PSICOLOGIA ANALÍTICA

BASES BIOLÓGICAS DA AGRESSIVIDADE

No substrato dos comportamentos agressivos, há um complexo mecanismo molecular. Mas, seria correto considerar a violência uma doença passível de ser curada com medicamentos?

Bases biológicas da agressividade

Em Boston, há uma lanchonete onde, antes de comer é preciso brigar. Trata-se de uma caixa de plexiglás transparente dentro da qual duas drosófilas disputam um pratinho de levedo em meio a golpes de patas e investidas furiosas. Os encontros deste bizarro clube de lutas, administrado por Edward Kravitz, neurobiólogo da Faculdade de Medicina de Harvard, são meticulosamente registrados em vídeo. O objetivo é estudar as bases biológicas da agressividade, uma das pulsões mais antigas e comuns a todas as espécies, mas cujos mecanismos desencadeantes permanecem um enigma.

Os modelos animais ajudaram pesquisadores a compreender patologias como câncer e diabetes e são hoje indispensáveis no desenvolvimento de todos os tratamentos modernos. No entanto, só nos últimos anos adquiriram importância na pesquisa sobre o comportamento humano. Isso porque as novas tecnologias de análise molecular, trazendo à luz a complexa rede de circuitos bioquímicos por trás de cada pulsão, permitem identificar pontos comuns a várias espécies.

“À primeira vista, a drosófila é muito diferente do homem”, observa Kravitz, “mas é um ótimo ponto de partida para isolar as moléculas que suscitam comportamentos agressivos porque conhecemos todo o mapa do seu DNA e muitos dos seus genes encontram correspondência no genoma humano. Fáceis e econômicas de criar, essas moscas-das-índias têm também a vantagem de apresentar comportamentos diferentes conforme o sexo, tanto que machos e fêmeas combatem de maneiras distintas, com esquemas reconhecíveis com base nos movimentos de cada um.

Numa pesquisa publicada recentemente nos Procedings of the NationaI Academy of Sciences, Kravitz demonstrou que, modificando geneticamente os neurônios de um inseto macho, podiam ser atribuídas ao seu cérebro as características cerebrais de uma fêmea em idade adulta. Muitos dos comportamentos dessas moscas alteradas, desde os sexuais aos rituais de corte, mudavam para assemelhar-se àqueles femininos. Apesar disso, seu modo de combater permanecia o mesmo.

 RAÍZES ANTIGAS E COMUNS

“É a primeira prova experimental de que, modificando um gene, se influi também sobre um comportamento”, observa Bruce Baker, biólogo da Universidade Stanford. Com o colega Kravitz, Baker estuda o papel da galanina, um dos principais neurotransmissores envolvidos no estímulo de agressividade e galanteio. “Mas significa também que a agressividade é um traço extremamente conservado ao longo do processo evolutivo, e depende de mecanismos que se desenvolvem muito cedo, antes mesmo da determinação do sexo. Os comportamentos podem ser muito diferentes de uma espécie para outra, mas parece claro que as moléculas na base desses estímulos são as mesmas.”

Os pesquisadores empregam técnicas de engenharia genética para obter animais knock–0ut –  privados de um gene de que sequer estudara função -, ou knock-in, quando a sequência de DNA é aumentada. No entanto, o alvo verdadeiro não são simplesmente os genes. A bem da verdade, a ideia de que existam “genes da violência” hoje está descartada, e vem sendo dada mais atenção para um grupo de neurotransmissores que têm como característica comum a presença, no interior da própria estrutura molecular, do aminoácido triptoíano. A agressividade parece se originar por moléculas diversas, mas há muitas outras que contribuem na modulação da intensidade da resposta agressiva.

Klaus Miczek, da Universidade Tufts, e Craig C. Ferris, da Universidade de Massachusetts, concentraram a atenção em dois neurotransmissores: serotonina e vasopressina. Em muitas espécies, entre elas o homem, baixos níveis de serotonina correspondem a comportamentos agressivos. Os ratos, por exemplo, atacam muito mais facilmente outro animal depois de consumirem substâncias que influem nos receptores da serotonina, impedindo o cérebro de absorver essa molécula. Ao contrário, fármacos como a fenfluramina, que aumenta o nível de serotonina, ou estimulam os receptores cerebrais que ligam esse neurotransmissor, diminuem a frequência dos comportamentos agressivos nesses animais. Os mesmos princípios são conhecidos e usados em nível farmacológico no homem. A fluoxetina, naturalmente presente no cérebro e utilizada em forma sintética em alguns antidepressivos, impede que os neurônios se liberem da serotonina produzida.

Se saturar os receptores de serotonina reduz a agressividade, a vasopressina, ao contrário, a alimenta, agindo diretamente sobre o hipotálamo, região do cérebro onde têm origem muitos estímulos comportamentais. Na década de 90, estudos clínicos conduzidos por Emil F. Coccaro, da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, mostraram que também no homem uma escassa secreção de serotonina é acompanhada de comportamentos agressivos.

MOLÉCULAS DE POTENCIALIZAÇÃO

Os instintos agressivos seriam, portanto, simplesmente provocados pela carência de uma molécula? A química da violência parece bem mais complexa. A serotonina desempenha papel central no controle da agressividade em todos os neurotransmissores desempenha papel de controle em todos os mamíferos, e conhecemos pelo menos 14 receptores diferentes no cérebro humano”, observa Robert Sapolsky, da Universidade Stanford. Ao lado de Lysa Share, o neurobiólogo estuda a biologia da agressividade nos macacos. “Mas muitas outras moléculas potencializam o comportamento agressivo. Entre elas a dopamina – ligada ao prazer e à busca de novas sensações – a adrenalina e a noradrenalina, que aumentam o metabolismo e a força. Também a testosterona contribui, mas em medida muito menos importante que usualmente se pensa. Nas fêmeas, é muito importante a relação entre progesterona e estrogênio liberados no sangue.” Nos mamíferos de ambos os sexos, além disso, altos níveis de estrogênio podem alterar o equilíbrio do eixo do stress, constituído por hipófise, hipotálamo e glândulas suprarrenais responsáveis pela secreção de glicocorticoides, conhecidos como hormônios do stress.

Em 2004, os estudos conduzidos com gatos por Alan Siegel, neurologista da Universidade de Nova Jersey, demonstraram que também algumas moléculas do sistema imunológico, como as citocinas, são capazes de potencializar o comportamento agressivo, da mesma forma que outros neurotransmissores como o ácido gama aminobutírico (GABA) e diversos neuropeptídios. A serotonina permanece, de qualquer modo, o detonador principal de cada resposta agressiva, e por isso as pesquisas se concentram sobre ratos, que têm receptores cerebrais extremamente semelhantes aos humanos.

Hoje é também possível criar roedores geneticamente modificados que apresentam traços típicos de problemas psiquiátricos complexos como a depressão e a esquizofrenia, mas os resultados destas pesquisas devem ser interpretados com cuidado.” Desenvolver modelos animais para estudar os distúrbios humanos é um instrumento muito importante para compreender as bases dos distúrbios psiquiátricos, mas os resultados obtidos em fase de pesquisa pré-clínica devem ser interpretados com cautela, explica Alessandro Bartolomucci, do Instituto de Neurociências do Conselho Nacional de Pesquisa de Roma, que estuda a resposta ao stress nos ratos. De acordo com ele, o estudo dos neurotransmissores e dos genes implicados em tais distúrbios podem dar apenas indicações sobre os mecanismos biológicos de base na espécie estudada. Dada a semelhança de estruturas e funções existentes entre os vertebrados, é provável que tais mecanismos sejam altamente conservados também no homem, mas isso deve ser verificado experimentalmente. No que diz respeito aos raios transgênicos, por sua vez, modificar um ou mais genes produziria animais com características análogas às de um paciente psiquiátrico, mas quase nunca podemos reduzir uma síndrome complexa à disfunção de um só gene”.

DO ESTADO AO COMPORTAMENTO

A própria definição de agressividade ainda não foi estabelecida pela comunidade científica. Nos animais, a agressividade é tipicamente medida pela frequência dos ataques dirigidos a um intruso que ultrapasse os limites do seu território. Mas é uma medida indireta, porque a agressão é um comportamento, enquanto a agressividade é o estado motivacional, o conjunto das alterações neuroquímicas e fisiológicas que estão na base da agressão”, diz Bartolomucci.

O limite conceituai é evidente também no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos (DSM-IV), que cita os comportamentos agressivos como sintoma de vários distúrbios psiquiátricos, mas não dá uma definição convincente da agressividade, como acontece para a depressão. O debate sobrea definição da agressividade é muito intenso, observa Bartolomucci. Está claro que estamos diante de um fenômeno complexo que pode ser desencadeado por razões diversas, que evoluiu como resposta a pressões seletivas muito diferentes, da defesa do território à sexualidade, mas é também modulado e atenuado por fatores sociais. Além disso, e felizmente, a agressividade pode ser inibida e não desembocar em comportamentos violentos.”

Nos países anglo-saxões, há uma grande atenção para o excesso de agressividade de crianças e adolescentes, muitas vezes descrito com a expressão inglesa bullying, que remete as atitudes agressivas a experiências sociais nos primeiros anos de vida do indivíduo. No entanto, estudos recentes indicam que também as relações sociais no interior de uma comunidade de idade adulta contam muito. As pesquisas de Sapolsky e Share com alguns grupos de macacos silvestres mostraram que depois da morte por doença dos machos dominantes e mais violentos, as fêmeas preferiam aqueles menos agressivos. Além disso. os pesquisadores constataram que, depois de dois anos da ausência dos mais agressivos, o grupo repudiava novos indivíduos muito violentos.

A PÍLULA DA MANSIDÂO

“A medida que se vão esclarecendo as bases biológicas da agressividade, aventa-se também a hipótese de tratar e controlar os comportamentos muito violentos com uma nova classe de fármacos, os serenics (agonistas do receptor de serotonina, por exemplo). Hoje, a atenção é dirigida aos inibidores seletivos de recaptação da serotonina, até agora utilizados como antidepressivos. O objetivo é modular a agressividade de maneira específica, sem induzir os pacientes a um estado de apatia. A fluoxetina já se demonstrou eficaz em alguns casos, assim como outras moléculas que agem sobre o receptor 1B da serotonina, mas ainda com muitos efeitos colaterais.

A possibilidade de expandir o emprego desses inibidores entrou, porém, em compasso de espera no fim do ano passado, quando a FDA, a agência americana de controle de alimentos e fármacos, verificou uma ligação entre o uso de fluoxetina e a frequência dos suicídios em adolescentes tratados por síndromes depressivas.

O freio principal aos investimentos de pesquisa farmacológica nesse campo deriva, porém, da impossibilidade de registrar novas moléculas para regular a agressividade. A FDA aprova, de fato, somente fármacos destinados à cura de patologias específicas e reconhecidas, mas, como já se disse, o DSM- IV não dá uma definição da agressividade como distúrbio patológico. O único estudo clínico específico iniciado por uma empresa farmacêutica é aquele sobre o uso da eltoprazina para controlar a agressividade de pacientes paranoicos e esquizofrênicos efetuado pela Solvay, que, porém, arquivou o projeto em 1994.

Se as empresas não investem, os pesquisadores parecem, porém, mais otimistas. Sapolsky recentemente propôs uma terapia gênica voltada para modificar a secreção de CRH, o hormônio que induz a hipófise a liberar o cortisol ou hormônio do stress e influencia consequentemente, o equilíbrio dos estrogênios. Segundo o pesquisador americano, seria tecnicamente possível inserir genes ativáveis por meio de fármacos em alguns neurônios, a fim de controlar a resposta ao stress e também a agressividade.

Seja qual for o caminho tomado pela pesquisa para novos tratamentos, os cientistas são os primeiros a lembrar que o controle farmacológico da agressividade é um terreno minado do ponto de vista ético. Quem sofre de agressividade patológica poderia beneficiar-se, mas o risco é que se crie uma zona cinzenta e se termine por encorajar o tratamento de um número sempre maior de pessoas cujo comportamento agressivo é determinado não por disfunções bioquímicas, mas por fatores sociais.

 O TEMPO DOS VALENTÔES

Entre as tantas formas de agressividade, uma em particular tomou conta das escolas: aquela que, na literatura internacional, ficou conhecida pelo termo inglês bullying. O pioneiro dos estudos sobre o bullying foi o psicólogo norueguês Dan Olweus, que, no início dos anos 70, na esteira de um grave incidente registrado pela crônica policial, começou a ocupar-se sistematicamente do fenômeno. A ele se deve a primeira definição: o aluno é objeto de ações de bullying, ou, de fato, é abusado ou vitimizado, quando é exposto, repetidamente, às ações ofensivas postas em prática por parte de um ou de mais colegas.

Na raiz dos comportamentos do “valentão” há quase sempre a vontade de intimidar e dominar, um abuso de poder que se manifesta com modalidades diversas. Aquela física, na qual se agride a vítima com socos e chutes, ou também se busca invalidar suas realizações pessoais. Aquela verbal, em que se ridiculariza, se insulta, se escarnece repetidamente. Enfim, há também uma modalidade indireta (registrada com mais frequência entre as meninas): o agressor difunde fofocas incômodas, pequenas calúnias, excluindo a vítima dos grupos de convivência social.

Os “valentões” que não modificam as suas modalidades de interação serão, quando adultos, pessoas com forte risco de comportamentos anti sociais, ou desviantes. As vítimas frequentemente perdem auto estima e se culpam, reações que comportam perda de concentração e rendimento escolar.  Em alguns casos, há somatização, com dores de cabeça, de estômago, ataques de ansiedade, pesadelos: todos distúrbios que podem ter consequências psicológicas também em idade adulta. Para subtrair-se aos comportamentos do “valentão”, ou dos “valentões”, as vítimas chegam a deixar a escola, a não sair mais de casa, e em casos extremos, ao suicídio.

Foi um caso de triplo suicídio que levou o governo norueguês a encarregar Olweus de estudar o fenômeno. Nos anos 80, a análise e as medidas para combater o bullying chegaram aos outros países escandinavos, e dali aos Estados Unidos, Canadá, Japão Holanda e Reino Unido.

O agressor ataca no trajeto entre casa e instalações escolares e nos banheiros de escolas, mas o lugar principal da agressão é dos mais insuspeitos: a sala de aula. Isto é, sob os olhos mais ou menos conscientes dos adultos.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.