PSICOLOGIA ANALÍTICA

PRECONCEITO NUM PISCAR DE OLHOS

A discriminação em relação à cor da pele ou a etnia pode se manifestar em frações de segundos, levando o cérebro a fazer prejulgamento tendencioso.

Preconceito num piscar de olhos

Vários estudos têm mostrado que as pessoas têm maior probabilidade de identificar incorretamente objetos inofensivos como armas quando são segurados por uma pessoa negra. Agora, uma nova pesquisa identifica um contribuinte biológico para esse e feito. No estudo, os voluntários que estavam em uma área de tiro viram fotos de “suspeitos” segurando uma arma ou um telefone. Os pesquisadores acompanharam a atividade cardíaca dos participantes e descobriram que o viés racial na percepção da ameaça aumentava quando a imagem era programada para piscar durante um batimento cardíaco. Isso sugere que os sinais do coração para o cérebro desempenham papel importante na resposta ao medo dos estereótipos raciais.

”Fomos motivados a realizar esse trabalho pelas estatísticas muito graves que mostravam que pessoas negras desarmadas têm duas vezes mais risco de serem baleadas e mortas por policiais do que brancos, diz o autor principal do estudo, o neurocientista Mano Tsakiris, professor e pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Londres. “Embora muitos estudos mostrem que esses preconceitos existem, nos faltava a compreensão do mecanismo preciso que pode estar por trás desse fenômeno”, diz Tsakiris. Cientistas já haviam descoberto que os sinais emitidos pelo coração podem melhorar seletivamente o processamento do medo e dos estímulos interpretados pelo cérebro como ameaça. Essa experiência levou os cientistas a investigar se esse processo poderia influir nos estereótipos raciais.

“Cada vez que o músculo cardíaco bate, ativa os receptores chamados barorreceptores, sensíveis   à pressão, que são estimulados quando o coração ejeta o sangue”, explica a doutora em neurociência, Sarah Garfinkel, especializada em interações corpo-cérebro subjacentes à emoção e a cognição, que participou do estudo. A cada batida do coração são enviados sinais para o cérebro, o que ativa a amígdala, uma área do cérebro que lida com o medo e o processamento do que reconhecemos como um risco. “Devido a esse mecanismo, sincronizar as imagens com um batimento cardíaco significava que os participantes viam as imagens quando a amígdala estava particularmente ativa e, portanto, essencialmente preparada para uma resposta de medo, explica a neurocientista, professora de psiquiatria, ciência da consciência na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

As descobertas sugerem que, no mundo real a fisiologia e a psicologia do medo podem se reforçar mutuamente. Quando nos sentimos ameaçados, nosso coração acelera. ”Um batimento cardíaco mais rápido e forte oferece maior potencial para exploração aos sinais de risco, resultando em um comportamento racista estereotipado, diz Garfinkel. No entanto, a identificação da presença desse contribuinte biológico para o medo racialmente tendencioso não justifica comportamentos de exclusão e ódio – e permanece a necessidade de combater esse funcionamento. Os autores enfatizam, aliás, que o mecanismo fisiológico não significa que ações motivadas pelo preconceito racial sejam inevitáveis.

A reação automática na amígdala compete com outras funções da parte pré-frontal do cérebro. Tsakiris explica. Podemos estar andando por um beco escuro, ver alguém vindo em nossa direção, que pode ser de um grupo étnico diferente, e ter essa ativação automática da resposta ao medo. Mas, ao mesmo tempo, não queremos fugir. Não queremos nos comportar de maneira racista, então assumimos os processos e, de forma inteligente, regulamos a ativação automática”. Ou seja: em última instância, o preconceito expressa nossa fragilidade, mas seu controle nos fortalece.  Estudos em andamento revelam que o estímulo cerebral é usado para aumentar essa capacidade. Mas, no dia a dia, a informação e a educação também ajudam a limitar os efeitos dos estereótipos raciais e ampliam nossa capacidade cognitiva.

“Quando entendemos o que acontece conosco, nos tornamos emocionalmente mais autônomos”, observa Tsakiris. Ele ressalta que o aparentemente simples fato de nos conscientizarmos sobre como o coração sinaliza o cérebro é importante, pois assim começamos a duvidar de nossas certezas. Pesquisas sobre os efeitos dos sinais do coração na memória mostram que treinar as pessoas para estarem atentas a seus batimentos cardíacos pode neutralizar a influência negativa. E, claro, há os contribuintes sociais para o racismo. Os autores dizem que o efeito não se limita ao medo enraizado no preconceito, mas representa uma resposta de ameaça mais ampla.  Nesse caso, estamos apenas explorando o estereótipo predominante na sociedade de que indivíduos negros são vistos como mais ameaçadores”, diz o psicólogo Ruben Azevedo, pesquisador da Universidade de Londres, que também participou do estudo.

Estereótipos, porém, podem dificultar não apenas a vida de pessoas e grupos estigmatizados. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir frequentemente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja: essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

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A PONTA DO ICEBERG

Atitudes de discriminação se manifestam principalmente em situações cotidianas; traços físicos, cor de pele, roupas, orientação religiosa e nacionalidade de outras pessoas influem na forma como as tratamos.

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de cultura estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg.

Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E, de fato, houve: aqueles que tinham nomes estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma: preconceito.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.