PSICOLOGIA ANALÍTICA

PERSONALIDADE DOS DELATORES

Delatar significa denunciar a responsabilidade de alguém por crime. Entre os delatores encontram-se os verdadeiramente arrependidos e os que não se arrependem nunca.

A personalidade dos delatores

O delator é um colaborador da Justiça que pode estar totalmente arrependido ou não se arrepender jamais.

Quanto ao primeiro tipo, delata pois não suporta conviver com algo que moralmente o incomoda. Nesse caso, a delação pressupõe um dilema e a revelação funciona como uma espécie de válvula de escape para aliviar a culpa. Esse tipo psicológico apresenta um certo comportamento atípico. Entre esses delatores encontram-se até inocentes. Por exemplo, os que entregam o vizinho ou o colega de trabalho e o fazem por sentir um incômodo interior, uma vez que, sabendo e não revelando o que sabem, podem tornar-se cúmplices.

Há outro tipo psicológico de delator, o que não se arrepende nunca, e é o mais comum. Recordemos que a legislação brasileira conta com a delação premiada, benefício legal, concedido a um réu em ação penal, que aceitou colaborar na investigação criminal e entregar os seus companheiros.

No Brasil essa prática tem sido muito procurada nos ditos crimes de colarinho branco, crimes de corrupção. Há um denominador comum entre essas personalidades. Por serem criminosos, pressupõe-se que lhes faltem valores éticos e morais, do contrário não seriam infratores.

Para se saber o quão comprometido está o arcabouço moral desses indivíduos, basta atentar no modus operandi do delito, considerando que a morfologia do crime revela, tal qual uma fotografia em cores, o comportamento do transgressor, e como quem manda na conduta é o psiquismo, vendo-se a forma do crime teremos alguns dados mentais de quem o praticou.

Nos crimes de corrupção, observamos indivíduos que desviaram verdadeiras fortunas, dotados de uma ganância incomensurável, pois, já milionários, com bens que dariam para viver e sustentar nababescamente suas famílias por infindáveis gerações, continuaram a pilhar a coisa alheia, a desviar dinheiro que seria aplicado em tantas áreas sociais.

Quando esses criminosos entram no programa de delação premiada, somente o fazem em benefício próprio, sem qualquer pudor ou arrependimento pelos atos que fizeram, e não trepidam em delatar até aqueles que eram seus “amigos inseparáveis”.

Em suma, são dois tipos básicos de delatores. Aquele que se arrepende, normalmente ligado a crimes menores. A delação ocorre em face de dor moral, por prática de ato errado. A revelação alivia a culpa. A ação é espontânea e, via de regra, não há reincidência na atividade delituosa. É um criminoso do tipo ocasional, tem bom prognóstico no que diz respeito à recuperação social.

Do outro lado, aquele que não se arrepende e somente delata se vir que há vantagem nisso, vislumbrando-a, entrega á tudo e a todos. Não age por dor moral ou arrependimento, mas para lograr vantagem. Esse indivíduo e incorrigível. Como a sua índole é ruim e o seu arcabouço de sentimentos superiores é raquítico, se tiver oportunidade, reincide. É um criminoso habitual. A maioria dos crimes de corrupção é praticada por esse tipo, quando a ambição, o desejo imoderado pela riqueza são a marca de sua personalidade condutopática.

 

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

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OUTROS OLHARES

A BUSCA DA UTOPIA

Cresce por todo Brasil o movimento de volta à simplicidade e de criação de comunidades alternativas, que dão um novo sentido econômico e prático ao discurso hippie de paz e amor.

A busca da utopia

Em meio à crise econômica e política à greve dos caminhoneiros, ao crescimento da violência e à escassez de alimentos, a comunidade Olho D’Água, criada para ser um pequeno pedaço do paraíso em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, se desenvolve e floresce. Tem-se ali um projeto experimental de permacultura, sistema de população humana sustentável que une práticas tradicionais e conhecimentos avançados em agricultura, arquitetura e ciências sociais para prosperar em harmonia com a natureza. Seus pilares são o cuidado com a terra, o respeito às pessoas, o compartilhamento de excedentes e a eliminação de desperdícios. O clima é de paz e amor, no melhor estilo hippie, com crianças brincando livremente e aprendendo ao ar livre. Mas o que não falta é trabalho duro. A comunidade é hoje tocada por duas famílias e mantém um projeto, agroflorestal de produção de alimentos orgânicos. Eles também articulam redes colaborativas de agricultores da região e dão cursos de formação em permacultura para crianças e adultos. Nos fins de semana, o sítio, situado em uma área de proteção na Serra do Mar, recebe grupos de até 40 pessoas. “Antes, em comunidades como a nossa, havia o sentimento de ruptura com o sistema. Agora a gente quer dialogar com o mercado, criar novas formas de relações humanas e de economia”, afirma o engenheiro florestal e permacultor Rafael Bueno, de 37 anos, idealizador da comunidade, junto com sua mulher, a professora de ioga Renata Fontes.

Com dez anos de vida, a Comunidade Olho D’Água é um exemplo bem encaminhado de um movimento de comunidades alternativas e eco vilas que avança no Brasil. Um número crescente de jovens brasileiros está fazendo a transição das áreas urbanas para o campo, em busca de uma existência mais simples, com menos impacto ambiental e de elevação espiritual. Ganha força a utopia de uma vida equilibrada, sustentável e menos estressante.

Comunidades alternativas existem desde o século passado com finalidades espirituais, sexuais e produtivas. A novidade é que elas estão se integrando em rede e apresentando formas realmente viáveis de se envolver com a sociedade, sem pensar no lucro como um fim em si mesmo e erguendo uma microeconomia regional não predatória.

Segundo estimativas do Instituto Irradiando Luz, existem hoje no país cerca de 300 comunidades intencionais, nascidas a partir de um plano de ocupação controlada. Elas proliferam em locais como a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e o Sul da Bahia. Em São Paulo há dezenas de agrupamentos desse tipo, muitos em estágio embrionário. Em Mogi das Cruzes contam-se ao menos dez em atividade.

O economista Tomáz Ahau, 50 anos, é fundador e coordenador de projetos da Casa dos Hólons, uma rede colaborativa de produção de alimentos orgânicos que segue os princípios da permacultura e funciona no bairro de Parelheiros, na zona Sul de São Paulo. A força produtiva da rede está concentrada em duas propriedades na região: O Sítio Treze Luas, onde três famílias compõem uma comunidade intencional; e a Chácara Semente Solar, que emprega duas famílias. “Na verdade, tratam-se de duas eco vilas, no que se refere ao planejamento, ao design e à ocupação do solo, feita de maneira sustentável, diz Ahau. “Estamos em busca de novas formas de viver e de se conectar com a sociedade.” Um projeto lançado há três meses pela Casa dos Hólons foi a realização de uma feira de orgânicos.

 A EXPERIÊNCIA DE PIRACANGA

Uma das mais conhecidas e prósperas comunidades alternativas brasileira, é a de Inkiri Piracanga, pequeno reino de auxílio espiritual e busca de autossuficiência criado há sete anos pela terapeuta holística portuguesa Angelina Ataíde na Península de Maraú, no Sul da Bahia. Debaixo da sombra dos coqueiros que abundam por ali, 29 pessoas tratam de levar sua vida meditando, praticando reiki e ajudando seus semelhantes com soluções inteligentes de desenvolvimento social e contato com a natureza.  A comunidade cresceu tanto que hoje conta com um banco e dinheiro próprios. Há duas semanas. o banco Inkiri fechou sua primeira operação de microcrédito de R$2,56 mil. O beneficiado pelo empréstimo foi um dos agricultores do bairro de Massaranduba, onde são produzidos os alimentos orgânicos que abastecem o lugar. A iniciativa mostra como a comunidade vem se integrando com a economia e a sociedade, e evolui de maneira inovadora, como um dos principais centros de retiro místico do País. O inkiri, que funciona em paridade com o real já conta com 800 mil notas em circulação e aumenta em oito vezes a quantidade de trocas na economia local, que envolvem alimentos e produtos de higiene pessoal biodegradáveis fabricados internamente. Piracanga recebeu cerca de mil visitantes para retiros, em 2017, e movimentou 2.8milhões de reais. “Nosso objetivo não é crescer em faturamento, mas investir em nossa organização e criar projetos interessantes”. diz Vanessa Ruiz, jornalista e membro da comunidade Inkiri Piracanga. “O que temos aqui é uma tentativa de retorno à simplicidade de viver com mais amor”.

A INFLUÊNCIA DE OSHO

Um dos componentes mais importantes das comunidades alternativas é o espiritual. Em todas elas há algum tipo de influência mística que une as pessoas que buscam a expansão da consciência. O Santo Daime, por exemplo, costuma ser uma prática aglutinadora de alguns grupos. A meditação transcendental é outra. Em Piracanga, segue-se a técnica do reiki, em que se manipula a energia vital universal pelas mãos, e também se exercita a leitura de aura. Em algumas comunidades ainda se pratica a meditação dinâmica do indiano Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho. Osho pregava uma forma de meditação vigorosa e entusiasmada, que servia de caminho para a libertação espiritual. Notabilizou-se por liderar uma comunidade alternativa no estado de Oregon, nos Estados Unidos, cuja história está contada na série “Wild Wild Country”, da Netflix. A comunidade fracassou, entre outros motivos, por conta da dificuldade de Integração com a sociedade local. Mesmo assim, as técnicas de Osho resistem e ganham adeptos. No Brasil há pelo menos 30 centros de meditação baseados nas ideias do guru. Eles oferecem programas terapêuticos e alguns funcionam como pequenas comunidades – em busca da utopia.

 

GESTÃO E CARREIRA

EM PRIMEIRA PESSOA

Danielle Torres, primeira executiva assumidamente trans. do país, fala sobre os desafios que enfrentou no processo de transição de gênero.

Em primeira pessoa

Danielle Torres assistiu à própria vida como espectadora durante 17 anos. É assim que a hoje sócia diretora da consultoria KPMG define o período em que lutou para se encaixar no gênero masculino, seu sexo biológico que designou, no momento de seu nascimento, que deveria gostar de carrinhos, cor azul e outros comportamentos aceitos pela sociedade. Danielle, entretanto, nunca se adequou aos padrões esperados de um menino. Colava adesivos nos cadernos, colecionava canetas coloridas, gostava de poesia e culinária. Durante muito tempo sofreu bullying na escola, sem compreender o motivo. “Eu não entendia por que a forma como eu caminhava era errada, por que agradecer no feminino em proibido. Era tudo uma grande interrogação”, diz Danielle, que prefere não se associar mais ao nome de batismo.

Na adolescência, as dúvidas se multiplicaram. Como sentia atração por mulheres, ela não conseguia compreender por que era alvo de piadas, ao mesmo tempo que não se sentia pertencer ao universo gay.

De uma família de classe média de São Paulo, Danielle não tinha referências de qualquer pessoa transexual em seu círculo de amigos. Com vergonha e acreditando que havia algo errado consigo, aos 13 anos, ela decidiu que iria se adequar. Cortou o cabelo curtinho, abandonou os velhos gostos e resolveu que dali para a frente preencheria os requisitos sociais esperados de um homem. Terminou os estudos, formou-se em administração e começou a trilhar sua trajetória profissional. “Escolhi um curso generalista e acho que isso reflete quão insegura eu era sobre mim e sobre o que eu queria ser.”

Depois de esconder as características femininas, o convívio social foi ficando mais fácil e as piadas foram diminuindo, embora continuassem presentes. Na própria KPMG, consultoria que opera em mais de 150 países, onde ingressou como trainee aos 21 anos, em 2005. Danielle foi alvo de brincadeiras – que davam a entender que ela deveria agir de forma mais masculina. Na época, ela usava uma barba comprida e tentava falar de futebol e cerveja, os clássicos comportamentos de macho, mas ainda assim carregava uma androginia difícil de disfarçar. “Mesmo que as pessoas me olhassem diferente, o fato de eu me relacionar com mulheres de certa forma validava meu comportamento. Até eu, de tão habilidosa que havia me tornado em fingir, passei a acreditar que não era nada demais”, diz Danielle, hoje com 34 anos.

Todos esses anos de repressão interna, no entanto, cobraram um preço alto. Em 2011, quando ganhou uma promoção e foi expatriada paro os Estados Unidos, Danielle teve um primeiro ataque de pânico e foi parar no hospital. Medo intenso, tremores e a certeza que queria morrer. O episódio seria o primeiro de uma série que a acompanharia por mais três anos. “Eu achava com absoluta certeza que era algo físico. Fui a diversos médicos, fiz muitos exames, mas todos diziam que estava tudo bem”, afirma.  “Acreditei que podia se tratar de estresse, por estar em outro país, assumindo uma nova posição”.

 AJUDA PROFISSIONAL

Com crises cada vez mais sérias, Danielle procurou ajuda de um profissional. E foi na terapia que ela percebeu que suas crises nada tinham a ver com a carreira.  “Eu não sabia quem eu era”, diz. Com o processo de autoconhecimento, começou a aflorar quase que inconscientemente a verdadeira identidade de gênero de Danielle. Ela se permitiu pintar as unhas, usar maquiagem e roupas da seção feminina. Num primeiro momento, apenas nos fins de semana. “Ainda não queria assumir para mim mesma, então eu dizia que eu era um homem metrossexual, moderno, e essas coisas. Ia experimentando porque estava segura dentro da identidade masculina.”

As mudanças ganharam força com o tempo. O cabelo cresceu, o “obrigado” voltou a ser ”obrigada”, e a Danielle mulher deixou de se restringir a dois dias da semana. Pesquisando sobre questões de gênero, a executiva percebeu que aquele, enfim, era seu universo. Porém, com uma infinidade de possibilidades, ela precisou se encontrar, inclusive, no mundo transgênero.  “Tudo fazia sentido: não binário, bi gênero, andrógino. Quem eu seria?”

Durante seis meses ela passou por esse processo sem comunicar à empresa. Contudo, depois de participar de um evento n a KPMG, sobre diversidade, sentiu-se encorajada a conversar com a liderança. Enviou um e-mail para Ramon Jubels, líder do Voices, grupo LGBT da consultoria e que havia ministrado a palestra, agradecendo o posicionamento da companhia. Em troca, recebeu um obrigado e um reforço no interesse em continuar a conversa. Embora com receio de jogar fora toda a sua carreira, Danielle decidiu marcar um almoço com o colega. “Fui conversar consciente de que aqueles poderiam ser meus últimos minutos dentro da vida corporativa, que eu talvez tivesse de perder meu status e tudo o que havia construído.”

Para sua surpresa, porém, a reação foi totalmente oposta. Não somente Ramon como também toda a KPMG a acolheram e apoiaram seu processo de afirmação de gênero. Com a ajuda do consultor de diversidade Ricardo Sales e de uma equipe designada para garantir a nova identidade, Danielle conseguiu, no começo de 2017, modificar nomes de e-mails e sistemas internos e se assumiu definitivamente mulher. Três meses depois, a companhia realizou um evento interno para comunicar a transformação para o resto da equipe. “Queríamos mostrar qual seria nosso valor e abrir um canal de conversa com os funcionários, já que seria um aprendizado para todos”, diz Ramon. Mesmo depois de assumir o nome, Danielle, ela ainda continuou por mais seis meses com características andróginas, mantendo inclusive a barba comprida. “Eu precisava me despedir de quem eu era”, afirma. Em nenhum momento a KPMG interferiu ou solicitou que a executiva apressasse seu processo. No período, inclusive, a profissional teve seu trabalho reconhecido e recebeu uma proposta para assumir um projeto global sobre a norma IRFS 17, que rege contratos de seguros e da qual é especialista, em Londres, onde passou a viajar com frequência.

Com lágrimas nos olhos, Danielle conta a gratidão que sentiu quando percebeu que seria (de fato) acolhida e valorizada. “Só agora minha ficha vem caindo de que não precisei deixar nada para trás, que toda minha dedicação e esforço foram considerados”, afirma. “Hoje, minha rotina continua igual, mas minha produtividade está no céu porque sou eu de verdade. Quando visito um cliente, em nenhum momento penso que sou uma executiva trans. Penso que sou uma executiva. E uma das pessoas mais qualificadas para fazer esse trabalho”. Com um sorriso largo completa: “Agora assisto à minha vida em primeira pessoa”.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 33-49 – PARTE II

Alimento diário

A Crucificação

III – Temos aqui o olhar de censura e reprovação do céu, sob o qual estava o nosso Senhor Jesus em meio a todos esses insultos e indignidades dos homens. Com relação a esse, observe:

1. Como isso foi expresso por um extraordinário eclipse do sol, que se estendeu por três horas (v. 45). Houve trevas sobre toda a terra; assim entende a maioria dos intérpretes, embora haja uma tradução que o limite àquela terra. Alguns povos da Antiguidade recorrem aos anais nacionais relativos a esse eclipse extraordinário na hora da morte de Cristo, como algo bem conhecido e que serviu de aviso àquelas partes do mundo sobre algo extraordinário que estava ocorrendo; como aconteceu com o sol ao retroceder na época de Ezequias. Dizem que Dionísio, em Heliópolis, no Egito, observou essa escuridão e disse – Ou o Deus da natureza está sofrendo, ou a máquina do mundo está se despedaçando. Uma luz extraordinária deu a conhecer o nascimento de Cristo (cap. 2.2), e por isso era adequado que uma escuridão extraordinária avisasse sobre a sua morte, pois Ele é a Luz do mundo. As afrontas cometidas contra o nosso Senhor Jesus deixaram os céus atônitos e terrivelmente abalados, e alguns pensam que houve ali alguma confusão; o sol nunca tinha visto tamanha maldade como essa, e se retirou para não vê-la. Essa escuridão surpreendente e assombrosa foi planejada para fechar a boca daqueles blasfemos que estavam insultando a Cristo enquanto Ele estava pendurado na cruz; e devia parecer que, naquele momento, lançou sobre eles tamanho medo que, embora seus corações não fossem mudados, ainda assim eles se calaram e ficaram em dúvida sobre o que aquilo poderia significar, até que três horas depois as trevas se dissiparam e então (como entendemos pelo v. 47), como o Faraó quando a praga se extinguiu, novamente endureceram os seus corações. Mas o que era realmente pretendido nessa escuridão:

(1) O presente conflito de Cristo com as potestades das trevas. Então, o príncipe deste mundo e suas forças, os senhores das trevas deste mundo, seriam expulsos, destruídos e derrotados; e para tornar a vitória de Cristo ainda mais gloriosa, Ele os combate no próprio território deles. O Senhor lhes dá todas as vantagens que poderiam ter contra Ele através dessa escuridão, permite que tomem o vento e o sol, e mesmo assim os confunde e se torna mais que vencedor.

(2) Sua presente necessidade de consolos celestiais. Essa escuridão representava aquela nuvem escura sob a qual estava agora a alma humana de nosso Senhor Jesus. Deus faz o seu sol brilhar sobre o justo e o injusto; mas até mesmo a luz do sol foi negada ao nosso Salvador quando Ele se fez pecado por nós. É agradável para os olhos contemplar o sol; mas, como agora a sua alma estava extremamente triste, e o cálice do divino desagrado fora enchido para Ele sem qualquer mistura, até a luz do sol fora afastada. Quando a terra lhe negou um gole de água fresca, o céu lhe negou um raio de luz; tendo que nos libertar das trevas absolutas, Ele próprio, na profundidade de seus sofrimentos, caminha nas trevas e não tem luz (Isaias 50.10). Durante as três horas pelas quais essa escuridão se estendeu, não se diz que Ele tenha pronunciado qualquer palavra; mas passado esse período, em um silencioso isolamento em sua própria alma, que estava agora em agonia, Jesus lutou com as potestades das trevas e absorveu as sensações da desaprovação de seu Pai, não contra Ele próprio, mas contra o pecado do homem, pelo qual Ele fazia, agora, de sua alma, uma oferta. Nunca houve um período de três horas assim, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. Nunca houve um cenário tão sombrio e terrível; a crise da importante questão da redenção e da salvação do homem.

2. Como ele se queixou disso (v. 46). Por volta da hora nona, quando começou a clarear, após um longo e silencioso conflito, Jesus gritou: “Eli, Eli, lemá sabactâni”? As palavras estão relatadas na língua aramaica, na qual foram pronunciadas, porque são dignas de atenção redobrada e visam o significado perverso que os seus inimigos colocaram sobre elas, ao substituírem Eli por Elias. Nesse momento, observe aqui:

(1)  De onde o Senhor Jesus tomou as suas palavras de dor: do Salmo 22.1. Não é provável (como pensaram alguns) que Ele tenha repetido o salmo inteiro; mesmo assim, o Senhor Jesus aqui insinuou que o Salmo inteiro se aplicava a Ele, e que Davi, em espírito, falava ali da sua humilhação e exaltação. Parece que o Senhor também buscou, nos Salmos, a frase: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”, embora Ele pudesse ter se expressado em suas próprias palavras. Assim, Ele nos ensina como a Palavra de Deus é útil para nos direcionar em oração, e para nos recomendar o uso de expressões das Escrituras em nossas orações, o que nos ajudará em nossas fraquezas.

(2)  Como o Senhor exprimiu isso em voz alta; o que evidencia a sua dor e angústia extremas, a força da natureza remanescente nele e a grande dedicação de seu espírito nessa prova. Agora as Escrituras estavam cumpridas (Joel 3.15,16). “O sol e a lua se escurecerão. E o Senhor bramará de Sião, e dará a sua voz de Jerusalém”. Davi frequentemente fala de clamar em voz alta em oração (Salmos 55.17).

(3) Qual foi a queixa. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Uma estranha queixa, vinda dos lábios de nosso Senhor Jesus, que, temos certeza, era o Eleito de Deus, em quem a sua alma se comprazia (Isaias 42.1), e aquele de quem Ele sempre se agradava. O Pai, como sempre, o amava. E, além disso, Jesus sabia que havia uma razão pela qual o Pai o amava, porque Ele sacrificou a sua vida pelas ovelhas. E o que dizer desse momento em que Jesus se sentia abandonado por Deus Pai em meio aos seus sofrimentos! Certamente, a tristeza nunca foi como essa, que arrancou uma queixa desse tipo daquele que, sendo perfeitamente livre do pecado, nunca poderia ser um terror para si mesmo; mas o coração conhece a sua própria amargura. Não é de admirar que uma queixa como essa fizesse a terra tremer e as pedras se fenderem; pois ela bastaria para fazer com que as duas orelhas de todos aqueles que a ouvissem estremecessem, e deve-se falar dela com grande reverência. Considere:

[1] Que o nosso Senhor Jesus foi, em seus sofrimentos, por algum tempo, abandonado por Deus Pai. Ele mesmo disse isso, e temos a certeza de que falava de sua própria condição. Não que a união entre as naturezas divina e humana estivesse enfraquecida ou abalada, o mínimo que fosse. Não, mas Ele estava, agora, pelo Espírito eterno, oferecendo a si mesmo: não como se houvesse qualquer redução do amor de seu Pai por Ele, ou do seu amor por seu Pai. Temos a certeza de que não havia em sua mente qualquer repugnância a Deus Pai ou qualquer falta de esperança de seu auxílio, nem qualquer tormento do inferno. Mas seu Pai o abandonou; ou seja, em primeiro lugar, Ele o entregou nas mãos de seus inimigos e não veio livrá-lo das mãos deles. O Pai permitiu que as forças das trevas lutassem contra o Senhor Jesus, e que fizessem o pior que podiam, algo pior do que aquilo que fizeram contra Jó. Aqui foi cumprida essa Escritura (Jó 16.11): “Deus me entregou nas mãos dos perversos”. Nenhum anjo é enviado do céu para libertá-lo, e nenhum amigo se levanta por Ele. Em segundo lugar, Deus Pai retirou de Jesus o sentimento confortador da alegria que sentia em relação a Ele. Quando a sua alma ficou perturbada pela primeira vez, Ele teve uma voz do céu para consolá-lo (João 12.27,28); quando estava em agonia no jardim, ali apareceu um anjo do céu fortalecendo-o; mas agora o Senhor Jesus não tinha nem um nem outro. Deus Pai escondeu a sua face dele, e por um momento retirou a sua vara e o seu cajado em meio ao vale da sombra da morte. Deus o abandonou, não como abandonou a Saul, deixando-o em um desespero interminável, mas da mesma maneira como às vezes abandonou a Davi, entregando-o a um desânimo ocasional. Em terceiro lugar, Deus Pai permitiu que a alma do Senhor Jesus sentisse a aflição de sua ira contra o homem por causa do pecado. Cristo foi feito pecado por nós, uma Maldição por nós; e, por essa razão, embora Deus o amasse como Filho, Ele o olhou com um semblante sério, como um Fiador. O Senhor Jesus aceitou esses sentimentos de bom grado, e abriu mão de resistir a eles – algo que Ele poderia ter feito. Mas Ele suportou essa parte de sua tarefa, assim como havia feito com todas as outras, mesmo tendo o poder de evitá-la.

[2] Que o abandono de Cristo por seu Pai era o mais doloroso de seus sofrimentos, do qual Ele mais se queixou. Aqui Ele colocou as mais lúgubres entonações de voz. Ele não disse: “Por que estou sendo torturado? E por que sou tratado com desprezo? E por que fui pregado na cruz?” Nem disse a seus discípulos, quando viraram suas costas para Ele: “Por que me abandonastes?” Mas, quando o seu Pai se distanciou, Ele clamou dessa maneira; pois isto acrescentava amargura à sua aflição e à sua angústia. Isto levou as águas até à alma (Salmos 69.1-3).

[3] Que o nosso Senhor Jesus, mesmo quando abandonado dessa maneira pelo seu Pai, o manteve como o seu Deus, apesar disso: “Deus meu, Deus meu; mesmo me desamparando, tu ainda és o meu Pai”. Cristo era o Servo de Deus que estava levando adiante a obra da redenção. Ele deveria satisfazer a justiça do Pai, e através dessa obra Ele seria glorificado e coroado. Por essa razão, Ele chama a Deus Pai de seu Deus; pois estava agora fazendo a vontade dele. Veja Isaias 49.5-9. Isso o sustentava e o mantinha, de forma que, mesmo na profundidade de seus sofrimentos, Deus era o seu Deus, e assim Ele decide se apegar a essa poderosa verdade.

(4) Veja como os seus inimigos impiedosamente caçoaram e ridicularizaram essa queixa (v. 47). Eles disseram: “Este homem chama por Elias”. Alguns acham que isso foi um engano decorrente do desconhecimento dos soldados romanos, que tinham ouvido falar de Elias e da expectativa dos judeus pela vinda dele, mas desconheciam o significado da expressão “Eli, Eli,” e por isso fizeram esse comentário impensado a respeito dessas palavras de Cristo, talvez não ouvindo a última parte do que Ele dissera devido ao barulho que o povo estava fazendo. Note que muitas das reprovações lançadas sobre a Palavra de Deus e o povo de Deus se originam de enga­ nos grosseiros. As verdades divinas são muitas vezes corrompidas pela ignorância das pessoas em relação à linguagem e ao estilo das Escrituras. Aqueles que ou­ vem pela metade distorcem aquilo que ouvem. Mas outros pensam que esse era um engano deliberado de alguns dos judeus, que sabiam muito bem o que Ele dissera, mas estavam dispostos a maltratá-lo e divertirem tanto a si mesmos como aos seus companheiros, e apresentá-lo de forma inapropriada como alguém que, sendo abandonado por Deus, é levado a confiar em seres humanos. Talvez estivessem insinuando, desse modo, que aquele que tinha fingido ser o Messias estaria agora satisfeito por estar subordinado a Elias, que se considerava apenas como um anunciador e precursor do Messias. Note que não é novidade que as devoções mais pias dos melhores homens sejam ridicularizadas e distorcidas por escarnecedores profanos; também não devemos considerar estranho que, por várias vezes, aquilo que é bem colocado na oração e na pregação seja mal interpretado e utilizado contra nós. Essa mesma distorção aconteceu com as palavras de Cristo, embora jamais alguém tenha fala­ do como Ele.

IV – O frio consolo que os seus inimigos lhe forneceram em sua agonia, uma atitude semelhante à de todos os demais.

1. Alguns lhe deram vinagre para beber (v. 48); em vez de água refrescante, para restaurá-lo e renová-lo sob esse pesa do ônus, eles o atormentavam com o que não somente aumentava a acusação com que eles o oprimiam, mas representava, também de maneira perceptível, aquele cálice de estremecimento que o seu Pai havia colocado em suas mãos. Um deles correu para buscá-lo, parecendo obsequioso para com Ele, mas, na verdade, estava feliz por ter uma oportunidade de maltratá-lo e afrontá-lo, sentindo-se temeroso de que talvez alguém quisesse arrancá-lo de suas mãos.

2. Outros, com o mesmo propósito de maltratá-lo e abusar dele, comentaram que Ele recorria a Elias (v. 49): “‘Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo’. Vem, deixemo-lo a sós, pois a sua situação é desesperadora. Nem o céu nem a terra podem ajudá-lo; não façamos nada, não apressemos nem retardemos a sua morte; Ele apelou a Elias, deixemos que seja socorrido por ele”.