ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 1-10

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O Arrependimento de Judas.

A Confissão de Judas. A Morte de Judas. O Descarte das Trinta Moeda s de Prata

Nós deixamos Cristo nas mãos dos príncipes dos sacerdote s e dos anciãos, condenado a morrer, mas eles só podiam mostrar seus dentes; cerca de dois anos antes desse fato, os romanos haviam tomado dos judeus o poder sobre a pena de morte; eles não podiam castigar um homem com a morte, e assim de manhã, bem cedo, outra reunião é realizada, para deliberar sobre o que deveria ser feito. E aqui nos é contado o que aconteceu naquela reunião matutina, depois de eles haverem consultado seus travesseiros durante duas ou três horas.

I – Cristo é entregue a Pilatos, para que ele possa executar a sentença que haviam imposto sobre Ele. A Judéia, tendo sido conquistada por Pompeu quase cem anos antes, era desde então tributária de Roma e havia recentemente se tornado parte da província da Síria e subordinada ao governo do seu presidente, sob cuja autoridade havia vários procuradores, que se dedicavam principalmente à coleta de impostos, mas, às vezes, como particularmente no caso de Pilatos, todo o poder do presidente lhes era delegado. Esta era uma clara evidência de que o cetro havia partido de Judá, e que, portanto, agora Siló deve vir, de acordo com a profecia de Jacó (Genesis 49.10). Pilatos é descrito pelos escritores romanos daquele tempo como um homem de temperamento severo e arrogante, teimoso, implacável, extremamente avarento e tirânico. Os judeus tinham grande aversão à sua pessoa, e estavam cansados do seu governo; mas ainda assim fizeram uso dele como o instrumento de sua maldade contra Cristo.

1. Eles manietaram Jesus. Ele foi amarrado quando foi preso pela primeira vez. Mas, ou eles tiraram as amarras quando Ele estava diante do conselho, ou, agora, as adicionaram às anteriores. Tendo-o considerado culpado, eles amarraram suas mãos às costas, como habitualmente o fazem com criminosos condenados. Ele já estava amarrado com os laços de amor pela humanidade, e de sua própria missão; doutra forma, Ele já teria rompido esses laços, como Sansão fez com os dele. Nós estávamos acorrentados com os laços da iniquidade, presos nas cordas dos nossos pecados (Provérbios 10.22); mas Deus havia colocado o jugo de nossas transgressões sobre o pescoço do Senhor Jesus (Isaias 50.14), para que nós pudéssemos ser libertados pelas suas amarras, assim como somos curados pelos seus açoites.

2. Eles o levaram numa espécie de triunfo, levaram-no como um cordeiro ao matadouro; assim Ele foi levado da prisão e do julgamento (Isaias 53.7,8). A casa de Caifás ficava a quase uma milha de onde residia Pilatos. Durante todo esse trajeto, eles o conduziram pelas ruas de Jerusalém, enquanto, pela manhã, começaram a ocupar-se em fazer dele um espetáculo para o mundo.

3. Eles o entregaram a Pôncio Pilatos; de acordo com o que Cristo havia dito muitas vezes, que Ele deveria ser entregue aos gentios. Tanto os judeus quanto os gentios eram odiosos perante o julgamento de Deus e unidos pelo pecado, mas Cristo deveria ser o Salvador dos judeus e dos gentios; por essa razão, Cristo foi levado a julgamento por ambos, e ambos tiveram parte em sua morte. Veja como aqueles líderes religiosos corruptos abusaram do magistrado civil, usando-o para executar as suas sentenças perversas e impor as injustiças que eles haviam determinado (Isaias 10.1). Assim têm sido os reis da terra torpemente enganados pelos poderes papais e condenados ao árduo trabalho de destruir com a espada da guerra, como também com a da justiça, aqueles a quem eles marcaram, de forma certa ou errada, como hereges, para grande prejuízo de seus próprios interesses.

II – O dinheiro que eles haviam dado a Judas por trair a Cristo é por ele devolvido, e Judas, em desespero, se enforca. Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos valeram-se disso, ao levar Cristo a julgamento, que seu próprio discípulo o entregou a eles; mas agora, no meio do julgamento, esse trunfo lhes falta, e até mesmo este se torna uma testemunha da inocência de Cristo e um monumento da justiça de Deus; isso serviu:

1. Para a glória de Cristo em meio aos seus sofrimentos, um exemplo de sua vitória sobre Satanás, que havia se apossado de Judas.

2. De aviso para os seus acusadores, e para torná-los ainda mais imperdoáveis. Se os seus próprios corações não estivessem completamente voltados para fazer esse mal, o que Judas disse e fez – seria de se pensar – deveria ter suspendido a acusação.

(1)  Veja agora como Judas sentiu remorso: ele não agiu como Pedro, que se arrependeu, creu e foi perdoa­ do: não, ele sentiu remorso, desesperou-se e se perdeu. Agora observe neste ponto:

 [1] O que o levou a sentir remorso. Isto ocorreu quando ele percebeu que estava condenado. Judas provavelmente esperava que Cristo conseguisse escapar das mãos deles ou tivesse defendido a sua própria causa no tribunal deles, e tivesse sucesso. E então Cristo ficaria com a glória, os judeus, com a vergonha, e ele, com o dinheiro, e ninguém seria prejudicado. Ele não tinha motivo nenhum para esperar por isso, porque muitas vezes tinha ouvido o seu Mestre dizer que deveria ser crucificado; ainda assim é provável que ele, de fato, esperasse por isso, e quando os fatos não corresponderam à sua vã expectativa, ficou aterrorizado quando viu a forte corrente contra Cristo, e este se submetendo a ela. Note que aqueles que medem as ações pelas suas consequências, e não pela lei divina, descobrirão que estão errados em seus atos. O caminho do pecado é uma descida; e se não pudermos nos deter facilmente, menos ainda conseguiremos parar outros a quem induzimos a seguir um caminho pecaminoso. Pode-se dizer que Judas se arrependeu; quer dizer, ele estava cheio de tristeza, angústia e indignação contra si mesmo, ao refletir sobre o que tinha feito. Quando ele ficou tentado a trair o seu Mestre, as trinta moedas de prata pareciam bastante agradáveis e brilhantes, como o vinho, quando é vermelho e empresta a sua cor ao copo. Mas quando a transação foi feita, e o dinheiro, pago, a prata tornou-se entulho, ela mordia como uma serpente e picava como uma víbora. Agora a sua consciência transparecia em sua face: “O que eu fiz! Que tolo, que canalha sou eu, vender por tal ninharia o meu Mestre e todo o consolo e felicidade que tenho nele! Todas essas brutalidades e indignidades cometidas contra Ele são imputáveis a mim; é devido a mim que Ele está preso e condenado, que lhe cospem e esbofeteiam. Não pensei que as coisas chegariam a esse ponto quando fiz aquela maldita barganha; que tolo e ignorante fui eu, tal como um animal”. Agora ele amaldiçoou a bolsa que carregava, o dinheiro que cobiçou, os sacerdotes com quem negociou, e o dia em que nasceu. A lembrança da bondade de seu Mestre para com ele, a qual ele retribuiu de maneira tão desprezível, a profunda misericórdia que ele rejeitou, e as sinceras advertências que havia desprezado, reforçaram suas convicções, e as tornaram ainda mais pungentes. Então ele descobriu que as palavras de seu Mestre eram verdadeiras. Era melhor para aquele “homem que ele nunca tivesse nascido”. Note que o pecado logo mudará o seu sabor. Ainda que seja rolado para baixo da língua como um doce bocado, nas entranhas ele se transformará em “fel de áspides” (Jó 20.12-14), como no livro de João (Apocalipse 10.9).

[2] Quais eram os indicadores do seu arrependimento? Em primeiro lugar, ele fez a restituição; ele trouxe de volta aos príncipes dos sacerdotes as trinta moedas de prata quando eles estavam todos juntos, em público. Agora o dinheiro queimava em sua consciência e estava tão enojado dele quanto já estivera afeiçoado. Note que aquilo que é conseguido com iniquidade nunca fará bem àqueles que o obtém (Jeremias 13.10; Jó 20.15). Se ele tivesse se arrependido e tivesse devolvido o dinheiro antes de trair a Cristo, poderia tê-lo feito com tranquilidade, e o teria feito a tempo; mas agora era muito tarde, agora ele não pode fazer isso sem sentir horror, desejando dez mil vezes nunca ter se metido nisso. Veja Tiago 5.3. Ele o trouxe de volta. Aquilo que é injustamente obtido não deve ser conservado, porque é uma persistência no pecado através do qual foi conseguido. E manter esses recursos é uma atitude incoerente com o arrependimento. Ele levou o dinheiro para aqueles de quem o obtivera, para que soubessem que ele se arrependeu de sua negociação. Observe que, quanto àqueles que sentiram e viciaram outros em seus pecados, quando Deus lhes dá o arrependimento, devem fazer com que aqueles que foram seus cúmplices no pecado o saibam, para que isso possa ser um meio de levá-los ao arrependimento.

Em segundo lugar, ele fez uma confissão (v. 4): “Pequei, traindo sangue inocente”.

1. Para a glória de Cristo, ele declarou que o seu sangue era inocente. Se o Senhor fosse culpado de qualquer prática pecaminosa, Judas, como seu discípulo, certamente o saberia, e, como seu traidor, certamente o teria descoberto; mas ele, livremente e sem ser persuadido a isso, o declarou inocente, diante daqueles que o haviam considerado culpado.

2. Para sua própria vergonha, ele confessa que havia pecado ao trair o sangue do Senhor. Judas não coloca a culpa em ninguém mais. Ele não diz: “Você pecou ao me contratar para fazer isso”; mas assume a culpa por completo: “Eu pequei ao fazer isso”. Até agora, Judas caminhou em direção ao seu arrependimento, mas não para a salvação. Ele confessou, mas não a Deus. Judas não buscou ao Senhor, dizendo: “Pequei, ó Pai, contra o céu”. Ele confessou a traição de sangue inocente, mas não confessou aquele amor exagerado por dinheiro, que era a raiz de seu mal. Existem aqueles que traem a Cristo, e ainda tentam se justificar; e assim ficam abaixo de Judas.

(2) Veja aqui como os príncipes dos sacerdotes e os anciãos acolheram a confissão penitencial de Judas. Eles disseram: “Que nos importa? Isso é contigo”. Ele fez deles seus confessores, e essa foi a absolvição que lhe deram; agiram mais como sacerdotes do diabo do que como sacerdotes do Deus vivo.

[1] Veja aqui com que indiferença eles falaram sobre a traição a Cristo. Judas lhes havia dito que o sangue de Jesus era sangue inocente; e eles disseram: “Que nos importa?” Não significava nada para eles que tivessem fica­ do sedentos do sangue de Jesus, e contratado Judas para traí-lo, e agora o tivessem condenado a ser derramado in­ justamente? Isso não significava nada para eles? Isso não servia como freio para a violência de sua acusação, nem os alertava a tomar cuidado com o que estavam fazendo a esse homem justo? Assim fazem os tolos zombando do pecado, como se nenhum dano fosse causado, como se não houvesse nenhum risco ao se cometer as maiores iniquidades. Dessa forma, muitos dão pouco valor ao Cristo crucificado. O que lhes importa que Ele tenha passado por tais sofrimentos?

Veja aqui a maneira negligente como falaram do pecado de Judas; ele disse: “Pequei”, e eles disseram: “Que nos importa? O que nós temos a ver com o teu pecado, para que nos fales dele?” Note que é insensatez nossa pensarmos que os pecados dos outros nada significam para nós, especialmente aqueles pecados com os quais fomos de algum modo coniventes ou dos quais participamos. Nada significa para nós que Deus seja desonrado; almas, feridas; Satanás, satisfeito; e seus interesses, atendidos; e que nós tenhamos ajudado e sido cúmplices nisso? Se os anciãos de Jezreel, para agradar Jezabel, assassinam Nabote, isso não significa nada para Acabe? Sim, ele matou, pois ele tomou a herança (1 Reis 21.19). A culpa do pecado não é tão facilmente transferida como algumas pessoas pensam. Se havia culpa no caso, eles dizem a Judas, ele tem de cuidar disso, ele deve arcar com isso. Em primeiro lugar, porque ele o entregou a eles. Ele tinha realmente o maior pecado (João 19.11); mas isso não significava que eles não tivessem nenhum pecado. Esse é um exemplo comum da falsidade dos nossos corações: atenuar os nossos próprios pecados através do agravamento dos pecados dos outros. Mas o julgamento de Deus é realizado de acordo com a verdade, e não por comparação. Em segundo lugar, porque ele sabia e acreditava que Cristo era inocente. Se ele for inocente, isso é contigo, pois é mais do que nós sabemos; nós o julgamos culpado, portanto podemos processá-lo como tal. Práticas mal-intencionadas e iníquas são encorajadas por princípios maus, e particularmente por este: que o peca­ do só é pecado para aqueles que pensam que ele o é; que não há nenhum dano em perseguir um bom homem, se nós o considerarmos um homem mau; mas aqueles que pensam que podem zombar de Deus desse modo enganarão e destruirão a si mesmos.

[3] Veja com que indiferença eles falavam da condenação, terror e remorso que afligiam Judas. Eles estavam felizes em fazer uso dele no pecado, e estavam então muito afeiçoados a ele; ninguém foi mais bem-vindo para eles do que Judas, quando disse: “Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei?” Eles não disseram: Que nos importa? Mas agora que o pecado dele o tinha aterrorizado, eles o desprezavam, não tinham nada a lhe dizer, a não ser voltá-lo para seus próprios temores. Por que veio aborrecê-los com suas fantasias melancólicas? Eles tinham mais o que fazer do que prestar atenção nele. Mas porque estavam tão assustados? Em primeiro lugar, talvez eles temessem que as fagulhas da condenação dele, trazidas para bem perto deles, pudessem acender um fogo em suas próprias consciências, e talvez seus lamentos, ao serem ouvidos, alertassem para a sua própria condenação. Note que os pecadores obstinados insistem em levantar a sua guarda contra as condenações; e aqueles que são decididamente impenitentes, olham com desdém para os penitentes. Em segundo lugar, de qualquer forma, eles não estavam interessados em socorrer Judas; quando eles o trouxeram para a armadilha, eles não apenas o abandonaram, mas riram dele. Note que os pecadores condenados encontrarão em seus velhos companheiros de pecado consoladores deprimentes. É comum que aqueles que amam a traição odeiem o traidor.

(3) Aqui está o absoluto desespero ao qual Judas foi conduzido. Se os príncipes dos sacerdotes lhe tivessem prometido que suspenderiam a acusação, isso teria sido de algum conforto para ele; mas, vendo que isso não aconteceria, ele ficou desesperado (v. 5).

[1] Ele atirou as moedas de prata no Templo. Os príncipes dos sacerdotes não pegariam o dinheiro, temerosos de que com isso levassem toda a culpa, cujo fardo eles desejavam que Judas carregasse. Judas não ficaria com ele, pois o fardo era pesado demais para carregar. Então, ele atirou o dinheiro no Templo, pois, quer eles o pegassem ou não, aquilo cairia nas mãos dos príncipes dos sacerdotes. Veja que coisa terrível o dinheiro setor­ na quando a culpa do pecado está ligada a ele, ou quando se pensa que este é o caso.

[2) Ele saiu e se enforcou. Em primeiro lugar, retirou-se para algum lugar solitário, como o homem possuído que era impelido aos desertos pelo demônio (Lucas 8.29). Ai daquele que está em desespero, e que está só. Se Judas tivesse ido a Cristo, ou a algum de seus discípulos, talvez pudesse ter obtido alívio, por pior que fosse a situação; mas, não obtendo isso junto aos príncipes dos sacerdotes, ele se entregou ao desespero. E o mesmo demônio que, com a ajuda dos sacerdotes, o atraiu para o pecado, com a ajuda deles o conduziu ao desespero. Em segundo lugar, ele se tornou o seu próprio carrasco. Ele se enforcou; ele estava sufocado pela dor, de acordo com o Dr. Hammond. Mas o Dr. Whitby deixa claro que a nossa interpretação está correta. Judas teve a visão e o senso do pecado, mas nenhuma preocupação com a compaixão de Deus em Cristo, e assim ele se consumiu de desgosto em sua iniquidade. Seu pecado, podemos supor, não era de natureza imperdoável: havia, entre os que foram salvos, alguns que tinham sido traidores de Cristo e assassinos; mas ele concluiu, como Caim, que a sua iniquidade fora tão grande, que não podia ser perdoada, e preferiu submeter-se à falsa clemência do diabo do que submeter-se à verdadeira misericórdia de Deus. E alguns disseram que Judas pecou mais na falta de esperança na misericórdia de Deus do que em trair o sangue de seu Mestre. Então os terrores do Todo-poderoso começam a se posicionar contra ele. Agora, todas as maldições descritas no livro de Deus entraram como água em suas entranhas, e como azeite, em seus ossos, como foi profetizado com relação a ele (Salmos 109.18,19), e o levam a esse movimento desesperado. Para escapar de um inferno dentro de si, ele salta para aquele que estava diante dele, que nada mais era do que o aperfeiçoamento e a perpetuação desse horror e desespero. Ele se atira no fogo para evitar as chamas; mas quão infeliz é a situação em que um homem se lança no inferno em busca de alivio.

Então, nessa história:

1. Nós temos um exemplo do triste fim daqueles de quem Satanás se apossa, e particularmente daqueles que se entregam ao amor pelo dinheiro. Esta é a destruição na qual muitos são submersos por ele (1 Timóteo 6.9,10). Lembre-se do que aconteceu com os suínos e o traidor dos quais o diabo se apossou; e não dê lugar ao diabo.

2. Nós temos um exemplo da ira de Deus manifestada do céu contra a impiedade e a injustiça dos homens (Romanos 1.18). Assim como na história de Pedro contemplamos a bondade de Deus e os triunfos da graça de Cristo na conversão de alguns pecadores, também na história de Judas observamos a severidade de Deus e os triunfos do poder e da justiça de Cristo na confusão de outros pecadores. Quando Judas, em quem Satanás entrou, se enforcou, Cristo expôs publicamente os principados e as potestades sobre as quais Ele triunfou (Colossenses 2.15).

3. Nós temos um exemplo dos terríveis efeitos do desespero; ele, muitas vezes, termina em suicídio. A tristeza, mesmo aquela que vem através do pecado, se não estiver de acordo com Deus, opera a morte (2 Coríntios 7.10), o pior tipo de morte; pois, quem pode suportar um espírito ferido? Pensemos o pior que pudermos do pecado, mas não pensemos nele como algo imperdoável; percamos a esperança de ajuda em nós mesmos, mas não na ajuda de Deus. Aquele que pensa em aliviar a sua consciência através da destruição de sua vida, de fato, desafia o Deus Todo-poderoso a fazer o pior. E o suicídio, embora recomendado por alguns moralistas pagãos, é certamente um remédio pior do que a doença, por pior que a doença possa ser. Vamos nos guardar contra as causas e o início da melancolia, e orar: “Senhor, não nos deixe cair em tentação”.

(4)  O descarte do dinheiro que Judas trouxe de volta (vv. 6-10). Ele foi usado na compra de um campo, chamado de “campo do oleiro”. Talvez porque algum oleiro o tivesse possuído, ou ocupado, ou vivera próximo a ele, ou porque recipientes de oleiros quebrados eram lançados nele. E esse campo passaria a ser um cemitério para estrangeiros, isto é, prosélitos da religião judaica, que eram de outras nações, e que, tendo vindo a Jerusalém para orar a Deus, acabavam morrendo ali.

[1] Parece um exemplo de seu humanismo o fato de eles cuidarem de enterrar os estrangeiros; isso sugere que eles mesmos reconheciam (como Paulo diz, Atos 24.15) que há uma ressurreição de mortos, tanto de justos como de injustos. Por isso, nós cuidamos dos cadáveres, não apenas por terem sido a habitação de uma alma racional, mas porque deverão ser assim novamente. Mas:

[2] Não era exemplo da humildade deles enterrarem estrangeiros em um lugar separado, como se eles não fossem merecedores de serem colocados em seus cemitérios; os estrangeiros devem manter distância, vivos ou mortos, e esse princípio deve se estender à graça: “Retira-te, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu” (Isaias 65.5). Os filhos de Sete estavam mais afeiçoados a Abraão – embora ele fosse um estranho entre eles -, quando lhe ofereceram o mais seleto de seus sepulcros (Genesis 23.6). Mas os filhos do estrangeiro, que se juntaram ao Senhor, embora enterrados em separado, se levantarão, na ressurreição, com aqueles que estão mortos em Cristo.

A compra do campo do oleiro não aconteceu no dia em que Cristo morreu (eles estavam muito ocupados para se preocupar com qualquer outra coisa que não fosse capturá-lo), mas aconteceu não muito tempo depois; pois Pedro fala disso logo depois da ascensão de Cristo; todavia, ela está registrada aqui:

Em primeiro lugar, para mostrar a hipocrisia dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Eles estavam perseguindo, de forma maldosa, o bendito Senhor Jesus. E agora:

1. Eles hesitam em colocar no caixa, ou no cofre das ofertas do Templo, aquele dinheiro com o qual eles haviam contratado o traidor. Embora talvez o tivessem tirado do caixa fingindo que fosse para o bem público, e embora eles fossem grandes defensores do cofre das ofertas e trabalhassem para atrair toda a riqueza da nação para ele, ainda assim eles não iriam colocar nele aquele dinheiro que era o preço do sangue. Eles consideravam que a contratação de um traidor seria, de algum modo, como o aluguel de uma prostituta; e o preço de um malfeitor (como consideraram o Cristo de Deus) seria, de algum modo, equivalente ao preço de um cachorro, e nenhum desses seria trazido à casa do Senhor (Deuteronômio 23.18). Eles preservaram, dessa forma, a sua reputação com as pessoas, convencendo-as de sua grande reverência pelo Templo. Dessa forma, aqueles que eram capazes de engolir um camelo, coavam um mosquito.

2. Eles pensam em reparar o que tinham feito através desse ato público de bondade, ao providenciar um cemitério para estrangeiros, muito embora não às suas próprias custas. Assim, em tempos de ignorância, as pessoas eram levadas a acreditar que construir igrejas e fazer doações para mosteiros seria uma compensação aceitável pelas imoralidades.

Em segundo lugar, para indicar o favor ofereci do pelo sangue de Cristo aos estrangeiros e pecadores gentios. Através do preço de seu sangue, um lugar de descanso após a morte é providenciado para eles. É assim que muitos cios antigos se referem a essa passagem. A sepultura é o campo cio oleiro, onde os corpos são joga­ dos como restos ele vasos quebrados; mas Cristo, pelo seu sangue, comprou-o para aqueles que, ao se confessa­ rem estrangeiros na terra, buscam um lugar melhor. Ele alterou a posse daquele local (como faz um compra­ dor), de modo que agora a morte é nossa, a sepultura é nossa, uma cama para o nosso descanso. Os alemães, em sua língua, chamam os cemitérios ele Campos ele Deus; pois neles o Senhor Deus semeia o seu povo como um grão de trigo (João 12.24. Veja Oseias 2.23; Isaias 26.19).

Em terceiro lugar; para perpetuar a infâmia daqueles que compraram e venderam o sangue ele Cristo. Esse campo era comumente chamado de Acéldarna, o campo de sangue, não pelos príncipes dos sacerdotes, mas pelo povo que tomou conhecimento da confissão de Judas, de que ele havia traído o sangue inocente, embora os príncipes cios sacerdotes nada fizessem a respeito disso. Esses líderes religiosos esperavam enterrar nesse cemitério a lembrança de seu próprio crime. Eles fixaram esse nome sobre o campo como um memorial perpétuo. Note que a Providência Divina tem muitos meios de vincular a vergonha às práticas pecaminosas, até mesmo dos grandes homens, que, embora procurem encobrir a sua vergonha, são colocados sob uma reprovação perpétua.

Em quarto lugar, para que possamos ver como as Escrituras foram cumpridas (vv. 9,10). Então foi cumprida a Palavra que foi dita pelo profeta Jeremias. As palavras mencionadas são encontradas na profecia de Zacarias (Zacarias 11.12). Não vamos discutir a razão pela qual elas são aqui atribuídas a Jeremias; mas a credibilidade da doutrina de Cristo não depende disso, pois se mostra perfeitamente divina, embora possa parecer humana quanto aos detalhes da sua descrição. Na versão em siríaco, que é antiga, lê-se somente: “Foi dito pelo profeta”, sem citar ninguém, a partir do que alguns pensam que Jeremias foi acrescentado por algum escriba. Alguns entendem que, como os livros dos profetas estavam organizados em um único volume, que trazia primeiro a profecia de Jeremias, não seria incorreto, para um copista, citar qualquer passagem desse volume mencionando apenas o nome do primeiro livro, neste caso Jeremias. Os judeus costumavam dizer que o espírito de Jeremias estava sobre Zacarias, e assim eles eram como um único profeta. Alguns sugerem que isso foi dito por Jeremias, mas escrito por Zacarias; ou que Jeremias escreveu o nono, o décimo e o décimo primeiro capítulo de Zacarias. Nessas circunstâncias, essa passagem do profeta é uma descrição do grande desprezo por Deus existente entre os judeus, e do pouco com que eles lhe retribuíam as dádivas recebidas. Mas aqui aconteceu aquilo que lá era apenas expresso figurativamente. Os valores em dinheiro são as mesmas trinta moedas de prata; assim eles avaliaram o seu preço, por este preço eles o avaliaram; um preço considerável; e isso é o que foi depositado para o oleiro na casa do Senhor, o que foi aqui literalmente realizado. Observe que entenderíamos melhor os eventos ela Providência se estivéssemos mais familiarizados até mesmo com a linguagem e as expressões das Escrituras; pois elas também são, às vezes, escritas tão claramente sob as dispensações da Providência, que aquele que as cumpre as pode ler. O que Davi falou figurativamente (Salmos 42.7), Jonas realizou literalmente: “Todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima ele mim” (Jonas 2.3).

A entrega do valor pelo qual Ele fora avaliado. Essa quantia não foi entregue a Ele, mas como um pagamento pelo campo do oleiro. Isto revela:

1. O elevado valor que deveria ser atribuído a Cristo. O preço foi pago, não por Ele. Não, mas foi dado por Ele e devolvido com desdém, como estando infinitamente abaixo de seu verdadeiro valor. O Salvador não pode ser avaliado de acordo com o ouro de Ofir; e esse presente indescritível (a salvação) também não pode ser comprado com dinheiro.

2. O baixo valor da avaliação que fizeram dele. Alguns elos filhos ele Israel estranhamente o depreciaram, quando seu preço alcançou o valor suficiente para comprar o campo do oleiro, um pedaço deplorável e desprezível de terra, que não valia nem a pena considerar. Acrescente-se à vergonha de ter sido comprado e vendido, o fato de o valor envolvido ter sido tão baixo. “Arroja isso ao oleiro”, assim está em Zacarias; aqui se trata ele um vendedor desprezível e insignificante, não do comerciante que negocia com coisas de valor. E observe que alguns elos filhos de Israel desse modo o depreciaram; eles, que eram o seu próprio povo, que deveriam saber fazer uma avaliação correta dele, aqueles a quem Ele fora enviado primeiro, de quem Ele era a glória a quem Ele tinha dado tanto valor e comprado por um preço tão alto. Ele pagou por eles um resgate equivalente ao resgate de muitos reis, e deu, por eles, os países mais ricos (por serem tão preciosos aos seus olhos, Isaias 43.3,4), a saber, o Egito, a Etiópia, e Sebá; mas eles, por sua vez, ofereceram por Ele o resgate ele um escravo (veja Êxodo 21.32), e o avaliaram apenas como o preço elo campo de um oleiro; assim foi aquele sangue pisoteado, aquele que comprou o Reino dos céus para nós. Mas tudo isso ocorreu conforme o Senhor designou; por­ tanto, a visão profética era o que caracterizava esse evento, e assim o próprio evento, bem como os outros exemplos dos sofrimentos de Cristo, ocorreram pelo conselho e pela presciência de Deus.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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