PSICOLOGIA ANALÍTICA

PAPO-CABEÇA

 Ao abordar sem meios-tons o suicídio e os traumas causados pelo bullying, a série13 Reasons Why comprova a força de um filão: as histórias sobre jovens com problemas psíquicos.

Papo-cabeça

No meio da noite o jovem Clay Jensen, (Dylan Minnette) surge, com a respiração ofegante, escoriações pelo corpo e o semblante transtornado. É compreensível: prisioneiro da obsessão por vingar a morte de Hannah Baker (Katherine Langford), Clay tem alucinações com o fantasma da colega, que cometeu suicídio após sofrer bullying e ser estuprada no colégio. Enfrenta outra ameaça nada ilusória: os mesmos abusadores acabaram de atentar contra sua vida. Acena da segunda temporada da série 13 Reasons Why é capaz de provocar identificação e calafrios em qualquer pessoa com filhos adolescentes. Na produção ficcional da Netflix, os pais de Clay reagem como pais zelosos do mundo real reagiriam: pedem que o filho cumpra a promessa de se abrir se estiver passando por turbulências. “Quando a casa pega fogo, você não conversa. Você sai correndo”, justifica-se Clay. Uma casa em chamas é uma metáfora perfeita da temática explorada com notável realismo das séries de TV à literatura, a dos transtornos psíquicos dos adolescentes.

As dores de ser jovem são um motor caro à ficção, e de caráter incrivelmente atemporal ao menos desde o advento do romantismo. Uma obra como Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), na qual o alemão Johann W. Goethe narra a história de um rapaz que perde a vontade de viver em virtude de uma desilusão amorosa, já tocava em peculiaridades da cabeça do adolescente hoje explicadas pela ciência, como as oscilações de humor. Como ensina a especialista Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, o adolescente tem corpo de adulto, mas um cérebro em maturação: a região do córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. “A região pré-frontal está ficando cheia de ideias, por assim dizer, e o adolescente, cheio de tédio, o que aumenta a probabilidade de comportamentos de risco e transtornos psiquiátricos”, diz Lídia.

A safra atual de histórias sobre adolescentes exibe um diferencial marcante: além de expressarem o sentimento de inadequação típico dessa fase da vida, elas se debruçam sobre transtornos bem definidos nos manuais de psiquiatria. As Vantagens de Ser Invisível – livro de Stephen Chbosky vertido num filme de 2012 –  fala da depressão juvenil. O americano John Green lança luz sobre uma condição de que ele mesmo – o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) – com a heroína hipocondríaca de seu mais recente romance, Tartarugas até Lá Embaixo. Ainda na literatura, seu conterrâneo Neal Shusterman traduz a mente de um adolescente com esquizofrenia no recém-lançado O Fundo É Apenas o Começo – escrito, aliás, com conhecimento de causa. O autor é pai de um garoto com a doença. Na TV, o inventário clínico da mente adolescente vai da síndrome de Asperger na série Atypical, da Netflix, à psicopatia na comédia de humor negro inglesa The End of the F***ing World.

13 Reasons Why ocupa um lugar hors-concours. A série é um compêndio dos problemas psíquicos da juventude. Lá no começo da primeira temporada, ficava-se sabendo que o protagonista Clay tomara um medicamento chamado duloxetina em tempos anteriores aos fatos narrados – o que sugere que sofria de depressão. Suas conversas com o fantasminha de Hannah são, antes de tudo, uma hábil ferramenta dramatúrgica, mas deixam no ar indícios de esquizofrenia. Skye (Sosie Bacon,) sua nova namorada, tem compulsão para se cortar e é diagnosticada com transtorno bipolar. Jessica (Alisha Boe) passa a ter sintomas de síndrome do pânico depois de ser vítima do mesmo garanhão estuprador que traumatizara Hannah. Nerd oprimido, o fotógrafo Tyler (Devin Druid) também vai pela trilha da depressão. Se a série causou controvérsia com sua abordagem do suicídio, a nova leva de episódios não faz por menos: redobra-se a aposta na crueza. Um estupro masculino é decupado com brutalidade; o horror dos assassinatos em massa em colégios, assoma com violência. “Algumas cenas serão difíceis de ver. Mas acreditamos que falar sobre isso é melhor que o silêncio’,’ já declarou o roteirista Brian Yorkey. De fato, a hipocrisia é a pior opção na hora de tratar os tormentos dos jovens. Entretanto, como se verificou no debate sobre a cena do suicídio de Hannah, os especialistas veem com reservas a exposição dos adolescentes a imagens tão impactantes.  “A ficção faz com que as pessoas conversem sobre estes temas difíceis na escola, em casa, com os amigos.

Porém jovens perturbados deveriam assistir a série ao lado de algum familiar, para poderem conversar à respeito”, diz a psicóloga Diana Corso, autora do livro Adolescência em Cartaz. “É preciso falar de assuntos difíceis como suicídio e bullying na adolescência, e é possível utilizar a arte para isso. Mas devem ser tomados certos cuidados: na série, o suicídio surge com glamour e simplificam-se os determinantes comportamentais”, afirma · Lídia Weber.

Escaldados com a crítica –  ligas de pais americanos querem tirar a série do ar em razão das novas cenas fortes -, os produtores sacaram uma “vacina” contra seus excessos. A segunda temporada engata uma discussão sobre o papel de cada um – pais, amigos e professores – nos problemas. A discussão torna a nova temporada mais arrastada, e não a exime do pecado da simplificação, mas    ilumina um dado perturbador: outro tipo de patologia –  o ambiente social sufocante – tem um peso imenso nos transtornos. Estes, muitas vezes não dão sinal de alerta antes do pior.

“Sempre estarei aqui para conversar” e “você é linda de qualquer jeito, filha” são frases recorrentes dos pais. Mas a mente adolescente é uma casa misteriosa.

VIAGEM ÀS PROFUNDEZAS

O americano Neal Shusterman carrega, na vida real, a experiência de conviver com um jovem portador de transtorno mental: seu filho Brendan, de 29 anos, é esquizofrênico. “Vi um filho amado viajar até as profundezas da mente, sem nada poder fazer para impedir sua descida”, escreve o autor, com evidente emoção, no posfácio de seu novo romance. Embora seja uma obra de ficção, O Fundo é Apenas o Começo ilumina com precisão quase documental – e com o olhar carinho do de um pai – a mente de um personagem que exibe a mesma condição de seu filho.

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OUTROS OLHARES

ARMADILHAS DA COMPULSÃO

Mecanismos cerebrais que regulam a fome e a sensação de saciedade são semelhantes aos que participam da dependência de droga.

Armadilhas da compulsão

Muita gente acredita que informação e força de vontade são suficientes para se livrar dos quilos a mais. Falar é fácil. Difícil é vencer as tentações, todos os dias e em toda parte. Embora estejamos cansados de saber malefícios do excesso de gordura e de açúcar e do risco da obesidade, para um número cada vez maior de pessoas é impossível resistir e controlar os apelos do estômago. Às vezes, a vontade de comer é mais forte que a melhor das intenções, as recomendações médicas e os ideais de beleza. Em nome de pequenos prazeres efêmeros, colocamos de lado os bons propósitos, a autoestima e até a saúde.

Porém, não basta atribuir à vontade do indivíduo todo o ônus de manter uma alimentação saudável. Hábitos alimentares são resultado de forças orgânicas e psíquicas que estão, em grande parte, fora do alcance de nossas decisões conscientes. Qualquer pessoa que já fez dieta sabe disso.  Hoje a obesidade é um dos grandes problemas de saúde pública mundial; o acúmulo de gordura corporal é o principal fator de risco para doenças cardiovasculares e diabetes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só na Europa morrem todos os anos cerca de 250 mil pessoas em decorrência dos maus hábitos alimentares. No Brasil, 27 milhões de pessoas estão acima do peso e quase 7 milhões são obesas.

A identificação da leptina, um peptídeo secretado pelas células adiposas que desempenha um papel­ chave na regulação do apetite e do metabolismo energético, foi um dos grandes marcos na pesquisa da obesidade. Descoberta em 1994 pelo biólogo Jeffrey M. Friedman, da Universidade Rockefeller, a leptina interage com receptores, situada no núcleo ventral medial – região do hipotálamo conhecida como centro da saciedade, sinalizando quando já comeu o suficiente. Em condições ideais, o aumento dos depósitos de gordura produz sinais que inibem a ingestão de alimentos. Nos obesos, porém há uma disfunção nessa retroalimentação mediada pela leptina.

O que acontece na obesidade é o mesmo mecanismo do diabetes tipo II, em que níveis elevados de glicose estimulam a secreção excessiva de insulina, de forma que os recepto desta ficam dessensibilizados – por essa razão este tipo de diabetes é chamado resistente à insulina. De forma similar, o excesso de gordura faz com que níveis de leptina se tornem muito altos, e os receptores no hipotálamo deixam de responder. O resultado é a sensação de insatisfação e a vontade de comer mais.

Apontar a leptina como único fator responsável pelos quilos a mais, entretanto, é um equívoco: inúmeros determinantes físicos e psíquicos contribuem para esse quadro considerado, na maior parte das vezes, não um transtorno em si, mas um sintoma.

Há muito tempo os cientistas já perceberam aspectos comuns entre o comportamento alimentar compulsivo e a dependência química. Um deles é o craving, descrito Como um desejo intenso de ingerir algo muito específico, que pode ser chocolate, pizza, cerveja ou cocaína. Outro exemplo é o evidente aumento da ingestão de alimentos, quase sempre acompanhado de ganho de peso, experimentado por qualquer pessoa que quer parar de fumar.

Escondida nas profundezas do cérebro reside uma estrutura que nos ajuda a compreender o papel da compulsão alimentar na obesidade. Também conhecido como centro do prazer, o núcleo accumbens é um conjunto de neurônios comprovadamente envolvidos nos mecanismos de dependência. Importante na regulação da emoção e da motivação, ele é um local de convergência de fibras procedentes da amígdala, do hipocampo e dos lobos temporais, e emite projeções para regiões como córtex cingulado, lobos frontais e hipotálamo.

Todas as substâncias que levam à dependência promovem a liberação de grandes quantidades do neurotransmissor dopamina nessa região, o que na prática se traduz como uma sensação de enorme prazer. A cocaína e a anfetamina, por exemplo, aumentam em até 15 vezes a concentração de dopamina no núcleo accumbens, e algo semelhante acontece com a morfina e a heroína. Mas o que isso tem a ver com a obesidade?

Uma das projeções do núcleo accumbens exerce comando direto sobre o hipotálamo, que regula, entre tantas coisas, o comportamento alimentar. Animais de laboratório modificados geneticamente para não produzir dopamina dão mostras inequívocas dessa estreita relação: perdem a motivação, deixam de comer e acabam morrendo de inanição. À medida que seu cérebro recebe doses periódicas do neurotransmissor, voltam a se alimentar normalmente.

POUCOS RECEPTORES

Em 2001, a psiquiatra Nora Volkow, hoje diretora do Instituto Nacional contra o Abuso de Drogas, em Bethesda, Estados Unidos, observou, por meio de tomografia de emissão de pósitrons (PETscan), uma correlação negativa entre o índice de massa corporal (IMC) e concentração de receptores de dopamina no núcleo accumbens. Em outras palavras, quanto mais gordo o indivíduo, menor a disponibilidade dos receptores dopaminérgicos. Os resultados sugerem que a compulsão alimentar seria uma forma de compensar a ausência de efeito do neurotransmissor. Teoricamente, a ingestão de comida deveria liberar mais dopamina, mas como aqueles receptores, por algum motivo desconhecido, estão escassos, a solução é comer mais ainda, dando origem a um círculo vicioso que também é a principal característica do abuso de drogas.

Além do núcleo accumbens, a amígdala é outra estrutura essencial para a compreensão da compulsão alimentar. Já na década de 30, o neurocientista alemão Heinrich Klüver e seu colega americano Paul Bucy lesionaram a amígdala de macacos e assim os transformaram em verdadeiras máquinas devoradoras, levavam à boca tudo o que fosse comestível, e muitas vezes, também o que não era.

Responsável pelas reações de medo, a amígdala é uma estrutura muito antiga do ponto de vista evolutivo e de importância central para o sistema límbico. Seu papel sobre o comportamento alimentar em humanos foi demonstrado em 2001 por Kevin LaBar, do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade Duke. O pesquisador apresentou objetos comestíveis e não comestíveis a nove indivíduos cuja atividade cerebral foi monitorada por meio de tomografia helicoidal.

SOANDO O ALARME

Os participantes eram saudáveis, embora famintos, por um jejum de oito horas que precedeu o experimento. Mas o conforto durou pouco. Depois da primeira bateria de testes, eles puderam se deliciar com uma farta refeição, antes de serem novamente submetidos ao tomógrafo. Assim LaBar comparou a atividade cerebral das mesmas pessoas em duas situações: com fome e, depois, devidamente saciadas. Os resultados da primeira etapa do teste mostraram que no cérebro dos esfomeados a amígdala entrara em franca atividade sempre que algo comestível surgia em seu campo de visão. Esse efeito não se manteve na segunda etapa, após a refeição, o que mostra que a amígdala funciona como um alarme no organismo.

Quase simultaneamente aos experimentos de LaBar sobre os mecanismos da fome e da saciedade o neurocientista Clinton Kilts dirigia na Universidade Emory, em Atlanta, estudos semelhantes com dependentes de cocaína. O cientista lhes mostrava fotos perturbadoras, como as típicas fileiras de pó branco, por exemplo. Observada pelo PETscan, a amígdala reagia de forma exacerbada tão logo os indivíduos punham os olhos sobre a imagem.

Outra estrutura nitidamente envolvida na de pendência química é a porção superior da órbita ocular do córtex frontal, mais conhecido como córtex orbito frontal (COF), o qual tem grande participação na regulação do humor e no comportamento baseado em recompensa. Pacientes que sofreram lesão no COF em decorrência de traumatismo ou doença degenerativa geralmente apresentam dificuldades para controlar seus impulsos, falam tudo o que lhes vem à cabeça e manifestam suas compulsões tanto no jogo como na alimentação.

A bióloga Dana Small, da Universidade Noroeste, em Chicago, foi uma das primeiras a detalhar a participação do COF nas sensações de prazer decorrentes da ingestão de alimentos. Enquanto nove pessoas se deleitavam com seus chocolates preferidos, a pesquisadora lhes observava a atividade cerebral pelo PETscan. Juntamente com várias outras partes do córtex, sobretudo as responsáveis pela assimilação sensorial, a porção medial do COF vibrava intensamente. Pouco tempo depois, Small repetiu o experimento, mas com uma modificação crucial. Desta vez, os voluntários deveriam consumir quantidades cada vez maiores de chocolate, de forma que o prazer de outrora se transformasse em sofrimento. Os resultados mostraram que o COF médio, antes em franca atividade, foi inibido: Enquanto isso, uma região vizinha, o COF lateral, entrou em ação.

O que todos esses estudos revelam é que vários mecanismos cerebrais subjacentes são comportamentos alimentares muito semelhantes, se não, os mesmos aos implicados na dependência, seja de drogas como álcool ou cocaína, seja de jogo. Obviamente, nem toda obesidade pode ser explicada pelo comportamento alimentar compulsivo, em muitos indivíduos, o componente genético é muito forte. Na maioria dos casos, porém, o controle da ingestão de alimentos promove excelentes resultados.

ENTENDER A GULA

O sucesso da indústria de fast-food não deixa dúvidas de que o comportamento alimentar é facilmente influenciável por estímulos externos. Entender o que se passa no cérebro dos gulosos certamente ajudará a desenvolver estratégias terapêuticas mais eficazes para a luta contra a epidemia global de obesidade.

De fato, alguns medicamentos usados na terapia contra o abuso de drogas têm ajudado pacientes obesos a manter a boca fechada por mais tempo. Antagonistas opioides (que neutralizam o efeito da morfina), como naloxone e naltrexone, oferecem bons resultados. Droga bloqueadoras dos receptores canabinóides também ajudam a controlar a compulsão alimentar. No entanto, não há pílula mágica, e na maioria dos casos a perda de peso é lenta. Estudo de 2005 realizado pelo endocrinologista Luc van Gaal, do Hospital Universitário da Antuérpia, Bélgica, concluiu que esses medicamentos fizeram os pacientes perder em média 7 kg por ano, ao passo que aqueles que tomaram placebo perderam quase 2 kg no mesmo período. Obviamente, emagrecer apenas com remédio é uma ingênua pretensão. Mudar os hábitos alimentares, de preferência com o acompanhamento de um nutricionista, é a combinação que proporciona melhores resultados. Mas é fácil falar…

 CARGA GENÉTICA E ESTIGMA SOCIAL

Tanto os dependentes químicos quanto os obesos são estigmatizados pela sociedade, em parte por causa da crença muito disseminada de que abusar de comida ou de substâncias psicoativas é algo completamente sujeito ao controle voluntário- o que não é verdade. Hoje, obesidade e abuso de drogas são considerados distúrbios multifatoriais com forte presença de componentes genéticos. Até 60% da predisposição à dependência química e cerca de.50% dos casos de obesidade podem ser atribuídos a causas hereditárias, apoiadas por fatores subjetivos e ambientais. Vários estudos já identificaram mutações, igualmente importantes para a obesidade e a dependência, embora se saiba que a expressão de ambas depende da participação de vários genes. Mas como não somos apenas produto de nossa carga genética, a interação com o meio é o que dá contorno ao quadro epidemiológico atual.  Além da enorme oferta de alimentos de alto conteúdo calórico a preços muito acessíveis, os pesquisadores apontam o stress como um poderoso fator ambiental associado à propensão ao comportamento compulsivo relacionado tanto a drogas quanto a comida. Crianças estressadas, por exemplo, têm maior risco de ficar obesas ou de usar drogas na adolescência ou no início da vida adulta. Além dos aspectos psíquicos, genéticos e psicossociais, também micro-organismos podem influenciar as possibilidades de uma pessoa ser gorda ou magra. Segundo pesquisas recentes, a flora intestinal dos obesos tem maior proporção de micro-organismos que ajudam na digestão dos alimentos. Estudos com camundongos sugerem que a obesidade poderia ser contagiosa. Quando certas bactérias foram transplantadas de animais gordos para outros magros, em pouco tempo os últimos aumentaram a quantidade de gordura corporal.

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QUANDO O ALIMENTO PODE SER UMA DROGA

Nem todas as drogas causam dependência com a mesma rapidez ou na mesma intensidade. Um dos fatores que fazem a diferença é a forma como a substância é administrada. Quando são injetadas ou inaladas em geral se tornam mais poderosas que quando aspiradas ou ingeridas, e isso ocorre porque as primeiras atingem o cérebro em concentrações mais altas. Ainda assim, as substâncias psicoativas têm características intrínsecas que as distinguem quanto a sua capacidade de produzir dependência. O experimento clássico, em que ratos pressionam barras para obter uma dose de alguma droga por via Intravenosa, não deixa dúvidas. Quando lhes é oferecida cocaína ou anfetamina, eles se auto administram com tal frequência que deixam de comer e morrem por falta de alimento. O mesmo não ocorre com a nicotina ou a maconha, por exemplo. A diferença está no poder adictivo de cada uma, que reflete a atividade do núcleo accumbens no momento da administração. Quanto mais dopamina é liberada nessa região, mais intenso será o prazer do indivíduo e maior a probabilidade de que ele busque a sensação repetidas vezes.

Com comida não é diferente. Alimentos ricos em gordura e carboidratos estão muito mais relacionados a comportamentos compulsivos que os com alto teor de proteína e fibras. Quem nunca devorou uma caixa de bombons num só dia ou um pacote de batatas fritas em poucos minutos? Já encontrar quem coma mais de três bifes ou todo um pé de alface numa mesma refeição é bem mais difícil.  Aí está o problema das dietas para redução de peso. Como frutas, vegetais e alimentos ricos em proteínas (e pobres em carboidratos) não têm o mesmo poder de ativar nossos mecanismos de recompensa, resistir às tentações do dia a dia para muitos, é uma tarefa dificílima e viver de alimentos que lhes proporcionem muito menos prazer é quase uma tortura.

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GESTÃO E CARREIRA

VAI UMA AJUDINHA AI?

Na gestão colaborativa, os funcionários ganham voz para participar das estratégias e das decisões da empresa. Mas o excesso de interação se mostra um grande vilão da produtividade.

Vai uma ajudinha aí

Segunda-feira pela manhã. No meio de uma reunião com toda a equipe, vem a constatação: uma importante tarefa deixou de ser realizada. Todos trocam olhares constrangidos enquanto uma pergunta fica no ar: “Quem deveria ter feito isso”? Ninguém sabe responder ao certo. Situações corno essa são mais comuns do que se imagina em empresas que adotam a gestão colaborativa – modelo no qual todos os funcionários têm uma participação mais ativa nas estratégias e nas decisões. Diferentemente das companhias tradicionais, com silos departamentais, hierarquia rígida e orientações que vêm de cima para baixo, na gestão participativa as responsabilidades e os papéis são difusos. Em muitos casos, não há chefes – apenas os responsáveis pelos projetos. “Como não há uma hierarquia definida, em muitos casos, fica apenas insinuado o que cada um deve fazer”, diz o consultor Edson Herrero, professor na escola de negócios Integração. Nesse ambiente, é preciso que as pessoas reivindiquem seu protagonismo e tomem as responsabilidades para si. “Mesmo não existindo uma figura de chefia, é preciso que alguém divida as tarefas e aloque responsabilidades. Caso contrário, o resultado será afetado.”

Entretanto, a partir daí, surge outra questão: como fazer essa distribuição de tarefas sem sobrecarregar ninguém? É uma equação difícil de resolver. Uma pesquisa com mais de 300 organizações, citada em um artigo na revista Harvard Business Review, mostra que a repartição do trabalho em grupo costuma ser desequilibrada. O estudo aponta que apenas 3% a 5% dos funcionários contribuem com até 35% das tarefas. Ou seja, mesmo que as colaborações estejam abertas a todos, na prática, apenas uma minoria tem participação efetiva. Isso acontece porque, à medida que as pessoas se tornam conhecidas internamente como capazes e dispostas a ajudar, são convidadas a tomar parte de novos projetos. Resultado: uma sobrecarga de atribuições para os “maiores colaboradores”.

 LIBERDADE OU LIBERTINAGEM

O tempo que se perde com todas as interações exigidas pelo trabalho participativo não é desprezível. A estimativa é que, em muitas companhias, os profissionais gastem até 80% de sua rotina diária em reuniões e comitês, atendendo a ligações ou respondendo a e-mails – sobrando pouquíssimo tempo para realizar as tarefas realmente necessárias. “Cuidado para não confundir colaboração com mais reuniões ou mais comitês, ou com ‘sermos todos mais amiguinhos”, diz Christian Orglmeister, sócio e diretor da consultoria de negócios Boston Consulting Group.

Apesar das propaladas vantagens da gestão cooperada – como manter a motivação dos funcionários e proporcionar um ambiente mais favorável à criatividade e à inovação -, não é fácil colocar o modelo em prática. “Nossa empresa tem uma gestão colaborativa por natureza. As parcerias fluem com facilidade, mas isso também gerou um crescimento complexo e inorgânico”, diz Gabriela Vargas, diretora de desenvolvimento organizacional da Zenvia, que desenvolve plataformas digitais de interação com consumidores. Durante os 14 anos de existência da companhia, profissionais vindos de gerências tradicionais muitas vezes sentiam-se perdidos no dia a dia. “Eles não sabiam até onde poderiam ir, já que não existiam indicadores de produtividade”, afirma Gabriela. Além disso, muitos acabavam adotando uma mentalidade acomodada do tipo “se eu não fizer minha parte, ninguém vai ver”.

Sem abandonar suas raízes, a Zenvia começou, há um ano e meio, a investir em métodos organizacionais para azeitar seu modelo de gestão. “Encontramos em algumas ferramentas da metodologia Lean – cujo principal objetivo é enxugar os processos de gestão – a solução para continuarmos atuando dentro do que acreditamos, mas responsabilizando cada empregado por seus projetos e áreas”, diz Gabriela. “Foi, e ainda está sendo, uma mudança cultural para nós.” Alguns ainda tentam se adaptar ao novo modelo. “É preciso que as pessoas entendam que todos têm responsabilidade sobre o negócio.”

Numa empresa com gestão colaborativa, é comum perceber que alguém está saindo da linha sistémica de cooperação e a equipe não funciona mais como antes. Em que ponto a cadeia se rompeu? Houve um conflito, as pessoas criaram uma indisposição? Foi só uma “derrapada” de um funcionário ou ele não está na mesma página da companhia? Nesse caso, vale investigar, investir em melhorias ou, em último caso, até trocá-lo por um empregado com perfil mais adequado. “Em um ambiente que fomenta a ajuda mútua estão presentes indivíduos de diversos perfis, etnias, orientações sexuais e ideologias. É preciso que todos sejam abertos a conviver com o diferente para se dispor a fazer algo de maneira encadeada”, diz Herrero, da Integração. Ao mesmo tempo, é preciso que os times estejam alinhados. Por exemplo: duas áreas podem operar a todo vapor e serem superprodutivas. Mas, por falta de concatenação, criam-se estoques intermediários no processo entre elas. “Isso tem um custo, é urna ineficiência”, diz Orglmeister. “Colaborar é muitas vezes abrir mão de informações, disponibilizar recursos para outros, não centralizar poder, para que se possa de fato fomentar conversas produtivas, liberar recursos e criar valor.”

 A IMPORTÂNCIA DO LÍDER

A Linx, líder brasileira no fornecimento de software de gestão para o varejo, percebeu que para o trabalho colaborativo ser mais produtivo no cotidiano é preciso adotar um processo claro de liderança, além de alinhamento de estratégias e expectativas. Com esse objetivo, a empresa promove uma vez por ano um encontro de líderes, reunindo gestores de todo o Brasil. “Compartilhamos e acertamos os objetivos das áreas com o direcionamento geral da companhia”, diz Flávio Menezes, vice-presidente de marketing e RH da Linx. “Sentimos que, dessa forma, o trabalho no dia a dia fica mais fácil e encadeado.”

A companhia tem também um programa de desenvolvimento de liderança, que prepara os funcionários para as mais diferentes tomadas de decisão, além de trazer o desafio de gerenciar um time diverso, com profissionais vindos de corporações com culturas, experiências, conhecimentos e processos distintos. Segundo Menezes, a iniciativa tem adesão espontânea e está com a capacidade máxima, com mais de 200 participantes. “A taxa de satisfação dos inscritos é de 90% e, para nós, o ganho tem sido excepcional”, afirma.

Ao mudar de sede, em meados de 2017, a Linx pensou numa área especial de concentração para seus empregados. Além dos espaços de co criação, a companhia tem estações de trabalho individualizadas à disposição dos profissionais, utilizadas para momentos em que é necessária uma dose maior de concentração.

Afinal, para a gestão colaborativa dar certo, é preciso deixar as pessoas realizarem suas tarefas. “Hoje em dia, numa empresa, não podemos perder tempo com coisas que não são do trabalho”, diz o consultor Herrero. “Como a maioria de nós atua em ambientes abertos, é muito fácil acessar o parceiro ao lado o tempo todo. Isso pode tirar totalmente o foco dos dois.”

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 11-25 – PARTE I

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Cristo no Tribunal de Pilatos

Nós temos aqui um relato do que ocorreu na audiência com Pilatos, quando o bendito Senhor Jesus foi levado para lá, logo pela manhã. Embora não fosse dia de audiência do tribunal, Pilatos imediatamente aceitou que o seu caso fosse trazido perante ele. Aqui temos:

I – O julgamento de Cristo diante de Pilatos.

1. A sua acusação formal. Jesus ficou de pé diante do governador, como o prisioneiro fica diante do juiz. Nós não poderíamos ficar de pé diante de Deus por causa de nossos pecados, nem erguer os nossos rostos em sua preciosa presença, se Cristo não tivesse se tornado pecado por nós. Ele foi levado a julgamento para que nós pudéssemos ser perdoados. Alguns acham que isso evidencia a sua coragem e ousadia. Ele se levantou destemido, sem se mover diante da ira deles. Ele, então, ficou de pé nesse julgamento, para que nós pudéssemos ficar de pé no julgamento de Deus. Ele se tornou um espetáculo, como Nabote, quando foi acusado e colocado acima do povo.

2. Sua acusação: “És tu o Rei dos judeus?” Os judeus estavam agora não apenas sob o governo, mas sob uma guarda muito minuciosa das forças romanas, contra as quais eles tinham o mais alto grau de insatisfação; todavia, dessa vez, fingiam ter uma preocupação de servir, acusando Jesus de ser um inimigo de César (Lucas 23.2), do que eles não puderam produzir nenhuma outra prova, a não ser que Ele próprio havia recentemente reconhecido ser o Cristo. Agora eles pensavam que quem quer que fosse o Cristo, deveria ser o Rei dos judeus, e deveria livrá-los do poder romano e restabelecer para eles um governo terreno, permitindo-lhes que pisassem sobre todos os seus vizinhos. De acordo com esta quimera, eles acusaram o nosso Senhor Jesus de se passar por Rei dos judeus, em oposição ao jugo romano. Ê preciso considerar que embora Ele declarasse que era o Cristo, Ele não agiu como eles pensaram que o Cristo agiria. Note que muitos se opõem à santa religião de Cristo, apoiando-se em um engano quanto à sua natureza; eles a vestem com cores falsas e então lutam contra ela. Eles asseguram ao governador que se Ele declarou que era o Cristo, Ele se declarou Rei dos judeus. Então o governador toma como certo que o objetivo do Senhor Jesus era perverter a nação e subverter o governo. “Tu és rei?” Estava claro que Ele não representava isto de facto de fato “Fazes qualquer reivindicação ao governo, ou pretendes ter o direito de governar os judeus?” Note que a religião sagrada de Cristo teve, frequentemente, o árduo destino de cair injustamente sob as suspeitas dos poderes civis, como se ela fosse prejudicial aos reis e às províncias, apesar de beneficiar imensamente a ambos.

1. Seu argumento. “‘Jesus respondeu: Tu o dizes’. É como tu disseste, embora não como quisestes dizer; Eu sou o Rei, mas não sou como tu suspeitas que eu seja”. Assim, diante de Pilatos, Jesus deu um bom testemunho, e não ficou envergonhado ao reconhecer a si mesmo como Rei, embora isso pudesse parecer ridículo. Jesus também não teve medo, embora, nessa ocasião, uma afirmação como essa fosse muito perigosa.

2. A evidência (v. 12). Ele foi acusado pelos príncipes dos sacerdotes. Pilatos não achou culpa alguma nele. A despeito daquilo que tenha sido dito, nada foi provado; portanto, eles compensaram a falta de provas com barulho e violência, e o atacaram com repetidas acusações, as mesmas que eles haviam submetido anteriormente; eles pensavam que pudessem forçar o governador a acreditar através da repetição. Eles tinham aprendido, não apenas a calunia; mas, caluniar com veemência. Os melhores homens têm sido frequentemente acusados de cometer os piores crimes.

3. O silêncio do prisioneiro quanto às acusações dos promotores. Ele não respondeu nada:

(1) Porque não havia razão; nada foi alegado, exceto aquilo que carregava em si a sua própria impugnação.

(2) Ele estava agora absorvido pelo assunto de grande importância que se colocava entre Ele mesmo e o seu Pai, a quem Ele estava se oferecendo em sacrifício para atender às exigências da sua justiça, e no qual Ele estava tão concentrado que não se importava com aquilo que diziam contra si mesmo.

(3) A sua hora havia chegado, e Ele se submeteu à vontade de seu Pai: “Não seja como Eu quero, mas como tu queres”. Ele sabia qual era a vontade de seu Pai, e então se entregou silenciosamente àquele que julga justamente. Não devemos – através do nosso silêncio – jogar fora a nossa vida, porque não somos senhores de nossa vida, como Cristo era da dele. Também não podemos saber, corno Ele sabia, quando a nossa hora chegará. Mas, por essa razão, devemos aprender a não retribuir injúria com injúria (1 Pedro 2.23).

Então:

[1] Pilatos o pressionava a dar alguma resposta (v. 13): “Não ouves quanto testificam contra ti?” Podemos identificar a que Pilatos estava se referindo a partir de Lucas 23.3,5 e João 19.7. Pilatos, não tendo nenhuma má intenção contra o Senhor Jesus, estava desejoso de que Ele pudesse provar a sua inocência, e o induz a isso acreditando que Ele podia fazê-lo: “Não ouves?” Sim, Ele ouvia; e Ele ainda ouve tudo o que é testemunhado injustamente contra as suas verdades e caminhos. Mas Ele se mantém em silêncio, porque é o dia de sua paciência; e não responde, como o fará em breve (Salmos 50.3).

[2] Pilatos se maravilhou com o silêncio de Jesus. Este silêncio não foi interpretado tanto como um desprezo pelo tribunal, mas como um desprezo por si mesmo. Por isso, não foi dito que Pilatos ficou irritado com essa atitude, mas que ficou extremamente maravilhado com isso, como se fosse algo muito incomum. Ele acreditava que o Senhor Jesus era inocente, e talvez tivesse ouvido que nenhum homem jamais havia falado como Ele; e então considerou estranho que Ele não tivesse uma única palavra para dizer em sua defesa.