava que Cristo fosse como os outros judeus, porém é injusto culpar igualmente todos os indivíduos pelos defeitos típicos de toda a comunidade. Não há regra que não tenha exceções.

2. Ela gostaria de saber por que Ele esperava receber essa gentileza de uma samaritana: “Vós, judeus, podeis negá-la a alguém de nossa nação, e porque deveríamos concedê-la a alguém da vossa?” As disputas são disseminadas incessantemente por vingança e retaliação.

[3] Cristo aproveita essa ocasião para instruí-la sobre as coisas divinas: “Se tu conheceras o dom de Deus… tu lhe pedirias”, v. 10. Observe que:

Em primeiro lugar, Ele evita a objeção da mulher, devido à hostilidade entre judeus e samaritanos, e não a leva em consideração. Algumas divergências são melhor resolvidas ao serem ignoradas, e ao se evitar todas as oportunidades de se discutir sobre elas. Cristo converterá essa mulher, não por lhe mostrar que a adoração samaritana era separatista (embora ela realmente o fosse), mas mostrando a falta de conhecimento e imoralidade na vida dela, e a necessidade que ela tinha do Salvador.

Em segundo lugar, Ele fornece a ela um entendimento para que ela tivesse agora uma oportunidade (uma oportunidade mais justa do que ela podia perceber) de conquistar algo que seria um indescritível benefício para ela. Ela, ao contrário dos judeus, não tinha meios de compreender os sinais dos tempos, e por essa razão Cristo lhe diz expressamente que ela estava, agora, na época da graça. Esse era o dia da sua visitação.

1. Ele sugere o que ela deveria saber, mas ignorava: “Se tu conheceras o dom de Deus”, isto é, como as palavras seguintes explicam: “Quem é o que te diz: Dá-me de beber”. “Se tu soubesses quem eu sou”. Ela o via como sendo um judeu, um pobre viajante cansado, mas Ele a faria saber algo mais a respeito dele do que aquilo que aparentava. Observe que:

(a) Jesus Cristo é o “dom de Deus”, o símbolo mais precioso do amor de Deus para conosco, e o tesouro mais rico de todo o bem para nós; uma dádiva, não uma dívida que poderíamos cobrar de Deus; não um empréstimo, que Ele cobrará de nós, mas uma dádiva, um dom gratuito, cap. 3.16.

(b) É um indescritível privilégio ter essa dádiva de Deus proposta e oferecida a nós, e ter uma oportunidade de aceitá-la: ”Aquele que é a dádiva de Deus está agora sentado diante de ti, e fala contigo. É Ele quem te diz: Dá-me de beber. Esta dádiva aparece para ti, na forma de alguém que está te pedindo algo”.

(c) Embora Cristo esteja diante de nós, e nos peça algo em seu Evangelho, e através deste, ainda existem multidões que não o conhecem. Estas pessoas não sabem quem é que fala com elas no Evangelho, que diz: “Dá-me de beber”. Elas não percebem que é o Senhor que as chama.

2. Ele tem uma expectativa no que diz respeito a ela, do que ela teria feito se soubesse quem Ele era. Ele tinha a certeza de que ela não lhe daria uma resposta rude e mal-educada. Pelo contrário, ela estava tão longe de afrontá-lo, que se dirigiria ao Senhor de uma forma amável: “Tu lhe pedirias”. Observe que:

(a) Aqueles que desejam ter qualquer benefício através de Cristo devem pedir, devem ser determinados em orar a Deus para receber tal benefício.

(b) Aqueles que têm um correto conhecimento de Cristo o buscarão, e se não o buscamos, este é um sinal de que não o conhecemos, Salmos 9.10.

(c) Cristo sabe o que aqueles que desejam os meios de conhecimento teriam feito se os tivessem, Mateus 11.21.

3. Ele declara à mulher o que teria feito por ela se ela tivesse recorrido a Ele: “E ele te daria [e não lhe teria censurado, como fazes a mim] água viva”. Esta água viva representa o Espírito Santo, que não é como a água no fundo do poço, um pouco da qual Jesus havia pedido, mas como água viva ou corrente, que é muito mais valiosa. Observe que:

(a) O Espírito da graça é uma água viva. Veja cap. 7.38. Sob essa semelhança, as bênçãos do Messias tinham sido prometidas no Antigo Testamento, Isaías 12.3; 35.7; 44.3; 55.1; Zacarias 14.8. As graças do Espírito, e seus confortos, satisfazem a alma sedenta, que conhece sua própria natureza e necessidade.

(b) Jesus Cristo pode dar e dará o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, àqueles que lhe pedirem, pois Ele recebeu esta autoridade de Deus, o Pai.

[4] A mulher opõe-se e contesta a benevolente insinuação que Cristo lhe faz (vv. 11,12): “Tu não tens com que a tirar”. E, por outro lado: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai”? O que Ele falou figurativamente, ela interpretou literalmente. Nicodemos fez o mesmo. Veja que noções confusas têm, das coisas espirituais, aqueles que estão totalmente absorvidos por aquilo que faz parte do mundo dos sentidos. Ao chamar Jesus de Senhor; ela lhe demonstra algum respeito, mas parece que ela demonstra pouco respeito pelo que Ele disse, pois, neste particular, fez apenas gracejos.

Em primeiro lugar, ela não o acha capaz de provê-la com nenhuma água, não, não essa do poço que está à mão: “Tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo”. Ela disse isso sem conhecer o poder de Cristo, pois aquele que faz os vapores subirem das extremidades da terra não precisa de nada para tirá-la. Mas existem aqueles que confiarão em Cristo até o limite em que puderem vê-lo, e não crerão em sua promessa, a menos que os meios de sua realização sejam visíveis. É como se ficássemos amarrados aos nossos métodos, e não pudéssemos tirar água sem nossos baldes. Ela pergunta com desdém: “‘Onde, pois, tens a água viva?’ Eu não vejo de onde possas tirá-la”. Note que as fontes daquela água viva que Cristo tem para aqueles que vêm a Ele são secretas e ocultas. A fonte da vida está oculta em Cristo. Cristo tem o suficiente para nós, embora não vejamos de onde Ele tira tamanhas bênçãos.

Em segundo lugar, ela não achava possível que Ele pudesse provê-la com qualquer água melhor do que aquela que ela podia conseguir, mas Ele não podia: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço?”

A. Nós presumimos que a tradição seja verdadeira, que o próprio Jacó, e seus filhos, e gado, realmente beberam daquele poço. E podemos perceber, a partir disso:

(a) O poder e a providência de Deus, na continuidade das fontes de água de geração a geração, pela circulação constante dos rios, assim como o sangue circula no corpo (Eclesiastes 1.7). Talvez o fluxo e refluxo do mar, como as pulsações do coração, contribua com este processo de circulação.

(b) A simplicidade do patriarca Jacó. Sua bebida era água, e ele e seus filhos bebiam do mesmo poço com seu gado.

B. Ainda que se admita que isso seja verdade, ela estava errada em várias coisas. Como:

(a) Em chamar Jacó de pai. Que autoridade tinham os samaritanos para se considerarem da semente de Jacó? Eles eram descendentes daquela mistura de gente que o rei da Assíria havia instalado nas cidades da Samaria. O que eles têm a ver com Jacó então? Por serem eles os invasores das propriedades de Israel, e os injustos possuidores das terras de Israel, seriam eles então os herdeiros do sangue e da glória de Israel? Como eram absurdas essas pretensões!

(b) Ela está errada em reivindicar esse poço como um presente de Jacó, considerando que, ao dá-lo, ele não fez mais do que Moisés ao dar o maná, cap. 6.32. Mas, desse modo, tendemos a chamar os mensageiros das dádivas de Deus de doadores, olhando também assim para as mãos através das quais elas são passadas, a ponto de nos esquecermos da mão da qual elas vieram. Jacó deu o poço a seus filhos, não aos samaritanos. Do mesmo modo, os inimigos da igreja não só usurpam, mas monopolizam os privilégios da igreja.

(c) Ela estava errada ao considerar o Senhor Jesus Cristo como alguém que não fosse digno de ser comparado com seu pai Jacó. Uma veneração excessiva pelos costumes antigos faz com que as dádivas de Deus sejam desprezadas pelas pessoas boas dos nossos dias.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

RESILIÊNCIA: ENTRE A EXPECTATIVA E A REALIDADE

Momentos difíceis, por piores que sejam, podem ser encarados por meio de inúmeras reações e maneiras de enfrentamento, com o objetivo de retomar o autodesenvolvimento a partir de novos aprendizados.

Resiliência - entre a xpectativa e a realidade

Ao longo da vida, muitas pessoas passam por situações que são consideradas adversas, como perda de entes queridos, adoecimentos, conflitos com pessoas que amamos, desemprego ou até a violência, seja ela psicológica ou física. Quando observamos os indivíduos nos momentos difíceis de suas vidas, é possível perceber que as reações e formas de enfrentamento são diversas, pois há os que conseguem retomar o autodesenvolvimento, a partir de novos aprendizados, e aqueles que não conseguem seguir adiante sem arrastar as correntes que os mantêm presos aos fantasmas de um passado que só traz dor e pesar. Esse mecanismo de enfrentamento das adversidades é o que se chama de resiliência.

A resiliência é um termo originado da Física e da Engenharia, que se refere à capacidade que um corpo apresenta de retornar à sua forma original após ter sido submetido a uma deformação elástica. Quando a Psicologia passou a empregar esse termo, ela o adaptou dizendo que a resiliência é a capacidade de uma pessoa desenvolver-se a partir da ressignificação de uma adversidade, ou seja, ela não voltaria ao estado original, mas minimizaria os danos causados pelo fato traumático.

Esse termo, ao ser interpretado e julgado pelo senso comum, passa a significar que se a pessoa não esquecer completamente os fatos ruins que aconteceram em sua vida, e passar a viver como se tudo fosse apenas aprendizado e a extrair somente as coisas positivas daquela experiência, ela não é resiliente e, provavelmente, está sofrendo porque não está se esforçando o suficiente para melhorar sua vida. Quem nunca ouviu esse tipo de cobrança? Todos, obviamente.

EXPERIÊNCIA PESSOAL

Aos 19 anos eu fui vítima de violência urbana, fui baleada durante um assalto, e esse fato me trouxe sequelas físicas, emocionais e psicológicas que viraram meu mundo de cabeça para baixo. Eu não sabia lidar com nenhuma daquelas emoções e sentimentos intensos que experimentava, tampouco conseguia organizar minhas ideias. Então, no auge do desespero, busquei o apoio das pessoas do meu convívio, tentando conversar com elas para dividir um pouco aquele peso que eu carregava, na esperança de que alguém me dissesse o que fazer com aquilo tudo. Sabia que ninguém resolveria os meus conflitos internos, queria apenas perceber empatia em quem me ouvia, saber que me entendiam, mas isso não aconteceu. Todas as vezes em que tentava contar o que ia dentro de mim, eu escutava que deveria esquecer tudo aquilo, que tinha que ser forte e não deveria me deixar abater, afinal tudo já havia passado e que agora era “bola pra frente”. Disseram-me também que ficar falando naquele assunto ou lembrando não ia me ajudar, pois o importante era que eu estava viva e que eu deveria agradecer a Deus e parar de me lamentar, já que muitas pessoas não tinham a mesma sorte que eu.

Aqueles conselhos, vindos de tantas pessoas, me fizeram questionar se eu não estava dando importância demais para um fato tão banal, pois, como parecia que só eu estava sofrendo com aquilo, realmente poderia ser besteira. Afinal, não tinha acontecido nada demais, eu só tinha levado um tiro em um assalto e ficado com sequelas. Isso acontece com milhares de pessoas por aí e o tempo todo, então, deve ser normal.

Eu me esforcei para pensar assim e seguir os conselhos que me eram dados, mas percebi que pensar dessa maneira era muito fácil na teoria, mas, na prática, superar e agir como se tudo fosse muito normal e estivesse tudo bem não eram nada fácil.

Mesmo concluindo isso, a exigência de estar sempre bem ainda me perseguia. Eu me esforçava para mostrar ao mundo que havia superado tudo e sempre que tocavam no assunto eu até fazia piadas. Isso era o que esperavam de mim, já que além de forte eu era estudante de Psicologia e, por isso, não tinha o direito de me deprimir ou de sentir raiva, pois que tipo de psicóloga eu seria se não superasse tudo com maestria?

Resiliencia - entre a espectativa e a realidade.3

SIGNIFICADO DE SUPERAÇÃO

Na frente das pessoas, eu tentava corresponder a todas as expectativas, mas quando eu estava só comigo mesma percebia que a realidade não era igual. Mesmo assim, mentia para mim e escondia toda a minha dor, toda a minha confusão emocional, já que era menos difícil quando não tinha que olhar para elas. Afinal, como me diziam, eu era forte e isso significava que não podia lembrar ou me lamentar. Passei longos anos da minha vida agindo como queriam que eu fizesse, mas isso não funcionou, e a cada dia que passava eu estava mais mergulhada no inferno que habitava dentro de mim. E sem perceber passei apenas a existir, pois eu não vivia mais.

Até que um dia, no auge da solidão e do desespero de um caminhar sem rumo, eu olhei para mim, apática como um robô, e me perguntei o que eu estava fazendo comigo. Por que eu criticava tanto as pessoas que não me ajudavam se estava agindo como elas? Perguntei­ me o que eu estava fazendo para me ajudar e estarrecida percebi que não estava fazendo nada.

Aquele diálogo comigo mesma, de alguma forma, me ajudou a despertar. Então, a partir dali, eu prometi que não me abandonaria mais e que de algum jeito tudo ficaria bem novamente.

O primeiro e mais importante passo foi admitir que eu não estava bem, que precisava de ajuda profissional e que a minha dor não era banal como os otimistas de plantão sempre me fizeram acreditar. Então, comecei a fazer terapia e a me consultar com um psiquiatra. Claro que ouvi de muitas pessoas que eu não devia tomar o remédio que me foi prescrito, pois era para gente louca e eu não era assim. No início eu não contei para ninguém que estava fazendo o tratamento, pois sabia que as pessoas diriam que eu não era resiliente, e eu não queria perder essa imagem perante todos. Mas, com o passar do tempo, passei a não me importar com a opinião alheia. O processo de terapia foi muito importante, mas foi durante as formações de coaching que eu pude ressignificar o impacto que aquelas adversidades tiveram sobre mim, talvez porque naquele momento eu realmente estivesse disposta a olhar para dentro e encarar tudo o que eu estava escondendo. Além disso, durante a formação havia diversas pessoas passando por processos de autodescoberta e ressignificação, e ali tudo o que eu sentia não era banal. Talvez isso tenha me encorajado a me abrir. Durante aquele curso, quando a opinião dos outros sobre a minha saúde emocional e psicológica passou a não ter tanta importância, comecei a pensar em como havia me negligenciado para me sentir “normal” e, consequentemente, a me perguntar: Quem determinou que eu não posso ter raiva depois de ser baleada em um assalto? Quem disse que eu não posso ter medo ao sair na rua? Por que chorar é sinal de fraqueza? Por que as pessoas sempre dizem frases prontas de um otimismo que talvez nem elas sintam, como “veja o lado positivo”, “não fica assim” ou “pare de chorar e esqueça isso”? Por que não posso chorar até não ter mais vontade? Ou, ainda, quem determinou que só é resiliente aquele que não se deixa abater? Afinal, nunca li uma definição de resiliência que dissesse tratar -se de um rótulo para pessoas com capacidade de esquecimento e de embotamento afetivo.

Então, tomei uma decisão importante. Decidi aceitar que eu não estava bem, que as feridas causadas naquele episódio da minha vida ainda sangravam e que, por isso, eu poderia chorar o quanto quisesse, poderia sentir raiva, querer ficar sozinha por alguns instantes e me poupar de pessoas que, mesmo sem saber ou ter a intenção, banalizavam o meu sofrimento com o seu discurso. Tal como um mochileiro, que após uma longa caminhada precisa tirar a mochila das costas e descansar um pouco para depois ter energia para prosseguir, eu passei a fazer igual, e funcionou para mim.

Quando eu finalmente aceitei minhas limitações e tive a coragem de sentar lado a lado com meus fantasmas, olhar para eles para conhecê-los melhor e entender que fazem parte de mim e da minha história, uma vez que somos seres completos formados por luzes e sombras, eu me permiti aprender com todas as adversidades e me desenvolvi a partir delas. Depois do lançamento do meu livro, O Grito que Ninguém Ouviu, onde conto sobre a minha história com riqueza de detalhes, muitas pessoas me perguntam se eu superei tudo o que aconteceu comigo, e a minha resposta é que depende do que ela entende por superação. Se superação significar ter esquecido completamente, não sentir mais nada sobre esse episódio e viver como se nada tivesse acontecido, eu afirmo que não superei. Mas, se para você superação tiver o mesmo significado que tem para mim, que é se permitir sentir raiva ou tristeza e lembrar os fatos que causaram dor quando achar necessário, mas continuar aprendendo e vivendo sem deixar que os fantasmas a impeçam de crescer e seguir em frente, sim, eu superei.

Resiliencia - entre a espectativa e a realidade.2

COACHING

O termo coaching indica uma atividade de formação pessoal em que um instrutor (coach) ajuda o seu cliente (coachee) a evoluir em alguma área da sua vida. Pode ser definido com uma soma de recursos que usa técnicas, ferramentas e conhecimentos de inúmeras áreas, como administração, gestão de pessoas, Psicologia, Neurociência, recursos humanos, planejamento estratégico, objetivando a conquista de resultados efetivos dentro de qualquer contexto profissional ou pessoal.

 PROCESSO DE RESSIGNIFICAÇÃO DA PSICÓLOGA

Algumas pessoas iniciam o curso de Psicologia acreditando que com isso estarão imunes a problemas psicológicos e que conseguirão passar ilesos pelas peças que a vida nos prega de vez em quando. Embora eu nunca tivesse essa expectativa, tudo o que vivi me faz acreditar que essa crença é uma ilusão.

Ser estudante de Psicologia e estudar muito não me livraram de um transtorno de estresse pós-traumático, e ser psicóloga não anulou meu sofrimento psíquico, pois o ser humano não é lógico, tão pouco previsível. Somos tão complexos que em muitos momentos somos incapazes de nos erguer sozinhos, e reconhecer que nossa condição humana implica na não existência da autossuficiência nos permite buscar ajuda.

Ser psicóloga não acelerou meu processo de ressignificação. No entanto, toda a minha história, principalmente os momentos que mais me fragilizaram, com certeza contribuiu com o meu constante desenvolvimento e crescimento profissional, pois acredito que a experiência de vida nos capacita muito mais do que a teoria.

 

AMANDA OLIVEIRA – é psicóloga, pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas pelo Mackenzie e extensão em Práticas Psicoeducativas em Instituições e Comunidades pela PUC COGEAE. Master coach formada pelo Instituto Brasileiro de Coaching, possui certificações Internacionais ECA (European Coaching Association). GCC (Global Coaching Community) e 10 (International Association of Coaching lnstitute. Autora do livro O Grito que Ninguém Ouviu (Editora Novo Século), e coautora dos livros Coaching nas Empresas Estratégias de Coaching para o Ambiente Corporativo e Porque Sou Coach? (ambos da Editora IBC).

OUTROS OLHARES

ACABOU A FACULDADE, E AGORA?

A busca pela primeira oportunidade no mercado de trabalho mescla a ansiedade por um futuro promissor e um período de muita tensão e incertezas.

Acabou a faculdade, e agora

Após investir de quatro a cinco anos nos bancos de uma faculdade o profissional deveria estar pronto para entrar no mercado de trabalho. Mas a realidade é bem diferente, pois o mercado, escasso pela atual crise, ainda exige experiência ou oferta de estágios com baixa ou nenhuma remuneração.

O Brasil está começando agora a entrar na tendência mundial de preparar um grande quantitativo de profissionais de nível tecnólogo para dar velocidade à entrada no mercado de trabalho de uma nova geração de trabalhadores. O que mais impulsiona as pessoas nessa direção é o curto tempo de formação e, aliado a isso, os salários crescentes dessa categoria.

Algumas ações podem ser úteis para um bom começo na área de interesse. Ter um currículo bem elaborado, por exemplo, seja virtual ou não, é a primeira impressão que o candidato deixa e pode abrir portas para uma entrevista pessoal. Os departamentos de RH dão mais valor para a desenvoltura do que enormes listas infindáveis de certificados que, muitas vezes, não possuem aderência com o cargo em questão.

A experiência conta, claro, mas é a capacidade de administração emocional que vai fazer toda diferença no final. Desde cedo, deve-se buscar investir nessa área de crescimento pessoal. A inteligência emocional aliada à capacidade de se comunicar claramente tornam, até mesmo o candidato com menor experiência, uma boa aquisição para as empresas.

Excelente estratégia para uma carreira promissora é buscar estágios o mais cedo possível. Muitas pessoas deixam para o final do curso, mas isso pode retardar ainda mais a formação e principalmente o aprendizado prático. Além de ser uma forma de criar networking, uma rede de contatos sólida dentro do seu ambiente profissional que pode ser útil no futuro. Um detalhe importante que os iniciantes no universo profissional ignoram é a dificuldade da mobilidade urbana e, quase sempre, buscam colocações em empresas que oferecem maiores salários, mesmo que elas estejam distantes de suas moradias. É um grande erro pensar que poderá se acostumar aos longos trajetos e ao desperdício de horas todos os dias dentro dos transportes públicos lotados. Ao final, o trabalho poderá ficar insuportável apenas porque esse item não foi computado com sua real importância. Sempre que fazemos processo de recrutamento e seleção alertamos os candidatos para a possibilidade de esgotamento físico e mental que isso pode acarretar e na possível perda de rendimento na instituição.

É importante ter critérios e analisar bem as empresas para as quais se pretende mandar o currículo. Hoje, pela internet, é possível descobrir muita coisa sobre as relações das empresas com os seus funcionários. Uma dica é acessar o site do Tribunal da Justiça do Trabalho do Estado que deseja e procurar pelo nome da empresa. Se houver muitas ocorrências é sinal de que não há uma boa afinidade entre a linha gestora e o corpo laboral.

Todo processo seletivo gera tensão. Afinal, o futuro do candidato pode estar em jogo. Uma preparação emocional pode ser bem-vinda para que não se cometam erros básicos, como:

LINGUAGEM CORPORAL: pela pressão em que o candidato normalmente se encontra, seu corpo pode trazer impressões prejudiciais. Algumas ações são avaliadas nesse sentido, tais como colocar as mãos nos bolsos ao falar, colocar a bolsa sobre as pernas cruzadas e balançar pés e mãos para lá e para cá. Tudo isso pode demonstrar insegurança, nervosismo e falta de equilíbrio emocional.

AUTENTICIDADE: o candidato não pode querer mostrar o que não é. Ele precisa passar confiança em suas capacidades, caso contrário, como a empresa empregadora poderá ter essa segurança no possível empregado ou colaborador? Devemos destacar que, do outro lado da mesa, o profissional do processo de seleção também está submetido a pressões e deve ter níveis de estresse consideráveis quando encontra um número razoável de bons profissionais. Fazer escolhas que podem alterar a vida de pessoas de forma radical não só aumenta a responsabilidade de extrair o melhor de cada um, mas também a certeza de estar selecionando o melhor para a empresa contratante. Uma escolha malfeita pode significar perdas para ambos os lados envolvidos. Em um processo recente tivemos mais de cinco candidatos aptos, plenamente, para uma vaga de supervisão. A escolha final sempre é do gestor, em sua última entrevista avaliativa. No entanto, cabe aos profissionais de seleção indicar para esse momento final somente aqueles que, sem sombra de dúvida, poderão ocupar o cargo com perfeita desenvoltura.

Nesses casos o foco vai se voltar para os elementos que podem desqualificar. Com os pontos fortes definidos, o selecionador deve procurar as áreas onde esse candidato pode apresentar fragilidades. Aqui, nesse estágio, os detalhes são valorizados para que se possam eliminar aqueles com menor potencial em comparação aos demais já qualificados.

Assim, nenhum detalhe deve ser considerado pequeno demais para não merecer investimento por parte daquele que deseja se colocar no mercado de trabalho. Ninguém nasce preparado, isso é um fato. Edificar um bom perfil profissional exige disciplina e investimento para estar preparado no momento em que tudo for posto à prova. Sorte só existe para quem a constrói.

 

JOÃO OLIVEIRA – é psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas; Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora.)

GESTÃO E CARREIRA

O BE-A-BA DAS REVOLUÇÕES

Apesar de muito se falar, pouca gente entende o que é a indústria 4.0. Vale conhecer o conceito para descobrir em que ponto a gestão de pessoas se encontra.

O be-a-ba das revoluções

De um lado, ouve-se que as empresas devem estar preparadas para a Indústria 4.0, aquela dominada por máquinas – robôs inteligentes capazes de assumir, inclusive, o trabalho dos “colarinhos-brancos”, executivos, médicos, advogados. Até o presidente Michel Temer anunciou recentemente um pacote de crédito de 10 bilhões de reais para estimular o uso da robótica, de inteligências artificiais e de impressoras 3D no setor manufatureiro.

De outro lado, contudo, pouca gente nem sequer sabe o que a Quarta Revolução significa na prática. Pior: mesmo ignorando o conceito, há quem acuse o RH de ser “apenas 3.0”. Vale, então, conhecer a linha evolutiva das revoluções industriais para descobrir em que ponto a gestão de pessoas se encontra – e poder ajudá-la a avançar para a próxima fase.

 FUNCIONÁRIOS ENFILEIRADOS

A administração foi concebida como ciência na Primeira Revolução Industrial, por volta de 1760 a 1850. Naquela época, tendo o carvão como fonte de energia, surgiram as máquinas a vapor e o primeiro transporte coletivo – a locomotiva. Os trabalhadores, que antes moravam nos campos e realizavam tarefas manuais, migraram para as cidades em busca de melhores oportunidades nas indústrias têxteis. A oferta era tamanha que bastava ao “recrutador” alinhar a mão de obra em frente à fábrica e escolher aqueles que lhe pareciam fortes e saudáveis, aptos a um ofício braçal.

A gestão de pessoas 1.0 consistia em manter os empregados sob forte vigilância para que desempenhassem suas atribuições direito. Depois do surgimento das legislações trabalhistas e dos sindicatos – devido a problemas com as condições insalubres das manufaturas e o pagamento de salários inferiores a mulheres e crianças (que causava desemprego entre homens adultos), o administrador passou também a fiscalizar o cumprimento das regras vigentes. “Infelizmente ainda hoje, muitos gestores só se preocupam com as questões elementares: admitir, controlar, assegurar o cumprimento da lei”, diz Sidinei Rocha de Oliveira, professor na Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “É um foco técnico, e não estratégico.”

Emoções reconhecidas com o surgimento do motor a combustão, marca da Segunda Revolução Industrial (de 1850 a 1945), evoluíram as fábricas e a gestão. Em 1911, o engenheiro mecânico Frederick Winslow Taylor lançou seu clássico Os Principias da Administração Cientifica, que defendia a separação de funcionários operacionais dos estratégicos – responsáveis por planejar os negócios. Surgia a hierarquia tal qual conhecemos hoje.

Três anos após a obra de Taylor, Henry Ford adotou linhas de montagem em sua fábrica de automóveis nos Estados Unidos, com cada célula produzindo uma peça diferente, que, somadas, gerariam um carro.

Ao final dessa era, o departamento de recursos humanos começou a lidar com modificações profundas nas demandas dos empregados. Teve de reconhecer, por exemplo, as necessidades psicológicas e emocionais dos indivíduos. Liberdade, flexibilidade, valorização da criatividade e diversidade ganharam peso nos contratos de trabalho, enquanto, a partir de 1945, se desenrolava a Terceira Revolução Industrial, com o surgimento dos primeiros computadores e equipamentos de telecomunicações. No Brasil, o RH 3.O floresceu na década de 90 com o aumento das multinacionais no país, que trouxeram a cultura de desenvolvimento do empregado, de gestão por competências e de remuneração variável. Para muitos especialistas, a área de recursos humanos permanece estagnada nessa etapa e ainda não avançou para a Indústria 4.0.

ENTRE EXTREMOS

O princípio da Quarta Revolução Industrial, fase com maior interação homem-máquina, foi cunhado por Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, e amplamente discutido durante o encontro de líderes em 2016. De lá para cá, empresários e empregados debatem sobre o futuro do trabalho – e temem por sua empregabilidade.

Para acompanhar as rápidas transformações no mercado e na sociedade, gestores de RH apostam em software de people analytic e de inteligência artificial. Mas as companhias preparadas para se valer dessas tecnologias ainda são minoria. A crise econômica de 2014 a 2016, e que ainda reverbera efeitos sobre os negócios, atrasou os departamentos de pessoal que buscavam se renovar; fez até com que alguns voltassem no tempo – aumentando o controle e a fiscalização dos funcionários. “Se as empresas precisaram cortar gastos e investimentos em diversas áreas, quem dirá no RH”, diz Roberto Martins, diretor da consultoria PwC.

Frente à Indústria 4.0, cabe ao líder de recursos humanos rever as práticas de recrutamento e seleção – e também de treinamento, de avaliação de desempenho, de movimentação de pessoas, de remuneração, de liderança. “Algumas organizações são referência no processo, conhecem as ferramentas mais modernas e ditam tendências. Os exemplos mais óbvios são as organizações que nasceram digitais, com seus escritórios abertos e horários negociáveis”, diz Cláudio Carvajal, coordenador acadêmico dos cursos de administração de empresas e de gestão de tecnologia da informação da Fiap. Entretanto, na média, ele diz, o RH está atrasado. “Outros executivos certamente admiram tais práticas, mas ainda não conseguiram adotar essas ideias ousadas porque modificar uma cultura arraigada por séculos exige bastante esforço.”

Só que o progresso não espera ninguém. Ao longo da história, os líderes de recursos humanos caminharam a reboque das transformações tecnológicas e econômicas, sendo pressionados por essas mudanças a dar uma resposta às aspirações dos profissionais e das empresas. Agora, os executivos precisam se antecipar às próximas revoluções. “Mais do que discutir se o RH é 3.0 ou 4.0, é fundamental colocar o funcionário realmente no centro da abordagem estratégica da gestão de pessoas, como se fosse seu cliente interno, para entender de que maneira ele vai sustentar o crescimento futuro da organização”, diz Martins, da PwC. A dica, nessa hora, é: cuidado para não perder o próximo bonde – ele pode passar na velocidade da luz.

O be-a-ba das revoluções 2

 

O be-a-ba das revoluções 3 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE I

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

Temos aqui um relato do bem que Cristo fez em Samaria, quando passou por aquela região a caminho da Galileia. Os samaritanos, tanto em termos de sangue quanto de religião, eram judeus mestiços, os descendentes daquelas colônias que o rei da Assíria estabeleceu ali depois do cativeiro das dez tribos, com os quais os pobres da terra foram deixados para trás, e aos quais muito outros judeus, mais tarde, se incorporaram. Eles adoravam apenas o Deus de Israel, a quem edificaram um templo no monte Gerizim, que competia com o de Jerusalém. Havia uma grande inimizade entre os samaritanos e os judeus. Os samaritanos não receberiam Cristo quando vissem que Ele ia para Jerusalém (Lucas 9.53). Os judeus pensavam que não poderiam lhe conferir uma reputação pior do que dizer: “Ele é um samaritano”. Quando os judeus eram prósperos, os samaritanos reivindicaram parentesco com eles (Esdras 4.2), mas, quando os judeus estavam necessitados, eles se classificavam como medos e persas. Observe:

 

I – A entrada de Cristo em Samaria. Ele ordenou a seus discípulos que não entrassem em qualquer das cidades dos samaritanos (Mateus 10.5), isto é, não pregassem o Evangelho, ou operassem milagres. Aqui o Senhor não pregou publicamente, nem operou qualquer milagre, pois sua atenção estava voltada “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Os benefícios que Ele aqui concedeu foram casuais, eram só migalhas do pão dos filhos que casualmente caíram da mesa do Mestre.

1. Seu caminho da Judéia para a Galileia passava pelo território da Samaria (v. 4): “Era-lhe necessário passar por Samaria”. Não havia nenhum outro caminho, a menos que Ele desse a volta pelo outro lado do Jordão, que ficava muito longe. Os maus e os profanos estão, no momento, tão mesclados com o Israel de Deus, que, a menos que saiamos do mundo, não podemos evitar tê-los como companhia, 1 Coríntios 5.10. Temos, então, a necessidade da armadura ou da justiça na mão direita e na esquerda, para que não os provoquemos, nem nos contaminemos com eles. Nós não devemos ir a lugares de tentação, senão quando somos obrigados. E não devemos residir neles, mas passar rapidamente por eles. Alguns pensam que Cristo é obrigado a passar por Samaria porque tinha uma boa obra para realizar ali, uma pobre mulher a ser convertida, uma ovelha perdida a ser procurada e salva. Esse era o trabalho para o qual seu coração estava voltado, e a razão pela qual Ele era obrigado a seguir esse caminho. Foi uma alegria para Samaria estar situada no caminho de Cristo, pois isso deu a Ele uma oportunidade de visitá-la. “Passando eu por ti…disse-te: …vive”, Ezequiel 16.6.

2. Seu local de descanso acabou sendo uma cidade de Samaria. Observe:

(1) O lugar descrito. Era chamado Sicar, provavelmente o mesmo que Siquém, um lugar a respeito do qual lemos muito no Antigo Testamento. Os nomes dos lugares são frequentemente alterados à medida que o tempo passa. Siquém forneceu os primeiros prosélitos que entraram na igreja de Israel (Genesis 34.24), e agora é o primeiro lugar onde o Evangelho é pregado fora da comunidade de Israel. Assim o Dr. Lightfoot considera. Este estudioso também entende que o “vale de Acor”, que foi dado “por porta de esperança”, a esperança para os pobres gentios, margeava essa cidade, Oséias 2.15. Abimeleque foi feito rei aqui. Este era o lugar do trono de Jeroboão. Mas o evangelista, ao falar sobre a história do lugar, chama a atenção para as propriedades que Jacó tivera ali, o que honrava mais este lugar do que suas cabeças coroadas.

[1] Aqui ficava a terra de Jacó, “aquela parte do campo que Jacó” deu para seu filho José, cujos ossos foram nela sepultados, Gênesis 48.22; Josué 24.32. Est e fato é provavelmente mencionado para sugerir que quando Cristo repousou perto daqui, aproveitou a oportunidade de estar na terra que Jacó deu a José para meditar sobre a boa reputação que os antigos obtiveram pela fé. Jerônimo escolheu morar na terra de Canaã para que, vendo os locais onde os fatos bíblicos aconteceram, pusesse se sentir ainda mais comovido com as histórias das Escrituras.

[2] Aqui estava o poço de Jacó, que ele cavou, ou pelo menos usou para si próprio e para sua família. Nós não encontramos nenhuma menção desse poço no Antigo Testamento, mas diz a tradição que essa era a “fonte de Jacó”.

(2) A postura do nosso Senhor Jesus nesse lugar: “Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Aqui, vemos nosso Senhor Jesus:

[1] Trabalhando sob a fadiga habitual dos viajantes. Ele estava cansado devido à sua viagem. Embora ainda fosse somente a hora sexta, e Ele tivesse cumprido apenas metade do seu dia de viagem. ainda assim Ele estava cansado. Ou porque essa era a hora sexta, o período mais quente do dia. Aqui vemos, em primeiro lugar, que Ele era um verdadeiro homem, e sujeito às fraquezas comuns da natureza humana. O trabalho enfadonho e penoso veio com o pecado (Genesis 3.19), e, consequentemente, Cristo, tendo se tornado maldição por nós, submeteu-se a ele. Em segundo lugar, que Ele era um homem pobre, de outra forma Ele poderia ter viajado a cavalo ou em uma carruagem. Através desse exemplo de pobreza e penitência, Ele se humilhou por nós, pois Ele realizou todas as suas viagens a pé. Enquanto os servos andavam a cavalo, príncipes “andavam a pé como servos sobre a terra”, Eclesiastes 10.7. Quando somos transportados com comodidade, devemos pensar no cansaço de nosso Mestre. Em terceiro lugar, parecia que Ele não passava de um homem frágil e de constituição pouco robusta; parecia que seus discípulos não estavam tão cansados quanto Ele, pois eles entraram na cidade sem qualquer dificuldade, enquanto seu Mestre se sentou, e não pôde dar mais um passo adiante. Muitos dos melhores físicos humanos são os mais sensíveis à fadiga, e são os que menos a suportam.

[2] Nós o temos aqui entregando-se ao alívio habitual dos viajantes: “Cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Em primeiro lugar, Ele se sentou junto à fonte, um lugar desconfortável, frio e duro. O Senhor não teve nenhuma almofada, nenhuma rede onde repousar, mas usou o que estava à mão para nos ensinar a não sermos demasiadamente exigentes e desejosos das comodidades desta vida, mas nos contentarmos com as coisas simples. Em segundo lugar, Ele se sentou em uma posição desconfortável; sentou-se de maneira descuidada; ou, ainda, Ele se sentou da mesma maneira que as pessoas que estão cansadas de viajar estão acostumadas a se sentar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DESENVOLVIMENTO DA IDENTIDADE

Pesquisas mostram que as pessoas transexuais com disforia de gênero apresentam maiores chances de exibir transtornos psiquiátricos ao longo de suas vidas.

O desenvolvimento da identidade

A publicação da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Psiquiátrica Americana (APA), expandiu a visão sobre sexo e gênero: sexo refere­ se tanto a masculino quanto a feminino, relacionado aos aspectos biológicos como: cromossomos sexuais, gônadas, hormônios sexuais e genitália interna e externa não ambíguas; e gênero é utilizado para designar o papel social – menino ou menina, homem ou mulher, que, na maioria das pessoas, está relacionado ao sexo de nascimento. Entretanto, o desenvolvimento individual do gênero sofre influências biopsicossociais e nem todos os indivíduos se percebem como homens ou mulheres. Daí, várias classificações:

(a) DESIGNAÇÃO DE GÊNERO: refere­ se à designação inicial como homem ou mulher, e geralmente isso ocorre no nascimento e, por conseguinte, cria-se o “gênero de nascimento”;

(b) IDENTIDADE DE GÊNERO: é uma categoria da identidade social e refere-se à identificação do indivíduo como homem ou mulher, ou, ocasionalmente, com alguma categoria diferente de homem ou mulher;

(c) TRANSGÊNERO(S): refere-se ao amplo conjunto de indivíduos que transitoriamente ou persistentemente não se identificam com o seu sexo e/ou gênero de nascimento;

(d) TRANSEXUAL: é quem não se identifica com seu sexo de nascimento e procura adequar, ou passou por adequação, para o gênero com o qual se identifica, o que, em vários, mas não em todos os casos, envolve transição somática por tratamento hormonal e cirurgia de redesignação sexual (adequação do sexo de nascimento para o gênero com o qual o indivíduo se identifica);

(e) DISFORIA DE GÊNERO: refere-se à incongruência acentuada entre o sexo de nascimento e como ele é percebido e manifestado no comportamento do indivíduo, com duração de pelo menos seis meses; além do mais, essa condição deverá estar associada a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. Embora nem todos os indivíduos venham a sentir desconforto com o resultado de tal desarmonia, muitos sentirão, se as intervenções desejadas sobre o físico, por meio de hormônios e/ ou cirurgias, não estiverem disponíveis.

Pessoas que se identificam como transexuais reportam na sua história desconforto persistente com o sexo que lhe foi designado no nascimento e apresentam forte identificação com o gênero oposto ao seu sexo de nascimento. Muitos relatam sintomas significativos de estresse psicológico e procuram tomar medidas para alterar as características de seus corpos (por exemplo, por meio do uso de hormônios sexuais e cirurgia plástica), de forma a se adequarem, o mais próximo possível, ao gênero com o qual se identificam. Vale lembrar que os indivíduos transexuais podem ou não apresentar disforia de gênero, segundo o DSM-5.

Pesquisas mostram que as pessoas transexuais com disforia de gênero têm maiores chances de exibir transtornos psiquiátricos ao longo de suas vidas; entre eles: episódios depressivos, tentativas de e/ou suicídio e história de trauma (físico e/ou emocional) durante a infância. Mais especificamente, pessoas que apresentam transtorno ansioso associado à transexualidade com disforia de gênero tendem a apresentar mais problemas psiquiátricos que a população em geral, além de serem, junto com os transtornos afetivos (como a depressão, por exemplo), os distúrbios mais frequentes nessa população. O uso abusivo de substâncias psicoativas ilícitas ou sem prescrição médica é outro aspecto relevante: 10% dos transgêneros comentam que procuraram tratamento para uso abusivo de substâncias em pesquisa realizada na população americana.

Apesar de a conscientização pública sobre o amplo espectro de indivíduos transgêneros estar se desenvolvendo, a compreensão científica sobre o fenômeno do desenvolvimento da identidade de gênero ainda é limitada. Não há nenhuma evidência de que o ambiente social após o nascimento desempenhe papel crucial na determinação da identidade de gênero, entretanto as relações entre as diferenças sexuais estruturais e funcionais de várias áreas do cérebro em relação às variações hormonais durante o período gestacional têm sido verificadas.

 

GIANCARLO SPIZZIRRI – é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

OUTROS OLHARES

O MUNDO DISCUTE O ABORTO

Embalados pelos movimentos que lutam pelos direitos das mulheres, vários países voltam a debater a liberação da interrupção da gravidez em todos os casos. No Brasil, a discussão avança, mas o País ainda está muito dividido.

O mundo disxcute o aborto

Um dos temas mais polêmicos envolvendo as mulheres, o aborto voltou a ser assunto de debate em vários países. Na quarta-feira 8, o Senado argentino votou o projeto de lei que permitia a interrupção da gravidez até a 14ª semana. Três dias antes, o Supremo Tribunal Federal encerrava, em Brasília, um ciclo de audiências públicas destinado a ouvir de entidades médicas, religiosas, jurídicas e movimentos sociais argumentos contra e a favor da descriminalização do aborto no Brasil. No mês passado, mulheres tomaram as ruas do Chile pedindo a liberação para todos os casos e, em maio, na Irlanda, um referendo popular aprovou a legalização naquele pais. A ascensão do tema às instâncias de poder mais elevadas dessas nações mais um resultado do movimento global pela transformação do papel da mulher nas sociedades, com ênfase na luta por maior autonomia, direitos e igualdade. É sob essa ótica que o mundo discute agora o aborto.

Os debates evidenciam, no entanto, que a discussão ainda se encontra mais próxima da polêmica, e não do consenso, em especial em países com fortes raízes religiosas. O que aconteceu na Argentina é exemplo disso. Lá, o aborto é permitido em casos de gestação resultante de estupro ou quando a saúde da mãe está em risco. Em outras circunstâncias, é penalizado com quatro anos de prisão para a mulher e o médico. O projeto de lei reprovado pelo Senado, havia sido aprovado semanas antes pela Câmara dos Deputados. Porém, as pressões dos grupos contrários derrubaram a iniciativa. Parte dos argumentos levavam em conta a posição do Papa Francisco, argentino, que considera o aborto um ato ofensivo à doutrina cristã.

Na Irlanda, país com grande presença católica, a permissão do aborto de forma irrestrita até a 12 ª semana de gravidez e, em caso de risco para a saúde da mãe e de anormalidade fetal até a 23ª semana, só aconteceu depois de décadas. Por isso, o dia 26 de maio foi considerado histórico pelo primeiro-ministro irlandês.  Taoiseach Varadkar. Logo em seguida à aprovação, ele tuitou: “Dia memorável. Uma revolução silenciosa aconteceu.”

No Brasil. o aborto é permitido em casos de gravidez depois de estupro, risco para a saúde materna ou quando o feto apresenta anencefalia (má formação caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana). A pena para a mãe que provocar o aborto fora dessas condições é de um a três anos de prisão. Para o médico, de um a quatro anos. A discussão levada ao plenário do STF na semana passada foi originada da ação ajuizada pelo Anis, Instituto de Bioética, e pelo PSOL, pedindo a revisão dos artigos 124 e 126 do Código Penal, que criminalizam o procedimento.

ARGUMENTOS NO TRIBUNAL

Ao longo de dois dias, os representantes de entidades revezaram-se diante da ministra Rosa Weber, relatora do processo, colocando suas posições. Ao todo, 32 apresentaram-se favoráveis à descriminalização, 16, contra e 2 não manifestaram considerações claras. O placar a favor, no entanto, não significa que haja consenso. Várias organizações contrárias à interrupção da gravidez não compareceram. As audiências mostraram que a discussão no Brasil ainda é pautada por visões distintas. Um aspecto levantado por muitos participantes foi a necessidade de entender o aborto como uma questão de saúde pública, e, como tal, merecedora de assistência do Estado e não de punição. Segundo o Ministério da Saúde, uma a cada cinco mulheres já interrompeu a gravidez. Por ano, são um milhão. O aborto causa uma morte a cada dois dias. “Há mais de três décadas a Organização Mundial de Saúde trata o aborto como problema de saúde pública e recomenda que seja tirado da ilegalidade. É a única forma de diminuir o número de abortos e de mortes, afirma Olímpio Moraes Filho, presidente da Comissão de Pré Natal da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

FOCO NA MÃE

Na opinião de pessoas que se opõem à liberação, não se pode focar apenas na mãe. “Há vida desde a fecundação. Muitas pessoas que defendem o aborto não querem ver que já há outro ser humano envolvido, diz a médica Lenise Garcia, do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida. Um dos que representou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o bispo Dom Ricardo Hoepers, partilha da mesma opinião. “Estamos preocupados em equilibrar a defesa da mulher com a da criança. É preciso entender que se trata também de outro sujeito, que deve ser considerado”, afirma, A pastora luterana Lusmarina Campos tem entendimento diferente. “A ênfase da CNBB é equivocada. Volta-se o olhar para uma pré-pessoa em detrimento de uma pessoa que já existe, que é a mãe. Essa visão é resultado de uma construção histórica de desprezo pela mulher”, diz.

Do lado de fora do STF, a divisão ficou clara com manifestações pró e contra. Entre as favoráveis, muitas vestiam roupas que imitavam o figurino da série The Handmaids Tale, onde mulheres são escravizadas e usadas como reprodutoras, e usavam lenço verde, símbolo da luta pela descriminalização. Ainda não há previsão de quando o processo no STF será concluído.

O QUE ESTÁ EM JULGAMENTO

  • As audiências públicas realizadas no STF são decorrência de ação ajuizada pelo Anis, Instituto de Bioética, em parceria com o Psol, de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental.
  • As entidades argumentam que a criminalização do aborto fere os preceitos constitucionais ao colocar em risco a dignidade e a inviolabilidade da vida das mulheres, direitos garantidos pela Constituição.
  • Por isso, pedem ao Ministério Público Federal que reveja, sob a ótica constitucional, os artigos 124 e 126 do Código Penal e descriminalize o aborto até 12 semanas de gestação.
  • As discussões foram encerradas na segunda ­ feira, 6 e não há data para que o tribunal delibere sobre o tema.

O mundo disxcute o aborto.2

GESTÃO E CARREIRA

SOMENTE COM DINHEIRO!

Parece até mentira, mas muitos estabelecimentos no comércio ainda não aceitam cartões de débito e crédito. Então, qual a saída para esses negócios? Existem outras formas de pagamento? O que fazer com aquele consumidor “aceita cartão?” não ir embora?

Somente com dinheiro

Você consegue se imaginar pagando um produto sem o seu cartão de crédito/débito ou sequer uma folha de cheque? Nos dias atuais é impensável fazer uma compra e não paga-la com uma das formas mencionadas.

Algumas pesquisas de tendência de mercado varejista indicam até que, no futuro, todos os pagamentos serão feitos por aplicativos/smartphone e que o dinheiro de nota, cartão de crédito e cheques serão raridade no mercado.

Na China, essa prática já vem sendo utilizada em alguns estabelecimentos, mas paro o Brasil ainda se trata de uma condição muito embrionária. E enquanto essa moda não chega por aqui, são os cartões de crédito/débito, dinheiro “vivo” ou folhas de cheque que pagam as nossas compras.

Mas acredite, existem alguns estabelecimentos que ainda não adotaram o cartão de crédito e débito e muito menos aceitam cheques. Muitas vezes perdem clientes por isso e ficam na dúvida se haveria outra forma de cobrar por seus produtos.

Não dá para negar que a forma mais segura, prática e rápida de pagarmos os produtos e serviços que consumimos no mercado por meio do uso do cartão – o conhecido dinheiro de plástico. “Aceitar o cartão é uma escolha que, além de mais segura para o estabelecimento, potencializa as vendas, pois a maioria da população paga dessa maneira, aumentando a probabilidade de aumentar o faturamento, explica o professor do curso de ciências contábeis da Faculdade Santa Marcelina (FASM), Joaquim Xavier.

Dessa maneira, não precisamos carregar dinheiro, planejamos os nossos pagamentos, não corremos o risco de assalto e podemos consumir tendo saldo ou não –  no caso do cartão de crédito. “Além disso, o cartão garante ao comerciante o recebimento do valor da venda, independentemente de o portador do cartão pagar a fatura pontualmente ou não. Portanto, apesar das altas taxas e prazo para recebimento, a entrada do dinheiro é líquida e certa”, endossa o professor da incubadora Mackenzie, Alexandre Nabil.

É bom para o consumidor, e para o comerciante também é um ótimo negócio’. “Ao vendedor cabe buscar um ganho maior nessa relação em que a restrição de pagamento é muito grande. Para convencer o cliente a pagar em dinheiro, é preciso trabalhar o seu lado emocional. Nem sempre a conquista dará certo, mas é importante faze-lo compreender o prazer da experiência vivida. o que ele, cliente pode dizer aos amigos sobre a experiência em adquirir o produto ou serviço, a sua contribuição para a economia e cultura local e, obviamente, a colaboração dele para o vendedor e sua família”, indica também o contador formado pela UFRJ e coordenador de Finanças da Petrobras em Salvador /BA, Luís de Carvalho Soares.

MOEDA DE PLÁSTICO

Pagar com o dinheiro de plástico tornou-se a melhor opção por diversos motivos: um deles é a questão da segurança, pois os índices de furtos e roubos aumentaram. Por outro lado, uma razão para a diminuição do uso de dinheiro é a falta de praticidade.

Com relação aos cheques, os altos indicadores de devolução fazem dessa uma modalidade de pagamento pouco atrativa. “Cartão de crédito é o mais seguro, pois a responsabilidade do recebimento do cliente é da Administradora de Cartões, que correrá esse risco. Já com o cheque não existe garantia do recebimento, o empresário deve se cercar de consultas às empresas que oferecem esse serviço para reduzir o risco de inadimplência”, indica o professor do curso de ciências contábeis da FASM.

No entanto, muitas vezes a grande questão para os donos de empreendimentos pequenos e que ainda não trabalham com cartões de crédito/débito é analisar como os seus clientes podem consumir os seus serviços e produtos sem o uso dessas opções de pagamentos. Soares aponta as várias formas de pagamentos existentes no comércio: o pagamento à vista, pagamento antecipado, pagamento por boleto bancário, pagamento por transferência entre contas-correntes, pagamento por Bitcoins, pagamento por utilização de créditos/ pontos/códigos promocionais etc.”, diz frisando, no entanto, que quando não se aceita cartões, tem que ser em dinheiro.

PORQUE TÃO RUDIMENTAR?

Xavier relata que as empresas de pequeno porte representam 99% das empresas com CNPJ em nosso País; no estado de São Paulo, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) respondem por 67 % dos empregos diretos e 2% da pauta das exportações. “Neste ponto também vale destacar que o nível médio do empresário das empresas de pequeno porte chega ao antigo primeiro grau incompleto, o que mostra que essas inovações, como o cartão de crédito, não fazem parte da rotina dessas empresas”; lembra o especialista.

Por conta desse desconhecimento, muitos empresários ainda usam métodos rudimentares, como “cadernetas para pagamentos futuros, demonstrando credibilidade em sua carteira de clientes, outros, vendem fiado”, na base da confiança, o que também pode ser considerado arcaico no mercado.

O professor da FASM explica que uma das maneiras do resolver essas questões é excluir da rotina do pequeno empreendedor formas ultrapassadas de recebimentos e, aos poucos, familiarizar-se com essas novas modalidades de pagamento. “Anotarem em caderneta e vender fiado mostra-se contraproducente, pois não contribui com o desenvolvimento do negócio, ao passo que a venda por cartão de credito terá a garantia do recebimento”, diz.

BOLETOS E TRANSFERÊNCIAS

Algumas alternativas também suo interessantes e até já utilizadas para os comerciantes que não aceitam pagamentos com cartões. O especialista em sistemas de pagamento para MEIs e pequenas empresas, cofundador e CEO da Asaas, Piero Contezini, dá algumas sugestões, entre elas, a de o comerciante receber usando outras tecnologias, como boletos, depósitos, transferências ou até mesmo fintechs como Asaas, PicPay e PayPal. “Os comerciantes também devem se preocupar em começar a aceitar criptomoedas, como o Bitcoin e o Etherium”, lembra.

Dentre todas essas soluções, o boleto é a melhor opção, pois a partir de um computador ou aplicativo de celular, o empreendedor pode emitir boletos, notas e até aceitar pagamentos por cartão de crédito. Para não perder os clientes, o comerciante pode falar que existem métodos alternativos e que são aceitos pelo estabelecimento.

NÃO TEM JEITO, SÓ DINHEIRO MESMO

Mas para os estabelecimentos que só aceitam dinheiro não perderem os seus clientes é necessário montar uma estratégia.

Atualmente, andar com dinheiro é algo raro, pois as pessoas se sentem inseguras com assaltos e roubos. Portanto, para que essa prática não tenha resultados negativos, é preciso uma operação inteligente por parte dos comerciantes, promovendo preços competitivos e estimulantes ao consumidor. “Com esta atitude de não aceitar cartão, o lojista corre um grande risco de o cliente mudar de ideia no caminho e muitas vezes não voltar, por isso, obter preços extremamente competitivos é o que pode garantir o retorno e a fidelidade”, relata a diretora da HAI Consultoria & Varejo, Gabrielle Fernandes.

Além do preço, o coordenador Luís de Carvalho Soares explica que o cliente volta por diversas razões: “A experiência a ser vivida por causa da exclusividade de algo que não se acha em todo lugar, a qualidade no atendimento, o ponto de localização do negócio, a limpeza do estabelecimento, a variedade de produtos que criam alternativas aos olhos e ao gosto (que pode ser também alternativo) do cliente”, diz complementando que conhecer os endereços de poucos de postos de atendimento bancário e caixas eletrônicos para saque e guiar o cliente até o local é também uma boa estratégia.

É importante fazer uma avaliação criteriosa de conversão de vendas, o lojista precisa sempre parar e avaliar quantas vendas não foram finalizadas pela falta de aceitação de cartões de crédito e cheques.

Gabrielle Fernandes explica que só assim o lojista terá conhecimento quantitativo em relação à perda x conversão e certamente se convencerá de que a utilização dessas ferramentas é fundamental para o mercado atual e o cliente final. Mas saliento a importância de que todas as práticas na utilização de cartão sejam muito bem negociadas para que o lojista controle suas margens com sucesso. Já com o cheque existe um risco maior, como a possibilidade de um futuro questionamento em caso de cheques sem fundo. Lembrando que o risco de cheques sem fundo existe tanto para o lojista, que não recebe, quanto para o comprador, de “sujar o nome, lembra a sócia-diretora da HAI Consultoria &Varejo.

NEM DINHEIRO, NEM VALE

Existem alguns comércios e restaurantes famosos, como o Sujinho em São Paulo, que mantém sua política de não aceitar cartões nem vale-alimentação. E continuam com a casa cheia, pela tradição, boa relação preço/custo percebida pelos clientes e assim seguem com um público fiel.

O professor da incubadora Mackenzie, Alexandre Nabil, conta que esses estabelecimentos alegam que não aceitam pagar taxas que consideram exorbitantes, por volta de 3,5% no crédito e 7% no vale-alimentação, além da espera de 30 dias para receber. Mas ele explica, no entanto, que esses restaurantes que não aceitam cartões de crédito estão perdendo vendas e lucro”. Quando o ticket médio é alto, essa perda é ainda mais significativa, finaliza.

SAIBA MAIS

Só teria sentido não aceitar cartão no seu estabelecimento sob as seguintes condições:

  • O seu produto/serviço é exclusivo ou essencial, altamente demandado e o cliente não tem outras opções (exemplo: alguns serviços públicos, mensalidade de clubes e escolas).
  • Se a margem de contribuição for menor que o custo financeiro de aceitar o cartão (casos raros, dificilmente se trabalha com margens tão baixas).
  •  Se estiver com capacidade instalada esgotada para a demanda atual (caso do restaurante Sujinho).

FIQUE SABENDO

Em contrapartida, alguns estabelecimentos também acabam não querendo mais aceitar dinheiro em espécie dos seus consumidores diante dos altos índices de assalto no mercado. Mas essa prática, segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), é proibida pela Lei das Contravenções Penais e pelo Código Civil Brasileiro. O cliente pode recorrer aos órgãos de defesa do consumidor ou à polícia.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 1-3

Alimento diário

A Viagem de Cristo à Galileia

Lemos sobre a chegada de Cristo à Judéia (cap. 3.22), depois que Ele tinha participado das festividades da Páscoa em Jerusalém. E agora Ele deixou a Judéia quatro meses antes da ceifa, como é narrado aqui (v.35), de forma que é calculado que Ele permaneceu na Judéia por cerca de seis meses, para edificar sobre os alicerces que João havia estabelecido ali. Não temos nenhuma descrição especifica de seus sermões e milagres realizados ali, mas apenas uma citação geral, v. 1.

 

I – Que Ele fez discípulos. Ele convenceu muitos a abraçar sua doutrina, e a segui-lo como um Mestre vindo de Deus. Seu ministério era bem-sucedido, não obstante a oposição encontrada (Salmos 110.2,3). Compare com Gênesis 12.5. As almas que eles haviam conquistado, que eles haviam “feito” (esse é o significado da palavra), que eles haviam feito prosélitos. Note que é uma prerrogativa de Cristo fazer discípulos, primeiro para trazê-los aos seus pés, e depois para formá-los e adequá-los à sua vontade. Os cristãos são feitos, não nascem assim.

 

II – Que Ele batizava aqueles que se tornavam seus discípulos, aceitando-os ao lavá-los com água. Ele mesmo não batizava, mas o fazia por intermédio do ministério dos seus discípulos, v. 2.

1. Ele costumava estabelecer uma diferença entre seu batismo e o de João. João batizava, ele próprio, a todos, pois ele batizava como um servo, e Cristo, como um mestre.

2. Ele se dedicava mais ao trabalho de evangelizar, que era o mais extraordinário, 1 Coríntios 1.17.

3. Ele dignificava seus discípulos, ao autorizá-los e empregá-los para fazerem sua obra, e, neste caso específico, para batizarem. Portanto, o Senhor os educava para realizarem novos serviços.

4. Se Ele próprio tivesse batizado alguns, estes estariam propensos a se valorizar por esse fato, e depreciar os demais. E isso Ele evitava, como Paulo, 1 Coríntios 1.13,14.

5. Ele reservava para si a glória de batizar com o Espírito Santo, Atos 1.5.

6. Ele nos ensina que a eficácia dos sacramentos não depende de qualquer virtude da mão que os ministra, como também que aquilo que é feito por seus ministros, de acordo com sua orientação, Ele reconhece como feito por Ele mesmo.

 

III – Que “Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João”. Não apenas mais do que João tinha feito até essa ocasião, mas mais do que ele havia feito em qualquer tempo. O discurso de Cristo era mais cativante do que o de João. Seus milagres eram convincentes, e as curas que Ele realizava gratuitamente, muito atraentes.

 

IV – Que os fariseus foram informados disso. Eles ouviram falar das multidões que Ele batizou, pois, desde sua primeira aparição pública, eles o tinham sob uma enciumada observação, e não precisavam de espiões para lhes dar notícias sobre ele. Observe:

1. Quando os fariseus pensaram que estavam livres de João (ele estava preso nessa época), e estavam se regozijando com isso, aparece Jesus, que era para eles um aborrecimento maior do que João já havia sido. As testemunhas de Deus se levantarão sucessivamente.

2. Que o que os angustiava era o fato de Cristo fazer muitos discípulos. O sucesso do Evangelho exaspera seus inimigos, e quando os poderes das trevas estão enfurecidos contra o Evangelho, este é um bom indício de que ele está ganhando terreno.

 

V – Que nosso Senhor Jesus Cristo sabia muito bem quais informações contrárias a Ele haviam sido passadas aos fariseus. É provável que os informantes desejassem manter seus nomes em segredo, e os fariseus estivessem relutantes em terem seus desígnios revelados. Mas ninguém pode cavar tão fundo a ponto de esconder seus propósitos do Senhor (Isaias 29.15), e Cristo é aqui chamado “o Senhor”. Ele sabia o que havia sido contado aos fariseus, e se o relato excedia ou não a verdade. Sim, Jesus já deveria ter batizado mais do que João. E eles já o viam como alguém formidável. Veja 2 Reis 6.12.

 

VI – Que depois disso nosso Senhor Jesus “deixou a Judéia e foi outra vez para a Galileia”.

1. Ele “deixou a Judéia”, porque era provável que lá Ele fosse perseguido até à morte. A ira dos fariseus contra Jesus era como aquele plano iníquo para devorar o menino-Deus em sua infância. Para escapar das intenções deles, Cristo deixou a região e foi para onde aquilo que Ele fazia fosse menos irritante do que à vista deles. Pois:

(1) Ainda não era chegada sua hora (cap. 7.30), a hora estabelecida nos desígnios de Deus, e nas profecias do Antigo Testamento, para o Messias morrer. Ele não havia ter minado seu testemunho, e por essa razão não se entregaria ou se exporia.

(2) Os discípulos que Ele havia reunido na Judéia não eram capazes de suportar dificuldades, e por isso ele não os exporia.

(3) Desse modo, Ele deu um exemplo para sua própria regra: “Quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra”. Nós não somos chamados para sofrer, enquanto pudermos evitar o sofrimento sem pecar. E, embora não possamos, para nossa própria preservação, mudar nossa religião, ainda assim podemos mudar de lugar. Cristo não se protegeu através de um milagre, mas de uma maneira muito comum aos homens, para assim orientar e encorajar seu povo sofredor.

2. Ele partiu para a Galileia, porque tinha uma obra para realizar ali, além de ter muitos amigos e menos inimigos naquela região. Ele foi para a Galileia agora:

(1) Porque lá o ministério ele João havia preparado o caminho para Ele. Porque a Galileia, que estava sob a jurisdição de Herodes, era o último cenário do batismo de João.

(2) Porque a prisão de João havia aberto espaço para Ele ali. Estando agora aquela luz debaixo do alqueire, o pensamento das pessoas não ficaria dividido entre João e Cristo. Assim, tanto os privilégios quanto as restrições dos bons ministros são para o proveito do Evangelho, Filipenses 1.12. Mas com que finalidade Ele entra para sua segurança na Galileia? Herodes, o perseguidor de João, não será jamais o protetor de Jesus.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TOC EM CRIANÇAS

Comportamentos repetitivos fazem parte também do universo infantil e adolescente, trazendo limitações que prejudicam as relações sociais desde muito cedo.

TOC em crianças

Em crianças e adolescentes, rituais, medos, comportamentos repetitivos e eventuais fobias fazem parte do desenvolvimento normal e devem ser diferenciados dos sintomas do TOC, como é o caso das crianças pequenas, que apresentam rituais nos horários de dormir (uma determinada maneira para adormecer), comer (dificuldade em misturar as comidas) e demorar no banho. Esses comportamentos tendem a ser mais frequentes entre os 2 e 4 anos de idade. As crianças de 3 a 5 anos costumam brincar de imitar comportamentos de outras pessoas (mímica), repetir as mesmas brincadeiras, músicas e até assistir aos mesmos filmes diversas vezes. Na idade escolar, os jogos passam a ter regras rígidas, que são discutidas e negociadas entre os participantes, e há muito interesse por coleções (figurinhas, modelos de carros, aviões, bonecos, filmes, etc.). Na adolescência, é muito comum ter grande interesse por artistas, celebridades, estilos musicais/ banda de música, bem como coleção de objetos e lembranças de um ídolo. Todos estes comportamentos permanecem durante uma determinada fase do desenvolvimento e não interferem nas atividades diárias nem prejudicam o desempenho escolar.

Já o transtorno obsessivo­ compulsivo (TOC) é uma doença mental grave, que acomete principalmente indivíduos jovens no final da adolescência, embora muitas vezes os primeiros sintomas se manifestem na infância. Seu curso geralmente é crônico e, caso não seja tratado, se mantém por toda a vida, raramente desaparecendo por completo. Caracteriza-se pela presença de pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes (obsessões) e comportamentos ou atos mentais repetitivos (compulsões) realizados, na maior parte das vezes, com o intuito de diminuir o desconforto que acompanha as obsessões.

Nas crianças e adolescentes, os sintomas mais comuns são: medo de contaminação seguido de compulsão por limpeza e lavagem (evitar utilizar o banheiro da escola ou da casa de um amigo, não dividir o lanche por considerar nojento/sujo, fazer lavagens excessivas e ritualizadas das mãos para ter certeza de que estão limpas); dúvidas seguidas de verificações ou de perguntas repetidas, ou necessidade de confirmações (checagens para confirmar se os materiais estão na mochila, ligar seguidas vezes para se certificar de que nada de horrível aconteceu com um familiar; verificar a porta da casa ou do carro para garantir que esteja trancada), sendo seguidos, muitas vezes, por evitações (não usar o banheiro da escola ou não chegar perto dos colegas). Também são comuns preocupações com simetria, alinhamento ou exatidão (precisar organizar por tamanho ou categoria os brinquedos, sensação de que as coisas não estão no devido lugar/ordem) ou simplesmente refazer várias vezes para que fique perfeito ou completo (refazer os temas de casa, passar a limpo várias vezes as anotações de aula ou os cadernos, reler inúmeras vezes uma página ou um parágrafo para ter certeza de que entendeu tudo ou de que a letra está perfeita). Podem estar presentes pensamentos de conteúdo indesejado e repugnante (medo de xingar outras pessoas ou de dizer involuntariamente algo obsceno, medo de ser responsável por desgraças, como provocar um desastre de carro ou queda de avião por ter pensado ou sonhado). Outro sintoma com comorbidade com o TOC é a acumulação compulsiva (grande dificuldade em descartar brinquedos quebrados ou estragados, objetos sem valor como etiquetas, roupas que não servem, cadernos e folhas velhas, assim como embalagens vazias).

Também são comuns nas crianças e adolescentes as compulsões mentais: “atos” mentais como contar, repetir palavras, anular um pensamento “ruim” por um pensamento “bom”, com a finalidade de reduzir a ansiedade e o desconforto. Como são realizados em silêncio, muitas vezes passam despercebidos pelos familiares e demais pessoas.

TOC em crianças.4

ROTINA ALTERADA

A rotina diária da criança e do adolescente com TOC pode ser muito alterada pela doença. E eles próprios percebem seus comportamentos como estranhos e diferentes do comportamento dos seus colegas. Sentem vergonha e, muitas vezes, precisam disfarçar ou esconder-se para realizar seus rituais compulsivos.

O TOC causa sofrimento significativo, interfere no rendimento escolar, nas relações sociais e no funcionamento familiar. Os sintomas podem ser muito graves e incapacitantes, sendo acompanhados de medos acentuados, impedindo, por exemplo, a criança ou o adolescente de frequentarem a escola ou de conviverem com os colegas.

Esse transtorno acomete 2% a 3% dos indivíduos, o que seria em média 1 em cada 40 indivíduos, sendo que os familiares de 1° grau de portadores do TOC têm quatro vezes mais chances de desenvolverem a doença. Um estudo com 2.323 adolescentes de 14 a 17 anos, alunos do ensino médio, encontrou uma prevalência do TOC atual de 3,3%. É considerado uma doença multifatorial, que envolve questões genéticas e ambientais entre os fatores de risco. Os pacientes pediátricos apresentam geralmente pouco insight sobre a natureza de suas obsessões, que está associada à dificuldade de expressão verbal, o que torna o diagnóstico mais difícil, e são mais propensos a terem comorbidades como tiques, depressão maior, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e transtorno desafiador opositivo.

Um estudo multicêntrico no Brasil com 842 pacientes clínicos verificou que o início dos sintomas ocorreu um pouco mais cedo nos homens, em média aos 12,4 anos, e um pouco mais tarde em mulheres, aos 12,7 anos.

Outro estudo, realizado em Porto Alegre com adolescentes do ensino médio, verificou que apenas 9,3% dos que foram diagnosticados como tendo TOC sabiam da doença, e dentre estes apenas 6,7% haviam realizado algum tipo de tratamento. Ou seja, mais de 90% desconheciam o fato de terem TOC. É importante ressaltar que o diagnóstico e o tratamento precoces são essenciais para impedir o agravamento dos sintomas e aumentar as chances de uma remissão completa. Mesmo sendo altamente prevalente em crianças e adolescentes, o TOC, muitas vezes, não é percebido pela família, o que acarreta demora pela busca de tratamento. Um dos problemas para a identificação precoce do TOC se dá pela dificuldade de perceber os sintomas e descobrir quando já está interferindo gravemente na rotina da criança. Por esse motivo, poucos familiares conseguem descrever o momento exato em que a criança apresentou os primeiros sintomas. Além disso, para os pais é difícil separar o que é um comportamento normal do que é excessivo, ou quando os sintomas já estão graves (quando o filho leva muito tempo para se vestir, demora várias horas no banho, não quer mais dormir sozinho ou repete inúmeras vezes a mesma pergunta).

 ENTREVISTAS

A avaliação normalmente é feita em uma ou mais entrevistas, nas quais além da obtenção de informações são aplicadas escalas, como é o caso da Children’s Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale. No atendimento de crianças, a primeira entrevista costuma ser apenas com os pais (para colher o maior número de informações) e depois com a criança, quando, através do uso de desenhos, brinquedos e questionamentos adequados para a faixa etária, bem como por meio de material lúdico disponível, busca-se conhecer os sintomas (inclusive possíveis sintomas não percebidos pelos pais). Em pré-adolescentes que têm boa comunicação ou adolescentes, a entrevista inicial pode ser feita com eles, e num segundo momento com os pais, que por sua vez podem trazer informações mais precisas sobre o início dos sintomas, a interferência nos estudos, nas rotinas da família e na vida social do filho.

Os familiares são de extrema importância na vida da criança, e inevitavelmente sofrem e se envolvem nos sintomas. É fundamental que o terapeuta reserve momentos individuais dos pais e em conjunto (pais e paciente) para apoiá-la e passar as orientações adequadas ao longo do tratamento. Esse envolvimento e a participação dos membros da família nos rituais compulsivos, bem como a modificação no cotidiano da família em decorrência dos sintomas do TOC, chamam-se acomodação familiar (AF). Com alta prevalência encontrada em nosso meio, de 98,2%, ocorrendo em algum grau em praticamente todas as famílias.

No tratamento do TOC em crianças e adolescentes, tanto a terapia cognitivo-comportamental (TCC) quanto os psicofármacos inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) e a clomipramina são efetivos em reduzir os sintomas. De modo geral, recomenda-se combinar as duas modalidades de tratamento. A eficácia/efetividade da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para o TOC nessa faixa etária foi verificada em ensaios clínicos, numa revisão sistemática e em uma metanálise.

A TCC é a primeira escolha de tratamento em casos de crianças e adolescentes com TOC com sintomatologia de leve a moderada, ao passo que a farmacoterapia, preferencialmente associada à TCC, é a abordagem terapêutica de escolha nos casos de intensidade moderada a grave (<23 na CY-BOCS; 6 o u 7 na CGI) ou quando existe depressão associada. As técnicas de exposição e prevenção de resposta (ou de rituais) (EPR) são as estratégias cruciais para a maioria dos modelos propostos, embora muitos modelos, às vezes, acrescentem também estratégias cognitivas, especialmente quando os pacientes são adolescentes.

É fundamental que cada vez mais pessoas tenham conhecimento sobre esse transtorno, pois ele pode ter um impacto profundo na vida de crianças e adolescentes que estão em pleno desenvolvimento. A partir da experiência de uma década de pesquisa no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), é possível observar que apesar de muitos pacientes buscarem atendimento somente na idade adulta, relatavam ter seus sintomas iniciados ainda na infância ou adolescência. Isso reforça a importância de cada vez mais divulgar esse transtorno, pois o tratamento precoce pode evitar grande sofrimento ao indivíduo que, muitas vezes, sofre anos com os prejuízos causados pela doença sem saber que existe tratamento eficaz, que pode eliminar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

BASE DE ESTUDO

Por entender a importância da prevenção dos transtornos mentais e do tratamento precoce e conhecer a falta de materiais destinados a essa faixa etária, as autoras elaboraram um livro infantil com o objetivo de psicoeducar crianças/adolescentes e seus familiares, de forma clara e lúdica, sobre o que é o TOC e auxiliar na identificação dos sintomas. O livro TOC: Aprendendo Sobre os Pensamentos Desagradáveis e os Comportamentos Repetitivos também pode ser excelente ferramenta para ser utilizada pelos profissionais de saúde mental para psicoeducar o paciente quanto ao transtorno e ao tratamento na abordagem cognitivo-comportamental, pois, além de apresentar os principais tipos de sintomas comuns em crianças com TOC, ensina a maneira mais assertiva de responder aos sintomas, o que será trabalhado ao longo do tratamento.

É fundamental que cada vez mais as pessoas e os profissionais divulguem sobre o TOC, pois trata-se de um transtorno com ampla diversidade de sintomas, que causa prejuízos ao indivíduo e seus familiares, pois através do tratamento adequado pode-se reduzir e até eliminar por completo os sintomas do paciente, restabelecendo sua qualidade de vida.

TOC em crianças.2

REVISÃO DOS PENSAMENTOS NEGATIVOS

A terapia cognitivo-comportamental, conhecida por TCC, é uma linha da psicoterapia proposta e desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Aaron Beck, que preconiza a revisão dos pensamentos negativos por intermédio das informações obtidas ao longo da vida. O método reúne um conjunto de técnicas e estratégias terapêuticas. com o objetivo de transformar padrões de pensamento. Essa forma de terapia é extremamente efetiva no tratamento com crianças e adolescentes.

 TOC em crianças.3

CONFLITOS INCOSCIENTES

As técnicas de exposição e prevenção de resposta (EPR) foram pioneiras na abordagem psicológica no tratamento dos sintomas do TOC, que demonstraram ser muito efetivas. Começaram nos anos 60, devido à insatisfação com os resultados da Psicanálise e da psicoterapia de orientação psicanalítica, que não eram eficazes o suficiente, além de serem tratamentos muito longos. Contrariando a teoria psicodinâmica, que considerava aneurose obsessiva” consequência de conflitos inconscientes, esse modelo defendia que medos e ansiedade eram resultado de aprendizagens.

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PRESENÇA DE TDO

O conceito do chamado transtorno desafiador opositivo (TDO) pode ser definido como um padrão persistente de comportamentos hostis, desobedientes, negativos e desafiadores, como o próprio nome diz. Essas formas de conduta são observadas nas relações sociais da criança com adultos e figuras que representam autoridade de maneira geral, como pais, tios, professores e avós. Seus principais sintomas são os seguintes: discussões com adultos, recusa a obedecer regras, perda frequente de paciência, perturbação e implicância com as pessoas, podendo responsabilizá-las por seus maus comportamentos ou pelas próprias atitudes erradas. Os sintomas surgem nos mais variados ambientes. Contudo, em casa e na escola podem ser mais bem percebidos e, inclusive, diagnosticados. Esse quadro pode representar prejuízos significativos na vida social, escolar e ocupacional da criança ou adolescente. Quando não tratado, o TDO pode evoluir para o transtorno de conduta na adolescência, que tem como características graves violações dos direitos dos outros e das normas sociais.

 

CRISTIANE FLORES BORTONCELLO – é psicóloga (Ulbra), terapeuta com certificação pela FBTC, membro fundadora e presidente da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul (ATC- RS), gestão (2016-2019), mestre em Psiquiatria (UFRGS) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (lnfapa). Tem formação em Terapia de Casal (lnTCC.), em Terapia do Esquema (WP), treinamento intensivo em Terapia Comportamental Dialética. É membro do tecDbt – time de estudos e consultoria em DBT, professora do curso de especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência (lnTCC). Psicóloga dos grupos de tratamento para o TOC do Hospital de Clínicas de Porto Alegre de 2007 a 2014.

JULIANA BRAGA GOMES – é psicóloga e pedagoga formada pela PUC-RS, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (lnfapa), mestre em Ciências Médicas, Psiquiatria, doutora em Psiquiatria e Ciências do Comportamento – UFRGS: pesquisadora do Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtorno do Pânico e psicóloga dos grupos de tratamento para o TOC do Hospital de Clínicas de Porto Alegre de 2007 a 2014. Sócia fundadora e vice-presidente da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul (ATC-RS).

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A melhora na auto- estima, na atenção e o resgate de memórias estão entre os benefícios observados quando os pacientes são estimulados a usar pincel e tinta. Nas telas, eles registram parte do que não conseguem mais expressar por causa da doença.

Como a pintura alivia o alzheimer

Conforme o Alzheimer avança, o indivíduo se desconecta de sua realidade interna e externa. Do lado de dentro, aos poucos perde a lembrança do que fez minutos atrás, do que aconteceu semanas antes, até se esquecer de quem foi e de quem é. Do lado de fora, as dificuldades espelham o caos interno. Há limitações para reconhecer objetos, pessoas, as palavras começam a fugir e chega o momento em que elas não saem mais. A comunicação com o mundo ao redor cessa. Caracterizada pela morte progressiva de neurônios, a enfermidade não tem cura, mas alivio. Parte vem de remédios que retardam sua progressão. Outra está surgindo da arte.

Recentemente, o artista americano Neil Kerman, que desenvolve um trabalho usando a pintura como instrumento de terapia, esteve em São Paulo para mostrar resultados de sua experiência. Eles foram estampados na exposição Alzheimer’s Awareness a influência da arte e das cores como estímulo no tratamento da doença, e em atividades realizadas em centros de atendimento aos pacientes. “Minhas pinturas são repletas de cores vivas. Aos pacientes, o amarelo pode produzir excitação e o verde ou vermelho, prazer e felicidade”, disse o pintor. Sua visita à capital paulista foi organizada pela New York Contemporary Art Society com o apoio da Sinagoga Mishcan Menachen. A exposição dos quadros vai até dia 26, na Saphira e Ventura Galley.

Quando pincel, tinta e tela são colocados à frente do paciente, o impacto é igualmente interessante: a atenção se concentra, o esforço em executar o movimento desejado aumenta e lembranças brotam aqui e ali. Alguns podem precisar de ajuda extra no manejo do pincel, outros para encontrar a tinta. Mas todos de alguma forma conseguem expressar o que sentem e surgem referências guardadas em memórias que o cérebro afetado pela doença não consegue mais acessar.

Como a pintura alivia o alzheimer.2

ESTIMULO INTELECTUAL

Não há até agora um trabalho científico que retrate o que acontece nos circuitos neuronais nesses momentos. O que se deduz é que a atividade aciona estruturas como o hipocampo, onde ocorre parte do processamento da memória, e também estimule a formação de caminhos cerebrais alternativos que cumpram funções que os originais não fazem mais. Por enquanto, o que se sabe com certeza é que os benefícios são inquestionáveis em relação a progressos na auto- estima, comportamento social e memória.

Uma das investigações científicas mais recentes foi feita pela dupla sueca Boo Johansson e Emelie Miller, da Universidade de Gotemburgo. Depois de acompanharem a evolução de portadores estimulados a pintar, elas constataram que o recurso é usado com prazer pelos pacientes e, por meio dele, são obtidas vitórias na contenção da doença. “Qualquer tipo de estimulo intelectual ajuda. A arte entra no mesmo caminho”, afirma o neurologista Rubens Gagliardi, chefe adjunto da Clínica Neurológica da Santa Casa de São Paulo e coordenador dos Departamentos Científicos da Academia Brasileira de Neurologia.

Atividades que contemplam a pintura fazem parte do cotidiano de instituições que são referência no tratamento em todo o mundo. No Brasil, a estratégia também está sendo adotada em diversos centros, apresentando os mesmos benefícios. Porém, por aqui a pintura e toda forma de arte ainda vem sendo usada em intensidade menor do que a ideal.

 Como a pintura alivia o alzheimer.3 

TRAÇODE AGONIA

A análise da obra de grandes artistas ajuda a ciência a entender melhor como se dá a evolução da doença.

Uma das mais estudadas é a do pintor americano William Utermohlen (1933-2007). Após seu diagnóstico em 1995, ele criou auto- retratos por meio dos quais enxerga-se de que a maneira a enfermidade afetou sua habilidade técnica e tornou urgente sua necessidade de comunicação. Antes marcada por quadros que retratavam relações interpessoais em espaços ricamente ilustrados, a arte de Utermohlen deu espaço à expressão de sentimentos que revelam raiva, solidão. As cores ganharam tons sombrios. As pinceladas ficaram mais marcadas. É cedo para dizer de que maneira as informações podem ser usadas para refinar o diagnóstico – um ponto ainda desafiador -. mas a tormenta de Utermohlen, agora sob investigação científica, certamente ajudará na luta contra a doença.

GESTÃO E CARREIRA

A UBERIZAÇÃO DO TRABALHO NO SÉCULO XXI

Tarefas sob demanda ganham espaço em um mercado transformado pela automação e pela inteligência artificial.

A uberização do trabalho no século XXI

Na primeira metade do século XXI, o mundo do trabalho está em ebulição. Os impactos das transformações provocadas pela automação acentuada e pela inteligência artificial ainda são difíceis de mensurar – as previsões vão de cortes de 10% a 40% dos empregos atuais. Uma situação, porém, já faz parte do presente: as tarefas sob demanda, tendência já batizada de uberização do trabalho. A carreira dentro de uma única empresa ficou para trás, e as funções de média gerência estão desaparecendo num processo considerado sem volta. O designer Wallace Vianna, de 50 anos, viveu 13 anos sob o regime da carteira de trabalho, nascido com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com horário fixo, férias e 13° salário. Atualmente, é empregado de si mesmo, administra quatro contratos simultaneamente, convivendo com oscilação de renda de um salário mínimo (R$ 954) a cinco salários (R$ 4.770).

“Sou técnico, publicitário, contato, cuido da parte financeira e administrativa. Costumo oferecer um leque de opções para o cliente, como web designer, professor de design cubro férias de profissionais da área. O trabalho pode ser com carteira assinada ou não. Depende do que aparecer”, afirmou o profissional, formado em design pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Nesse novo mundo do trabalho, os empregos típicos da classe média vão diminuir, dizem analistas. Até mesmo profissões com status de doutor, como a de advogado ou médico, vão sofrer baques na empregabilidade. Leitura de peças processuais e análise de exames clínicos se darão com base em gigantescos bancos de dados, o big data, eliminando uma etapa da preparação do processo na Justiça e no diagnóstico do paciente.

“Está se criando um fosso entre os altamente qualificados e os de baixa qualificação. Cada vez se necessita menos dos médios qualificados. Onde havia gerentes que nos atendiam em agências de turismo e companhias aéreas, há sistemas. O trabalho das 9 horas às 18 horas tende a desaparecer. Vai ser controlado à distância, numa contratação mais precária, em prazos menores e com menos segurança”, disse o procurador do Trabalho Rodrigo Carelli, professor de Direito do Trabalho e de Direito e Sociedade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Atualmente, no Brasil, de um total de 8,2 milhões de empresas, 4,2 milhões não têm empregados. No setor de serviços, onde o trabalho de autônomos é mais intenso, esses negócios individuais chegam a representar 59,2%. Nesses casos, as relações de trabalho viraram relações empresariais.

Maria Luíza Abreu, como Vianna, trabalha dessa forma. Deixou o emprego de professora de geografia em 2013 e mudou de profissão. Aos 31 anos, dedica-se à produção de vídeos. Não tem horário fixo ou salário, mas prefere assim:

Segundo Nubler, uma questão crítica é como os ganhos de produtividade das inovações serão distribuídos. Isso será determinante para que haja geração de vagas em outras atividades a fim de compensar a perda em setores mais tradicionais. Ela prevê que o compartilhamento de ganhos com trabalhadores e consumidores aumentará a demanda por produtos domésticos, e o apoio a empreendedores criativos ajudará a abrir novas empresas.

O declínio do tempo de trabalho combinado com maior renda aumentará a demanda por bens e serviços de lazer. O investimento de ganhos de produtividade em políticas de educação, treinamento, ciência e tecnologia criará novas capacidades na força de trabalho e, assim, permitirá que as empresas entrem em novas indústrias. As novas tecnologias, robôs, algoritmos e softwares precisam ser desenvolvidos, projetados, produzidos e mantidos, e também a coleta e o uso de big data criarão novas ocupações e empregos.

A economista da OIT critica as escolhas econômicas do Brasil, que poderiam atrasar a inserção do país na cadeia global de tecnologia. “A estrutura de exportação do Brasil saiu dos produtos industriais e manufaturados, e a diversidade da economia, assim como sua complexidade, diminuiu.” Para Nubler, essas escolhas tiveram importantes efeitos no longo prazo, pois destruíram as oportunidades para a força de trabalho aprender e adquirir competências tecnológicas.

Em vez disso, a base de conhecimento do país tornou-se menos diversificada, e a sociedade perdeu capacidade de inovar e transformar sua economia, acredita Nubler. Capacidades de inovação limitadas impediram o Brasil de aproveitar as oportunidades que surgiram com a demanda global por eletrônicos durante os anos 2000 e 2010. Embora a demanda e a produção de eletrônicos estivessem crescendo globalmente, o Brasil não conseguiu atrair uma parcela significativa dessa indústria.

“Em vez de se concentrar apenas no sistema escolar formal, o Brasil precisa promover o aprendizado em diferentes lugares: escolas, universidades, centros de treinamento, sistemas de produção, indústrias, cadeias de valor globais, joint ventures, redes profissionais, redes sociais como comunidades e famílias. Em segundo lugar, o país precisa desenvolver uma visão de longo prazo da transformação produtiva e projetar um pacote abrangente de políticas públicas.” No mundo, discutem-se renda mínima universal e taxação de robôs. Enquanto não há políticas públicas no Brasil para minimizar os efeitos da automação no mercado de trabalho, Washington Costa deixa seu emprego de técnico de radiologia, contratado por meio de uma cooperativa, e continua a jornada como motorista de Uber no restante da semana. Com superior incompleto, consegue ganhar entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, adaptando-se às novas formas de trabalho: “Entrei para o Uber com objetivo de juntar dinheiro para concluir o curso mais avançado de radiologia, mas a crise está dificultando.”

O PERFIL DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Número de habitantes –  1998 – 158.232.252

                                                2018 – 209.024.648

Com 60 anos ou mais –   1998 –  8,8 %

                                              2018 – 14,6%

 Cor ou raça branca – 1998 –  54%

                                         2018 – 43,6%

 Cor ou raça preta – 1998 – 5,7%

                                      2018 – 8 6 %

Cor ou raça parda – 1998 – 39,5%

                                      2018 – 46,8%

 Sexo feminino – 1998 – 49%

                                2018 – 48,4%

 Sexo masculino – 1998 – 51%

                                   2018 – 51,6%

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE III

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

2. Aqui João Batista promove o nome de Cristo, e instrui seus discípulos a respeito dele, para que, em lugar de lamentar que tantos vêm até Ele, eles mesmos possam ir até Ele.

(1) Ele os instrui a respeito da dignidade da pessoa de Cristo (v. 31): ”Aquele que vem de cima”, que “vem do céu, é sobre todos”. Aqui:

[1] Ele considera a origem divina de Jesus, o fato de que Ele veio do alto, do céu, o que indica não somente sua origem divina, mas também sua natureza divina. Ele tinha uma existência anterior à sua concepção, uma existência celestial. Ninguém, senão aquele que veio do céu, estava capacitado para nos mostrar a vontade do céu, ou o caminho para o céu. Quando Deus desejou salvar o homem, Ele enviou alguém do alto, seu próprio Filho, Jesus Cristo.

[2] Disso, ele deduz a autoridade soberana de Jesus: Ele é sobre todos, sobre todas as coisas e todas as pessoas, Deus sobre todos, bendito para sempre. É uma presunção ousada disputar com Ele a precedência. Quando falamos das honras do Senhor Jesus, nós descobrimos que elas transcendem toda a concepção e expressão, e podemos dizer apenas isto: Ele é sobre todos. Sobre João Batista, está escrito: “Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (Mateus 11.11). Mas pelo fato de Cristo ter vindo do céu, Ele tinha uma dignidade sobre si, da qual não se despiu ao se tornar carne. Ele ainda é sobre todos. Isto João exemplifica ainda mais, pela insignificância daqueles que desejam competir com Ele: ”Aquele que vem da terra é da terra”. Aquele que tem sua origem na terra obtém da terra seu alimento, fala da terra e sua preocupação é com as coisas da terra. Observe que, em primeiro lugar, o homem surge da terra, não somente Adão, no princípio, mas nós também ainda somos formados do lodo, Jó 33.6. Considere a rocha de onde todos fomos cortados. Em segundo lugar, a constituição do homem é, consequentemente, terrena. Não apenas seu corpo é frágil e mortal, mas sua alma é corrupta e carnal, e sua tendência e inclinação são em direção às coisas ter renas. Os profetas e apóstolos eram feitos do mesmo molde que os outros homens. Eles eram apenas vasos terrenos, embora tivessem um rico tesouro guardado em si mesmos. E será que eles se levantariam como rivais de Cristo? E até admissível que os cacos contendam com os cacos da terra, mas é inadmissível que contendam com aquele que veio do céu.

(2) Ele os instrui a respeito da excelência e certeza da doutrina de Cristo. Seus discípulos estavam descontentes com o fato de que a pregação de Cristo era mais admirada, e atraía mais gente, do que a de João Batista. Mas ele lhes diz que havia uma boa razão para isto. Pois:

[1] Ele, de sua parte, falava da terra, e também o fazem todos os que são da terra. Os profetas eram homens, e falavam como homens. Por si mesmos, eles poderiam falar somente da terra, 2 Coríntios 3.5. A pregação dos profetas e a de João Batista era inferior e trivial, em comparação com a pregação de Cristo. Como o céu está nas alturas, acima da terra, assim os pensamentos de Cristo estavam acima dos deles. Por intermédio deles, Deus falava na terra, mas em Cristo, Ele falava do céu.

[2] Mas aquele que vem do céu não está somente na sua pessoa, mas também na sua doutrina, acima de todos os profetas que tinham vivido na terra. Ninguém ensina como Ele. A doutrina ele Cristo aqui nos é recomendada:

Em primeiro lugar; como infalivelmente segura e certa, e devendo ser recebida de maneira correspondente (v. 32): “Aquilo que ele viu e ouviu, isso testifica”. Veja aqui:

1. O conhecimento divino de Cristo. Ele testificava somente o que tinha visto e ouvido, aquilo de que estava perfeitamente informado e com o que estava completamente familiarizado. Aquilo que Ele revelava sobre a natureza divina e sobre o mundo invisível era o que Ele tinha visto. Aquilo que Ele revelava da mente de Deus era o que Ele tinha ouvido diretamente dele, e não em segunda mão. Os profetas testemunhavam o que lhes era dado a conhecer, em sonhos e visões, pela mediação dos anjos, mas não o que eles tinham visto e ouvido. João era a voz do que clama, que dizia: ”Abram caminho para a testemunha, e façam silêncio enquanto a acusação é feita”, mas agora ele deixa que a testemunha apresente pessoalmente seu testemunho, e que o juiz faça pessoalmente a acusação. O Evangelho de Cristo não é uma opinião duvidosa, como uma hipótese ou uma nova noção em filosofia, em que todos têm liberdade de crer ou não, mas é uma revelação do pensamento de Deus, que é verdadeiramente eterno em si mesmo, e de interesse infinito para nós.

2. Sua graça e bondade divinas: aquilo que Ele tinha visto e ouvido, Ele se alegrava em nos dar a conhecer, porque Ele sabia que isto nos interessava intimamente. Paulo não pôde dar testemunho daquilo que tinha visto e ouvido no terceiro céu (2 Coríntios 12.4), mas Cristo sabia como transmitir o que tinha visto e ouvido. A pregação de Cristo aqui é chamada de seu testemunho, para indicar:

(1) Sua evidência convincente. Não era transmitido como notícias, por meio de boatos, mas era testemunhado como uma evidência apresentada em tribunal, com grande atenção e exatidão.

(2) A seriedade amorosa com que o testemunho é dado: era dado com preocupação e persistência, como em Atos 18.5.

A partir da certeza da doutrina de Cristo, João aproveita:

[1] Para lamentar a infidelidade da maioria dos homens: embora Ele testemunhe aquilo que é infalivelmente verdadeiro, ninguém aceita seu testemunho, isto é, muito poucos, quase ninguém, em comparação com aqueles que o rejeitam. Eles não o recebem, não o ouvem, não prestam atenção a Ele, nem lhe dão crédito. Ele fala deste fato não somente como um motivo de espanto (Quem deu crédito à nossa pregação? Como é estúpida e tola a maior parte da humanidade, que grandes inimigos são de si mesmos!, mas como um motivo de tristeza. Os discípulos de João lamentavam-se por todos os homens irem a Cristo (v. 26). Eles julgavam que Ele tinha seguidores em excesso. Mas João, por sua vez, lamenta o fato de nem todos estarem seguindo o Senhor Jesus. Ele pensava que os seguidores de Cristo eram poucos. Observe que a incredulidade dos pecadores é a tristeza dos santos. Por este motivo, o apóstolo Paulo sentia grande tristeza, Romanos 9.2.

[2] Ele aproveita a ocasião para elogiar a fé do remanescente escolhido (v. 33): “Aquele que aceitou o seu testemunho”, e mesmo que poucos, havia alguns que o aceitavam, “esse confirmou que Deus é verdadeiro”. Deus é verdadeiro, mesmo que nós não confirmemos isto. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Esta verdade não precisa da nossa fé como seu sustento, mas, pela fé, trazemos honra e justiça a nós mesmos ao endossarmos esta verdade, e assim Deus se considera honrado. As promessas de Deus são todas sim e amém. Pela fé, nós damos nosso amém a elas, como em Apocalipse 22.20. Observe que aquele que recebe o testemunho de Cristo aceita não somente a verdade de Cristo, mas a verdade de Deus, pois seu nome é a Palavra de Deus. Os mandamentos de Deus e o testemunho de Cristo são reunidos, Apocalipse 12.17. Ao crer em Cristo, nós confirmamos, em primeiro lugar, que Deus é fiel a todas as promessas que Ele fez a respeito de Cristo, as quais Ele fez por intermédio da boca de todos os seus santos profetas. O que Ele prometeu aos nossos pais foi completamente cumprido, e nem um jota ou til caiu por terra, Lucas 1.70ss.; Atos 13.32,33. Em segundo lugar, que Ele é fiel a todas as promessas que fez em Cristo. Nós confiamos nossas almas à sinceridade de Deus, e nos sentimos satisfeitos porque Ele é fiel. Nós nos dispomos a lidar com Ele em confiança, e a abandonar tudo neste mundo em troca de uma felicidade que está fora do alcance da nossa visão. Com isto, nós honramos enormemente a fidelidade de Deus. Àquele a quem demos crédito, também damos honra.

Em segundo lugar, a doutrina de Cristo nos é recomendada como uma doutrina divina, não sua, mas daquele que o enviou (v. 34): ” Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus”, as que Ele foi enviado para falar; e foi capacitado para falar, “pois não lhe dá Deus o Espírito por medida”. Os profetas eram como mensageiros que traziam cartas do céu, mas Cristo veio como um embaixador e lida conosco como um embaixador, pois:

1. Ele falava as palavras de Deus, e nada do que Ele dizia tinha característica de fraqueza humana. Tanto o conteúdo quanto a linguagem eram divinos. Ele provou que era enviado de Deus (cap. 3.2), e, portanto, suas palavras devem ser recebidas como as palavras de Deus. Segundo esta regra, nós podemos provar os espíritos: aqueles que falam como oráculos de Deus, e profetizam de acordo com a proporção da fé, devem ser recebidos como enviados de Deus.

2. Ele falava como nenhum outro profeta, pois Deus não lhe dava o Espírito por medida. Ninguém pode falar palavras de Deus sem o Espírito de Deus, 1 Coríntios 2.10,11. Os profetas do Antigo Testamento tinham o Espírito, e em porções diferentes, 2 Reis 2.9,10. Mas enquanto Deus lhes dava o Espírito por medida (1 Coríntios 12.4), Ele o dava a Cristo sem medida. Toda a plenitude estava nele, a plenitude da Divindade, uma plenitude ilimitada. O Espírito não estava em Cristo como em um vaso, mas como em uma fonte, como em um oceano sem fundo. “Os profetas que tinham o Espírito de uma maneira limitada, somente com respeito a alguma revelação em particular, às vezes falavam de si mesmos. Mas aquele que tem o Espírito sempre residente em si, sem restrições, sempre falou as palavras de Deus”.

(3) Ele os instrui a respeito do poder e da autoridade com que Ele está investido, o que lhe dá a proeminência sobre todos os demais, e um nome muito mais excelente que o deles.

[1] Ele é o Filho amado do Pai (v. 35): “O Pai ama o Filho”. Os profetas eram fiéis como servos, mas Cristo, como um Filho. Eles eram empregados como servos, mas Cristo era amado como um Filho, sendo sempre “as suas delícias”, Provérbios 8.30. O Pai comprazia-se nele. Ele não somente o amou, mas Ele o ama. Ele continua com seu amor por Ele, mesmo no seu estado de humilhação, Ele não o ama menos, pela sua pobreza ou pelos seus sofrimentos.

[2] Ele é o Senhor de tudo. O Pai, como evidência do seu amor por Ele, todas as coisas entregou nas suas mãos. O amor é generoso. O Pai tinha tal complacência e tal confiança nele, que o constituiu como o grande feudatário, a quem foi confiada a humanidade. Tendo dado a Ele o Espírito sem medida, Ele lhe deu todas as coisas, pois Ele estava qualificado para ser o Mestre e Administrador de tudo. Observe que é para a honra de Cristo e o indescritível consolo de todos os cristãos, que o Pai colocou todas as coisas nas mãos do Mediador. Em primeiro lugar, todo o poder. Isto está explicado, Mateus 28.18. Todas as obras da criação foram colocadas sob seus pés, todos os assuntos da redenção foram colocados em suas mãos. Ele é o Senhor de tudo. Os anjos são seus servos, os demônios são seus prisioneiros. Ele tem poder sobre toda a carne, os gentios lhe são dados como sua herança. O reino da providência está entregue à sua administração. Ele tem o poder para definir os termos do concerto de paz como o grande plenipotenciário, para governar sua igreja como o grande legislador para dispensar favores como o grande doador de bênçãos, e para convocar todos a prestar contas como o grande Juiz. Tanto o cetro de ouro quando a vara de ferro foram colocadas nas suas mãos. Em segundo lugar, toda a graça é colocada nas suas mãos como o canal para transmissão. Todas as coisas, todas aquelas boas coisas que Deus pretendia dar aos filhos dos homens, a vida eterna e todos os seus preliminares. Nós não somos dignos de que o Pai coloque estas coisas em nossas mãos, pois nós nos tornamos os filhos da sua ira. Por isto, Ele indicou o Filho do seu amor para ser nosso fiduciário. E as coisas que Ele pretendia para nós, Ele coloca nas mãos do seu Filho, que é digno, e que merece tanto as honras para si mesmo quanto os favores para nós. Elas são colocadas em suas mãos, para serem dadas a nós por Ele. É um grande incentivo para a fé, que as riquezas do novo concerto sejam depositadas em mãos tão seguras, tão gentis, tão boas, as mãos daquele que as comprou para nós, e nos comprou para si mesmo. O Senhor Jesus Cristo é aquele que pode guardar tudo aquilo que Deus, o Pai, e os crentes concordaram em lhe entregar.

 

[3] Ele é o objeto daquela fé que se torna a grande condição da felicidade eterna, e nisto Ele tem a proeminência sobre todos os demais: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”, v. 36. Aqui temos a aplicação do que João tinha dito a respeito de Cristo e da sua doutrina, e a conclusão de todo o assunto. Se Deus colocou esta honra sobre o Filho, nós devemos, pela fé, honrá-lo. Assim como Deus oferece e entrega boas coisas a nós, pelo testemunho de Jesus Cristo, cuja palavra é o veículo dos favores divinos, também nós recebemos e participamos destes favores, crendo no testemunho e recebendo a palavra como verdadeira e boa. Esta maneira de receber responde adequadamente àquela maneira de dar. Aqui temos o resumo daquele Evangelho que deverá ser pregado a toda criatura, Marcos 16.16. Aqui temos:

Em primeiro lugar, a condição abençoada de todos os verdadeiros cristãos: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”. Observe:

1. É característico de todo cristão verdadeiro”. O que ele creia no Filho de Deus. Não somente creia nas suas palavras, creia que o que Ele diz é verdade, mas creia nele, consinta com Ele e confie nele. O benefício do verdadeiro cristianismo é nada menos que a vida eterna. Esta é a bênção que Cristo veio comprar para nós, e nos entregou: Ela não pode ser menos do que a felicidade que uma alma imortal sente na presença de um Deus imortal, e na comunhão com Ele.

2. Os verdadeiros crentes, mesmo agora, têm a vida eterna. Eles não somente a terão no futuro, mas a têm agora. Pois:

(1) Eles têm uma grande segurança quanto a esta preciosa promessa. Esta ação é selada e entregue a eles, e assim eles a possuem. Ela é colocada nas mãos do seu guardião, e assim eles a têm, embora seu uso ainda não seja transferido em forma de posse. Eles têm o Filho de Deus, e nele, a vida; e o Espírito de Deus é o penhor desta vida.

(2) Eles têm o privilégio de saboreá-la de antemão, na presente comunhão com Deus e nos sinais do seu amor. A glória que desfrutamos de antemão pode ser considerada uma grande graça.

Em segundo lugar, a condição vil e miserável dos incrédulos: ”Aquele que não crê no Filho” está condenado. A expressão inclui tanto a incredulidade como a desobediência. Um incrédulo é aquele que não dá crédito à doutrina de Cristo, nem está em sujeição ao governo de Cristo. Assim sendo, aqueles que não forem ensinados nem governados por Cristo:

1. Não podem ser felizes neste mundo, nem no vindouro: ele “não verá a vida”, aquela vida que Cristo veio para dar. Ele não se regozijará com isto, ele não terá nenhuma perspectiva confortável disto, nunca trará dentro de si a compreensão disto, exceto para agravar sua perda disto.

2. Não podem ser menos miseráveis: ”A ira de Deus sobre ele permanece”, sobre o incrédulo. Ele não apenas está sob a ira de Deus, que é tão seguramente a morte da alma quanto seu favor é a vida dela, mas a ira permanece sobre ele. Toda a ira que ele tem acarretado sobre si mesmo, produzida pela violação da lei, se não for removida pela graça do evangelho, está prestes a vir sobre ele. A ira de Deus, em razão de suas transgressões presentes, inflama-se e repousa sobre ele. Dívidas antigas permanecem não liquidadas, e novas dívidas são acrescentadas. Alguma coisa é feita a cada dia para encher a medida, e nada é feito para esvaziá-la. Deste modo, a ira de Deus permanece, pois é acumulada para o dia da ira.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ ESTÁ AQUI?

Tragados pela velocidade do mundo atual, encontramos cada vez mais dificuldades de nos focarmos no momento presente. A saída pode estar em tarefas simples, tais como escovar os dentes.

Você está aqui

A pergunta pode parecer estranha. Mas eu mesma tenho que me concentrar para ter a certeza de estar aqui, escrevendo esta coluna. Pior, me lembro de uma tarefa importante, paro e vou até ela. No caminho encontro aquele papelzinho com o telefone de uma paciente nova que aguarda um retorno meu para marcarmos uma consulta para amanhã. Não consigo retornar a ela porque aguardo uma confirmação de outro paciente sem a qual não consigo saber ao certo quais horários disponíveis terei para marcar a nova consulta. Volto a este texto. Releio a primeira frase. “Caramba, aquele paciente já devia ter me retornado!”. Pego o celular, entro no WhatsApp a fim de checar as mensagens. Não. Ele ainda não respondeu. Volto ao texto. Escrevo mais uma frase. O celular treme. Mensagem nova.

Finalmente o retomo que eu esperava. Volto ao texto com a urgência de uma colunista que está com seu prazo de entrega estourando. Releio as linhas até então produzidas e sou assaltada por um pensamento que diz: “Não posso me esquecer de dar um retorno àquela paciente nova!”. É quando a conclusão surreal se faz óbvia. Não, definitivamente não estou aqui. O que significa que estou escrevendo este texto como se estivesse em outra dimensão. Ou em várias delas, pra ser mais precisa.

É por isso que a pergunta expressa no título desta coluna se faz tão pertinente. Principalmente porque você, caro leitor, muito provavelmente ao longo deste parágrafo esteve tão ausente quanto eu. O que torna nosso encontro quase que um verdadeiro milagre! Não me lembro de, nas deliciosas aulas de Teoria Literária, ter lido algum artigo que falasse sobre a qualidade do texto que consegue resgatar o leitor de outras dimensões. Talvez porque, naquela época, tudo se resumisse à qualidade de um texto capaz de, simplesmente, prender a atenção desse leitor que estava aí no presente à espera de ser tocado, fisgado ou puramente entretido pelas palavras do autor.

É certo que vivemos cm um ritmo diferente – discos de vinil que saltaram da rotação 33 para a 78 -, mas tal velocidade tem nos imposto um preço, que é nossa dificuldade em parar. Sim, porque a vivência do presente depende da captura do instante. E na captura do instante, velocidade é igual a zero (V=O).

A ciência já reconhece a importância de focarmos nossa atenção no presente. Trata-se do conceito de mindfulness, que muitos, erroneamente, acreditam ter nascido a partir da Psicologia Positiva. Na verdade, embora amplamente discutido por pesquisadores desse movimento científico, o conceito de mindfulness parece ter sido introduzido na língua inglesa já em 1881. Uma outra confusão recorrente é a crença de que a única maneira de atingirmos o estado mindful (presença no aqui e agora) seja por meio da meditação mindfulness. De fato, esse tipo de meditação é muito útil e tem sido objeto de diversas pesquisas que a relacionam como eficaz na redução de estresse, ansiedade, dores crônicas etc.

Contudo, infelizmente, as evidências científicas nesse caso parecem não ser suficientes para incutir na sociedade ocidental, ou pelo menos na maioria dela, a disciplina necessária para uma prática diária meditativa.

Eu mesma, confesso, um tanto envergonhada, ser uma aprendiz rebelde e indisciplinada. Talvez por isso me compadeça daqueles que, a despeito de reconhecerem a importância do estado mindfulness, não conseguem aderir à meditação mindfulness. Para esses, vale salientar, entretanto, que existem outras práticas de mindfulness que simplesmente não incluem a meditação. Fazer uma refeição com atenção focada exclusivamente na experiência presente, obrigar-nos a escovar os dentes com a mão não dominante a fim de tirar-nos do “piloto automático” são pequenas inciativas que podem nos levar ao estado mindfulness, talvez preparando nosso cérebro para uma futura prática mais estruturada tal como a meditação.

Mas enquanto isso não ocorre, a “briga” para executarmos tarefas simples, tais como escrever (ou ler) um texto, continuará – ainda que, ao final, consigamos sair vencedores.

 

LILIAN GRAZIANO –  é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clinico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

A LEI QUE MATA MULHERES

No Brasil, 1,1 milhão de abortos clandestinos causam a morte de 11.000 brasileiras por ano. Essa é apenas uma das razões pelas quais alguns defendem a legalização do aborto.

A lei que mata mulheres

As últimas semanas foram recheadas de simbolismos para as mulheres. Na quinta-feira 14, a Câmara de Deputados da Argentina aprovou um projeto de lei que descriminaliza o aborto até a 14ª semana de gestação. A proposta se configura como um avanço inestimável. Um pouco antes, a Irlanda, radicalmente conservadora e católica, aprovou em um referendo a mudança da lei do aborto, até recentemente uma das mais restritivas do mundo. Quase 70% da população endossou a confiança nas mulheres e no seu direito de tomar as decisões certas sobre sua vida, nas palavras do primeiro-ministro, Leo Varadkar.

A ONU estabeleceu em 2000 o Projeto do Milênio, que propõe ações para reduzir a miséria no mundo. De maneira compreensível, uma das oito metas incluía medidas de valorização e proteção à mulher. Isso porque a cadeia intergeracional de transmissão da fome e da pobreza só pode ser quebrada quando os desprovidos, auxiliados por governantes dignos, conseguem propiciar a seus filhos níveis mais elevados de escolaridade, segurança física e psicológica no ambiente de crescimento, alimentação equilibrada e resistência às doenças transmissíveis. E, nas sociedades pobres, as mulheres têm um papel único, muitas vezes solitário, na concretização dessas aspirações. Aspirações que, sabe-se, são atingidas de forma mais exuberante e rápida quando a mãe, e não o pai, lidera a família.

Contrastando com a relevância de seu papel na superação da miséria, as mulheres têm seus direitos cerceados ou ignorados na maioria das nações. Por esse motivo, 70% dos pobres no mundo são do sexo feminino. Refletindo essa brutal desigualdade, 600 milhões de mulheres vivem em sociedades nas quais a violência doméstica não é reconhecida como crime. Nesses locais, que aceitam o “homicídio pela honra”, 38% dos assassinatos de mulheres são cometidos pelo marido ou por companheiro íntimo.

Ainda que ações significativas para reduzir as desigualdades de gênero tenham sido adotadas em muitos países, elas pouco avançaram no direito das mulheres de controlar sua vida reprodutora. Um tema obviamente sensível, por confrontar a maternidade desejada (sentimento inato e arrebatador da condição feminina) com a maternidade indesejada (aquela que o personagem Riobaldo, o jagunço-filósofo de Guimarães Rosa, descreveu como “um descuido prosseguido”), a prática do aborto voluntário é uma realidade desconfortável tanto por sua dimensão humana quanto por suas implicações médico-sociais. Segundo a OMS, cerca de 55 milhões de abortos são realizados por ano no mundo. Metade deles é executada de forma insegura, principalmente nos países que mantêm leis restritivas ao procedimento. No Brasil, estima-se que 1,1 milhão de abortos clandestinos sejam feitos anualmente. Em decorrência disso, no mesmo período, morrem 11.000 brasileiras por complicações do procedimento. O drama não é menor para as mulheres que sobrevivem: milhares delas ficam marcadas por sequelas psicológicas, esterilidade, lesões genitais incapacitantes ou infecções crônicas. Em breve, nosso país terá uma chance de mudar esse cenário dramático, quando o Supremo Tribunal Federal der início às audiências públicas para debater a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Já presenciei a angústia dessas mulheres. Fiquei marcado pela expressão de pavor de pessoas pobres que, sem opção, se submetiam a abortos imundos e de risco na periferia da cidade. Recorriam depois ao Hospital das Clínicas e, arrebentadas, aceitavam o momento de dor intensa, quando, também sem nenhuma opção, removíamos os restos fetais retidos em seu ventre. Essa e outras razões me levam a defender a legalização do aborto.

Em primeiro lugar, está claro que leis restritivas não impedem abortos, só aumentam o número de procedimentos clandestinos e inseguros. De acordo com a ONU, em 52 países com leis liberais, quase sempre os mais desenvolvidos, o número de abortos e de mortes associadas ao procedimento é 90% menor do que as taxas observadas em 82 nações, em geral pobres, que proíbem a intervenção. Obviamente, não é preciso explicar em qual lado estão as brasileiras – muitas vivendo nos primórdios da sua existência, incapazes de expressar seus sentimentos e vítimas da discriminação de gênero prevalente na nossa sociedade.

Em segundo lugar, reconheço o direito de outros que se postam contra o aborto legal, sob o argumento de que o embrião já é um ser vivo logo após o encontro de um espermatozoide com um óvulo. Contudo, essa interpretação nunca foi confirmada cientificamente. Ao contrário, constitui apenas uma ideia especulativa. Os dados científicos mais racionais que conheço mostram que o início da atividade elétrica do córtex cerebral do embrião ocorre após a vigésima semana de gestação, o que define o princípio da consciência mental. Dessa forma, os abortos realizados até a 12ª semana de gravidez apenas interromperiam o crescimento de um ser inanimado.

Em terceiro lugar, o aborto confunde-se com a história de nossa civilização, e é utópico imaginar que ele possa ser banido. Sempre existirão gestações indesejadas, ilegítimas, arriscadas ou inviáveis. Ao ignorarmos tal realidade, estaremos rejeitando o direito inegociável de qualquer ser humano, incluindo as mulheres, de governar sua vida. Ainda mais, o que esperar do futuro de uma gestação indesejada levada a cabo num país disfuncional como o nosso? Certamente, uma legião indecente de crianças rejeitadas, condenadas a viver em ambientes carentes e hostis, sem chance de usufruir a existência com dignidade.

Finalmente, não me parece razoável impor a toda a sociedade a posição dogmática de grupos religiosos contra o aborto. Essa atitude coercitiva apoia-se em conceitos filosóficos ou morais abstratos e alimenta certa hipocrisia quando ignora que o aborto nunca é uma opção prazerosa, mas quase sempre o único caminho que se põe à frente de uma mulher em situação de vulnerabilidade extrema.

Pedindo desculpas pela minha contundência, dirijo um olhar de reconhecimento às mulheres, cujo papel social se confunde com a superação da miséria no planeta e com o manto de aconchego da condição humana. Como médico e como cidadão, não consigo aceitar que a discriminação injusta de gênero prevalente nas sociedades patriarcais e a falta de assistência médica no parto ou as complicações do aborto inseguro matem anualmente 530.000 mulheres no mundo, quase todas em países pobres. No toque, enquanto nos países ricos a notícia de que um filho está por vir é muitas vezes o dia mais feliz de uma mulher, nos países pobres esse pode ser o dia em que morre uma mulher.

 

MIGUEL SROUGI – é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado em urologia pela Harvard Medical School e presidente do conselho do Instituto Criança É Vida.

 

GESTÃO E CARREIRA

O QUE VOCÊ DIZ OU NÃO DIZ

“As cores falam e influenciam muito na nossa imagem pessoal, elas desempenham um papel crítico na formação de opinião que os outros têm de você”

O que você diz ou não diz.

Imagine uma posição corporal que expresse segurança e liderança, como colocar as duas mãos na cintura de coluna ereta. Ou ainda erguer os dois braços para cima mostrando os músculos como um super-herói. Agora, permaneça nessa posição por cerca de dois minutos. Pronto, você diminuiu os níveis de cortisol do seu corpo e aumentou a testosterona, ficando mais ativo para realizar as atividades que precisa. Quem explica isso é a psicóloga social e professora de Harvard. Amy Cudy, em sua palestra para o TED Talks.

Esse é apenas um dos exemplos de como mudar a postura diante do mundo ajuda a ter uma rotina mais produtiva. Se essas alterações interferem internamente, imagine o que as nuances da comunicação não verbal podem fazer a seu favor diante de outras pessoas!

Um estudo do americano Ray Birdwhistell, mostrou que a linguagem corporal é responsável por 55% da mensagem transmitida enquanto a voz controla 38% e as palavras em si, ficam com apenas 7%.

No fim das contas, cada detalhe importa. Desde suas micro expressões faciais até a tonalidade de voz, o tipo de roupa que está vestindo e as cores que você escolhe. “As cores falam e influenciam muito na nossa imagem pessoal, elas desempenham um papel crítico na formação de opinião que os outros têm de você. Da mesma forma que elas podem passar confiança, podem também sabotar sua aparência. Por isso, é importante saber o que usar em determinadas ocasiões para que não passe uma imagem contrária ao que deseja”, explica a consultora de moda Gil Paes.

Já a consultora de comunicação e imagem Gislaine Westphal conta que existem diversos estudos científicos comprovando a influência da cor no marketing, na decoração e no humor. “Um detalhe importante: não é somente escolher a cor. Existe também a análise cromática, um teste realizado na pessoa, por meio de tecidos, em que descobrimos se a pele dela é quente, fria ou neutra. A partir daí, podemos dizer qual tom de azul ela pode usar, por exemplo. Estudos mostram que existem tons diferenciados de pele e uma gama de opções que podem ressaltar os defeitos, apagar a pessoa, deixá-la pálida ou potencializar o que ela tem de melhor”, completa.

NEGÓCIO FECHADO!

Na hora de assinar o contrato, passar uma imagem de segurança é fundamental. Na dúvida, uma roupa social na cor azul desperta confiança e respeito e, portanto, é mais fácil acertar. “Para os homens que usam temo e gravata, a escolha da cor da gravata é essencial. As vermelhas são muito usadas por políticos devido à cor contribuir para que as pessoas escutem seu discurso”. conta Gil. Entre as sugestões de composição em azul para homens, se a empresa tiver um perfil mais formal, ternos nas cores chumbo, marrom e azul-marinho são convidativos. Para completar, uma camisa em tom mais claro e sapato combinando com o cinto. Agora, se o contrato será assinado por um parceiro com estilo informal, blazer com calça social é o mais indicado. Calça jeans está liberada se for escura, com uma camisa social e blazer.

Já as mulheres podem optar por terninhos azul-marinho e camisa em tom mais claro, por exemplo. Um vestido mídi azul-marinho e scarpin preto também são uma boa pedida. Outra saída é a saia mídi preta, camisa azul marinho, blazer vermelho – combinando com o escuro, passa a imagem de segurança e credibilidade – e scarpin preto. Por outro lado, evite estampas e acessórios em excesso. Um look infalível? Gil dá a dica! Para os homens, calça social, camisa arrumada e sapato combinando com cinto. As mulheres podem vestir calça social ou alfaiataria e um sapato com salto, diz.

Seja qual for sua escolha na hora de vestir as peças, lembre-se de que a roupa não faz milagre sozinha. O contexto de detalhes pode ser decisivo na hora de assinar o contrato. A decisão daquilo que você veste indica também características da sua identidade, que é importante no ambiente de trabalho e até para fechar o negócio. Descobrir seu próprio estilo deve ser sempre o ponto de partida para depois adequar a dicas e padrões. “Hoje, o que mais procuramos são pessoas autênticas em quem podemos confiar. Quando vemos incoerência na imagem (algo inconsciente), passamos a desconfiar, porque tem um ruído na comunicação não verbal”, completa Gislaine.

No mercado financeiro, em ambientes mais rígidos e tradicionais, é seguro apostar em cortes mais retos nas roupas, linhas verticais e cores mais neutras ou escuras. “Essas cores são assertivas para fechar negócios, pois passam credibilidade, profissionalismo e equilíbrio emocional”, indica ainda a consultora de imagem e estilo Rita Heroína.

Ela ainda explica que um bom paletó com calça ou terno de duas peças funcionam bem, desde que sejam evitados materiais sintéticos. Vale mais a pena, por exemplo, investir em 100% lã fria.

Outro look que cai bem é camisa xadrez, verde escura, calça preta e blazer preto. Uma bela calça xadrez escuro de alfaiataria, camisa de seda off White de botões podem ser infalíveis para as mulheres.

DIA A DIA

Não é apenas na hora de fechar negócio que um look bem montado e com as cores certas faz diferença. A rotina de trabalho também pode ser melhor quando você transmite a mensagem certa. As cores mais escuras, por exemplo, são ótimas escolhas para falar em público ou em alguma reunião onde é preciso que as pessoas ouçam você com atenção, já que passam credibilidade e seriedade.

Gislaine lembra ainda que, da cintura para baixo, o ideal é sempre vestir cores escuras ou neutras, a não ser que seja algum tipo de peça de alfaiataria com excelente forro. Calças claras podem marcar muito as roupas de baixo. “Segundo pesquisas, as cores mais apreciadas no ambiente profissional são as verde, preto, violeta, rosa, branco, vermelho, laranja e amarelo”, conta.

Já se o objetivo for de interação em equipe ou um momento mais casual dentro da empresa, cores claras são essenciais, por darem a sensação de proximidade. Os tons pastel, branco e nude são as sugestões de Gil, compostos com tons médios ou escuros para que não passem a mensagem de fragilidade. Ao mesmo tempo. o claro revela pequenos defeitos, sujam com facilidade e ficam amarelados. Por isso, é preciso tomar ainda mais cuidado com a qualidade dessas peças na hora da compra. Independentemente do momento, se o que você quer passar é confiança, além do já citado azul, preto e cinza funcionam bem, sendo apostas seguras e que dão possibilidades fáceis de combinação. No caso específico do preto, tome apenas cuidado com o tipo de peça que vai selecionar para não passar do clássico elegante que transmite poder para o mistério excessivo e até luto. O verde também pode ser algo bem aceito, por transmitir uma sensação boa de esperança – um respiro a ideias novas, porém confiáveis.

Em geral, as escuras são mais indicadas para o ambiente empresarial, por serem percebidas como fortes e de autoridade. O cuidado nas pequenas atitudes deve estar em não transmitir uma rigidez excessiva. Porém, cores intermediárias podem ser uma opção para quem quiser variar, considerando que são percebidas como tradicionais.

O que você diz ou não diz.2 

COMO DECIDIR?

Você sabia que a maneira como a cor é exposta pode causar reações físicas?

  • Tons específicos: amarelo e vermelho juntos, por exemplo, dão a sensação de fome. Na hora de escolher o que vai usar no ambiente de trabalho, também vale a pena pensar no tipo de sensação que você quer transmitir.

 

  • Reunião de negócios: cores marcantes, porém em um look mais clean, comum vermelho ou verde em uma gravata, uma camisa social mais clara e um terno chumbo ou preto. Para mulheres, uma camisa social ou blusa social mais viva, como vermelho, amarelo ou rosa, porém em tons escuros e a parte de baixo neutra. Se é a primeira reunião, opte pelas cores sóbrias e as mais aceitas, como o azul e suas diversas variações ou uma camisa branca com lenço.

 

  •  Fechamento de contrato: Prefira tons de azul mais escuro e

 

  • Almoço de negócios: cores claras e vivas.

 

  •  Conversas delicadas, como mudar, o valor do escopo: Prefira branco, azul ou preto, pois são cores mais aceitas e neutras. Algumas pessoas optam pelo amarelo, que é a corda criatividade, porém ele é também contraditório e, dependendo do contexto, pode ser um tiro no pé, chegando a irritar a outra pessoa.

 

  • Evitar: o marrom mais claro. Não transmite boas sensações. Nesse caso, opte pelo marrom bem escuro.

O que você diz ou não diz.3 

SAIA, DECOTE, TRANSPARÊNCIA

Para além do conservadorismo, essas características não são indicadas no ambiente de trabalho porque, assim como o excesso de acessórios ou cores gritantes, podem chamar atenção para outras coisas que não aquilo que está sendo realizado. Considerando que a maior parte da comunicação não está nas palavras, quanto menos você puder distrair a pessoa com quem dialoga, melhor. Se optar por uma blusa transparente, por exemplo, prefira utilizar com uma segunda pele por baixo. Isso significa que, mesmo escondendo esses itens, busque harmonizar com peças mais sutis.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE II

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

V -Aqui está a resposta de João às queixas que seus discípulos fizeram, v. 27ss. Seus discípulos esperavam que ele se ofendesse com esse fato, como eles, mas a manifestação de Cristo para Israel não era surpresa para João, porém o que ele procurava; não era uma perturbação para ele, mas era o que ele desejava. Por isso, reprovou a queixa, como Moisés: “Tens tu ciúmes por mim?” E aproveitou a ocasião para confirmar os testemunhos que tinha dado anteriormente de Cristo como superior a ele, alegremente entregando e confiando a Ele todos os interesses que tinha em Israel. Neste discurso, o primeiro ministro do evangelho (porque João o era) é um excelente exemplo para todos os ministros, para que se humilhem e exaltem ao Senhor Jesus.

1. João aqui se humilha em comparação a Cristo, vv. 27-30. Quanto mais os outros nos exaltarem, mais deveremos nos humilhar e nos fortalecer contra as tentações de lisonja e aplauso, e a inveja dos nossos amigos pela nossa honra, ao nos lembrarmos de nosso lugar e do que somos, 1 Coríntios 3.5.

(1) João concorda com a disposição divina e se satisfaz com ela (v. 27): “O homem não pode receber coisa alguma, se lhe não for dada do céu”, de onde “toda boa dádiva vem” (Tiago 1.17), uma verdade comum muito aplicável a este caso. Diferentes aplicações estão de acordo com as orientações da Providência divina, diferentes dons são distribuídos de acordo com a graça divina. “Ninguém toma para si essa honra”, Hebreus 5.4. Nós temos uma dependência tão necessária e constante da graça de Deus em todos os movimentos e ações da vida espiritual como temos da providência de Deus em todos os movimentos e ações da vida natural. Isto é apresentado aqui como uma razão:

[1] Por que não devemos invejar aqueles que possuem muito mais dons do que nós, ou se movimentam em uma esfera de utilidade mais ampla. João relembra seus discípulos de que Jesus não o teria superado dessa maneira, a menos que tivesse recebido do céu, porque, como homem e Mediador, Ele recebeu dons. E se Deus lhe deu o Espírito sem medida (v. 34), eles deveriam reclamar por isto? A mesma razão vale para com os outros. Se Deus quer dar aos outros mais habilidade e sucesso do que a nós, será que devemos ficar descontentes com isso, e criticá-lo como sendo injusto, imprudente e parcial? Veja Mateus 20.15.

[2] Por que não devemos estar descontentes, mesmo que sejamos inferiores aos outros em dons e utilidade, e sejamos ofuscados por seus méritos. João estava pronto para reconhecer que era um dom, um dom espontâneo do céu, que o fez um pregador, um profeta, um batista. Foi Deus que lhe deu o interesse que despertou no amor e estima das pessoas. E se agora o interesse diminuiu, seja feita a vontade de Deus! Aquele que dá, pode tomar. Aquilo que recebemos do céu, devemos receber como nos foi dado. João nunca tinha recebido uma comissão para realizar um trabalho eterno, mas somente uma incumbência temporária, que logo terminaria, e, portanto, quando ele tivesse terminado seu ministério, poderia alegremente vê-lo ultrapassado. Alguns dão um sentido bem diferente a estas palavras: João tinha se esforçado perante seus discípulos, para ensiná-los a importância que seu batismo tinha para Cristo, que viria após ele, e que tinha a preeminência sobre dele. O Senhor Jesus Cristo faria por eles o que João não poderia fazer, e ainda assim, afinal, eles idolatraram João e relutaram em reconhecer a preeminência de Cristo sobre ele. Bem disse João, “o homem não pode receber”, isto é, compreender, “coisa alguma, se lhe não for dada do céu”. A tarefa dos ministros será totalmente perdida, a menos que a graça de Deus a torne efetiva. Os homens não entendem o que é mais explicado, nem acreditam no que é mais evidente, a menos que lhes seja concedido do céu que entendam e acreditem nisto.

(2) João recorre ao testemunho que tinha dado anteriormente a respeito de Cristo (v. 28): “Vós mesmos me sois testemunhas de que disse, repetidas vezes: Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele”. Veja como João era firme e constante no seu testemunho a respeito de Cristo. João não era como uma cana agitada pelo vento. Nem as censuras dos principais dos sacerdotes, nem as adulações dos seus próprios discípulos poderiam fazê-lo modificar suas palavras. Isto serve:

[1] Como uma condenação dos seus discípulos, pela irracionalidade da sua queixa. Eles tinham falado do testemunho que seu mestre tinha dado a respeito de Jesus (v. 26): “Agora”, João disse, “vocês não lembram qual foi o testemunho que eu dei? Lembrem-se, e verão sua própria crítica respondida. Eu não tinha dito: Eu não sou o Cristo? Por que, então, vocês me colocam como um rival daquele que realmente o é? Eu não tinha dito: Eu sou enviado adiante dele? Por que, então, parece estranho a vocês que eu me afaste e dê passagem a Ele?”

[2] Como um consolo para si mesmo, pelo fato de nunca ter dado aos seus discípulos nenhuma oportunidade de colocá-lo em competição com Cristo, mas, ao contrário, ele os tinha particularmente advertido contra este engano, embora ele pudesse ter obtido benefícios para si. E uma satisfação para os ministros fiéis quando fazem tudo o que poderiam para evitar quaisquer extravagâncias com que seu povo possa se deparar. João não somente não os tinha incentivado a esperar que ele fosse o Messias, mas lhes tinha dito claramente o contrário, o que agora representava uma satisfação para ele. E uma desculpa comum daqueles que recebem honras indevidas: Se o povo quer ser enganado, que seja. Mas esta é uma máxima ruim para aqueles cujo trabalho é mostrar o erro do povo. “O lábio de verdade ficará para sempre”.

(3) João professa a grande satisfação que teve com a manifestação de Cristo e o interesse que Ele desperta. João estava tão longe de lamentar isto, como faziam seus discípulos, que se alegrava com isto. Ele expressa isso (v. 29) com uma comparação elegante.

[1) Ele compara nosso Salvador ao esposo: “Aquele que tem a esposa é o esposo”. Todos os homens vão a Ele? Está certo, para onde iriam eles? Ele alcançou o trono das afeições dos homens? Quem mais o teria? E seu direito. A quem deve ser trazida a esposa, senão ao esposo? Cristo tinha sido profetizado no Antigo Testamento como um esposo, Salmos 45. O Verbo se fez carne, para que a disparidade da natureza não fosse um obstáculo ao enlace. Existe uma provisão para a purificação da igreja, para que a depravação do pecado não seja um obstáculo. Cristo se casa com sua igreja. Ele tem a esposa, pois Ele tem seu amor, Ele tem o compromisso dela. A igreja está sujeita a Cristo. Enquanto as almas individual­ mente são devotadas a Ele em fé e amor, também o es­ poso tem a esposa.

[2] Ele se compara ao amigo do esposo, que o assiste, que o honra e serve, que o ajuda a proceder o casamento, fala bem dele, usa seus recursos para seu benefício, alegra-se quando o casamento acontece, e, acima de tudo, quando se chega ao ponto desejado, quando o amigo recebe a esposa. Tudo o que João tinha feito pregando e batizando era para apresentá-lo, e agora que Ele chegou, João tem aquilo que desejava: “O amigo do esposo está ali (ver são NTLH), e o ouve. Está ali esperando-o. Alegra-se com a voz do esposo, porque Ele veio às bodas depois de ter sido esperado por muito tempo”. Observe que, em primeiro lugar, os ministros fiéis são amigos do esposo, para recomendá-lo aos interesses e escolhas dos filhos dos homens; para trazer mensagens dele, pois Ele corteja por procuração, e nisto devem ser fiéis a Ele. Em segundo lugar, os amigos do esposo devem estar ali, e ouvir sua voz; devem receber dele suas instruções e cumprir suas ordens; devem desejar ter provas de que Cristo fala neles, e com eles (2 Coríntios 13.3). Esta é a voz do esposo. Em terceiro lugar, o casamento das almas com Jesus Cristo, em fé e amor, é o cumprimento da alegria de todo bom ministro. Se o dia das bodas de Cristo for o dia do júbilo do seu coração (Cantares 3.11), este não pode deixar de ser também o dia do júbilo daqueles que o amam e que têm bons desejos em relação à sua honra e ao seu reino. Eles certamente não terão uma alegria maior.

(4) João reconhece que é altamente adequado e necessário que a reputação e o interesse que Cristo desperta progridam, com a diminuição da sua reputação e do interesse que ele desperta (v. 30): “É necessário que ele cresça e que eu diminua”. Se eles se lamentam com a grandeza crescente do Senhor Jesus, eles terão ainda mais oportunidades para lamentar, como têm aqueles que se permitem invejar e imitar. João fala do crescimento de Cristo e da sua própria diminuição, não somente como necessários e inevitáveis, o que não pode ser impedido, e, portanto, deve ser suportado, mas como altamente justo e agradável, e que lhe proporciona completa satisfação.

[1) Ele estava muito satisfeito por ver o reino de Cristo avançando: “Ele deve crescer. Vocês pensam que Ele conseguiu muita coisa, mas isto não é nada em comparação com o que Ele irá conseguir”. Observe que o reino de Cristo é, e será, um reino crescente, como a luz da aurora, como o grão de mostarda.

[2) Ele não estava nem um pouco descontente com o fato de que o efeito disto seja a diminuição do interesse que ele desperta: “Eu devo diminuir”. As excelências criadas estão sujeitas a esta lei, elas devem diminuir. “A toda perfeição vi limite”. Observe que, em primeiro lugar, o brilho da glória de Cristo eclipsa o brilho de qualquer outra glória. A glória que compete com a de Cristo, a glória do mundo e da carne, decresce e perde terreno na alma à medida que o conhecimento e o amor de Cristo crescem e ganham terreno. Mas aqui se fala daquilo que é subserviente a Ele. À medida que a luz da manhã aumenta, a da estrela da manhã diminui. Em segundo lugar, se nossa diminuição ou humilhação podem, pelo menos, contribuir para a promoção do nome de Cristo, nós devemos nos submeter a elas com alegria, e estar satisfeitos por sermos alguma coisa, ou até mesmo por não sermos nada, para que Cristo possa ser tudo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MENTIROSOS INATOS

Por que mentimos, e por que somos tão bons nisso? A resposta é simples: porque funciona.

Mentiros Inatos

A dissimulação atravessa toda a história da humanidade, nutrindo a literatura desde o astuto Ulisses de Homero aos livros de maior sucesso popular de hoje. Uma ida ao cinema, e é grande a probabilidade de que o filme aborde alguma forma de ardil. Tais histórias talvez nos sejam muito fascinantes porque o mentir permeia a vida humana.

Mentir é uma habilidade que brota das profundezas de nosso ser, e nós a usamos sem cerimônia. Como escreveu o grande observador americano Mark Twain há mais de um século: “Todos mentem… todo dia, toda hora, acordado, dormindo, em sonhos, nos momentos de alegria, nos momentos de tristeza. Ainda que a boca permaneça calada, as mãos, os pés, os olhos, a atitude transmitem falsidade”. Enganar é fundamental para a condição humana.

A convicção de Twain é validada por pesquisa. Um bom exemplo é um estudo realizado em 2002 pelo psicólogo Robert S. Feldman, da Universidade de Massachusetts, em Amherst. Feldman filmou em vídeo estudantes que haviam sido solicitados a conversar com desconhecidos. Posteriormente, pediu que analisassem as fitas e calculassem o número de mentiras que haviam contado. Uma considerável porcentagem de 60% admitiu ter mentido pelo menos uma vez durante os dez minutos de conversação, e a média do grupo nesse período foi de 2,9 inverdades. As transgressões variaram de exageros propositais a mentiras deslavadas. O interessante é que, embora homens e mulheres tenham mentido com a mesma frequência, Feldman constatou que as mulheres pareceram mais propensas a mentir para fazer com que o desconhecido se sentisse bem, enquanto os homens mentiram mais para se valorizar.

Em outro estudo dos anos 90, realizado por David Know e Caroline Schacht, ambos agora na Universidade da Carolina do Leste, 92% de estudantes universitários confessaram ter mentido para uma parceira sexual, atual ou anterior, o que fez os pesquisadores se perguntarem se os restantes 8% também não teriam mentido. E, embora há muito se saiba que os homens tendem a mentir sobre o número de suas conquistas sexuais, pesquisa recente mostra que as mulheres tendem a minimizar seu grau de experiência sexual.

Quando solicitadas a preencher questionários sobre seu comportamento e postura sexual, as mulheres que foram ligadas a um detector de mentiras fictício relataram ter tido o dobro de casos que as que não foram, demonstrando as últimas menos honestidade em suas respostas. É irônico que os pesquisadores tenham tido de usar de um artifício enganoso para conseguir delas a verdade.

Tais referências são apenas alguns dos muitos exemplos do hábito de mentir que apimentam os registros científicos. E ainda assim a pesquisa a respeito quase sempre focaliza o mentir em seu sentido mais estreito – literalmente dizer coisas que não são verdadeiras. Mas nosso fetiche vai muito além da falsidade verbal. Mentimos por omissão e por intrincadas sutilezas. Estamos também empenhados em incontáveis formas de tapeações não verbais: usamos maquilagem, perucas, cirurgias cosméticas, vestuário e outras formas de adorno para disfarçar nossa verdadeira aparência e fragrâncias artificiais para dissimular os odores de nosso corpo. Choramos lágrimas de crocodilo, fingimos orgasmos, disparamos “bom dia!” com sorrisos falsos. Mentiras verbais são apenas uma pequena parte da vasta tapeçaria de falsidade humana.

A pergunta óbvia que todo esse relato suscita é, por que mentimos com tanta facilidade? E a resposta, porque funciona. O Homo sapiens, que melhor consegue mentir leva vantagem sobre seus pares na luta incansável para o sucesso reprodutivo que move a máquina da evolução. Como humanos, devemos nos enquadrar em um sistema social fechado para sermos bem-sucedidos, ainda que nosso alvo principal seja nos colocarmos acima de todos os demais. Mentir ajuda. E mentir para nós mesmos – um talento desenvolvido por nosso cérebro – ajuda-nos a aceitar nosso comportamento fraudulento.

PASSAPORTE PARA O SUCESSO

Se essa verdade crua nos incomoda, podemos encontrar certo consolo ao pensar que não somos a única espécie a explorar a mentira. Plantas e animais comunicam-se entre si por sons, rituais exibicionistas, cores, aromas e outros métodos, e os biólogos ingenuamente chegaram a supor que a única função desses sistemas de comunicação fosse transmitir informações precisas. Quanto mais aprendemos sobre essas espécies, mais claro fica o quanto se esforçam para enviar mensagens imprecisas.

A orquídea Ophry speculum, por exemplo, exibe lindas flores azuis que se assemelham a vespas do sexo feminino. A flor também fabrica um coquetel químico que simula os feromônios liberados pelas fêmeas para atrair parceiros. Essas pistas visuais e olfativas mantêm os pobres machos na flor o tempo suficiente para garantir que uma boa quantidade de pólen seja aderida ao corpo até que voem para tentar a sorte no disfarce de outra orquídea. É claro que a orquídea não tem a intenção de enganar a vespa. A camuflagem faz parte de seu desenho físico porque, no decorrer da história, as plantas com essa capacidade conseguiram transmitir com mais facilidade seus genes. Outros seres também empregam estratégias enganadoras. Quando um predador se aproxima da inofensiva cobra Heterodon platyrbino, o formato de sua cabeça muda, ela se transveste em peçonhenta e, sibilando ameaçadoramente, se posta como se fosse atacar, mantendo, contudo, a boca discretamente fechada.

Esses casos e outros mostram que a natureza favorece o engodo por vantagens de sobrevivência. Os artifícios se tornam mais sofisticados quanto mais próximo se chega ao Homo sapiens na cadeia evolutiva. Reflita sobre esse incidente entre Mel e Paul.

Mel cavava furiosamente com as mãos o rochoso solo etiopiano para extrair um tipo de bulbo grande e suculento. Estavam na estação da seca, e a comida era escassa. Esses bulbos comestíveis, parecidos com os da cebola, são o principal alimento durante os longos e difíceis meses da estação. O pequeno Paul estava sentado a pouca distância de Mel e observava seu trabalho. A mãe o deixara brincando na grama, e, embora não estivesse à vista, Paul sabia que ela o ouviria se precisasse dela. Quando Mel finalmente conseguiu, com um puxão, arrancar seu prêmio da terra, Paul soltou um grito estridente de abalar a paz da savana. A mãe voou para ele. Coração disparado e adrenalina a toda, ela entrou em cena e rapidamente avaliou a situação: Mel havia obviamente ameaçado seu querido filho. Aos berros, ela irrompeu sobre a desnorteada Mel, que largou o bulbo e fugiu. O esquema de Paul estava completo. Após uma olhada furtiva para ter certeza de que ninguém estava vendo, avançou sobre o bulbo e começou a comê-lo. O truque deu tão certo que ele o usou várias vezes antes que alguém percebesse.

Os atores nesse drama da vida real não eram pessoas. Eram macacos babuínos chacma, descritos, em 1987, pelos primatologistas Richard V. Byrne e Andrew Whiten, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, em um artigo da revista New Scientist. O fato foi posteriormente recontado no livro de Byrne, de 1995, The thinking ape. Em 1983 Byrne e Whiten começaram a notar táticas enganosas entre os babuínos das montanhas em Drakensberg, África do Sul. Os primatas “Catarrhini”, grupo que inclui os macacos do Velho Mundo e nós mesmos, são todos capazes de taticamente ludibriar membros de sua própria espécie. Não é com a aparência que enganam, como a da orquídea citada, nem com rotinas comportamentais, como as da cobra. O repertório dos primatas é calculado, flexível e muito sensível aos contextos de mudança social.

Byrne e Whiten catalogaram muitas dessas observações e a partir delas desenvolveram sua celebrada hipótese de inteligência maquiavélica. Segundo essa teoria, a extraordinária explosão da inteligência na evolução dos primatas foi impulsionada pela necessidade de dominar formas cada vez mais sofisticadas de trapaças e manipulações sociais. Os primatas tiveram de ficar espertos para acompanhar o desenvolvimento do jogo social. A hipótese da inteligência maquiavélica sugere que a complexidade social impulsionou nossos ancestrais a se tornarem cada vez mais inteligentes e adeptos a alterar rotas, negociar, blefar e conluir. Isso significa, que ser mentiroso é inato aos humanos. E, em linha com outras tendências evolucionárias, nosso talento para dissimulação supera o de nossos parentes mais próximos em várias ordens de grandeza.

A coreografia complexa do jogo social permanece central em nossa vida hoje. Aqueles que melhor enganam continuam a acumular vantagens negadas a seus pares mais honestos ou menos competentes. A mentira nos ajuda a facilitar interações sociais, manipular os outros e fazer amigos. Existe até uma correlação entre popularidade social e habilidade de enganar. Falsificamos nossos currículos para conseguir emprego, plagiamos trabalhos para melhorar nossas médias escolares e iludimos potenciais parceiros sexuais para seduzi-los à cama. Pesquisas mostram que os mentirosos conseguem com mais frequência obter emprego e atrair pessoas do sexo oposto para relacionamento. Vários anos depois, Feldman demonstrou que os adolescentes mais populares na escola são também os melhores a enganar seus pares. Mentir continua a funcionar. Embora arriscado mentir o tempo todo (lembre-se do destino do menino que gritou, “Lobo!”), mentir frequentemente e bem continua sendo um passaporte para o sucesso social, profissional e econômico.

ENGANANDO A NÓS MESMOS

Ironicamente, a principal razão de sermos tão bons para mentir aos outros é que somos bons para mentir a nós mesmos. Há uma estranha assimetria em como partilhamos a desonestidade. Embora estejamos sempre prontos para acusar os outros de nos enganar, somos incrivelmente distraídos com nossa própria duplicidade. Experiências de termos sido vítimas de falsidade são gravadas indelevelmente em nossa memória, mas nossas próprias prevaricações escapam tão facilmente de nossa boca que geralmente nem nos damos conta delas. O estranho fenômeno do auto- engano é objeto da perplexidade de filósofos e psicólogos há mais de 2 mil anos. A ideia de que uma pessoa possa iludir a si mesma parece tão sem sentido quanto trapacear no jogo de paciência ou roubar dinheiro da própria conta bancária. Mas o caráter paradoxal do auto- engano deriva da ideia, formalizada pelo filósofo francês René Descartes no século XVII, de que a mente humana é transparente para o próprio indivíduo e que a introspecção permite um entendimento preciso de nossa vida mental. Por mais natural que essa perspectiva seja para a maioria de nós, ela se revela profundamente equivocada.

Se pretendemos entender o auto- engano, precisamos nos valer de uma concepção cientificamente mais segura de como a mente funciona. O cérebro engloba um número de sistemas funcionais. O sistema responsável pela cognição – a parte pensante – é de certa forma, distinto daquele que produz experiências conscientes. Ambos se comunicam de modo análogo à relação entre o processador e o monitor de um computador pessoal. O funcionamento ocorre no processador, o monitor só faz mostrar as informações que o processador transfere para ele. Da mesma maneira, os sistemas cognitivos do cérebro processam o pensar enquanto a consciência revela as informações recebidas. A consciência tem um papel menos importante na cognição do que anteriormente se supunha.

Esse quadro geral é sustentado por significativa evidência experimental. Alguns dos mais notáveis e discutidos estudos foram conduzidos há várias décadas pelo neurocientista Benjamin Libet, atualmente professor emérito da Universidade da Califórnia, em San Diego. Em um experimento, Libet posicionou indivíduos em frente a um botão e a um relógio cujo ponteiro se movia rapidamente. Ele então pediu que, ao sentirem vontade, pressionassem o botão, registrando a hora mostrada no relógio no momento em que sentiram o impulso para pressionar o botão. Libet também colocou, em cada um dos participantes, eletrodos sobre o córtex motor, que controla o movimento, para monitorar a tensão elétrica à medida que o cérebro se preparava para iniciar uma ação. Ele descobriu que nosso cérebro começa a se preparar para iniciar uma ação mais que três décimos de segundo antes de decidirmos, conscientemente agir. Em outras palavras, apesar das aparências, não é a mente consciente que decide desempenhar uma ação: a decisão é tomada inconscientemente. Embora nossa consciência goste de ter o crédito (por assim dizer), ela é meramente informada de decisões inconscientes após o fato. Esse e outros estudos sugerem que somos sistematicamente iludidos sobre o papel que a consciência tem em nossa vida. Por mais estranho que pareça, a consciência talvez só faça dispor os resultados da experiência inconsciente.

Esse modelo geral da mente, sustentado por vários outros experimentos, nos fornece exatamente o que precisamos para resolver o paradoxo do auto- engano –  pelo menos em teoria. Conseguimos nos enganar invocando o equivalente a um filtro cognitivo entre o conhecimento inconsciente e o conhecimento consciente. O filtro prioriza informações antes que alcancem a consciência, impedindo que os pensamentos selecionados proliferem pelas vias neurais até se tornar conscientes.

Mentirosos inatos3

SOLUCIONANDO O PROBLEMA DE PINÓQUIO

Mas por que filtraríamos informações? Se considerada de uma perspectiva biológica, essa noção apresenta um problema. A ideia de que temos uma tendência evolutiva de nos privar de informações soa muito implausível, arriscada e biologicamente desvantajosa. Uma vez mais, porém, podemos encontrar uma pista em Mark Twain, que nos legou uma explicação surpreendentemente compreensível, “Quando uma pessoa não consegue enganar a si mesma”, escreveu ele, “não há muita chance de conseguir enganar os outros”. A vantagem do auto- engano é que nos ajuda a mentir aos outros de maneira mais convincente. Ocultar a verdade de nós mesmos a oculta dos outros.

No começo dos anos 70, o biólogo Robert Trivers, atualmente na Universidade de Rutgers, deu comprovação científica ao “insight” de Twain. Segundo Trivers, nosso talento para o auto- engano poderia ser a solução para um problema de adaptação enfrentado repetidamente por ancestrais humanos na tentativa de enganar uns aos outros. Enganar pode ser um negócio arriscado. Dentro do bando tribal e caçador, que presumivelmente era o ambiente social padrão em que nossos ancestrais hominídeos viviam, ser pego em ato escuso poderia resultar em ostracismo ou banimento da comunidade, tornar-se isca para hienas. Como nossos ancestrais eram primatas experientes e altamente inteligentes, houve um momento em que tomaram consciência desses perigos e aprenderam a ser mentirosos autoconscientes.

Essa consciência criou um problema novo. Mentirosos que se sentem desconfortáveis e tensos não mentem bem. Como Pinóquio, eles se traem por comportamentos involuntários, não-verbais. Há muita evidência experimental indicando que os humanos são notadamente adeptos a inferir sobre os estados mentais uns dos outros com base em uma mínima exposição a informações não-verbais. Como Freud comentou certa vez: “Nenhum mortal consegue guardar segredo. Ainda que seus lábios estejam silentes, as pontas de seus dedos falam, todos os seus poros o traem”. No esforço para dominar nossa crescente ansiedade, podemos automaticamente aumentar o tom de nossa voz, corar, transpirar frio, ter coceira no nariz ou fazer pequenos movimentos com os pés como se quiséssemos fugir.

Podemos também, opostamente, controlar ao máximo o tom da voz e tentar conter movimentos reveladores, levantando suspeita por nossa atitude rígida e contida. Em qualquer dos casos, sabotamos nosso próprio esforço de enganar. Hoje em dia um vendedor de carros usados pode esconder a malícia de seus olhos atrás de óculos de sol, mas não existia tal recurso durante a época do Pleistoceno. Eram necessárias outras soluções.

A seleção natural parece ter liquidado o problema de Pinóquio ao nos favorecer com a habilidade de mentir para nós mesmos. Enganar a nós mesmos permite-nos manipular egoisticamente os que nos cercam e permanecer convenientemente inocentes perante os próprios olhos. Se isso é verdadeiro, o auto- engano se fixou na mente humana como uma ferramenta para manipulação social. Como Trivers observou, os biólogos propuseram que a principal função do auto- engano é enganar mais facilmente os outros. O auto- engano nos ajuda a enredar outras pessoas mais eficazmente. Permite-nos mentir com sinceridade, mentir sem saber que estamos mentindo. Deixa de haver a necessidade de fazer uma encenação, de fingir que estamos falando a verdade. A pessoa que se auto- engana julga, na realidade, estar falando a verdade, e acreditar na própria história a faz ainda mais persuasiva.

Embora seja difícil testara tese de Trivers, ela ganhou larga aceitação por ser a única explicação biologicamente realista do auto- engano como uma característica adaptativa da mente humana. Essa visão também se encaixa muito bem em um considerável número de trabalhos sobre as raízes evolutivas do comportamento social que têm sido comprovados empiricamente.

Naturalmente, o auto- engano não é sempre tão absoluto. Algumas vezes estamos cientes de ser incautos em nosso próprio jogo de enganar, recusando-nos teimosamente a articular de maneira explícita para nós mesmos o que estamos prestes a fazer.

Sabemos que as histórias que elucubramos não se coadunam com nosso comportamento, ou destoam dos sinais físicos, como palpitação cardíaca ou mãos suadas, que traem nosso estado emocional.  Por exemplo, os estudantes mencionados anteriormente, que admitiram suas mentiras ao se ver na fita de vídeo, sabiam por vezes estar mentindo, e mesmo assim não pararam, porque esse comportamento não os incomodou.

Outras vezes, porém, estamos na feliz ignorância de que jogamos fumaça nos próprios olhos. Uma perspectiva biológica nos ajuda a entender o porquê de os mecanismos cognitivos do auto- engano nos aliciarem tão fácil e silenciosamente. De maneira esperta e imperceptível, eles nos enredam em desempenhos tão elaborados que a encenação transmite total sinceridade a nós, os próprios atores.

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A MENTIRA DA FELICIDADE

Mentir para nós mesmos pode ser uma maneira de manter a saúde mental. Diversos estudos clássicos a respeito do assunto indicam que pessoas com depressão moderada na realidade enganam menos a si mesmas que aquelas ditas normais. Lauren B. Alloy, da Universidade de Temple, e Lyn Y. Abramson, da Universidade de Wisconsin-Madison, desvendaram essa tendência, manipulando clandestinamente o resultado de uma série de jogos. Indivíduos saudáveis que participaram dos jogos inclinavam-se a levar o crédito quando ganhavam e subestimavam sua contribuição para o resultado quando não se saíam bem. Os deprimidos, entretanto, avaliavam sua contribuição com muito mais precisão. Em outro estudo, o psicólogo Peter M. Lewisohn, professor emérito da Universidade de Oregon, mostrou que os depressivos julgam as atitudes das outras pessoas em relação a eles com maior exatidão que os não- depressivos. Além disso, essa habilidade na realidade degenera à medida que os sintomas psicológicos da depressão melhoram em resposta ao tratamento.

Talvez a saúde mental repouse no auto- engano, e ficar deprimido resulte de uma falha na habilidade de enganar a si mesmo. Afinal de contas, todos vamos morrer, todos os nossos entes queridos vão morrer, e grande parte do mundo vive em abjeta miséria. Portanto, quase não há razões para ser feliz diante desse cenário!

VOLUME CEREBRAL

O Homo sapien tem o cérebro grande. Nossos parentes, macacos e primatas, também. Normalmente o tamanho do cérebro das espécies aumenta com o crescimento do corpo e dinâmica metabólica, mas, segundo essa fórmula, macacos e primatas têm o volume do cérebro de criaturas duas vezes maiores. Muito do aumento advém do desenvolvimento Intenso do neocórtex. Um estudo de 2004, realizado por Richard W. Byrne e Nádia Corp, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, mostra que o uso de dissimulação pelas espécies primatas aumenta com o volume neocortical; ou seja, os membros das espécies com cérebros mais pesados tendem mais a enganar uns aos outros. O tamanho do cérebro humano, naturalmente, é superior ao de todas as outras espécies em uma tabela comparativa.

 MELHORES POLÍGRAFOS

Embora aqueles que defendem o polígrafo aleguem um índice de acerto de cerca de 90%, muitos críticos dizem que essa taxa está mais próxima dos 60%. O problema é que, apesar do apelido “detector de mentira”, a máquina na realidade não reconhece falsidades. Seus eletrodos, colocados em vários pontos do corpo da pessoa, medem sinais psicológicos de stress, tais como batimento cardíaco e pressão sanguínea elevados. Estes sinais frequentemente acompanham a mentira, mas, se a pessoa conseguir mentir calmamente, há boa chance de derrotar o polígrafo. De modo oposto, o indivíduo que fala a verdade, mas está ansioso quanto ao procedimento, poderá produzir uma falsa leitura positiva.

Os cientistas estão trabalhando em uma nova geração de detectores de mentira cujo alvo é o próprio mentir. Por exemplo, o neurocientista Lawrence A. Farwell, dos Laboratórios Brain fingerprinting, desenvolveu um método com o mesmo nome, ”impressões cerebrais”. O sujeito usa um capacete com eletrodos que produz um eletroencefalograma (EEG), um registro das mudanças elétricas no cérebro.

 Ao monitorar a atividade neural dessa forma, Farwell afirma que pode detectar a desonestidade com precisão de quase 100%. O método se baseia em sinais reveladores de reconhecimento visual no cérebro. Por exemplo, uma pessoa sob suspeita a quem seja mostrada uma arma pode dizer que nunca a viu antes, mas seu cérebro, segundo Farewell, gerará uma onda chamada P300 que ocorre automaticamente quando reconhecemos um objeto.

Outra abordagem está sendo explorada pelo psicólogo Stephen M. Kosslyn, da Universidade Harvard. Kosslyn usa tecnologias imagéticas para estudar o que ocorre no cérebro quando mentimos. Suas descobertas indicam que o mentir está associado a uma maior atividade cerebral que o falar a verdade, e essa atividade em certas áreas do cérebro está associada a tipos distintos de mentiras.

Apesar de esses e outros métodos ainda serem controvertidos, é bem provável que a próxima década dê aos pesquisadores acesso sem precedentes aos recessos de nossa mente – para o bem ou para o mal.

 

DAVID LIVINGSTONE SMITH – é diretor fundador do New England lnstitute for Cognitive Science and Evolutionary Psychology e autor do livro Why we lie: the evolutionary roots of deception and the unconsious mind (St. Martin’s Press, 2004).

OUTROS OLHARES

LEI PENAL X SOCIEDADE

O crime organizado e as causas sociais e econômicas impulsionantes da criminalidade.

Lei penal x sociedade

Inicialmente cumpre-nos destacar que o crime é um “fenômeno” tão antigo quanto a própria existência humana, de forma que escritos que incriminavam condutas não toleradas foram identificadas no código sumério de Ur-Nammu, que data de aproximadamente 2040 A.C, antes mesmo do código de Hamurabi que data aproximadamente de 1700 A.C.

Observa-se ao longo da história das civilizações, que o “crime” na acepção que temos hoje, passou e ainda passa por constante evolução, e de outra forma não poderia ser, haja vista ser o crime um comportamento humano que na acepção criminológica decorre de fatores biopsicossociais, que impulsionam a criminalidade. Emile Durkheim juntamente com Robert Merton, ensinam na teoria da anomia que a ausência de leis, ou seja, toda situação social onde falta coesão e ordem, especialmente no tocante a normas e valores é que surge o crime. Durkheim afirma “que o crime é um fenômeno normal e previsível em toda a sociedade, mas tais desvios são normais se limitados, controlados pelo poder público”. Dizia ainda “que sociedade sem crime é sociedade pouco desenvolvida, a delinquência obriga um desenvolvimento estatal no sentido de estruturação”.

Em sua obra “O suicídio”, de 1897, traz uma regra geral quando o indivíduo ou um grupo perde as referências normativas que orientavam a sua vida, ele se sente livre de vínculos sociais tendo comportamentos antissociais e autodestrutivos.

EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CRIME

Nesse sentido, atualmente sob o prisma da legislação brasileira podemos conceituar o crime sobre três aspectos, quais sejam, o material, sendo toda ação ou omissão que lesa ou expõe a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados, ressalte-se que aqui a reserva legal não é suficiente, servindo como fator de legitimação do direito penal em um estado democrático de direito.

O formal, que é a conduta trazida em lei com ameaça de sanção penal, o que bem se observa no art. 1º da lei de introdução do código penal, este conceito tem na análise da doutrina mais moderna que diz o art. 1° da LICP apenas distinguir crime de contravenção penal o que com o advento da lei 11343/2006 (lei de drogas) encontra-se ultrapassado, ressalte-se que definir o que é crime, é portanto tarefa da doutrina e não do legislador, isso porque, o crime está em constante transformação, pois acompanha o desenvolvimento da sociedade, como bem demostra a inadequação do referido conceito, diante do advento da lei nº 11.343/06.

Já o conceito analítico baseia-se nos elementos que formam a estrutura do crime, ou seja, possui foco nos requisitos do crime.

Basileu Garcia afirmava que o crime era composto por faro típico, antijuridicidade, culpabilidade e punibilidade, defendia a corrente quadripartida, que com o devido respeito deve ser afastada, pois a punibilidade é uma consequência do crime, ou seja, é a possibilidade jurídica de aplicação da sanção penal. Por este entendimento a extinção da punibilidade, prevista no código penal brasileiro, iria fazer com que um crime previsto deixasse de ser crime.

Para a corrente tripartida ou tricotômica que tem como expoentes Francisco Assis Toledo, Nelson Hungria e Hans Welzel os elementos do crime são, fato típico, antijurídico e culpabilidade.

Aqui devemos tomar um certo cuidado, pois há doutrinadores que equivocadamente afirmam que um conceito tripartido importa obrigatoriamente na adoção da teoria clássica, de forma que quem aceita o conceito tripartido pode ser clássico ou finalista, pois o próprio Hans Welzel criador do finalismo penal adota a teoria tripartida.

A principal diferença entre os clássicos e finalistas está na alocação do dolo ou da culpa e não se é bipartida ou tripartida. Assim temos que no sistema clássico, será obrigatoriamente tripartido, e no sistema finalista, podem adotar os dois.

Por fim René Ariel Dotti, maior expoente do conceito bipartido, diz que na referida teoria deve ser excluída da composição do crime a culpabilidade, visto que se trata de pressuposto para a aplicação da pena. Nesta esteira assevera o professor Flavio Monteiro de Barros (FMB):

“Culpabilidade é o juízo de reprovação que recai sobre a conduta típica e ilícita realizada por agente imputável com possibilidade de conhecer a ilicitude do fato e de evitar a prática do fato criminoso é um juízo de censura decisivo à fixação da pena que recai sobre o agente e não sobre o fato criminoso não se pode dizer que o fato é culpável, culpável é o agente “.

Temos, portanto, que na visão analítica do crime o Código Penal de 1940 adotava em sua redação original, a teoria tripartida de crime, relacionado a teoria clássica da conduta. A situação se alterou com a lei nº 7209/84 em que ficou a impressão que o conceito é bipartido, relacionado a teoria finalista, posto que no título II da parte geral traz a expressão “do crime” já o título III fala “da imputabilidade penal” separando o crime da culpabilidade.

E mais, quando o Código Penal tratou das excludentes de ilicitude (art. 23) afirmou que “não há crime”, quando tratou das causas que excluem a culpabilidade a exemplo o artigo 26 da referida legislação diz que o autor é “isento de pena”, no art.180,§4°do CP o texto traz “a receptação é punível ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveu a coisa.

Assim, no que se refere a evolução do conceito de crime é possível concluir que para a teoria bipartida a culpabilidade é um pressuposto de aplicação da pena, pois se a culpabilidade fosse elemento do crime aquele que dolosamente, adquirisse um produto de roubo cometido por um menor não cometeria receptação pois se o menor não comete crime, pela ausência de culpabilidade o receptador não teria adquirido um produto deste crime.

Pelo exposto denota -se que de fato a legislação penal pátria está em constante evolução conforme dito inicialmente, haja vista que até o conceito de crime passou por significativa mudança.

No entanto, a criação de leis com vistas a atender a demanda do crime, não me parece ser a medida mais adequada para o seu combate, posto que princípios vetores do direito penal que norteiam a aplicação da lei no caso concreto, e ressalte-se a extrema importância destes para a manutenção das instituições democráticas, tais como o devido processo legal, a razoável duração dos processos, economia processual, devido processo legislativo, o estado democrático de direito, apesar de essenciais, acabam por tornar demasiadamente demorado a criação de uma lei apta a fazer frente ao crime, o que de certa forma favorece a sua evolução, pois esta se dá de forma muito rápida e não atende a critério algum, pois tem em sua essência o desvio de conduta que difere de tudo aquilo que se prioriza no convívio social. Tal evolução se aprimorou de forma tão impressionante que adquiriu estrutura assemelhada a empresarial, com divisão de tarefas, especialistas do crime com campo de concentração especifico e “modus operandi” como nunca visto antes, tais formas de atuação, é o que temos hoje por crime organizado, que trataremos mais detalhadamente adiante. Anteriormente ao advento da lei nº 12850/13, não se tinha um conceito de crime organizado. De tal forma que ficou a cargo da doutrina e da jurisprudência a nos dizer o que seria tal fenômeno.

Sabe-se que o direito penal exige que os conceitos sejam feitos com exatidão, não admitindo dessa forma, conceitos amplos. Ocorre que temerário seria dar um conceito exato para o que seria o crime organizado, pois o crime evolui com a sociedade e se adapta às mudanças de tal forma a evoluir sempre muito rapidamente. Por outro lado, deixá-lo vago, ofenderia o princípio da taxatividade, bem como leva ria a impunidade.

“As associações (ou organizações) criminosas praticam atividades ilícitas e assumem características que se adaptam às mudanças do ambiente social onde se encontram inseridas e, portanto, apresentam conotações diversas, no tempo e no espaço”. (MENDRONI, Marcelo Batlouni, Crime organizado, pag.10 Ed. Atlas, 3ª Edição, 2009).

Desta forma com o intuito de evitar a criação de um conceito estrito, a doutrina considerando ser melhor realizar a identificação dos elementos constitutivos do crime organizado.

Nesse sentido diversas foram as tentativas de se criar um conceito que definisse o que realmente é o crime organizado. No livro Crime Organizado do professor Marcelo Mendroni, também há algumas menções sobre estas tentativas, por exemplo:

“ESTADO DA CALIFÓRNIA:

Consiste em duas ou mais pessoas que com continuidade de propósitos, se engajam em uma ou mais das seguintes atividades:

(1) Provimento de coisas e serviços ilegais, vícios, usura.

(2) Crimes predatórios como furtos e roubos; diversos tipos distintos de atividades criminosas se enquadram na definição de crime organizado, que podem ser distribuídos em cinco categorias:

EXTORSÕES:

1. Operadores de vícios: indivíduos que operam um negócio contínuo de coisas ou serviços ilegais, como narcóticos, prostituição, usura e jogos de azar;

2.  Furtos/roubos/receptações/estelionatos;

3. Gangues: grupos de indivíduos com interesse comum ou, segundo plano, de atuarem juntos e se engajarem coletivamente em atividades ilegais para fazer crescer a sua identidade grupal e influência, como gangues de jovens, clubes de motoqueiros fora-da-lei e gangues de presidiários;

4. Terroristas: grupos de indivíduos que combinam para cometer espetaculares atos criminais, como assassínios e sequestros de pessoas públicas, para minar confidências públicas em governos estáveis por razões políticas ou para vingar-se de alguma ofensa”.

“CRIMINOLOGISTAS:

Crime organizado é qualquer cometido por pessoas ocupadas em estabelecer em divisão de trabalho: uma posição designada por de legação para praticar crimes que como divisão de tarefa também inclui, em última análise, uma posição para corruptor, uma para corrompido e uma para um mandante”.

“INTERPOL:

Qualquer grupo que tenha uma estrutura corporativa, cujo principal objetivo seja o ganho de dinheiro através de atividades ilegais, sempre subsistindo pela imposição do temor e a prática de corrupção’.

“PRESIDENT’S COMISSION ON ORGANIZED CRIME (PCOC):

Uma organização Criminosa é constituída por pessoas que utilizam a criminalidade e violência e admite a utilização de corrupção para o fim de obter poder e dinheiro. Elas revelam as seguintes características:

Continuidade: o grupo delimita uma determinada proposta por um período de tempo e admite a sua continuidade de operações para além do período das vidas dos membros integrantes, em sucessão. O grupo tem consciência também que o seu líder e os membros devem ser renovados com o tempo, o que significa que se assegurem a sua continuidade.

Estrutura: o grupo é estruturado hierarquicamente em setores especializados que devem cumprir funções estabelecidas, como a Cosa Nostra, ou extremamente fluída como os cartéis de drogas colombianos. Em qualquer caso, a sua estrutura é baseada sob o poder de uma autoridade.

Afiliação: o grupo é formado através de formações comuns, como étnicas, raciais, antecedentes criminais, interesses comuns etc. Os potenciais candidatos devem demonstrar as suas aptidões, sendo que na maioria dos casos exige-se um período de prova. As regras para os membros incluem o sigilo, o desejo de praticar qualquer atitude de interesse do grupo, e também o de protegê-lo. Em troca, o membro recebe benefícios, como a proteção, prestígio, oportunidades de ganhos econômicos e, o mais importante, o sentido de ‘pertencer’ ao grupo.

Criminalidade: como em uma indústria, o crime organizado se dedica a obter ganhos financeiros e para tanto praticar metas definidas. Algumas atividades servem para o ganho direto de dinheiro, como comercialização de produtos e serviços ilegais, e outras para dar suporte àquelas, como extorsões, ameaças, assassinatos, que também lhe valem poder. Alguns grupos se dedicam a negócios lícitos para viabilizar a promoção da lavagem de dinheiro.

Violência: a prática de violência e ameaça da sua prática são ferramentas básicas. Ambas significam o controle e a proteção de seus membros e de seus ‘protegidos’, ou bem para proteger os seus interesses de qualquer forma. Dos membros espera-se a disposição para a prática de violência, e pode ser utilizada, por exemplo, tanto para coagir testemunhas como para servir de exemplo e de aviso a outros.

Poder e dinheiro: os membros são unidos nestes interesses comuns. Força política é obtida através da corrupção de agentes públicos. O grupo torna-se capaz de manter o seu poder através da união com os seus protetores oficiais”.

“ONU

Organização de grupos visando à prática de atividades econômicas; laços hierárquicos ou relações pessoais que permitem que certos indivíduos dirijam o grupo; o recurso à violência, à intimidação e a corrupção; e a lavagem de lucros ilícitos”.

“CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA O CRIME ORGANIZADO TRANSNACIONAL:

Grupo criminoso organizado – grupo estruturado de três ou mais pessoas, existente há algum tempo e atuando concentradamente com o propósito de cometer uma ou mais infrações graves ou enunciadas na presente Convenção, com a intenção de obter, direta e indiretamente, um benefício econômico ou outro benefício moral”.

 Oportuno lembrar que dentro do Brasil, diante de sua vasta proporção territorial, há uma enorme diversidade de costumes, culturas, pensamentos etc. Isso aliado ao fato de que a criminalidade se adapta às condições dos lugares onde está, novamente se declina para a impossibilidade de se criar um conceito estrito. Em outras palavras, cada estado do Brasil vive uma realidade diferente, logo, torna inviável estabelecer um conceito, pois para isso seria necessário abranger todas as hipóteses de infração cometida pelas organizações criminosas, por exemplo, ameaça, roubo, homicídio, estelionato, tráfico de drogas, etc.

Destaca-se, todavia, que o conceito dado pela Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional (também chamada de Convenção de Palermo) integra o ordenamento jurídico pátrio. Isto porque, essa convenção foi ratificada pelo Brasil, pelo Decreto Legislativo n. 231/2003 e também foi promulgada pelo Decreto n. 5.015 de 12 de março de 2004. (ANDREUCCI, Ricardo Antônio, Legislação penal especial, p. 573, 5ª edição, Ed. Saraiva, São Paulo).

Com isso, o Brasil passou a ter um conceito acerca do Crime Organizado. Ressalta-se que até aqui ainda não existia um conceito legal, mas este supramencionado pode ser utilizado para caracterizar o que realmente seria organização criminosa.

Dessa forma, como bem destacado pelo doutrinador Antônio Scarance Fernandes, a falta de conceito legal impossibilita a restrição de direitos daqueles que estão sendo investigados, acusados, condenados, com fundamento no fato de pertencer a organização criminosa, pois afirma que não se pode utilizar de medidas excepcionais sem que se atenda o pressuposto da legalidade. (FERNANDES, Antônio Scarance et ai. Crime organizado: aspectos processuais, Ed. RT, 2009)

Aliás, não é só o conceito que se faz necessário, pois ao ratificar a Convenção de Palermo, conforme lembra o autor Antônio Sérgio Altieri Pitombo, “o Brasil obrigou-se a criminalizar a conduta de ‘participar em um grupo criminoso organizado’ como tipo legal distinto dos crimes perpetrados na atividade criminosa”. (PITOMBO, Antônio Sérgio Altieri de Moraes, Organização criminosa: nova perspectiva do tipo legal. São Paulo: RT, 2009, p. 108).

Não obstante, muito embora o ordenamento jurídico já tenha equiparado crime organizado a associação criminosa, trata-se de institutos que em suas essências são diferentes. Diferenciar estes dois institutos é essencial para o seu entendimento uma vez que o conceito de associação criminosa está no seu tipo penal, qual seja o disposto no art. 288 do Código Penal foi alterado pela lei 12.850/13 para essa nova redação.

“Associação criminosa:

Art. 288. Associarem-se três ou mais pessoas, para fim especifico de cometer crimes.

Pena – reclusão, de um a três anos.

Parágrafo único. A pena aplica-se até a metade, se a associação é armada ou se houver a participação de criança ou adolescente. “

Agora, no que tange as organizações criminosas, a nova lei do crime organizado define a associação de quatro ou mais pessoas com estrutura organizada.

Com a leitura da expressão “Crime Organizado” entende-se pela não caracterização deste tipo de modalidade criminosa, bem como, os institutos da sua respectiva lei para as contravenções penais, ou seja, a simples leitura da expressão “Crime Organizado” já deixa claro que se trata tão somente de crime e não de contravenção penal. (ANDREUCCI, Ricardo Antônio, Legislação penal especial, p. 57 4, 5• edição, Ed. Saraiva, São Paulo).

Anteriormente quando em vigor a lei n° 9.034/95, esta que tratava do crime organizado, não utilizava a palavra “crime”, e sim “ilícitos”. Então dava uma margem muito grande para discussões doutrinaria e jurisprudências pois conforme já é sabido, o direito penal considera como ilícitos (gênero) tanto as contravenções penais como os crimes (espécies).

É por isso que Fernando Capez sustentava a aplicação desta lei para as contravenções penais.

“embora somente exista quadrilha ou bando para a prática de crimes, conforme redação expressa do art. 288 do CP, nada impede que tal agrupamento, formado para a prática de crimes também resolva se dedicar ao cometimento de contravenções penais” (CAPEZ, Fernando, Curso de Direito Penal Legislação penal especial, São Paulo: Saraiva, 2006, v. 4, p.234)

Já o professor Ricardo Antônio Andreucci discordava dessa posição e afirmava que o crime de quadrilha ou bando se referia tão somente ao cometimento de crimes e não de contravenções penais. Dessa forma, como o direito penal veda a analogia in mallan partem não é possível tal aplicação para as contravenções penais. Este professor afirmava também que o Brasil ao ratificar a Convenção de Palermo, ficou reconhecido que as organizações criminosas são aquelas que agem com o fim de cometer “infrações graves” (art. 2° da referida Convenção), assim definida como “ato que constitua infração punível com uma pena privativa de liberdade, cujo máximo não seja inferior a quatro anos ou com pena superior”.

 FATORES IMPULSIONANTES DA CRIMINALIDADE

Assim, com a promulgação da lei 12.850 de agosto de 2013, que veio para ratificar a doutrina majoritária no sentido que o crime organizado não comporta de forma alguma as contravenções penais.

De fato, a referida legislação cumpre seu objetivo no combate ao crime organizado, haja vista a sua grande utilização em casos de grande repercussão, como “mensalão’, “lava-jato” dentre tantas outras.

Ocorre que apesar de mostrar-se efetiva em sua aplicação, sabemos que terá eficácia somente enquanto o crime não mostrar novas faces, pois conforme demostrado neste texto o combate deve se dar não só com a produção de leis, que apesar de possuir extrema relevância, não se mostra eficaz a longo prazo, pois conforme já dito o crime está em constante evolução e, diga-se de passagem, rápida evolução.

O combate ao crime organizado e a todas as suas outras formas, nos moldes que temos hoje, se mostra insuficiente por manter o foco no criminoso e não as causas que impulsionam a criminalidade.

Tal fato foi a muito tempo evidenciado e demostrado nos estudos de Emile Durkheim e Robert Merton, em que toda situação social onde falta coesão e ordem existirá crime.

Assim, trazendo os ensinamentos de Durkheim e Robert Merton para a realidade brasileira, é possível verificar com base em suas teorias, as causas que geram e impulsionam a criminalidade, posto que no Brasil, observa-se a inexistência de políticas públicas sociais básicas, pois não há educação de qualidade, saúde, saneamento, moradia, segurança dentre tantas outras necessidades que não estão disponíveis para todos, isso em razão das desigualdades sociais, do menosprezo político, da corrupção desmedida e da impunidade, e é neste contexto que se faz presente a fata de coesão e ordem, que fundamentam a citada teoria da anomia.

 Lei penal x sociedade.2

ANÁLISE

Portanto, é possível concluir que apesar de essenciais à manutenção das instituições democráticas brasileiras, as leis, o processo legislativo, os políticos, e os métodos adotados paliativamente para fazer frente ao crime de modo geral e ao crime organizado de forma mais especifica, não é suficiente sequer para trazer segurança à população, que aliás nos dizeres do artigo 144, “caput” da constituição federal, “é obrigação do Estado e direito e responsabilidade de todos”, pois não será a lei penal, que fará possível o combate à criminalidade, haja vista que as pessoas e as sociedades por elas compostas está em franco desenvolvimento.

GESTÃO E CARREIRA

STARTUP CUSTO ZERO

Saiba como tirar seu empreendimento digital do papel fazendo o mínimo de despesas.

Startup custo zero

Nos quatro primeiros meses deste ano, mais de 674.000 novas empresas foram abertas no Brasil, segundo um levantamento da Serasa Experian. É o maior índice para o período desde 2010. O segmento de startups tem um peso considerável nesse fenômeno. De acordo com a Associação Brasileira de Startups, desde julho do ano passado, o número de empreendimentos com esse perfil no país cresceu 23,5%. Mas atenção: para iniciar uma startup não basta ter uma boa ideia. Para atrair investidores, é preciso ter um modelo de negócios montado e o projeto minimamente desenvolvido.

E como fazer isso sem ter capital? Segundo André Nazareth, líder de desenvolvimento de negócios com startups da Amazon Web Services (AWS), um dos princípios básicos para viabilizar uma startup é buscar sócios, em vez de contratar serviços. “É fundamental ter a habilidade de vender a ideia para atrair parceiros que realmente acreditem no negócio, já que vão precisar trabalhar por um bom tempo sem retorno financeiro”, diz.

A escassez de capital pode até ser uma aliada no começo do empreendimento, para que o negócio não perca foco nem agilidade. “Você só faz o que pode e não perde tempo construindo um produto com muitas funcionalidades”, diz André Nazareth. Para ele, a habilidade dos fundadores de encontrar alternativas para colocar o projeto de pé pesa na decisão dos investidores de apoiar um negócio. “A capacidade de execução é o que diferencia um empreendedor e idealizador de um simples sonhador”, afirma André Ghignatti, diretor da WOW Aceleradora, do Rio Grande do Sul. Nesta reportagem, você encontra uma série de orientações sobre como contornar os obstáculos iniciais para sua empresa se materializar. Agora o seu projeto vira realidade!

 

PARA MENOS VIRAR MAIS

Confira os conselhos de empreendedores e aceleradoras para dar o pontapé inicial no seu negócio, mesmo com poucos recursos:

 BUSQUE PARCEIROS

A maior facilidade que Luiz Felipe Jannuzzi, fundador da NowLink, teve ao iniciar sua empresa foi a ajuda de seu irmão e sócio, o programador Luiz Flávio Jannuzzi. Foi ele o responsável pelo desenvolvimento da plataforma online, que permite transformar o Instagram em um canal de vendas. “Nosso custo inicial foi muito baixo, já que a base da plataforma foi desenvolvida de graça pelo meu irmão”, diz Luiz Felipe. Além de familiares e amigos, você também pode buscar candidatos a sócios do seu negócio – que sejam especialistas nas áreas de programação e desenvolvi- mento ou de marketing e vendas – em eventos de empreendedorismo e até em sites de trabalho freelance como o Workana.com. “O importante é que os sócios tenham características complementares para atender as primeiras demandas: desenvolver e entregar o produto”, afirma André Ghignatti.

 USE UM ESCRITÓRIO VIRTUAL

O home office é a alternativa mais barata, mas ter um endereço comercial é fundamental para alguns negócios, como a BeeCâmbio, startup de São Paulo especializada em venda e troca online de moedas estrangeiras. “Como fazemos transações de valores é fundamental ter uma imagem organizacional bem estruturada”, diz Fernando Pavani, fundador da BeeCâmbio. No início do negócio, sem muitos recursos em caixa, a saída encontrada por ele foi recorrer ao serviço de escritório virtual da Delta Business Center. Nesse tipo de serviço, o empreendedor pode informar o endereço comercial da Delta – que tem unidades nos principais centros.

RODE EM BETA

No começo, toda startup digital precisa ter um MVP, sigla em inglês para produto mínimo viável – um protótipo do projeto, já em uso, a ser apresentado aos investidores. É uma versão que possui todas as funcionalidades do produto final, mas ainda sem acabamento. Ou seja, nessa fase você ainda não precisa investir em um design apurado. Como você não conta com uma grande equipe de tecnologia, é interessante abrir essa versão a alguns usuários, para que experimentem o produto e detectem possíveis erros antes mesmo do lançamento. Ao rodar em beta, o empreendedor transmite credibilidade junto a possíveis investidores e clientes, mostrando que o projeto está evoluindo e permitindo a eles avaliar o seu potencial.

 

DIVULGUE NAS REDES

Você pode usar as ferramentas da internet para conseguir uma base de usuários para testar seu aplicativo ou para divulgar seu negócio entre clientes em potencial. Para isso, identifique os principais canais para atingir o seu público – grupos no Facebook, fóruns no LinkedIn, blogs ou canais no YouTube – e, depois, use esses meios para divulgar. Mesmo que o produto não esteja finalizado, as redes sociais podem ser uma ferramenta para anunciar o futuro lançamento, dimensionar o interesse do público e validar o projeto. Para Camila Porto, consultora em marketing digital e autora do livro Facebook Marketing (Ed. Novatec), essa rede é um bom caminho de divulgação porque, além da quantidade de usuários e da possibilidade de interagir com eles, é possível analisar o retorno do investimento por meio de uma série de métricas. “Com 10 reais por dia você já consegue fazer uma campanha no Facebook, impulsionar seu post e chegar ao seu cliente em potencial.”

RECORRA A FONTES ALTERNATIVAS DE FINANCIAMENTO

Um bom jeito de conquistar capital para a startup dar os primeiros passos é inscrever o projeto num site de financiamento coletivo, como Kickante ou Catarse. Atualmente, as iniciativas de empreendedorismo já ocupam a segunda posição em número de campanhas lançadas nessas plataformas, que cobram uma comissão de 10% a 15% sobre o valor arrecadado pelos autores. Outro caminho é buscar investidores-anjos, que colocam pequenos valores nos negócios em troca de participação acionária e ainda atuam como mentores. No site da ONG Anjos do Brasil é possível encontrar informações sobre como apresentar seu projeto para um investidor com esse perfil.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE I

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

 

Nestes versículos, temos:

I – A ida de Cristo “para a terra da Judéia” (v. 22), onde permaneceu com seus discípulos. Observe:

1. Nosso Senhor Jesus, depois de iniciar seu ministério público, viajou muito e mudou-se frequentemente, como os patriarcas em suas estadias passageiras. Assim como era uma boa parte de sua humilhação o fato de que Ele não tivesse moradia certa, mas que estivesse em constantes jornadas, como Paulo, este também era um exemplo da sua aplicação incessante no trabalho para o qual Ele veio ao mundo, que Ele viajava muito para realizá-lo. Ele deu muitos passos cansativos para fazer o bem às almas. O Sol da Justiça percorreu um grande circuito para difundir sua luz e calor (Salmos 19.6).

2. Ele não tinha o costume de permanecer muito tempo em Jerusalém. Embora frequentemente fosse até lá, ainda assim Ele retornava rapidamente para o interior, como aqui. Depois disto, e depois de ter conversado com Nicodemos, Ele foi para as terras da Judéia, não somente para ter mais privacidade (apesar do fato de que os lugares e meios desconhecidos melhor se adequavam ao humilde Jesus em sua condição humilde), mas para ser mais útil. Seus milagres e pregações talvez causassem mais alvoroço em Jerusalém, a origem das novidades, mas fizeram um bem menor ali, onde os homens mais consideráveis da igreja judaica tinham mais predominância.

3. Quando veio para a terra da Judéia, seus discípulos o acompanharam, pois estes eram os que continuaram com Ele em suas tentações. Muitos que se reuniram a Ele em Jerusalém não poderiam seguir seus deslocamentos pelas várias localidades que visitava, já que não tinham negócios por lá, mas seus discípulos o acompanharam. Se a arca parte, é melhor partir e segui-la (como fizeram os israelitas, Josué 3.3) do que ficar sem ela, mesmo que ela esteja na própria cidade de Jerusalém.

4. Ali Ele permaneceu com eles, conversou com eles, dialogou com eles. Ele não se afastou para o interior por prazer ou comodidade, mas para conversar livremente com seus discípulos e seguidores. Veja Cantares 7.11,12. Observe que aqueles que estão prontos para seguir a Cristo o encontrarão preparado para ficar com eles. Supõe-se que Ele, nesta ocasião, tenha permanecido por cinco ou seis meses nesta região.

5. Ali Ele batizou. O Senhor admitiu, como discípulos, aqueles que creram nele, que tiveram mais honestidade e coragem do que os de Jerusalém, cap. 2.24. João começou a batizar na terra da Judéia (Mateus 3.1), e entendemos que, por esta razão, Cristo começou a pregar ali, pois João tinha dito que o Messias viria depois dele. Jesus mesmo não batizava, com suas próprias mãos, mas seus discípulos, de acordo com suas ordens e orientações, como parece, cap. 4.2. Porém, o batismo dos seus discípulos era seu batismo. As ordenanças sagradas são de Cristo, ainda que conduzidas por homens fracos.

 

II – A continuidade de João aos seus trabalhos, enquanto teve oportunidades (v. v 23,24). Aqui, lemos:

1. Que João estava batizando. O batismo de Cristo era, por essência, o mesmo de João, porque João testificava de Cristo, e, portanto, eles não se opuseram ou interferiram um com outro. Mas:

(1) Cristo iniciou a tarefa de pregação e batismo antes que João as interrompesse, de modo que pudesse estar pronto para receber os discípulos de João, quando este estivesse ausente, pois as rodas devem manter-se em movimento. É um consolo para os homens úteis, quando estão deixando a cena, ver que estão surgindo aqueles que provavelmente irão ocupar seus lugares.

(2) João continuou com a tarefa de pregação e batismo, embora Cristo as tivesse assumido, pois ele ainda teria que, de acordo com a providência divina, trabalhar pelos interesses do reino de Deus. Ainda havia trabalho a ser realizado por João, porque Cristo ainda não era amplamente conhecido, nem as mentes das pessoas estavam completamente preparadas para Ele pelo arrependimento. João tinha recebido suas ordens do céu, e deveria prosseguir com sua tarefa até de lá receber uma contra- ordem, e assim receberia a permissão para partir pela mesma mão que lhe tinha dado sua incumbência. Ele não se associou a Cristo, para que não parecesse ter havido uma combinação entre eles, mas continuou com sua tarefa até que a Providência o tirasse de cena. Os melhores dons de alguns não servem às atividades de outros, que resultam desnecessárias e inúteis. Existe trabalho suficiente para todas as mãos. Os ressentidos se sentarão e não farão nada, quando virem que foram eclipsados. Mesmo que tenhamos apenas um talento, devemos prestar contas do uso que fazemos dele, e quando percebermos que nossa vez está passando, ainda devemos continuar até o fim.

2. Que “João batizava também em Enom, junto a Salim”, lugares que não foram mencionados em nenhuma outra passagem, e, por este motivo, os eruditos estão completam ente perdidos quanto aonde encontrá-los. Onde quer que fosse este lugar, parece que João deslocava-se de um lugar a outro. Ele não achou que houvesse alguma virtude no Jordão, porque Jesus foi batizado ali, o que exigiria que ele permanecesse ali, mas quando viu motivo, mudou-se para outras águas. Os ministros devem seguir suas oportunidades. Ele escolheu um lugar em que havia muita água, isto é, muitas correntezas de água, de modo que onde quer que ele encontrasse alguém que desejasse se submeter ao seu batismo, a água estaria à mão para batizá-lo, talvez rasa, como é comum onde há muitos córregos, mas do tipo que serviria a seus propósitos. E naquela região abundante de água, isto era algo valioso.

3. Que as pessoas vinham até ele e eram batizadas. Embora não viessem em grandes multidões, como faziam quando ele apareceu pela primeira vez, ele não ficava desalentado, mas ainda havia aqueles que o escutavam e o reconheciam. Alguns opinam que isto se refere a João e também a Jesus: e vinham ali “e eram batizados”. Isto é, alguns vinham até João, e eram batizados por ele, alguns a Jesus, e eram batizados por Ele, e como o batismo deles era um só, também eram seus corações.

4. Observa-se (v. 24) que “ainda João não tinha sido lançado na prisão”, para justificar a ordem da história, e mostrar que estas passagens aconteceram antes de Mateus 6.12. João nunca desistiu do seu trabalho, enquanto teve sua liberdade. Na verdade, ele parece ter sido mais aplicado, porque previa que seu tempo era curto. Ele ainda “não tinha sido lançado na prisão”, mas suspeitava que isto não tardaria a acontecer, cap. 9.4.

 

III – Uma controvérsia entre os discípulos de João e os judeus sobre a purificação, v. 25. Veja como o Evangelho de Cristo não veio trazer paz sobre a terra, mas dissensão. Observe:

1. Quem estava discutindo: os discípulos de João e um judeu que não tinha se submetido ao seu batismo de arrependimento. Os penitentes e impenitentes dividem este mundo pecador. Poderia parecer; neste contexto, que os discípulos de João foram os agressores e lançaram o desafio, e este é um sinal de que eram novos convertidos, e tinham mais zelo do que prudência. As verdades de Deus têm sofrido frequentemente pela impulsividade daqueles que se incumbem de defendê-las antes de serem capazes de fazê-lo.

2. Qual foi a causa da controvérsia: a “purificação”, a lavagem religiosa.

(1) Podemos supor que os discípulos de João louvavam seu batismo, sua purificação, como superior a todos os outros, e lhe davam preferência como aperfeiçoando e substituindo todas as purificações dos judeus, e eles estavam certos. Mas os novos convertidos são muito capazes de se vangloriar dos seus feitos, ao passo que aquele que encontra um tesouro deveria escondê-lo até ter certeza de que o tem e não falar muito dele inicialmente.

(2) Não há dúvida de que os judeus, com muita segurança, aplaudiam as purificações que eram usadas entre eles, tanto aquelas que tinham sido instituídas pela lei de Moisés como aquelas que eram impostas pelas tradições dos anciãos. Para as primeiras, havia a garantia divina, e para as últimas, o costume da igreja. Mas é muito provável que os judeus, nesta controvérsia, quando não puderam negar a excelente natureza e o desígnio do batismo de João, promovessem uma objeção contra o batismo de Cristo, o que deu ensejo para a reclamação que se segue aqui (v. 26): ”.Aqui está João batizando em um lugar”, dizem eles, “e Jesus, ao mesmo tempo, batizando em outro, e por isso o batismo de João, que seus discípulos tanto aplaudem, é, ou:

[1] Perigoso, e de consequências desastrosas à paz da igreja e do estado, porque se vê que ele abre uma porta para ilimitadas divisões. Agora que João começou, cada pequeno professor irá estabelecer um batismo imediatamente. Ou:

(2) Na melhor das hipóteses, é defeituoso e imperfeito. Se o batismo de João, que vocês exaltam desta maneira, tem algo de bom, o batismo de Cristo vai mais além, de modo que vocês já estão eclipsados por uma luz maior, e em breve seu batismo não será mais requisitado”. Desta maneira, objeções foram feitas contra o Evangelho originadas pelo avanço e aperfeiçoamento da luz evangelizadora, como se a infância e a virilidade fossem opostas entre si, e a superestrutura, contrária à fundação. Não havia razão para contrapor o batismo de Cristo ao de João, porque ambos estavam de pleno acordo.

 

IV – A queixa que os discípulos de João fizeram ao seu mestre a respeito de Cristo e do seu batismo, v. 26. Eles, estando confundidos pela objeção supra­ citada, e provavelmente agitados e inflamados por ela, vão até seu mestre e lhe dizem: “Rabi, aquele que estava com você e foi batizado por você agora está estabelecido. Ele está batizando, e todos vão ter com Ele. E você tolera isto?” O desejo de causar controvérsia proporcionou oportunidade para isto. É comum que os homens, quando se encontram presos no calor da disputa, se lancem sobre aqueles que não lhes fazem mal. Se estes discípulos de João não tivessem se comprometido na disputa da purificação, antes de compreender a doutrina do batismo, talvez tivessem respondido à objeção sem enfurecer-se. Em suas queixas, eles se dirigem respeitosamente ao seu próprio mestre, “rabi”, mas falam com muito desrespeito do nosso Salvador, embora não o nomeiem.

1. Eles sugerem que Cristo, ao batizar, esteja sendo presunçoso e irresponsável, como se João, tendo estabelecido antes seu rito de batismo, devesse ter seu monopólio, e também uma patente pela invenção: “‘Aquele que estava contigo além do Jordão’, como um discípulo seu, veja, e assombre-se, Ele mesmo batiza e tira o trabalho da tua mão”. Assim, as condescendências voluntárias do Senhor Jesus, como a de ser batizado por João, são injustamente e muito desagradavelmente convertidas em reprovação a Ele muitas vezes.

2. Eles sugerem que foi ingratidão a João. Aquele “do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando”, como se Jesus devesse toda a sua reputação ao caráter honrado que João testemunhou sobre Ele, e o tivesse aproveitado de maneira muito indigna para prejudicar a João. Mas Cristo não precisava do testemunho de João, cap. 5.36. Ele refletiu mais honra sobre João do que recebeu dele, e ainda assim é inerente a nós pensarmos que os outros estão mais em débito conosco do que realmente estão. E, além disso, o batismo de Cristo não foi um impedimento, mas, na verdade, um excelente aperfeiçoamento do batismo de João, o qual devia apenas abrir o caminho para o de Cristo. João foi justo com Cristo ao dar testemunho dele, e a resposta de Cristo ao seu testemunho valoriza, em vez de empobrecer, o ministério de João.

3. Eles concluem que seria um eclipse total ao batismo de João: “Todos vão ter com ele”. Aqueles que estavam habituados a nos seguir agora vão atrás dele, por isso é hora de ficarmos alertas”. Na verdade, não era de estranhar que todos os homens viessem até Ele. Enquanto Cristo se manifestar, Ele será glorificado. Mas porque deveriam os discípulos de Cristo lamentar isto? Observe que desejar o monopólio da honra e do respeito tem sido, em todos os tempos, a perdição da igreja e a vergonha de seus membros e ministros, como também a disputa de interesses e o zelo pela rivalidade e competição. Nós nos equivocamos se achamos que dons e graças excelentes, e os trabalhos e a utilidade de alguém, representam a diminuição e depreciação para outros que obtiveram misericórdia por serem fiéis, pois o Espírito é um agente livre, “repartindo particularmente a cada um como quer”. Paulo se alegra com a utilidade até mesmo daqueles que se opunham a ele, Filipenses 1.18. Devemos deixar que Deus escolha, aplique e honre seus próprios instrumentos como quiser. Não devemos ter a cobiça de ser exclusivos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A ANGÚSTIA DOS ACUMULADORES

O sintoma de guardar muitos objetos, mesmo inúteis, é catalogado como transtorno de acumulação e essa classificação é apoiada no comportamento do indivíduo, não levando em conta a subjetividade, afetos, pulsões, desejos e gozos.

A angústia dos acumuladores

O transtorno de acumulação (TA), que pode ser definido como o gosto imoderado por acumulação, é um distúrbio psíquico ainda muito pouco conhecido, no qual o indivíduo acumula os objetos, sem os utilizar, com uma dificuldade maior de se desapegar, mesmo que esses sejam inúteis, perigosos, volumosos e insalubres. Essa acumulação afeta o espaço de vida e a mobilidade do sujeito e dos seus próximos. Pode ser a causa de incêndios, de condições insalubres, ferimentos, 1mas, sobretudo, de um empobrecimento do funcionamento social e prejuízo dos relacionamentos familiares. Esses sujeitos demonstram medo enorme de perder ou se desfazer dos objetos que possam vir a ser importantes no futuro. Por isso, desenvolvem determinadas crenças acerca da posse e privação de objetos. São sujeitos que perderam o senso de autocontrole, têm dificuldades na organização de seus espaços físicos, tornando o ambiente de convívio praticamente inabitável.

O TA possui uma diferença afetiva significativa que serve para distinguir um colecionador de um acumulador. Essa diferença é que o colecionador tem orgulho e, muitas vezes, se vangloria disso para as pessoas que o interessam. Enquanto o acumulador, em geral, sente vergonha e procura esconder dos outros, com o objetivo de não mostrar o transbordamento da desorganização do seu ego sobre os objetos da realidade.

O acumulador, segundo a Psicanálise, para evitar a ameaça de castração que vem do Outro em forma de críticas, censuras e desvalorização de sua pessoa, ou grupo social, usa principalmente o mecanismo de defesa de “isolamento”, o que conduz a um paradoxo, pois ao tentar preencher o seu vazio acaba criando outro vazio social.

Já o colecionador terá uma intenção inconsciente de ordenar os objetos, a través da classificação, seriação e catalogação. Acreditando, assim, ser valorizado, reconhecido e amado pelo outro, ao preço de ficar recalcada a significação inconsciente do afeto ligado ao objeto, desligando-se da representação. E, com isso, além do isolamento do afeto em relação à representação, ainda tem o evitamento desse afeto. Portanto, é possível afirmar que existe uma ênfase nesse caso, do mecanismo de defesa “anulação”.

Essa diferença é muito marcante na clínica psicanalítica, desde que Freud criou essa nomenclatura nosográfica chamada neurose obsessiva compulsiva. Ou seja, o acumulador tem uma tendência maior em utilizar do mecanismo de defesa “o isolamento”, enquanto o colecionador tende a utilizar como mecanismo de defesa mais a anulação que o isolamento.

O avanço das Neurociências, através das tecnologias das imagens na Medicina, permite mapear os sinais de resposta cerebral a partir da estimulação comportamental, e vem cada vez mais confirmar o que a clínica psicanalítica já havia distinguido através do pai da Psicanálise, que, diga-se de passagem, podia ser considerado um dos melhores neurologistas da sua época. E essa constatação foi confirmada a partir da diferenciação que o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, classificação norte-americana de Psiquiatria) se viu obrigado a fazer entre TOC e acumuladores. Atualmente, o transtorno de acumulação compulsiva está classificado isoladamente, o que demonstra um grande avanço das Neurociências.

Embora o diagnóstico do TOC apresente semelhanças com o TA, um a das principais diferenças entre essas duas psicopatologias é que os sujeitos que acumulam apresentam pensamentos obsessivos intrusivos, rituais ou sentimentos de angústia e desconforto emocional. As pessoas tentam resistir, mas não conseguem parar o pensamento, agem com uma pressão contínua, gerando muita angústia ao se desfazer dos objetos que possuem.

O DSM-5, oficialmente publicado em 18 de maio de 2013, inclui em seus novos diagnósticos o transtorno de acumulação. Utiliza um critério de bom insight (autocrítica pessoal) e ausência de insight (sintomas delirantes), para diferenciar e reconhecer os pensamentos obsessivos como sintoma de um transtorno mental, situação em que a convicção da veracidade dos sintomas pode alcançar características psicóticas.

O diagnóstico de TA foi criado para descrever indivíduos que acumulam objetos e experimentam sofrimento e prejuízo pela persistente dificuldade de se desfazer ou de se separar de determinados bens (independentemente do seu real valor) devido à percepção de que necessitam guardar esses itens, apresentando angústia frente a descartá-los.

Os estudos mais recentes apontam que 2,3% a 4,6% dos casos de TA concernem mais aos homens em relação às mulheres, e sua frequência aumenta com a idade. Isso pode variar de um processo funcional e de adaptação normal até a de mecanismos excessivos ou patológicos. Mesmo quando é excessivo não se pode falar imediatamente que é patológico, já que o comportamento de colecionar e acumular objetos encontra-se presente em todas as populações, variando entre espectros. Ressalta-se que esse tipo de comportamento pode ser considerado adaptativo em momentos de privação, a fim de preservar e assegurar a sobrevivência da espécie humana. Contrário a isso, é possível verificar a gravidade do comportamento das pessoas que acumulam patologicamente.

Estas acabam se envolvendo em processos judiciais, despejos, reclamações de vizinhos ou impedidas judicialmente de cuidar de sua prole. Os ambientes entulhados, com odores insuportáveis, impedem o desempenho de atividades básicas relacionadas à alimentação, ao sono e higiene, tornando os espaços inócuos e comprimidos. A vida vai se estreitando, a desordem interna vai se materializando nos espaços externos.

Esse tipo de distúrbio pode aparecer em diversas estruturas clínicas, sendo registrado na esquizofrenia, como um a defesa contra a despersonalização, com a sua característica de angústia de fragmentação do corpo. Mas também nas neuroses, tomando um sentido de sintoma para tentar solucionar, através da negação, a ameaça de castração, advinda do complexo de castração. Em ambos, deve-se temer pela frequência desses distúrbios, tanto na psicose como na neurose, pelo perigo em que a pessoa se coloca.

Tendo demarcado uma pequena borda entre as visões dos diferentes saberes que abordam esse assunto, é possível dar um passo a mais na visão que a Psicanálise pode oferecer.

FENÔMENO

Primeiramente, vale destacar que a Psicanálise irá partir do fenômeno para chegar à causa deste. O fenômeno em causa que está sendo tratando é o sintoma de acumulação. Se o sintoma acumulação foi nomeado, é porque tem um motivo. Tal motivo decorre da própria noção que a Psicanálise tem do que é um sintoma. O sintoma é a representação da realização disfarçada de um desejo inconsciente, que por ter sido censurado, sofreu a ação do recalcamento e, posteriormente, tal recalcamento encontrou um caminho para se manifestar, fazendo uma conciliação entre o Isso, enquanto desejo originário, e o Supereu, que o censurou. O sintoma será mais ou menos resistente à interpretação, dependendo da viscosidade da libido investida no mesmo.

Desse modo, quando se diz que a acumulação é um sintoma, concebe-se que ele é efeito da sexualidade do ser falante. Que ele é um dizer de outra coisa, que diz respeito à sexualidade e que está deslocada e condensada, metonímica e metaforicamente.

Esse sintoma de acumulação é a expressão inconsciente de um desejo recalcado, desejo esse que revela o indivíduo como sujeito e, ao mesmo tempo, assujeitado pelas leis da linguagem, assim como revela esse indivíduo enquanto ser falante, que tem um gozo próprio. Tal gozo provém do ponto de fixação que predominou para essa pessoa no desenvolvimento de sua sexualidade infantil. Esse ponto de fixação, Freud o chamará de disposição da libido.

Os acumuladores apresentam uma forte fixação libidinal na fase sádica anal. Por isso, querem reter para si todo objeto que pode ser dispensado para o outro, privando este do objeto libidinal. Tais pessoas têm fortes tendências sádicas em relação ao outro e expressa isso ao acumular para si os objetos que, inconscientemente, são os representantes desse objeto sádico anal, que é tido como valioso. Esses objetos passam a dominar a vida da pessoa, são investimentos simbólicos, alheios à consciência, e aprisionam as pessoas em seu habitat. Estas, não conseguindo se desfazer das coisas úteis e inúteis, tendem, muitas vezes, ao impulso de comprar ou catar lixo ou restos alheios ou coisas que são determinadas pelo desejo infantilizado. Os acumuladores procuram “forcluir” a ética do desejo daquele que leva em consideração a castração simbólica, que, por sua vez, possibilita o declínio do complexo de Édipo. Para evitar os riscos de ter que pagar com o seu ser, e, com isso, enfrentar o mundo com as suas escolhas e suas consequências, incluindo perdas, separações, frustrações e privações, com a esperança de colocar limites no espaço, preenchendo o vazio, e de controlar o tempo, prevendo um futuro de privações, fazendo da vida uma repetição obsessiva predominantemente imaginária, acumulando bugigangas. Não suportando a falta, e na tentativa de supri-la com esses objetos necessários, restos, coisas, eles não desejam ter, mas tentam repetidamente negar a presença de uma ausência.

Tais tendências são desencadeadas por perdas importantes na infância, adolescência ou mesmo na vida adulta que reativam o complexo de castração infantil que não foi assumido, ou ainda por fortes sentimentos de ódio recalcado em relação a pessoas amadas. Esse ódio que foi censurado fica recalcado e reaparece de forma disfarçada, através do sintoma de acumulação, privando o outro de poder desfrutar de tal objeto de amor.

COMPLEXO DE CASTRAÇÃO

A causa desses desencadeamentos está na relação que o indivíduo tem com o seu complexo de castração. Essas pessoas, ao fixarem parte importante de sua libido na fase sádica anal, irão reagir frente a qualquer ameaça de perda ou frente às perdas de fatos, recorrendo a tal procedimento que ficou como um DNA psíquico.

Frente à perda, que pode significar inconscientemente a ameaça de castração, tais pessoas poderão responder de formas diferentes, rejeitando e, portanto, se estruturando enquanto psicótica ou negando e se estruturando de forma neurótica. Tanto numa quanto noutra, poderão ter a influência das marcas e efeitos de certa fixação ou intensa fixação na fase sádica anal.

No caso das pessoas psicóticas que rejeitaram o complexo de castração, que tiveram certa fixação nessa fase da organização da libido, isso não impedirá que seu ponto de fixação de maior viscosidade seja o oral canibalesco. Assim sendo, tais pessoas regredirão à fase oral, carregando traços da fase sádico-anal. Isso explicaria os casos de esquizofrenia que encontram certa suplência na acumulação.

Por outro lado, certas pessoas irão proceder negando o complexo de castração e sua consequente ameaça de perda de seu objeto libidinal. Essas pessoas irão se estruturar como neuróticas, apesar de não terem assumido o complexo de castração. Este se escreveu pela própria negação, efeito paradoxal da negação que, ao negar, afirma.

No caso do sintoma de acumulação na neurose, é possível acompanhar, ao longo da vida, outros representantes simbólicos desse sintoma que podem estar associados ou se apresentarem intercaladamente, que, entre outros, pode ser a constipação patológica, onde irão acumular suas fezes a ponto de colocar a sua saúde física em risco.

FUNÇÃO MATERNA

A origem relacional desse sintoma ou da suplência é em relação à pessoa que cumprir a função materna. A criança procura ser avessa a realizar o desejo do Outro. Esse Outro que irá pela primeira vez demandar da criança que realize o seu desejo – desejo do Outro. Pela primeira vez a criança pode considerar que tem algo de valioso para preencher a falta do Outro. Nesse momento, ela realiza que pode dar ou reter. Dar representará presentear e, desse modo, preencher a falta no Outro, e reter para si representará agredir o Outro o deixando em falta.

Tal procedimento de agredir o Outro tem sua causa na angústia de desaparecer, pelo vazio instaurado pela falta no momento de dar ao Outro o que está retido em si. Destarte, essas pessoas desenvolvem esses sintomas para tentar fugir do suposto vazio que imaginam poder se instaurar em suas vidas. Por essa razão, esse sintoma sempre acompanha um profundo medo da escassez no futuro, e, assim, pode-se dizer que é um sintoma ligado ao futuro e não ao passado.

Procurando fugir do vazio, irão provocar um vazio no Outro, o que é possível observar através do isolamento e do evitamento que estão sempre presentes nesses indivíduos, que provocas um grande empobrecimento das relações afetivas com outros seres humanos.

Após o exposto, verifica-se que a Psicanálise não trabalha apenas com o comportamento, e sim com a causa, o porquê de se iniciarem determinados sintomas, atacando, então, no cerne da questão. Porém, vale salientar que o paciente pode estar em risco e, ao mesmo tempo, recusar se submeter a uma experiência psicanalítica. Nesses casos, devem-se oferecer alternativas no sentido de favorecer que essa pessoa possa formular um a questão a respeito de sua relação com esse sintoma. Para tanto, pode-se utilizar uma equipe multidisciplinar, incluindo assistente social, atendimento familiar e, quando necessário, o acompanhamento terapêutico.

Esses casos extremos não evoluem de uma hora para outra. Quando se pesquisa a história da doença, verifica-se que tais sintomas já apareceram, de forma bem menos intensa, em vários momentos da vida. Vale lembrar que na infância se constatam os primeiros sinais, nas constipações citadas acima. Assim sendo, não se deve negligenciar uma escuta psicanalítica nos primeiros sinais que indicam a estruturação desse sintoma. É através da análise que a pessoa significará as perdas, frustrações, limites, separações, e simbolizando poderá fazer um a retificação subjetiva da sua relação com o Outro.

A angústia dos acumuladores.2

 A RELAÇÃO ENTRE TRANSTORNO DE ACUMULAÇÃO E ESQUIZOFRENIA

Entre as inúmeras estruturas clinicas que podem apresentar o transtorno de acumulação está a esquizofrenia, funcionando como uma defesa contra a despersonalização, com a sua forma de angústia de fragmentação do corpo. Doença psiquiátrica endógena, a esquizofrenia se caracteriza pela perda do contato com a realidade. O indivíduo pode se fechar e se tornar indiferente a tudo o que se passa ao seu redor, ou, ainda, sofrer de alucinações e delírios. A pessoa em questão escuta vozes que ninguém ouve e imagina estar sendo vítima de uma conspiração diabólica elaborada para destrui-la. Não existe qualquer tipo de argumento que a convença do contrário ou a faça mudar de opinião ou comportamento. Há muitos anos esses indivíduos eram jogados em sanatórios para “loucos”, porque pouco ou nada se sabia sobre a doença. Entretanto, ao longo das últimas décadas, foram registrados grandes avanços no estudo e tratamento da esquizofrenia, que, quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, menos danos provocará.

A angústia dos acumuladores.3

TOC

O transtorno obsessivo-compulsivo, conhecido como TOC, incomoda milhares de pessoas em todo o mundo. Frequentemente, os sintomas são leves e quase imperceptíveis, mas em outras vezes são extremamente graves, podendo incapacitar a pessoa para o trabalho e impedi-la de se relacionar socialmente. São acompanhados de ansiedade, medo e culpa. Alguns exemplos: lavar as mãos a todo o momento, observar repetidas vezes se a porta está trancada, necessidade exagerada de arrumação, entre outros.

A angústia dos acumuladores.4

COMPLEXO DE ÉDIPO

Conceito criado por Freud, mas descrito e balizado por Jung, o complexo de Édipo foi baseado na tragédia Édipo Rei, de Sófocles. De acordo com a Psicanálise, a criança do sexo masculino é acometida por sentimentos opostos, de amor e ódio, em relação à mãe. Isso acontece quando ela atravessa a fase fálica, durante a segunda infância, e toma consciência da diversidade entre os sexos. Geralmente, se sente atraída pelo sexo oposto de sua própria família.

 

JOSSELINE CÁPUA RODRIGUES SANCHES – é psicóloga psicanalista com especialização clínica em Psicanalise membro do Sedes Sapientiae em Psicanálise com crianças, membro da Associação Livre, membro do Núcleo de Estudos da Sexualidade do Ser Falante em Psicanálise. Prêmio Voluntários do Ano 2009 como coordenadora de oficinas terapêuticas do Ambulatório de Saúde Mental de Araçatuba.

PAUL KARDOUS – é psicanalista, psicólogo, com mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, membro da Associação Livre, membro internacional do campo lacaniano, fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa da Sexualidade do Ser Falante autor do livro: Impotência Sexual, o Real, o Simbólico e o Imaginário, coautor do livro Semiótica Psicanalítica.

OUTROS OLHARES

NA FLOR DA IDADE

No Brasil e nos Estados Unidos, a faixa etária da população que registra significativo aumento no número de suicídios é a daqueles que mal começaram a vida.

Na flor da idade

Em questão de poucos dias nestes últimos meses, dois americanos mundialmente conhecidos se suicidaram, ambos por enforcamento. A estilista Kate Spade, de 55 anos, se matou em seu apartamento em Nova York. O chef Anthony Bourdain, de 61, num quarto de hotel na França. Com isso, o assunto, em geral murmurado, causou alarido no noticiário, nas conversas e nas redes sociais. No mundo todo, 800.000 pessoas se suicidam por ano, uma a cada quarenta segundos. É uma tragédia, mas tem um aspecto ainda mais dramático: as taxas de suicídio entre os jovens são mais altas do que nunca.

Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade por suicídio aumentou mais entre os 15 e os 24 anos do que em qualquer outra faixa etária: 20% entre 2011 e 2016 – o suicídio é agora a terceira maior causa de óbito nesse segmento. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que, entre jovens de 15 a 19 anos, o suicídio teve um aumento igual, de 20%, e no mesmo período. Aqui, a decisão de tirar a própria vida já é a quarta causa mais frequente de morte entre jovens. Em um terço dos países do mundo, entre eles Japão e Coreia do Sul, suicidar- se é a causa mortis mais comum entre meninos e meninas. “Os idosos eram o maior grupo de risco. Agora, os jovens começam a tomar o seu lugar”, afirma o psiquiatra Humberto Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio.

É uma tragédia. Conhecido como Avicii, o DJ sueco Tim Bergling foi encontrado morto em abril em um quarto de hotel em Muscat, a capital do sultanato de Omã. Passava férias sozinho lá e já havia declarado várias vezes não suportar a pressão e o frenesi da vida artística. Antes dele, no fim de janeiro, o americano Mark Salling, de 35 anos, ator do seriado Glee, enforcou-se em um parque de Los Angeles semanas antes de começar a cumprir pena por pedofilia. No Brasil, o escritor carioca Victor Heringer, ganhador de um Prêmio Jabuti, suicidou-se em março, aos 29 anos. No mês seguinte, o exclusivo ambiente das escolas particulares de São Paulo foi abalado pelo suicídio de três alunos do ensino médio, com apenas dias de diferença.

É uma tragédia. A existência de transtorno mental recorrente ou ocasional, principalmente depressão, paira sobre 98% dos casos de suicídio, e a eles se associam geralmente um ou mais fatores agravantes. No caso dos jovens, a psiquiatra Analice Gigliotti aponta a frequência da relação entre o abuso de drogas e álcool e a morte auto- infligida. “Muitas vezes, o uso não leva à decisão de tirar a própria vida, mas serve de estímulo para ela”, diz Analice. A familiaridade dos mais novos com a internet funciona de maneira parecida, ao expor em profusão de detalhes as formas de se matar. Uma simples busca no Google com a frase em inglês how to kill myself (“como me matar”) trará 570 milhões de respostas.

É uma tragédia. Ainda no mundo virtual, fenômenos de rápida propagação, como o fatídico jogo da Baleia Azul – que induzia praticantes a provocar o próprio fim -, adicionaram novos elementos à combinação que estimula e facilita os suicídios. Grupos de WhatsApp e Facebook são suspeitos de estar por trás de duas mortes em fevereiro, em Goiânia. Higor Moreira, de15anos, enforcou-se; Gabriel Câmara, de 13, jogou-se no mesmo dia do 26º andar de um prédio. Segundo especialistas, a angústia de uma geração fixada no mundo virtual está na raiz do aumento no número de casos de depressão em menores de idade. Pesa nisso, por exemplo, a insistência com que as postagens nas redes sociais divulgam instantâneos de felicidade e vidas perfeitas, incompatíveis com a da maioria dos garotos e garotas fechados em seu quarto – cercados de amizades virtuais e inseguranças reais. Entre americanos de 12 a 17 anos, os diagnósticos saltaram 37% nos últimos dez anos. No Brasil, 40% nos últimos cinco anos.

É uma tragédia, sim, mas não é um destino. Há saídas, sobretudo numa atenção redobrada à depressão e distúrbios mentais, também crescentes. “Em geral, só chega ao extremo de tirar a própria vida quem sofre ou sofreu de alguma doença psíquica”, diz Helio Deliberador, professor de psicologia social da PUC-SP. Kate Spade, separada do marido havia dez meses, estava em tratamento contra a depressão, agravada por problemas conjugais. Bourdain, dependente de heroína e em crise na relação com a atriz Asia Argento, dizia não conhecer ninguém “com mais vontade de morrer” do que ele próprio.

Aos suicidas, a existência de cordas de salvação profissionais é essencial. Nos municípios brasileiros que contam com Centros de Atenção Psicossocial, o risco de atentado à própria vida diminuiu, em média, 14%. A procura por serviços do gênero não para de crescer. Em 2017, os voluntários do mais tradicional deles, o Centro de Valorização da Vida, atenderam 2 milhões de chamados, o dobro do ano anterior. O CVV criou recentemente um chat em seu site para se aproximar de quem se sente mais à vontade diante de uma tela do que de um telefone.

O país que registra a maior taxa de suicídios no mundo é o Sri Lanka, na Ásia: 34,6 por 100.000 habitantes. Depois vêm Guiana, Mongólia, Cazaquistão e Costa do Marfim. O primeiro país desenvolvido da lista é a Coreia do Sul, situação atribuída principalmente à pressão sobre os estudantes por bons resultados. Nos últimos vinte anos, medidas de prevenção fizeram com que a incidência de novos casos caísse em 83% das nações que reportam dados à Organização Mundial da Saúde. Brasil e Estados Unidos, porém, permanecem entre os 17% onde a taxa continua a subir – trágica e principalmente entre jovens, meninos e meninas que buscam a morte antes mesmo de conhecer a vida.

 Na flor da idade.2

GESTÃO E CARREIRA

O LÍDER CARISMÁTICO

Carisma é importante para o trabalho em equipe e era predominante em grandes mestres da história. A relação de confiança entre líderes e equipe tem como base a honestidade, integridade e coerência.

O líder carismático

Provavelmente, você já conheceu uma pessoa fascinante, que tinha algo a mais, especial, difícil de decifrar. Uma capacidade inexplicável de deixar melhor quem encontrou, de tocar as pessoas com o próprio brilho, com uma força diferente que nos faz perguntar: de onde vem esse fascínio?

O que afinal é carisma? A palavra vem do grego chàrisma, que deriva da chàris, que significa “graça”. Na mitologia grega, o nome chàris era também como eram chamadas As Três Graças, deusas da felicidade e da beleza, símbolos da harmonia e da perfeição. A elas associava-se tudo o que promove encantamento, brilho e satisfação. Já na tradição cristã, a palavra significa um dom divino, uma graça concedida aos fiéis.

Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e Betinho, grandes líderes, inspiradores e guias de multidões que tinham a força do carisma vinda da percepção por parte das pessoas de que eles estavam falando e agindo cada vez mais no interesse do grupo, transmitindo de forma inequívoca valores e ideais. São pessoas que deixaram sua história marcada no mundo. O atual Papa Francisco já ganhou a simpatia dos fiéis graças à sua figura carismática.

 Olhando para eles, então, podemos identificar alguns elementos que caracterizam suas ações. Por exemplo, tratar todos bem, indistintamente (do porteiro à moça do cafezinho até o presidente da empresa). O elemento principal presente em quem tem carisma é a intenção verdadeira e honesta de inspirar, servir e se dedicar às pessoas, a um objetivo comum e ao interesse dos envolvidos. É a intenção autêntica de honrar e respeitar os outros, independentemente do cargo, que toma a pessoa magnética e carismática. É isso que faz com que estejamos atraídos por ela, que desperta o nosso interesse mesmo sem palavras, com a simples presença.

Vestir-se para mostrar o seu melhor e não para impressionar é uma característica da pessoa carismática. A roupa é um canal de comunicação e, por meio de como nos vestimos, transmitimos uma grande quantidade de mensagens. Quem somos, as nossas intenções e as nossas preferências.

Porém, o único caminho para difundir segurança e autoestima é passar uma mensagem autêntica e que reflita realmente quem somos e o que queremos.

Saber ouvir é uma das grandes capacidades para uma comunicação assertiva, outra característica que identifica uma pessoa carismática e que é essencial para uma liderança eficaz. Comunicar implica o ato de interagir com o outro, de ouvi-lo e conhecê-lo, utilizando a “flexibilidade comunicativa”, que é a capacidade e a intenção do comunicador de ouvir, entender e se adaptar ao contexto situacional e ao interlocutor.

O líder carismático reconhece e respeita as suas próprias convicções e as dos outros, criando uma relação de reciprocidade e não de imposição, mantendo uma postura honesta e verdadeira. A criação de empatia também está em sua veia. Ele se coloca no lugar do próximo para compreendê-lo melhor, identificar suas vontades, opiniões e motivações e assim poder flexibilizar os próprios comportamentos e atitudes.

A pessoa que possui carisma faz elogios sinceros. Quando estamos verdadeiramente interessados e atentos aos outros e as suas qualidades, os elogios são sinceros e criam um relacionamento interpessoal positivo, necessário para construir confiança e fortalecer a autoestima nos interlocutores. Lembrando que não é a quantidade dos elogios que faz a diferença, mas a qualidade e intensidade.

Reconhecer os próprios pontos fracos significa reconhecer que errar faz parte do caminho do ser humano. Quando uma pessoa não admite as próprias falhas e não se permite errar, assume uma postura teimosa e inflexível, tentando provar que ela está certa e o mundo errado, gerando afastamento, resistência e rompendo a relação de confiança com as pessoas próximas.

A relação de confiança entre líderes e equipe tem como base a honestidade, integridade e coerência. Para que uma pessoa confie em alguém e se comprometa com ele precisa acreditar nele, perceber que é verdadeiro e coerente nas ações.

Contudo, o elemento principal presente em um líder carismático é a intenção verdadeira e honesta de inspirar, servir e se dedicar às pessoas, a um objetivo comum e ao interesse dos envolvidos. É a vontade autêntica de honrar e respeitar os outros que torna alguém magnético e carismático. Ele também é um indivíduo centrado, presente na situação e nas relações, o que faz com que estejamos atraídos por ele, que desperta o nosso interesse mesmo antes de conhecê-lo melhor.

É importante ressaltar igualmente que o carisma não é uma qualidade que alguém tem e outros não, mas é uma potencialidade de todos de se tornarem inesquecíveis e encantadores, pois está fortemente ligada à força e ao poder da presença da pessoa. Ou seja, você pode sim ser um líder carismático!

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal. Com mais de 30 anos de experiência no Brasil e na Europa, é referência em ampliar o crescimento e a auto liderança das pessoas.  www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE IV

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte IV

Em quarto lugar, os grandes incentivos que nos são dados pela fé, para olhar para Ele.

1. Ele foi levantado com a finalidade de que seus seguidores pudessem ser salvos, e Ele irá perseverar rumo a este fim.

2. A oferta de salvação que é feita por Ele é geral, para que qualquer pessoa que crer nele, sem exceção, possa beneficiar-se dele.

3. A salvação oferecida é completa.

(1) Eles não perecerão, não morrerão pelos seus ferimentos. Embora possam sentir dor e muito medo, a iniquidade não será sua ruína. Mas isto não é tudo.

(2) Eles terão a vida eterna. Eles não somente não morrerão dos seus ferimentos no deserto, mas alcançarão Canaã (onde eles estariam prontos para entrar). Eles desfrutarão do descanso prometido.

[2] Jesus Cristo veio para nos salvar, perdoando-nos, para que não morrêssemos pela sentença da lei, vv. 16,17. Aqui há Evangelho verdadeiramente, boas novas, o melhor que já veio do céu para a terra. Aqui há muito, aqui há tudo em poucas palavras, a palavra de reconciliação em miniatura, o resumo da redenção.

Em primeiro lugar, aqui está o amor de Deus: Ele deu seu Filho pelo mundo (v. 16), e nisto temos três aspectos:

1. O grande mistério do Evangelho revelado: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”. O amor de Deus, o Pai, é a origem da nossa regeneração pelo Espírito e nossa reconciliação pelo levantamento do Filho. Observe:

(1) Jesus Cristo é o Filho unigênito de Deus. Isto engrandece seu amor ao dá-lo por nós, em dá-lo a nós. Uma vez que Ele deu seu Filho unigênito por nós, sabemos que Ele nos ama, o que expressa não apenas sua dignidade em si mesmo, mas o quanto Ele era amado pelo seu Pai. Ele era sempre seu deleite.

(2) Para possibilitar a redenção e a salvação do homem, Deus se alegrou em dar seu Filho unigênito. Ele não apenas o enviou ao mundo, com plenos e amplos poderes para negociar uma paz entre o céu e a terra, mas o entregou, isto é, Ele o entregou para que sofresse e morresse por nós, como o grande sacrifício propiciatório ou expiatório. Este fato mostra a razão pela qual Ele deveria ser levantado, pois assim tinha sido determinado e designado pelo Pai, que o entregou com este objetivo, e preparou para Ele um corpo para esta finalidade. Seus inimigos não poderiam ter lançado mão dele, se seu Pai não o tivesse entregado. Embora Ele ainda não estivesse crucificado, ainda assim Ele “foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus”, Atos 2.23. Na verdade, Deus o tinha entregado, isto é, Ele tinha feito dele uma oferta, a todos, e o entregou a todos os verdadeiros crentes, para todos os objetivos e propósitos do novo concerto. Ele o entregou para ser nosso profeta, uma testemunha para o povo, o sumo sacerdote da nossa profissão de fé, para ser nossa paz, para ser o líder da igreja e governar sobre todas as coisas da igreja, para ser para nós tudo o que necessitamos.

(3) Aqui Deus elogia seu amor pelo mundo: Deus amou muito o mundo, de maneira muito verdadeira, muito rica. Agora suas criaturas verão que Ele as ama, e as quer bem. Ele tanto amou o mundo de homens caídos como não amou o dos anjos caídos. Veja Romanos 5.8; 1 João 4.10. Veja e maravilhe-se com o fato de que Deus ame tanto um mundo tão indigno! Que o Deus santo ame tanto um mundo perdido com um amor que expressa tamanha boa vontade, quando, se quisesse, seria justo por não considerá-lo com nenhuma complacência. Este era um tempo de amores, verdadeiramente, Ezequiel 16.6,8. Os judeus vaidosamente presumiam que o Messias seria enviado somente por amor à sua nação, para fazê-los triunfar sobre as ruínas dos seus vizinhos, mas Cristo lhes diz que Ele veio por amor a todo o mundo, aos gentios, além dos judeus, 1 João 2.2. Embora muitos do mundo da humanidade pereçam, o fato de Deus entregar seu Filho unigênito é um exemplo do seu amor por todo o mundo, porque, por meio dele, existe uma oferta geral de vida e salvação feita a todos. Em vista deste precioso amor, as províncias revoltadas e rebeldes devem promulgar uma proclamação de perdão e anistia a rem, colocando-se de joelhos e retornando à sua fidelidade. Deus amou tanto o mundo apóstata e decaído, a ponto de enviar seu Filho com esta proposta atraente, de que quem crer nele, quem quer que seja, não perecerá. A salvação tinha sido dos judeus, mas agora Cristo é conhecido como a salvação até os confins da terra. Ele oferece a salvação a todos. A salvação agora é de todos.

2. Aqui está o grande dever do Evangelho, que é crer em Jesus Cristo (aquele a quem Deus deu por nós, aquele que Deus deu a nós), aceitar o presente, e corresponder à intenção de quem o deu. Devemos oferecer uma avaliação e um consentimento sincero, reconhecendo o testemunho que Deus deu a este mundo a respeito do seu Filho. Deus o entregou a nós, para ser nosso profeta, sacerdote e rei, e nós devemos nos entregar para ser governados, ensinados e salvos por Ele.

3. Aqui está o grande benefício do Evangelho: “Para que todo aquele que nele crê não pereça”. Jesus tinha dito isso antes, e aqui o repete. A felicidade indescritível de todos os verdadeiros crentes, pela qual eles estão eternamente em dívida com Cristo, é:

(1) Que eles estão salvos das desgraças do inferno, libertados de descer ao poço. Eles não perecerão. Deus removeu seu pecado, eles não morrerão. Um perdão foi comprado, e, desta maneira, a desonra é revertida.

(2) Eles têm direito às alegrias do céu: eles terão a vida eterna. O traidor condenado não é apenas perdoado, mas promovido, e tornado um favorito, e tratado como alguém a quem o Rei dos reis se alegra em honrar. “Um sai do cárcere para reinar”, Eclesiastes 4.14. Se somos crentes, então somos filhos, e, se somos filhos, então somos também herdeiros.

Em segundo lugar, aqui está o desígnio de Deus ao enviar seu Filho ao mundo: “Para que o mundo fosse salvo por Ele”. Ele veio ao mundo tendo a salvação como objetivo, com a salvação na sua mão. Portanto, a oferta previamente mencionada de vida e salvação é sincera, e será cumprida para todos os que, pela fé, a aceitarem (v. 17): “Deus enviou o seu Filho ao mundo”, este mundo culpado, rebelde, apóstata. Enviou-o como seu agente ou embaixador, não corno às vezes Ele tinha enviado anjos ao mundo, corno visitantes, mas como um residente. Desde que o homem pecou, ele temia a chegada e a aparição de qualquer mensageiro especial do céu, corno tendo consciência da culpa, e esperando o julgamento: “Certamente morreremos, porquanto ternos visto Deus”. Se, portanto, o próprio Filho de Deus vem, nós nos preocupamos em descobrir em que missão Ele vem: “E de paz?” Ou, como perguntaram a Samuel, tremendo: “De paz é a tua vinda?”. E esta passagem das Escrituras traz ares­ posta: “É de paz”.

1. Ele não veio para condenar o mundo. Nós teríamos razões suficientes para esperar que Ele viesse para condenar o mundo, pois este é um mundo culpado. É condenado, e que motivo pode ser apresentado pelo qual o julgamento não deva ocorrer, e a execução realizar-se, de acordo com a lei? Aquele “um só” que fez “toda a geração dos homens” (At 17.26) não somente está corrompido com uma doença que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a lepra de Geazi, mas está corrompido com uma culpa que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a dos amalequitas, com quem Deus guerreava geração após geração. E, com justiça, um mundo como este todos aqueles que vierem, colocando-se de joelhos e retornando à sua fidelidade. Deus amou tanto o mundo apóstata e decaído, a ponto de enviar seu Filho com esta proposta atraente, de que quem crer nele, quem quer que seja, não perecerá. A salvação tinha sido dos judeus, mas agora Cristo é conhecido como a salvação até os confins da terra. Ele oferece a salvação a todos. A salvação agora é de todos.

2. Aqui está o grande dever do Evangelho, que é crer em Jesus Cristo (aquele a quem Deus deu por nós, aquele que Deus deu a nós), aceitar o presente, e corresponder à intenção de quem o deu. Devemos oferecer uma avaliação e um consentimento sincero, reconhecendo o testemunho que Deus deu a este mundo a respeito do seu Filho. Deus o entregou a nós, para ser nosso profeta, sacerdote e rei, e nós devemos nos entregar para ser governados, ensinados e salvos por Ele.

3. Aqui está o grande benefício do Evangelho: “Para que todo aquele que nele crê não pereça”. Jesus tinha dito isso antes, e aqui o repete. A felicidade indescritível de todos os verdadeiros crentes, pela qual eles estão eternamente em dívida com Cristo, é:

(1) Que eles estão salvos das desgraças do inferno, libertados de descer ao poço. Eles não perecerão. Deus removeu seu pecado, eles não morrerão. Um perdão foi comprado, e, desta maneira, a desonra é revertida.

(2) Eles têm direito às alegrias do céu: eles terão a vida eterna. O traidor condenado não é apenas perdoado, mas promovido, e tornado um favorito, e tratado como alguém a quem o Rei dos reis se alegra em honrar. “Um sai do cárcere para reinar”, Eclesiastes 4.14. Se somos crentes, então somos filhos, e, se somos filhos, então somos também herdeiros.

Em segundo lugar, aqui está o desígnio de Deus ao enviar seu Filho ao mundo: “Para que o mundo fosse salvo por Ele”. Ele veio ao mundo tendo a salvação como objetivo, com a salvação na sua mão. Portanto, a oferta previamente mencionada de vida e salvação é sincera, e será cumprida para todos os que, pela fé, a aceitarem (v. 17): “Deus enviou o seu Filho ao mundo”, este mundo culpado, rebelde, apostata. Enviou-o como seu agente ou embaixador, não como as vezes Ele tinha enviado anjos ao mundo, como visitantes, mas como um residente.

Desde que o homem pecou, ele temia a chegada e a aparição de qualquer mensageiro especial do céu, como tendo consciência da culpa, e esperando o julgamento: “Certamente morreremos, porquanto temos visto Deus”. Se, portanto, o próprio Filho de Deus vem, nós nos preocupamos em descobrir em que missão Ele vem: “É de paz?” Ou, como perguntaram a Samuel, tremendo: “De paz e a tua vinda?”. E esta passagem das Escrituras traz a resposta: “É de paz”.

1. Ele não veio para condenar o mundo. Nós teríamos razões suficientes para esperar que Ele viesse para condenar o mundo, pois este e um mundo culpado. E condenado, e que motivo pode ser apresentado pelo qual o julgamento não deva ocorrer, e a execução realizar-se, de acordo com a lei? Aquele “um só” que fez “toda a geração dos homens” (At 17.26) não somente está corrompido com uma doença que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a lepra de Geazi, mas está corrompido com uma culpa que passa de pai para filho através de ensinos e exemplos, como a dos amalequitas, com quem Deus guerreava geração após geração. E, com justiça, um mundo como este deve ser condenado. E se Deus tivesse desejado condená-lo, Ele teria anjos ao seu dispor, para derramar os vasos da sua ira, um querubim com uma espada flamejante, pronto para a execução. Se o Senhor tivesse se alegrado em nos matar, Ele não teria enviado seu Filho ao nosso meio. Ele veio com plenos poderes, realmente, para realizar o julgamento (cap. 5.22,27), mas não começou com um julgamento de condenação, não começou com a incriminação, nem usou, contra nós, da vantagem do rompimento do concerto da inocência, mas nos colocou em um novo julgamento diante do trono da graça.

2. Ele veio para que o mundo fosse salvo por Ele, para que uma porta para a salvação pudesse ser aberta ao mundo, e quem desejasse pudesse passar por ela. Deus estava em Cristo “reconciliando consigo o mundo”, e, desta maneira, salvando-o. Uma declaração de anistia é aprovada e publicada, por meio de Cristo uma lei reparadora é feita, e o mundo da humanidade é tratado, não de acordo com os rigores do primeiro concerto, mas de acordo com as riquezas do segundo, para que o mundo fosse salvo por Ele, pois ele nunca poderia ser salvo, senão por Ele. Não existe salvação em ninguém mais. O fato de que Cristo, nosso Juiz, veio não para condenar, mas para salvar, são boas novas para uma consciência condenada, a cura para os ossos quebrados e as feridas ensanguentadas.

[3] De tudo isto, pode-se concluir o motivo da felicidade dos verdadeiros crentes: “Quem crê nele não é condenado”, v. 18. Embora tenha sido um pecador, um grande pecador, e permaneça condenado por sua própria confissão), ainda assim, pela sua fé, o processo é interrompido, o julgamento é detido e ele não é condenado. Isto indica mais do que um adiamento. O pecador perdoado não é condenado, isto é, ele é absolvido. Ele considera sua libertação (como dizemos), e se não é condenado, é absolvido, ou ele não é julgado, não é tratado com uma justiça rígida, de acordo com aquilo que seus pecados merecem. O pecador perdoado é acusado, e não pode alegar inocência à acusação, mas ele pode alegar no tribunal, pode alegar à acusação, como faz o bendito Paulo: “Quem os condenará?… é Cristo quem morreu”. O pecador perdoado é atormentado, castigado por Deus, perseguido pelo mundo, mas ele não é condenado. A cruz, talvez, seja pesada sobre o pecador perdoado, mas ele está salvo da maldição: condenado pelo mundo, pode ser, mas não condenado com o mundo, Romanos 8.1; 1 Coríntios 11.32.

3. Cristo, no final, fala sobre a condição deplorável daqueles que persistem na incredulidade e na ignorân­ cia voluntária, vv. 18-21.

(1) Leia aqui o destino daqueles que não creem em Cristo: eles já estão condenados. Observe:

[1] Como é grande o pecado dos descrentes. Ele é agravado pela dignidade da pessoa a quem eles desprezam. Eles não creem no nome do Filho unigênito de Deus, que é infinitamente fiel, e merece que creiam nele, é infinitamente bom, e merece ser aceito. Deus nos enviou alguém para nos salvar, alguém que Ele amava muito. E será que Ele não deveria ser amado por nós? Não devemos nós crer no nome daquele que tem “um nome que é sobre todo o nome”?

[2] Como é grande a infelicidade dos descrentes: eles já estão condenados, o que significa, em primeiro lugar, uma condenação garantida. Eles serão condenados no julgamento do grande dia com tanta certeza como se já estivessem condenados. Em segundo lugar, uma condenação imediata. A maldição já se apoderou deles. A ira de Deus agora cai sobre eles. Eles já estão condenados, pois seus próprios corações os condenam. Em terceiro lugar, uma condenação fundamentada na sua culpa anterior: eles já estão condenados, pois estão sujeitos à lei por todos os seus pecados. A obrigação da lei está em pleno vigor, poder e virtude contra eles, porque não estão, pela fé, interessados na absolvição proporcionada pelo Evangelho. Eles já estão condenados, porque não creram. A incredulidade pode ser verdadeiramente considerada como o grande pecado condenador, porque nos deixa sob a culpa de todos os outros pecados. E um pecado contra o remédio, contra nossa defesa.

(2) Leia também o destino daqueles que não desejavam conhecer Jesus, v. 19. Muitas pessoas curiosas têm conhecimento de Cristo e da sua doutrina, mas têm preconceitos contra Ele e não desejam crer nele, ao passo que a maioria está entorpecidamente descuidada e ignorante, e não deseja conhecê-lo. E esta é a condenação, o pecado que os destruiu: ”A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”. Aqui, observe:

[1] Que o Evangelho é luz e, quando o Evangelho veio, a luz veio ao mundo. A luz dá testemunho de si mesma, e também o Evangelho. Ele prova sua própria origem divina. A luz é descoberta, e “verdadeiramente suave é a luz”, e alegra o coração. E “uma luz que alumia em lugar escuro”, e um lugar escuro que o mundo realmente não deveria ter. Ela veio a todo o mundo (Colossenses 1.6), e não está confinada a uma parte dele, como a luz do Antigo Testamento estava.

[2] Que a loucura indescritível da maioria dos homens é o fato de que amem mais as trevas do que a luz, mais do que esta luz. Os judeus amavam as sombras escuras da sua lei, e as instruções dos seus guias cegos, mais do que a doutrina de Cristo. Os gentios amavam seus cultos supersticiosos a um Deus desconhecido, a quem adoravam de uma forma absolutamente ignorante, mais do que o culto racional que o Evangelho requer. Os pecadores que estavam casados com seus desejos amavam mais sua ignorância e seus enganos (que justificavam seus pecados) do que as verdades de Cristo, que os teriam afastado dos seus pecados. A apostasia do homem teve início em uma simulação de conhecimento proibido, mas é mantida por uma simulação de ignorância proibida. O homem miserável está apaixonado pela sua doença, pela sua escravidão, e não deseja ser libertado, não deseja ser curado.

[3] A verdadeira razão pela qual os homens amam as trevas mais do que a luz é porque suas obras são más. Eles amam as trevas porque pensam que são uma desculpa para suas más obras, e odeiam a luz porque ela lhes tira a boa opinião que têm de si mesmos, mostrando-lhes sua infelicidade e iniquidade. Sua situação é triste, e, porque estão determinados a não corrigi-la, eles estão decididos a não ver a luz.

[4] A ignorância voluntária está tão longe de desculpar o pecado, que será encontrada, no grande dia, agravando a condenação: ”A condenação é esta”, é o que destrói almas, que eles fecham seus olhos para a luz, e não desejam ter um relacionamento com Cristo, nem querem viver seu Evangelho. Eles colocam Deus em uma posição tão desafiadora, que não desejam ter conhecimento dos seus caminhos, Jó 21.14. Nós deveremos prestar contas no julgamento, não somente do conhecimento que tínhamos, e que não utilizamos, mas do conhecimento que poderíamos ter tido, e não desejamos; não somente do conhecimento contra o qual pecamos, mas do conhecimento que afastamos, pecando. Para exemplificar mais, o Senhor mostra (vv. 20,21) que os homens serão influenciados pela luz que Cristo trouxe ao mundo, de acordo com a bondade ou com a maldade que haja em suas vidas e em seus corações.

Em primeiro lugar, não é estranho que aqueles que fazem o mal, e decidem persistir nele, odeiem a luz do Evangelho de Cristo, pois é comum observar que “todo aquele que faz o mal aborrece a luz”, v. 20. Os malfeitores procuram um disfarce, por um sentimento de vergonha e temor da punição. Veja Jó 24.13ss. Obras pecaminosas são obras das trevas. O pecado, desde o início, procurou esconderijo, Jó 31.33. A luz sacode os ímpios, Jó 38.12,13. Desta maneira, o Evangelho é um terror para o mundo ímpio: eles não vêm esta luz, mas se afastam tanto quanto podem, para que suas obras não sejam reprovadas. Observe:

1. A luz do Evangelho é enviada ao mundo, para reprovar as más obras dos pecadores, para torná-las manifestas (Efésios 5.13), para mostrar às pessoas suas transgressões, para mostrar que era pecado aquilo que não se pensava ser pecado, e para mostrar-lhes o mal das suas transgressões, para que o pecado, pelo novo mandamento, pudesse parecer excessivamente pecaminoso. O Evangelho tem suas condenações, que abrem caminho para seus consolos.

2. É por este motivo que os malfeitores odeiam a luz do Evangelho. Havia aqueles que tinham agido mal, e que lamentavam por isto, que recebiam esta luz, como os publicanos e as prostitutas. Mas aquele que faz o mal, que o realiza e decide persistir nele, odeia a luz e não pode suportar ouvir falar dos seus erros. Toda esta oposição que o Evangelho de Cristo encontrou no mundo origina-se de corações ímpios, que são influenciados pelo Iníquo. Cristo é odiado por aqueles que amam o pecado.

3. Aqueles que não vêm para a luz evidenciam um ódio secreto da luz. Se eles não tivessem uma antipatia pelo conhecimento que salva, eles não permaneceriam de maneira tão satisfeita na ignorância que condena.

Em segundo lugar, por outro lado, os corações justos, que são aceitos por Deus na sua integridade, recebem esta luz (v. 21): “Quem pratica a verdade vem para a luz”. Parece, então, que embora o Evangelho tivesse muitos inimigos, ele tinha alguns amigos. É comum observar que a verdade não procura subterfúgios. Aqueles que pensam e agem com honestidade não temem um escrutínio, mas o desejam. Isto se aplica à luz do Evangelho. Como ela condena e aterroriza os malfeitores, assim ela confirma e consola aqueles que andam na sua integridade. Observe aqui:

1. O caráter de um homem bom.

(1) É aquele que pratica a verdade, isto é, ele age de modo verdadeiro e sincero em tudo o que faz. Embora, às vezes, ele não consiga fazer o bem, o bem que desejaria fazer, ainda assim ele pratica a verdade, ele de­ seja honestamente. Ele tem suas fraquezas, mas se apega à sua integridade. Como Gaio, que procedia fielmente (3 João 5), como Paulo (2 Coríntios 1.12), como Natanael (cap. 1.47), como Asa, 1 Reis 15.14.

(2) Ele é aquele que vem para a luz. Ele está pronto para receber e aceitar a revelação divina, até onde ela assim parecer a ele, qualquer que seja o desconforto que ela possa lhe trazer. Aquele que pratica a verdade deseja conhecer a verdade por si mesmo, e ter suas obras manifestas. O homem bom dedica-se muito à auto avaliação, e deseja que Deus o esquadrinhe, Salmos 26.2. Ele deseja saber qual é a vontade de Deus, e decide cumpri-la, embora ela possa ser contrária à sua própria vontade e aos seus interesses.

2. Aqui está o caráter de uma boa obra: ela é desempenhada na presença de Deus, em união com Ele por meio de uma fé empenhada na aliança, e em comunhão com Ele através de afetos devotos. Nossas obras, então, são boas, e resistirão ao teste, quando a vontade de Deus for aquilo que as governar, e a glória de Deus for sua finalidade, quando elas forem realizadas no seu poder, por Ele e para Ele, e não para os homens. E se, pela luz do Evangelho, nos ficar manifesto que nossas obras se realizam desta maneira, então nós teremos glória, Gálatas 6.4; 2 Coríntios 1.12.

 

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

FORMAS DE MORRER

Pode parecer estranho, mas viver alheio de si mesmo também é uma forma de morrer.

Formas de morrer

E então ele, desesperado com o rumo que as coisas haviam tomado, avançou sobre a mulher, desferindo- lhe repetidos golpes de faca que, seguidamente, reafirmavam a dimensão de seu fracasso: como homem, como marido, como pai daquela linda família congelada nas lembranças das mídias sociais. Seria preciso apagar os indícios de sua existência, já que não seria capaz de conviver com seu peso acusatório. No derradeiro controle da realidade que o cercara, joga os dois filhos do 18º andar, atirando-se, em seguida, rumo ao final de seu sofrimento.

No apartamento, a carta deixada sobre um móvel qualquer enumera “justificativas” para o ato. Todas elas girando em torno de um fracasso profissional, uma cartada arriscada para ganhar mais (e, é claro, assumida apenas pelo “bem da família”) e um contrato mal acordado que lhe trazia revés financeiro.

A despeito do tom de folhetim, a cena acima descreve um fato real ocorrido no Rio de Janeiro há poucos meses.

A imprensa, como não poderia deixar de ser, recorre a especialistas para explicar o fato. Alguns são comedidos ao fazê-lo. Em síntese, afirmam que não é possível que se faça nenhuma análise confiável sem que se conheçam os envolvidos. Já outros, deslumbrados com seus minutos de fama, desferem um sem­ número de asneiras que giram em torno de valores materialistas, pressões da sociedade de consumo e coisas do gênero. De fato, só existe uma razão que justifica a tragédia: a doença de seu protagonista que não enxergou nenhuma alternativa, nenhum outro recurso, senão o escolhido, para lidar com seus problemas. O que jamais saberemos – e que para tanto precisaríamos conhecê-lo profundamente – são as razões que o levaram ao desenvolvimento de sua doença. Contudo, uma coisa parece certa: dentro da sua confusão mental, o suicida parece realmente acreditar que seu ato se justificaria pelas razões que descreve em sua carta derradeira.

Isso posto, não estamos aqui discutindo as causas do homicídio/suicídio, mas talvez possamos analisar a justificativa deixada pelo suicida, essa sim talvez um retrato de uma sociedade doente e com indivíduos alheios a si mesmos.

Desde que nascemos somos educados para atingir o sucesso. Nossos pais, zelosos, empenham- se para isso logo nos nossos primeiros anos de vida, ao nos escolherem a melhor escola possível, o curso de inglês, o reforço de matemática, os sermões sobre a importância dos estudos. Mas, afinal de contas, o que significa o sucesso? Seria o resultado de um trabalho constante? De dedicação a um objetivo? Muitos diriam que sim e é justamente aí que se encontra o problema.

Somos levados a crer no sucesso como sendo o resultado de algo. Uma espécie de pote de ouro no fim do arco-íris. Mas o verdadeiro sucesso é processo. Parafraseando Guimarães, eu diria que “ele se dispõe pra gente é no meio da travessia”.

A crença no sucesso (e até mesmo na felicidade) como resultado de algo facilmente leva o crente a associá-lo à simples conquista de metas e objetivos, o que traz em si algumas implicações. A primeira delas é simples: não há garantias de que possamos atingi-los. Muitas coisas podem acontecer no meio do caminho e uma delas – talvez a mais dramática de todas – seria uma vida inteira vivida com sentimento de fracasso e infelicidade por algo que não se conquistou: “Pobrezinho, morreu de enfarte a um mês da tão sonhada aposentadoria!”.

A outra implicação da crença no sucesso como resultado do cumprimento de metas é a necessidade de nos perguntarmos se nossas metas são dignas de nós. Se retratam quem somos, nossos valores mais íntimos, nossa verdade mais profunda. Aí sim entra o perigo de construirmos uma vida não simplesmente buscando o sucesso como a conquista de algo, mas de um algo estéril, destituído de nós mesmos. Nesses casos, talvez o suicídio represente o fim de alguma coisa que há muito havia morrido.

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, tem curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.  graziano@)psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

AINDA TEM MUITO CHÃO

Pesquisa mostra que o sistema de cotas fez aumentar o número de negros no ensino superior, mas a proporção de brancos cresceu mais ainda no mesmo período.

Ainda tem muito chão

Ao começar a ser implantado em 2002, o sistema decotas prometia ser um impulso vital na direção do fim da desigualdade entre negros e brancos no ensino superior brasileiro. Graças às cotas, de fato, o número de negros universitários praticamente quadruplicou. Naquele ano, do total de jovens pretos e pardos entre 18 e 24 anos no Brasil, apenas 3,8% estavam nas universidades. Passados quinze anos, a proporção subiu para 14% –  o que é uma excelente notícia. Uma pesquisa inédita mostra, no entanto, que, apesar desse avanço louvável, a desigualdade racial no ensino superior praticamente não se alterou – na verdade, ela até cresceu.

Estudo do Instituto IDados, do Rio de Janeiro, baseado em números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), informa que, em 1992, do total de jovens negros apenas 1,5% estava matriculado em universidades, enquanto os brancos eram 7,3% – uma diferença de 5,8 pontos porcentuais. Em 2017, os negros alcançaram os citados 14%, mas a proporção de brancos disparou para 27% – ou 13 pontos de diferença. A explicação está no crescente papel no ensino superior brasileiro das universidades privadas, que não cabem no bolso da população pobre (no Brasil, quase sinônimo de negra). As cotas são obrigatórias nas instituições públicas e todas (menos a Universidade Estadual do Paraná) aderiram ao sistema.

Desde a implantação das cotas, as matrículas nas escolas federais e estaduais – de negros e brancos – dobraram. Nas privadas, triplicaram. É nelas, hoje, que estão três de cada quatro universitários. ”A maior parte desse aumento de matrículas veio de financiamentos públicos, e quem se beneficia deles é a população branca”, diz a pesquisadora Talita Mereb, do IDados. Isso explica por que a diferença se tornou ainda maior. Assim, a ideia de que a proporção de negros e brancos nas universidades seja igual à da população em geral acabou ficando mais distante.

Por mais que as cotas tenham aumentado o número de negros no ensino superior, elas continuam sendo, e sempre serão, uma ferramenta paliativa – selecionam os melhores e deixam de fora a enorme massa de negros que nem passa das fases iniciais do aprendizado. “É mais eficaz e barato corrigir as distorções no acesso ao ensino, na primeira infância, quando o cérebro da criança está sendo formado. Tudo o que acontecer nos dois primeiros anos de vida de um ser humano tende a se perpetuar ao longo de sua vida”, diz João Batista de Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beta. Enquanto o ensino básico público não tiver qualidade, negros e pobres continuarão a perder a corrida para a universidade.

Ainda tem muito chão.2

GESTÃO E CARREIRA

ATITUDES PARA MANTER A EFICÁCIA

Alto grau de eficiência e equilíbrio é o resultado que buscamos constantemente para a vida pessoal e profissional e que também esperamos encontrar nas empresas em que trabalhamos.

Atitudes para manter a eficácia

Organizar, gerir, liderar, entre outras inúmeras atribuições do mundo corporativo, geram tensão e estresse, o que acaba nos desestabilizando em certos momentos. Mas diante desse cenário, será possível manter a produtividade e os resultados sem que se percam a serenidade e o controle da situação? Como podemos agir de forma mais eficaz e enfrentar melhor os desafios do cotidiano profissional?

Antes de tudo, é necessário entender que para sobreviver aos incontáveis compromissos, à correria do dia a dia e às exigências de produtividade e prazos, é preciso de disciplina mental, comportamental e algumas atitudes que colaboram para a eficácia profissional.

Não acumular trabalho, por exemplo, é um ponto muito importante. Adiar as tarefas a serem feitas não é algo inato no ser humano, mas sim um hábito que pode ser mudado e treinado.

Mantenha a atenção no movimento ativo e construtivo que precisa ser feito. Às vezes, as pessoas adiam trabalhos que poderiam ser resolvidos em poucos minutos. Quando não temos tempo suficiente para finalizar um trabalho, precisamos nos questionar e compreender que o problema não é o tempo, mas sim algo que estamos fazendo de forma improdutiva ou que estamos deixando de fazer. Distrações variadas ou até mesmo pessoas que estão ao redor podem gerar interrupções que roubam um tempo precioso, por isso é preciso cuidado nesse aspecto.

Se permitirmos que conversas, comentários, telefonemas, celular e mensagens nos distraiam demais e tirem a atenção e o foco durante o trabalho, é necessário treinar a nossa capacidade de concentração direcionada. O sucesso e o êxito exigem uma mente ordenada, que sabe, naturalmente, concentrar a atenção na tarefa que está fazendo, que não é afetada por intervenção externa, mas mantém seus pensamentos constantemente organizados e focados por um período suficientemente longo de tempo. Isso permite fortalecer a autoconfiança, calma, clareza mental e força interior.

Pesquisa realizada pela Robert Half nos Estados Unidos, com 300 diretores de RH, revelou que uma mesa desorganizada coloca em cheque as competências e a eficácia de um colaborador. Essa é a percepção de 32% dos entrevistados pela consultoria – e eles não estão errados. Um local de trabalho coberto de papéis e materiais bloqueia a produtividade e aumenta a confusão, não só externa e concreta, mas também mental, de pensamentos, decisões e ideias. A desordem desenvolve um círculo vicioso: adiar a organização do ambiente de trabalho cria a desorganização que, por sua vez, alimenta a procrastinação e mantém a desordem.

Alguma vez já aconteceu de perder muito tempo procurando algo fora do lugar? Demora-se mais tempo procurando documentos na bagunça do que em decidir agir e organizar o que é preciso. Quem consegue organizar seu sistema e ambiente de trabalho aumenta muito a sua performance e os seus resultados.

Uma organização externa e material ajuda a criar uma organização mental e vice-versa. Porém, grande parte da energia e do tempo desperdiçados é decorrente de uma mente desorganizada, ou seja, pela falta de objetivos claros, de planejamento e de definição de prioridades.

Para evitar essa perda, mantenha o foco no planejamento e não no improviso. Às vezes, recusamos a nos programar por acreditar na ideia de que o improviso está associado à liberdade, quando, na verdade, é o contrário. Livre é quem sabe planejar, pois consegue equilibrar melhor o tempo, as exigências, tarefas e a ânsia dos prazos que se aproximam. Priorize suas atividades e tarefas, permitindo que seus próprios projetos sejam concluídos com mais eficácia. Quando nos distraímos, temos a tendência de agir de forma improdutiva. Além disso, é muito importante saber dizer não quando necessário, pois ao assumir compromissos que não são de sua competência, seu tempo e energia podem ser desperdiçados.

Uma mente organizada permite ter ação e não procrastinar, portanto treine sempre o hábito de agir. Uma vez identificados os objetivos e as soluções, é importante segui-los, e a autodisciplina é essencial para bloquear os eventuais hábitos limitantes. Não bastam os dons naturais, os talentos e potenciais, se estes não forem aperfeiçoados, direcionados e colocados a serviço de um objetivo.

Sabemos que algumas variáveis são imprevisíveis e fogem do nosso controle, mesmo fazendo todos os planejamentos possíveis. Mas, exatamente por essa razão, treinar a capacidade de planejar nos permite antecipar as consequências, prever quais resultados as ações poderão ter, e gerenciar melhor as urgências que podem aparecer. Assim, ficamos mais disciplinados e aumentamos a nossa própria realização e satisfação.

O paradoxo é que quando estamos agindo dentro desses padrões de comportamento – acumular trabalho, permitir interrupções e manter a desorganização – perdemos muito tempo e nos tornamos extremamente ocupados e atarefados, e acabamos dedicando pouco tempo e atenção para verificar e avaliar para onde estamos indo, qual a direção do nosso trabalho e da nossa vida.

Não precisamos mais enfrentar continuamente emergências, nem ficarmos esgotados trabalhando de forma confusa e improdutiva, mas podemos encontrar energia, calma interior e vontade de realizar cuidando do que realmente é importante e, assim, conquistar resultados significativos para todas as esferas da vida.

 

EDUARDO SHINYASHIKI – é palestrante, consultor organizacional, especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua publicação mais recente. www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 1-21 – PARTE III

Alimento diário

A Conversa de Cristo com Nicodemos – Parte III

2. Aqui está um sermão a respeito da certeza e da sublimidade das verdades do Evangelho. O Senhor Jesus Cristo aproveita a fraqueza de Nicodemos para proferi-lo. Aqui temos:

(1) A objeção que Nicodemos ainda fez (v.9): “Como pode ser isso?” A explicação de Cristo da doutrina da necessidade da regeneração, aparentemente, não ficou clara para ele. A corrupção da natureza que a torna necessária, e a maneira como o Espírito a torna executável, são mistérios para ele, tanto quanto o próprio evento. Embora, de maneira geral, ele reconhecesse Cristo como um mestre divino, ele ainda se recusava a receber seus ensinamentos, quando não estavam de acordo com as noções que o impregnavam. Desta maneira, muitos professam aceitar a doutrina de Cristo, de uma forma geral, mas, na realidade, não crêem nas verdades do cristianismo, nem se submetem a elas. Estes seguem suas próprias vontades. Cristo será seu professor, desde que eles possam escolher sua lição. Aqui:

[1] Nicodemos reconhece ser ignorante do que Cristo quer dizer afinal: “‘Como pode ser isso?’ Estas são coisas que eu não consigo compreender, minha capacidade não as alcança”.

Assim, “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura”. Ele não somente é alheio a elas, e desta forma elas são obscuras a ele, mas ele também é preconceituoso contra elas, e por isto são loucura par a ele.

[2] Por esta doutrina ser incompreensível para si (assim ele se satisfazia em torná-la), ele questiona a verdade que há nela, como se, por ser um paradoxo para ele, fosse uma quimera em si mesma. Muitos têm esta opinião sobre sua própria capacidade, a ponto de pensar que aquilo em que eles não conseguem crer não possa ser provado. Eles não conhecem Cristo de uma forma sábia.

(2)  A repreensão que Cristo fez, devido à estupidez e ignorância de Nicodemos: “‘Tu és mestre de Israel’, um tutor, alguém que se senta na cadeira de Moisés, e não somente não está familiarizado com a doutrina da regeneração, mas também é incapaz de compreendê-la?” Isto é uma reprovação:

[1] Àqueles que se incumbem de ensinar os outros, e ainda assim eles mesmos são ignorantes e inexperientes na palavra da justiça.

[2] Àqueles que passam seu tempo aprendendo e ensinando noções e cerimônias religiosas, detalhes e críticas às Escrituras, e se esquecem daquilo que é prático e que transforma o coração e a vida. Duas palavras na repreensão são muito enfáticas. Em primeiro lugar, o local onde sua sorte tinha sido lançada: em Israel, onde havia tanta abundância de meios de conhecimento, onde estava a revelação divina. Ele podia ter aprendido isto do Antigo Testamento. Em segundo lugar, as coisas de que ele era ignorante: essas coisas, essas coisas necessárias, essas coisas grandiosas, essas coisas divinas. Será que ele nunca tinha lido Salmos 50.5,10; Ezequiel 18.31; 36.25,26?

(3)  O sermão de Cristo, como consequência disto, sobre a certeza e a sublimidade das verdades do Evangelho (vv. 11-13), para mostrar a loucura daqueles que se fazem alheios a estas coisas, e recomendar que as busquemos. Observe aqui:

[1] Que as verdades que Cristo ensinava eram garantidas. Elas são dignas de absoluta confiança (v. 11): “Nós dizemos o que sabemos”. Nós. A quem Ele se refere, além de si mesmo? Alguns opinam que Ele se referia àqueles que testificavam dele e com Ele na terra, os profetas e João Batista. Eles diziam o que sabiam e tinham visto, aquilo com que estavam plenamente satisfeitos. A revelação divina traz suas próprias evidências consigo. Outros julgam que Ele se referia àqueles que davam testemunho no céu, o Pai e o Espírito Santo. O Pai estava com Ele, o Espírito do Senhor estava sobre Ele, por isto Ele fala no plural, como em João 14.23: “Viremos para ele”. Observe, em primeiro lugar, que as verdades de Cristo são de certeza indubitável. Nós temos todas as razões do mundo para ter certeza de que as palavras de Cristo são palavras fiéis, e em que podemos arriscar nossas almas, pois Ele não somente é uma testemunha digna de crédito, que não faria nada para nos enganar, mas é também uma testemunha competente, que não se deixaria enganar: “Testificamos o que vimos”. Ele não fala do que ouviu dizer, mas fala sobre as evidências mais claras, e, portanto, com a maior certeza. Aquilo que Ele falava sobre Deus, sobre o mundo invisível, sobre o céu e o inferno, sobre a vontade divina a nosso respeito, e os conselhos de paz, era aquilo que Ele conhecia, e tinha visto, pois Ele estava com Deus, o Pai, como alguém que sempre viveu com Ele, Provérbios 8.30.Tudo o que Cristo dizia, Ele dizia com base no seu próprio conhecimento. Em segundo lugar, que a incredulidade dos pecadores é enormemente agravada pela infalível certeza das verdades de Cristo. As coisas são claras e certas, desta maneira, contudo “não aceitais o nosso testemunho”. Haverá multidões de descrentes naquilo em que (por serem tão convincentes as razões da credibilidade) não poderiam deixar de crer!

[2] As verdades que Cristo ensinava, embora transmitidas com linguagem e expressões emprestadas de coisas comuns e terrenas, ainda assim, na sua própria natureza, eram extremamente sublimes e celestiais. Isto é dado a entender no versículo 12: “‘Se vos falei de coisas terrestres’, isto é, se falei das grandes coisas de Deus por meio de similaridades com as coisas terrenas, para torná-las mais fáceis e compreensíveis, como quando falei do novo nascimento e do vento – se me adaptei às vossas capacidades, e vos falei na vossa própria língua, e não consigo fazer com que entendais minha doutrina -, o que faríeis se Eu me acomodasse à natureza das coisas, e falasse na língua dos anjos, a língua que os mortais não conseguem falar? Se estas expressões familiares são pedras de tropeço, o que poderiam ser as ideias abstratas, e as coisas espirituais, expressas de maneira adequada?” Aqui podemos aprender, em primeiro lugar, a admirar a estatura e a profundidade da doutrina de Cristo. Ela é um grande mistério da piedade. As coisas do Evangelho são coisas celestiais, fora da esfera das indagações da razão humana, e muito mais fora do alcance das suas descobertas. Em segundo lugar; a reconhecer, com gratidão, a condescendência de Cristo, porque Ele se alegra de adequar a forma da revelação do Evangelho às nossas capacidades, a falar conosco como se fôssemos crianças. Ele considera nossa estrutura, o fato de que somos originários da terra, e nosso lugar, pois estamos sobre a terra, e nos fala de coisas terrenas, e faz das coisas concretas o veículo das coisas espirituais, para torná-las mais fáceis e familiares para nós. Isto Ele fez tanto em parábolas quanto em sacramentos. Em terceiro lugar, a lamentar a corrupção da nossa natureza, e nossa grande inaptidão para receber e aceitar as verdades de Cristo. As coisas terrenas são desprezadas porque são vulgares, e as coisas celestiais, porque são abstratas e, aparentemente, de difícil compreensão. Sendo assim, qualquer que seja o método adotado, um ou outro defeito ainda serão encontrados neles (Mateus 11.17), mas, apesar disto, a Sabedoria é, e sempre será justificada através de seus filhos.

[3] Nosso Senhor Jesus, e somente Ele, estava capacitado para nos revelar uma doutrina tão certa e tão sublime: “Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu”, v. 13.

Em primeiro lugar, ninguém, exceto Cristo, tinha a capacidade de nos revelar a vontade de Deus para nossa salvação. Nicodemos dirigiu-se a Cristo como a um profeta, mas ele devia saber que Ele é maior do que todos os profetas do Antigo Testamento, pois nenhum deles tinha subido ao céu. Eles escreviam por inspiração divina, e não pelo seu próprio conhecimento. Veja cap. 1.18. Moisés subiu ao monte, mas não ao céu. Nenhum homem tem o conhecimento de Deus e das coisas celestiais como Cristo tem. Veja Mateus 11.27. Não nos cabe pedir instruções ao céu, nós devemos esperar para receber as instruções que o Céu nos enviar. Veja Provérbios 30.4; Deuteronômio 30.12.

Em segundo lugar, Jesus Cristo é capaz, e é adequado, e está completamente capacitado, para revelar a vontade de Deus para nós, pois é Ele que desceu do céu e que está no céu. Ele tinha dito (v. 12): “Como crereis, se vos falar das celestiais?” Aqui:

1. Ele lhes dá um exemplo destas coisas celestiais de que Ele lhes poderia falar, quando lhes fala de alguém que desceu do céu, e ainda assim é o Filho do homem: “O Filho do homem, que está no céu”. Se a regeneração da alma do homem é um mistério tão grande, o que será, então, a encarnação do Filho de Deus? Estas são verdadeiramente coisas divinas e celestiais. Aqui temos uma indicação das duas naturezas distintas de Cristo, em uma única pessoa: sua natureza divina, na qual Ele desceu do céu; sua natureza humana, na qual, Ele é o Filho do homem; e a união das duas, na qual embora Ele seja o Filho do Homem, também está no céu.

2. Ele lhes dá uma prova da sua capacidade de falar a eles sobre coisas celestiais, e de levá-los aos mistérios do reino do céu, ao dizer-lhes:

(1) Que Ele desceu do céu. A relação entre Deus e o homem teve início no alto. O primeiro movimento rumo a ela não subiu desta terra, mas desceu do céu. Nós o amamos, e o chamamos, porque Ele nos amou primeiro, e nos chamou. Isto sugere:

[1] A natureza divina de Cristo. Aquele que desceu do céu certamente é mais do que um mero homem, Ele é o Senhor do céu, 1 Coríntios 15.47.

[2] Sua íntima familiaridade com os conselhos divinos, pois, vindo da corte do céu, e sendo Deus, Ele tinha estado, desde a eternidade, familiarizado com eles.

[3] A manifestação de Deus. Sob o Antigo Testamento, os favores de Deus ao seu povo são expressos pelo seu ouvir do céu (2 Crônicas 7.14), atender do céu (Salmos 80.14), falar do céu (Neemias 9.13), enviar do céu, Salmos 57.3. Mas o Novo Testamento nos mostra Deus descendo do céu, para nos ensinar e salvar. O fato de que Ele tenha descido assim é um mistério admirável, pois a Divindade não pode trocar de lugar, nem trazer seu corpo do céu, mas o fato de que Ele condescendesse assim para nossa redenção é uma misericórdia ainda mais admirável. Aqui, Ele enobrece seu próprio amor.

(2) Que Ele é o Filho do homem, o Filho do homem de que Daniel falou (Daniel 7.13), e que os judeus sempre entenderam que se tratava do Messias. Cristo, ao dizer que é o Filho do homem, mostra que Ele é o segundo Adão, pois o primeiro Adão foi o pai do homem. E de todos os títulos do Antigo Testamento usados para o Messias, Ele decide fazer uso deste, porque era o que mais expressava sua humildade, e o que mais estava de acordo com sua atual condição de humilhação.

(3) Que Ele está no céu. Agora, nesta ocasião, Ele fala com Nicodemos na terra, mas ainda assim, como Deus, Ele faz parte da Divindade, que está no céu. O Filho do homem, como tal, não esteve no céu, até sua ascensão, mas aquele que era o Filho do homem estava agora, pela sua natureza divina, presente em todos os lugares, e particularmente no céu. Desta maneira, o Senhor de glória, como tal, não podia ser crucificado, nem podia Deus, como tal, derramar seu sangue, mas aquela pessoa que era o Senhor da glória foi crucificada (1 Coríntios 2.8), e Deus resgatou a igreja com seu próprio sangue. Atos 20.28. Tão íntima é a união das duas naturezas em uma pessoa, que existe uma comunicação de propriedades. Ele não diz Deus é aquele que é, e o céu é a habitação da sua santidade.

3. Aqui Cristo fala do grande desígnio da sua própria vinda ao mundo, e da felicidade daqueles que creem nele, vv. 14-18. Aqui temos a verdadeira essência de todo o Evangelho, esta palavra fiel (1 Timóteo 1.15), que consiste no fato de que Jesus Cristo veio para buscar e salvar os filhos dos homens da morte, e restaurá-los à vida. Os pecadores são homens mortos, segundo uma consideração dupla:

(1) Como alguém que está mortalmente ferido, ou afligido por uma doença incurável, é considerado um homem morto, pois está à morte. E assim Cristo veio para nos salvar, curando- nos, como a serpente de metal curava os israelitas, vv. 14,15.

(2) Como alguém que é justamente condenado a morrer por um crime imperdoável é um homem morto, ele está morto na lei. E, em referência a esta parte dos nossos perigos, Cristo veio para nos salvar como um príncipe ou juiz, promulgando um decreto de anistia, ou um perdão geral, sob determinadas condições. Esta salvação é oposta à condenação, vv. 16 -18.

[1] Jesus Cristo veio nos salvar, curando-nos, assim como os filhos de Israel que eram feridos por serpentes ardentes eram curados e viviam por olhar para a serpente de metal. Esta história está registrada em Números 21.6-9, e foi o último milagre que o Senhor realizou pelas mãos de Moisés antes da sua morte. Neste tipo de Cristo, podemos observar:

Em primeiro lugar, a natureza mortal e destrutiva do pecado, que é sugerida aqui. A culpa do pecado é como a dor da picada de uma serpente ardente. O poder de corrupção é como o veneno que se espalha por todas as partes. O Diabo é a antiga serpente, sutil a princípio (Genesis 3.1), mas desde então feroz, e suas tentações, dardos violentos; seus ataques, aterrorizadores; suas vitórias, destruidoras. Pergunte às consciências despertas, pergunte aos pecadores condenados, e eles lhe dirão que, não importa como as seduções do pecado possam ser encantadoras, no final ele morde como uma serpente, Provérbios 23.80-32. A ira de Deus contra nós, devido ao pecado, é como aquelas serpentes ardentes que Deus enviou entre o povo, para puni-los por suas murmurações. As maldições da lei são como ser pentes ardentes, assim são todos os sinais da ira divina.

Em segundo lugar, o remédio poderoso fornecido contra esta doença fatal. A situação dos pobres pecadores é deplorável, mas é desesperadora? Graças a Deus, não é. Existe bálsamo em Gileade. O Filho do homem é erguido, como a serpente de metal que curou os israelitas feridos foi erguida por Moisés.

1. Foi uma serpente de metal que os curou. O metal é brilhante. Nós lemos sobre os pés de Cristo reluzindo como latão, Apocalipse 1.15. É durável. Cristo também o é. Ela estava moldada na forma de uma serpente ardente, mas não tinha veneno, nem picava, adequadamente representando Cristo, que foi feito pecado por nós, e não conheceu pecado; foi feito à semelhança da carne pecaminosa, mas não foi pecador; tão inofensivo quanto uma serpente de metal. A serpente era uma criatura amaldiçoada, Cristo se fez maldição. A cura deveria lembrá-los do seu mal, e assim, em Cristo, o pecado é apresentado diante de nós da forma mais violenta e terrível possível.

2. Ela foi erguida em uma haste, e o Filho do homem também devia ser levantado. Convinha a Ele, Lucas 24.26,46. Não há remédio agora. Cristo é erguido:

(1) Na sua crucificação. Ele foi levantado na cruz. Está escrito que, na sua morte, Ele foi levantado, cap. 12.32,33. Ele foi levantado como um espetáculo, como uma marca, levantado entre o céu e a terra, como se tivesse sido indigno de qualquer um deles, e tivesse sido abandonado por ambos.

(2) Na sua exaltação. Ele foi elevado até à destra do Pai, para dar o arrependimento e a remissão. Ele foi levantado na cruz, para depois ser levantado até à coroa.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER LIMITADO DA RAZÃO

O desastre mundial no combate à dependência química pode ser considerado um retrato da nossa insistência em reduzir a importância do afeto como agente de mudança, colocando-o à sombra do intelecto.

O poder limitado da razão

A sofisticada capacidade de buscar justificativas lógicas para tudo o que acontece dentro e fora de nós não é, ao contrário do que parece, a protagonista das nossas decisões. A verdade é que as razões que arquitetamos por vezes com tanta engenhosidade têm pouca influência sobre a forma como vivemos – dos hábitos e tarefas que executamos até as pessoas das quais nos aproximamos. A consciência nem tem acesso à maior parte do que está sendo processado em nosso cérebro e é ali, nesse universo desconhecido da nossa identidade, que são feitas as escolhas que moldam a vida. É dali que surgem o que chamamos de insights, ali que nascem as paixões, que se forma o senso de conexão e pertencimento e tudo o que consideramos produto da intuição. Isso explica por que as melhores ideias são aquelas que dão a impressão de que nos encontraram, chegaram a nós – e não o contrário. Não raramente, a forma como respondemos a situações emocionalmente muito significativas causa o mesmo estranhamento.

Não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e os desafios da convivência social e suas inevitáveis falhas de comunicação nos enviam constantes pistas desse fato. Para que possamos nos entender melhor é preciso redefinir o conceito de “conhecer”, conforme conclui o neurocientista David Eagleman em Incógnito as Vidas Secretas do Cérebro. “O autoconhecimento requer agora entender que o você consciente só ocupa uma salinha na mansão do cérebro e que ele tem pouco controle sobre a realidade que você constrói. A invocação ‘conhece-te a ti mesmo’ precisa ser considerada de novas maneiras”, avalia.

A sensação de ter o controle absoluto dos próprios atos e reações pode trazer segurança em alguns momentos, mas ser um peso esmagador em outros, pois vem com carga de responsabilidade e culpa. Não apenas somos pouco compreensivos com relação às próprias fraquezas ou falhas: dificilmente interpretamos os comportamentos dos outros como resultado de fatores que ficam fora do campo do intelecto.

Como já verificou o neurocientista português Antônio Damásio, somos incapazes de tomar qualquer tipo de decisão sem antes consultarmos nosso campo emocional. E nossas emoções são extremamente suscetíveis aos mais variados fatores, momentâneos ou enraizados: carências plantadas ainda na infância, dificuldades, alterações hormonais, cansaço, falta de sono, problemas de saúde e todos os tipos de medos influenciam profundamente a forma como agimos, pensamos e nos relacionamos.

“Sentimentos, juntamente com as emoções de onde eles surgiram, não são um luxo supérfluo. Eles servem como guias internos e nos ajudam a comunicar sinais que também servem de guias aos outros. Não são intangíveis nem elusivos. De forma contrária à opinião científica, são tão cognitivos quanto outras percepções”, escreveu Damásio em seu fantástico O Erro de Descartes.

Ao investigar pessoas com danos no sistema límbico, onde as emoções são geradas, ele percebeu nelas uma incapacidade de fazer até as mais simples escolhas. A imparcialidade em qualquer tipo de julgamento, portanto, é sempre suspeita, e até o mais racional dos seres humanos é refém de suas emoções, mesmo que escondidas timidamente sob o manto da razão. Por isso, armar embates contra o intelecto, ao superestimar sua capacidade de controlar o comportamento, em algumas circunstâncias pode ser muito ineficaz.

Um bom exemplo disso está na dificuldade de mudarmos alguns comportamentos, tendo a razão nos convencido de que é o que deve ser feito não nos falta o conhecimento de argumentos lógicos que suportem a mudança, nem quem tente nos influenciar usando racionalidade. Mas a lógica, apesar de impressionar, é pouco motivadora quando o que se busca é um movimento profundo. Dentro desse desafio encontram-se vícios de todos os tipos – das condenadas dependências químicas às inevitáveis e mais aceitas dependências emocionais. Seja qual for a forma que assumem, elas surgem da mesma necessidade, que é a busca por vínculos. Portanto, se o comportamento nasce e reside na via emocional, é somente por meio dessa via que pode ser alterado.

Para exercer uma ação transformadora na vida de alguém é preciso buscar conexão afetiva antes de oferecer qualquer solução baseada na razão. Isso se constrói pela forma como nos comunicamos. Uma comunicação eficaz atinge positivamente o campo emocional em um nível subconsciente – algo muito mais poderoso que a supervalorizada comunicação verbal. O amor e a empatia não se transmitem apenas com palavras. Elas têm seu papel e podem assegurá-los, mas pertencem ao universo limitado e questionável da razão.

O desastre mundial no combate à dependência química pode ser considerado um retrato da nossa insistência em reduzir a importância do afeto como agente de mudança, colocando­ o à sombra do intelecto. Lutamos usando palavras e castigos como armas e, quando o método falha, promovemos o isolamento dos desobedientes. E o vínculo com as drogas, na falta de outros significativos, torna-se ainda mais necessário.

Aos poucos, a discussão sobre o que o vício de fato representa está se distanciando do preconceito e oferecendo soluções mais humanas e eficazes. O caso de Portugal é um exemplo disso: diante da evidente ineficiência dos tratamentos tradicionais, que partem de um julgamento moral, o país tomou a inédita iniciativa de descriminalizar o uso de todas as drogas. A questão passou a ser tratada como um problema emocional e de saúde. A penalização foi convertida para a ações motivadoras, com a atuação, em casos mais graves, de profissionais da saúde mental e assistentes sociais. Quinze anos depois, podemos dizer que o resultado foi um sucesso. Os índices de reincidência e uso contínuo de drogas caíram de forma inédita e os casos de morte por overdose foram reduzidos drasticamente.

No Brasil, a conquista recente no tratamento da dependência foi a liberação, pela Anvisa, da importação e uso da Ibogaína, uma substância psicodélica retirada da raiz de uma espécie de arbusto africano. Até hoje não se encontrou forma mais eficaz de livrar alguém de algum vício. Enquanto centros de recuperação alcançam êxito próximo do zero no abandono definitivo às drogas, o uso da planta oferece, em uma única sessão, uma taxa de 70% de chance de recuperação. A substância promove alterações químicas no cérebro favoráveis à mudança, mas seu grande êxito está em manter o paciente livre do vício – o que pode ser explicado por sua profunda ação psicológica.

A droga permite o acesso a memórias e a todas as emoções encobertas pela capa impermeável da lucidez. Atua no nível em que as verdadeiras transformações ocorrem, como uma sessão intensiva da mais eficaz das terapias – aquela que age onde a lógica não chega e promove percepções que não cabem em palavras.

 

MICHELE MULER – é especialista em Neurociências e Neuropsicologia da Educação. Pesquisa e cria ferramentas para o desenvolvimento da linguagem. É autora do blog wwwJeituraesentido.blogspot.com

OUTROS OLHARES

UMA CONQUISTA PARA A FAMÍLIA

Projeto de lei, em caso de aprovação, incidirá sobre a Lei da Alienação Parental, criminalizando essa prática, que traz como consequência inúmeros problemas para crianças e adolescentes.

Uma conquista para a família

Em 10 de fevereiro de 2017 foi apresentado à Câmara dos Deputados o projeto de lei nº 4.488 [DMP1], de autoria do deputado Arnaldo Faria de Sá (PDT-SP) e sob relatoria da deputada Shéridan ( PSDB-RR ) desde 08/ 06 / 2016, que, se aprovado e convertido em lei, incidirá sobre a Lei nº 12.318/ 2010 (Lei da Alienação Parental) no tocante à necessidade de criminalização dos atos de alienação parental. O objetivo é imputar responsabilidade e sanções mais severas e eficazes a quem pratica e a quem cola bora e/ou facilita os atos de alienação, em qualquer das formas elencadas nos incisos exemplificativos do parágrafo único do artigo 2° [DMP1] da referida lei, que até então não estavam surtindo os efeitos esperados para coibir e erradicar definitivamente essa prática perniciosa.

O projeto de lei pretenderá penalizar as práticas de alienação parental, a partir da premissa do artigo 3° [DMP1] da Lei da Alienação Parental, que considera tal ato um “abuso psicológico  indesculpável contra a criança ou adolescente”, pois fere direito fundamental da criança ou do adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização de afeto nas relações com  genitor e com o grupo familiar e fomenta o descumprimento impune dos deveres inerentes à autoridade parental ou decorrentes de tutela ou guarda. As sanções previstas no artigo 6° [DMP1]  da referida lei não estavam sendo devidamente aplicadas e/ou não surtiam o efeito desejado e necessário: assim é que genitores alienadores que acusavam o outro de abuso sexual inverídico não perdiam a guarda dos filhos, pagavam multa, mas continuavam impedindo o outro de conviver com os filhos, viajavam ou se mudavam de localidade alegando uma motivação qualquer (ou nem isso! ) só para dificultar o acesso da criança ao (à) outro(a) genitor(a).

O mais grave é que a mesma autoridade judicial que determinou a sanção àquele( a) genitor(a) alienador(a), por vezes reincidente e renitente em cumpri-la, não expede nenhuma providência em outro âmbito (ex.: criminal) para efetivamente puni-lo (a), o que aumenta ainda mais a sensação de impunidade – o que prejudica de forma mais danosa o desenvolvimento dos filhos, porque além do mau exemplo de se acusar e atacar o outro existe a “lição” de que “nada vai acontecer”, então o filho vai poder acusar levianamente um professor ou chefe só porque o contrariou, sem que isso tenha consequências. A intenção pedagógica original (do artigo 6° da Lei n º 1 2.318/ 2010) de conscientizar o(a) alienador(a) e minimizar os danos familiares resultou na situação inversa: aumentou a crença de que “o juiz não manda na minha casa”,  então se o(a) alienador(a) está,  supostamente,  “protegendo a criança”,  isso é suficiente  para o Judiciário “não se intrometer”. Para o Judiciário, fica uma sensação de impotência ou de inércia (omissão) porque nenhuma das suas determinações estaria sendo cumprida, ocorrendo um esvaziamento da autoridade judicial e um fortalecimento das práticas inescrupulosas de alienação parental. Cria-se, assim, o instituto da Alienação Parental Judicial, que ocorre quando o próprio Judiciário (através da figura do magistrado, do promotor e/ou dos técnicos), por ação ou omissão, permite que a alienação parental continue sendo praticada impunemente. Não há necessidade de que a criança manifeste sintomas da síndrome de alienação parental (alteração da percepçã