PSICOLOGIA ANALÍTICA

PRECONCEITO NUM PISCAR DE OLHOS

A discriminação em relação à cor da pele ou a etnia pode se manifestar em frações de segundos, levando o cérebro a fazer prejulgamento tendencioso.

Preconceito num piscar de olhos

Vários estudos têm mostrado que as pessoas têm maior probabilidade de identificar incorretamente objetos inofensivos como armas quando são segurados por uma pessoa negra. Agora, uma nova pesquisa identifica um contribuinte biológico para esse e feito. No estudo, os voluntários que estavam em uma área de tiro viram fotos de “suspeitos” segurando uma arma ou um telefone. Os pesquisadores acompanharam a atividade cardíaca dos participantes e descobriram que o viés racial na percepção da ameaça aumentava quando a imagem era programada para piscar durante um batimento cardíaco. Isso sugere que os sinais do coração para o cérebro desempenham papel importante na resposta ao medo dos estereótipos raciais.

”Fomos motivados a realizar esse trabalho pelas estatísticas muito graves que mostravam que pessoas negras desarmadas têm duas vezes mais risco de serem baleadas e mortas por policiais do que brancos, diz o autor principal do estudo, o neurocientista Mano Tsakiris, professor e pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Londres. “Embora muitos estudos mostrem que esses preconceitos existem, nos faltava a compreensão do mecanismo preciso que pode estar por trás desse fenômeno”, diz Tsakiris. Cientistas já haviam descoberto que os sinais emitidos pelo coração podem melhorar seletivamente o processamento do medo e dos estímulos interpretados pelo cérebro como ameaça. Essa experiência levou os cientistas a investigar se esse processo poderia influir nos estereótipos raciais.

“Cada vez que o músculo cardíaco bate, ativa os receptores chamados barorreceptores, sensíveis   à pressão, que são estimulados quando o coração ejeta o sangue”, explica a doutora em neurociência, Sarah Garfinkel, especializada em interações corpo-cérebro subjacentes à emoção e a cognição, que participou do estudo. A cada batida do coração são enviados sinais para o cérebro, o que ativa a amígdala, uma área do cérebro que lida com o medo e o processamento do que reconhecemos como um risco. “Devido a esse mecanismo, sincronizar as imagens com um batimento cardíaco significava que os participantes viam as imagens quando a amígdala estava particularmente ativa e, portanto, essencialmente preparada para uma resposta de medo, explica a neurocientista, professora de psiquiatria, ciência da consciência na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

As descobertas sugerem que, no mundo real a fisiologia e a psicologia do medo podem se reforçar mutuamente. Quando nos sentimos ameaçados, nosso coração acelera. ”Um batimento cardíaco mais rápido e forte oferece maior potencial para exploração aos sinais de risco, resultando em um comportamento racista estereotipado, diz Garfinkel. No entanto, a identificação da presença desse contribuinte biológico para o medo racialmente tendencioso não justifica comportamentos de exclusão e ódio – e permanece a necessidade de combater esse funcionamento. Os autores enfatizam, aliás, que o mecanismo fisiológico não significa que ações motivadas pelo preconceito racial sejam inevitáveis.

A reação automática na amígdala compete com outras funções da parte pré-frontal do cérebro. Tsakiris explica. Podemos estar andando por um beco escuro, ver alguém vindo em nossa direção, que pode ser de um grupo étnico diferente, e ter essa ativação automática da resposta ao medo. Mas, ao mesmo tempo, não queremos fugir. Não queremos nos comportar de maneira racista, então assumimos os processos e, de forma inteligente, regulamos a ativação automática”. Ou seja: em última instância, o preconceito expressa nossa fragilidade, mas seu controle nos fortalece.  Estudos em andamento revelam que o estímulo cerebral é usado para aumentar essa capacidade. Mas, no dia a dia, a informação e a educação também ajudam a limitar os efeitos dos estereótipos raciais e ampliam nossa capacidade cognitiva.

“Quando entendemos o que acontece conosco, nos tornamos emocionalmente mais autônomos”, observa Tsakiris. Ele ressalta que o aparentemente simples fato de nos conscientizarmos sobre como o coração sinaliza o cérebro é importante, pois assim começamos a duvidar de nossas certezas. Pesquisas sobre os efeitos dos sinais do coração na memória mostram que treinar as pessoas para estarem atentas a seus batimentos cardíacos pode neutralizar a influência negativa. E, claro, há os contribuintes sociais para o racismo. Os autores dizem que o efeito não se limita ao medo enraizado no preconceito, mas representa uma resposta de ameaça mais ampla.  Nesse caso, estamos apenas explorando o estereótipo predominante na sociedade de que indivíduos negros são vistos como mais ameaçadores”, diz o psicólogo Ruben Azevedo, pesquisador da Universidade de Londres, que também participou do estudo.

Estereótipos, porém, podem dificultar não apenas a vida de pessoas e grupos estigmatizados. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir frequentemente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja: essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

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A PONTA DO ICEBERG

Atitudes de discriminação se manifestam principalmente em situações cotidianas; traços físicos, cor de pele, roupas, orientação religiosa e nacionalidade de outras pessoas influem na forma como as tratamos.

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de cultura estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg.

Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E, de fato, houve: aqueles que tinham nomes estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma: preconceito.

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OUTROS OLHARES

EDUCAÇÃO E SAÚDE MENTAL

A demasiada tolerância familiar na educação das crianças se faz sentir não apenas socialmente, mas de modo geral, na sua formação como pessoa.

Educação e saúde mental

“Melhor pecar pelo excesso do que pela falta (ditado popular).

As queixas dos adultos sobre comportamento infantil na escola e em casa não param de crescer. A precocidade das crianças em ultrapassar os limites comportamentais antes esperados na adolescência, assim como a evidente desorientação dos pais em encontrar respostas a essa e outras questões, vem criando uma geração em que as condutas infantis se transformaram em inúmeros casos e, devido ao excesso de tolerância familiar, em condutas socialmente inadequadas. Ao mesmo tempo, condutas patológicas e sérias muitas vezes se escondem e deixam de ser tratadas por profissionais, colocando vidas em perigo.

Falsas teorias de que as crianças não devem ser advertidas ou limitadas em seus comportamentos se misturam com o pressuposto ingênuo de que ser livre é ser feliz e se preparar para a autonomia futura é resultante do exercício contínuo de fazer tudo o que se deseja, desde o berço. E sem vivenciar consequências, sem respeitar os limites, conhecer os direitos alheios, as regras sociais, as normas da escola etc.

A tolerância familiar na educação influencia a maneira como a criança dirige desde cedo as suas obrigações e se prepara para assumir responsabilidades futuras. Interfere na sua qualidade de vida, e no quanto poderá ou não atingir suas potencialidades. Determina sua saúde física e mental e, resumidamente, seu bem-estar, sua tranquilidade, produtividade e felicidade.

A negligência do adulto ao observar o comportamento infantil inadequado pode até deixar passar prenúncios sérios de doença mental, que poderia ser tratada e evitada. Afinal, se nem tudo é patológico, nem tudo é também apenas evidência do temperamento forte, gênio difícil, extroversão, distratibilidade, “ele é igual ao avô” etc. Até porque esses pacientes podem ter sofrido muito em suas vidas com essas questões comportamentais.

Dou como exemplo três condutas que são verdadeiras “armadilhas” e fazem com que os pais percebam que há algo errado na condução dos filhos, mas não conseguem apontar e corrigir o erro de modo racional.

A primeira é a clássica, reclamação sobre a escola: “Não gosto de estudar, muitas pessoas vencem na vida sem diploma”. Isso gera nos pais a ideia de que estão sendo injustos e que suas expectativas estão absolutamente equivocadas no que diz respeito a educação formal do filho. As crianças utilizam esses dois pressupostos para nos fazer sentir que estamos e elas assim se livram de suas responsabilidades. Chegar na escola sem as tarefas, burlar notas, faltar em provas são consequências imediatas desse pensamento.

A segunda é a auto vitimização: crianças são doutoras nisso! Ao dizerem aos pais que, por exemplo, o professor não as valoriza, estão tirando de si a responsabilidade por aprenderem, fazerem suas obrigações, se empenharem para vencer dificuldades. Assim, “as lições são enormes”‘, “‘não sobra tempo para brincar ou para ajudar em casa” e a culpa, segundo a criançada, é do professor que sempre exige muito e valoriza pouco. QuaI o chefe que não será exigente com seu funcionário no futuro?

O terceiro exemplo é fácil de se encontrar em qualquer casa, à noite, ou no domingo, quando se deveriam ter as lições prontas e a mochila arrumada para o dia seguinte. “Você não gosta de mim, não me ajuda” em geral derruba qualquer pai ou mãe, que corre para praticamente fazer as lições, procurar os livros, arrumar a mala e assim evitar que o filho vá se deitar tarde…,mas essas coisas que ele deveria ter feito ao chegar da escola na sexta-feira! O pai se sente culpado e o filho aprende a lição da manipulação e do adiamento da responsabilidade.

Se isso parasse por aí, já seria muito grave em termos educacionais, mas sabe-se que as queixas mais numerosas em consultórios médicos, psiquiátricos infantis sobre saúde mental advêm de problemas relacionados à aprendizagem. Saúde mental é assunto tão sério quanto a saúde física da criança e do jovem e só se desenvolve com exemplo, responsabilidade, amorosidade e valores vivenciados em família.

A linha que separa o que se pode chamar em educação de normal e patológica é tênue, mas importante para a compreensão e conduta em vários momentos do desenvolvimento infantil. Assim, fazer uma grande birra aos 2 anos de idade é esperado, mas, aos 5, já aponta para outras questões.  Desobedecer a professora no maternal é diferente de sistematicamente desobedecer aos adultos aos 10 anos. Uma criança agitada ou extrovertida é diferente de outra com TODA/H, assim como alguém impaciente aos 4 anos deve chegar aos 12 sabendo aguardar a vez.

Observar os filhos e estar atento a suas pequenas artimanhas de pensamentos e comportamento – que podem levá-los a nos conduzir a erros e assim a deixar que eles também sofram no futuro – devem ser atitudes rotineiras.

Erros na educação são como os erros que cometemos ao fazer contas: só percebemos perto do final. E aí a solução pode se tornar muito mais complicada, difícil e os prejuízos incalculáveis.

 

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/2007. É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

GESTÃO E CARREIRA

OS NOVOS ASSISTENTES PESSOAIS

Da organização de finanças e roupas à escolha de vinhos e decoração da casa, profissionais que simplificam o dia-a-dia deixam de ser exclusividade dos ricos.

Os novos assistentes pessoais

Contratar alguém para administrar uma adega particular, gerenciar as contas da casa ou cuidar da organização do guarda-roupa ou da decoração pode parecer um luxo reservado a poucos. Durante muito tempo, o acesso a esses serviços era bastante restrito. Não mais. Hoje é possível contar com os conselhos de um sommelier, uma “personal organizer” ou de alguém que cuide da papelada de contas, imposto de renda e da burocracia sem gastar quantias astronômicas. E o melhor: ouvir o que esses profissionais têm a dizer pode trazer mais qualidade de vida.

Popular em vários países, o trabalho de um organizador pessoal ainda é pouco comum no Brasil. Para quem se dedica à profissão, ela vai além da simples arrumação ou remanejamento da decoração para melhorar o espaço útil da casa, “Esse serviço amplia o tempo do cliente ao oferecer planejamento, estruturação e conhecimento técnico”, diz Sheila Marques, que comanda a Possível Pra Você. Segundo ela, a falta de organização pode desestruturar o ambiente e causar problemas como depressão e ansiedade. Delegando a tarefa a um especialista, sobra mais tempo para se dedicar à família e a si mesmo. “A gente percebe que está perdendo o controle da situação e sente uma enorme fadiga justamente onde devíamos nos sentir bem: em casa”, diz Antônia Mendonça, publicitária que contratou o serviço de Sheila. “Eu achava que era frescura, mas vejo agora que é uma questão de vida saudável, de sobrevivência até”, afirma.

Poupar o tempo dos clientes também é a proposta da gaúcha Letícia Rigolli, organizadora de documentos e questões administrativas para pessoas e instituições. “Quem não tem tempo e organização perde até exame médico”, diz ela, cuja clientela é formada principalmente por mulheres que trabalham fora. O preço varia de acordo com a tarefa. “Os valores são construídos junto com o cliente a partir da análise do binômio complexidade/horas necessárias e, geralmente, distribuídos por blocos que variam de três a oito horas de dedicação por semana – dependendo das demandas solicitadas”, diz Letícia.  Sheila também não tem tabela fixa: “Posso realizar um serviço específico, como organizar todos os armários da casa, e cobrar um valor para isso. Ou fechar um acordo de longa duração onde faço a manutenção, vejo o que foi feito e está funcionando com aquela família, ou não. Mas não cobro caro. Essa é minha proposta: levar o serviço para lares com orçamentos menores”.

APROXIMAÇÃO

Para quem ainda acha que contratar um serviço assim é mero esnobismo, vale lembrar que ter um profissional experiente como consultor não é um custo adicional e sim um investimento em aquisição de conhecimento. É isso que move parte da clientela que contrata um personal sommelier.  “Levamos em conta a customização específica para cada cliente. “Não importa se ele quer montar uma adega com 12 garrafas de R$ 50 cada. Vamos ajudá-lo na tarefa”, afirma o sommelier Paulo Brammer. Diretor da Enocultura, ele atende desde entusiastas veteranos com muito dinheiro para gastar até clientes interessados na opinião de um especialista na hora de organizar um evento especifico. Brammer conta a história de um cliente que entrou em contato com a empresa após assistir a uma palestra do sommelier. “Em sua festa de 50 anos, criamos um conceito para cada década de vida, com um vinho diferente para harmonizar”, diz ele. A expertise oferecida por Brammer, portanto, não se limita a montar uma adega, adaptando um cômodo na casa com controle de temperatura e paredes repletas de preciosidades esperando os melhores anos para serem abertas. Ele ensina o cliente e comprar, armazenar, servir e beber o vinho certo para cada ocasião. “O brasileiro poderia confiar no sommelier e usar mais o serviço”, diz ele. “Atender cada vez mais gente é um sonho que tenho”, afirma.

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LETÍCIA RIGOLLI – Organizadora de documentos

O QUE FAZ – Cuida de questões administrativas, tanto para pessoas quanto para empresas. Quando é preciso mergulhar na burocracia brasileira, ela faz a interface com o cliente.

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PAULO BRAMMER – Sommelier

O QUE FAZ – Além do trabalho para empresas, oferece consultoria na criação, customização e manutenção de adegas, sugere rótulos para eventos privados e dá aulas e palestras sobre vinhos.

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SHEILA MARQUES – Personal organizer

O QUE FAZ – Mais do que arrumar os armários bagunçados de uma casa, ela cria planos de longa duração em que mantém a organização da casa como objetivo de poupar o tempo do cliente.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 11-25 – PARTE II

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Cristo no Tribunal de Pilatos

II – A afronta e a violência do povo, ao pressionar o governador para crucificar a Cristo. Os príncipes dos sacerdotes tinham uma grande influência sobre as pessoas; elas os chamavam de Rabi, Rabi, e faziam deles os seus ídolos, e todas as suas palavras se tornavam oráculos. Esses líderes religiosos usaram isso para incitá-las contra Jesus, e pelo poder da multidão conseguiram o que de outra maneira não alcançariam. Assim sendo, aqui estão dois exemplos das ofensas deles.

1. Sua preferência por Barrabás em detrimento dele, e a escolha de libertá-lo em vez de Jesus.

(1) Parece que se tornara um costume entre os governadores romanos, para homenagear os judeus, honrar a festa da páscoa com a libertação de um prisioneiro (v.15). Isso, eles pensavam, honrava a festa, e era conveniente para a comemoração da libertação deles. Mas essa era uma invenção deles próprios, e não uma instituição divina, embora alguns pensem que era antiga, e mantida pelos príncipes judeus antes de se tornarem uma província do império. Seja como for, era um mau costume, uma obstrução à justiça e um estímulo à iniquidade. Mas a páscoa do Evangelho é celebrada com a libertação de prisioneiros, por aquele que tem, na terra, o poder par a perdoar pecados.

(2) O prisioneiro colocado em disputa com o nosso Senhor Jesus foi Barrabás; ele é aqui chamado de prisioneiro notável (v. 16). Ê provável que ele tivesse alguma reputação e caráter por conta de seu nascimento e educação, ou que tivesse se notabilizado por algo excepcional em seus crimes; não se sabe ao certo se ele era tão famoso a ponto de atrair a preferência das pessoas e assim ser aquele por quem eles provavelmente intercederiam, ou se era tão notavelmente perverso a ponto de se tornar mais repulsivo para eles. Alguns creem nesta segunda opção, e por isso Pilatos o teria mencionado, assumindo como certo que eles teriam preferido a libertação de qualquer outro à dele. Traição, assassinato e roubo são três dos maiores crimes que são normalmente punidos pela espada da justiça; e Barrabás era culpado de todos os três (Lucas 23.19; João 18.40). Esse era um prisioneiro realmente notável, cujos crimes eram muito complexos.

(3) A proposta foi feita por Pilatos, o governador (v. 17): “Qual quereis que vos solte?” É provável que o juiz nomeasse os dois, um dos quais o povo deveria escolher. Pilatos lhes propôs a libertação de Jesus; ele estava convencido de sua inocência, e de que a acusação era maldosa; mesmo assim, não teve coragem para absolvê-lo, como deveria ter feito, usando a sua própria autoridade, mas o libertaria através da escolha das pessoas, e assim esperava satisfazer tanto a sua própria consciência como o povo. Considerando que não encontrou nenhuma culpa em Jesus, Pilatos não deveria permitir que o povo o julgasse, nem poderia colocar a sua vida em risco. Mas pequenos truques e artifícios como esse, na tentativa de acertar as coisas e ficar em paz com a consciência e com o mundo, também são práticas comuns por parte daqueles que visam agradar mais aos homens do que a Deus. “Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo?”, disse Pilatos. Ele lembrou ao povo de que esse Jesus, cuja libertação ele propunha, era considerado por alguns dentre eles como sendo o Messias, e havia dado provas abundantes de que o era: “Não rejeitem alguém em relação a quem a sua nação tem manifestado tamanha esperança”.

Pilatos se esforçou para absolver Jesus porque sabia que os príncipes dos sacerdotes o haviam entregado por inveja (v. 18); que Jesus não tinha nenhuma culpa, mas a sua bondade os havia irritado. Por essa razão, ele esperava libertá-lo pela ação do povo, imaginando que optariam pela soltura dele. Quando Saul teve inveja de Davi, este era o predileto do povo; e qualquer um que ouvisse as aclamações com as quais Cristo fora saudado em Jerusalém poucos dias atrás, pensaria dessa forma, e que Pilatos poderia, seguramente, ter entregado esse caso à plebe. Isto seria ainda mais verdadeiro especial­ mente quando um patife tão notório quanto Barrabás fora colocado como seu rival em uma disputa pela preferência deles. Mas aconteceu o contrário.

(4) Enquanto Pilatos estava tratando do assunto desse modo, ele teve a sua relutância em condenar Jesus confirmada por uma mensagem enviada por sua esposa (v. 19), por medida de precaução: “Não entres na questão desse justo” (e também expressou a razão desta advertência), “por que em um sonho muito sofri por causa dele”. É provável que essa mensagem tenha sido entregue a Pilatos em público, e ouvida por todos aqueles que estavam presentes, pois tinha a intenção de ser um aviso não apenas para ele, mas para todos os acusadores do Senhor Jesus. Observe:

[1] A providência especial de Deus, ao conceder esse sonho à esposa de Pilatos. Não é provável que ela tenha ouvido anteriormente qualquer coisa a respeito de Cristo, pelo menos não até o momento de seu sonho, mas aquela importante mensagem veio diretamente de Deus: talvez ela fosse uma das mulheres honradas e de votas e tivesse algum senso de religiosidade; apesar de Deus se revelar em sonhos para alguns que não possuíam nenhuma comunhão com Ele, como ocorreu com Nabucodonosor. Ela sofreu muitas aflições nesse sonho. Não se sabe se ela sonhou com as crueldades que poderiam ser cometidas contra uma pessoa inocente, ou com os juízos que recairiam sobre aqueles que tivessem qualquer responsabilidade sobre a morte do Senhor, ou até mesmo com ambos. Parece que fora um sonho assustador, e os seus pensamentos a inquietavam, como em Daniel 2.1: 4.5. Observe que o Pai dos espíritos tem muitas maneiras de acionar o espírito dos homens, e pode selar a instrução deles em sonhos ou em visões de noite (Jó 33.15,16). Já para aqueles que têm a Palavra escrita, Deus fala mais comumente através da consciência, quando se está acordado, do que em sonhos, quando o sono profundo cai sobre os homens.

[2] A ternura e o cuidado da esposa de Pilatos, ao enviar essa advertência ao seu marido: “Não entres na questão desse justo”. Em primeiro lugar; esse era um respeitável testemunho para o nosso Senhor Jesus, atestando que Ele era um homem justo, mesmo quando era perseguido como o pior dos malfeitores. Quando os seus amigos estavam atemorizados para aparecer em sua defesa, Deus fez até mesmo que aqueles que eram estranhos e inimigos falassem a favor dele. Quando Pedro o negou, Judas o confessou; quando os príncipes dos sacerdotes o declararam culpado de morte, Pilatos declarou não ter achado nenhuma culpa nele; quando as mulheres que o amavam ficaram à distância, a esposa de Pilatos, que pouco sabia a respeito dele, demonstrou preocupação por Ele. Note que Deus não deixaria a si mesmo sem testemunhas da verdade e da retidão da sua causa, mesmo quando ela parece estar maliciosamente enfraquecida por seus inimigos, e até mesmo vergonhosamente abandonada, principalmente por seus amigos. Em segundo lugar, essa era uma justa advertência para Pilatos. “Não tenha nada a ver com essa questão que está sendo trazida contra Ele”. Note que Deus tem muitos meios de alertar os pecadores em suas perseguições pecaminosas, e é uma grande graça receber esses alertas da Providência, através de amigos fiéis e de nossas consciências; é também nosso grande dever escutá-los atentamente. Se prestarmos atenção, poderemos ouvir uma preciosa voz quando estivermos caindo em tentação: “Não, não faça isto! Esta é uma atitude abominável, que o Senhor odeia”. A esposa de Pilatos lhe enviou esse aviso por conta do amor que tinha por ele; ela não temeu uma repreensão dele por intrometer-se naquilo que não lhe dizia respeito; mas o deixaria decidir; ela apenas o alertaria. Observe que este é um exemplo do verdadeiro amor para com os nossos amigos e parentes: fazermos o possível para preservá-los do pecado; e quanto mais íntimos alguns forem de nós, maior afeição teremos por eles, e mais cuidadosos devemos ser para que não permitamos o pecado que se encontra ou que se apoia neles (Levíticos 19.17). A melhor amizade é aquela que visa o bem da alma. Não nos é dito como Pilatos lidou com isso, e alguns pensam que é provável que ele tenha reagido com algum tipo de zombaria; mas, pela conduta dele contra o Justo, parece que não o levou em conta. Desse modo, as advertências sinceras podem não ser levadas a sério quando são feitas como advertências contra o pecado, mas não serão tão facilmente negligenciadas quando forem consideradas como agravos do pecado.

(5) Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos estavam ocupados durante todo esse tempo em influenciar o povo a favor de Barrabás (v. 20). Eles persuadiram a multidão tanto por si mesmos como através de seus emissários, a quem eles enviaram em grande número para se misturar entre o povo, para que eles pedissem Barrabás e destruíssem Jesus; eles insinuavam que esse Jesus era um impostor, associado a Satanás, um inimigo da sinagoga e do Templo; que, se Ele fosse deixado em paz, os romanos viriam e tomariam as suas casas e a sua nação; que Barrabás, muito embora fosse um homem mau, e que não despertava o mesmo interesse que Jesus, não podia causar tanto dano. Assim, eles manipularam a turba, que, de outro modo, era bem afeiçoada a Jesus, e, se não estivessem tanto sob o controle de seus sacerdotes, jamais teriam feito uma coisa tão absurda como preferir Barrabás a Jesus. Aqui:

[1] Podemos apenas olhar esses perversos sacerdotes com indignação; pela lei, em assuntos de controvérsia entre sangue e sangue, o povo devia ser orientado pelos sacerdotes, e agir segundo o que estes lhes instruíssem (Deuteronômio 17.8,9). Eles abusaram indignamente desse grande poder que foi colocado em suas mãos, e os líderes religiosos fizeram com que o povo errasse.

[2] Nós só podemos olhar com piedade para as pessoas enganadas. Eu tenho pena da multidão, ao vê-la precipitar-se violentamente em direção a tão grande iniquidade, ao vê-la dominada dessa forma pelos sacerdotes, caindo na vala com os seus líderes cegos.

(6) Sendo assim excessivamente dominada pelos sacerdotes, ela finalmente fez a sua escolha (v. 21). “Qual destes dois” (disse Pilatos) “quereis vós que eu solte?” Ele esperava ter alcançado o seu objetivo: ver Jesus libertado. Mas, para sua grande surpresa, eles disseram: “Barrabás”; como se os crimes daquele homem fossem menores, e, portanto, ele fosse o que menos merecesse morrer; ou como se os seus méritos fossem numerosos, e por isso ele merecesse mais viver. O clamor por Barrabás era tão generalizado que não havia nenhuma possibilidade de se exigir uma votação entre os candidatos. Ficai surpresos, ó céus, com isso, e tu, terra, ficai terrivelmente amedrontada! Será que alguma vez os homens que fingiram raciocinar, ou crer, já foram culpados de tão imensa loucura, de uma iniquidade tão horrível! Foi disso que Pedro os acusou tão diretamente (Atos 3.14): Pedistes que se vos desse um homem homicida. As multidões que escolhem o mundo, em vez de Deus, como seu governante e destino, também escolhem, desse modo, as suas próprias desilusões.

2. Sua pressão fervorosa para que Jesus fosse crucificado (vv. 22,23). Pilatos, estando surpreso pela escolha deles por Barrabás, tinha a esperança de que esta se devesse mais a um afeto por Barrabás do que por uma inimizade em relação a Jesus; e então ele lhes diz: “Que farei, então, de Jesus? Deverei libertá-lo igualmente, para a grande honra de sua festa, ou deixarão para mim essa decisão?” “Não”, todos disseram, “seja crucificado”. Esta era a morte que eles desejam que o Senhor tivesse, porque era vista como a mais vergonhosa e infame; e eles esperavam, através disso, fazer com que os seus seguidores se sentissem envergonhados de confessá-lo, bem como o seu relacionamento com Ele. Era um absurdo que eles determinassem ao juiz que sentença deveria proferir; mas a sua iniquidade e a sua ira fizeram com que se esquecessem de todas as regras da ordem e da decência, e transformassem a corte de justiça em uma assembleia barulhenta, turbulenta e sediciosa. Então, a verdade fora jogada na sarjeta, e a justiça não podia entrar em cena; onde se esperava por julgamento, via-se opressão, o pior tipo de opressão; por retidão, via-se um grito, o pior grito que jamais existiu: Crucifica-o, crucifica o Senhor da glória. Embora aqueles que assim gritavam, talvez, não fossem as mesmas pessoas que dias atrás gritavam “Hosana”, ainda assim veja que mudança se operou no pensamento das pessoas em um curto espaço de tempo: quando o Senhor Jesus entrou triunfante em Jerusalém, tão generalizadas eram as aclamações de louvor, que se poderia pensar que Ele não possuía inimigos; mas agora, quando Ele era conduzido em humilhação ao tribunal de Pilatos, os clamores de inimizade eram tão generalizados, que se poderia concluir que Ele não tinha amigos. Tais revoluções existem neste mundo mutável, através do qual o nosso caminho para o céu se estende como o do nosso Mestre, por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, sempre mudando (2 Coríntios 6.8); para que não possamos ser erguidos pela honra, como se, quando formos louvados e acariciados, tivéssemos ganho o nosso lugar entre as estrelas e devêssemos morrer nele; nem tampouco nos abater ou nos desencorajar pela desonra, como se andássemos no fundo do inferno, do qual não existe redenção. Então, quanto a essa exigência, também nos é dito:

(1) Como Pilatos se opôs a ela. Porque, que mal Jesus tinha feito? Esta é uma pergunta apropriada para se fazer antes de censurarmos alguém em um discurso público; e muito mais para um juiz perguntar antes de pronunciar uma sentença de morte. Note que é uma grande honra para o Senhor Jesus o fato de que, embora Ele se dispusesse a sofrer como um malfeitor, nem o seu juiz nem os seus acusadores pudessem provar que Ele tivesse feito qualquer mal. Tinha Ele feito qualquer mal contra Deus Pai? Não, Ele sempre fez aquilo que o agradava. Havia Ele feito qualquer mal contra o governo civil? Não, Ele deu a César o que era de César, e ensinou outros a fazerem o mesmo. Tinha Ele feito qualquer coisa nociva contra a paz pública? Não, Ele não contendeu nem clamou, e o seu reino não veio através de alguma desordem. Havia Ele feito qualquer mal a alguém em particular? A quem Ele enganou? Ele tomou o boi de alguém? Não, bem longe disso, Ele cuidou de fazer o bem. Isto reiterou a afirmação de sua imaculada inocência, indicando claramente que Ele morreu como a expiação pelos pecados dos outros. Pois, se não fosse por nossas transgressões, pelas quais Ele foi ferido dessa forma, por nossos pecados, pelos quais Ele foi entregue, e por ter decidido expiá-los voluntariamente, não vejo como esses extraordinários sofrimentos de uma pessoa que nunca pensou, disse, ou fez qualquer coisa errada, poderiam ser reconciliados com ajustiça e a equidade da Providência que governa o mundo, e que no mínimo permitiu que isso lhe acontecesse.

(2) Como eles insistiram nisso. Eles gritaram ainda mais: “Seja crucificado!” Eles não tentam mostrar qual­ quer mal que Ele tenha feito, mas, seja isto certo ou errado, Ele deve ser crucificado. Abandonando todas as pretensões de provar as suas pressuposições, eles decidem manter a conclusão, e a falta de evidências foi com­ pensada por um grande clamor; Pilatos, o juiz injusto, estava cansado dos insistentes pedidos por uma sentença injusta, como aquele juiz da parábola a quem se pedia que fizesse justiça (Lucas18.4,5). Aqui, o processo foi vencido puramente pela gritaria.