PSICOLOGIA ANALÍTICA

PANDORA

Força psíquica desconcertante, o inconsciente remete a uma caixa de Pandora que abriga sonhos proibidos, pesadelos e informação subliminar.

Pandora

Mas afinal o que é o inconsciente em termos neurobiológico? De que é feito, como se processa? Que mecanismos o engendram? Numa primeira aproximação, podemos dizer que o inconsciente é feito de todas as memórias armazenadas, porém não imediatamente acessíveis. Essa definição ampla inclui em primeiro lugar as memórias que sabemos ter adquirido ao longo da vida, mas nas quais não estamos pensando num dado momento de referência. Inclui também as memórias que não percebemos chegar, escondidas da consciência pela debilidade do estímulo ou por simples falta de atenção. O inconsciente abriga ainda memórias particularmente desagradáveis que tendemos a recalcar, isto é, suprimir ativamente. A composição do inconsciente faz dele uma força psíquica frequentemente desconcertante, uma caixa de Pandora que abriga sonhos proibidos, pesadelos horrendos e muita informação subliminar.

Sabe-se há décadas que as regiões do córtex cerebral dedicadas à visão se dividem em duas grandes vias de processamento, uma dorsal e outra ventral. Enquanto a via ventral é ativada pela percepção visual consciente de faces e outros objetos estáticos, experimentos com primatas e estudos neurológicos sugerem que a via dorsal processa informações visuais relacionadas a movimento (tais como o uso de ferramentas), com ou sem a consciência do sujeito. Utilizando imageamento por ressonância magnética funcional, pesquisadores da Universidade de Minnesota obtiveram pela primeira vez evidências diretas em humanos de que a via dorsal é ativada por imagens subliminares (Fang e He., “Cortical responses to invisible objects in the human dorsal and ventral pathways” (2005), Nature Neurocience 8,1380-1385).

O engenhoso experimento explorou o fenômeno da rivalidade binocular.

Foram apresentadas imagens distintas para cada olho: uma muito tênue representando objetos, e outra de alto-contraste contendo nítido visual amórfico. Nessas condições, a imagem de alto-contraste inibe a percepção da imagem de baixo-contraste, tornando invisíveis os objetos tênues apresentados a apenas um dos olhos. A ativação cerebral obtida durante a apresentação do objeto oculto e íntegro foi então comparada com a atividade neural registrada quando a imagem do objeto oculto era completamente embaralhada, pixel a pixel.

O resultado foi surpreendente. Ainda que, em ambos os casos fosse impossível ter qualquer percepção consciente do objeto, a via dorsal se ativou muito mais durante a apresentação de objetos ocultos íntegros que durante a apresentação de objetos ocultos embaralhados. Quando os experimentadores separaram os objetos ocultos íntegros em duas categorias, faces e ferramentas, verificou-se que a ativação da via dorsal por objetos ocultos ocorria seletivamente para ferramentas, mas não para faces.

Os achados de Fang e He têm implicações sociais abrangentes: se imagens subliminares produzem ativações corticais profundas e específicas para o tipo de objeto apresentado todo libelo contra a violência na televisão parece bem fundado na ciência. O estudo atualiza ainda a centenária constatação de Freud: a despeito de toda nossa lógica e razão, apesar de todas as conquistas da civilização humana, evoluímos de modo a captar conscientemente apenas uma pequena fração da realidade.

Em sua maior parte, o Real permanece invisível e premente, oculto e presente, completamente inconsciente, perigoso e rente, longe do que se pensa, mas não do que se sente… até que de repente escapa o evento impertinente: na forma de chiste, de sonho, de sintoma ou de acidente.

SIDARTA RIBEIRO –  é PHD em neurobiologia pela Universidade Rockefeller. Fez pós-doutorado na Universidade de Duke, investigando as bases moleculares e celulares do papel do sono e dos sonhos no aprendizado.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.