ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26:  57– 68

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Cristo no Palácio do Sumo Sacerdote

Temos aqui a acusação contra o nosso Senhor Jesus na corte eclesiástica, diante do grande sinédrio. Considere:

I – A sessão da corte; os escribas e os anciãos estavam reunidos, embora fossem altas horas da noite, quando as outras pessoas estavam dormindo profundamente em suas camas. Mesmo assim, para satisfazerem a malícia que tinham contra Cristo, negaram a si mesmos esse descanso natural, e ficaram acordados a noite toda, para que estivessem preparados para cair sobre a presa que esperavam que Judas e seus homens lhes trouxessem.

Observe:

1. Quem eram aqueles que estavam reunidos; os escribas, os doutores da lei e os anciãos, os príncipes dos sacerdotes da sinagoga judaica; estes eram os inimigos mais amargos de Cristo, o nosso grande Mestre e Príncipe, sobre quem eles tinham um olhar invejoso, como alguém que reduzia o brilho deles; talvez alguns desses escribas e anciãos não fossem tão maliciosos em relação a Cristo, como eram alguns outros; contudo, concordando com os demais, eles se fizeram culpados. Agora as Escrituras foram cumpridas (Salmos 22.16): “O ajuntamento dos malfeitores me cercou”. Jeremias reclama de uma reunião de homens traiçoeiros; e Davi reclama de seus inimigos se reunindo contra ele (Salmos 35.15).

2. Onde eles estavam reunidos. Na casa de Cáifás, o sumo sacerdote; ali eles se reuniram dois dias antes, para tramarem a conspiração (v. 3). Ali eles agora se reuniram outra vez, para executar o plano. O sumo sacerdote era chamado de – o pai da casa de juízo, mas agora ele é o patrono da impiedade; a sua casa deveria ter sido o santuário da inocência oprimida, mas se tornou o local do trono da iniquidade; e não é de admirar que esses homens iníquos tenham transformado a própria casa de oração de Deus em um covil de ladrões.

II – A postura do prisioneiro no recinto do tribunal; aqueles que haviam lançado mão de Jesus levaram-no, empurrando-o, sem dúvida com violência, conduziram-no como um troféu de sua vitória, como uma vítima para o altar. Ele foi levado a Jerusalém através da porta das ovelhas, pois este era o caminho para entrar na cidade, saindo do monte das Oliveiras; e era chamada assim porque as ovelhas designadas para o sacrifício eram levadas por aquele caminho até o Templo; muito adequadamente, portanto, Cristo, que é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, é levado por este caminho. Cristo foi levado primeiro ao sumo sacerdote, porque, pela lei, todos os sacrifícios deveriam ser primeiro apresentados ao sacerdote, e entregues em sua mão (Levíticos 17.5).

III – A covardia e o medo de Pedro (v. 58): “Pedro o seguiu de longe”. Isto é apresentado aqui como um prenúncio da história seguinte, quando Pedro nega Jesus. Pedro o abandonou como os demais o fizeram, quando Jesus foi preso, e o que é dito aqui sobre tê-lo seguido é facilmente conciliável com o fato de Pedro tê-lo abandonado; o fato de Pedro ter seguido Jesus não é melhor do que o fato de ter abandonado Jesus; porque:

1. Ele o seguiu, porém “de longe”. Algumas faíscas de amor e preocupação por seu Mestre estavam em seu peito, e por essa razão ele o seguiu; mas o medo e a preocupação pela sua própria segurança prevaleceram, e assim Pedro o seguiu de longe. Note que é um mau presságio quando aqueles que estão dispostos a ser discípulos de Cristo não estão dispostos a ser reconhecidos como tais. Aqui Pedro começou a negar Jesus; pois segui-lo de longe é afastar-se dele pouco a pouco. Há perigo em se afastar, e também em olhar para trás.

2. Pedro o seguiu, e, “entrando, assentou-se entre os criados”. Ele deveria ter subido até o pátio, e servido ao seu Mestre, comparecendo à presença dele. Mas ele entrou onde havia uma fogueira, e assentou-se com os criados, não para calar as críticas, mas para se proteger. Foi uma presunção de Pedro, portanto, a atitude de se lançar à tentação; aquele que age assim sai da proteção de Deus. Cristo havia dito a Pedro que ele não poderia segui-lo agora, e o havia advertido particular mente quanto ao perigo dessa noite; mesmo assim, Pedro iria se aventurar no meio desse grupo de ímpios. O fato de Davi odiar se reunir com malfeitores o ajudou a andar em integridade; ele não se assentava com os ímpios.

3. Pedro seguiu o Senhor, mas só o fez “para ver o fim”, sendo levado mais pela sua curiosidade do que pela sua consciência; ele compareceu como um mero espectador, em vez de participar da situação como um discípulo, uma pessoa envolvida. Ele deveria ter entrado, para prestar a Cristo algum serviço, para trazer a si mesmo alguma sabedoria e graça, observando o comportamento de Cristo sob os seus sofrimentos. Mas Pedro só entrou para observá-lo; não é improvável que Pedro tenha entrado, esperando que Cristo fosse fugir miraculosamente das mãos de seus perseguidores; que, tendo tão recentemente se desviado daqueles que tentavam agarrá-lo, o Senhor agora destruiria aqueles que se assentavam para julgá-lo. E era isso que Pedro tinha vontade de ver; se esse raciocínio estiver correto, seria tolice para Pedro pensar em ver qualquer outro fim além daquele que Cristo havia predito, de que Ele deveria ser morto. Note que é mais necessário que nós nos preparemos para o fim, seja ele qual for, do que indagarmos curiosamente qual será o fim. O evento é de Deus, mas o dever é nosso.

IV – O julgamento de nosso Senhor Jesus neste tribunal.

1. Eles buscavam testemunhas contra Ele, embora estivessem decididos – quer estivessem certos ou errados – a condená-lo; no entanto, para dar uma aparência melhor ao julgamento, eles iriam produzir evidências contra o Senhor. Os crimes da competência do seu tribunal eram doutrinas falsas e blasfêmias; e essas coisas eles tentaram provar a fim de condená-lo. Observe aqui:

(1)  A busca deles por provas: “Buscavam falso testemunho contra Jesus”; eles o haviam prendido, amarrado, açoitado, e depois de tudo ainda tinham que procurar algo de que acusá-lo, e não podiam mostrar nenhuma causa para a sua prisão e julgamento. Eles se consultaram, pois talvez algum deles pudesse alegar, a partir de seu próprio conhecimento, qualquer coisa contra o Senhor; e assim sugeriram uma calúnia e então outra, de modo que, se alguma fosse verdadeira, pudessem tocar em sua vida. “O homem vão cava o mal” (Provérbios 16.27). Aqui eles pisam o caminho de seus predecessores, que maquinaram projetos contra Jeremias (Jeremias 18.18; 20.10). Os líderes da nação judaica proclamaram que, se alguém pudesse dar informações contra o prisioneiro no recinto do tribunal, eles estariam prontos a recebê-las, e naquele momento muitos deram falsos testemunhos contra o Senhor (v. 60). O governador que dá atenção às palavras mentirosas achará que todos os seus servos são ímpios (Provérbios 29.12). Este é “um mal que se vê debaixo do sol” (Eclesiastes 10.5). Se Nabote deve ser levado para fora, haverá filhos de Belial para jurar contra ele.

(2)  O sucesso deles nessa busca; em várias tentativas, eles foram frustrados. Aqueles homens buscaram falsos testemunhos entre si, outros se apresentaram para ajudá-los, e mesmo assim não acharam ninguém que pudesse testemunhar de forma coerente contra o Filho de Deus. Eles não puderam fazer nada nesse sentido, não conseguiram juntar evidências plausíveis, ou dar qualquer aparência de verdade ou consistência às falsas acusações. Além disso, não poderiam fazê-lo, pois eles mesmos se colocaram na posição de juízes. Os motivos alegados eram mentiras palpáveis, que traziam em si as suas próprias contestações. Tudo isso foi revertido para a honra de Cristo, naquele momento em que eles estavam procurando carregá-lo de desgraças.

Mas, finalmente, eles conseguiram duas testemunhas, que, parece, concordaram com as evidências deles, e, portanto, foram ouvidas, na esperança de agora obterem sucesso. As palavras que eles proferiram em juramento contra o Senhor foram que Ele havia dito: “Eu posso derribar o templo de Deus e reedificá-lo em três dias” (v. 61). Então, através disso, eles planejavam acusá-lo:

[1] Como um inimigo do Templo, e alguém que buscava a destruição dele, algo que eles não suportavam sequer ouvir; pois eles valorizavam a si mesmos pelo Templo do Senhor (Jeremias 7.4), e, quando abandonaram os ídolos, fizeram dele um ídolo perfeito. Estêvão foi acusado de falar “contra este santo lugar” (Atos 6.13,14).

[2] Como alguém que lidava com a feitiçaria, ou alguma arte ilícita, com a ajuda da qual Ele poderia levantar o edifício em três dias; eles frequentemente sugeriam que o Senhor estava aliado com Belzebu. Então, quanto a isso, em primeiro lugar, as palavras foram citadas de forma errada pelos caluniadores. O Senhor disse: “Derribai este templo” (João 2.19), sugerindo claramente que Ele falava de um templo que os seus inimigos iriam procurar destruir; eles vêm, e juram que Ele disse: “Eu posso derribar este templo”, como se o plano contra o Templo fosse dele. Ele disse: “Em três dias o levantarei” – egero auton, uma palavra usada adequadamente para um templo vivo. Eu o levantarei para a vida. Eles vêm, e juram que Ele disse: “Eu posso” oikodomesai- levantá-lo, o que é usado propriamente para um templo construído. Em segundo lugar, as palavras foram mal-entendidas. “Ele falava do templo do seu corpo” (João 2.21), e talvez quando Ele disse: “este templo”, tenha apontado ou colocado a sua mão sobre o seu próprio corpo; mas eles juraram que Ele se referiu ao Templo de Deus, significando esse santo lugar. Note que houve, e ainda há, uma deturpação das palavras de Cristo para a própria destruição dos caluniadores (2 Pedro 3.16). Em terceiro lugar, por pior que eles pudessem julgar o assunto, não se tratava de um crime capital, nem mesmo pela sua própria lei; se fosse um crime capital, Ele teria sido perseguido por isso, quando pronunciou essas palavras em um discurso público alguns anos antes. Não, as palavras eram passíveis de uma construção louvável, e revelam a sua atenção ao Templo; se o Templo fosse destruído, Ele iria se empenhar ao máximo para reconstruí-lo. Mas qualquer coisa que parecesse criminosa serviria para dar aparência à perseguição maliciosa deles. Agora as Escrituras foram cumpridas, pois diziam: “Se levantaram falsas testemunhas contra mim” (Salmos 27.12; veja Salmos 35.11). “Eu os remi, mas disseram mentiras contra mim” (Oseias 7.13). Quando somos justamente acusados, é a lei que “nos acusa” (Deuteronômio 27.26; João 5.45). Satanás e as nossas próprias consciências nos acusam (1 João 3.20). As criaturas exclamam contra nós. Então, para nos livrar de todas essas justas acusações, o nosso Senhor Jesus se sujeitou a isso, sendo injusta e falsamente acusado, para que, em virtude de seus sofrimentos, possamos ser capacitados a vencer todos os desafios: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Romanos 8.33,34). Ele foi acusado para que não pudesse ser condenado; e se, em qualquer tempo, sofrermos assim, se tivermos todos os tipos de males, não apenas ditos, mas proferidos em falsos juramentos contra nós, lembremo-nos de que não podemos esperar ser tratados melhor que o nosso Mestre.

(3)  O silêncio de Cristo sob todas essas acusações, para espanto do tribunal (v.62). O sumo sacerdote, o juiz da corte, encolerizou-se e disse: “‘Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra ti?’ Que defesa tu podes fazer? Ou o que tens a oferecer em resposta a esta acusação?” ”Jesus, porém, guardava silêncio” (v. 63), não como alguém taciturno, ou como alguém autocondena­ do, ou como alguém perplexo ou em confusão; não porque Ele buscasse algo para dizer, ou que não soubesse o que dizer, mas para que as Escrituras fossem cumpridas (Isaias 53.7): “Mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca”. Isto também ocorreu para que Ele pudesse ser o Filho de Davi. Quando os inimigos falaram coisas perversas contra Ele, o Senhor foi como um homem surdo que não ouvia (Salmos 38.12-14). Ele ficou em silêncio, porque havia chegado a sua hora. Ele não negaria a acusação, porque estava disposto a se sujeitar à sentença; caso contrário, Ele poderia facilmente silenciá-los e envergonhá-los agora, como havia feito muitas vezes antes. Se Deus entrasse em juízo conosco, ficaríamos sem palavras (cap. 22.12), incapazes de responder a uma de mil coisas (Jó 9.3). Portanto, quando Cristo foi feito pecado por nós, Ele ficou em silêncio, e deixou que o seu sangue falasse (Hebreus 12.24). Ele permaneceu calado no recinto desse tribunal, para que pudéssemos ter algo a dizer no tribunal de Deus.

Bem, assim o Senhor abre mão de seus direitos; um recurso poderia ser impetrado através de algum outro expediente.

2. Eles examinaram o nosso Senhor Jesus em um juramento como o do ex officio; e, visto que eles não puderam acusá-lo, tentarão, em uma atitude contrária à lei da igualdade, fazer com que Ele acuse a si mesmo.

(1) Aqui está o interrogatório apresentado pelo sumo sacerdote.

Considere:

[1] A pergunta em si: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus?” Isto é: Tu finges ser Ele? Porque eles não admitirão isso de nenhum modo, seja Ele realmente o que diz ou não; embora o Messias devesse ser o Consolador de Israel, e coisas gloriosas tenham sido ditas a respeito dele no Antigo Testamento, eles estavam tão estranhamente embriagados com a inveja de qualquer coisa que ameaçasse o poder exorbitante e a grandeza deles, que jamais entrariam no exame da questão, se Jesus era o Messias ou não. Nem uma vez sequer consideraram o caso de Ele o ser; eles apenas desejavam que Ele confessasse que se denominava o Messias, para que nisto pudessem condená-lo como um enganador. O que o orgulho e a malícia não levariam os homens a fazer?

[2] A solenidade da proposta: “Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas”. Não que aquele homem tivesse qualquer consideração pelo Deus vivo, mas tomou o nome do Senhor em vão; somente assim, ele esperava conseguir a atenção do nosso Senhor Jesus: “Se tu tens qualquer estima pelo nome bendito de Deus, e reverência por sua Majestade, nos diga isto”. Se o Senhor Jesus se recusasse a responder quando foi assim conjurado, eles o acusariam de desprezar o nome bendito de Deus. Assim, os perseguidores dos homens bons frequentemente tomam vantagem contra eles por suas consciências, como os inimigos de Daniel fizeram contra ele, na questão do seu Deus.

(2)  A resposta de Cristo nesse interrogatório (v. 64), no qual:

[1] Ele admite ser o Cristo, o Filho de Deus. “Tu o disseste”; isto é: “É como tu o disseste”. Porque em Marcos foi registrado: “Eu sou”. Até aquele momento, o Senhor raramente havia professado a si mesmo, expressamente, como sendo o Cristo, o Filho de Deus; o teor de sua doutrina revelava isso claramente, e os seus milagres o comprovavam; mas agora, Ele não se omitiria de fazer uma confissão disso. Em primeiro lugar, porque isso teria parecido renegar a verdade da qual Ele entrou no mundo para dar o testemunho. Em segundo lugar, teria parecido que o Senhor estaria recusando os seus sofrimentos, quando Ele sabia que esse reconhecimento daria aos seus inimigos toda a vantagem que eles desejavam contra Ele. Ele, portanto, confessou, para exemplo e estímulo a seus seguidores, quando forem chamados a confessá-lo diante dos homens, sejam quais forem os riscos que isso acarrete. E de acordo com esse padrão, os mártires prontamente confessaram-se cristãos, embora soubessem que deveriam morrer por isso, como os mártires em Thebais (Eusebio, Hist., 50.8; 100.9). Cristo respondeu sem consideração pela conjuração que Caifás havia usado em nome do Deus vivo, de forma profana; penso que o Senhor Jesus equiparou a conjuração daquele homem com a conjuração que foi expressa pela boca do Diabo (Marcos 5.7).

[2] O Senhor então se refere, como prova disso, à sua segunda vinda, e certamente a todo o seu estado de exaltação. É provável que eles olhassem para Ele com um sorriso de escárnio e desdém, quando Ele dizia: “Eu sou”. É possível que tenham pensado: “Como é que um homem como Ele pode dizer que é o Messias, cuja vinda é esperada em meio a tão grande pompa e poder?” Mas é exatamente a isso que o Senhor se refere: “Embora agora vocês me vejam neste estado inferior e abjeto, e achem ridículo que Eu me autodenomine Messias, aproxima-se o dia em que me manifestarei em glória”. “Desde agora” (versão ARA), em breve; pois a sua exaltação teria início; em apenas alguns dias. Então, o seu reino havia começado a ser estabelecido rapidamente. E no futuro “vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-poderoso”, para julgar o mundo; a sua vinda breve para julgar e destruir a nação judaica tipificaria essa situação futura, sendo até mesmo um penhor dela. Note que os terrores do dia do juízo serão uma convicção sensata da infidelidade mais obstinada, não com a finalidade de conversão (será tarde demais para isso), mas para a confusão eterna. Observe, em primeiro lugar, a quem eles deveriam ver: “o Filho do Homem”. Tendo admitido ser o Filho de Deus, mesmo agora em seu estado de humilhação, o Senhor Jesus fala de si mesmo como o Filho do Homem, em seu estado de exaltação; pois Ele tinha essas duas naturezas distintas em uma só pessoa. A encarnação de Cristo fez dele o Filho de Deus e o Filho do Homem; porque Ele é o “Emanuel, o Deus conosco”. Em segundo lugar, em que postura eles deveriam vê-lo:

1. Assentado à direita do Todo-poderoso, de acordo com a profecia do Messias (Salmos 110.1): ”Assenta-te à minha mão direita”; algo que denota tanto a dignidade como o domínio ao qual Ele é exaltado. Embora o Senhor Jesus estivesse agora no banco dos réus de um tribunal humano, eles em breve o veriam assentado no trono de Deus.

2. “Vindo sobre as nuvens do céu”; isto se refere a uma outra profecia com relação ao Filho do Homem (Daniel 7.13,14) que é aplicada a Cristo (Lucas 1.33), quando Ele vem para destruir Jerusalém. Tão terrível foi o juízo, e tão claras as indicações da ira do Cordeiro no juízo, que essa passagem se torna uma aparição visível de Cristo; mas, sem dúvida, essa é uma referência ao juízo geral. O Senhor recorre a esse dia, e os convoca ao comparecimento naquele dia e lugar para responder pelo que eles estavam fazendo agora. Pouco tempo antes, Ele havia falado sobre esse dia aos seus discípulos, para o conforto deles, e havia ordenado que levantassem as suas cabeças com grande expectativa por esse dia (Lucas 21.27,28). Então o Senhor fala disso aos seus inimigos, para o terror deles; porque não há nada mais confortante para os justos, e nada mais terrível para os ímpios, do que o julgamento do mundo por Cristo no último dia.

V – A sua convicção nesse tribunal: “O sumo sacerdote rasgou as suas vestes”, de acordo com um costume dos judeus, quando ouviam ou viam qualquer coisa feita ou dita que eles considerassem reprovável a Deus (como em Isaias 36.22; 37.1; Atos 14.14). Caifás seria considerado um homem extremamente zeloso da glória de Deus (Venha e veja o seu zelo pelo Senhor dos Exércitos); mas, embora ele demonstrasse ter repulsa pela blasfêmia, ele mesmo era o maior blasfemo; ele então se esqueceu da lei que proíbe o sumo sacerdote de rasgar as suas vestes em qualquer situação. Será que devemos supor que essa era uma situação de exceção?

Observe:

1. O crime do qual o Senhor Jesus foi considerado culpado: blasfêmia. “Blasfemou”; isto é, Ele falou de forma reprovável ao Deus vivo; esta é a noção que temos da blasfêmia. Pelo fato de nós, pelo pecado, termos rejeitado ao Senhor, por essa razão, quando Cristo foi feito pecado por nós, Ele foi condenado como um blasfemo pela verdade que lhes disse.

2. A evidência pela qual eles o acharam culpado: “Para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes, agora, a sua blasfêmia”. Ele reconheceu o fato de que confessou ser o Filho de Deus; e então fizeram disso uma blasfêmia, e o condenaram por sua confissão. O sumo sacerdote triunfa no planejamento do laço que havia lançado. Ele talvez tenha pensado: ”Agora eu acho que consegui apanhá-lo”. Assim aconteceria conosco. Portanto, o Senhor foi julgado pelas palavras que saíram de sua própria boca no tribunal, porque estávamos sujeitos a ser julgados no tribunal de Deus. Não há necessidade de testemunhas contra nós; as nossas próprias consciências estão contra nós, valendo mais do que mil testemunhas.

VI – A sua sentença e condenação (v. 66).

Aqui está:

1. O apelo de Caifás aos juízes do tribunal: “Que vos parece?” Veja a sua hipocrisia e parcialidade, como são desprezíveis; tendo prejulgado a causa, e declarando-o blasfemo, então, Caifás pergunta como se quisesse saber a opinião de seus irmãos. Mas a atitude de esconder a malícia sempre tão astuciosamente sob a túnica da justiça, de uma forma ou de outra, irá se manifestar. Se ele tivesse tratado o caso de forma justa, deveria ter recolhido os votos dos juízes sucessivamente, e pela ordem, começando pelo menor, dando a sua própria opinião por último. Mas Caifás sabia que pela autoridade de sua posição ele poderia influenciar os demais. Portanto, ao declarar o seu julgamento, ele presume que todos eles tenham a mesma opinião. Ele considera o crime de que acusavam a Cristo como “pró-confesso”, ou seja, como um crime confessado; e o juízo, com relação ao tribunal, também como “pró-confesso”, como um juízo acordado.

2. A concordância com ele. Eles disseram: “É réu de morte”; talvez nem todos eles concordassem com tal sentença; é certo que José de Arimatéia, se esteve presente, discordou (Lucas 23.51), assim como Nicodemos. E é provável que outros também tenham discordado. Porém, a maioria apoiou a sentença; mas, talvez, sendo esse um conselho extraordinário, ou, antes, cabal, ninguém havia sido avisado para estar presente, exceto aqueles que sabiam que ele ocorreria, e assim poderia ser votado unanimemente. O julgamento foi: “Ele é réu de morte; pela lei Ele merece morrer”. Embora, naquele momento, eles não tivessem poder para matar qualquer homem, por esse julgamento eles tornavam um homem um criminoso entre o povo, assim a nossa lei antiga descreve um criminoso), e assim o expunha à fúria de um tumulto popular, como foi com Estêvão, ou à aclamação contra ele perante o governador, como ocorreu com Cristo. Assim, o Senhor da vida foi condenado à morte, para que, através dele, já não haja nenhuma condenação contra nós.

VII – Os abusos e os insultos contra o Senhor, depois da sentença, foram aprovados (vv. 67,68): “Então, cuspiram-lhe no rosto”. Devido ao fato de eles não terem poder para matá-lo, e por não poderem ter a certeza de que prevaleceriam fazendo com que o governador fosse o executor, eles fariam todas as crueldades possíveis, agora que o tinham em suas mãos. Os prisioneiros condenados são tomados sob a proteção especial da lei, à qual eles devem fazer a reparação, e por todas as nações civilizadas têm sido tratados de forma humana; este castigo é suficiente. Mas quando aqueles homens aprovaram a sentença contra o nosso Senhor Jesus, Ele foi tratado como se o inferno tivesse sido lançado sobre Ele, como se Ele não só fosse digno de morte, mas como se isso fosse bom demais para Ele, e fosse indigno da compaixão que é demonstrada ao pior dos malfeitores. Assim, “Ele foi feito uma maldição por nós”. Mas quem eram aqueles que foram assim tão bárbaros? Parece que foram as mesmas pessoas que aprovaram a sentença de morte contra Ele. Eles disseram: “Ele é réu de morte”. Então, cuspiram-lhe no rosto. Os sacerdotes começaram, e então não seria surpresa se os criados, que fariam qualquer coisa para se divertir, e para bajular os seus senhores, continuassem a ação. Veja como eles abusaram de Cristo.

1. Eles cuspiram em seu rosto. Assim, a Escritura foi cumprida (Isaias 1.6). O Senhor Jesus não escondeu o seu rosto da vergonha e do cuspe. Jó queixou-se desse insulto, e assim ele estava tipificando a Cristo (Jó 30.10): “E no meu rosto não se privam de cuspir”. Esta é a expressão de maior desprezo e ultraje possível; consideraram-no mais desprezível do que o próprio chão no qual eles cospem. Quando Miriã estava sofrendo de lepra, isto foi considerado uma desgraça para ela, como se o seu pai cuspisse em seu rosto (Números 12.14). Aquele que se recusasse a edificar a casa de seu irmão deveria ser submetido a essa desonra (Deuteronômio 25.9). No entanto, Cristo, quando estava restaurando os declínios da grande família da humanidade, submeteu-se a isso. Aquele rosto que era mais justo que os filhos dos homens, que era branco e rosado, e que os anjos reverenciam, foi, desse modo, abusado de forma imunda pelos mais vis e desprezíveis filhos dos homens. Assim, a confusão foi derramada sobre o seu rosto, para que o nosso rosto não fosse cheio de vergonha e desprezo eternos. Aqueles que agora profanam o seu Nome bendito, abusam de sua Palavra, e odeiam a sua semelhança na vida dos seus santos, o que fazem senão cuspir em seu rosto? Eles fariam ainda pior, se algo pior estivesse ao alcance deles.

2. “E lhe davam murros… e outros o esbofeteavam”. Isto acrescentava dor à vergonha, porque ambos vinham com o pecado. Então a Escritura foi cumprida (Isaias 1.6): “Eu lhes dei as minhas faces para arrancarem a barba”; e Lamentações 3.30: “Ele dá a face ao que o fere; ele está cheio de reprovação, e mesmo assim fica em silêncio” (v. 28); e Miquéias 5.1: “Ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel”; aqui se lê, na margem: “Eles o feriram com a vara”; porque este é o significado de erra­ pisan, e a isso o Senhor se submeteu.

3. Eles o desafiaram a dizer quem o havia agredido, tendo primeiro vendado os seus olhos: “Profetiza-nos, Cristo, quem é o que te bateu?”

(1)  Eles se divertiram com Ele, como os filisteus fizeram com Sansão; é doloroso para aqueles que estão aflitos, que as pessoas se divirtam com eles, mas muito mais doloroso é quando as pessoas se divertem com os sofredores e com a sua aflição. Aqui temos o exemplo da maior depravação e degeneração da natureza humana que poderia existir, para mostrar que havia necessidade de uma religião que recuperasse os homens, levando-os a um estado de humanidade.

(2)  Eles zombaram de seu ofício profético. Eles tinham ouvido alguém lhe chamar de profeta, e que Ele se tornou afamado por fazer revelações maravilhosas; com isso eles o vituperaram, e fingiram fazer um julgamento; como se a onisciência divina devesse se rebaixar à brincadeira mal-intencionada de crianças mal-educadas. Eles colocaram uma afronta semelhante sobre Cristo, brincaram com as Escrituras e as profanaram, e se divertiram com as coisas santas; agiram como nas festas de Belsazar, em que os vasos do Templo foram profanados.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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