PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE A VIDA ESPERA DE NÓS

A busca por sentido é uma necessidade fundamentalmente humana e pode estar relacionada a muitas aflições que hoje lemos como transtornos.

O que a vida espera de nós

Muitos gostam de frequentar academias e enxergam vantagens nas ergométricas e esteiras. Eu sempre vou preferir uma caminhada pelo bairro. Os benefícios físicos vêm de bónus, raramente são os principais motivadores. É um exercício, acima de tudo, de atenção ao mundo de fora; de admiração à vida que nos cerca e que as ocupações e preocupações não nos deixam perceber.

As caminhadas são recompensadas com cheiro das plantas e de gramados recém-cortados, frutas colhidas do pé, cantos de pássaros, cumprimentos de vizinhos – humanos e caninos – e, – algumas boas histórias. Sem falar nos registros, com a câmera do celular, de cores, cenas e fotogénicos gatos que nos espiam desconfiados, de alguns abrigos improváveis – como a branquinha aninhada em uma casinha de cachorro, no terreno de uma casa desocupada.

Quando me agachei para fazer a foto, fui surpreendida pela simpatia de um senhor que vinha trazer comida para ela. Foi então que descobri que se tratava de uma fêmea, particularmente arisca, que ele conseguiu conquistar depois de muito tempo de convivência. Revelou que a pequena morada de telhado azul, que havia comprado especialmente para a gatinha, pode ser puxada para perto da grade por um sistema de roldanas que inventou,

Mas a parte mais interessante da visita vem sempre depois de saciada a fome da amiguinha felina. É quando ele estende um pano branco no chão e se deita no meio da calçada para brincar e acariciar a Mimi. “Ela precisa disso”, explicou. Ela e os outros gatos que, mesmo vivendo na rua e dormindo em casinhas em terrenos desocupados, tiveram o privilégio de serem adotados por esse mecânico de coração grande, que divide a casa com 11 cachorros tirados da rua.

Os animais que estão sob sua responsabilidade lhe dão trabalho e lhe trazem preocupação: a principal delas, confessou, é que na sua falta, voltem a viver na rua, correndo o risco de serem maltratados ou de passarem fome. Mas eles não são os únicos a se beneficiar dessa relação: o homem precisa dos afagos da gatinha, assim como ela precisa dele. A retribuição oferecida pelos bichos pode parecer insignificante para muitos, mas para aquele senhor é o propósito de sair de casa em um dia chuvoso, de deitar­ se na calçada com a disposição de uma criança e de voltar com a sensação de missão cumprida. Não é movido por necessidade financeira, auto cobranças ou pressões externas, mas por uma busca por sentido. Algo que, para o psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm, está no fundamento da condição humana, apesar de muitas vezes ser reprimido, ao custo do que podemos chamar de mente saudável. Uma das formas de reprimir essa tendência é seguir compulsivamente o que ele chama de “rotina de fuga”.

Décadas depois de escritas suas obras, o consumo e a produtividade continuam sendo algumas das principais rotas dessa fuga, facilitada recentemente pelo sedutor universo virtual que carregamos nos bolsos. Em Modern Mans Pathogy of Normaley (“A patologia da normalidade do homem moderno”) escreve: “Nós não conseguimos suportar viver apenas saciando a fome e a sede sem dar um sentido à existência. Temos que encontrar alguma resposta ao mistério da vida e essa resposta deve ser tanto teórica como prática. Refiro-me ao fato de precisarmos de uma estrutura    referencial que nos dê orientação, que de alguma forma torne significativo o processo da vida e nossa posição dentro dele”

Para Fromm, esse propósito não é necessariamente produto de um planejamento ou de justificativas intelectuais, mas consiste em um objeto de devoção – “algo para o qual dedicamos nossas energias, para além da finalidade de produzir ou de reproduzir”

Lançados em 1953, esses ensaios trazem uma reflexão incrivelmente atual sobre os parâmetros que utilizamos para definir os estados mentais –  critérios que estão cada vez mais estreitos, traçados por uma sociedade que parece estar perdendo as referências de normalidade; que em sua determinação de encontrar explicações simplificadas isola a biologia dos outros âmbitos que compõem o ser humano como o social e o espiritual. Aí se encontram a necessidade de vínculos e de servir a um propósito de fazer parte de algo maior que nós.

Fromm não foi o único a escrever sobre a busca pelo sentido e sua relação com a saúde mental. Para o psiquiatra austríaco Victor Frankl é isso que nos move – e não o prazer ou o poder, como se havia sugerido. Após um período em campos de concentração nazistas, concluiu que é possível encontrar propósito mesmo nos períodos mais difíceis, e que a falta desse motivador pode levar a excessos e compensações – hoje associados a diversos tipos de transtornos. Na obra Em Busca de Sentido (Editora Vozes), ele conta que durante a guerra tinha que ensinar àqueles sem esperança “que não importava o que eles esperavam da vida, mas sim o que a vida esperava deles”. A busca por sentido, portanto, só leva a algum lugar quando nos damos conta de que nós é que nós é que somos questionados pela vida e não o contrário.

Frankl cita Nietzsche ao lembrar que “aqueles que têm um porquê” podem suportar praticamente qualquer “como”. Esse porquê, sugere o psiquiatra, pode vir de diferentes fontes: flexibilidade diante de situações que não podemos mudar; auto expressão e criatividade; e amor, ao interagirmos de forma significativa com outros e com o ambiente. Essa foi a fonte de propósito do senhor que acolhe os animais e de todos os que se preocupam com a falta que, um dia, farão a alguém.

Em uma época em que um dos produtos mais lucrativos do merendo editorial é um grosso manual de diagnósticos psiquiátricos, reflexões que abordam as necessidades humanas de forma abrangente, e não as reduzem à biologia, fazem-se ainda mais urgentes. Conforme esses pensadores já haviam deixado claro mesmo antes da era das pílulas, 11e1n todas as respostas são encontradas em laboratórios e nem todas as soluções estão nas farmácias. A cultura na qual vivemos, nossas escolhas, as responsabilidades que abraçamos, a forma como compomos nossos dias e como interagimos são componentes básicos de quem somos e podem esconder a causa e a cura de muitas aflições.            

  

MICHELE MULLER – é jornalista pesquisadora especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site – http://www.michelemuller.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.