O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

Igreja aprendendo a ser “Igreja”

O que a bíblia me ensinou

A missão da “Eklésia”, cujo significado é “chamados para fora” é:

“E sereis minhas testemunhas…”
Testemunhar de Cristo não é tão somente pregar as boas novas; é necessário que os que estão ”do lado de fora” da igreja percebam as transformações que por si só testifiquem a genuína conversão dos que antes eram pecadores e que, agora, são chamados de salvos exatamente porque suas ações mostram semelhança com o salvador.
Testemunho representa as qualidades de Cristo manifestas em nós: Paz, Amor, Misericórdia, Mansidão, Domínio Próprio, Temperança, Zelo pelo Senhor e por tudo o que diz respeito ao Criador. Lembre-se: as pessoas não crerão no que ouvirem se o próprio espírito de Deus não testificar o que professamos nem os perdidos perceberão em nosso caráter o caráter do próprio Cristo.

Pensemos nisto,

Anúncios

PSICOLOGIA ANALÍTICA

FORMAS FABRICADAS

Por trás da busca obsessiva de um corpo escultural, a clínica psicanalítica revela traços de desorganização, experiências de vazio e estados melancólicos depressivos.

Formas fabricadas

Todos os dias, a mídia nos oferece uma legião de pessoas sorridentes, bonitas e bem-humoradas que exibem beleza, poder, inteligência, dinheiro. São cidadãos do mundo que viajam, valorizam seus dotes, cultivam seu corpo, enaltecem seus feitos e divulgam fórmulas de sucesso. Convidam à admiração, suscitam inveja, capitalizam sua marca, alimentam especulações em torno de sua vida, fazendo a fortuna de uma verdadeira indústria de produtos e imagens de celebridades. Parecem felizes ao exibir uma satisfação aparentemente sem fim. Sofreriam também?

Para alguns, trata-se de vaidade. Para outros, de auto – estima elevada ou ainda, simplesmente da sensação de “estar de bem com a vida”. Sem dúvida, é bom sentir-se bem consigo mesmo, com o corpo, com a vida social e profissional, sonhar e fazer projetos, ter sucesso em realizações. Mas chama a atenção o excesso: a exuberância e a insistência de sorrisos que parecem nunca se desfazer, de biografias que não registram derrotas, dúvidas nem decepções. Uma felicidade plastificada, impermeável às intempéries da vida.

Mais que a própria satisfação, essas pessoas solicitam permanentemente o reconhecimento e a admiração do outro. Porém, mesmo quando a recebem, a admiração esperada logo se revela insuficiente, provocando uma busca duradoura de superação de seus atributos.

Vislumbramos em cenas como essas as tramas nas quais, desde o nascimento, se tecem as relações do humano com seu semelhante. As marcas de satisfações e prazeres, os traços narcísicos, as forças pulsionais no Inter jogo com seus objetos de satisfação, os anseios e inspirações que forjam a subjetividade, as dinâmicas identificatórias, a busca por um lugar satisfatório no mundo e nas relações sociais. A luta para existir para si e existir para o outro.

As características físicas, a inteligência, as habilidades, o poder, o dinheiro são apenas alguns dos meios através dos quais o homem busca ser reconhecido por seu semelhante e por si mesmo. Entre esses atributos, o corpo e as experiências a ele relacionadas ocupam um lugar especial como referência para a apreensão das relações com o mundo, com os outros, consigo mesmo.

Matriz da subjetividade, o corpo guarda as marcas de nossa chegada ao mundo, da acolhida e dos cuidados pelo outro, do reconhecimento, da satisfação ou da frustração de nossos desejos. O corpo é nosso principal capital. Nem todos podem oferecer ao olhar do outro o poder, os sinais de status, o dinheiro. Mas, em busca do reconhecimento, oferecemos o corpo a esse olhar. Da mesma forma, somos solicitados pelo corpo do outro a reconhecê-lo com nosso olhar.

O corpo é nosso primeiro universo. Ele nos concebe, abriga, registra as primeiras impressões que temos do mundo: cheiros, sabores, luzes, sons, calor, frio. São estados e movimentos do corpo que estabelecem as primeiras formas de comunicação, muito antes do pensamento e da linguagem. Nele se constrói uma história marcada por sensações, movimentos, percepções e traços do encontro com o desconhecido do mundo. É o corpo, ainda, o último reduto ao qual nos recolhemos nos momentos de dificuldade, tristeza, desamparo. Reconhecemos, assim, uma verdadeira dimensão hipocondríaca de nossa relação com o mundo, para sempre presente no humano.

Não surpreende, portanto, encontramos o corpo na linha de frente das formas de expressão do modo de existir contemporâneo, e, particularmente, como porta-voz privilegiado, das dificuldades do sujeito em lidar com o outro, com suas expectativas, com sua própria condição de vida.

Insatisfeitos com a degradação da qualidade de vida, com a violência crescente no mundo, inseguros quanto à situação econômica, solitários e empobrecidos por relações pessoais e sociais esgarçadas e vazias, incapazes de considerar a importância de valores e símbolos para nos situarmos, uma vez mais, buscamos o reconforto em nosso corpo. Porém, surpreendentemente, nesses tempos em que, como nunca, se promove o culto a exibição e o cuidado do corpo, também ele nos decepciona. É fato: estamos de mal com nosso corpo.

Uma pesquisa realizada pelo Observatoire Cidil des Habitudes Alimentaires (Ocha) na França, em 2003, num universo de mil mulheres, revelou que 86% delas se dizem insatisfeitas com suas formas anatômicas. Apenas 14% afirmaram sentir-se bem com seu corpo sem terem para isso utilizado qualquer procedimento de modificação. No Brasil, o quadro não é diferente. Pesquisas divulgadas pela revista Veja em 2014 revelam que somos o segundo país do mundo em número de cirurgias plásticas, 400 mil em 2013, metade delas puramente estéticas (40% lipoaspiração, 30% mamas, 20% face), na maioria realizadas entre os 20 e 34 anos. Dos 12.477 entrevistados pelo Instituto lnterScience, 90% das mulheres e 65% dos homens afirmam sonhar com mudanças no próprio corpo; 5% já tinham feito alguma plástica, e 90% pretendiam fazer outra. Entre os que nunca fizeram uma cirurgia plástica, 30% declararam que esperavam criar coragem para realizá-la.

Dos simples tratamentos cosméticos às cirurgias mais radicais, é ampla a gama de recursos utilizados para tentar ficar de bem com o próprio corpo. Adereços, roupas, maquiagens, tatuagens, piercings, atividades esportivas, musculação, cirurgias plásticas buscam dar conta de um mal-estar que, mesmo que referido ao corpo, geralmente tem pouco a ver com ele. Tentativas muitas vezes vãs de aplacar inquietações, angústias e experiências mais profundas de vazio que apenas no corpo encontram um porta-voz de mensagens incompreensíveis, de pedidos de socorro que não conseguem se fazer ouvir de outra forma. Diante da dificuldade de encontrar em si mesmo uma imagem que satisfaça, busca-se no olhar do outro, no social a imagem que possa agradar.

É frequente a experiência de cirurgiões plásticos que vêm pacientes chegar ao consultório com um retrato de uma atriz pedindo para ficar igual a ela. Diante deles, desfilam mulheres que anseiam poder encontrar no espelho reflexos de corpos que não são o seu, os seios turbinados de Daniele Winnits, o delicado nariz de Vera Fischer, toda a exuberância de Angelina Jolie. Muitos cirurgiões plásticos consideram com naturalidade esses pedidos, lembrando que a beleza, hoje, é um componente essencial no competitivo mercado de trabalho, nos negócios e na sociedade.

Para responder a expectativas e a ideais de beleza, não se medem esforços, despesas e, menos ainda, riscos físicos e psíquicos implicados em tais transformações. Cada vez mais, homens e mulheres procuram os tratamentos estéticos e a cirurgia plástica. Também adolescentes e até crianças vêm se preocupando com as formas e as condições de seu corpo, querendo adequá-lo a padrões estéticos e culturais, apesar de ainda estarem em transformação, o número de jovens que colocaram próteses para “turbinar seus peitos aumentou 300% nos últimos dez anos segundo reportagem publicada pela Folha de São Paulo.

Nesse ponto, é importante lembrar a distinção entre os procedimentos estéticos e reparadores. É inegável que os progressos da traumatologia, da medicina estética, da reabilitação e da cirurgia plástica propiciam para milhões de pessoas recuperações significativas de sequelas de catástrofes, guerras, malformações congênitas e de características anatômicas nocivas. Porém, em muitos casos, a dificuldade em compreender a natureza do “sofrimento emocional” que acompanha o desejo de uma plástica nubla essa distinção.

MAL ESTAR NO CORPO

Cientes dessas questões, alguns profissionais mais sensíveis convidam seus pacientes à reflexão sobre o exagero de muitas solicitações que lhes são dirigidas, ponderando sobre a necessidade de levar em conta a singularidade e a estrutura anatômica de cada paciente. Eles reconhecem que cirurgia plástica não faz milagres, não salva casamentos, nem sempre acaba com a angústia, tampouco com a depressão. Porém, diante da insistência dos pedidos que lhes são feitos, muitas vezes cedem às solicitações, inclusive por saber que não será difícil para o paciente encontrar um colega que se disponha a realizar a operação, mesmo que descabida.

Os ímpetos de transformação corporal alcançam ainda manifestações extremas. Sintonizada com o espírito dos tempos, a mídia transforma em espetáculo os dramas humanos. A rede americana ABC exibe semanalmente o programa Extreme makeover, que mostra a transformação radical de pessoas que se submetem a cirurgias, tratamentos, dietas, ginástica, aulas de moda e cabeleireiros para apagar todo e qualquer defeito que viam em seu corpo. Além das clássicas imagens de “antes” e “depois”, são minuciosamente exibidas também as etapas da “transformação”: a ação do bisturi sobre os tecidos, detalhes de manipulações cirúrgicas, inchaços, expressões de dor, lágrimas de sofrimento e de encantamento diante dos “milagres” operados, a reação de surpresa e fascínio de familiares e amigos.

Outro programa, The swan, promove um concurso em que as participantes passam por todos os recursos estéticos existentes, sem poder jamais se olhar no espelho durante o processo. Ao final, a ganhadora pode contemplar sua nova imagem. Nesse momento, é frequente as participantes declararem: “Essa não sou eu”. Do ponto de vista psicanalítico, podemos reconhecer nesse comentário um insight.

Descobrir-se, de súbito, num corpo radicalmente diferente daquele com o qual sempre se conviveu, coabitar, de repente, com um estranho em si: naquele programa, aparentemente, não ocorre estranhamento, medo, horror, apenas prazer, alegria, espetáculo. Na legitimação coletiva das fantasias mais onipotentes, na banalização de complexos desejos e da prática médica, no insidioso convite à despersonalização, todos parecem encontrar satisfação: os participantes, o público, muitas clínicas de estética e, naturalmente, as redes de televisão que ainda se comprazem com a imagem de fada madrinha que propicia a realização de desejos para quem não tinha condições de realizá-los. Nada de novo. A mídia continua preenchendo os vazios, formatando até mesmo a carne das vacilantes formas de subjetivação contemporâneas.

A experiência clínica nos convida a suspeitar de mundos encantados como esses. À radicalidade de todas essas manifestações e à tentativa de banalizar a violência de tais procedimentos, devem corresponder, no interior de cada personagem dos dramas da transformação corporal, fenômenos de brutalidade e violência comparáveis aos que são negados e que, mesmo contidos e silenciados, fermentam seu potencial nocivo, desorganizador e algumas vezes letal. Com efeito, longe dos palcos, das câmeras, dos holofotes, na intimidade dos consultórios, entre sofrimento e vergonha, muitas vezes não são felizes as lágrimas que brotam ao contato com os estranhos que alguns pacientes descobrem em seu próprio corpo.

Como as lágrimas de repulsa de uma mulher que, após uma plástica mamária considerada perfeita pelo médico, impedia qualquer aproximação do marido; as de solidão e de arrependimento daquela adolescente que, depois de muita insistência junto aos pais, realizou uma plástica no nariz  e passou a se sentir “uma intrusa” na família, na qual muitos parentes, de geração em geração, possuíam o formato característico do nariz que operara, ou ainda as lágrimas que acompanhavam as intensas crises de angústia e alguns episódios delirantes que mantinham reclusa em sua casa uma bela mulher submetida a uma cirurgia de  redução de estômago. Apesar de desaconselhada por duas equipes de gastrenterologia, ela encontrou uma terceira que aceitou operá-la. Perdeu os 20 quilos que desejava, mas passou a não conseguir mais se olhar no espelho para ver o corpo que tanto imaginara.

CORPOS SÃOS?

Na busca pela perfeição do corpo, também a atividade esportiva se vê marcada por dinâmicas semelhantes. Para alcançar formas socialmente valorizadas, frequentemente o esporte é esvaziado de sua dimensão lúdica, de prazer e de vivência coletiva tornando-se um imperativo social e estético, malhar horas a fio na academia, praticar esportes radicais, submeter-se a regimes draconianos, tudo isso complementado com a utilização de anabolizantes, esteroides e outras substâncias para a modelagem da massa muscular e para o aumento das performances esportivas. Uma legião de “sarados” e “bombados” vem cada vez mais povoando as cenas do cotidiano. Impulsionadas por doses crescentes da testosterona natural da juventude e pela adrenalina – não tão natural, mas intensamente secretada pela vida urbana – essa legião muitas vezes se aglutina em torcidas organizadas, gangues como skinheads e pitboys, e facções criminosas, sempre em busca de objetos para a descarga da poção explosiva que combinaram em si.

Porém, ao lado de corpos olímpicos, com habilidades e conquistas invejáveis, observamos também lesões, ligamentos que se rompem, articulações que se desgastam, repetidas cirurgias para corrigi-las, desrespeito pelo tempo de recuperação, noites mal dormidas antes e depois das competições. Os corpos-máquina acabam por revelar sua verdadeira natureza, limitada e frágil, nem sempre confiável. Constatação insuportável para muitos que, no anseio por mais uma partida, vitória ou recorde cedem à tentação de produtos dopantes para tentar superar tais fragilidades com mais riscos e sacrifícios do próprio corpo.

Diferentemente da anatomia imaginária revelada pela histeria, que mostra um corpo marcado por fantasias, prazeres e dores, muitas vezes aqueles belos corpos esculpidos por fármacos e exercícios extenuantes carecem de sonhos, de fantasias, encontrando-se anestesiados para tais afetos, pura massa, puro volume, força bruta, sem essência, sem alma. Para além das miragens de corpos esculturais revelam-se paisagens desérticas.

Marcada pelo excesso, essa ânsia pela busca do corpo ideal e as formas de alcançá-lo constitui apenas uma das pontas de um imenso iceberg que pode ser caracterizado como uma “psicopatologia do corpo na vida cotidiana”, como sugere Maria Helena Fernandes no livro Corpo. Ou seja, manifestações que evidenciam a precariedade de organizações subjetivas com dificuldade para manifestar o sofrimento em tempos psíquicos, que desafiam não apenas a clínica psicanalítica ou psicoterapêutica, mas, sobretudo, a clínica médica à escuta e à compreensão de fenômenos primitivos, aquém da palavra, impelindo terapeutas e pacientes a atuações sem fim.

O desenvolvimento humano visa a superação de dimensões automáticas e programadas da ordem biológica para alcançar funcionamentos mais abstratos e complexos da ordem psíquica. Esse processo ocorre segundo movimentos de organização progressiva de estruturas, funções e comportamentos, das mais simples às mais complexas, simultaneamente a movimentos de desorganização, de sentido oposto. Todas as etapas e todos os níveis de funcionamento anatômicos, fisiológicos, sensoriais, motores, afetivos e psíquicos – são marcados por essas dinâmicas.

A anatomia, a fisiologia, as funções sensório-motoras e psíquicas obedecem a esses princípios, marcados pelas dinâmicas organizadoras e desorganizadoras das pulsões de vida e de morte. A partir do nascimento, por exemplo, observamos no bebê a integração progressiva de movimentos e funções antes desorganizados, a convergência ocular, a coordenação motora, a discriminação auditiva, o reconhecimento e a distinção entre seres familiares e estranhos, o desenvolvimento da linguagem e do pensamento, entre outros mecanismos. Experiências traumáticas podem provocar a perda da especificidade e da complexidade dessas mesmas funções (desorganização psíquica, regressões psíquicas e motoras, perturbação do sistema imunológico etc.).

FUNÇÃO MATERNA

Nos primeiros tempos de vida, a sobrevivência e o desenvolvimento da criança dependem da presença de outro ser humano, bem como da qualidade dessa presença. A mãe (ou aqueles que exercem essa função) busca propiciar não apenas a satisfação das necessidades vitais do bebê, mas também estimular seu desenvolvimento. Ela também funciona como uma espécie de “película” de proteção contra os estímulos internos e externos que a criança ainda não é capaz de assimilar. Denominado por Freud de “para-excitações”, esse recurso tem um papel essencial nos processos de organização e desenvolvimento da criança. A qualidade dessa presença materna determina a possibilidade de aquisição e a qualidade de competências específicas, da autonomia e dos recursos mais evoluídos e harmônicos de funcionamento.

É também a qualidade dessas relações que determina a passagem da vivência biológica para a experiência do corpo erógeno, do instinto para a pulsão, da necessidade para o desejo, da excitação para a angústia, do sono fisiológico para o sonho. As relações objetais primitivas marcam também a qualidade do desenvolvimento do narcisismo e de todas as instâncias e funções do aparelho psíquico, bem como do equilíbrio entre as pulsões de vida (organizadoras) e de morte (desorganizadoras).

Nesse contexto, forjam-se também as representações do próprio corpo e as possibilidades de experimentá-lo como fonte de prazer para si e para o outro. Para além de critérios estéticos e de atributos anatômicos, a representação da beleza do corpo é também construída pelas experiências de satisfação e frustração, prazer e desprazer, de acolhimento e de rejeição que, no encontro com o semelhante e com o ambiente, o corpo pôde experimentar. A partir dessas experiências, configura-se um corpo imaginário, caixa de ressonância privilegiada das relações com o outro e com o mundo.

Desde a experiência do desamparo, prototípica do nascimento, somos permanentemente solicitados por estímulos e excitações internos (fisiológicos, instintivos e pulsionais) e externos (realidade, outras pessoas), fonte de desprazer, de traumas e conflitos. As manifestações orgânicas, da motricidade e psíquicas (normais ou patológicas) são recursos para alcançar um equilíbrio entre tais solicitações. Segundo P. Marty, os recursos psíquicos, mais evoluídos e complexos, são aqueles que, economicamente, melhor se prestam para lidar com solicitações às quais o ser humano é submetido. Porém, diante da impossibilidade de utilização das funções mais organizadas e hierarquizadas, muitas vezes esse equilíbrio só é alcançado por meio de funcionamentos anacrônicos, primitivos e insatisfatórios.

Falhas do desenvolvimento, determinadas por elementos congênitos, pela precariedade das relações parentais primitivas e do ambiente, por experiências traumáticas e desorganizadoras comprometem a estrutura e o funcionamento psicossomático, de forma duradoura ou temporária. Diante de deficiências estruturais ou funcionais dos recursos psíquicos podem ser mobilizadas tentativas de reorganização através de descargas motoras e comportamentais, ou ainda, no extremo, de manifestações e desorganizações orgânicas, como as doenças. É no contexto de tais deficiências que as manifestações corporais marcadas por excesso, repetição, fragilidades narcísicas e identificatórias e pelo vazio representativo fazem sua aparição.

 OS GALÉS VOLUNTÁRIOS

Houve um tempo em que as “galeras eram outras. Na Antiguidade, as galeras eram embarcações de guerra impulsionadas por cerca de 15 a 30 grandes remos por bordo, cada um manejado por até cinco homens. Os remadores eram em geral escravos ou pessoas sentenciadas a trabalhos forçados. Acorrentados a seus postos, os galés remavam de 12 a 16 horas por dia, às vezes mais.

Em nossos dias, uma multidão de homens e mulheres, apesar de livres e sem grilhões, parece condenada a uma permanente repetição para além do princípio do prazer. Como aponta G. Szwec, essas pessoas, galés voluntários, parecem fascinadas por uma espécie de robotização de seu corpo e de sua vida.

Apresentam modos de funcionamento que carecem de sentido e de prazer, frequentemente buscando utilizá-los como anteparos a situações de perigo e de desamparo.

A atividade esportiva, a música estridente e ritmada, os esportes de risco, os filmes de “adrenalina” e mesmo comportamentos cotidianos como bater

portas, dirigir bruscamente no trânsito ou o tabagismo podem, exercera função de descargas automáticas do nível de tensão, mesmo que, paradoxalmente, promovam também aumento da tensão. Essas atividades geralmente se realizam em um clima imperativo de urgência, exigindo constante repetição.

Esses procedimentos, denominados “auto- calmantes”, são fruto da precariedade da organização subjetiva, carente de recursos psíquicos para lidar com as exigências da vida. Eles “curto-circuitam” a via representativa e de fantasia, utilizando a realidade de forma específica, bruta, factual, operatória, sem carga simbólica. Eles se caracterizam por comportamentos motores ou perceptivos, passando pela dor, podem, inclusive, chegar a automutilações. Manifestam-se também em pessoas que procuram e se excitam com situações de perigo que colocam em risco sua integridade física e mesmo suas vidas.

Os procedimentos auto – calmantes são tentativas de trazer a calma ao aparelho psíquico empreendidas por um ego fragilizado e carente de um recurso de “para-excitações” autônomo. Ocorrem quando o ego é ameaçado pelo potencial traumático do excesso de excitações. Eles se assemelham a tentativas da mãe que procura acalmar seu bebê a qualquer custo, sem, no entanto. propiciar-lhe experiências de satisfação que poderiam verdadeiramente tranquilizá-lo, abrindo caminho para a autonomia psíquica e subjetiva.

Carências nas relações primitivas podem promover na criança a internalização da excitação de apaziguamento do embalo, calmante não gratificante da mãe, como forma de evitar as experiências depressivas do vazio, vividas a partir do próprio amparo da criança, mas também, muitas vezes, no contato com a depressão e o vazio maternos. A aproximação ou o contato com os núcleos primitivos de desamparo ou com experiências de vida desorganizadoras podem desencadear tentativas de reduzir a tensão resultante pela exacerbação da excitação materna internalizada. Essas tentativas são, entretanto, frustradas pela incapacidade de prescindir da presença real do corpo materno, ou de seus sucedâneos, como objeto calmante. Tanto nas experiências da mãe com o bebê, como nos procedimentos auto calmantes, os comportamentos são esvaziados de fantasia e de prazer.

Percebemos a intimidade dessa constelação com as que encontramos em alguns estados-limite, em condutas aditivas (toxicomanias, transtornos alimentares etc.) e nas “neonecessidades” descritas por D. Braunschweig e M. Fain. Estas se caracterizam como urna tentativa persistente da mãe de propiciar satisfações ao bebê independentemente da existência de uma necessidade a ser satisfeita, evidenciando muito mais o desejo da mãe de acalmar seu filho a qualquer preço do que de realmente satisfazê-lo. Cria-se assim na criança uma falsa necessidade, imperativa como as que caracterizam os instintos de auto – conservação, marcada por uma dependência acentuada do sujeito ao objeto real de satisfação, em detrimento da experiência alucinatória. Ficam perturbados a formação de um objeto materno satisfatório, o desenvolvimento do auto – erotismo e dos recursos representativos.

A precariedade do mundo interno e das representações resulta na hiper valorização da realidade e a grande dependência do sujeito dos objetos externos de satisfação. Agradar os outros, satisfazê-los, corresponder a suas expectativas e a seus ideais é vivido muitas vezes como uma questão de sobrevivência.

É perturbadora, impensável a possibilidade de desafiá-los ou contradizê-los. O sujeito torna- se refém de pessoas, ou mesmo de instituições, investidas de um poder que beira a onipotência. Com facilidade, ele se torna refém dos ideais de tais pessoas e instituições, refém dos ideais sociais de beleza, de modas, comportamentos, valores culturais dominantes, consumo etc.

LUTA INGLÓRIA

A fragilidade narcísica, a precariedade de recursos internos e a extrema dependência formam uma combinação explosiva que torna o sujeito presa fácil de qualquer imagem ou produto que lhe prometa a possibilidade de afastar-se da proximidade perigosa de seus terrores, de suas dores, de seu sofrimento. Presa fácil de qualquer um que lhe ofereça uma identidade, um corpo, uma vida que mascare seu desamparo e suas dolorosas feridas narcísicas.

A criação, a aquisição e a ostentação de sinais socialmente valorizados que favoreçam o reconhecimento e a aceitação do sujeito pelo outro torna­ se imperativa. A manutenção a todo custo de uma aparência que corresponda aos ideais do grupo, excluindo qualquer coisa que possa sugerir o vazio existencial ou a castração, vira uma questão de sobrevivência. A possibilidade de que uma falha se revele nessa complexa, mas frágil montagem torna-se insuportável.

Vive assim o sujeito uma luta inglória, sem fim, na qual – por melhor que seja a aparência – é sempre insatisfatória e qualquer nova conquista, insuficiente. Uma escalada na qual, a cada vez, algo mais deve ser acrescentado, apresentado, consumado, sacrificado, um novo carro, um novo milhão, uma nova mulher, um novo corpo, um novo recorde.

Em meio à excitação e à angústia inesgotáveis, acelera-se cada vez mais esse circuito infernal, impossível de ser interrompido pelo próprio sujeito. Como o jogador que, para bancar suas apostas, nada mais tem a oferecer a seus parceiros, esses escravos da excitação oferecem a seus tiranos, que não podem afrontar sua liberdade, sua alma, sua carne, sua vida.

Formas fabricadas.2 

RUBENS MARCELO VOLICH – é psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII e professor do curso de psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, é autor de Psicossomática De Hipócrates à psicanálise, Hipocondria Impasses da alma, desafios do corpo e, co-organizador e autor dos livros da série Psicossoma, todos editados pela Casa do Psicólogo.

OUTROS OLHARES

FORA DA FESTA

Desemprego baixo nos EUA esconde o aumento do número de trabalhadores em situação precária, sem moradia ou que dependem de ajuda oficial para comer.

Fora da festa

À primeira vista, é irónico pensar que Anthony Stevens trabalha em uma empresa de demolição que só existe por causa da especulação imobiliária, e não tem casa para morar. Mas este nova-iorquino de 56 anos natural do Brooklyn, não pensa assim: ele se acostumou a ver sua cidade se expandir, gentrificar(aburguesar-se), mudar de forma dinâmica, reinventar-se, o que ele considera paradoxal é seu salário não permitir mais que ele pague por um aluguel minimamente decente na metrópole. “Nos anos 1980, 90 só era sem-teto quem tinha desilusão amorosa, problema com álcool e mental, ou tudo isso junto. Agora, qualquer um pode ser sem-teto em Nova York, até quem tem emprego. O preço dos imóveis sempre foi alto aqui, sempre subiu. “A novidade é que os salários ficaram para trás”, disse ele.

Depois de passar o dia trabalhando em Nova Jersey – a expansão imobiliária em Nova York busca lugares cada vez mais distantes de Manhattan, como do outro lado do Rio Hudson e no bairro do Queens -, Stevens encontra abrigo no The Bowery Mission, entidade que acolhe homeless desde 1879 em Lower Manhattan, a poucas quadras do hypado SoHo. E cada vez mais seus colegas de abrigo são trabalhadores como ele. Isso reflete os problemas econômicos que se escondem por baixo do desemprego de apenas 3,8%, menor patamar para os Estados Unidos em cinco décadas. A economia americana está uma festa, comemorada por Donald Trump, mas ela não é para todos: especialistas afirmam que, se fossem se fossem considerados os subocupados e os que desistiram de procurar ocupação por desalento, essa taxa poderia estar rondando os 10%.

Stevens afirmou que precisaria pagar, ao menos U$$ 1.000 mensais para encontrar “um canto habitável na Grande Nova York, lar de 20,3 milhões de pessoas. Mas, como trabalha por empreitada, pode faturar U$$ 4 mil em um mês ou apenas USS 600 em outros. Stevens não recebe pelo “teto de sua remuneração” há pelo menos um ano, pois, como sua empresa tem muitos empregados cadastrados, existe um revezamento de “colaboradores”, como são chamados. Faz seis meses que ele nem sequer faz U$$ 2 mil por mês – e chegou a viver com o “piso de U$$ 600 de sua remuneração ao menos uma vez no período.

“Não sou mais um garoto, e cada vez mais me deixam de lado”, disse ele, indicando que, nesta época de uberização” do trabalho, há sempre mão de obra disponível a um clique ou uma ligação, fazendo com que todos se sintam ocupados, mas sem remuneração adequada – uma das explicações do baixo do desemprego e dos baixos. Nova York mudou muita. É a maior cidade do mundo. Mas não é mais a melhor cidade do mundo. Antes, se você tinha um emprego, tinha tudo. “Hoje não é mais assim”, afirmou, sem deixar de elogiar o abrigo que frequenta. “Aqui é bem limpo, a comida é boa, o chuveiro é bom. Não tem confusão”.

Se apertasse muito seu orçamento, Stevens talvez pudesse tentar pagar um teto todos os meses, de forma constante. Mas ele precisa escolher entre fazer gastos básicos para um “trabalhador normal”, correndo o risco de ficar sem dinheiro para outras coisas, e ficar em um abrigo para conseguir poupar algum dinheiro para o futuro. “Não me preocupo. Sabe por quê? Porque tenho um plano secreto: eu acredito em Deus”, disse, rindo, para depois completar: “Eu posso não ter casa, mas não deixo de pagar meu social security (Previdência Social). Vou me aposentar. E daí vou voltar para a Carolina do Norte. Lá é a terra de origem de minha mãe. Já passei uma temporada lá. A vida é boa, muito mais barata, mas não tem emprego.

Stevens, que não tem filhos e está atualmente sem namorada, também não gosta de incomodar os dois irmãos, um vivendo no Brooklyn e a outra no Queens. “Eles têm a vida deles, família. Não posso ser um estorvo, sempre me sustentei”, disse. Visita pouco seus parentes. Nas horas vagas, gosta de conversar com as pessoas e visitar a biblioteca pública do Lower East Side. Gosto de ler livros, mas meu predileto é a Bíblia”

Segundo John D. Stiver, professor da Universidade de Notre Dame (no estado de Indiana), os salários americanos estão praticamente estagnados desde o ano 2000 e não têm conseguido acompanhar os custos com a habitação, principal item de despesa da família americana. “Por todas as contas que fazemos, os preços da moradia dobraram nos 18 anos desde o ano 2000 (que se traduz em cerca de 4% ao ano, o dobro da taxa de inflação global.

Essa realidade ocorre na maior parte das cidades e dos estados mais ricos e que mais crescem nos Estados Unidos, uma comprovação de que a riqueza não está favorecendo a criação de oportunidades – embora também haja muitos empregos qualificados e bem pagos sendo criados, sobretudo no setor de tecnologia e no mercado financeiro, o que amplia as desigualdades. No ano passado o número de sem-teto nos EUA cresceu 4%, enquanto desemprego atingiu marcas históricas. Esse fenômeno foi muito mais intenso na próspera Califórnia, com 13,7% de alta no número de sem-teto, e na dinâmica Nova York, onde a população de pessoas sem casa beira os 100 mil, justamente os locais onde a economia também “bombou”.

Às vezes, não é apenas o teto que falta: há trabalhadores que têm dificuldade para garantir a comida. Atualmente, cerca de 52 milhões de americanos recebem algum tipo de benefício alimentar, os famosos food stamps, que conservam o nome de “cupom de alimentos”, mas cada vez mais se assemelham a um vale-alimentação em cartão magnético, aceito por restaurantes e supermercados. A grande maioria dos cupons de alimentos é destinada a trabalhadores; afinal, o desemprego atinge, “oficialmente”, apenas 6,4 milhões.

“As vezes, nem sei como fecho o mês”, disse Maria Cruz, dominicana de 58 anos que vive há três décadas em Atlantic City, a cidade que tentou ser a “Las Vegas da Costa Leste”, mas sofre uma profunda decadência com o fechamento de cassinos, inclusive o que pertencia a Donald Trump, “Ganho USS 350 por semana como camareira (em um hotel de uma grande cadeia internacional). Gasto com aluguel, luz, água, essas coisas, USS 1.500 por mês.”

O que lhe permite fechar as contas, além das gorjetas que variam de USS 50 a USS 75 por semana, são os US$ 300 por mês de food stamps e a cesta básica que recolhe no Exército da Salvação. A filha de 16 anos também começou a estagiar em um hotel da região e passou a ajudar em casa. Ela vive a duas quadras da praia, em um bairro popular e degradado, entre o Tropicana, o maior cassino da região, e os esqueletos do Taj Mahal – que pertenceu a Trump. “Isto aqui já foi muito rico. Já vimos tudo acabar, mas agora dizem que novos cassinos vão abrir. Seria ótimo”, disse ela, que aparenta menos idade do que tem.

Mesmo que os cassinos voltem com força, Maria Cruz acredita que a vida será mais difícil para seus filhos, AIya e Hector, que foram passar uma temporada com os parentes em Santo Domingo. Segundo ela, só quem tem dinheiro recebe oportunidades. “Antes, as pessoas vinham paro cá, enriqueciam com o trabalho. Hoje, lutam para sobreviver”, disse ela. Sua desesperança tem razões econômicas, mas também políticas. “É por isso que não voto, não gosto dessas coisas. Nada melhora para a gente, esteja quem estiver no governo.”

Os números do desemprego mostram que há 5 milhões de trabalhadores em tempo parcial que gostariam de estar ocupados em tempo integral. As estatísticas, porém, não captam os trabalhadores desalentados, que se sentem alijados do crescimento econômico e, sem qualificação para os dias atuais, simplesmente desistiram de procurar emprego. É um fenómeno que tende a se repetir em outros locais do mundo, inclusive no Brasil.

“Vemos um nível de pobreza muito maior agora que no ano 2000. Isso se relaciona com o mercado de trabalho. Talvez ainda seja consequência da recuperação da grande recessão (a recessão de zoo8, que deixou os trabalhadores em posição mais fraca nas negociações)”, afirmou William Darity, professor de economia da Escola Sanford de Políticas Públicas da Duke University.

Uma pesquisa do Fed, o banco central americano, publicada no fim de maio, aponta que 40% dos trabalhadores americanos não teriam, hoje, US$ 400 disponíveis se tivessem uma emergência. Mas Trump tenta usar o baixo desemprego a seu favor. Em uma série de tuítes, afirmou que a economia nunca esteve tão bem e reivindica para si esses avanços – ignorando os excluídos do mercado de trabalho e esquecendo que parte da melhoria do desempenho da economia é resultado de ações da era Obama, que deu incentivos para tirar os EUA do atoleiro de 2008. Trump tenta manter a fidelidade de seus eleitores, embora os problemas no mercado de trabalho afetem justamente a base de seu apoio – homens, em geral brancos do interior, com baixa instrução e na meia-idade.

No estado de Ohio, 8ª economia dos EUA, lar de 11,5 milhões de pessoas, parte do chamado “cinturão da ferrugem” – por causa do declínio das indústrias que fizeram a riqueza da região – um em cada dez trabalhadores recebe food stamps. Foi lá, em Cleveland, que Donald Trump fez sua convenção, o que garantiu sua vitória no estado em 2016, pavimentando seu caminho rumo à Casa Branca. Também lá 11.560 funcionários do Walmart e 9.962 do McDonald ‘s – dois ícones americanos – recebem auxílio-alimentação estatal.

Segundo Darity, da Duke University, a situação está tão degradada que o baixo desemprego não tem gerado inflação. Para ele, isso expõe um conceito equivocado – não é obrigatório que bons salários gerem automaticamente alta nos preços -, assim como demonstra que a maior parte dos novos postos gerados desde a crise de 2008 não é decente”. “Quarenta por cento dos trabalhadores hoje ganham menos de USS 13 por hora”, disse ele. O professor da Duke defende uma bandeira que começa a ganhar mais e mais adeptos entre os senadores democratas: a instituição de uma lei para garantir que nenhum trabalhador receba menos que o valor que delimita a linha da pobreza. O projeto embrionário funcionaria como uma espécie de “Bolsa Família”, em que haveria uma complementação salarial. Ele, porém, dificilmente alcançará a curto prazo, ainda mais com Trump na Casa Branca e republicanos no controle das duas casas do Congresso americano.

Se a situação já é ruim para quem tem uma ocupação, pode ser pior para os que nem sequer entram nas estatísticas, como é o caso de Angelina Santoro, de 40 anos, que não tem emprego – e nem está procurando. “Eu era taxista, parei de trabalhar quando estava louca nos opioides. Agora faz dois anos que parei de me drogar, estou limpa, mas ainda não consigo pensar em trabalho. Ando muito deprimida e com um problema na perna”, disse ela, que vive com um namorado em Filadélfia, principal cidade da Pensilvânia, estado tradicionalmente democrata, mas que em 2016 votou por Donald Trump. Mas tenho confiança de que logo vou voltar.”

Mais que um caso isolado, Santoro representa um fenômeno que altera totalmente o desemprego americano e ajuda a explicar o motivo por que, apesar de a taxa de desocupados estar historicamente baixa no país, não há uma sensação de boom econômico e nem mesmo de bem-estar na população. Vivendo da caridade e dos programas sociais do governo, ela tem sempre um sorriso no rosto e bom humor. Santoro só demonstrou apreensão ao pensar no filho de 16 anos, que vive com o pai, e que ela não via havia meses. ”Foi melhor para ele ficar com o pai”, disse ela, cabisbaixa. Depressão é algo sério, mas estou medicada e logo vou vê-lo.”

John O. Stiver, da Notre Dame, afirmou que a taxa de desemprego só é baixa porque menos trabalhadores, assim como Santoro, estão buscando emprego.  No ano 2000, quando a taxa de desemprego chegou a 3.9%, em pleno boom da internet, 67% da população com idade economicamente ativa estava no mercado de trabalho – ocupando ou procurando um posto. Hoje, com a taxa de desemprego um pouco menor, a participação é de 62.,8%. “Se contássemos as pessoas em idade produtiva que não participam do mercado de trabalho e não figuram nas estatísticas, como desempregados, a taxa de desemprego seria de cerca de 10 %”, disse ele.

Muitas teorias explicam essa baixa participação na força de trabalho. Uma delas é a crise dos opioides, que mata mais de 64 mil pessoas por ano nos EUA e deixa um exército de excluídos da vida social e, por consequência, do mercado de trabalho. O economista Austin Krueger, do Brookings lnstitution, descobriu que, desde 2016, 50% dos homens entre 25 e 54 anos que não estão na força de trabalho tomam analgésicos diariamente. Os opioides são responsáveis por 20% da redução da força de trabalho americana, como ocorre com Angelina Santoro.

Outra teoria é a do desalento: com baixos salários e poucas perspectivas em um mundo em transformação, uma legião de pessoas, em geral de meia-idade, simplesmente desistiu de buscar uma ocupação. Em geral, são eleitores de Trump que perderam o bonde da economia. Os brasileiros também sentem isso. Há cerca de dois anos, quando migrou de São Paulo para a região metropolitana de Washington, que inclui a capital americana e fatias dos estados de Virgínia e Maryland, Carlos (nome fictício, pois seu visto de turista venceu há tempos) pensava que seria fácil “conquistar a América”. “Eu via aqueles filmes, pensava que era cortar uma graminha na vizinhança e fazer dinheiro – disse ele, sorrindo. Aos 25 anos, tomou a decisão de abandonar seu posto de representante comercial no Brasil para tentar a sorte como imigrante ilegal. Hoje vejo que é muito mais puxado. “Lá no Brasil trabalhava seis horas por dia. Aqui trabalho no mínimo 12 horas, limpando supermercado de madrugada e depois como motorista de Uber.”

Apesar disso, Carlos não pensa em voltar. Se pensava em conquistas financeiras, agora é a segurança e a cultura americana que o fazem ficar. Ele aprendeu a dar mais valor ao planejamento, pois sabe que, nos meses de inverno, será mais difícil completar sua renda de USS 4 mil mensais, que menos pessoas irão aos bares e, assim, haverá menos chamadas para o Uber.

“A gente tem de trabalhar mais duro para ganhar bem. O custo de vida aqui é alto, sobra muito pouco. Quando digo a meus amigos como é a vida aqui, eles não acreditam. Acham que eu estou tentando desanimá-los. Eles falam: ‘Ah, você reclama, mas não volta’. É verdade, mas é por outras razões, não é por trabalho e dinheiro, que é muito mais puxado que eu imaginava”, disse ele. Seu maior receio é a perspectiva de nunca mais voltar ao Brasil. “Meu primo estava aqui (como imigrante sem documentação) quando minha tia ficou doente e faleceu. Ele não pôde estar com ela em seus últimos momentos.

GESTÃO E CARREIRA

SOLTE SUAS FERAS

Novos estudos mostram que não é a felicidade que garante a saúde e o bem-estar, e sim a capacidade de lidar bem com todos os sentimentos que existem, inclusive a raiva.

Solte suas feras

Sabe aquela história de que pessoas felizes vivem mais e melhor? Esqueça. Uma recente pesquisa publicada pela Associação Americana de Psicologia e pelo jornal Emotion mostra que a felicidade não é a responsável por evitar mal-estar e doenças inflamatórias no corpo – e, sim, a habilidade de lidar com as diversas emoções existentes.

A pluralidade de sentimentos, a que os cientistas chamam de “emodiversidade”, baseia-se em paralelos com as ciências naturais. Um ambiente na natureza é saudável quando várias espécies cumprem seus papeis. “É a mesma coisa com as emoções, já que cada uma delas ajuda a regular o comportamento para adaptar-se a determinada situação”, escreveu Jordi Quoidbach e seus colegas autores do estudo, representantes de universidades como Yale, Harvard e Cambridge. Em síntese: o mais importante para a saúde não é a felicidade, mas a variedade e a frequência de emoções que sentimos.

Isso não é carta branca para fazer como o paranaense José Buffo há 14 anos, quando chefiava a agencia de publicidade Heads, da qual era sócio. Ele admite que naquele tempo era irritante, neurótico, centralizador e mal-educado. “Eu era tudo o que um líder não pode ser, afirma José. Certo dia, frustrado com a quantidade de vezes que a impressora apresentava defeito, ele pegou o equipamento, levou até o jardim da casa onde ficava a sede da empresa (na cidade de Curitiba) e ateou fogo.

Embora tenha extravasado a raiva, isso não fez bem nem a ele nem à equipe – sem falar no prejuízo com a perda da máquina. Naquele ano, José decidiu tirar um período sabático. Em 2004, foi a centros de meditação na Índia em busca de autoconhecimento e adotou uma dieta macrobiótica. “Antigamente, depois que passava o nervosismo, eu pedia desculpas, só que o estrago já estava feito”, diz. ”Agora consigo cobrar, que é importante para o gestor, e sei que isso pode ser feito com respeito e carinho.” Talvez ainda mais importante: ele vendeu sua parte na agência, abriu negócio de apoio a novos empreendedores e passou a decidir em quais projetos se envolver. Hoje, José pode até trabalhar mais, mas tem menos estresse, o que lhe permite controlar melhoras emoções.

 

O ALFAIATE E O ALFINETE

O reconhecido psicólogo Steven Hayes, à frente do departamento de análise do comportamento na Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, reforça que expressar os sentimentos é bom, embora isso precise ser feito de forma apropriada e na hora adequada. Ele é irredutível, porém, quanto à importância de dar vazão a todas as emoções. Para Hayes, ao evitar certas reações no trabalho, agimos corno um alfaiate que entorpece os dedos para evitar urna alfinetada dolorosa. Isso pode driblar a dor no curto prazo, mas, com o tempo, os danos causados pelas picadas serão ainda mais prováveis e ele não produzirá uma boa peça. O risco aumenta e a probabilidade de eficácia diminui. “Tudo para evitar sentimentos difíceis”, diz Hayes.

A fuga pode resultar até mesmo em problemas de saúde. Diante de um chefe fechado, avesso a novas ideias e com medo de alguém da equipe o substituir, o administrador Luís Guilherme de Oliveira, hoje com 28 anos, começou a se sentir infeliz sob a influência de tanta negatividade. Como era jovem e estava no começo da careira, demorou para reagir à emoção e sua imunidade acabou baixando. Portador de toxoplasmose desde o nascimento, ele notou o protozoário incubado e inativo aproveitar-se da oportunidade e entrar em ação pela primeira vez, fazendo com que perdesse mais de 30% de sua visão.

Para a psicóloga Beatriz Brandão é saudável pôr para fora todos os sentimentos, sobretudo os ruins. “Senão o corpo direciona as emoções para outras áreas e a pessoa desenvolve transtornos, dores de estômago e ansiedade”, afirma.

Apesar de agir com educação ser algo bem-visto em nossa sociedade, extravasar é bom e há países incentivando esse comportamento. O inglês Luke Treglown, um dos autores do estudo “O lado obscuro da resiliência e da moderação”, publicado na revista Harvard Business Review, indica que algumas empresas no Reino Unido encorajam deixar que as emoções venham à tona. “Em ambientes de alta pressão e ritmo acelerado, os funcionários que são assertivos, diretos ou contundentes geralmente são vistos como os melhores naquilo que fazem”, diz Treglown.

Sair do controle pode ter um resultado positivo. Quando atuava em uma empresa que presta serviços de controle e monitoramento de bagagens para a Virgin Atlantics Always, a paranaense Gabriela Gaertner protagonizou um “barraco”. Vendo a gerente da companhia contratante maltratar sistematicamente um colega, mesmo quando ele não havia feito nada de errado, ela explodiu e, na frente de seu chefe, levantou o dedo para a mulher e disse – sem palavrões – que aquilo que ela fazia era errado. “Tive certeza de que seria demitida quando me chamaram logo depois para a sala da direção”, lembra. No entanto, para sua surpresa, o superior perguntou se ela gostaria de ser promovida a coordenadora da equipe em que trabalhava.

“As emoções negativas têm de existir para nos mostrar que é preciso fazer alguma coisa diante de determinadas situações”, afirma Flora Victoria, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching. Segundo ela, explodir é melhor do que ficar remoendo, mas o ideal é ter estratégias para compensar os sentimentos ruins e voltar a se sentir bem – inclusive para, no auge do problema, não estourar de forma a perder a razão. Entre as táticas mais conhecidas está praticar a respiração diafragmática e a meditação. Mas atitudes simples, como levantar e ir ao banheiro ou tomar água, também auxiliam no momento da explosão. Sereno, o profissional consegue acessar o racional por meio de emoções positivas. “Gosto da analogia de mudar de marcha, que aqui significa mudar o estado emocional de forma cada vez mais rápida”, diz Flora.

O administrador catarinense Cleomar Piola, por exemplo, chegou a quebrar telefones durante suas necessidades de extravasar no trabalho. Com o tempo, adotou uma daquelas bolinhas usadas por quem tem tendinite nas mãos. “Eu fechava a porta da minha sala e jogava a bola com força na parede, porque sabia como era importante colocar certas emoções para fora”, lembra. Agora, gerente corporativo da rede de supemercados Caitá, com experiência, acompanhamento terapêutico e maternidade, ele levanta, caminha por uma das lojas da rede ou dirige até outra unidade, sem que ninguém note seu estado.

 Solte suas feras.3

DE VOLTA AO CONTROLE

Estudos mostram que tudo bem sentir várias emoções, o importante é retomar a calma o mais rápido possível. Veja algumas dicas para isso:

 RESPIRAÇÃO DIAFRAGMÁTICA

O QUE É: Respirar usando o músculo que fica entre o pulmão e a barriga

O QUE FAZ: Ajuda a restaurar a sensação de relaxamento.

CAMINHADA

O QUE É: Mudar de cenário, ir ao banheiro ou tomar água.

O QUE FAZ: Direciona a energia do momento para outros lugares e outras pessoas, arejando o cérebro

MEDITAÇÃO

O QUE É: Exercício mental de concentração num objeto, numa atividade ou num pensamento.

O QUE FAZ: Oxigena a mente para que a pessoa se concentre mais no presente e não altere demais suas emoções.

 Solte suas feras.2

 

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 1-10 – PARTE III

Alimento diário

A Ressurreição

IV – A saída das mulheres do sepulcro, para anunciar aos discípulos (v. 8). E observe:

1. Em que estrutura e estado de espírito elas estavam. Elas saíram “com temor e grande alegria”. Uma mistura estranha, temor e alegria ao mesmo tempo, na mesma alma. Ouvir que Cristo havia ressuscitado foi um motivo de alegria; mas ser levada para dentro do seu túmulo, e ver um anjo, e falar com ele sobre isso, só poderia causar temor. Era uma boa notícia, mas elas estavam com medo de que fosse bom demais para ser verdade. Mas observe que isto foi dito da alegria delas, que era uma grande alegria; não é dito isso quanto ao seu temor.

Considere:

(1)  O temor santo vem acompanhado de alegria. Aqueles que servem ao Senhor com reverência, servem-no com alegria. (

2)  A alegria espiritual é misturada com tremor (Salmos 2.11). É somente o amor e a alegria perfeitos que afastam todo temor.

2. Com que pressa elas agiram. Elas correram. O temor e a alegria agilizaram o ritmo delas, e acrescentaram asas ao seu movimento. O anjo ordenou que fossem imediatamente, e elas correram. Aqueles que são enviados em uma missão de Deus não devem demorar, ou perder tempo; onde o coração está dilatado com as notícias alegres do Evangelho, os pés correrão o caminho dos mandamentos de Deus.

3. Que missão elas receberam. Elas correram a anunciá-lo aos seus discípulos. Não duvidando que essas notícias seriam alegres para eles, as mulheres correram, para consolá-los com os mesmos confortos com que elas mesmas foram consoladas por Deus. Os discípulos de Cristo devem estar dispostos a transmitir uns aos outros as suas experiências de doce comunhão com o céu; devem dizer aos outros o que Deus tem feito por suas almas, e lhes falado. A alegria em Cr isto Jesus, como o unguento na mão direita, irá se revelar, e encher com os seus odores todos os lugares dentro das linhas de sua comunicação. Quando Sansão achou mel, ele o levou para os seus pais.

 

V –  O aparecimento de Cristo às mulheres, para confirmar o testemunho do anjo (vv. 9,10). Essas mulheres boas e zelosas não só ouviram a boa notícia a respeito dele, mas foram as primeiras a vê-lo depois da sua ressurreição. O anjo instruiu aqueles que o veriam a ir para a Galileia. Mas, antes que esse dia chegasse, mesmo aqui, eles buscavam aquele que vive e os vê. Jesus Cristo é frequentemente melhor do que a sua Palavra, mas nunca pior. Ele frequentemente se antecipa, mas nunca frustra as expectativas confiantes do seu povo.

Aqui está:

1. O aparecimento de surpresa de Cristo para as mulheres. “E, indo elas, eis que Jesus lhes sai ao encontro”. As visitas bondosas de Cristo geralmente nos encontram no caminho do dever, e aqueles que usam o que possuem para o benefício dos outros, receberão ainda mais. Essa entrevista com Cristo foi completamente inesperada (Cantares 6.12). Cristo está mais perto de seu povo do que eles imaginam. Elas não precisaram descer às profundezas para buscar a Cristo, como se Ele estivesse ali. Ele não estava ali, já havia ressuscitado. Também não precisariam subir aos céus, porque Ele ainda não havia subido; mas Cristo, mesmo estando tão elevado, está bem perto de cada um de nós.

2. A saudação com a qual Ele se dirige a elas: “Eu vos saúdo”. Essa era uma antiga saudação, desejando toda a saúde para aqueles que encontramos; esse é o significado de “Eu vos saúdo”, e é uma expressão grega de saudação, que corresponde à expressão hebraica “Paz seja convosco”. Ela indica:

(1)  A boa vontade de Cristo em relação a nós e à nossa felicidade, mesmo depois que Ele entrou em seu estado de exaltação. Embora Ele esteja à frente, sempre nos deseja o melhor; e se preocupa muito com o nosso conforto.

(2)  A liberdade e a familiaridade santa que o Senhor Jesus usou em seu relacionamento com os seus discípulos; porque Ele lhes chama de amigos. Mas a palavra grega significa “Regozijai-vos”. Elas foram tomadas de temor e alegria; o que Ele lhes disse estimulou a alegria delas (v. 9). Elas poderiam se regozijar, e silenciar o seu temor (v. 10): “Não temais”. Note que a vontade de Cristo é que o seu povo seja um povo alegre, e a sua ressurreição lhes proporcione uma alegria abundante.

3. O respeito afetuoso que elas lhe prestaram: “E elas, chegando, abraçaram os seus pés e o adoraram”.

Desse modo, elas expressaram:

(1)  A reverência e a honra que elas tinham por Ele; elas se lançaram aos seus pés, colocaram-se em uma posição de adoração, e o adoraram com humildade e temor piedoso, como o Filho de Deus agora exaltado.

(2)  O amor e a afeição que elas tinham por Ele; elas o detiveram (Cantares 3.4). Quão suaves eram os pés do Senhor Jesus para elas! (Isaias 52.7).

(3)  A situação de alegria em que elas estavam, agora que tinham mais essa confirmação de sua ressurreição; elas abraçaram essas notícias. Assim, devemos abraçar a Jesus Cristo, que nos é oferecido através do Evangelho. Com reverência devemos nos lançar aos seus pés, pela fé devemos nos agarrar a Ele, e com amor e alegria devemos colocá-lo em nossos corações.

4. As palavras encorajadoras que Cristo lhes disse (v. 10). Não encontramos que elas tenham dito qualquer coisa a Ele; seus abraços afetuosos, bem como a sua terna adoração, falaram de um modo suficientemente claro; e o que Ele lhes disse não foi mais do que o anjo já havia dito (vv. 5,7); porque Ele confirmará a palavra dos seus mensageiros (Isaias 44.26). E o seu modo de confortar o seu povo é falar pelo seu Espírito várias vezes aos seus corações a mesma mensagem que eles ouviram anteriormente através dos seus anjos, os seus mensageiros. Agora observe aqui:

(1)  Como o Senhor censura o temor delas: “Não temais”. Elas não devem temer esses avisos repetidos de sua ressurreição, nem temer qualquer dano a partir do ressurgimento de alguém dentre os mortos; porque a notícia, embora estranha, era tanto verdadeira como boa. Note que Cristo ressuscitou dos mortos para silenciar os temores do seu povo, e a notícia da sua ressurreição traz o suficiente para silenciá-los.

(2)  Como o Senhor repete a mensagem: “Ide dizer a meus irmãos” que eles devem se preparar para uma viagem à Galileia, e “lá me verão”. Se houver qualquer comunhão entre as nossas almas e Cristo, é Ele quem marca o encontro, e Ele observará o compromisso. Jerusalém havia perdido a honra da presença de Cristo, e era uma cidade tumultuada; portanto, o Senhor transferiu o encontro para a Galileia. “Vem, ó meu amado, saiamos ao campo” (Cantares 7.11). Mas o que é especialmente observável aqui é que Jesus chama os seus discípulos de seus irmãos. “Ide dizer a meus irmãos”; não só àqueles que eram seus consanguíneos, mas a todos os demais, pois todos eles são seus irmãos (cap. 12.50). Mas Ele nunca os chamou assim antes, fazendo-o apenas depois da sua ressurreição, tanto nessa passagem como em João 20.17. Tendo Ele mesmo, por sua ressurreição, declarado ser o Filho de Deus com poder, todos os filhos de Deus foram assim declarados como sendo seus irmãos. Sendo o Primogênito dos mortos, Jesus se tornou o primogênito entre muitos irmãos, de todos aqueles que são reunidos na semelhança da sua ressurreição. Cristo agora não conversava tão constante e familiarmente com os seus discípulos, como havia feito antes de sua morte; mas, para que não pensassem que Ele havia se tornado um estranho para eles, Ele lhes dá esse título carinhoso: “Ide a meus irmãos”. E assim se cumprem as Escrituras que, falando de sua entrada em seu estado exaltado, dizem: ”Anunciarei o teu nome aos meus irmãos”. Eles o haviam desertado vergonhosamente no momento de seus sofrimentos; mas, para mostrar que Ele poderia perdoar e esquecer, e para nos ensinar a fazer o mesmo, o Senhor não só dá continuidade ao seu propósito de se encontrar com eles, mas os chama de irmãos. Sendo todos seus irmãos, eles eram irmãos uns dos outros, e deveriam se amar como irmãos. O fato de o Senhor os considerar como seus irmãos coloca uma grande honra sobre eles, mas também há um grande exemplo de humildade em meio a essa honra.